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SAMIZDAT

SAMIZDAT www.revistasamizdat.com 35 ficina O Criador de Gorilas O realismo cruel de Roberto Arlt
www.revistasamizdat.com
www.revistasamizdat.com

35

ficinaO Criador de

O Criador de

Gorilas

O realismo cruel de

Roberto Arlt

SAMIZDAT 35

janeiro de 2013

Edição, Capa e Diagramação Henry Alfred Bugalho

Editor de poesia Volmar Camargo Junior

Autores Anna Apolinário Cinthia Kriemler Cláudio B. Carlos Edweine Loureiro Erik K. Weber Fabio Guimarães Bensoussan Fábio Wanderson de Sousa Fernando Domith Helena Barbagelata Henry Alfred Bugalho Homero Gomes Japone Arijuane Joaquim Bispo Karline da Costa Batista Luís Felipe Sprotte Maria de Fátima Santos Mariana Collares Otávio Martins Rodrigo Domit Silvana Michele Ramos Tatiana Alves Volmar Camargo Júnior Zulmar Lopes

Textos de:

Joseph Devlin

Raul Brandão

Roberto Arlt

www.revistasamizdat.com ISSN 2281-0668

Editorial

Completamos cinco anos de atividades da Revista SAMIZDAT. Neste período, foram publicadas aproxima- damente 1500 obras, de mais de 200 autores, para mais de 200 mil leitores.

À primeira vista, podem parecer números impres-

sionantes, mas é pouco, muito pouco, para uma revista digital gratuita, que apresenta o que há de melhor de uma novíssima geração de autores em língua portuguesa. Best-sellers enlatados estrangeiros vendem muito mais do que isto de uma só tacada, para serem esquecidos no ano seguinte.

Onde estão os leitores? Eu me pergunto. Onde está você, este incrível leitor que insuflará vida às nossas his- tórias, que justificará os nossos versos, que mergulhará em nossa angústia criativa?

O nosso trabalho silencioso e paciente na SAMIZDAT

é para encontrá-lo e conquistá-lo, e também para torná-

lo nosso parceiro, passando adiante a nossa mensagem, exatamente como ocorria com as publicações clandesti- nas da URSS – conhecidas como samizdat.

Pois não se engane com a nossa aparente mansidão. Esta revista é uma guerrilha literária, com escaramuças em cada mente, em cada lar, em cada esquina. Batemo-nos contra inimigos invisíveis e impalpáveis:

a indiferença, a rejeição, o medo do fracasso, a solidão

do labor literário e, de certa maneira, também o peso do sucesso.

As nossas poucas conquistas não nos bastam. An- siamos por mais. Lutaremos por mais. Prosseguiremos, apesar de obstáculos que, por vezes, nos parecem do tamanho do mundo. SAMIZDAT – passe adiante!

Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.

Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons.

Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Com- mons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copyright dos EUA (§107-112).

As ideias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores da revista.

Sumário

Sumário Por quE Samizdat? 8   Henry Alfred Bugalho rEComENdaÇÕES dE LEitura os Vestígios do dia
Sumário Por quE Samizdat? 8   Henry Alfred Bugalho rEComENdaÇÕES dE LEitura os Vestígios do dia
Sumário Por quE Samizdat? 8   Henry Alfred Bugalho rEComENdaÇÕES dE LEitura os Vestígios do dia

Por quE Samizdat?

8

 

Henry Alfred Bugalho

rEComENdaÇÕES dE LEitura os Vestígios do dia

10

 

Edweine Loureiro

autor Em LÍNGua PortuGuESa

a

Herança

12

Raul Brandão

CoNto

 

os números de Lucas

16

 

Joaquim Bispo

anandaiê

 

19

 

Cláudio B. Carlos

o doutor Adevogado

 

20

 

Henry Alfred Bugalho

a Sala Branca

 

23

 

Erik K. Weber

tem Pagode no Kibbutz?

24

 

Edweine Loureiro

um Baixo ruído ao Longe

26

 

Fernando Domith

a

arca

28

Fabio Guimarães Bensoussan

aspirações

 

30

Rodrigo Domit

Há tanto Carro em Budapeste Hoje em dia 32

Luís Felipe Sprotte

terá Sido

36

Maria de Fátima Santos

o Cemitério e o Sanfoneiro   40 Fábio W. Sousa da utilidade dos Crachás  
o Cemitério e o Sanfoneiro   40 Fábio W. Sousa da utilidade dos Crachás  
o Cemitério e o Sanfoneiro   40 Fábio W. Sousa da utilidade dos Crachás  

o

Cemitério e o Sanfoneiro

 

40

Fábio W. Sousa

da utilidade dos Crachás

 

42

 

Zulmar Lopes

trabalhando com o Batedor de Carne

44

 

Silvana Michele Ramos

 

aquilo

 

46

 

Homero Gomes

o

transportador

50

 

Cinthia Kriemler

um Pierrô apaixonado

 

54

 

Otávio Martins

traduÇÃo

 

a

Feitoria de Farhaj Bill alí

 

58

 

Roberto Arlt

E

que os Eunucos Bufem

 

64

Roberto Arlt

diálogo de Leiteria

 

66

 

Roberto Arlt

Para Falar e Escrever Bem

 

70

 

Joseph Devlin, M.A.

 

artiGo

 

o

Papel das revistas Literárias para a

 

descoberta de Novos autores

76

 

Henry Alfred Bugalho

 

as mulheres de amado

 

86

 

Karline da Costa Batista

 

CrÔNiCa

 

todos dizem eu te amo

 

88

 

Mariana Collares

maxaquenina

 

90

Japone Arijuane

PoESia

a autocomimimiseração das pragas urbanas

92

Volmar Camargo Junior

a

Constelação de Leão

93

 

Volmar Camargo Junior

E

agora, José?

94

Tatiana Alves

Palavra de Pandora

95

 

Anna Apolinário

mater mare

96

Helena Barbagelata

Anna Apolinário mater mare 96 Helena Barbagelata Siga-nos no Facebook e twitter e acompanhe as novidades

Siga-nos no Facebook e twitter e acompanhe as novidades da revista Samizdat

     
   

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O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

6 SAMIZDAT janeiro de 2013

ficina www.oficinaeditora.com

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www.oficinaeditora.com

Participe da Revista SAMIZDAT 36 A Revista SAMIZDAT conta com a sua participação para manter
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36
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A Revista SAMIZDAT conta com a sua

participação para manter o alto padrão das publicações.

Aceitamos e estimulamos a participação de autores estreantes, pois o nosso objetivo é apresentar a maior diversidade possível de autores, gêneros e textos.

instruções para envio de obras

1 - Cada escritor poderá inscrever, nos

respectivos campos, somente 1 (um) tex- to literário para publicação, de qualquer

gênero - conto, crônica, poesia, microconto

- ou um (1) texto teórico, como artigo de

teoria literária, resenha de livros, ou entre- vista, além de traduções de textos literários em domínio público, sob licença Creative Commons ou com a expressa autorização do autor. A temática é livre.

O autor também deve enviar uma breve

biografia na primeira página do arquivo.

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literário é de mil (1000) palavras, ou 4 páginas em A4, fonte Times ou Arial 12, espaçamento 1,5. O envio dos textos não implica na aceitação automática, a seleção dependerá da quantidade de textos envia- dos, da qualidade literária e da disponibi- lidade de espaço na revista. A revisão dos textos é de responsabilidade de seus auto- res. O texto não precisa ser inédito.

3 - Os textos devem ser enviados até o

dia 31 de março de 2013 através do nosso

gerenciador de submissões (link abaixo) em um arquivo anexo, em formato .DOC, .DOCX ou .TXT.

Por favor, aguarde o período de um mês após receber a resposta antes de enviar um outro texto.

Não aceitamos mais textos enviados por e-mail.

4 - Os textos selecionados serão publica-

dos na edição 36 da Revista SAMIZDAT na segunda quinzena de abril de 2013, no site

www.revistasamizdat.com

ou poderão aparecer no site, caso a edição em .PDF já esteja fechada.

5 - Os textos serão publicados sob

licença Creative Commons Atribuição-Uso

Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas e o autor não será remunerado.

O envio de textos implica na aceitação por

parte do autor destes termos.

6 - Os organizadores da SAMIZDAT se

reservam o direito de não publicar a revis-

ta, caso o número de submissões não seja

o suficiente para o fechamento da edição.

7 - O não cumprimento dos itens acima poderá implicar na desqualificação da obra enviada.

Contamos com a sua participação!

Atenciosamente,

Henry Alfred Bugalho

Editor

Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky
Henry Alfred Bugalho
inclusão e Exclusão
henrybugalho@hotmail.com
logo se converte em uma di-
tadura como qualquer outra.
É a microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de
inclusão e exclusão.
O
grupo dominante, pela
própria natureza restritiva
do poder, costuma excluir
ou ignorar tudo aquilo que
não pertença a seu projeto,
ou que esteja contra seus
princípios.
Em reação, aqueles que
se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
riam, ou não conseguiam,
fazer parte da máquina
administrativa – que esti-
pulava como deveria ser a
cultura, a informação, a voz
do povo –, encontraram na
autopublicação clandestina
um meio de expressão.
Em regimes autoritários,
esta exclusão é muito eviden-
te, sob forma de perseguição,
censura, exílio. Qualquer um
que se interponha no cami-
nho dos dirigentes é afastado
Datilografando, mimeo-
grafando, ou simplesmente
manuscrevendo, tais autores
russos disseminavam suas
ideias. E ao leitor era incum-
e
ostracizado.
As razões disto são muito
bida a tarefa de continuar
esta cadeia, reproduzindo tais
obras e também as passando
simples de se compreender:
o
diferente, o dissidente é
perigoso, pois apresenta
alternativas, às vezes, muito
melhores do que o estabe-
lecido. Por isto, é necessário
suprimir, esconder, banir.
adiante. Este processo foi
designado "samizdat", que
nada mais significa em russo
do que "autopublicado", em
oposição às publicações ofi-
ciais do regime soviético.
A
União Soviética não
foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo de um samizdat. Corte-
sia do Gulag Museum em Perm-36.

E por que Samizdat?

A indústria cultural – e o

mercado literário faz par- te dela – também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor de mercado. Inex- plicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maio- res do que o lucro.

A indústria deseja o pro-

duto pronto e com consumi- dores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mes- mo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.

E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público.

Este é um processo soli- tário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes apa- ratos midiáticos – como TV,

revistas, jornais – onde ele possa divulgar seu trabalho.

O

único aspecto que conta é

o

prazer que a obra causa no

leitor.

Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua pala- vra, é o responsável pelo que

diz, o culpado por seus erros,

é quem recebe os louros por seus acertos.

E, com a internet, os au-

tores possuem acesso direto

e imediato a seus leitores. A

repercussão do que escre- vem (quando há) surge em questão de minutos.

A serem obrigados a

burlar a indústria cultural,

os autores conquistaram algo

que jamais conseguiriam de

outro modo, o contato qua-

se

pessoal com os leitores,

o

diálogo capaz de tornar a

obra melhor, a rede de conta-

tos que, se não é tão influen-

te quanto a da grande mídia,

faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há

grandes tiragens que subs- tituam o prazer de ouvir o

respaldo de leitores sinceros,

que não estão atrás de gran- des autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos.

Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pós-

modernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a

orientação dum grupo. São apenas escritores interessados

em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim

a heterogeneidade.

Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de auto- publicação, mas “Samizdat” porque também é um modo

de contornar um processo

de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica gratuita, escrita, editada e publicada pela novíssima geração de autores lusófonos. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais. www.revist asamizdat.com www.revistasamizdat .com 99

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recomendação de Leitura

Edweine Loureiro
Edweine Loureiro

oS VEStÍG

ioS do dia

O autor anglo-nipônico Kazuo

Ishiguro é sinônimo de elegância e sutileza. Ponto parágrafo.

Decidi começar esta resenha com uma assertiva, pois não vejo melhor forma de pagar tributo ao magistral romance de Ishiguro – Os Vestígios do Dia –; vencedor do prestigiado Man Booker Prize, em 1989, e adap- tado para o cinema em 1993; tendo Anthony Hopkins no papel do conti- do mordomo Stevens.

A obra tem início com Stevens

pedindo autorização ao patrão, um novo-rico americano, para ausentar-se por alguns dias, a fim de visitar uma

amiga – a senhora Kenton –, com a qual trabalhou, por muitos anos, na mansão, outrora pertencente a um nobre inglês: Lord Darlington.

Mais que autorizar a saída de Stevens, seu novo patrão decide ain- da emprestar-lhe o Ford, que permite àquele apreciar, durante o percur- so, lindas paisagens inglesas – des- critas sem grandes arrebatamentos pelo autor, num primeiro sinal da elegância e sutileza a que me referi no início do texto. Durante a via- gem, Stevens vai rememorando os tempos em que trabalhou para Lord Darlington, figura influente na políti- ca europeia do período entreguerras, e a quem o mordomo atribuía gran- des propósitos – quando, na verdade,

o nobre tinha ligações com o Na- zismo. Memórias estas que também apresentam uma outra personagem marcante para Stevens: a senhora Kenton, a governanta.

O roteiro para o cinema, adaptado magistralmente pela escritora india- na Ruth Prawer Jhabvala, optou por enfocar na relação entre Stevens e a senhora Kenton. E fez bem. Os diá- logos travados e as situações criadas entre estas personagens são de uma sutileza e uma tensão sexual que, pe- las mãos de um escritor menos talen- toso, careceriam deste poder sugestivo que tanto fascina o leitor. E, aqui, uma passagem merece destaque: em um momento de repouso, Stevens lê um romance, quando a senhora Kenton – chegando para entregar-lhe algumas flores, a fim de enfeitar o quarto ao qual ela descreve “demasiadamente sóbrio” – tenta, curiosa, ver o título do livro. Stevens, por sua vez, resiste em mostrar-lho, ocultando a capa e pedindo à colega que “não invada sua privacidade”. Mas, na verdade, aos poucos, ele vai cedendo à curiosidade da governanta, revelando gradativa- mente a capa do livro – num sutil convite para que ela conheça seus segredos.

Elegância e sutileza… este é Kazuo Ishiguro.

Ponto final.

Edweine Loureiro

Nasceu em Manaus em 20/09/1975. É advogado, professor de Literatura e Idiomas,

e reside no Japão desde 2001. Em 2005, obteve o Mestrado em Política Internacional

pela Universidade de Osaka (Japão). Premiado em diversos concursos literários, é autor dos livros: Sonhador Sim Senhor! (2000), Clandestinos [e outras crônicas] (2011)

e Em Curto Espaço (2012). É membro-correspondente da Academia Cabista de Letras,

Artes e Ciências (RJ) e colunista das revistas literárias Samizdat e Benfazeja.

http://www.flickr.com/photos/eseartista/1471191033/

autor em Língua Portuguesa

a Herança

Raul Brandão
Raul Brandão

Ao senhor Pinheiro Chagas

Viviam mal. Pouco e pouco, porém, aque-

la herança para vir dera-lhes importância.

Bebiam boa pinga que ela ia buscar numa caneca á tenda, muito lambareira, debaixo do avental azul; tratavam-se bem; iam-se endividando – e toda a gente lhes fiava

com a mira no ganho, mais tarde, quando a herança viesse. Aquilo era certo para eles.

O velho esticava o pernil – e a quinta, os

vinhais, as terras férteis, onde a água das presas corria, era deles, só deles!

Às vezes passavam pela quinta, dando uma volta grande, cheios de satisfação pe- rante a boa qualidade das ameixieiras, das hortaliças, dos parreirais sem fim. Ficavam espreitando satisfeitos – e à noite, nesses dias sobretudo, era uma palestra infindável

– Quem rebenta de inveja é a Felícia,

meu homem, dizia a Ana mostrando os dentes.

Era alta, grande, o olhar negro cheio de maldade

Por isso, quando se decidiu o casamento foi para eles uma afronta tão grande, tão grande, que a raiva rebentou-lhes aos bor- botões, em injúrias. Como os olhos da Ana luziam cheios de maldade!

– O coirão! o coirão!

Uma vizinha passou:

– Então sempre era verdade?

«Havia de ver-se ainda! O que o bandalho da outra queria era roubá-los? E o velho? O malandro do velho! »

E mais a irritavam as perguntas. Pareceu-

lhe ter visto a Felícia que passava triunfante, rindo escarnica – e ela correu, veio à so- leira, clamando que ainda um dia havia de tirar as orelhas a uma borracha que ela lá sabia… E a outra passou, passou sorrindo-

se

de maldade, como teria vontade de as es- ganar a todas, de as trincar aos bocadinhos – assim!

Oh como o olhar lhe luzia, a ela, cheio

E berrou, berrou com o homem.

– Cala-te, mulher!

– Hei de falar!

Se eu tivesse outro ho-

mem ninguém me desprezava!

assim!

Não ficava

– Cala-te mulher! cala-te mulher!

– Hei de falar! hei de falar!

Ele ergueu-se de repente, os olhos raiados de vermelho.

Ó meu bandalho!

E

bateu-lhe, deram um no outro, conten-

tes talvez por descarregarem a raiva que os

enchia, medonhos, espumantes – até que ela caiu esperneando, impotente e terrível

Hei de falar!

E

rangiam-lhe os dentes.

O velho casal afinal. A criada, gorducha, cheia de risadas e saudável, não queria – mas de longe veio a mãe, parentes com a mira naquelas riquezas, aconselhando-a ao casamento, pensando depois em a roubarem

a ela. Eram conselhos, segredos pelos cantos, ralhos

– Ora já viram uma estúpida assim!

Ela afinal decidiu-se – e casou.

Começou então para os dois uma vida

terrível. Caíram-lhe em cima – o da tenda,

o das cavacas, querendo o seu dinheiro –

ladrões – que trabalhassem, quem não tinha de seu não fazia dívidas

E exasperava-os aquilo, a ela principal-

mente, a quem as risadas da Felícia en- raiveciam – e ele então dava-lha com um pau todas as noites, porque ela açulava-o, gostando de se ver batida, medonha.

Como uma loba faminta e errante ron- dou então o quintal do velho. Na noite luziam como carvões os seus olhos cheios de maldade – e eram sempre assaltadas aos

parreirais que cortaram rentes, aos reben-

tões das fruteiras

te que a ferocidade crescia, inexorável, mais alta, os olhos negros luzindo; era ela que

o instigava àquela ronda de noite, trágica

E era nela, principalmen-

quase, em volta da quinta, espiando com precauções infinitas, escolhendo o momento azado em que cairiam em cima das plantas tranquilas

E tinham depois uma alegria em casa,

risadas de raiva satisfeita, satisfações de

criminosos impunes.

– Ó meu homem!

– Era a ela! a ela! fazia-lhe assim!

Mas as queixas vieram. Cavadores fi- cavam de vela, alta noite, guardando com velhas clavinas de pederneira – e a raiva cresceu, avigorou-se neles mais intensa ainda, ao verem-se impotentes contra aquela que odiavam – o bandalho! – sem poderem exercer a ferocidade que os enchia, guarda- da a quinta – a sua quinta!

E vieram novamente as recriminações

que caíam como chuva sobre o seu homem que a não vingava – até que ele impaciente lhe batia, medonho, e ela caía babugenta, espumando indomável, com rasgões nas saias

Desciam então já do norte ranchadas alegres de ceifeiras, e nos tonéis fervia uma torrente de vinho novo, vermelho de sangue,

espumante…

Uma tarde passaram pela quinta. En- tardecia. O sol morria no ocidente numa

poeira de oiro e lentamente descia sobre

a paisagem uma serenidade grande

crianças saíam da escola aos ranchos, o sa- quitel à banda, num rompante de novilhos soltos. Rasgões nas calças, ferozes, saudá-

veis, duma bela cor de bronze, assaltavam as fruteiras como ladrões, iam ao banho para

a água azul da lagoa

De repente, dentro, na quinta, viram o ve- lho e a criada, casados já. Ela abanava uma

ameixieira, rindo, cheia de alegria, vermelha do esforço – e aquilo foi para eles outro insulto, mais grande ainda. Ficaram esprei- tando. Ele dizia que à noite iria lá abaixo aos Siais – e ela, trincando uma ameixa caranguejeira, ria ainda, bela, borracha de

felicidade e saudável

bem fundo nos olhos, sem uma palavra – e partiram então rapidamente, ela na frente,

As

Olharam-se os dois

ele atrás, ambos pensando num crime, torturados por aquela ideia que há muito nascera neles, sem nunca a comunicarem

Ah, dizer que nunca mais, nunca mais

aquela quinta, as ameixieiras, os parreirais de uma verdura metálica que os cachos de uva unida e grande enchiam, que nunca mais seria deles! Tudo, tudo para ela, para

a outra! Que é que ela lhe tinha feito, ao

velho? Eles tinham-no aturado, enchido de

cuidados, cheios de precauções, humildes,

humildes, rasteiros como cães eles não eram bestas de carga

lho do velho! o coirão!

a quinta

quinta à cadela da outra! Ou para eles ou

para ninguém! Ah querias aquelas riquezas, tinhas acedido ao casamento para os rou-

Tinham espreitado

bares a eles

tantas noites, tantas – ela principalmente pela terra de rojos com meneios de fera, transbordando raiva, mais danada ainda ao conhecer a sua impotência, sentindo dia

a dia a ferocidade crescer nela, um ódio terrível que a matava

Ah é que O banda-

Era deles, só deles

Haviam de se vingar, de tirar a

Querias?

Era negra a noite, duma negrura de tinta. Ali as carvalheiras cobriam o carreiro e a mina ficava numa cova funda – um buraco escancarado, aberto como uma boca de fera. Ouviram passos e ele tremeu. Mas nela

cresceu, cresceu a raiva, satisfeita, os olhos

negros luzindo vermelho

Era ele! era ele!

– O bandalho!

Respirou amplamente – e teve uma risa- dinha fria, fria, cortante, que encheu sinis- tramente na mina. Ele, a navalha aberta na mão, agarrou-a terrível, cheio de medo:

– Chiu!

E teve vontade de a matar também. E ela contente, cheia duma alegria sem fim, misturada de raiva, repetia:

– Ó bandalho! ó bandalho!

Ouviram-se as passadas mais fundas, soando entre as muralhas que a terra fazia. O velho teve quase uma indecisão ao entrar na cova. Lembrou-se da ferocidade dos dois;

pressentiu talvez que o espreitavam, pron- tos a assassiná-lo – mas logo, mais depressa, com vontade de passar num instante aquele pedaço tão negro, andou, andou

Então o outro saiu de repente da mina, a navalha aberta luzindo – e ele vendo de relance, rapidamente, adivinhando tudo, encolheu-se, um frio na barriga, cheio de terror, murmurando piedosamente:

Não me matem! não me matem!

E

caiu

raul Germano Brandão

(Porto, 1867 – Lisboa, 1930) é um escri- tor português famoso pelo realismo das descrições e pelo lirismo da linguagem, numa muito sentida observação da reali- dade e da condição humana. Filho e neto de homens do mar, teve nestes, e nas suas vidas duras e trágicas, um dos seus temas recorrentes, que alargou a outras cama- das de humildes e humilhados, numa revalorização comovida da paisagem humana portuguesa, naquilo que tem de mais autêntico e pitoresco. Publicou contos, romances, livros de viagens, peças de teatro, memórias e es- tudos históricos. A sua obra inicia-se em 1890 com os contos naturalistas de “Im-

pressões e Paisagens”, de onde foi retirado

o presente conto, o qual foi escolhido não

só por convir às limitações de espaço da revista, mas também por anunciar já os dramas mais sórdidos, de grotesca dimensão larvar, das gentes comuns, mas perpassados por sofrimento, angústia, mistério, morte e também ironia, caracte-

rísticos das suas obras mais emblemáticas

– a trilogia “A Farsa” (1903), “Os Pobres”

(1906), e “Húmus” (1917). Acompanhou de perto os manifestos simbolistas das revistas “Boémia Nova” e “Os Insubmissos”, e conviveu com os jo- vens escritores António de Oliveira, An- tónio Nobre e Justino de Montalvão com quem, em 1892, subscreveu o manifesto

Foi quando ela saiu da mina, trágica, grande no seu ódio, esvoaçando-lhe a saia na noite como uma ave de rapina agoirenta e medonha:

Ó bandalho! – rugiu.

E

abateu-se sobre ele, numa sofreguidão,

batendo-lhe com um calhau, às trincade- las, numa raiva bestial que nem o sangue acalmava

(1890)

“Nefelibatas”, de cariz decadentista. É considerado o mais importante prosador do simbolismo português e o grande modernista que, a par de Fernan- do Pessoa, mais influiu na evolução da literatura portuguesa do século XX. A sua prosa, ainda que marcada pela referência simbolista, já tem sido considerada simul- taneamente como precursora do existen- cialismo, de certos aspetos do neorrealis- mo e até do surrealismo. Foi figura tutelar do grupo da “Seara Nova” e do grupo da Biblioteca Nacional (Jaime Cortesão, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis). Na última fase literária, Raul Brandão, evoluindo para uma vida interior serena, equilibrada, graças ao aplacamento da revolta e à consciência de que é preciso aceitar o inexorável das coisas, escreve “Pescadores” (1923), “As Ilhas Desconhe- cidas” (1927) e “Memórias” (3 vols., 1919, 1925, 1933).

(texto por Joaquim Bispo)

Fontes principais:

Infopédia: http://www.infopedia. pt/$raul-brandao Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. III, Lisboa, 1994. Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa, Editora Cultrix, São Paulo.

http://www.flickr.com/photos/nemomemini/4353356112/

Conto

Joaquim Bispo os números de Lucas
Joaquim Bispo
os números de
Lucas

Quando Édouard Lucas, no século XIX, elaborou a sequência numérica que é conhe- cida como “Os números de Lucas”, poderia ter imaginado também o seguinte episódio, porque não lhe era estranho Fibonacci nem os outros protagonistas que ao longo dos séculos estudaram as relações numéricas e o inexplicável eflúvio de beleza que algu- mas emanam, sobretudo a chamada “Divina proporção” ou “Número de ouro”.

***

Florença, ano de 1492. Enquanto Fra Domenico não chegava, Tommaso da Fiesole, acompanhado do seu aprendiz, Filippo, apro- veitava o tempo na contemplação da Trin- dade pintada na parede interior da igreja de

Sta. Maria Novella. Gostava da sua profissão

de arquiteto, que não era fácil, mas admirava

a capacidade dos pintores de transmitirem

para um plano a ilusão das três dimensões,

como Masaccio conseguira neste fresco.

– O Senhor esteja consigo, senhor

Tommaso! – Era o frade no seu hábito preto

e branco. Com ele vinha um noviço.

– Como tendes passado, meu irmão? –

respondeu, com um sorriso de ternura.

Tommaso sentia sempre alguma estranhe-

za quando cumprimentava o seu conterrâneo

e primo por «meu irmão». Tinham sido com-

panheiros de brincadeira, mas cada um se- guira o seu caminho – Domenico ingressara

no convento de S. Marcos de Florença, e ele tinha feito o percurso dos aprendizes de ar- tes mecânicas até atingir o atual estatuto.

– Ouvi dizer que estais a trabalhar para

um sobrinho do senhor Lourenço de Médici.

– Sim, o senhor Ludovico. Saiamos! É mes-

mo por causa desse projeto que pedi para vos falar. Sei que vos tendes interessado pelo estudo das formas e das relações entre as suas dimensões. Eu, na minha profissão, não posso ignorar o valor exato da secção áurea, para a aplicar aos edifícios, ou não fosse essa relação tão agradável aos sentidos. E sei como, há muito tempo, o grande Fibonacci demonstrou a sua génese, de maneira tão compreensível. – Fez uma pausa a avaliar se Domenico queria responder.

– Sim – assentiu o frade –, partindo dos

dois primeiros números, somava-os para obter um terceiro – o 3 – e, para obter o quarto número da sequência, somava os dois anteriores e obtinha o 5. – O frade aprovei- tava para ilustrar o seu pupilo. – E assim sucessivamente. Obtinha uma sequência que começava por 1, 2, 3, 5, 8, 13, etc. Parece uma brincadeira para obter o interesse de meni- nos na aritmética, mas a divisão de um nú- mero pelo anterior dá o valor da secção áu- rea ou divina, em que o valor mais pequeno – 5 pés da secção duma parede, por exemplo –, está para a secção maior – 8 pés –, como esta está para a largura total da parede.

O grupo afastava-se do bulício que envol- via a igreja e dirigia-se para o Duomo, atra- vés das ruas estreitas bordejadas de vendas, tabernas e oficinas de artífices.

– Ora, essa sequência levanta-me um

problema – continuou Tommaso. – Tenho uma igreja para projetar para o meu senhor. As dimensões relativas das fachadas estão decididas. Mas os tamanhos não são tudo. Os elementos que as integram, pela sua forte individualidade, ganham uma força que é preciso ponderar. A fachada lateral, por exemplo, vai ter uma série de arcos mo- numentais a mascarar a parede da nave. A

linha horizontal, que os capitéis das colunas geram, divide a fachada de tal modo que

a distância do chão ao topo dos capitéis é

exatamente 1,618 vezes maior que do topo dos capitéis à linha do telhado. Está, portanto, de acordo com a secção de ouro: a distância mais estreita está para a mais larga, como esta está para o total, do chão ao telhado. – Parou novamente, desta vez para respirar.

Havia alguma tensão na cidade, porque Lourenço, o magnífico, o patriarca da família mais poderosa de Florença, estava doente e Savonarola, o prior de S. Marcos, não cessava de clamar contra o luxo e o paganismo da sua corte.

– Então, o que vos preocupa? – perguntou

o frade.

– O número de arcos que devo projetar.

A relação dourada é obtida com números inteiros. Se ponho oito arcos no lado, deveria pôr cinco portas na fachada principal, o que

é muito. Para pôr três portas, deveria pôr só cinco arcos, para respeitar a sequência de Fibonacci, mas ficariam demasiado largos. – Agora o sobrolho de Tommaso mostrava-se carregado de preocupação.

– Ponde sete arcos no lado.

Tommaso parou e olhou diretamente para Fra Domenico, tentando descortinar algum sorriso. Mas o rosto do frade estava compenetrado.

– Mas 7 não faz parte da sequência!

– Não faz da de Fibonacci, mas faz da do

Senhor. Há milhares de sequências. Quais- quer dois números a que aplicardes essa regra da soma sucessiva, dá sempre o mesmo valor de 1,618, a partir, aí, da décima soma. Todas apontam para esse número sagrado, mas a sequência 1, 3, 4, 7, 11, etc. faz parte das Escrituras. Há 1 só Deus, em 3 pessoas distintas, a cruz tem 4 braços, as virtudes são 7, os apóstolos fiéis são 11.

– Meu irmão, a sequência 1, 2, 3, 5, 8, 13,

etc. está em toda a parte: no crescimento das plantas e dos animais, no corpo humano.

Sabeis que a relação entre a falange e a falanginha é dourada, assim como a relação entre esta e a falangeta?

– Sim, sei, Deus fala por muitas vias.

Passavam agora por S. Lourenço, a igreja da família Médici. O templo estava cheio e cá fora havia uma pequena multidão a con- versar em grupos. O governante estava muito mal, dizia-se.

– Há muito tempo que os Homens se

aperceberam dessa relação, sob a qual as formas transmitem um aspeto completo, perfeito – prosseguiu Tommaso. – Pitágoras descobriu-a no seu pentagrama, Vitrúvio aplicou-a aos edifícios dos Romanos, Leonar- do encontrou-a no corpo humano. O nosso Piero della Francesca é exímio a aplicá-la nas suas pinturas. Por isso, elas nos parecem tão perfeitamente equilibradas. Conhece- riam estes homens a sequência desses vossos números?

– Meus, não! Mas estou certo que um dia alguém lhes dará o nome de um sábio.

– Custa-me muito aceitar que possa ser

perfeita uma sequência que não tem o 2, o número do casal, a base da sociedade dos

Homens.

– Pode ter, se quiserdes. Tem o seu lugar

de direito, mesmo na origem, antes do 1.

Tommaso olhou para cima, pensativo. Via- se que ficara impressionado.

– Antes do 1?! Sabeis o que pensa o vosso prior sobre estes assuntos?

– A crítica dele não atinge especificamente

Joaquim Bispo

questões estéticas, mas não vê com bons olhos a aproximação cada vez maior que a corte e os artistas, que para ela trabalham, vão fazendo aos textos pagãos dos antigos e à sua licenciosidade.

– Dizei-me, então, Fra Domenico, sete

arcos na lateral era uma boa solução, mas como ficaria a frontaria? Não pode ficar com quatro portas, precisa de uma central.

– Como bem dissestes, a individualida-

de dos elementos é um fator muito forte de visibilidade. Mantende a simetria das três portas, mas fazei sobressair elementos que as enquadrem, colunas volumosas, por exemplo. Reparai que seriam quatro colunas – o 4 de que precisais.

– Interessante, irmão Domenico! – Parou,

pensativo. Os seus olhos baixos moviam-se à esquerda e à direita. – Tenho que alterar o projeto. Acho que já sei como vou fazer.

Estavam a chegar a Santa Maria dei Fiore. Já se ouvia a vozearia habitual. De repente, da esquerda, do palácio Médici, elevaram-se gritos, vários, intensos, angustiados:

– Morreu o senhor Lourenço! Morreu o

senhor Lourenço! Deus tenha piedade de nós!

O grupo de Tommaso da Fiesole olhou-se inquieto. Depois, despediram-se rapidamente:

– Adeus, meu irmão. O vosso conselho

é precioso; mas não sei se poderá ser con- cretizado, com os tempos que se avizinham. Temo que o filho de Lourenço não consiga resistir a Savonarola.

– Aqui para nós, senhor Tommaso, até eu! Que Deus vos acompanhe!

Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experi- menta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da re- vista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.

Contacto: episcopum@hotmail.com

Conto Cláudio B. Carlos ANANDAIÊ Havia um bolo sobre a mesa. Redondo e pequeno. Eles
Conto
Cláudio B. Carlos
ANANDAIÊ
Havia um bolo sobre a mesa.
Redondo e pequeno. Eles can-
taram parabéns e eu soprei as
velinhas. Mamãe cortou o bolo.
A primeira fatia pra mim, a
segunda pro papai e a terceira
e
última pra ela. Papai comeu
de pé, escorado na parede de
madeira, ao lado da cristaleira,
e
bebeu cerveja. Mamãe co-
meu à mesa comigo e tomamos
pro quarto e trancaram a
porta. Acho que sentiam dor.
Gemiam. A dor devia ser muito
forte. Se contorciam na cama.
Dava pra escutar o ranger das
molas do colchão. Eu fiquei
sentada olhando pro bolo com
as mãos como que em oração,
postas no regaço do vestidinho
florido. Havia cinco velinhas no
bolo. Era março de 1977.
guaraná. Depois eles foram
Cláudio B. Carlos
É poeta da nulidade e filósofo do nada. Nasceu em 22 de janeiro de 1971, em São
Sepé, RS. Tem diversos livros publicados. Coordena o Grupo de Escritores O Bodoque.
Vive em Belo Horizonte, MG. É editor do site Dona Zica tá braba.
http://www.flickr.com/photos/molliesu/3426032825/
Conto o doutor adevogado Henry Alfred Bugalho O doutor apareceu pela primeira vez em casa
Conto
o doutor adevogado
Henry Alfred Bugalho
O doutor apareceu pela primeira
vez em casa numa noite de sábado,
entrou, acomodou-se na sala e acen-
deu um cigarro. De terno, gravata e
gel melequento no cabelo, e, de quando
em quando, cofiava o bigodinho a la
Clark Gable.
Ao escutar o ruído da gaveta da
penteadeira se fechando, corri para
minha cama e me cobri, fingindo que
dormia. Mamãe veio, beijou a minha
testa e me desejou boa-noite.
— Vou sair para dançar, mas não
volto tarde.
Minha mãe, cheia de sorrisos, desa-
pareceu no quarto para os preparati-
vos finais, enquanto eu o espiava des-
de a penumbra do corredor.
Muitos homens haviam passado por
aquele sofá nos últimos meses, muitos
mesmo. Minha mãe parecia desespe-
rada em encontrar um substituto para
meu pai, e errava de senhor em se-
nhor, crente que algum deles aceitaria
uma viúva com um pirralho na barra
da saia, e nos levaria para morar em
algum casarão ou numa cobertura de
luxo.
Uma lagrimazinha escorreu, mas ela
não deve tê-la visto. Eu me sentia tão
fragilizado sozinho naquele aparta-
mento. Bastava que ela saísse, trancan-
do a porta atrás de si, que era como se
todas as proteções ruíssem e eu hou-
vesse sido lançado para a morte certa.
A noite era silenciosa e assustadora.
Cada estalo nos móveis, cada ranger
de porta, cada goteira, cada assovio do
vento ou miados de gatos nos telhados
vários eram perigos mil. Agora todos
os bandidos, psicopatas e assassinos
à solta pelo mundo farejariam o meu
medo e viriam me pegar. Eu estava só
http://www.flickr.com/photos/ferran-jorda/3497520295/

e desprotegido, simplesmente porque

a minha mãe baixota e magrela não estava por perto.

Ela também deveria se sentir de- samparada e justamente por isto que ansiava tanto por um novo marido. Um macho para controlar o lar. Um braço para proteger-nos tanto a ela quanto a mim.

Nada aconteceu, nenhum criminoso perigoso veio. Dormi, para despertar apenas com o barulho do trinco e do toc-toc do salto alto de mamãe nos tacos da sala.

Pela porta entreaberta do meu quar-

to, chegou até mim o odor de perfume

e cigarro, e os passos descompassados

denunciavam que ela deveria estar bêbada. Quis me levantar, mas tive medo. Mamãe ficava imprevisível quando bebia, e podia sobrar para mim, que nada havia feito de errado.

Demorei muito para voltar a dor- mir, escutando-a tomando banho e depois se jogando na cama. Tive mui- ta pena dela, desejei que papai não houvesse morrido tão novo. Odiei a morte, tão cruel e injusta!

Naquela noite, tive certeza que não veria mais aquele sujeito de terno, gra- vata, gel e bigodinho ridículo, mas, no domingo seguinte, assim que saímos da missa, minha mãe se agachou e, mirando-me com ansiedade, disse:

— Vamos almoçar com um amigo meu. Quero que você se comporte. Jura pra mim?

Com o polegar, fiz o sinal da cruz sobre os lábios, e o doutor logo surgiu com um carrão, daqueles de magnatas. No banco de trás, eu brincava com o vidro elétrico, a primeira vez que via algo assim na vida.

— Não mexa, senão vai estragar!

— minha mãe gritou, mas o senhor

interveio:

— Deixe o menino problema.

Mas preferi obedecer minha mãe, a autoridade máxima, pois havia jurado que me comportaria.

Já no restaurante, fomos servidos e comemos em silêncio.

Não tem

— O doutor Orlando é adevogado

— disse minha mãe com toda a pom-

pa, adicionando uma vogal como ela

sempre fazia quando queria ressaltar

a importância de algo: papai havia

sido o pissicólogo e minha tia era uma adiministradora.

— E você protege os bandidos? —

perguntei, lembrando-me de um fil- me de tribunal que havia assistido na noite anterior.

— Não — riu o doutor Armando —

a minha área é Cível, não Criminal.

— Ah — balbuciei, sem entender

palavra, sendo fulminado pelo olhar repreensivo de minha mãe. Mesmo assim, admirei o doutor, de terno até no domingo, dia santificado de descan- so. Devia ser importante e poderoso, trabalhando até em finais de semana.

Voltei a ver o doutor adevogado em outras ocasiões e ele reapareceu lá em casa, corretíssimo no sofá da sala, cigarro na mão e bebericando uma taça de licor.

— Mãe, você vai casar com o

doutor? — perguntei uma noite.

Ela sorriu com acanhamento, mexendo no cabelo.

— Não sei, querido decidimos.

Ainda não

— Será que papai aprovaria?

— Acho que sim

— ela se engas-

gou, talvez com vontade de chorar — Ninguém nunca será como seu pai, mas a vida segue adiante. Não temos escolha.

— Queria tanto que ele ainda estivesse aqui.

— Eu sei.

Então, o doutor Orlando se tornou uma presença habitual. Dormia com minha mãe e eu podia até escutá-los rindo e gemendo no quarto dela. Tive ciúmes, raiva e desejei que, na manhã seguinte, eu despertasse já adulto, para pegar minhas trouxas e cair no mun- do, sem ter de presenciar estas sem- vergonhices. O que meu pai diria?

Por outro lado, fascinava-me muito o doutor, tão fino e imponente. Che- guei até a sonhar em tornar-me um advogado quando crescesse, de terno, gel, cigarro e bigodinho. E quando isto ocorresse podia até visualizar minha mãe dizendo para os outros, cheia de orgulho de mim:

— Meu filho é um baita adevogado! Dos melhores!

Uma gritaria me despertou certa manhã.

Henry alfred Bugalho

Minha mãe discutia com o doutor Orlando, chamando-o de crápula, pús- tula e cafajeste. Ele retrucou à altura e saiu batendo a porta.

Transtornada, ela entrou em meu quarto e foi direto até o armário, de onde apanhou uma mala e nela lan- çou minhas roupas.

— Que foi, mãe? — cocei os olhos.

— Pegue suas coisas

Já!

Ela também arrumou as bagagens dela e, puxando-me pela mão, levou- me até a rodoviária. Sentada no portão de embarque, ela desabou a chorar, sem me explicar nada.

Meus avós nos receberam na casi- nha no interior e mamãe se trancou no quarto por dias, saindo apenas para tomar banho e beliscar o almoço, mal dizendo um ai.

Fui eu quem a encontrou inerte no chão gelado do banheiro, frasco vazio de comprimidos na mão. Pálida, lábios arroxeados, sem respirar.

O doutor Orlando, o ilustre advo-

gado, não havia roubado somente os nossos bens, o apartamento, o carro e a poupança.

O que ele me tirou jamais poderei

reconquistar.

Curitibano, formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor dos romances “O Canto do Peregrino”, “O Covil dos Inocentes”, “O Rei dos Judeus”, da novela “O Homem Pós-Histórico”, e de duas coletâ- neas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca” e do “Nova York, Bairro a Bairro”, cidade na qual morou por 4 anos, e do “Curso de Introdução à Fotografia do Cala a Boca e Clica!”. Após uma temporada de um ano e meio em Buenos Aires e outra de oito meses na Itália, está baseado, atualmente, em Madri, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

http://www.flickr.com/photos/toniblay/143544153/

Conto

Erik K. Weber A Sala Branca
Erik K. Weber
A Sala Branca

Na Empresa havia uma sala grande e quadrada e branca do início ao fim. Seu engenheiro, cego assim de nascer, a criara sem janelas, a lisura das pare- des como perfeição a qual concederam almejar. As lâmpadas retangulares e modernas vieram depois, mas a mobília nunca, com exceção de um quadro a óleo, opaco e negro sem fim, dependu- rado em ângulo qualquer, como se caís- se ou não fosse peça daquele mundo.

A filosofia dos homens de negócio julgava as linhas curvas um erro. Afir- mavam, em sussurros aquém do roçar das camisas, o que é curvo se permitiu dobrar; disso se explicava o prédio, as entradas e saídas, os olhares; explicava igualmente o quadro na sala branca.

Quando em época de seleção os candidatos aguardavam ali, um por um, no que parecia e era o fim do mun- do. Esperavam andando ou parados, as camisas listradas como grades, e alguns circulavam e o som dos passos ecoava, quem sabe se neles, quem sabe se nas paredes.

Para os psicólogos, a sala branca e sem janelas era a morte; o quadro, a vida. Seus livros elucidavam, aquele que alinhasse em ângulo reto o qua- dro com as paredes e o piso era um homem bom, um homem honesto.

A Empresa admitia apenas quem não tocasse nele.

Erik K. Weber

Gaúcho e além disso não possui mais biografia

Conto t E m PaGodE No Ki BButz? Edweine Loureiro A ideia agitou o público
Conto
t
E
m PaGodE
No Ki
BButz?
Edweine Loureiro
A ideia agitou o público presente
na reunião. Que tal seria criar uma
comunidade, nos moldes dos kibbutz?
– foi a sugestão feita pelo excêntrico
Presidente da Associação de Mora-
dores, o qual acabara de regressar de
uma viagem à Terra Santa, onde se en-
cantara com o estilo de vida observa-
do nessas comunidades autossustentá-
veis; a tal ponto de sugerir a aplicação
da mesma entre os habitantes de um
morro no Rio.
Presidente, pode funcionar para grin-
go. Não, aqui! O senhor pensou o pro-
blema que dará: um querendo deixar
o
trabalho mais pesado para o outro,
o
ambiente propício à promiscuida-
de?
Sei, não. Do jeito que brasileiro
é
– contra-argumentou um pastor,
aplaudido pelos fiéis e vaiado pelos
opositores, esses últimos gritando que
ele estava mais interessado era em não
perder os frequentadores de sua Igreja.
― Esse negócio de misturar-se de-
baixo do mesmo teto, desculpe, seu
E, em seguida, a discussão se iniciou.
Segundos depois, pessoas tentavam
agredir o pastor e seus seguidores. A
http://www.flickr.com/photos/anthony_goto/2323433820/

polícia interveio e acabou a reunião.

Durante a confusão, claro, tratei de retirar-me do local o mais rápido possível. E, enquanto caminhava de volta para casa, fiquei refletindo sobre as palavras do pastor, principalmen- te a parte que ele disse: Do jeito que brasileiro é…

De fato: há alguns aspectos de uma organização coletiva com as caracte- rísticas do kibbutz que seriam mesmo impraticáveis no Brasil. E, sobretudo, porque nosso país carece de dois ele- mentos fundamentais, que, em regra, constroem tais coletividades: o tra- balho em prol do grupo e o próprio conceito de ordem, letra morta de nossa castigada bandeira.

Não é novidade que o famigerado jeitinho brasileiro causou terríveis danos à nossa forma de comportamen- to social ao longo da história, e do qual, pese o grau de desenvolvimento econômico atingido, não conseguimos ainda nos livrar. É o mal de buscarmos atalhos, sempre: para passar na fren- te dos outros, em uma fila de banco, porque simplesmente conhecemos o atendente; ou de tentarmos ameaçar um policial com nossa fama ou posi- ção social, para tentar escapar do teste do bafômetro; ou, ainda, o de com- prarmos provas de concursos públi- cos. Isso sem falar da tão conhecida e

inimputável prática da corrupção, não somente por nossos políticos, mas em todas as esferas sociais.

Isso no que se refere à falta de cons- ciência coletiva. No quesito disciplina, então, somos alvos de reprovação em todo o mundo. Chegar meia hora atra- sados a um compromisso, ou deixar de responder a um e-mail, por exem- plo, ao contrário do que muitos brasi- leiros pensam, não é sinal de poder ou importância, mas, sim, de desrespeito ao próximo. Comportamentos que, por exemplo, em países como o Japão, são nada menos que reprováveis.

Concordo, portanto, com as pa- lavras daquele pastor: os brasileiros somos, sim, um povo desorganizado e, faltou-lhe completar, individualista – o que, pela lógica, torna a ideia do Presidente da Associação simplesmen- te impraticável.

Exceção feita às festas e eventos esportivos, quando é de praxe os brasileiros congregarem-se.

Sendo assim, na próxima reunião, serei eu a sugerir ao bem-intenciona- do presidente: que tal inaugurar um kibbutz com um show da Ivete Sanga- lo? Aproveitem, e convidem o Neymar para fazer a dancinha do tchu tcha tcha

Edweine Loureiro

Nasceu em Manaus em 20/09/1975. É advogado, professor de Literatura e Idiomas,

e reside no Japão desde 2001. Em 2005, obteve o Mestrado em Política Internacional

pela Universidade de Osaka (Japão). Premiado em diversos concursos literários, é autor dos livros: Sonhador Sim Senhor! (2000), Clandestinos [e outras crônicas] (2011)

e Em Curto Espaço (2012). É membro-correspondente da Academia Cabista de Letras,

Artes e Ciências (RJ) e colunista das revistas literárias Samizdat e Benfazeja.

Conto Fernando Domith u m baixo ruído ao longe A apresentação havia ido tão mal
Conto
Fernando Domith
u
m
baixo ruído ao
longe
A apresentação havia ido tão mal
quanto se poderia. Ela havia visto nos
olhos de cada um dos mestres e douto-
res com olhos cinzentos inundados de
julgamento. Suas mãos haviam tremido
(ainda tremiam), ela havia gaguejado,
ela indubitavelmente havia falhado.
Meses dormindo mal, comendo mal,
conversando mal, vivendo mal
tudo
simplesmente em vão, importantes as-
pectos de sua vida negligenciados, im-
portantes pessoas negligenciadas. Ainda
não havia um veredicto, uma resposta a
seus esforços, mas intimamente ela sa-
bia muito bem. Não havia como aquilo
terminar bem. Sua tese parecia genial,
todos o diziam. Sua preparação vinha
sendo perfeita, todos o diziam. Mas
agora ninguém saberia dizer o que saiu
errado, nem mesmo ela.
solitárias, com suas roupas esvoaçando
ao sabor do vento, parecendo tão ridí-
culas naquele momento, tão descon-
fortáveis. Sem que ninguém pudesse
ver, ela chorava, enquanto os cabelos
tão castanhos molhavam-se em suas
lágrimas perfeitas, tão diferentes de sua
apresentação. “Por que algum idiota se
sujeitaria a tal processo?” ela agora pen-
sava. Por que alguém se colocaria numa
situação onde todos esperam apenas
falha e humilhação? Onde homens e
mulheres austeros sentam-se em suas
cadeiras de estofado vagabundo como
se fossem reis determinando a senten-
ça de plebeus criminosos? Onde olhos
maldosos têm permissão para serem
maus?
Restava apenas o caminho para
a casa, passos solitários em ruas
Sua vontade era de encher a cara.
Expressar toda a frustração, agre-
dir o mundo. Mas não, ela não faria
isso, pois havia Henry. O atencioso,
http://www.flickr.com/photos/dominiksyka-photography/4334590250/

carinhoso e compreensivo Henry. Nun- ca haviam se beijado, nunca haviam ido para a cama, nunca haviam feito nada mais do que um amigo faria com outro. Mas ela estava completamente apaixonada, e sabia que ele se sentia da mesma forma, tinha certeza. Seus olhos profundos, sua fala calma e seu abraço quente a fariam esquecer o resto. Ela se declararia para ele, diria, sem medo al- gum, o amor que sentia por aquele ho- mem único. Ela aqueceria seu coração solitário e juntos caminhariam para onde o vento apontasse e com certeza chegariam a um lugar onde poderiam ser felizes juntos. Sem teses, sem olhos cinzentos, sem humilhação, sem frus- tração. Apenas luz, luz e luz.

Amanda alcançou o celular da sua bolsa e discou o número. O bipe soou várias vezes. Vezes demais.

Henry sentou-se à mesa da cozinha. Podia ver seu rosto refletido no vidro, e daquele ângulo não parecia tão ruim quanto seu reflexo no espelho. Olhou ao redor, viu sua cozinha belamente organizada, sua sala de estar aconche- gante, aparelhos domésticos de última geração.

Dinheiro nunca fora problema, nas- cera rico, crescera rico e continuava rico. Mas não envelheceria rico. As no- tas verdes não poderiam abraçá-lo nas noites solitárias, não poderiam consolá- lo enquanto via as coisas que amava distanciando-se, não poderiam dar um sentido à sua existência. Não poderiam

Fernando domith

lhe dar uma família, não poderiam lhe dar Amanda. Ele a amava e simples- mente assistia enquanto ela caminhava para algum lugar distante, um lugar do qual não poderia fazer parte.

Ele era apenas um figurante, e sabia que continuaria assim para sempre. Ela não o amava de volta, e isso era muito claro. Ela sorria, o abraçava, e quando ela o beijava na bochecha ele ficava atento como uma criança para poder lembrar daquela sensação quando se deitava na sua cama cheia de sombras disformes. Mas nunca conseguia, ela desvanecia como fumaça ao vento e o que sobrava era o vazio e a frustração da sua ausência. Sem ela, não havia nada mais que quisesse fazer, havia se cansado do trabalho, dos livros, dos filmes, das outras mulheres, das bebi- das, dos amigos. Absolutamente nada que quisesse fazer. Seu olhar girava vazio, procurando por algo que nunca encontraria.

Foi então nessa manhã que tomou a decisão.

Se não teria Amanda, não teria mais nada.

Foi até sua escrivaninha, pegou a pistola no fundo de uma das gavetas e sentou-se na mesa da cozinha. Era um lugar tão bom quanto qualquer outro.

Ergueu a pesada arma e a posicionou logo abaixo da boca. Ouviu seu celu- lar tocar ao longe, várias vezes, e esta foi a última coisa que ouviu antes do estouro.

Tem 22 anos e estuda Psicologia na Universidade Federal de São João Del-rei. Um dos ven- cedores do 2º Prêmio Literário da FUMEC, categoria conto. Espera também causar uma boa impressão na categoria poesia e almeja escrever profissionalmente algum dia.

Conto

a arCa

Fabio Guimarães Bensoussan
Fabio Guimarães Bensoussan

Pintura: Edward Hicks

 

Estamos a poucas horas do

um casal de cada espécie de

fim. Desde criança tenho pe- sadelos com isso; imaginava

animal, sem falar no que deve ter sido passar dias numa arca

o

Cid Moreira anunciando

com elefantes, hipopótamos e

o

inverno nuclear. Estranho

rinocerontes comendo e cagan-

a

ausência de desespero. Na

do, além de ter parado no fim

verdade, há um otimismo des- lumbrado, e sinto que até o Apocalipse nossa civilização conseguiu esculhambar. Nada daquelas cenas medievais de pecadores e santos e os céus se abrindo. Desde que aquele cientista brasileiro ganhou o Nobel (quer maior sinal do fim dos tempos?), tudo ficou mais fácil. Ele descobriu que nossa mente pode ser transferida dos nossos corpos para um grande computador, que está enterra- do em algum lugar na Norue- ga. É para lá que todos iremos, abandonando nossos corpos e embarcando nessa Arca que não é de Noé. O patriarca teve

do mundo quando os mares baixaram. Agora tudo será di- ferente; uma pequena cápsula nos matará os corpos e salvará as mentes, lembranças e emo- ções. Nunca mais ficaremos doentes; ninguém mais enve- lhecerá. Acabam-se os homi- cídios. Terei todo o tempo do mundo. A rigor, até mais tempo que o do mundo, para ler tudo o que sempre quis. E jamais me esquecerei do que li. Um novo mundo sem passado ou futuro; apenas o presente. Li em algum lugar que isso é uma forma de inferno. Decido não embarcar nessa Arca, a menos que inven- tem uma possibilidade de me

um trabalho insano para reunir

deletar, se assim o quiser.

Fabio Guimarães Bensoussan

Nasceu no Rio de Janeiro em 1973 e atualmente reside em Belo Horizonte com sua esposa e os dois filhos. É Procurador da Fazenda Nacional e mantém o blog http://bibliotecadofabio. blogspot.com. Recentemente, traduziu, a partir da versão em inglês, o conto A Cadeira, do escritor georgiano David Dephy, publicado pela editora Lumme.

http://www.flickr.com/photos/myvector/6868752166/

Conto

http://www.flickr.com/photos/myvector/6868752166/ Conto Ela era da época em que se espalhava a sujeira pela casa com o
http://www.flickr.com/photos/myvector/6868752166/ Conto Ela era da época em que se espalhava a sujeira pela casa com o

Ela era da época em que se espalhava a sujeira pela casa com o espanador, tarefa árdua e que não resolvia o problema do pó, mas que, ao menos, ao dispersá-lo, tornava-o quase imperceptível, ignorável. Tal como o espanador, em relação aos outros problemas da casa e da família, bases às quais se resu- mia sua vida, dispersava as nuvens espessas com pensamentos e tarefas aleatórias, como testar uma nova receita, cuidar do jardim ou aprender as técnicas de ponto e cruz da revista que comprava sempre que ia ao mer- cado, um dos poucos pequenos prazeres aos quais ela se permitia.

Nos trinta e cinco anos de casada, abriu mão de quase todas as suas aspirações. De- sistiu da faculdade, da carreira de psicóloga, dos passeios pela praça aos domingos (in- cluindo o almoço fora e o sorvete, sem obri- gação de cozinhar ou lavar louça), das via- gens ao Pantanal e ao Nordeste, do cachorro, dos dois gatos e de muitos outros planos e desejos, todos dissipados. Além disso, fa- zia vista grossa às grosserias, ao excesso de trabalho e aos caprichos do marido, o senhor Leopoldo Guimarães, o sujeito mais sovina da cidade. Diziam que ele passava metade do dia preocupando-se em ganhar mais dinhei- ro e a outra metade preocupando-se em não gastá-lo; com exceção dos domingos, que o velho respeitava como se por força de lei. A maioria fazia piadas e zombarias com ele, mas quem sofria mesmo era ela, privando-se, presa naquela casa com nuvens espessas de pó.

Rodrigo Domit

aspirações

Naquela manhã de domingo, por ser ani- versário dela, o marido deixou-a dormir até mais tarde, foi até o jardim, arrancou de lá algumas das rosas de que ela mais cuidava, amarrou-as com um pedaço da hera que su- bia pelo muro da rua e tentou surpreendê-la com o buquê improvisado e com uma xícara de café na cama. Não teve sucesso na sur- presa, assim como não havia tido em todos os outros aniversários múltiplos de cinco, em que ele fazia exatamente a mesma coisa – intercalando com o cartão de próprio punho que entregava nos aniversários dos entre- meios. Ainda que decepcionada, ela lembrou- se de como sorriu no ano anterior e estam- pou no rosto aquele mesmo sorriso insosso, agradeceu de cabeça baixa e foi preparar um chá; detestava café.

Pouco mais tarde, naquele mesmo dia, o fi- lho mais velho foi visitá-la. Aquele que traba- lhava fora, na cidade vizinha, porque o mais novo não ia até a casa dos pais havia mais de cinco anos, desde que o pai o expulsara de lá, alegando que os gastos com telefone estavam muito altos e que havia chegado a hora dele andar com as próprias pernas. Ela permaneceu em silêncio durante a discus- são e a partida; e arrependeu-se, depois, da inércia. No entanto, mantinha contato com o filho por cartas que ela deixava para uma amiga em comum, a caixa do mercado. O primogênito, que apareceu com um grande pacote e um sorriso maior ainda, havia fugi- do de casa cedo porque sabia que, enquanto morasse lá, continuaria brigando com o pai,

em defesa da mãe e do caçula. Quando o senhor Leopoldo apareceu na sala de entrada, atraído pelos ruídos de visita recém-chegada, cumprimentou-o com um aperto de mão e um tapinha nas costas; para o velho, aquilo era sinal de muito respeito, adquirido por enfrentar o mundo lá fora e, de quebra, redu- zir as despesas da casa. Após o cumprimento, o filho pouco disse e logo despediu-se; não se sentia bem ali, nunca conseguiu dissipar os traumas.

Pouco interessado pelo filho, pela esposa ou pelo pacote, Leopoldo voltou a recostar-se na poltrona da sala de televisão. Enquanto isso, ela abriu o pacote, primeiro tentando as beiradas e depois, ansiosa, o rasgando em pedaços com as unhas. Leu na embalagem:

Aspirador de polvo. Riu um pouco da tradu- ção em espanhol, ao imaginar o pobre mo- lusco sendo sugado por aquele equipamento da foto, coitado, com os tentáculos ainda

para fora, debatendo-se. Ao retirá-lo da caixa, conferiu o manual, montou todos os tubos

e foi em busca de um local propício para o primeiro teste.

Chegando à biblioteca – que não tinha ne- nhum livro novo, porque Leopoldo dizia que livro novo era um gasto desnecessário, uma vez que todos se acabariam no alfarrabista da praça central – ela ligou o aparelho na tomada e, de repente, viu-se fazendo desa- parecer as nuvens espessas de pó. Camada por camada, retirava o pó de cada prateleira, cada coleção incompleta de enciclopédias (era muito difícil completar alguma, com- prando apenas as descartadas) e, também, do

chão, do ar, de todo o lugar. Quando desligou

o aspirador, viu-se em um novo ambiente,

verdadeiramente limpo, leve.

Tomada por um novo ânimo, com um bri- lho incomum nos olhos, partiu para o quar- to do casal e ligou novamente o aspirador.

Retirou todo o pó do chão, do ventilador de teto, da cabeceira e da penteadeira. Quando foi tirar o pó do criado mudo, uma foto mal presa no porta-retratos acabou puxada para

a boca do aparelho. Assustada, após duas

rodrigo domit

tentativas com o pé, abaixou-se, desligou o

aspirador e a foto caiu. Ao ver que se tratava de uma foto do marido na viagem de negó- cios que fez sozinho a São Luis e Salvador, programou o aparelho para a força média

e virou o tubo novamente para a foto. Esta

dobrou-se, estalando, e rebateu sonoramente em cada curva do cano até pousar silenciosa- mente em algum lugar distante.

Surpresa com a potência do aspirador, ela abriu mais ainda os olhos brilhantes, sorriu e apontou a boca do tubo para o enxoval que jazia sobre a cama – com as iniciais dele e dela bordadas em ponto e cruz. Sugou toda a roupa de cama, incluindo os travesseiros. De- pois, entre uma gargalhada e outra, aspirou todos os porta-retratos do criado mudo e as roupas e sapatos do armário. Seguindo para

o banheiro, aspirou as escovas de dentes, as

toalhas de banho – igualmente bordadas – e, por fim, os óleos de banho e perfumes que ele nunca passou nela ou por ela.

Do banheiro, ela seguiu para a cozinha, ainda mais animada – quase pecando pelo

excesso – e absorveu primeiro os eletrodo- mésticos, depois o jogo de talheres em prata

– presente de casamento, ainda na caixa –, as

taças de vinho – que nunca foram utilizadas porque vinho era muito mais caro do que cerveja – e os velhos copos de requeijão. No entanto, quando ela virou o tubo em direção

aos pratos, aquele que estava no topo da pi- lha passou por cima dos outros e espatifou- se no chão. Atraído pelo barulho, o velho Leopoldo levantou-se da poltrona e foi até a cozinha; deu de cara com ela, com aqueles olhos brilhantes e esbugalhados, assustadora

e excessivamente animada.

Quando os policiais chegaram, convocados pelos vizinhos que estranharam a barulhei- ra naquela casa costumeiramente silenciosa, encontraram-na sorrindo, de olhos bem aber- tos, realizada e sentada em um canto da casa vazia – de móveis e traumas. Os braços e pernas do velho Leopoldo, todo desconjunta- do, ainda debatiam-se em um último esforço.

Nascido no Paraná e atualmente morando no Rio de Janeiro, Rodrigo Domit es- creve contos e poesias desde 2003. É autor dos livros Vem cá que eu te conto (2010) e Colcha de Retalhos (2011).

Conto

Conto HÁ TANTO CARRO EM BUDAPESTE HOJE EM DIA Luís Felipe Sprotte Foto: Luís Felipe Sprotte
Conto HÁ TANTO CARRO EM BUDAPESTE HOJE EM DIA Luís Felipe Sprotte Foto: Luís Felipe Sprotte
Conto HÁ TANTO CARRO EM BUDAPESTE HOJE EM DIA Luís Felipe Sprotte Foto: Luís Felipe Sprotte
Conto HÁ TANTO CARRO EM BUDAPESTE HOJE EM DIA Luís Felipe Sprotte Foto: Luís Felipe Sprotte

HÁ TANTO CARRO EM

HÁ TANTO CARRO EM BUDAPESTE HOJE EM DIA
HÁ TANTO CARRO EM BUDAPESTE HOJE EM DIA
HÁ TANTO CARRO EM BUDAPESTE HOJE EM DIA
HÁ TANTO CARRO EM BUDAPESTE HOJE EM DIA

BUDAPESTE

HOJE

EM DIA

Luís Felipe Sprotte
Luís Felipe Sprotte
TANTO CARRO EM BUDAPESTE HOJE EM DIA Luís Felipe Sprotte Foto: Luís Felipe Sprotte 32 SAMIZDAT

Foto: Luís Felipe Sprotte

Da visita de sua classe de Húngaro ao Parlamento, lem- brava-se apenas da coroa de São Estevão, com sua cruz tor- ta, eternamente despencando para o lado, e do guarda que ele havia perseguido pelos corredores,porque o achara bo- nito. Fingindo estar perdido, foi até ele pedir ajuda, que o levou até à saída lateral.

A professora de húngaro ra- lhou com ele, e por causa da demora não iriam voltar ao instituto, mas seguiriam todos para casa (que no caso dele, era o próprio instituto). Ele seguiu com sua colega que iria lhe dar carona.

– Na Rússia!

– e começou

novamente seu eterno circunló- quio sobre como na Rússia tudo era diferente, melhor.

Narrússia – ele chamava-a assim, desde o primeiro dia em que estudaram juntos – era uma petersburguesa baixinha, magra, cabelos curtos, óculos e gritos. A tudo respondia com frases que gritava o seu famoso Na Rússia. Sabia pouco sobre ela, apenas que fora professora de violão na Rússia, e que seu filho esperava por ela todos os dias no esta- cionamento do Instituto Balassi Bálint.

Uma vez no carro, ela se

mostrou nervosa com o tráfego lento ao redor do Parlamento. O filho a esperava, na Rússia era dessa maneira, e também de outra. Ele permaneceu em silên- cio o tempo todo. Os pedaços de diálogos misturavam-se a cada metro percorrido pelo carro, lentamente. Os gritos de Narrús- sia, seus braços sempre para fora do carro, os cigarros, novamente seus gritos: em russo consigo mesma, em húngaro com os ou- tros motoristas, em inglês com ele, porque apesar de sempre co- lar nas provas, tinha a certeza de que ele não falava bem húngaro.

Dentro do carro, ele só pensa- va que sua estação cardíaca es- tava vazia, sem passageiros, sem trens, sem homens que quises- sem ao menos atravessá-la a pé para o comprarem como café. Nem cigarros jogados nos dias chuvosos ou com neve salvavam- lhe os assentos vazios. Não ha- via nem mesmo guerrilha na palavra solitária de sua estação. Ao seu lado, uma mulher gri- tava contando sua adolescência na perestroika; fora do carro as buzinas daqueles milhares de motoristas impacientes com dois estrangeiros num carro minús- culo, profetizando uma revolu- ção que iria acontecer tão logo eles saíssem de seu país.

Ele sabia que sairia de

Budapeste sem ao menos deixar- se iludir com uma fuga de fi- gurantes de uma peça em por- tuguês. Quando deu por si, ela falava apenas russo com ele. Ele então olhou o trânsito e disse em português:

– Há tanto carro em Budapeste hoje em dia!

– Na Rússia – ela respondeu.

Os leões desdentados na ponte receberam-nos rugindo. Na pri- meira metade da ponte, olhou para trás e viu Peste, a burguesa

Peste, viva, o eterno contraponto

à delicada Buda. E não existia

mais, porque não era mais um trânsito exterior que os conflitu- ava, mas interior, entre os dois.

Onde estavam todos aqueles carros que os atrapalhavam? Não havia provérbios em rela- ção àquela ponte, a das corren-

tes, a Széchenyi, a que o prendia

a um momentum incestuoso

entre passado e presente. E já no meio dela, como se fosse impos- sível sair de sua metade, ele pen- sou no filho da mulher ao seu lado esperando-os no instituto em Buda; não mais rapaz, mas homem.

Os leões cercaram-nos, rugin-

do, tomados de vida, ainda que estátuas. Agora tudo começava

a mudar. Era um Trabant que os

levava ao instituto. As gaivotas

do Danúbio voavam em torno deles, porque além delas e dos leões, eram as únicas figuras que se mexiam em toda a cidade.

– Na União Soviética ela.

Atrás deles, Peste não mais existia, era apenas uma planície,

e pôde ver pelo retrovisor do

carro a tribo magiar acampando

nas terras que seria daquele mo- mento em diante sempre deles.

E por isso ele continuou contan-

do o nome de todos os homens com quem se deitara em Buda- peste: Sanzer, Balázs, Jarek, Bálint, Pál, Grigorij, Petar.

– Um udarnik! É isso o que você é! Na União Soviética cha- mamos quem faz demais assim:

udarnik.

Contornaram lentamente a Praça Ádám Clark, com suas flores agora secas. O túnel que passava em baixo do castelo nunca fora tão lúgubre, e cen- tenas de anos seria pouco para que pudessem atravessá-lo. Ele ficou com medo, e disse a ela que iria sair do carro. Puxou a maçaneta do Trabant, mas não adiantava, não conseguia sair do carro. Os faróis estavam queima- dos, e a única luz que ele conse- guia ver era da brasa na ponta do cigarro dela, um Kongres que ela trouxera da Iugoslávia. O

– dizia

motor do carro dava a impres- são de que iria pifar a qualquer momento.

– Na União Soviética

Anos depois, eles saíram do túnel e chegaram ao bairro de Krisztinaváros, vazio, abando- nado. Não havia nada em lu- gar algum, apenas os dois no Trabant marrom-claro, que não conseguia andar em uma velo- cidade sequer razoável. Era um tráfego horroroso, esse da au- sência. Os recados dos antigos amores dos dois viravam medo,

e assim, perplexos pela inutilida- de de seus movimentos, pararam

de respirar, porque a morte po- deria lograr-lhes, e deixá-los ao menos andar em direção ao que acreditavam: ela, a Leningrado; ele, à terra de seus pais, no sul do Brasil. A morte, porém, não entrava num Trabant. Foi quan- do Nauniãossoviética sorriu-lhe,

e disse:

– É assim que será: nós dois ligados para sempre.

Tudo o que ficava para trás desaparecia. Tudo! Inclusive as

Luís F. Sprotte

palavras já ditas, pois as novas não conseguiam sobreviver com

o pequeno apelo de suas expe-

riências narradas. Eles ficaram

mudos. As arrancadas do carro perturbavam-nos, e as mesmas ilusões almejadas na distante manhã no Parlamento sufoca- vam o pouco ar que restava – as janelas estavam fechadas e não havia maneira de abri-las.

Ao chegarem a sua casa, na colina, o filho dela os esperava sentado nas escadas. Sempre um homem bonito, agora levemente grisalho.

– Lá está o Dima – ela disse.

Dima acenou aos dois: à mãe,

e a ele. Ela desligou o carro, e perguntou ao caroneiro:

– Não me lembro mais de seu nome.

– Não se preocupe, Ekaterina!

– respondeu com carinho.

Foi quando percebeu o quanto ela havia envelhecido.

FIM

Nasceu em 1984 em Mafra, Santa Catarina. Morou dois anos em Budapeste, onde estudou húngaro e viveu muitas estranhezas. De volta ao Brasil terminou a faculdade de Cinema e começou a estudar Letras. Atualmente está escrevendo um romance que se passa, assim como esse conto, em Budapeste.

Conto Maria de Fátima Santos terá sido Em memória de Gisberta, cidadã brasileira, espancada e
Conto
Maria de Fátima Santos
terá sido
Em memória de Gisberta, cidadã
brasileira, espancada e assassinada por
um grupo de rapazes, em 2006, na cidade
do Porto, Portugal
fétida, e do escuro, e da certeza de não
haver regresso. A gente não sabe do que
ela terá dito, do que ela terá pensado.
Eu quero resistir, mãe, mas tem sido
difícil, ainda mais nestes dias, desde que
apareceram os garotos.
De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes;
A gente não sabe, e talvez Gis nem
tenha sentido ódio. Talvez tenha até
querido dizer-lhes que não seguissem
por aquele caminho, que percebessem
que o destino está, ainda que só um
pouco, nas mãos de cada um.
É de quem não tem mais nada.
(Chico Buarque, 1978)
– Eu vou tentar, mãe! Eu vou fazer
como tu disseste: resiste, Gisberto, resis-
te sempre aos que quiserem fazer de ti
bicho.
Gis espancada de modo bárbaro
e gratuito por um grupo de rapazes,
crianças feitas homens pela força da
miséria no espírito e no corpo. Seres
crescendo sem a trama do carinho e
do arrependimento, e do perdão, e do
respeito. Talvez Gis tenha balbuciado,
como que em oração:
A gente não sabe de Gis naqueles
instantes derradeiros, antes da água
Sabes, mãe, tenho pena deles.
http://www.flickr.com/photos/aphrodite/69022288/

A gente não sabe, e talvez Gis tivesse desejado dar-lhes o que nunca teriam tido. Eles a zombarem dela, e Gis a cui- dar que poderia salvá-los, que poderia ensinar-lhes outros caminhos. E talvez tivesse gostado de dizer àquele garo- to de olho quase transparente, Dimas, ouvia chamá-lo:

– Tu pareces tão perdido aí a pe-

gar esse pau para bater-me. Larga-o e abraça-me, garoto. Anda, coloca as tuas

mãos em volta do meu pescoço e eu prometo que te dou o mimo de que tens tanta vontade.

Assim, ou semelhante, a gente não sabe se Gis terá tido vontade de dizer- lhe:

– A tua mãe, Dimas! como pensas

nela! Via-la pouco, não é Dimas? Ela andava fora e dentro, e tantas vezes te dizia: toma conta deles, porra! Toma conta dos teus irmãos que eu preciso arranjar dinheiro! E gritava-te como se tu fosses culpado de tanta criança e de tanta miséria. Nove irmãos depois de teres sido gerado. E nem pai tu tinhas tido, que nem era decerto aquele que um dia apareceu e te disse: vai com esse senhor que ele paga bem! E tu nem percebeste, e foste naquele carro enorme, assentos de cabedal e música, e o apartamento debruçado sobre a praia, e filmes – tantos filmes que aque- le homem tinha! Choraste, lembras-te? Soluçaste quando ele te obrigou, e no entanto voltaste! Mas como odeias os homens que parecem machos e afinal são isso. É por eles que me queres ba- ter, não é, Dimas? A mim aconteceu-me parecido, sabes? Apenas eu desejava muito tê-los, recebê-los no meu corpo, que o meu padrasto dizia que eu tinha um corpo avariado. Sim, sim, era tal e qual assim que ele me dizia: sai daqui que tens um corpo avariado. Era assim que ele dizia quando eu me sentava no

sofá onde ficávamos apertadinhos, que

o sofá era o único lá em casa e nós

éramos muitos, que só filhos do meu padrasto eram quatro, e outros tantos que ele fez na minha mãe, e ainda era eu que tinha vindo de uma relação de rua, andava a minha mãe sem um tostão e ninguém lhe dava nem uma côdea. Diz ela que chovia um aguaceiro quando o carro parou e a convidaram:

sobe, menina, entra que aqui está quen- tinho e eu dou-te roupa nova. A minha avó tinha morrido de doença, e o ma- rido dela, que nem era o pai da minha mãe, tinha-a posto fora de casa: que fosse dar o corpo que ali não susten-

tava filhos de outro, tinha-lhe dito, e a minha mãe contava-nos a dar exemplo do que nos podia acontecer. Mas o meu padrasto nunca me pôs na rua. Apenas não gostava que eu tivesse aquele jeito efeminado e me vestisse com a rou- pa das minhas irmãs. E a partir de eu começar a ficar um rapazito como tu, Dimas, dava-me porrada por eu andar vestido com saias e roupa muito justa, e andar a menear o rabo aos homens, que era o que gritava enquanto me batia de punho fechado pelo corpo todo: queres andar a dar o cú, anda, mas não en- quanto estiveres debaixo do meu teto! Um dia, deu-me uma sova com o cinto

e eu fugi de casa. Nunca mais vi a mi-

nha mãe senão quando vim de partida. Telefonei-lhe, e ela veio ao aeroporto, e

foi quando me disse, e chorava: resiste, Gisberto, resiste sempre aos que quise- rem fazer de ti bicho. Eu tinha dezoi- to anos e achava que podia mudar o mundo. Olha no que deu. Aqui estou à espera que um garoto me acabe de vez com esta vida de merda, me rebente a cabeça com um pedaço da cabana onde arranjei abrigo.

Poderá ter sido assim, e Gis a querer contar também de dias felizes.

– Era meu namorado, sim. Jesus

de Todos os Santos Piçarro, era o seu nome, mas tratavam-no por Jupi, e ele

só acudia se o chamavam alto que era

um pedaço surdo. Nunca lhe conheci ofício. Talvez traficasse. Mas não seria

droga, não. Seria coisa de armas, ou de carne branca. Nunca tentei perceber de onde lhe vinha o dinheiro. Jesus, como

só eu o chamava, tratava-me como

uma rainha. Tinha-me salvo das mãos da polícia com umas notas grandes e brilhantes, num dia em que eu trepava num carro e, ontem como hoje, quem é molestado pela bófia é o desgraça- do que lhes dá o rabo ou lhes faz um broche, ou os fode, que a maioria desses senhores só cria tesão com a desgraça de quem vive do lado negro da lua. E a

eles, a polícia pede, deferente, que si- gam, que não mais serão incomodados,

e eles vão apanhar outro desgraçado

uns metros mais à frente. Jupi salvou- me de ir dentro, mas disse-me logo:

agora fazes o que eu te disser, a meter- me no carro dele, e nessa noite nem me deu mais que um pedaço de pão bafiento e nem uma pinga de água. Ele queria ver como eu reagia, e terá gosta- do que eu não tenha entrado em choros nem histerias, e daí em diante fez-me seu amante. Que um dia eu valeria muito, dizia-me ele, e levava-me para todo o lado, e foi ele que me pagou o médico e os implantes, e me levou por essa Europa onde tratava de negócios.

Gis morrendo, a pouco e pouco, e nem era ainda no fundo do poço fe- dento e sem saída. Era ela esgotada de

doente e de dois dias de porrada. E era

a ferida que sangrava. Gis morrendo às

mãos daqueles rapazes, seus algozes, e mesmo que gritasse ninguém a ouviria.

O destino tem becos, e este seu seria o

derradeiro. Gis nos estertores finais tal- vez tenha querido dizer-lhes que aquele Jesus tinha sido uma alma boa.

– Viajei para todo o lado, o braço no

seu braço como se fossemos um casal. Ele conseguiu-me até um nome passa- do no cartório: leis novinhas neste país onde agora me morro. Este país onde um dia também assassinaram o meu Je- sus com dois tiros no pescoço. Não, eu não tenho como fugir a mais este beco.

Gis terá pensado, assim, num desespero, a ser sovado.

Gis meio mulher meio homem, que era como tinha ficado desde que Jupi tinha sido morto, e nem casa nem dinheiro que não fosse uma continha mixuruca que o seu Jesus pusera em seu nome. Uns tostões para um futuro, dissera-lhe ele, e tinha sido no dia em que tinham decidido que, custasse o que custasse, um dia Gis seria mulher de corpo inteiro. Mas Jesus tinha mor- rido.

– Soube da morte do meu Jesus no

café onde costumávamos ir juntos quando Jupi não viajava em negócios, e ele tanto podia demorar dois dias como vinte. Um jornal aberto numa mesa, e a fotografia.

Gis, morrendo, terá pensado nesse primeiro dia em que se reiniciou a derrapagem da sua vida. E teria querido contar.

– Sabes, Dimas, fiquei transida de medo. Nem pensei em buscar um aga- salho, uma peça de roupa, um pente que fosse. Fugi dali, que o meu Jesus costumava dizer-me: se um dia eu for morto, nem penses em aproximar-te do corpo, dizer que me conheces. Se isso acontecer, tu, porra, ata o coração e seca esses olhos, faz-te macho uma vez na vida. E Jesus ria. E se te perguntarem, diz que nunca me viste. Ouves o que te digo, Gisberta, ouves?

Gis agonizando terá pensado no seu Jesus. O Jupi, como todos lhe

chamavam, gostava de dizer-lhe o nome tal e qual ficara no novo registo: Gis- berta! ela que depois da morte daquele namorado fora para o norte do país em busca de refazer a vida. Mas daí em diante tinha sido o começo do calvário. Gis terá tentado dizer ao garoto que não lhe batesse, terá até tentado falar- lhe da sua vida para que ele percebesse.

– Eu nem tinha ainda trinta anos, e nem era mulher nem era homem: o que era eu, Virgem Santíssima? perguntava- me pelas noites imensas, sozinha, que era solidão, ainda que com um ou outro, se calhava. Trabalhar, mesmo, trabalhei naquele bar ali a Santa Ca- tarina: dois anos a servir bebidas e a ver as mulheres e os chulos delas, e eu com um ou outro num por acaso, até ter conhecido o Inácio, e foi o fim da minha vida. Ele drogado e sem papéis e eu entretanto tinha perdido os meus, ou caducaram, não tenho já memória de como terá sido. Inácio que tinha uma fama desgraçada. Mais do que por ser drogado, ele tinha fama de ser ladrão e chulo de meninos que cedia aos senho- res que passavam na Cordoaria e arre- dores. Sem dinheiro e sem papéis, não dava nem para um esconso de escada, e menos ainda para arranjar emprego, que me despediram mal souberam do meu andar com pessoal da droga. E

maria de Fátima Santos

depois do Inácio foram outros Inácios e Ernestos e Luíses, uns pobres, e de vez em quando outros menos pobres, mas sempre uns infelizes, até que cheguei a este canto, doente, que eu de cada vez que fui parar ao hospital nunca saí curada, e tu sabes que quando a gen- te mais precisa é quando ninguém se chega. Nem as Senhoras da Assistência, Psicólogas e o raio. Ninguém nos ajuda, não é assim, Dimas? Tu já sabes disso, não sabes?

Não me batas, ouves-me?

Terá querido dizer, mas não teve for- ças nem para de seguida implorar:

– Não me arrastem, que sofro! Não

me larguem! Não me deixem ir por este escuro enorme…

Ou Gis naqueles dias nem terá tido senão um pensar difuso, um ter fica- do delirando numa apatia só quebrada por um ódio profundo por todos eles, e mais por todos os outros que consenti- ram, mudos e distantes, que tivesse sido daquele modo. E só no fundo do poço, já a exalar o último suspiro, tenha pe- dido:

– Perdoai-lhes, Senhor! e, se puderes, leva-me a mim até ao Paraíso.

Aposentada de professora de Física e Química, Maria de Fátima Marques Correia Santos, nasceu em Lagos, Portugal, em 1948. Edita poesia no seu blog tristeabsurda e prosa no blog repensando. Colabora no blog e na revista eletrónica Samizdat. Integra um grupo que realiza, em Lagos e arredores, tertúlias de literatura dita. Em 2009 pu- blicou o Papoilas de Janeiro, um livro de textos em prosa. Com poesia esparsa em vá- rios livros em co-autoria, integra os Volumes II (2007) e VII(2012) das antologias ditas Cinco Poetas de Lagos. Tem participado em concursos literários e oficinas de escrita. Em 2012 um conto seu foi selecionado pelo júri dos novos talentos FNAC literatura e está publicado por essa editora. Nos intervalos da escrita gosta de desenhar e publica alguns dos resultados dessa sua atividade no blog intimarte

Conto Fábio W. Sousa o cemitério e o sanfoneiro No século XIX foi construído em
Conto
Fábio W. Sousa
o cemitério e o sanfoneiro
No século XIX foi construído em São
João Del Rei o cemitério do Carmo, por
iniciativa de uma proeminente ordem, a
Irmandade de Nossa Senhora do Carmo. É
o
único cemitério coberto da América do
Sul, em que os caixões são sepultados de
lado, nas paredes laterais, no sentido ho-
rizontal. Em sua portada, datada de 1836,
além de um crânio dependurado, há tam-
bém um enorme portão com grades de
ferro maciço, trabalhado manualmente por
um importante artista local, Jesuíno José
Ferreira; uma vez fechado, ninguém entra
e
ninguém sai. O sossego então é imposto
do século XX, um cidadão ainda não tão
importante, jocoso pé-de-valsa, andarilho,
tocador de acordeom, soldado de Juiz de
Fora, de passagem na época pelo glorioso
11° RI, e que havia fugido do Nordeste por
vergonha de uma desavença que teve com
um coronel, bebia uns goles numa dessas
alcovas na rua da cachaça. Ali se encontra-
va tocando no acordeom a célebre valsa de
Simão Jandir, o Turquinho. Ainda era cedo
quando a dona do estabelecimento bateu
palmas pedindo licença a todos para que
pudesse fechar o estabelecimento, afinal
era o dia da terrível procissão das almas.
para quem já se foi e precisa descansar em
paz. O zelo é tanto que é costume dizer
que a confraria trata melhor dos mortos
que dos vivos. Fica ao lado da igreja de
nome homônimo, nas proximidades do
largo em que se concentram casarões, ba-
res, e o imponente Solar da Baronesa. Dali
também se vê a Régis Bittencourt, mais
conhecida por rua da cachaça, que recebia
em seus casebres importantes políticos,
comerciantes, artistas, e inclusive o alferes
Joaquim José da Silva Xavier, a tratar de
assuntos relacionados à inconfidência.
Oxente! Eu não tenho medo disso não,
procissão das almas, onde já se viu? – dis-
se o soldado sanfoneiro, mais conhecido
como Bico de Aço, apelido que ganhara
por ser também um exímio corneteiro do
exército brasileiro.
Não diga uma coisa dessas; aqui em
São João ela acontece toda sexta-feira 13
de semana santa, e todos sabem que aquele
que espiar pela janela, ou cruzar com ela
pelo caminho, pode dizer adeus, por que
não amanhece.
Um pouco mais adiante, já em meados
http://www.flickr.com/photos/sigfridlundberg/5245066410/

– Oxê, que crendice é essa?

– Crendice ou não, eu vou fechar! – dis-

se a mulher. Não satisfeito Luiz replicou.

– E pra provar pra tu, vou dormir é no

cemitério! – retrucou o Bico de Aço, viran- do uma branquinha. Todos riram.

E assim foi o temulento com seu acorde- om cambaleando na direção do cemitério. Olhou para um lado, para o outro, e en- contrando o portão aberto entrou. O lugar estava tão silencioso e aconchegante que encostou e ali mesmo ficou. Acabou que dormiu. Um sono tão profundo quanto o dos mortos ali sepultados.

Então aconteceu o que ninguém podia imaginar. O coveiro que também entorna- va uns goles, naquele dia, quando chegou para fechar o portão, pensou: “hoje eu não vou fazer a ronda”, e não fez, simplesmente juntou as partes do portão e gritou, “tem alguém aí?” Acurou bem os ouvidos e não obtendo resposta enrolou a corrente e trancou o cadeado.

– Ainda bem que morto não fala! – resmungou.

Pois bem, lá por volta das cinco da manhã, quando o galo anunciava a chega- da de mais uma aurora, é que nosso herói resolveu acordar. Procurou a saída, mas o cemitério, todos sabem, estava fechado. E o único jeito de sair de lá era esperan- do o coveiro para reabrir o portão, gritar seria impossível, e muito menos coisa de homem, e mesmo assim, quem no dia da procissão das almas iria ter coragem para dar com a cara na janela, correndo o risco de ter ali uma vela acesa lhe esperando ao amanhecer? Pois reza a lenda que aquele que vê ou cruza com a procissão, recebe

Fábio W. Sousa

uma vela acesa em sua janela logo nos pri- meiros raios de sol, o que significava que naquela casa haveria óbito.

Acontece que na cidade tem sempre aquelas pessoas que acordam mais cedo que outras, como é o caso dos vendedo- res de pães, dos feirantes, trabalhadores das fábricas. Naquele tempo os pães eram vendidos em balaios, e havia um cidadão que fazia a entrega nos bares da cidade, conhecido por todos como sendo dono de um ceticismo cego, ateu, e que não gostava de frequentar igrejas, um comunista:

– Eu não acredito nesse negócio de as- sombração, isso é coisa desses padres que inventam essas histórias para pôr medo nas pessoas! – Orgulhava-se, contando histórias sobre Marx, Engels e Lenin. Dizia para todos que eles ainda iriam revolucio- nar o mundo.

Com seu balaio na cabeça vinha ele assobiando a Internacional comunista pela calçada, destemido como sempre. O sol ainda nem despontava. O galo cantava. E uma neblina densa cobria parte das tor- res da igreja e de toda extensão do largo, parecendo o filme do Drácula. Quando o pobre passou próximo do cemitério, ouviu um grito de horror, viu um braço estendi- do por entre as grades:

– Oxente, me dá um “mi bemol” aí! – gritou Luiz com seu fole prateado.

Coitado do comuna, foi pão para tudo que é lado, se borrou todo, e o seu ceticis- mo foi parar na Rússia; deve estar cor- rendo até hoje pelas trincheiras de Stalin. Nunca mais foi visto na cidade. Dizem que foi daí que nasceu o famoso pagode russo. Não sei até que ponto isso é verdade, mas só sei que foi assim.

Nasceu em São João Del Rei, no ano de 1971. Aos 14 anos mudou-se com a família para Goiás, onde estudou Filosofia e Direito, este último não chegou a completar. É militante do Partido Comunista do Brasil e membro da União Literária Anapolina – U.L.A. Lançou o seu primeiro livro de contos em julho de 2012. O seu passatempo preferido é inventar histórias, como todo escritor.

Conto Zulmar Lopes da utilidade dos Crachás Entrou no vagão distribuindo passos caden- ciados pelo
Conto
Zulmar Lopes
da utilidade dos Crachás
Entrou no vagão distribuindo passos caden-
ciados pelo assoalho. Naquele horário a estação
do metrô onde costumava embarcar era pouco
frequentada e a luta por um assento se fazia
desnecessária. Buscou os bancos localizados no
fundo do vagão, paralelos às janelas, dispostos
de frente um para o outro. Preferia aquele local
onde podia esticar as pernas compridas e, bem
acomodado, ler as principais notícias do jornal.
Já instalado, sacou do interior da pasta o peri-
ódico e a credencial da poderosa empresa es-
tatal onde trabalhava, colocando-a em volta do
pescoço feita uma medalha olímpica. Sabia que
o crachá provocava certa inveja nos passageiros
que encaravam, cobiçosos, sua foto sublinhada
pelo nome e cargo exercido. Considerava-se um
vencedor.
navegando o pé, um pezinho delicado, unhas
bem pintadas, denunciando o profissional
trabalho de alguma manicure. Uma tornoze-
leira prateada dava um acabamento ao quadro
que se desenhava à sua frente. Ela perguntou ao
companheiro se ele queria um pouco de creme,
enquanto levava os dedos levemente besuntados
na direção do nariz do parceiro que, fazendo
cara de nojo, recusou a oferta.
Os olhos de Eriberto iniciaram uma discreta
excursão em torno do que sua posição ao lado
da moça permitia captar. Sempre protegido
pelo jornal entreaberto, encontrou uma perna
Corria aleatoriamente as vistas pelas notí-
cias, um tanto incomodado pelo burburinho de
conversas dos passageiros e o ruído do trem
deslizando sobre os trilhos. Na estação seguinte,
um pequeno grupo embarcou. Por detrás do
jornal, sentiu alguém ocupar o assento vazio
ao seu lado. Percebeu tratar-se de uma mulher.
De início, deu pouca atenção à companheira
de viagem e, sem desviar o zelo de sua leitura,
notou estar ela acompanhada por um homem
sentado a sua esquerda.
torneada, tostada pelo sol da praia, coberta
por fina penugem dourada. Percebeu ainda
que a mulher ao lado repetia no pé destro a
massagem executada no sinistro. A sola do pé
direito ficou à vista, branca, contrastando com
o
dourado da pele. Eriberto continuou a viagem
pelo resto do corpo da moça, decepcionando-se
com a interrupção da perna à mostra, coberta
por uma saia de comprimento na altura dos
joelhos. Desejou com ardor descobrir a coxa
e
conhecer o volume da mesma. Imaginou-a
curtida pela ação de raios solares, espetadas
com os mesmos fios dourados que decoravam
a
perna, distribuídos em volta daquela muscu-
latura insinuante por debaixo da saia. Com um
leve giro do pescoço, contemplou os cabelos
A viagem matinal tinha tudo para transcor-
rer sem novidades, dentro da rotina de sempre,
caso a mulher ao lado não houvesse puxado
de dentro da bolsa alojada no colo um frasco
de creme hidratante e, livrando-se da sandá-
lia, iniciasse uma massagem no pé esquerdo.
Eriberto abaixou o jornal e ficou a observar
disfarçado o deslizar das mãos fêmeas circum-
negros, velados, artificialmente tingidos.
Não conseguia distinguir os traços fisionô-
micos da moça. Para tanto, teria que encará-la
e,
embora movido pela curiosidade, não ousaria
tamanha atitude dentro do metrô. Levantou a
cabeça por sobre o jornal e buscou a imagem
refletida da moça na janela do vagão oposta ao
http://www.flickr.com/photos/tamaracraiu/5081950835/

banco em que sentavam. A escuridão do túnel por onde corria o trem não permitiu uma visão clara. Fechou o jornal e ficou a olhar para frente, estudando detalhes mais nítidos no jogo de claro-escuro que a janela insistia em presenteá-lo.

Em dado momento, o homem ao lado da moça chamou sua atenção para algo que ele estava lendo. Tratava-se de uma bíblia de bolso, daquelas como letras diminutas, de hercúlea leitura. Seriam os dois evangélicos?

A mulher inclinou o corpo em direção

ao livro, prendendo o cabelo atrás da orelha. Quando Eriberto viu-a redonda, carnuda, ador- nada por um exército de piercings, teve ganas de mordê-la. Procurou controlar-se.

Naquela posição transversa, atenta à passa- gem bíblica que o parceiro lhe exibia, a mulher revelou a Eriberto um pedaço de sua desejada coxa, roliça como ele desconfiara. Enquanto contemplava o espetáculo, ele lembrou-se de trechos do Cântico de Salomão: “Que formosos são os teus pés nos sapatos, ó filha do príncipe! As voltas de tuas coxas são como joias, traba- lhadas por mãos de artista”. Não se recordava do resto do cântico. Quem sabe ele poderia pedir emprestada a bíblia do casal para uma rápida consulta? Riu em deboche.

A voz metálica da locutora do metrô anun-

ciou a proximidade da estação onde Eriberto

desceria. Ao levantar-se, procurou enquadrar de relance o rosto da moça e, enquanto era empurrado pela massa humana que procurava

a porta de saída do vagão, conseguiu por uma fração se segundos cruzar seu olhar com o dela.

Durante todo o dia passeou por sua mente

o belo rosto moreno que por breves instan-

tes sua retina capturou. Tentou mentalmente juntar as peças e montar por completa aquela mulher que o impressionara. Queria guardar na lembrança esse alguém que ele desconfiava fosse impossível reencontrar. Estava consumido

por estes devaneios no final de tarde quando

zulmar Lopes

resolveu abrir sua caixa de e-mail antes de voltar para casa. Entre as piadinhas enviadas por amigos, spams e dezenas de tentativas de plantar um vírus no seu computador de tra- balho, Eriberto encontrou um recado do site de relacionamento no qual possuía uma conta. Nele estava escrito: “Valéria Jambo deixou um recado para você.”

Clicou despretensiosamente no link e, após digitar sua senha de acesso, contemplou sur- preso uma foto em plano americano onde estava registrado o mesmo olhar trocado por segundos dentro do vagão do metrô. Ao lado da imagem digital, um recado: “Espero que você se lembre de mim. Vi como me comia com os olhos hoje de manhã.” Em alguns segundos descobriu tudo o que era possível a respeito de Valéria Jambo. Idade, preferências, gostos, comunidades. Abriu seu álbum de fotos e pôde apreciar sem medo e com calma o belo corpo que durante a viagem pelos subterrâneos da cidade lhe fora negado por completo. Em algu- mas fotos, o acompanhante de Valéria naquela manhã estava presente, coadjuvando a beleza em traços indígenas de Jambo, sobrenome cer- tamente fictício, alusivo a sua morenice.

Perguntou-se de que maneira a mulher conseguira descobrir o seu perfil no site de relacionamentos. Um leve abaixar de cabeça, encarando o crachá que descansava esquecido em seu pescoço deu-lhe a resposta. Ela chegara a ele através do seu nome impresso na creden- cial. Apostara na popularidade do site e obtive- ra sucesso!

Trêmulo, não de medo e sim pela novidade, Eriberto navegou até o espaço de recados de Valéria, digitou um convite para adicioná-la em sua rede de amigos e com o mouse clicou no item “enviar”.

Agora, restava ao homem do crachá espe- rar. No íntimo, desejou que a experiência do dia lhe rendesse bem mais do que uma mera amizade virtual, colorida em bytes na tela do computador. A vida real agora fora tingida, em tons de jambo.

Carioca, jornalista, contista e aspirante a romancista, Zulmar Lopes tem um punhado de prêmios literários, a maioria de nenhuma importância. Membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). Roteirista do curta de animação “Chapeuzinho Adolescente”. Em 2011 lançou o livro de contos “O Cheiro da Carne Queimada”. Finalmente concluiu o maldito romance cujo pano de fundo é o carnaval carioca e está na expectativa de que alguma editora incauta se atreva a publicá-lo.

http://www.flickr.com/photos/alexsc/5225405767/

Conto

Silvana Michele Ramos
Silvana Michele Ramos
Conto Silvana Michele Ramos traBaLHaNdo Com o Bat Edor d E CarNE 44 SAMIZDAT
Conto Silvana Michele Ramos traBaLHaNdo Com o Bat Edor d E CarNE 44 SAMIZDAT

traBaLHaNdo Com

o Bat

Edor d

E CarNE

“É que, às vezes, o homem se sente mais realizado se, ao invés de dizer para- béns, ele fala: – Coitado!” Nenéo, Ponta de faca

Quando eu pego essas alu- nas, essas que querem saber mais que a professora, eu, –

pá, pá, pá! – eu “amacio” logo. Primeiro lugar: – pá, pá, pá!

não deixo brilhar. Tenha

o

mérito que for, – pá, pá,

pá! – procuro prontamente outro aluno, que conheça o

seu lugar de aluno, e pra esse eu dou: todo o crédito. Eu sou professora – pá, pá, pá!

– e não estou vendo talento;

quem vai dizer que ali tem valor, se eu, que sou eu, – pá, pá, pá! – não dou? Na oral e

na escrita, as subjetivas, – pá, pá, pá! – é que ela me paga.

E, se vier discutir, – pá, pá,

Silvana michele ramos

pá! – mando logo sortir. Não dou cartaz, não; faço de conta que nem sei o nome. Elogiar? – Pá, pá, pá! – Só se não der mesmo pra evitar. Mas trato de querida. Que, aí, – pá, pá, pá! – todos dizendo como eu sou polida, como eu dei- xo o aluno bem à vontade, o que ela vai poder falar – pá, pá, pá! – de uma indireta no meio de uma conversa? “Tem aluno que faz, de uma sim- ples prova, a razão da sua

vida

pá, pá, pá! – na maior displi- cência: “Tá acertando porque ”

tão dando muita dica

então eu brinco: “Já foi ler lá ”

adiante, a nossa amiga

que, se deixar, – pá, pá, pá! – até asa cresce nela; se deixar, até voa! E assim, não; – pá! fica sempre no chão.

E outra que eu solto, –

Ou

Por-

Não quer saber de equiparações como “Eu sei que eu nunca vou atingir a perfeição, Silvaná. E tu também. Tu jamais vais atingir a perfeição, Silvaná.” Pedagogia por pedagogia, “Silvaná” prefere a da autonomia*. Ou mesmo a do Leonardo da Vinci**: “Pobre é o discípulo que não excede o seu mestre.”

*Pedagogia da autonomia é um livro de Paulo Freire, um cara que não deve ter trabalhado com o batedor de carne.

**Fonte: http://www.citador.pt/frases/pobre-e-o-discipulo-que-nao-excede-o-seu-mestre-

leonardo-da-vinci-5952

http://www.flickr.com/photos/dkorobtsov/4902158265/

Conto

HOMERO GOMES
HOMERO GOMES
Conto HOMERO GOMES aquilo 46 46 SAMIZDAT janeiro de 2013 SAMIZDAT janeiro de

aquilo

46 46

SAMIZDAT janeiro de 2013

SAMIZDAT janeiro de 2013

“A maior sabedoria é parecer louco.”

(Erasmo, em Elogio da Loucura)

Aquilo ainda está lá.

Tentei esquecer o que aconteceu, mas foi impossível. É impossível esquecer algo como o que aconte- ceu no inverno passado.

Por isso, estou na sala batendo nesta velha máquina quase estra- gada de meu pai. Arrancando da memória o que perturba.

Já era o terceiro dia que chovia

sem parar. As meias permaneciam

úmidas nos pés, as roupas não secavam. O frio entranhado nos ossos.

O tempo de folga era usado para

consertos na casa, uma velha casa de família, onde meu pai viveu sua infância. Onde tento manter a ordem no imenso vazio de seis quartos desocupados.

As instalações elétrica e hidráu- lica estão todas comprometidas, mas não há dinheiro para uma reforma. Realizo apenas pequenos reparos, como o do insistente taco que sempre solta do piso de meu quarto.

Sempre limpo a sujeira acumula- da por baixo da pequena peça em forma de losango.

Unidas, as peças formam olhos no chão.

Desta vez, fui mais cuidadoso

na limpeza e percebi um acúmulo

excessivo de cola. Provavelmente,

o motivo da falta de encaixe. Com

uma faca pontuda e bem afiada fui removendo a cola grossa e velha, junto com a poeira do encaixe no chão, tentando deixar o fundo do taco mais liso e o buraco pronto para receber o pedaço de madeira.

Mas o espaço que tinha pra movimentar a faca era pequeno demais, não permitindo um traba- lho nem bom nem seguro. Por isso, quando forcei a retirada da cola, acabei abrindo uma fenda em meu dedo.

Fui lavar as mãos do sangue que escorria e pegar um recipien- te onde pudesse colocar a sujeira acumulada.

Meu dedo doía, a limpeza que havia feito já era suficiente para encaixar melhor a peça.

Quando retirava os últimos res- tos de cola e de poeira, senti uma

superfície metálica. Achei estranho

e continuei limpando, pesquisando, retirando toda a cola.

Continuei forçando a limpeza com a faca, cavoucando até retirar tudo o que podia.

Numa das estocadas, levantei algo parecido com uma alça.

Achei que pudesse ter encon- trado um velho cofre, um baú de família, algo que pudesse conter alguma coisa de valor.

Talvez um segredo da família.

Esqueci rapidamente a dor no

dedo. Fui até à dispensa para pegar mais equipamentos.

Com facilidade, fui retirando os tacos ao redor até perceber que não se tratava de um cofre ou de um baú, mas de uma enorme porta.

Ela era lisa, sem detalhes, conti- nha somente uma alça. Fiquei pa- ralisado diante daquela descoberta. Não sabia o que fazer, que atitude tomar. Minhas pernas arrepiavam. Tinha que abri-la rapidamente; precisava saber o que havia lá dentro.

Com cuidado e calma levantei

o tampão e senti um vento frio

e muito úmido roçar os pelos de minha canela.

Deixei que o tampão caísse com todo o seu peso para o lado. O estrondo ressoou por algum tem- po, e foi nesse momento que me dei conta do que havia embaixo da porta de metal, um enorme e escuro fosso.

Não tive coragem de colocar meu braço lá dentro para ave- riguar o seu conteúdo. Fui até à dispensa e peguei uma lanterna. Sua luz era fraca, mas serviu per- feitamente para iluminar aquela espécie de cova.

O fosso parecia não ter fim. Numa das laterais, consegui ver uma escada de madeira. Não tive

receio, coloquei a lanterna na boca

e desci por ela, lentamente.

A descida foi longa, o fosso devia

ter mais de 7 metros.

O ar era denso, pesado, não

conseguia respirar direito.

As paredes eram escuras, de um barro negro e fétido. Na frente da escada havia um corredor curvo, que não permitia que eu visse o que estava a minha frente.

Os pés grudavam no chão enla- meado. Fui seguindo pelo corredor, iluminando cada detalhe. Pare- cia que nada vivo andava por ali, apenas eu.

O corredor subterrâneo não era

tão longo quanto eu imaginava.

Mas no fim dele, um quarto.

O quarto estava mal iluminado.

Nele, apenas uma pequena vela sobre uma cadeira e um colchão imundo. O quarto não possuía janelas, não seria possível para um ser humano viver ali. As paredes do quarto eram mais fétidas que as do corredor.

A vela tremulava. Eu ficava cada vez mais confuso e tonto.

Tinha certeza de que a coisa que vivia naquele lugar estava ao redor. Apavorado, não conseguia tirar meus pés do chão. Tentei me acal- mar, mas a vela em cima da cadei- ra me dava arrepios.

Andei de costas em direção ao corredor. Depois, corri desespera- damente em direção à escada.

Subi com muita dificuldade.

De volta à casa, fui baixando o tampão até fechá-lo por completo.

Ainda sentia o cheiro podre da- quele cômodo. Meu quarto se con- fundia com ele. Aquilo que vivia lá embaixo confundia-se comigo.

Eu queria entender o que signi- ficava aquilo. Eu teria que voltar lá embaixo novamente. Não aguen- taria ficar sem saber tudo sobre aquele local.

Mas antes de voltar ali, para evi- tar qualquer imprevisto, coloquei uma pesada cômoda sobre o tam- pão. Esses acertos deveriam durar até o outro dia, quando eu saberia o que fazer a respeito.

Não foi o que aconteceu.

Fui deitar cedo. Mas não con- segui dormir em paz. Ouvia ba- rulhos, ruídos de arrastar, puxar, vindos debaixo do piso. Vinham do buraco.

Aquilo que vivia sob os meus pés estava, pela primeira vez, dando si- nal de vida. Depois de tirar curtos

Homero Gomes

e ineficientes cochilos, levantei, de- cidido a me comunicar com o res- ponsável pelos barulhos noturnos, pela minha noite mal dormida.

Lavei o rosto e coloquei roupas menos amarrotadas. Estava me pre- parando para o inesperado.

Empurrei lentamente a cômo- da de sobre o tampão. Mas, dessa vez, não senti o vento frio e úmido roçar os pelos de minha canela. A única coisa que senti foi um for- migamento no estômago, pois não estava preparado para o que vi.

Tijolos e cimento fresco.

A entrada do buraco estava ve- dada. A passagem estava definiti- vamente bloqueada, não havia mais nada que eu pudesse fazer.

Aquilo que está lá embaixo vai permanecer lá embaixo, e eu per- manecerei aqui em cima sem saber o que está sob os meus pés e en- carcerado pelo lado de fora.

(Curitiba/PR, 1978). É escritor. Autor dos trabalhos ainda inéditos Sísifo Desatento (contos) – fi- nalista do Sesc de Literatura edição 2007 –, Jamé Vu –publicado via internet – e Anjo Exilado (poe- mas) – que possui versão online no site português TriploV e Germina Literatura sob o título Solidão de Caronte. Está concluindo o romance Tempo do Corpo e a novela juvenil Paralelo Um. Colaborou com Rascunho, Cult, Germina Literatura, Cronópios, Ficções, entre outros. É editor de Jamé Vu (com postagens suspensas), espaço em que não apenas divulga suas produções literárias como também a de outros literatos, entre veteranos e estreantes, edita também o blogue juvenil Paralelo Um (com postagens

suspensas), onde disponibiliza matérias, curiosidades e jogos para o público juvenil; é colunista dos sites Página Cultural , desde 2010; Mundo Mundano , com sua ficção, desde 2011; e Musa Rara , com notí- cias literárias e do mercado editorial, desde 2012; e da revista digital Samizdat, com sua ficção, desde

2012.

Conto

Conto Cinthia Kriemler o transportador 50 SAMIZDAT janeiro de 2013

Cinthia Kriemler

o transportador

 

Por profissão me foi dada a traves- sia. Quando pirralho, fazia o transpor- te de pequenas coisas. Levava os ovos para a vó preparar seus quitutes, de- pois equilibrava doces e salgados num carrinho de mão e saía para entregar as guloseimas fresquinhas no armazém da cidade. Ia num pé, voltava noutro, trazendo farinha, arroz, feijão e bata- ta, aconchegados no mesmo carrinho rangedor.

Nessa época, também ajudava o pai a entregar latões de leite na feirinha, levava a merenda dos manos no pas- tinho, jogava o milho para as galinhas antes que elas se unissem num coco- ricó histérico, e buscava os remédios da vó na farmácia, praticamente toda semana. Quando as suas pernas me- lhoravam das dores, dava pra aviar a receita só por quinzena, mas eu não me importava com a andança e nem sabia ainda que essa lida constante era ensinamento para as viagens de mais tarde.

Logo que me aprumei um pouco mais, lá pelos 14 anos, passei a en- tregar bilhetes dos manos e de gente mais velha para as mocinhas das re- dondezas. Às vezes, transportava as palavras na boca ou na cabeça, jorran- do os versos e os recadinhos com a ajuda da voz imberbe e da memória. De vez em quando, se a frase era de fazer corar, ou se era para desmanchar compromisso, a entrega era dentro do ouvido. Nesses casos, ficava por minha conta transportar de volta os tapas, os olhares furiosos e os choramingos.

Assim, atravessei os anos verdes e, adulto, dei ao ir e vir uma serventia de maior monta: firmei-me na profissão de Transportador de Existências.

La Barca de Caronte, por José Benlliure

Um Transportador de Existên- cias não carrega móveis, nem malas,

nem quaisquer objetos. Só o vivente

e seu quinhão de problemas, alegrias,

emoções, vazios

nho e pesadelo; ganho e perda.

Animais são permitidos. A mor- te, também. No entanto, para que o Transportador não seja enganado sobre carga tão funesta, é imperioso à Ceifadora declarar-se antecipadamente:

se de corpos, a conduzir para o além o vivente; se de almas, a matar em vida, sem levar o corpo. A conversa preci- sa se dar antes ou durante a travessia, para orientar o Transportador.

No começo, eu lotava com famílias inteiras a carroça que o pai me deixou. Mas a confusão tumultuava a viagem. Alhos e bugalhos misturados, sacudin- do aqui e acolá? Briga! O sonho da moça que buscava a capital, a tristeza da outra que se fazia acompanhar pela desonra, a imaginação sem freio das crianças, o lamento do velho, o de- sengano do desempregado, a luxúria do amante. Tudo engalfinhado num chãozinho de carroça!

A coisa ficou mesmo feia quando um moribundo e uma prenha se en- contraram. A Ceifadora de Corpos, que viajava com o semimorto, resolveu disputar importância com a Parição, que acompanhava a moça.

— O Transportador vai rumar pri-

meiro para o meu destino! Eu preciso entregar o velho ao seu repouso final! — decidiu a Ceifadora.

Saúde e doença; so-

— Uma ova que vai! Tem mais pres-

sa o chegar do que o ir-se! — replicou

a Parição.

E a baderna só cessou quando a mu- lher gemeu tão alto que ao meu susto se somaram o júbilo da Parição e a rendição da Ceifadora: a iminência do parto tinha decidido a querela.

Depois desse apuro, passei a trans- portar uma existência por vez. Apesar de o tempo encurtar com a decisão, não era mais possível permitir que certos destinos se cruzassem. Carre- gar um a um era mais justo e mais prudente.

Da carroça passei para uma mo- toneta usada. Desastre! As pilhas de resmungos e de suspiros e de garga- lhadas iam amarradas, penduradas nas laterais do banco do passageiro, baten- do no pneu recauchutado e vaticinan- do um acidente que, felizmente, nunca ocorreu porque a lentidão da maqui- neta impedia grandes riscos. Tentei ainda um barco, mas o rio e a travessia pertenciam à Ceifadora de Corpos, e não me apetecia pelejar por território tão sagrado. Ainda mais com quem!

O veículo chegou-me via fatalidade, por meio de um viajante cujas pernas doentes e arroxeadas me lembraram, no instante em que bati os olhos nelas, as pernas da vó. No hospital, quando parei para despejar suas dores, gemi- dos e febres, pensei que nunca mais o veria. Mas, um mês depois, recebi de presente do sujeito nada mais nada menos que uma caminhonete confortá- vel, com pouco uso, acompanhada do seguinte bilhete:

“Minhas pernas se foram, mas eu so- brevivi. Segundo os médicos, porque o Transportador me conduziu a tempo. Em agradecimento, envio a você minha caminhonete de presente. É sua, agora, porque para mim não tem mais uso.”

Não me fiz de rogado. O veículo era grande, cabia de um tudo. Eu não ia mais precisar carregar só a metade da bagagem dos viventes, nem me aborre- cer convencendo-os a deixar para trás

um meio fardo. Deitar fora as piores emoções — como medos e angústias

—, e carregar apenas as sensações mais frugais ou divertidas nem sempre era visto com bons olhos pelo proprietário da existência, por demais acostumado

à companhia dos seus martírios.

Mas, mesmo grande, o veículo en- frentou seus percalços. Certa feita, acomodei uma mulher recém-separada que fugia da própria sina. Suas memó-

rias, a dor da separação, a depressão aplacada por pílulas, o coração partido

e um cachorrinho irritado — que in-

sistia em ficar aos pés da dona — não eram nada se comparados aos mais de cinco mil relatos de um diário que ela havia escrito durante os 15 anos de casamento. Acomodar lembranças fei- tas de letras é um deus nos acuda para qualquer Transportador de Existências!

Vez ou outra, era apenas uma carta ou um bilhete que me faziam compa- nhia na estrada. Eu tinha que abrir e ler antes de fazer a entrega. Esse com- binado me recordava os dias de me- nino em que eu levava recados cochi- chados e trazia de volta os tapas das moças coradas de vergonha. Apanhei um bocado ao longo dos anos

O ofício me desgostou de verdade em duas transportações: quando os viventes eram meu pai e minha mãe, se retirando deste mundo. Nessas duas despedidas, retardei a entrega. Contudo, não me cabia impedir as viagens, somente cumprir, sem burlas,

Cinthia Kriemler

o transporte. Essa lição, aprendi cedo,

ainda nas primeiras travessias. Com dó de um jovem a quem a Ceifadora de Corpos acompanhava, decidi que iria reconduzi-lo para casa. Dando uma desculpa qualquer, subi os olhos até

o espelho retrovisor para preparar o

retorno. Foi quando, estarrecido, vi que

a estrada atrás de mim tinha sumido,

dando lugar a um deserto de crateras

e troncos retorcidos! E quanto mais eu

prosseguia, tendo à frente um pavi- mento firme e preservado, mais meus olhos encontravam um rastro de des- truição em tudo o que ficava para trás. Percebi, depois de poucas vezes, que só acontecia da estrada apodrecer atrás de mim quando a única bagagem do vivente era uma das Ceifadoras, a de corpos ou a de almas.

***

Hoje, não me procurou passageiro.

Tenho só uma encomenda, um recado

a

entregar, que me foi deixado sobre

o

banco do carro. A claridade me faz

companhia e o caminho está vazio. Já

na estrada, abro a folha dobrada sobre

o banco ao meu lado. No papel desme-

surado, um imperativo irreplicável sela o meu destino: “Transporta-te.” Meu coração dispara e meus olhos buscam, ansiosos, o espelho interno da cami- nhonete. Não há esperança. No reflexo retrovertido, cumprimentam-me a es- trada desolada e a Ceifadora que veio por mim.

Mas qual delas veio? Qual delas?

Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de con- tos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — RE- BRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.

Conto u m pierrô apaixonado Otávio Martins http://www.flickr.com/photos/santdavalos/8098371132/
Conto
u
m
pierrô apaixonado
Otávio Martins
http://www.flickr.com/photos/santdavalos/8098371132/

Um pierrô apaixonado/ Que vi-

via só cantando / Por causa de uma colombina/Acabou chorando/

Acabou chorando

Noel Rosa e Heitor dos Prazeres – carnaval de 1936)

(Marchinha de

Já era o quinto ano que ele não saía para brincar os bailes de carnaval. Nos tempos de solteiro, quantos Bola Preta! Nesses cinco anos de casado, somente assistia o carnaval pela televisão. Ele e a sua mulher.

Na véspera das suas férias, uma sexta-feira, foi dispensado mais cedo. Passou no bar onde costu- mava tomar um uisquinho ou uma cervejinha com os colegas, na saída do escritório, pediu um du- plo. “Bastante gelo e bastante uís- que!”. O suficiente para que tomas- se coragem.

Depois, saiu direto a uma loja ali do centro, a qual alugava trajes de todos os tipos e que, também, funcionava um brechó, lá no fun- do. Na seção de aluguel, encontrou exatamente o que procurava: uma fantasia de pierrô. Acabamento e modelo dignos de uma peça da mais alta-costura. Era assim que costumava sair em outros carna- vais. Com a intuição de que dali pra frente voltaria aos bailes do Bola, propôs ao dono da loja que vendesse aquela fantasia para ele. Valorizando a mercadoria, o pro- prietário argumentou que aque- la roupa, ao contrário de muitas

outras que ali estavam expostas, nunca precisara qualquer restaura- ção ou reparo; estava “como nova”. Ele achou salgado o preço, a prin- cípio, mas, acabaram por chegar a um acordo; bom para os interesses dos dois. Numa outra loja, logo mais a frente, comprou serpentina, confete e lança-perfume, além de alguns adereços e uma mochili- nha, a qual serviria para carregar os seus pertences.

Ao sair do metrô, a dois quartei- rões da sua casa, atravessou a rua e, no bar onde costumava tomar a saideira, mais um duplo. Agora, seria preciso coragem para comu- nicar à sua mulher que, naquela noite, como nos velhos tempos, voltaria ao Bola Preta e que só retornaria a casa, como fora seu costume, na quarta-feira de cinzas.

Dona Melissa nem levantava os olhos, para não ter de cruzá-los com os do Aristeu, que, àquela al- tura, estavam totalmente ocupados com a maquilagem e os últimos preparativos para o seu grande retorno como autêntico folião do carnaval.

Quando voltou para casa, qua- se na hora do almoço, na quarta- feira de cinzas, com uma mistura de odores – lança-perfume, talco, desodorante vencido e outros – di- fícil de suportar e, também, de de- finir, desabou no sofá. Na quinta- feira, com a naturalidade de mais um dia de trabalho, levantou-se, tomou um banho, colocou o seu

terno azul-marinho, apanhou a 007 e saiu. Havia esquecido, com- pletamente, das suas férias.

Essa agenda carnavalesca do Aristeu repetiu-se pelos seguintes cinco anos, até que dona Melis- sa resolveu investigar qual era o balacobaco do Aristeu. Apesar de todos aqueles dias fora, nenhuma marca de batom, nenhum perfume

ou qualquer outro cheiro que não fosse o seu (dela) ou daqueles que há muito tempo ele costumava usar, os quais ela já bem conhecia. Nada, aparentemente, que pudesse comprometê-lo, ou “incriminá-lo”.

E era justamente isso o que torna-

va aquelas suas incursões carnava- lescas mais intrigantes ainda.

Com uma peruca loira, uma belíssima fantasia de colombina, uma máscara cobrindo-lhe quase todo o rosto, sapatilhas e pochete rosas, logo na sexta-feira, arriscou, de prima, o Bola Preta.

Do mezanino, vasculhou com

o olhar, praticamente, todo o sa-

lão. O Aristeu, com todos os seus apetrechos, dançava, com visível entusiasmo, sozinho. Deu para perceber que não procurava qual- quer companhia; não fustigava nenhuma foliona; não participava de nenhum daqueles cordões de salão, tipo trenzinho. Não paque- rava ninguém. Alegremente, jogava confete e serpentina para todos os lados, em todos os foliões. Era, por assim dizer, um caso à parte.

Dona Melissa, então, resol-

veu aproximar-se – com todos os cuidados necessários para que não fosse reconhecida – e come- çou a insinuar-se para o Aristeu. Quando ele botou os olhos na- quela colombina, a qual ele não

conhecia de nenhum dos bailes anteriores, ensaiou, ao seu redor, alguns passos, como daqueles dos mestres-salas de Escolas de Sam- ba e foi-se aproximando, apro- ximando, até que pegou em sua mão, cavalheirescamente. E não se desgrudaram mais por quase toda

a noite. Quando muito, uma pa-

radinha para ir ao banheiro, reto- mar o fôlego e, na passada, mais

uma bebidinha, com o pretexto de manterem o ânimo que o reinado de Momo exigia.

Conversaram muito pouco;

Aristeu fez algumas perguntas sem a menor importância, só pra puxar assunto, mesmo. Falou um pouco de si, que trabalhava muito e, como contador da firma, aquele

serviço maçante

balancetes mensais

Os “benditos” Precisava,

mesmo, tirar uns dias, lavar a

alma

ano de casamento

interrompido pela colombina, que

lhe perguntou por que não trazia

a sua mulher para os bailes do

Bola Preta. Afinal – palavras dela

– “ali era um lugar familiar”. O Aristeu respondeu que sua mulher era uma pessoa muito recatada e, até mesmo para o baile do Bola, não tinha coragem de convidá-la.

Que já estava no décimo

Quando foi

E continuaram dançando. Já estava um pouco embalado pelas capri-

chadas doses de uísque e inúmeras cervejinhas. De repente, olhou em volta e depois por todo o salão,

a colombina tinha simplesmente

desaparecido, como por encanto.

Desatinado, procurou-a por todos os cantos, depois, em outros bailes; não só naquele final de noite, no Bola, mas, também, pelas madrugadas do sábado e do do- mingo. Uma busca inútil.

Na segunda-feira voltou pra casa logo depois que amanheceu

o dia, com a sua mochila, onde

costumava carregar todo o seu

material, cansado, desiludido com

o carnaval. Não conseguia escon-

der a tristeza, em plena véspera da terça-feira gorda. Juntou tudo, in- clusive a sua fantasia de pierrô e, com visível desprezo, enfiou tudo numa daquelas sacolas plásticas

otávio martins

grandes de supermercado, jogan- do-a num canto qualquer do sótão.

A partir daquela noite, volta- ram, ele e a dona Melissa, a as- sistir o carnaval pela televisão. Quando chegava a sexta-feira de carnaval, ele enchia quase meia

geladeira de latinhas de cerveja, além de um litro de uísque sobre

a mesinha da sala – para rebater

– o que ele costumava chamar de quebra-gelo.

Sempre que a televisão mostra- va alguns flashes dos grandes bai-

les, principalmente do Bola Preta,

o seu olho corria ágil pelos quatro

cantos da telinha, sob o soslaio de dona Melissa, na inútil tenta-

tiva de encontrar a colombina, pela qual havia, perdidamente, se apaixonado.

68 anos, iniciou a escrever contos e crônicas por volta de 2006, para preencher alguns espaços em seu jornal eletrônico nb – NOTÍCIAS DO BRASIL, posteriormente rebatizado de O SPAM.

É fotógrafo e cinegrafista (ou era). Trabalhou na extinta TV TUPI – (TV Ceará, em Fortaleza, 1969 e 1970). Produziu alguns shows em São Paulo, com Adoniran Barbosa e Grupo Talismã; Edu- ardo Gudin, Márcia e Roberto Riberti, além de Paulinho Nogueira; Tom Zé e Vicente Barreto; João do Vale, Zé Keti; Odair Cabeça de Poeta; Premeditando o Breque e outros.

Foi assistente de produção do Festival Universitário de MPB, 1979, assessorando o produtor, Eduardo Gudin, do qual surgiram Arrigo Barnabé, Premeditando o Breque, Celso Viáfora e outros. No Festival do Guarujá, através da Secretaria de Cultura, coordenou e, junto com outros, definiu a participação e contratos na área musical (Hermeto Pascoal, Gonzaguinha, Egberto Gismonti, Sivuca, Baden Powell, Sérgio Cabral, Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, Paulinho Nogueira, Eduardo Gudin, Sérgio Ricardo, Maurício Tapajós e outros participantes).

Trabalhou como cozinheiro em Florianópolis. Arrisca algumas harmonias no violão para suas composições, como O dono do barco, Beija-flor, Meu amor sereno, É do mar e outras.

Atualmente se dedica, somente ao jornal O Spam e escrever alguns contos e crônicas.

tradução

a Feitoria de

Farhaj Bill alí

tradução a Feitoria de Farhaj Bill alí Roberto Arlt trad.: Henry Alfred Bugalho 58 5858 SAMIZDAT

Roberto Arlt

Roberto Arlt trad.: Henry Alfred Bugalho

trad.: Henry Alfred Bugalho

Os que me conheciam, ao se in- teirarem que eu ia trabalhar no criadouro de gorilas de Farhaj Bill Alí, encolheram compassivamente os ombros.

Eu já não tinha como escolher. Haviam me expulsado dos mais im- portantes comércios de Stanley.

Em algumas partes me acusavam de gatuno e em outras de beberrão. Meu último amo, ao esbarrar-se co- migo na entrada do mercado, disse, comentando ironicamente sobre minha determinação:

“Não endireitará a cauda de um galgo, mesmo que a deixe vinte anos enfiada no cano de um fuzil”.

Dei de ombros diante do pessi- mismo que transcendia do provérbio árabe. Que podia fazer? Na África, morre-se de fome não apenas no de- serto, senão também na mais com- pacta e ruidosa das selvas. Ali onde verdeja a manga ou ri o chimpanzé, quase sempre espreita a flecha vene- nosa.

Na feitoria de Farhaj Bill, eu traba- lhava como guarda-livros. O cana- lha de Farhaj não apenas explorava um proveitoso criadouro de gorilas, como também uma academia de elefantes jovens. Ali os ensinava a

trabalhar. O mercador vendia com lucro excelente os elefantes domesti- cados e gorilas. Dispunha de várias léguas de selva e numerosos reba- nhos de escravos. Como estes eram sumamente torpes para dedicá-los

à educação do elefante, usava-os

nos trabalhos penosos. Geralmente, na feitoria, as negras se dedicavam

a amas de gorilas órfãos, pois os

macacos adultos morriam de tristeza ao se verem privados da liberdade. Os gorilas recém-nascidos e órfãos requeriam atenções extraordinárias para alimentá-los, porque com seu olfato delicado percebiam a diferen- ça que havia entre suas mães e as negras. Ademais, as pequenas bestas são terrivelmente ciumentas e não toleram que a escrava amamente seu próprio filho. Como Farhaj Bill Alí não se mostrava sumamente cui- dadoso neste particular, uma negra chamada Tula, que havia trazido seu pequeno ao criadouro, sem poder impedir, viu como o gorila a seu cuidado estrangulava o menino.

Aquilo originou um drama. O pai da criatura, um negro que traba- lhava no embarcadouro da cidade, ao inteirar-se que seu filho havia perecido entre as garras de um go-

rila, apareceu no criadouro, segurou

a besta por uma pata e lhe cortou

a cabeça. Satisfeito de sua façanha,

apareceu com a cabeça do gorila no porto.

Rapidamente, Farhaj Bill Alí foi informado do prejuízo que havia sofrido. Farhaj foi ao embarcadou- ro. Desde longe, era visível a cabe- ça do macaco, colocada sobre uma pilha de fardos de algodão. Farhaj apareceu “como a cólera do profe- ta”, segundo uma testemunha. Não pronunciou palavra alguma, sacou

a grande pistola e descarregou na

cabeça do marido de Tula todos os projéteis que trazia o carregador. Na minha condição de capataz de descarga de outro comerciante, fui testemunha do crime. O negro aca- bou praticamente sem cabeça. No

processo que se seguiu contra Farhaj, este foi absolvido. As testemunhas depuseram falsamente que o árabe teve de se defender de uma agres- são do negro. Entre as testemunhas iníquas eu me figurava. Meu patrão, que então estava interessado na compra de marfins de elefantes, ha- via vinculado seus capitais à empre- sa de Farhaj e me obrigou a declarar que o negro tentara agredir o árabe com uma grande faca. Durante o processo, a cabeça do gorila deca- pitado figurou-se como importante peça de convencimento.

Além disto, deve-se dizer que, durante a defesa da causa, Farhaj Bill Alí não ficou detido um único dia. Para tanto, é hora que se apresente o principal personagem da história.

Farhaj Bill Alí era um canalha nato. Tinha antecedentes e não po- dia desmenti-los. O avô de sua mãe havia sido enforcado no mastro de uma fragata como traficante de escravos. O pai de Farhaj foi assas- sinado por um mercador. A mãe de Farhaj se dedicou durante bastante tempo ao contrabando de ébano vivo. Durante uma sesta, um elefante enfurecido a matou com as presas. Farhaj continuou no ofício.

Era ele um congolês alto, magro, de nariz ganchudo. Pertencia ao rito muçulmano. Ornamentava sua cabe- ça um turbante de musselina ama- rela e ninguém jamais o viu despro- vido de seu látego violento. Açoitava por igual a brancos e negros. Certo é que, quando um branco chegava a trabalhar para Farhaj, havia alcança- do sua degradação mais completa.

Depois da feitoria era o presídio.

Ele conhecia meus antecedentes. Quando me apresentei a Farhaj para pedir-lhe trabalho, ordenou que me entregassem uma garrafa de uísque e me mandou partir, dizendo-me:

— Vai e se embriague. Depois, falaremos.

Estive três dias bêbado. No quarto, despertou-me uma chuva de ponta- pés que recebi nas costelas. De pé, junto a mim, frio e irritado, perma- necia o contrabandista. Levantei-me dolorido, enquanto o velhaco me perguntava:

— Vai dormir até o dia do juízo

final? Venha ao armazém. É hora de

que ganhe seu pão.

Assim me iniciei em sua feitoria. Mas nossas relações não podiam ir bem. Um dia que saímos pelo rio, próximos dos chamados “rápidos de Stanley”, em busca de um car- regamento de marfim, depois que havíamos adquirido a mercadoria e, no momento em que os “caçadores” wauas, em suas piráguas, efetuavam ao nosso redor um simulacro de dança náutica, Farhaj quis se apo- derar pela violência de uma escrava que eu havia trocado por uma pis- tola automática. Farhaj alegava que eu não podia adquirir mercadoria de nenhuma espécie enquanto traba- lhava sob suas ordens. Alegou que se os caçadores me venderam a escrava era por causa do prestígio de Farhaj. Evidentemente, o negro procedia de má-fé. Eu era um branco, e à minha compra da negra não podia opor-se nenhum direito.

Então, Farhaj, irritado, respondeu- me que jamais toleraria que a negra vivesse na feitoria.

Eu lhe respondi que, de nenhum modo, pensava em levar minha escrava ao seu covil. Quando pro- nunciei esta última palavra, a irri- tação de Farhaj cresceu tanto que, inclinando-se sobre mim, e antes que pudesse adivinhar sua intenção, escarrou-me na cara.

Deus dos deuses! Disposto a que- brar-lhe os ossos, joguei-me contra ele, mas Farhaj me lançou tal pon- tapé na boca do estômago que caí desvanecido no fundo do barco.

Quando despertei dos efeitos do golpe, da aguardente de banana e do cansaço, minha escrava havia desa- parecido. Encontrava-me desempre- gado e ignominiosamente surrado.

Os negros me olhavam ironica- mente. Compreendi que estava per- dido se não me reconciliasse com Farhaj Bill Alí.

Engolindo meu ódio, lábio sorri- dente e coração traiçoeiro, dirigi-me

à feitoria. O árabe vituperava entre

seus carregadores. Mal se dignou a responder minha saudação. Entrei no escritório do armazém como se nada houvesse ocorrido.

Desde então, minhas relações com

o mercador foram odiosas. Ele me

considerava um escravo desprezí- vel; eu um homem a quem minha vingança algum dia faria ranger os dentes.

Mas está escrito que os caminhos do perverso não vão muito longe.

Poucos dias depois dos

acontecimentos que narrei, morreu na feitoria um gorila adulto que devíamos remeter ao jardim zooló-

gico de Melbourne. Farhaj, que por sua negligência atrasava o envio, mandando todos ao inferno, resolveu enviar em seu lugar um chimpan-

zé que estava ao cuidado de Tula, a

mulher do negro que Farhaj havia assassinado a tiros. Tula estava su- mamente afeiçoada ao macaquinho.

O chimpanzé a seguia como um

moleque travesso segue à sua mãe.

Quando a viúva se inteirou que o macaco seria remetido a um jardim de feras, pôs-se a chorar desconso- ladamente. Era coisa de ver e não

se crer como a negra segurava o

chimpanzé e lhe alisava o pelo e o apertava contra seu peito chorando,

enquanto o macaco, com expressão compungida, olhava ao redor, acari- ciando com seus largos dedos rosa- dos e felpudos as úmidas faces de sua mãe adotiva.

Farhaj Bill Alí era um homem a quem não enterneciam as lágrimas nem de um milhão de negras.

Partiríamos no dia seguinte para

a cidade de Stanley. No mesmo ca-

minhão levaríamos o gorila morto,

o chimpanzé vivo e a negra. Envia-

ríamos o chimpanzé para a cidade de Melbourne. Enquanto a negra ficaria junto ao gorila morto num cupinzeiro.

A caminho de Stanley, a pouco menos de duas léguas da feitoria, descortinava-se um trecho de selva dizimado pelos cupins, ou formigas- brancas. Ali, no claro terreno quei- mado pelo sol, levantava-se uma

espécie de menires de barro de cinco a dez metros de altura. Estes monumentos ocos eram os ninhos dos cupins. Farhaj tinha o costume, quando lhe morria um animal exótico, de vender o esqueleto. Em Stanley, vivia um homem que com- prava os esqueletos dos gorilas para remetê-los a Londres. Provavelmente os esqueletos estavam destinados a estabelecimentos educativos.

A fim de evitar o processo de decomposição natural, Farhaj, de acordo com os costumes do país, levava o cadáver até o cupinzeiro e, com um porrete, abria um bura- co no ninho. Imediatamente, fileiras compactas de cupins cobriam o morto abandonado sobre o buraco. Em poucas horas, o esqueleto ficava perfeitamente limpo.

E não deixarei de acrescentar que, até poucos anos, os traficantes de escravos castigavam os negros muito rebeldes untando-os com mel e amarrando-os a um destes formigueiros.

Carregamos o gorila morto no ve- lho caminhão do mercador. Também a negra e o chimpanzé. Eu ia junto ao árabe que conduzia ao volante. Quero fazer constar que nós éramos as únicas pessoas que restávamos na feitoria. Todos os empregados ha- viam se concentrado no Norte para dar caça a um casal de leões que, na noite anterior, havia devorado um boi. Os homens, armados com com- pridas lanças para caçar elefantes, seguidos por suas mulheres e filhos, haviam adentrado a selva.

Saímos com o sol até a cidade de

Stanley. Torvelinhos de borboletas multicoloridas se esparramavam pelo caminho. Ainda que o cami- nhão deslizasse rapidamente, sabía- mos que éramos vigiados por todos os olhos do bosque. De repente, Farhaj, sem apartar os olhos do vo- lante, disse-me:

— Busque outro amo. Você não me serve.

— Tudo bem — respondi.

Atrás de nós se ouvia o pranto da negra abraçada a seu chimpanzé. Eram uns soluços surdos. Por entre as tábuas, distinguia-se a mulher abraçando ternamente a besta, e o macaco, com expressão compungida, olhava ao redor, brilhantes os olhos lastimosos. A negra acariciava a ca- beça do chimpanzé, que inspeciona- va o rosto de sua mãe adotiva com perplexa vivacidade. Não sabia de qual perigo concreto defendê-la.

— Cale esta boca! — resmungou o

mercador, dirigindo-se à escrava, sem fitá-la, porque, quando dirigia, ele concedia uma importância extraor- dinária a esta operação. Tratando de fingir submissão, eu lhe disse:

— Sinto não ter podido servi-lo.

O árabe se limitou a responder-

me:

— Não serve nem para cortar as babuchas de um vagabundo.

A negra, abraçada ao pequeno

chimpanzé, havia começado a cho- rar outra vez. Subitamente saímos da sombra verde. Acima, estava o céu. Adiante, no clarão queimado pelo sol, os cupins haviam levantado seus rugosos blocos pardos. No topo

de alguns destes ninhos gigantes brotavam matas de erva.

Com rechino de ferraria deteve- se o caminhão. Apanhei o porrete

e me dirigi a um formigueiro três

vezes mais alto do que eu. Parecia um tronco desgastado pela tempes- tade. A negra carregou o saco com

o gorila morto e, trabalhosamente,

agoniada, dirigiu-se ao cupinzeiro. Atrás dela, recurvado, olhando-me

ressentido, caminhava o pequeno chimpanzé.

Levantei o porrete e o desferi con- tra a base do formigueiro. A arga- massa do ninho não cedeu. Farhaj se aproximou, eu levantei o porrete e, antes que ele pudesse evitá-lo, desfe- ri-lhe um vigoroso pontapé na boca do estômago. O mesmo pontapé que ele havia me dado no bote, no dia da festa negra nos “rápidos de Stanley”. Farhaj desfaleceu. Eu disse à escrava:

— Traga o gorila.

A mulher deixou cair pesadamen-

te a besta morta junto ao trafican- te de escravos. Sem perder tempo, despojei-o de seu turbante e, com a comprida tira de musselina, amarrei seus pés e mãos. Logo, desferi outra porretada no cupinzeiro, e um pe- daço de crosta se afundou definiti-

vamente, revelando o interior plutô- nico, sulcado de negros canais pelos quais deslizava febrilmente uma esbranquiçada multidão de formigas cinzas.

— Ajude-me — gritei para a negra.

A escrava compreendeu. Levantan-

do o gorila morto amarrado ao tra- ficante, empurramos os dois corpos

sobre o cupinzeiro. A mulher lançou alguns gritos guturais, o pequeno chimpanzé correu até ela e agarrou- se a seu flanco, tomando-lhe a mão.

Ela, rindo, com os lábios entrea- bertos, ficou contemplando a fervo- rosa fenda do cupinzeiro. Milhares

e milhares de formigas raivosas

cobriam de um lençol cinza os dois vultos. A djelaba de Farhaj e o corpo peludo do gorila ficavam revesti- dos de uma crosta movediça e cin- zenta que se ajustava às crescentes desigualdades daqueles corpos.

A negra e seu filho adotivo observavam aquele final.

Apanhei a garrafa de uísque que havia restado sob o assento do cami- nhão e disse à escrava:

— É melhor que vá e não volte mais.

A mulher, apressadamente segu-

rando a mão do macaco, dirigiu-se ao bosque. Vi-os por uma última vez enquanto entravam no limite da muralha vegetal.

O pequeno chimpanzé, segurando

sua mãe, voltava a cabeça para mim como um moleque ressentido. E, oculto agora atrás de uns cactos, eu aguardava o momento de subir no cavalo que havia escondido na noite anterior. Tula afastou alguns galhos e se fundiu no verde. Eu montei o ca- valo e retornei à feitoria para refor-

çar o álibi, enquanto que ali, sob o sol, ficou Farhaj Bill Alí. As formigas

o comiam vivo.

Extraído de “El Criador de Gorilas”

(1941)

tradução E que os eunucos bufem Prólogo de “Los Lanzallamas” Roberto Arlt trad.: Henry Alfred
tradução
E
que os eunucos bufem
Prólogo de “Los Lanzallamas”
Roberto Arlt
trad.: Henry Alfred Bugalho
Com “Os Lança-chamas”, finaliza o
romance “Os Sete Loucos”.
num quarto infernal. Deus ou o Diabo
estão junto dele ditando-lhe inefáveis
palavras.
Estou contente de ter tido vontade
de trabalhar, em condições bastante
desfavoráveis, para finalizar uma obra
que exigia solidão e recolhimento.
Escrevi sempre em redações estrepito-
sas, acossado pela obrigação da crôni-
ca cotidiana. Digo isto para estimular
os principiantes na vocação, a quem
sempre lhes interessa o procedimento
técnico do romancista. Quando se tem
o que dizer, escreve-se em qualquer
parte. Sobre uma bobina de papel ou
Orgulhosamente, afirmo que escre-
ver, para mim, constitui-se um luxo.
Não disponho, como outros escritores,
de rendas, tempo ou entorpecedores
empregos públicos. Ganhar a vida
escrevendo é penoso e áspero. So-
bretudo se ao trabalhar se pensa que
existe gente a quem a preocupação de
buscar distrações a estafa.
Passando a outra coisa: dizem de
mim que escrevo mal. É possível. De
http://www.flickr.com/photos/3fold/2639030224/

qualquer maneira, não teria dificulda- de em citar uma gente numerosa que escreve bem e a quem unicamente leem membros corretos de suas famí- lias. Para ter estilo, são necessárias co- modidades, rendas, vida folgada. Mas, via de regra, as pessoas que desfrutam de tais benefícios evitam sempre a moléstia da literatura. Ou a encaram como um excelente procedimento para se destacarem em salões da so- ciedade.

Atrai-me ardentemente a beleza. Quantas vezes desejei trabalhar num romance, que como os de Flaubert, se compusesse de telas panorâmicas ! Mas hoje, entre os ruídos de um edi- fício social que se desmorona inevi- tavelmente, não é possível pensar em bordados. O estilo requer tempo, e se eu ouvisse os conselhos de meus ca- maradas, ocorreria comigo o que suce-

de a alguns deles: escreveria um livro

a cada dez anos, para tomar depois

umas férias de uns dez anos por ter demorado dez anos na escrita de cem razoáveis páginas discretas.

Por outro lado, outras pessoas se escandalizam com a brutalidade com

que expresso certas situações perfei- tamente naturais nas relações entre ambos os sexos. Depois, estes mesmos pilares da sociedade me falaram de James Joyce, deixando-me de cabelo em pé. Isto provinha do deleite es- piritual que lhes causava certo per- sonagem de Ulisses, um senhor que toma café da manhã aromaticamente aspirando com o nariz, num banheiro,

o fedor dos excrementos que defecou

um minuto antes.

Mas James Joyce é inglês. James Joyce não foi traduzido para o espa- nhol, e é de bom gosto encher a boca

para falar dele. No dia em que James Joyce estiver ao alcance de todos os bolsos, os pilares da sociedade inven- tarão um novo ídolo a quem não lerão senão meia dúzia de iniciados.

Na realidade, não se sabe o que pensar desta gente. Se são idiotas de verdade, ou se encarnam o papel na tosca comédia que representam em to- das as horas de seus dias e suas noites.

De qualquer maneira, como pri- meira providência, resolvi não enviar nenhuma obra minha para a seção de crítica literária dos jornais. Com qual objetivo? Para que um senhor enfático, entre o estorvo de duas chamadas te- lefônicas, escreva para a satisfação das pessoas honráveis:

“O senhor Roberto Artl persiste afer- rado a um realismo de péssimo gosto, etc., etc.”

Não, não e não.

Estes tempos passaram. O futuro é nosso por prepotência de trabalho. Criaremos nossa literatura, não con- versando continuamente sobre litera- tura, senão escrevendo, em orgulhosa solidão, livros que encerrem a vio- lência de um murro no queixo. Sim, um livro depois do outro, e “que os eunucos bufem”.

O porvir é triunfalmente nosso.

Nós o conquistamos com suor de tinta e ranger de dentes, diante da Underwood, que golpeamos com mãos

fatigadas, hora após hora. Às vezes,

caía a cabeça de fadiga, mas

to escrevo estas linhas penso em meu próximo romance. Será intitulado “O Amor Bruxo”. E que o futuro decida.

Enquan-

Extraído de “Los Lanzallamas” (1931)

tradução Roberto Arlt trad.: Henry Alfred Bugalho d iálogo de Leiteria Dias atrás, do outro
tradução
Roberto Arlt
trad.: Henry Alfred Bugalho
d
iálogo de
Leiteria
Dias atrás, do outro lado do tabique, em
uma leiteria com pretensões de “reservada
para famílias”, escutei um diálogo que me
grudou ao ouvido, pela malandragem que
resultava. Indubitavelmente, o indivíduo era
um piadista, porque as coisas que dizia leva-
vam ao riso. Aqui está o que mais ou menos
guardei:
olhos
O
Sujeito – E agora ameaça a minha
segurança pessoal. Você se dá conta? Quer
privar-me de minha liberdade de arbítrio?
Ela – Que disparates está dizendo!
O
Sujeito – É claro. Você não quer me
deixar em paz. Pretende que como um
manso cabrito eu passe a vida adorando-a
O
Sujeito – Diga-me, eu não lhe jurei
amor eterno. Você pode afirmar sob teste-
munho de escrivão público que lhe jurei
amor eterno? Você me jurou amor eterno?
Não. E então ?
Ela – Manso cabrito, você? Que safado
desavergonhado até dizer chega
O
Sujeito – Não satisfeita em ameaçar
minha segurança pessoal, você me injuria
Ela – Nem precisava que lhe jurasse,
porque sabe bem que o amo
com palavras.
O
Sujeito – Hum
Isto é farinha de outro
Ela – Se não me jurou amor eterno, em
troca me disse que me amava
saco. Agora falemos de amor eterno. Se
eu não lhe jurei amor eterno, por que me
interroga e se queixa?
O
Sujeito – Isto é farinha de outro saco.
Uma coisa é amar
e outra coisa, amar sem-
Ela – Monstro! Eu lhe arrancaria os
pre. Quando lhe disse que a amava, amava-
a. Agora
http://www.flickr.com/photos/therikpics/5437751951/

Ela (ameaçadora) – Agora, o quê?

O Sujeito (tranquilamente) – Agora não a

quero como antes.

Ela – E como me quer, então?

O Sujeito (com muita doçura) – Eu a

quero

Ela – Um descarado como você nunca havia conhecido.

bem longe

O Sujeito – Por isto sempre lhe recomen-

dei que viajasse. Viajando se aprende. Mas

não vá a viajar de ônibus, nem de bonde.

Pegue um navio grande, grandão, e vá longe.

Ela (furiosa) – E por que me beijava, então?

O

Sujeito – Ahã

Isto é farinha de outro

saco

Ela – Parece um padeiro.

O Sujeito – Eu a beijava, porque se não a

beijasse você iria dizer a suas amigas: “Ve- jam que homem mais sonso; nem me beija”

Ela (bufando) – Eu não sei como não o mato! Então você beijava com vontade de beijar-me?

O Sujeito – Não exageremos. Um pouco

também me agradava to você pensa

Ela – Se pode saber, diga-me, onde você foi criado? Porque é um sem-vergo- nha. Nunca teve. Desconhece o que seja vergonha.

Mas não tanto quan-

O

mido

Sujeito – No entanto, sou muito tí- Já viu quanto rodeio faço antes de

Sujeito – No entanto, sou muito tí- Já viu quanto rodeio faço antes de

mandá-la ao inferno querida; não se irrite

Ela (voltando ao assunto) – Da maneira que você me beijava

Não, ao inferno não, é um jeito de falar.

O Sujeito – Meu Deus! Se tivesse de pres-

tar contas pelos beijos dados, teria de estar no presídio quinhentos anos. Você parece uma norte-americana.

Ela – Norte-americana! Por quê?

O Sujeito – Porque lá é dar um beijo

num cabo de vassoura e dançou! A única

indenização tolerada é o casamento

modo que aos beijos não dê importância.

De

Agora, se eu a houvesse feito perder sua inocência, seria outra coisa

Ela – Eu não sou inocente. Inocentes são os loucos e os bobos

O Sujeito – Convenhamos que você disse

uma verdade grande como uma casa. E logo me repreende por ser injusto. Eu lhe dou

a razão, querida. Sim, dou-lha amplamente. Por qual pecado me repreende, então? O que eu tenha lhe dado uns beijos?

Ela – Uns beijos? Foram uns quarenta.

Está errada, ou tenho de

supor que você não entende de matemática.

Digamos que foram dez beijos

na conta. Tampouco chegam a dez. Ademais,

não valem porque são ósculos paternais

agora, depois de ficar brava que a tenha bei- jado, fica brava porque não quero continuar beijando-a. Quem entende vocês mulheres?

Ela – Irrito-me porque você quer me abandonar infamemente.

O Sujeito – Eu não lhe dei mais do que

uns beijos para que você não dissesse a suas amigas que eu era um sujeito sonso. Não tenho outro pecado em minha cons- ciência. Do que você me recrimina? Posso saber? Não gosto de fazer comédias. Você se entedia em sua casa, encontra-se comigo e gruda em mim como se eu fosse seu pai. E eu não quero ser seu pai. Eu não quero ter responsabilidades. Sou um homem virtuoso, tímido e tranquilo. Gosto de abrir a boca como um paspalho diante de um malandro que vende banha de serpente ou panelas

inoxidáveis. Você, por outro lado, se esforça para que eu lhe jure amo eterno. E eu não quero jurar-lhe amor eterno nem transitório. Quero andar vagando tranquilamente sozi- nho, sem uma fulana atrás de mim que con-

ta histórias infantis e manjadas

me dá um beijo sem graça, você me faz uma demanda como se houvesse me emprestado

a juros compostos os tesouros de Rotschild.

O Sujeito – Não

E estaremos

E

e, porque

Ela – Mas você é impossível

O Sujeito – Sou um autêntico homem

honrado.

Extraído de “Aguasfuertes Porteñas” (1933)

Roberto Emilio Gofredo Arlt (Buenos Aires, 26 de abril de 1900 – 26 de julho de 1942), conhecido como Roberto Arlt, foi um roman- cista, contista, dramaturgo, jornalista e inventor argentino.

Roberto Arlt se esfor-

çou por criar confusão sobre

a data de seu nascimento,

encontrando-se assim em suas distintas biografias as datas de 2 ou 7 de abril. Em sua certidão de batismo, e na de nascimento expedida pelo Registro Civil, consta como data de nascimento 26 de abril de 1900.

Filho do prussiano Karl Arlt e da austro-húngara Ekatherine Iostraibitzer, um casal de imigrantes pobres recém-chegados à Argentina, sua infância transcorreu no bairro portenho de Flores. No ambiente familiar falava-se alemão; teve duas irmãs que morreram de tuberculose (uma em tenra idade e a outra, Lila, em 1936). A relação com seu pai foi marcada por um tratamento severo e pouco permissivo, ou diretamente sádico.

Roberto Arlt sempre se lembrou que, quando era

criança, seu pai, diante de qualquer suposta “falta”, dizia- lhe: “amanhã, quando amanhe- cer, vou açoitá-lo”, e Roberto Arlt quase não conseguia dormir à noite, pois observava

o relógio do quarto, esperando

os golpes que, de madrugada, seu pai lhe infligiria. A memó- ria de seu pai aparecerá nos escritos futuros. Foi expulso da escola aos oito anos e se tornou autodidata. Traba-

lhou num periódico local, foi ajudante de uma biblioteca,

pintor, mecânico, soldador, trabalhador portuário e geren- ciou uma fábrica de azulejos. Em 1926, escreve seu primeiro romance, “El Juguete Rabioso”, ao qual intitularia inicial- mente “La Vida Puerca”, mas

nesta época Arlt era secretário

e, depois, amigo de Ricardo

Güiraldes, que lhe sugeriu que este título seria dema- siadamente grosseiro para os leitores da época. Também trabalhou como jornalista para “El Mundo”, que editaria suas famosas “Aguafuertes”. Morreu de ataque cardíaco em Buenos Aires, em 26 de julho de 1942.

Obra

Em seus relatos são des- critos com naturalidade e humor as baixezas e grandezas de personagens imersos em

ambientes indolentes. Deste modo, retrata a Argentina dos imigrantes recém-chegados que tentam inserir-se num meio regido pela desigualdade

e opressão. Escreveu contos

que entraram para a História

da Literatura, como “El joroba- dito”, “La luna roja” e “Noche terrible”. Por sua maneira de escrever direta e distante da estética modernista, descreve- ram-no como “descuidado”, o que o contrasta com a força fundadora que representou a literatura argentina do século

XX.

Após sua morte aumen-

tou seu reconhecimento e é considerado como o primeiro autor moderno da Argentina. Escritores como Ricardo Piglia, César Aira ou Roberto Bolaño são herdeiros diretos de algu- mas de suas buscas literárias. Do mesmo modo, Cortázar o

considerou seu mestre.

A partir da década de 1930, incursionou no teatro e, na última etapa de sua vida, só escreveu para este gênero.

Suas peças estrearam no circuito de teatro indepen- dente de Buenos Aires, mais exatamente no Teatro del Pueblo, dirigido por Leónidas Barletta. Rompe com o realis- mo e aborda os problemas da alienação através do desdobra- mento da cena. Somente “El fa- bricante de fantasmas” estreou no circuito comercial, com um grande fracasso. Depois de sua