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SAMIZDAT

SAMIZDAT www.revistasamizdat.com 34 setembro 2012 ano V ficina
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setembro 2012 ano V ficina
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2012
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SAMIZDAT www.revistasamizdat.com 34 setembro 2012 ano V ficina
SAMIZDAT www.revistasamizdat.com 34 setembro 2012 ano V ficina

SAMIZDAT 34

setembro de 2012

Edição, Capa e Diagramação Henry Alfred Bugalho

Editora de poesia Mariana Valle

Autores Adriane Dias Bueno Aline Nardi Ana Peres Batista André Kondo Caio Dezorzi Cinthia Kriemler Cris Dakinis Danilo Augusto de Athayde Fraga Diana Cunha Gil Edweine Loureiro Fábio Wanderson de Sousa Fernando Domith Geovani Doratiotto Henrique César Cabral Henry Alfred Bugalho Isabela Penov Isabella Gonçalves João Paulo Hergesel João Vereza Joaquim Bispo Léo Tavares Leonardo Araújo Letícia Simões Lilly Araújo Luís Felipe Sprotte Mariza Lacerda Otávio Martins Rodrigo Pereira dos Santos Silvana Michele Ramos Volmar Camargo Júnior Zulmar Lopes

Textos de:

Cruz e Souza William Blake

www.revistasamizdat.com ISSN 2281-0668

Editorial

A Revista SAMIZDAT sempre teve um espírito combativo. Ela nasceu da nossa revolta, e também de uma certa angús- tia. Não pretendemos revolucionar a Literatura, tampouco transformar o mundo. Nossos anseios como escritores são muito mais básicos e essenciais: queremos ser lidos, deixarmos definitivamente as sombras e expormos aos demais nossos trabalhos. Não é fácil bater-se contra o muro de indiferença do mercado literário, Obstáculos mil tentam nos convencer que não há mais espaço, que qualquer esforço é vão e que nossas obras não têm valor, porém, não nos cansamos e jamais des- cansaremos. Não desistiremos, por mais que nos rejeitem ou nos ignorem. Pois desistir não é uma opção quando a escrita está entranhada até os ossos. Recentemente, numa entrevista, afirmei que: “há um mito que os artistas são sentimentais, mas isto é conversa fiada; para ser um artista é preciso trajar suas armas e armaduras e prepa- rar-se para uma guerra sem fim.” Estamos atolados até o pescoço nesta guerra sem fim, combatendo até o limite de nossas forças para chegarmos aos nossos leitores fiéis, aqueles que justificam todas as horas gastas na criação de personagens, universos, versos e conceitos. Escrevemos para você. E a sua leitura é o combustível que nos moverá adiante, apesar de todos os contratempos inevitáveis.

Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.

Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons.

Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Com- mons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copyright dos EUA (§107-112).

As ideias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores da revista.

Sumário

Sumário Por quE Samizdat? 8   Henry Alfred Bugalho autor Em LÍNGua PortuGuESa Broquéis 10  
Sumário Por quE Samizdat? 8   Henry Alfred Bugalho autor Em LÍNGua PortuGuESa Broquéis 10  
Sumário Por quE Samizdat? 8   Henry Alfred Bugalho autor Em LÍNGua PortuGuESa Broquéis 10  

Por quE Samizdat?

8

 

Henry Alfred Bugalho

autor Em LÍNGua PortuGuESa Broquéis

10

 

Cruz e Souza

CoNtoS

 

Algo Indefinível

12

 

Joaquim Bispo

Morfeu, Morfina

15

 

Mariza Lacerda

o

Galo meu

16

Henry Alfred Bugalho

microcontos

19

 

Edweine Loureiro

o

“Gato” maluco

20

Lilly Araújo

Budapeste vai à Praia

24

 

Luís Felipe Sprotte

Nadja ausente

28

 

Isabela Penov

Grávida

32

 

Aline Nardi

iniciação

34

 

Léo Tavares

o

Bichinho

36

Diana Cunha Gil

João Pilão – o Sineiro de del rei

38

Fábio Wanderson de Sousa

o Centauro de Saramago 40 Zulmar Lopes Sonho de Cores 42   Isabella Gonçalves ocolândia
o Centauro de Saramago 40 Zulmar Lopes Sonho de Cores 42   Isabella Gonçalves ocolândia
o Centauro de Saramago 40 Zulmar Lopes Sonho de Cores 42   Isabella Gonçalves ocolândia

o

Centauro de Saramago

40

Zulmar Lopes

Sonho de Cores

42

 

Isabella Gonçalves

ocolândia

44

 

Silvana Michele Ramos

menina na tempestade

48

 

João Vereza

Sombras de Carne

50

 

Cinthia Kriemler

traduÇÃo

 

Provérbios do inferno

54

 

William Blake

A

Imagem Divina

58

William Blake

O

Cordeiro

59

William Blake

artiGo

o muro de indiferença, ou a invisibilidade dos

candidatos a escritores

66

Henry Alfred Bugalho

tEoria LitErÁria os Signos do mundo, do amor e da Sensibilidade na Literatura de marcel Proust

74

Leonardo Araújo

 

CrÔNiCa

Crônica transitiva

78

Adriane Dias Bueno

Sinestesia, oximoro e anadiplose

80

João Paulo Hergesel

 

A

5ª Sinfonia de Beethoven

82

Otávio Martins

PoESia ii Concurso de Poesia autores S/a

86

Letícia Simões

87

Cinthia Kriemler

88

Geovani Doratiotto

89

Henrique César Cabral

90

malvina

91

Cris Dakinis

Visitante

92

Volmar Camargo Junior

Procedimentos técnico-administrativos em Caso de desordem na Gaveta dos Papéis involuntariamente Esquecidos

94

Volmar Camargo Junior

Caem Corpos em Pinheirinho

96

Caio Dezorzi

Sobre o trabalho do tempo

98

André Kondo

Noturno para Franz

99

Danilo Augusto de Athayde Fraga

Joanna

100

Fernando Domith

mendigo de tal

101

Ana Peres Batista

dançando e Encontrando – Loucuras Sãs

102

Rodrigo Pereira dos Santos

– Loucuras Sãs 102 Rodrigo Pereira dos Santos Siga-nos no Facebook e twitter e acompanhe as
– Loucuras Sãs 102 Rodrigo Pereira dos Santos Siga-nos no Facebook e twitter e acompanhe as

Siga-nos no Facebook e twitter e acompanhe as novidades da revista Samizdat

     
   

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O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

6 SAMIZDAT setembro de 2012

ficina www.oficinaeditora.com

ficina

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Participe da Revista SAMIZDAT 35 A Revista SAMIZDAT conta com a sua participação para manter
Participe da Revista SAMIZDAT 35
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A Revista SAMIZDAT conta com a sua

participação para manter o alto padrão das publicações.

Aceitamos e estimulamos a participação de autores estreantes, pois o nosso objetivo é apresentar a maior diversidade possível de autores, gêneros e textos.

instruções para envio de obras

1 - Cada escritor poderá inscrever, nos

respectivos campos, somente 1 (um) tex- to literário para publicação, de qualquer

gênero - conto, crônica, poesia, microconto

- ou um (1) texto teórico, como artigo de

teoria literária, resenha de livros, ou entre- vista, além de traduções de textos literários em domínio público, sob licença Creative Commons ou com a expressa autorização do autor. A temática é livre.

O autor também deve enviar uma breve

biografia na primeira página do arquivo.

2 - O limite máximo para cada texto

literário é de mil (1000) palavras, ou 4 páginas em A4, fonte Times ou Arial 12, espaçamento 1,5. O envio dos textos não implica na aceitação automática, a seleção dependerá da quantidade de textos envia- dos, da qualidade literária e da disponibi- lidade de espaço na revista. A revisão dos textos é de responsabilidade de seus auto- res. O texto não precisa ser inédito.

3 - Os textos devem ser enviados até o dia 31 de dezembro de 2012 através do nosso gerenciador de submissões (link abaixo) em um arquivo anexo, em formato .DOC, .DOCX ou .TXT.

Por favor, aguarde o período de um mês após receber a resposta antes de enviar um outro texto.

Não aceitamos mais textos enviados por e-mail.

4 - Os textos selecionados serão publi-

cados na edição 35 da Revista SAMIZDAT na segunda quinzena de janeiro de 2013, no site

www.revistasamizdat.com

ou poderão aparecer no site, caso a edição em .PDF já esteja fechada.

5 - Os textos serão publicados sob

licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas e o autor não será remunerado.

O envio de textos implica na aceitação por

parte do autor destes termos.

6 - Os organizadores da SAMIZDAT se

reservam o direito de não publicar a revis-

ta, caso o número de submissões não seja

o suficiente para o fechamento da edição.

7 - O não cumprimento dos itens acima poderá implicar na desqualificação da obra enviada.

Contamos com a sua participação!

Atenciosamente,

Henry Alfred Bugalho

Editor

Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky
Henry Alfred Bugalho
inclusão e Exclusão
henrybugalho@hotmail.com
logo se converte em uma di-
tadura como qualquer outra.
É a microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de
inclusão e exclusão.
O
grupo dominante, pela
própria natureza restritiva
do poder, costuma excluir ou
ignorar tudo aquilo que não
pertença a seu projeto, ou
que esteja contra seus prin-
cípios.
Em reação, aqueles que
se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
riam, ou não conseguiam,
fazer parte da máquina
administrativa – que esti-
pulava como deveria ser a
cultura, a informação, a voz
do povo –, encontraram na
autopublicação clandestina
um meio de expressão.
Em regimes autoritários,
esta exclusão é muito eviden-
te, sob forma de perseguição,
censura, exílio. Qualquer um
que se interponha no cami-
nho dos dirigentes é afastado
Datilografando, mimeo-
grafando, ou simplesmente
manuscrevendo, tais autores
russos disseminavam suas
ideias. E ao leitor era incum-
e
ostracizado.
As razões disto são muito
bida a tarefa de continuar
esta cadeia, reproduzindo tais
obras e também as passando
simples de se compreender:
o
diferente, o dissidente é
perigoso, pois apresenta
alternativas, às vezes, muito
melhores do que o estabe-
lecido. Por isto, é necessário
suprimir, esconder, banir.
adiante. Este processo foi de-
signado "samizdat", que nada
mais significa em russo do
que "autopublicado", em opo-
sição às publicações oficiais
do regime soviético.
A
União Soviética não
foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo de um samizdat. Corte-
sia do Gulag Museum em Perm-36.

E por que Samizdat?

A indústria cultural – e o

mercado literário faz parte dela – também realiza um processo de exclusão, base- ado no que se julga não ter valor de mercado. Inexplica- velmente, estabeleceu-se que

contos, poemas, autores des- conhecidos não podem ser comercializados, que não vale

a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que

o lucro.

A indústria deseja o pro-

duto pronto e com consumi- dores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mes- mo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.

E a autopublicação, como em qualquer regime exclu- dente, torna-se a via para produtores culturais atingi- rem o público.

Este é um processo soli- tário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes apa- ratos midiáticos – como TV,

revistas, jornais – onde ele possa divulgar seu trabalho.

O

único aspecto que conta é

o

prazer que a obra causa no

leitor.

Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro

lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua pala- vra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros,

é quem recebe os louros por seus acertos.

E, com a internet, os au-

tores possuem acesso direto

e imediato a seus leitores. A

repercussão do que escrevem (quando há) surge em ques- tão de minutos.

A serem obrigados a

burlar a indústria cultural,

os autores conquistaram algo

que jamais conseguiriam de

outro modo, o contato qua-

se

pessoal com os leitores,

o

diálogo capaz de tornar a

obra melhor, a rede de conta-

tos que, se não é tão influen-

te quanto a da grande mídia,

faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há

grandes tiragens que subs- tituam o prazer de ouvir o

respaldo de leitores sinceros,

que não estão atrás de gran- des autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos.

Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pós-

modernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a

orientação dum grupo. São apenas escritores interessados

em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim

a heterogeneidade.

Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de auto- publicação, mas “Samizdat” porque também é um modo

de contornar um processo

de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica gratuita, escrita, editada e publicada pela novíssima geração de autores lusófonos. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais. www.revist asamizdat.com www.revistasamizdat .com 99

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Autor em Língua Portuguesa

Broquéis

Cruz e Souza
Cruz e Souza

Cruz e Souza

Encarnação

Carnais, sejam carnais tantos desejos, Carnais, sejam carnais tantos anseios, Palpitações e frêmitos e enleios, Das harpas da emoção tantos arpejos

Sonhos, que vão, por trêmulos adejos,

À noite, ao luar, intumescer os seios

Lácteos, de finos e azulados veios De virgindade, de pudor, de pejos

Sejam carnais todos os sonhos brumos De estranhos, vagos, estrelados rumos Onde as Visões do amor dormem geladas

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias

Formem, com claridades e fragrâncias,

A encarnação das lívidas Amadas!

Carnal e Místico

Pelas regiões tenuíssimas da bruma Vagam as Virgens e as Estrelas raras Como que o leve aroma das searas Todo o horizonte em derredor perfume.

N’uma evaporação de branca espuma Vão diluindo as perspectivas claras Com brilhos crus e fúlgidos de tiaras As Estrelas apagam-se uma a uma.

E então, na treva, em místicas dormências Desfila, com sidéreas lactescências, Das Virgens o sonâmbulo cortejo

Ó Formas vagas, nebulosidades!

Essência das eternas virgindades!

Ó intensas quimeras do Desejo

10 10

SAMIZDAT setembro de 2012

SAMIZDAT setembro de 2012

http://www.flickr.com/photos/7522203@N06/434640017/

Flor do mar

És da origem do mar, vens do secreto, Do estranho mar espumaroso e frio Que põe rede de sonhos ao navio,

E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afeto, As dormências nervosas e o sombrio

E torvo aspecto aterrador, bravio

Das ondas no atro e proceloso aspecto.

Num fundo ideal de púrpuras e rosas Surges das águas mucilaginosas Como a lua entre a névoa dos espaços

Trazes na carne o eflorescer das vinhas, Auroras, virgens músicas marinhas, Acres aromas de algas e sargaços

Sinfonias do ocaso

Musselinosas como brumas diurnas Descem do ocaso as sombras harmoniosas, Sombras veladas e musselinosas Para as profundas solidões noturnas.

Sacrários virgens, sacrossantas urnas, Os céus resplendem de sidéreas rosas, Da lua e das Estrelas majestosas Iluminando a escuridão das furnas.

Ah! por estes sinfônicos ocasos A terra exala aromas de áureos vasos, Incensos de turíbulos divinos.

Os plenilúnios mórbidos vaporam E como que no Azul plangem e choram Cítaras, harpas, bandolins, violinos

João da Cruz e Sousa

(Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis), 24 de novembro de 1861 — Estação do Sítio, 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro.

Alcunhado Dante Negro e Cisne Negro. Foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.

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11

 

Conto

 
 
Joaquim Bispo
Joaquim Bispo
Joaquim Bispo

Joaquim Bispo

Joaquim Bispo
Joaquim Bispo
 

Algo

Indefinível

Quando o padre Vicente entrou na barbe- aria, temeu por um momento que não fosse conseguir cortar o cabelo antes da missa das seis: na cadeira do ti Matias estava o presi- dente da Junta, e à espera estava o secretário, mas depressa percebeu que este não vinha para cortar o cabelo; simplesmente acompa- nhava o chefe para todo o lado.

à

Leirosa do Côa há pouco mais de um mês e quase só conhecia o pequeno grupo que ia

missa. Ainda não tinha atingido os trinta

anos, era alto e rosado, e não vestia batina.

Sim, já conheço bastantes paroquianos,

alguns até em confissão. Já se confessaram

este ano? – inquiriu, com um prazer pouco católico.

 

Boa tarde, meus senhores! – cumprimen-

Lá havemos de ir, Sr. padre – respondeu

tou.

o

presidente, prazenteiro. Era um homem na

Boa tarde, Sr. padre! – responderam os três em coro.

casa dos sessenta, um pouco anafado, de ca- belo ralo e nariz abatatado. – Todos os anos, pela Páscoa, me confesso. Eu e aqui o meu secretário, não é verdade, Simão?

O visado acenou que sim, subserviente. Teria quarenta e poucos anos, usava o cabe- lo liso com brilhantina e trazia um fato às riscas.

Sentou-se num dos bancos forrados a napa que se alinhavam voltados para a majestosa cadeira onde os homens se vinham libertar de sumptuosas melenas, quando se tornavam demasiado rebeldes para aceitar o pente. No rádio acabara de cantar Artur Garcia e anunciava-se Suzy Paula.

Mas isto é uma terra sem pecados – car-

Então, Sr. padre, já está ambientado cá à terra? – perguntou o presidente.

regou o presidente, enquanto o barbeiro se esmerava no recorte da orelha direita. – Aqui

 

O padre Vicente tinha sido colocado em

é

tudo boa gente, sem cobiça, sem luxúria.

 

Olhe, aquela que ali vai, a D. Clotilde, não deve ter mais de cinquenta anos; ficou viúva há uns quatro anos e nunca mais se lhe co- nheceu homem, ou sequer interesse por eles. Passa a vida na igreja. Às vezes, até gostava que houvesse mais movimento, para a gente ter de que falar, sem ser só de caça. A pro- pósito, o Sr. padre não caça? – rematou, com muita malícia na entoação. – Há por aí umas coelhas…

O secretário e o barbeiro riram-se, mas com pouco à-vontade, devido à inconveniên- cia do presidente da Junta. O padre também riu, e sem cinismo.

– Há muito tempo que a minha alma e o

meu corpo pertencem à Igreja. Sou homem, reparo quando uma mulher é bonita, mas es- tou comprometido com algo maior e só aos seus encantos me dedico – acentuou, numa meia verdade. Fazia parte do saber viver do relacionamento social.

– Ah, Sr. padre, contam-se muitas histórias

de padres e saias. E não são batinas. Ali na aldeia de Trevez correram com o de lá, há uns cinco anos, porque andava metido com a governanta, o desavergonhado. Levou uma sova!

– Há sempre ovelhas ronhosas em todos

os rebanhos. Por mim, espero ficar aqui por muitos anos, com o respeito de todos, que já

vi que estou entre gente honrada.

Sentada numa das filas da frente da igreja, D. Clotilde observava o Cristo crucificado de tamanho natural, que estava em fundo, so- branceiro ao altar-mor. Os seus olhos percor- riam os músculos das pernas, magras e ossu- das, como as do seu Albano, que Deus tinha. Custava-lhe muito a viuvez. Nenhum homem

se tinha aproximado, a não ser o untuoso do

presidente da Junta, com umas insinuações porcas. Ela própria também não se mostrava acessível. Tinha muitas saudades, mas do seu homem. Recordava-o, ao olhar este Cristo: o mesmo corpo ossudo, a barba, uma certa ex- pressão de abandono. Ficava horas esquecidas

a percorrer-lhe o corpo com o olhar. Em

momentos de maior desvario, imaginava que

o abraçava, indefeso, e lhe arrancava o pano

que a separava de algo tão indefinível que só se reconhece quando se volta a experimentá- lo. Louca! O mais perto que conseguia chegar desse algo indefinível acontecia quando, antes de adormecer, se persignava interminavel- mente com o crucifixo, em que um Cristo em tudo igual, só que mais pequeno, abria os braços de impotência perante tal carência. Roçava com ele os peitos, por cima da cami- sa de dormir: “do Espírito” – “Santo”. Elevava- o ao rosto, aos lábios, beijava-o: “Em nome do Pai”; baixava-o até ao ventre: “do Filho”, a rojar sempre um pouco mais abaixo, a cada descida.

Pouco depois, de cabelo cortado e pes- coço escanhoado, o presidente abandonou a barbearia do ti Matias, seguido pelo secretá- rio. O padre Vicente sentou-se, pediu só uma aparadela, e daí a pouco estava na igreja.

D. Irene, a esposa do presidente da Junta, veio pedir-lhe para se confessar. Era uma paroquiana muito bem arranjada, de uns cinquenta anos. Como ainda faltava quase

meia hora para a missa, o padre acedeu. Pôs

a estola e sentou-se no confessionário. Do

outro lado da grelha, a senhora, em vozinha sussurrante, pediu perdão dos pecados e co- meçou a estender um rol dos atos que vinha

a ter com o seu homem e que ela temia que

fossem pecados da carne. Pormenorizava o

que ele fazia, como fazia, com que vagares. O padre Vicente, envolvido pelo perfume floral de D. Irene, ia ouvindo a confissão num fluxo morno ciciado junto ao seu ouvido, tentando avaliar se a paroquiana era culpada de luxú- ria ou tudo se devia ao cio do marido. Foi a voz suave de D. Irene que se encarregou de

o elucidar: queria confessar tudo, porque se

sentia culpada de ter gostado e de ter cola-

borado com entusiasmo. “Perdoai-me padre, que eu pequei”, pedia. O sacerdote observa- va o rubor do rosto da pecadora, os lábios cheios, o suave arquejo do peito generoso.

Concluiu pela condenação: vinte pai-nossos.

D. Irene sentou-se na sua cadeirinha almo- fadada da primeira fila e esperou pela missa, enquanto cumpria a penitência. Sentia-se mais aliviada. Tinha confessado tudo. Ou quase. Tinha descrito as partes mais esca- brosas, mas dissimulara com quem praticara os atos confessados. Não tivera coragem de contar que, todas as quintas-feiras, enquanto o marido ia à reunião com o presidente da Câmara, na cidade, ela se encontrava com o secretário Simão, num anexo da Junta. Por outro lado, cedera ao prazer mórbido de se alongar em pormenores, para ver a reação do jovem padre. Pressentira a sua perturbação, o que, inexplicavelmente, lhe agradara.

O padre Vicente disse a missa um pouco inquieto. Não que duvidasse da sua vocação, mas aquela vozinha insinuante reavivara-lhe algumas memórias gratas de adolescente. Quando chegou o momento da comunhão, D. Irene encabeçou a pequena fila de comun- gantes. Ajoelhou à frente do padre, abriu a boca, pôs a língua ligeiramente de fora, esten- deu um pouco o rosto para a frente e fechou os olhos. O padre, sugestionado, pensou reconhecer nesta visão uma das peripécias lúbricas ouvidas há pouco em confissão, mas mal hesitou: pegou na hóstia branca e, com calma forçada, depositou-a na língua húmi- da e rosada da cativante paroquiana. Logo a língua se recolheu com a sua preciosa carga, como se recolheu D. Irene à sua cadeira, de cabeça humildemente baixa, tentando não

Joaquim Bispo

morder o que era para manter na boca até se liquefazer.

Acabada a missa, o padre Vicente refu- giou-se no seu pequeno reservado da sacris- tia. Depois de, em gestos rápidos, retirar os paramentos, sentou-se na cadeira da escriva- ninha e abriu a sua Bíblia, de onde retirou um “santinho”. Era uma reprodução de uma “virgem do leite” do pintor Frei Carlos, que ele procurava em momentos de maior per- turbação, desde os longos tempos de desam- paro do seminário. Reviu o rosto adolescente da imagem, o olhar inocente, a boca onde parecia aflorar um sorriso compreensivo. Demorou-se a contemplar o seio da Vir- gem, que esta apertava, e do qual jorrava um fino esguicho de leite em direção à boca do menino, da qual escorria em veios brancos pelo queixo. A estampa, talvez pela assumida carnalidade, desencadeava sempre um mo- vimento da sua alma, desta vez potenciado pela visão da boca recetiva de D. Irene e dos seus dois dedos a introduzirem nela o corpo de Cristo, com a mesma delicadeza com que agora seguravam o seu corpo e, mentalmente, repetiam o mesmo gesto. A comunhão de corpo e alma com o divino não tardou. Em arrebatamento. Em ausência de si. Em trans- cendência. Deus atingia-se de muitos modos.

Conto integrante da coletânea de contos “Ora, vejamos… 2009”

Português, reformado, ex-técnico de televisão, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais de Henry Bugalho e de Marco Antunes. Rejeitado pelas editoras, tem obtido, no entanto, alguns prémios em concursos literários dos dois lados do Atlântico.

Contacto: episcopum@hotmail.com

Contos Morfeu, Morfina Mariza Lacerda Meu coração, acelerado, tentava entoar uma melo- dia que velasse
Contos
Morfeu, Morfina
Mariza Lacerda
Meu coração, acelerado, tentava entoar uma melo-
dia que velasse o teu sono. Meus olhos, paralisados,
tentavam penetrar em teus mais secretos sonhos.
Meus braços, inquietos, imaginavam-se abraçando e
embalando o teu corpo. Meus lábios, sedentos, de-
sejavam revisitar os traços do teu rosto. Eu já não
sabia se era noite ou se era dia. Apenas te olhava,
enquanto dormias.
http://www.flickr.com/photos/socialspice/5713714538/

http://www.flickr.com/photos/kaozkz/4826424573/

Conto

o Galo meu

Henry Alfred Bugalho
Henry Alfred Bugalho
Henry Alfred Bugalho

Henry Alfred Bugalho

Henry Alfred Bugalho

Ele desfilava com imponência pelo

quintal da minha vó: o meu galo. O mais lindo de todos, alto, quase do meu próprio tamanho no auge de meus oito anos, com uma plumagem reluzente, o pescoço de um azul vivo e brilhante,

e esporas ameaçadoras como lâminas, mesmo sendo um galo pacífico, até onde eu podia perceber.

Encantava-me o mundinho dos gali- náceos, todos se aglomerando desespe- radamente para comer a quirera que minha vó lançava ao ar, gritando:

— Cuti-cuticuticuti!

Vinham as galinhas e os pintinhos, redondinhos e amarelinhos, e também os frangotes desengonçados. Mas o

meu galo, não, observava tudo de longe,

o dono absoluto do terreiro.

Ele não havia sido sempre meu galo, até que, num verão, fiz o pedido:

— Vó, sabe aquele galo grandão?

— Sei sim.

— Dá ele pra mim?

— E o que você vai fazer com um galo, moleque?

— Cuidar dele.

— Então ‘tá certo.

Assim, daquele dia em diante, o galo mais lindo de todos havia se tornado o

meu galo. Batizei-lhe de Harrison, e era

o meu dever jogar-lhe a quirera:

— Cutu-cuticuticuti! Vem cá,

Harrison!

E lentamente ele vinha, cheio de si, bicando a comida com soberbia.

Pensei muito no meu galo na via- gem de volta para a cidade, repleto de planos para as próximas férias. Existia coleira para galos? Assim eu poderia exibir-me com ele pela vizinhança da minha vó, eu e o mais galo dos galos, o Hulk Hogan dos galos, temível e gran- dalhão. A molecada e as donas de casa se recolheriam ao ver-me caminhando com o galo ao meu lado, atemorizados que ele pudesse se soltar da coleira e sair bicando e esporeando a torto e a direito, muito mais perigoso do que qualquer cão de guarda. Cogitei até a levá-lo a rinhas, eu do lado do rin- gue, dando instruções a ele, e Harrison ganhando todas as pelejas. Mal sabia, naquele tempo, que isto era crueldade animal, proibido por lei, nem que voa- va sangue e penas para todos os lados. Nas brigas de galos de minha imagi- nação infantil, um deles sairia com o olho roxo, enquanto o outro levantaria as asas em glória, assim como nos dese- nhos animados, sem demasiado sofri- mento nem mortes.

Com o passar das semanas, esqueci- me um pouco de Harrison e só me ocorria a existência dele quando, oca- sionalmente, comentava com os colegas de escola:

— Sabia que eu tenho um galo? Acho que deve ser o maior galo do mundo!

Mas a mente estava ocupada o bas- tante com as matérias da escola de manhã e com os seriados japoneses à tarde. E, vez ou outra, eu desenhava o meu galo, intercalando panteras, leões e super-heróis.

Retornei meses depois à casa de minha avó, chegando cedinho como o habitual. Tomamos café da manhã e eu saí ao quintal, à procura por meu galo, mas não o avistei. Nada estranho, reconheço, pois o quintal era enorme e ele poderia estar vagando em meio às bananeiras e amoreiras. Certamente apareceria para comer quirera mais tarde.

Mas não o vi depois, o que me per- turbou.

— Não estou encontrando o Harrison

— comentei com meu primo na manhã seguinte.

— Ninguém te contou? — vislumbrei

um risinho sardônico — Ele morreu

— Sério?

— Sério.

Calei-me por um tempo, pensativo.

— E o que fizeram com ele?

— Como assim?

— Com o cadáver do Harrison?

— Sabe a canja de ontem à noite?

— Sei.

— Era o seu galo.

Fiquei horrorizado. Era possível isto? Que desumanidade absurda! Barbárie!

Henry alfred Bugalho

Como assim, jantar um galo de estima- ção? Quer dizer que agora as pessoas deveriam comer seus cachorros quando estes morressem? Ou que um jóquei deveria comer o cavalo que montava? Ou um falcoeiro a seu falcão? Ou um dono de circo cearia o elefante ou o tigre quando estes passassem desta para melhor?

Eu precisava confirmar esta histó- ria, poderia ser apenas uma maldade do meu primo, e corri para falar com minha vó.

— É verdade que meu galo morreu?

— Morreu sim.

— E o que fizeram com ele?

— Comemos, ora bolas!

Para vovó era simples pensar deste modo, ela que quebrava o pescoço de um frango sem esforço algum, e deixa- va-o dependurado numa trave, debaten- do-se até esvair-se-lhe a vida, mas, para mim, nada fazia sentido. A ausência de Harrison, o galo dos galos, naquele quintal imenso, era devastadora, um vazio inexplicável.

Pois o meu galo havia sido o senhor absoluto do terreiro, e também a canja da noite passada.

Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Litera- tura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outros quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fun- dador da Oficina Editora. Autor do best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos, e do “Curso de Introdução à Fotografia do Cala a Boca e Clica!”. Está baseado, atualmente, na Itália, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

 

Conto

 

PrEÇoS

 
PrEÇoS  
 

Edweine Loureiro

Gritava à janela da amada, que o havia deixado por um homem mais rico:

 

E o Amor, Julieta? Vale quanto?

E uma voz, vinda da esquina:

 

Duzentos reais, uma noite.

Nota: Miniconto vencedor do certame Miniconto para Dickens (Fevereiro/2012).

 

CiNEma mudo

Edweine Loureiro

 

Quase no final do filme, surge aquele homem, ensandecido, atirando contra a mul- tidão. Em meio a gritos e tumulto, uma das balas atinge a criança ao meu lado, matando- a no mesmo instante. Enquanto isso, na tela, Chaplin discursa pela paz

 

CorEia do NortE

 
CorEia do NortE  
 

Edweine Loureiro

Kim Jong-un, em pânico, no meio da noite, conversa com um dos generais ao telefone:

 

Pensava que era o botão do microon- das, e não o da bomba atômica!

Edweine Loureiro

 

Nasceu em Manaus em 20/09/1975. É advogado, professor de Literatura e Idiomas, e reside no Japão desde 2001. Em 2005, obteve o Mestrado em Política Internacional pela Universidade de Osaka (Japão). Premiado em diversos concursos literários, é autor dos livros: Sonhador Sim Senhor! (Ed. Litteris, 2000), Clandestinos [e outras crô- nicas] (Clube de Autores, 2011) e Em Curto Espaço (Ed. Multifoco, Selo 3x4, 2012). É membro-correspondente da Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências (RJ) e da Academia de Letras de Nordestina (BA). Blog do autor: http://edweineloureiro.wordpress.com/

 

Contos

O “gato” maluco

O “gato” maluco
O “gato” maluco
Contos O “gato” maluco Lilly Araújo 20 SAMIZDAT setembro de 2012
Lilly Araújo
Lilly Araújo
Contos O “gato” maluco Lilly Araújo 20 SAMIZDAT setembro de 2012

http://www.flickr.com/photos/xixidu/504337940/

Carlos já beirava os dezessete anos

quando resolveu sair da casa de seu pai

e ir morar com sua mãe. Talvez o mo-

tivo fosse o ciúme que lhe tomou quan- do a bela e jovem madrasta engravidou.

Não que sua mãe não o amasse, mas devido ao fato de suas condições financeiras serem milhares de vezes inferiores às do ex-marido, Cláudia preferia que o filho único tivesse uma vida mais abastada que a dela. Apesar de todos os argumentos, nada adiantou diante da decisão irredutível e conflitu- osa que Carlos impôs. Era mesmo um “cabeça dura” como o pai, ela pensava.

Quem não gostou nada nada da novidade foi o Sr. Francisco. Homem austero, mas muito apegado ao filho, não aceitava ficar longe assim tão de

repente dele, fosse pela saudade ou por orgulho de perdê-lo exatamente para

a mulher que fora o único verdadei-

ro amor de sua vida. O que também explicaria o fato de tê-la deixado em tamanha dificuldade financeira. Pirraça. Pura pirraça! Pirraça que, aliás, agora lhe retribuía o filho sem saber, por não aceitar perder o status de filho único que até hoje ocupava cheio de mimos e regalias.

Em protesto, estava resolvido a mu- dar sua vida radicalmente, abrindo mão de todo luxo a que estava acostumado, visto que o pai lhe recusara a ceder qualquer bem material para aquele trai- dor, que o estava abandonando. Posse. Pura posse! Sofriam de possessão crôni- ca pai e filho.

Passados alguns dias da nova rotina, Carlos estava completamente entedia- do no seu novo lar. Não tinha mais o videogame de última geração, nem seu inseparável tablet que ainda estava com

cheirinho de loja. Agora se contenta- va apenas com seu notebook, que seu pai só liberou por ter sido presente de

aniversário, mas que nas atuais circuns- tâncias era quase inútil, porque lá não tinha internet. Não tinha piscina. Não tinha sauna. Nem tinha sua motinha ou amigos ricos. Não tinha sequer TV

a cabo. Tédio. Puro tédio!

Até que numa tarde, Carlos estava sentado perto da janela, com vista nada privilegiada para os telhados dos vizi- nhos e num lance de olhar, notou uma antena de onde pendia um tremulante fio que partia telhado adentro do vi- zinho mais afortunado que ele. Teceu então um plano mirabolante em sua mente vazia. Iria fazer um “gato” para a TV que ficava em seu quarto.

Foi a uma lan house e procurou por manuais de instalação para realizar sua peripécia. – É impressionante o que se pode encontrar na net hoje em dia! – pensou o garoto. Pesquisou. Revisou. Imprimiu. E marcou o dia, ou a noite, para o leitor melhor entender.

Carlos se esgueirou pelo corredor apertado com o cinto de ferramentas pendendo-lhe de um dos lados e for- çando a calça larga para baixo. Todo desengonçado e tremendo um pouco, o

garoto alcançou a tal antena por sobre

o telhado. Sentiu-se um felino aventu-

rando-se naquela altitude. Em poucos minutos, seguindo o manual passo a passo, ele cortou e remendou fios na caixinha conectora que comprou num ferro velho, e que iria piratear e re- transmitir o sinal para sua TV, dando umDesceu sem maiores dificuldades. Mas não antes de se engarranchar no último trecho do seu percurso e ralar todo o antebraço esquerdo. Va- leria o preço se o “gato” funcionasse,

argumentou a si mesmo para aliviar o ardor. Ligou a TV com o coração na mão. E lá estava a imagem que o salvou de seu martírio! Dezenas de canais, que agora o manteriam cativo por vontade própria no seu pequeno “quarto prisão”.

Mas, numa noite de tempestade e muitos raios, a conexão de alegria do pobre Carlos foi subitamente inter- rompida. Ele ficou chocado. Desespero. Puro desespero!

Na manhã seguinte foi à escola brigado com sua TV. Havia gastado toda madrugada fuçando, sacudindo, torcendo e pedindo aos céus por um auxílio. Quando retornou, já na hora do almoço, esquentou a comida e engoliu desinteressadamente. Pulou na cama e dormiu, exausto que estava. Acordou com um barulho e uns feixes de luzes vindas do telhado do “vizinho-sócio”. Achou estranho aquilo e teve medo. Será que agora o seu delito seria des- coberto? Resolveu ligar a TV por pura curiosidade, e para sua surpresa os canais estavam todos de volta.

Foi à cozinha e fez pipoca para espe- rar pelo jogo do seu time que iria co- meçar em dez minutos. Enquanto assis- tia ao jogo vibrante e comia pipoca, um sorriso de orelha a orelha não lhe saía do rosto. De repente, um lance dentro da grande área, já aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, dava chan- ce ao seu time de ser o vencedor. Ele se colocou debaixo do monitor, se contor- cendo à espera de um milagre para que aquele gol saísse, e no auge da expec- tativa de vitória do seu timão: “Tssss”! Alguém mudou o canal da televisão.

– Não! Não! Não! Isso não pode estar acontecendo! – Não podia, mas estava.

A partir daquele dia era essa a vida

de Carlos: No meio do filme, na cena do beijo, e “tsss!”, o canal mudava. Quando finalmente estavam pegando

o serial killer, “tsss!”

memórias fragmentadas de tudo que assistia. Frustração. Pura frustração!

Ele passou a ter

E Carlos nem imaginava o quanto

aquilo influenciaria a sua mente. Agora ele andava todo interrompido. Fazia as lições pela metade. Comia metade da comida. E um dia até chegou à esco- la com apenas um dos pés calçado. A namorada rompeu com ele, se recusava a ter meio namorado. E boletim escolar passou a vir com notas medianas. Até a mesada dele foi reduzida a meia, refle- xo de seus últimos desempenhos.

Agora aquele “meio garoto” não con- seguia ter uma ideia por inteiro para restaurar a sua vida desconfigurada.

– Francisco, você precisa levar nosso

filho ao médico. Estou muito preocupa- da.

– Besteira. Isso é artimanha dele para

eu voltar atrás. Mas não volto! Onde já se viu, fazer um desaforo desses com a Lucinda grávida? Justo ela que sempre

o tratou como um filho. Não volto!

Mesmo com o problema, Carlos

Lilly araújo

continuou a ficar no seu quarto todo tempo. Em frente à TV desgovernada, concentrado em meias imagens. Esta- va meio triste, meio desiludido e meio arrependido de ter deixado sua outra casa. Descompletado!

Foi aí então que algo iluminou sua mente por inteiro. Ele foi atrás do seu pai e lhe estendeu uma bandeira branca. Pediu sinceras desculpas em palavras que enterneceram o coração paterno de Francisco, e no embalo das emoções intercedeu por sua mãe junto ao pai, e conseguiu que ele se compro- metesse em dar todos os direitos aos bens financeiros dela, na época sonega- dos.

Carlos comprou ainda flores para a madrasta e presentes para o bebê. Que torceu para ser uma menina. Estava mudado, mas nem tanto! Queria conti- nuar ao menos a ser o único varão da casa.

Tudo resolvido naquela família. Pare- cia até um milagre! E talvez fosse mes- mo um tipo de milagre para restaurar tantos conflitos antigos. Foi o “gato” maluco. Puro “gato”!

Bióloga, pós-graduada em Geo-Ambiental, começou sua carreira literária apenas no ano de 2011; de lá para cá já tem obtido sucesso e participações nos seguintes meios literários: Participou de 25 Antologias da CBJE-RJ, em poesias, contos e crônicas e em três e-books; MH e Antologia do Conc. de Poesias Encantadas II; 12° Lugar no V Conc. POESIARTE; Classif. para compor o livro do Conc. Landa Lopes; Prêmio Desta- que no III Conc. Claudionor Ribeiro de Contos; Classif. na Antologia do V Conc. Crô- nica e Lit.- Prêmio lit. Ferreira Gullar; MH e Antologia do Conc. Poesias Encantadas III; Classif. entre os vinte para o Livro Prêmio do Conc. Alt Fest-Fliporto; Classif. no Conc. Um Poema em Cada Árvore; Classif. para Antologia do Conc. Letras no Palco 2011 – Digit-AL 2011, nas categorias Poema e Micro Poema; Classif. em 10° no Conc. Augusto dos Anjos; Vencedora do III JOGOS FLORAIS DE CAXIAS DO SUL.

Contos

BUDAPESTE VAI À PRAIA
BUDAPESTE VAI À PRAIA

BUDAPESTE

BUDAPESTE VAI À PRAIA
BUDAPESTE VAI À PRAIA
BUDAPESTE VAI À PRAIA

VAI À PRAIA

BUDAPESTE VAI À PRAIA
Contos BUDAPESTE VAI À PRAIA Luís Felipe Sprotte 24 SAMIZDAT setembro de 2012
Luís Felipe Sprotte
Luís Felipe Sprotte
Contos BUDAPESTE VAI À PRAIA Luís Felipe Sprotte 24 SAMIZDAT setembro de 2012

http://www.flickr.com/photos/snapeverything/2513146873/

Budapeste acordou com frio, que aparecia pela primeira vez com força, fazendo-a recolher-se ainda mais nas cobertas. Outubro era um mês que a assustava, pois lhe vinha um sentimento de má-fé em relação ao inverno que se aproximava. O inverno deixava-a muito bela; ainda assim, era sempre complicado con- tinuar viva depois que camadas de gelo formavam-se na sua principal artéria: o Danúbio. Todavia, o inver- no em nada alterava sua eloquência; reafirmava-a, porém, num sentido mais peculiar.

Naquela manhã teve vontade de ir à praia. E disse consigo mesma que sim, iria viajar. A escolha mais natu- ral era alguma praia no Adriático, e apesar de os dias estarem cada vez mais frios, poderia sentar-se à beira- mar e conquistar uma calma que ela não mais proporcionava a si mesma. Após tomar essa decisão, alegrou-se bastante.

Ao olhar para o prédio em frente ao dela, na Rua Timár, observou a moça portuguesa que morava ali há alguns meses. Sabia-a estrangeira, porque o tempo lhe havia dado esse discernimento; sabia-a portuguesa porque pela primeira vez sentia que havia no apartamento algo diferente. Todos os dias saía e voltava a Sau- dade. Dava à moça quase todas as manhãs de presente uma neblina, como se dissesse:

“Vem, busca teu D. Sebastião, que logo chega.”

A moça, entretanto, não esperava por nada que não fosse seu Sebas- tião magiar, e que, ironicamente, se chamava Sebestyén. O homem pelo qual ela se fez estrangeira, depois

de dez meses juntos, abandonou-a e voltou a sua cidade na Transilvânia. Como portuguesa num país sem mar, ela fez de seu apartamento a torre de Belém, na qual esperava o marinheiro que nada lhe prometera,

e que desse nada, tudo esperava.

No frio daquela manhã Budapeste sentiu que precisava fugir de si mes- ma. Fundar-se noutro lugar, como se nunca tivesse sido fundada ali. Sairia pela primeira vez dos alicer- ces danubianos, das colinas budinas, da imensidão plana pestina, de seu apartamento em Óbuda.

Ela comprou a passagem de trem na Estação Keleti, e avisou Zagreb que estava indo visitá-la, e que se- guiriam à praia. Fazia frio, mas no trem conseguiu cobrir-se com um pequeno cobertor que levara consi- go.

Algumas horas depois ela desceu

na estação central de Zagreb, que

a

esperava. As duas seguiram até

o

estacionamento. Na Praça do Rei

Tomislav Budapeste viu no meio do parque crianças brincando com seus

pequenos trenós, treinando para o inverno que logo chegaria.

“Vou levar você à Dalmácia para conhecer uma amiga: Makarska.”

Zagreb pegou a estrada que iria

levá-las até à Dalmácia pelo inte- rior do país. Os carros passavam, os bairros zagrebinos ficavam cada vez mais longe. Em muitas regiões por onde passavam, Budapeste viu prédios com buracos causados pelos tiros da guerra recente.

Enquanto isso, os budapestinos e zagrebinos viam-se perdidos, com a sensação de que algo importante em suas cidades estava faltando. Alguns disseram que era o frio cedo demais em outubro, outros que se tratava de uma sensação bélica. Poucos disse- ram que tinham a sensação de que a alma da cidade havia ido embora, como se estivessem vivendo abraça- dos ao cadáver de alguém querido. Nas duas cidades as pessoas senta- vam-se nas calçadas com a sensação de que a gravidade passara a ser, ao menos ali, a mais fraca das forças da Natureza. O Danúbio em Budapes- te e o Sava em Zagreb portavam-se como se não se importassem com as beira-rios, inundando-as com ondas de ressentimento.

Makarska estava vendo o mar no bulevar central da riviera. O dia es- tava bastante cinza, e ela sabia quem iria atacá-la à noite. Sabia-o há cen- tenas de anos, e sempre que aconte- cia novamente ela se assustava. Para se tranquilizar, foi se encontrar com suas amigas. Em casa, a anfitriã ser- viu vinho e começaram a conversar animadamente.

As três foram dormir tarde, e no meio da noite Budapeste acordou

assustada com um vento fortíssimo. Ela foi até a janela ver o que era. Makarska acalmou-a, dizendo:

“É o bora. Destrói tudo, como a paixão.”

As três sabiam que nenhuma ci- dade sobrevive por si só, da mesma maneira que as pessoas fatais não podem viver sem amor, sem paixão, e pulam cada dia num oceano novo, cada vez mais profundo, cada vez mais perigoso. O bora podia que- brar todas as janelas de Makarska, mas nunca a destruiria. Elas sabiam que havia pessoas que sofriam por amor, e por isso cada uma delas rezou por alguém, para que essas pessoas, e também elas, morres- sem da ferida venenosa que vem do amor, e não mais dos dons sábios e conselhos benditos que nunca pre- valecem diante do cáustico. E se rezar levava à lembrança, veio até elas uma pequena oração com o nome do santo do dia, um daqueles mártires do amor, aqueles que nunca esqueceriam as cidades que amaram, nem os amantes que os despreza- ram, e que morreriam, assim, fracos de servidão, por encher a mente de tantas lembranças afiadas, que, inútil dizer, só lhes faria mal. Levá-los-ia à morte.

Com rosários nas mãos, as três cidades dormiram caídas no chão e acordaram na praia.

Dois dias depois, de volta a si mesma, em frente à Estação Keleti, Budapeste viu dois orelhões con- versando em meio à multidão. Ao entrar no carro, percebeu que esque- cera um livro de contos de István Örkény, o que explicava a visão, minutos antes.

Chovia quando o táxi deixou-a em casa. Todos os habitantes da cidade cochichavam que tudo estava ajeitado novamente. Não dava mais vontade de fugir de uma cidade no- vamente com alma. Seus habitantes poderiam temer Budapeste, graças aos mandatos diários que eles pro- punham a si mesmos, ao percebê-la pela primeira vez após abrirem as janelas todas as manhãs. Ali estava deitada na cama quando viam Peste; escondida nas colinas quando viam Buda. E por não olharem jamais Óbuda, nunca desconfiaram que de fato a alma da cidade que tanto amavam e odiavam vivia lá, reclusa – uma senhora sem trajes de idosa, e com o frescor do compartilhamento.

Pela janela do seu quarto Budapes- te viu a moça portuguesa arrumar as malas. Falou-lhe, baixinho, como se cantasse um fado:

“Tu servias de porto latino, e ele de barco magiar.”

Budapeste deixou a Saudade en- trar em seu apartamento, como se fosse o vento bora. Estrangeira em sua própria casa, dormiu antes mes- mo de anoitecer.

Contos Isabela Penov Nadja Ausente Há sempre uma ausência ao lado de cada um que
Contos
Isabela Penov
Nadja Ausente
Há sempre uma ausência ao lado
de cada um que existe. A ausência
dos mortos, das alegrias, ausência dos
sonhos, a ausência da esperança, e a
noiva que se foi, o marido que jamais
retornou, e as roupas carcomidas, as
cartas que o tempo vai apagando
Mas
naquela família as ausências eram tan-
tas e tão imensas, que possuíam nomes
próprios, impronunciáveis, no entanto.
Aqueles sujeitos apenas sabiam-se pela
falta, entendiam o que eram pelo que
não eram e o que tinham pelo que
não tinham. Odiavam-se, amavam-se,
entediavam-se, separavam-se, eles e suas
ausências, num pacto rancoroso. Seus
olhares vagos viam somente o que não
estava. E enquanto isso os corpos iam
pela vida escorregando inúteis, esque-
cidos de si, em volta de suas presentes
ausências.
Acumulou-se essa falta por séculos
em cada novo membro da família, a ca-
rência de uma geração depositando-se
na próxima, herança dos vazios pas-
sados. As crianças iam nascendo mir-
radas e pálidas, parecendo que aquela
lacuna estava cada vez mais tomando
o espaço que o corpo deveria ocupar.
Esse legado somava-se ao vazio de
cada um deles que pelo mundo passa-
va, constituindo em cada tempo uma
ausência suprema, uma insuficiência
incurável.
Em certo tempo nasceriam descen-
dentes raquíticos, e os descendentes
dos seus descendentes nasceriam sem
alguns membros do corpo, até que na
geração próxima as mulheres ficariam
grávidas sem sequer notar, grávidas de
um vento ínfimo que se libertaria para
http://www.flickr.com/photos/stampinmom/4239147705/

se espalhar e somar mais falta à falta. Assim essa família se extinguiria, de ausência em ausência.

Mas podemos parar no tempo, muito antes dessa extinção familiar.

Nadja estava com doze anos. Pos- suía todas as suas partes e era possível enxergá-la toda, embora com certo esforço: era um vulto de pele muito branca, corpo um pouco translúcido que não chamaria a atenção não fosse pelo vestígio daquele legado de ausên- cia em sua geração: sua perna direita era mais curta e muito mais delgada que a esquerda, de maneira que ela acabava por mancar com evidência. Ao andar, todo o seu corpo caía para um lado, para então levantar-se todo para o outro, de um modo estranho na medi- da exata para satisfazer as necessidades alheias do sentimento de estar a salvo.

Na maior parte do tempo estava no quintal de casa, visível através das grades mas salva da maior parte das ameaças. Ficava sentada com as pernas esticadas, fazendo comidinhas com fo- lhas e montes de terra, comendo pe- queníssimos tatus ou vestindo bonecas com roupazinhas feitas do mesmo pano das suas próprias. Seu olhar às vezes doce acostumou-se alheia do além das grades, exceto nos seus momentos de ódio absoluto: enquanto passavam meninas pulando a corda, tropeçando graciosas, correndo com seus tornozelos repletos de hematomas e cicatrizes que nasciam do viver excessivo. As suas ci- catrizes e hematomas não nasciam, mas eram os sinais da morte gradual da- quele membro que ela carregava como a um animal morto. Nessas horas ela

semicerrava as pálpebras, torcendo para que todas as pernas caíssem e rolassem pela íngreme descida logo mais ali. Depois se ausentava, preocupada com a caça aos tatus.

Na casa da frente morava Ana. Ana

saiu para a rua pela primeira vez quase dois anos depois de se mudar para o bairro. Talvez por timidez, talvez por estar muito ocupada consigo mesma em seu quintal. Ela era tão distraída, mas tão, que às vezes se esquecia de usar as mãos. Mas isso de distração

é uma mentira. Fato é que ela estava

atenta demais às suas fantasias, que eram aliás muito mais dignas da sua concentrada dedicação. Essa distração entre aspas fazia de Ana a amiga per- feita para Nadja. Exatamente pelo que

se possa suspeitar. Ana saiu para a rua, avistou Nadja com seus tatus, puxou conversa e não pôde perceber nem que

a menina mastigara quase meia dúzia

de tatus-bola naquele tempo, e muito menos que ela tinha uma perna dife-

rente da outra. Claro, porque a conver- sa foi de nuvens a cavalos-marinhos, dos avós a um primo que enlouquecera,

e depois até muitas coisas inventadas.

Se a princípio Irene, a mãe de Nad- ja, vigiava assustada a menina esguia no portão, em algum tempo convidou-a para o quintal, e pouco depois até para dentro de casa, embora raras vezes. Gostava de Ana tanto quanto Nadja, e Ana as estimava reciprocamente, em- bora o cheiro de Irene lhe enjoasse o estômago por vezes.

Uma vez Nadja fez Ana reparar na perna. Não precisa fingir que não sou aleijada, disse. Não vou ficar triste se

você falar disso. E Ana se deu conta. Dói? Pouco, sempre. Muito, às vezes. Posso tocar? Mas não aperta. É fria. Está um pouco morta, eu acho. Será? Não sei. Não, acho que não. Você é bonita. A gente sempre olha primeiro nos olhos das pessoas. Não se repara muito nas pernas. Mentira, a gente olha primeiro sempre o defeito. Será? É. Eu nunca te vejo andando. É estranho. Dei- xa eu ver. Melhor não. Eu te digo o que parece, juro. Será? Eu não rio, não acho graça nem do que tem graça. Bom. Sabe o que parece? O quê? Mas a mãe de Nadja chamou detrás da vidraça, e isso era sinal de que Ana precisava ir. Mas nem são quatro horas ainda. Irene espiava pela janela.

Depois de alguns meses Nadja tomou coragem para pedir à mãe uma saída à rua. Com Ana, evidentemente. Depois de muita resistência, ganhou uma ida. A rua toda se juntou para ver. Nadja precisou engolir com força aquilo que parecia ser todos os tatus já engolidos querendo retornar. Sentiu rebentar dentro de si uma novidade que não soube nomear. Recolheu qual- quer reação que ousou escapar pelo seu

rosto. Foi útil a sua aparição para que alguns tivessem do que rir, outros do que lamentar, outros do que se apiedar

e outros ainda como se sentir salvos da

truculência da vida, por um instante. Os dias passaram e diminuíram os ri- sos, lamentos, piedades e alívios. Restou um pouco de cada coisa, mas já era mais fácil acostumar.

Ana experimentou os tatus. Eram crocantes na boca, mas raspavam

a garganta. Depois aprendeu a não

mordê-los, dedicou-se à arte de comer os bichinhos, mas ainda assim não se constituiu nenhum vício. Nadja de- cepcionou-se, mas aos poucos também diminuiu as doses de tatu. Chegou um dia em que resolveram ter pena deles. Passavam quase todo o tempo sentadas na calçada em frente à casa, mas estar em frente às grades já preenchia as tardes de um vigor novo. Conversavam

muito sobre todas as coisas, mas prefe- riam o silêncio. Flutuavam completas num silêncio sem constrangimento, um silêncio de amor absoluto e sem exigências. Uma pureza era aquilo. Algumas vezes se assustavam e perma- neciam se olhando com a desconfiança do medo da morte, mas algo insuspeito

e repentino as fazia gargalhar, e então ficava tudo bem para sempre.

Ana distraiu-se em casa com a sua árvore, naquele dia. No dia seguinte permaneceu sentada no muro balan- çando o corpo para a frente e para trás, estudando a sensação do risco falso da

queda. E foi ficando tarde para ir à casa da amiga. Nadja estava magoada, menos por Ana não aparecer e mais porque não se sentia capaz de atravessar o portão sem ela. Enquanto Ana brinca- va com os mil muros do muro, Nadja abriu o portão e permaneceu ali para- lisada naquela fronteira, entre a casa e

a rua. Ficava balançando o corpo para

a frente e para trás, estudando os riscos

possíveis de quedas, abandonos, risos e da piedade. E da solidão. E do silêncio vazio a que se desacostumara. Largou o corpo um passo em frente, permaneceu por uns instantes levemente vitoriosa. Baixou os olhos e retornou ao quintal com um único passo. Nesse momento

Ana sentiu o cheiro da comida mesma da mãe, e descobriu que estava tarde demais novamente. O tempo ia passan- do estranhamente.

Ana pensava debaixo da sua árvore quando ouviu um grito pelo meio da tarde. Correu para o portão e viu um fio de sangue escorrendo pela ladeira logo ali. Os olhos de Nadja estavam ar- regalados e a boca muito aberta, silen- ciosa então, um silêncio que só aparece no cume da aflição, quando o som foge de medo e o corpo todo troca a sua matéria por uma massa insuportável e latejante de dor. O seu pé jazia amas- sado sob um enorme paralelepípedo. Na hora Ana não pôde saber ao certo se o pé machucado fora o doente ou o saudável. Mas quando a boca de Nadja se fechou e ela desfaleceu, Ana voltou os olhos para a menina morena que observava tudo. As suas mãos morenas e pequenas destruíram um pé de Nadja esmagando-o com uma imensa pedra. Seu rosto pequeno estava pasmo: quan- do pensou em machucá-la não imagi- nou que seria tanto.

Havia boatos de que mãe e filha partiram de madrugada, retornando a um país frio. Mas algumas vezes Ana ficava certa de ter visto os olhos de Nadja dentre as pregas das cortinas. E pensava se era justo que ela ficasse

isabela Penov

presa para sempre. E pensava no que poderia ter levado uma menina a es- magar o pé de outra, e de onde poderia vir esse ódio sentido pelas imperfei- ções. Pensava nos motivos possíveis de tantas coisas, estática sobre o muro. E pensava que teve vontade de rir quan- do viu Nadja andando pela primeira vez, mas depois se distraiu com todas as coisas que Nadja em movimento parecia ser: barcos, águas, buracos, tempestades, molas, proezas, dias enso- larados que terminam com chuva, fruta misturada com comida salgada, quan- do a gente descobre que a goiaba está bichada e continua comendo tentando não pensar, pedaço de carta amassada no fundo do baú, um pano de copa úmido útil encolhido no canto, rabo de lagartixa sacudindo fora do corpo lembrando que o amor não morre fácil assim.

De Nadja não houve mais notícias, mas Ana pensaria nela ainda anos mais tarde. Dizem que Ana engravidou seis vezes, mas que nenhum feto vingou. Houve um único que nasceu aos cin- co meses, cabia num bolso de paletó e viveu horas, respirando pouco. Não chorou nem gemeu sequer por um momento, não se sabe se por falta de forças, por falta de tempo, por não estar suficientemente formado para o sofrimento, ou por pura compreensão.

Isabela Penov é escritora, atriz e arte-educadora. Dedica-se sobretudo a contos e críticas teatrais – esporadicamente, poesia. Publica alguns de seus trabalhos em seu blog Semeaduras, e também no blog Filacantos, um jogo-autoral coletivo. Desde que se lembra é apaixonada pelas palavras – sua potência, seus limites e seus segre- dos. Ama as crianças, adora o ócio, gosta de cantar, tem esperança na educação e uma fé inabalável nas pessoas e na construção de um mundo mais justo.

Contos Grávida Aline Nardi http://www.flickr.com/photos/bensonkua/3339996466/
Contos
Grávida
Aline Nardi
http://www.flickr.com/photos/bensonkua/3339996466/

Estou grávida do mundo, e não sei

o que fazer com ele. Me machuca, me

irrita, está aqui. Não o quero, mas está aqui. Tudo o que ocorre por dentro, o que ocorre por fora, o que ocorre ao derredor, tudo converge pra esta barri- ga. Se reúnem ao redor desta barriga; esperam um novo milênio, como se novo fosse melhor, mas não é.

Caminho lentamente para um fim de

ciclo, aterrorizada por saber das coisas. Mãos nas costas, barriga proeminente, as pernas caminham levemente abertas

e as pontadas me lembram uma foda

espetacular de ressaca terrível.

Eu acreditava num mundo melhor.

Agora esta criança se forma incons- ciente de seu futuro. E eu, a errância de sentimentos frívolos, a comer os doces hidrogenados das celebrações de ano novo. E enjoo. E enjoo. Vomito e enjoo com o resto de mim. As imagens em- baçadas, misturando o meu reflexo. Lá fora estão se comendo, se embebedan- do. Aqui dentro protejo com a placenta doente um futuro incerto. Tenho medo. Tenho medo.

Os corredores estão escuros, eu ouço as vozes, ouço os gemidos. Não os vejo, mas sei o que estão fazendo. Todas as verdades malditas e perverti- das em ações mascaradas para melhor degustação.

aline Nardi

Não são o que falam; a coerência caminha à margem do real. Engolem a porra de um mundo contemporâneo. Ele copula com um passado ora glorio- so, ora infame.

E eu sou filha deste passado! E mãe deste futuro! Quem eu sou? Sou uma encruzilhada. Várias vias convergindo num ponto de onde se parte para o nada. E mastigo as oferendas como se fossem parte minha. Como se movi- mentassem minhas cólicas. Como se pressionassem meu ventre cheio.

E fujo. Sem rumo, contraindo as vísceras para um fim desolador. Eu vou morrer neste parto. Eu vou implodir com a expulsão deste feto do amanhã. Não há fogos de artifício para receber

o futuro. Não existem festas de con-

templação para este novo rebento. O que há é choro, desespero, um soltar de mãos protetoras rumo ao caminhar sozinho aterrorizante. E não sabemos

nada! E a dúvida é mais tenebrosa que

a certeza de uma mentira.

Desfaleço. E fico de cócoras. Esperan- do o momento em que as luzes serão acesas; em que as cartas serão viradas; em que eu morrerei na mesa, estendida em oferenda.

Estou grávida. Com medo. Mas com

o gosto acre na boca, ele me lembra

que engoli a porra toda.

Escreve desde criança, mas apenas aos 29 teve coragem de publicar em papel. É autora de Misté- rios do Meu Ventre (2010), pela Ed. Multifoco e A Cova da Alma (2011), pela Ed. Bookess. Publica de forma independente e sonha em continuar assim até o fim da vida. Persegue alguns títulos acadêmicos, mas não os considera relevantes ao ponto de serem mencionados. Publica sua literatura em http://aline- nardi.com.

Contos Léo Tavares iniciação A gente gostava de passar as tardes na casa do meu
Contos
Léo Tavares
iniciação
A gente gostava de passar as tardes na
casa do meu avô. Quando era inverno eu ia
pro quintal ficar procurando os espaços no
chão onde o sol batia mais largo, peneira-
do pelas folhas da parreira. Achava bonito
ficar olhando aqueles recortes de sombra.
Algumas folhas secavam e caíam e então eu
escolhia as maiores para levar pra dentro
e
jogar na lareira. Lá para as cinco horas o
meu avô trazia a lenha e eu me arrumava
atrás dele, todo encurvado, as mãos juntas
entre os joelhos, pronto pra sentir o calor do
fogo no rosto, com olhos e ouvidos aguçados,
porque gostava de escutar o crepitar da folha
se desmanchando pra virar cinza, e porque
cada vez que eu lançava um punhado delas,
a
cor do fogo se avivava.
Foi numa dessas tardes, ocupando o meu
posto diante da lareira, com meu punhado
de folhas secas e o rosto muito vermelho
pela proximidade do fogo, que eu levantei
os olhos num momento raro de distração
e fiquei paralisado diante de um Jesus cujo
olhar zeloso pela humanidade parecia fixar-
se em minha direção. Mas eu não soube
distinguir uma expressão de complacência
nos olhos azuis daquele Cristo pintado. O
que queria dizer “estou olhando por vocês”
para mim significava: “estou à espreita.”
Senti-me incomodado porque era como se
um estranho tivesse adentrado a sala para
me pôr medo. Ele poderia me atacar a qual-
quer momento. Afastei-me do fogo, fui até a
porta. Saí de dentro da casa e fiz a volta pela
varanda. Pela janela ele também me olhava.
Tinha um manto azul claro sobre os ombros,
e os cabelos eram dourados. Mais tarde o
reconheci no Drácula de Coppola. Aquele
Jesus era Gary Oldman aparecendo em Lon-
dres para reencontrar Winona Ryder. Ambos
haviam sido sentenciados e condenados às
agonias físicas mais terríveis, até a hora de
sua morte: um por empalamento, outro por
crucificação. Um pelas mãos dos fiéis, outro
pelos infiéis. Mas Jesus eu temia mais, por-
que me disseram a vida toda que existia. E se

ele tivesse mesmo aquele olhar do quadro na

casa do meu avô, eu certamente não gostaria

de encontrá-lo.

Minha infância teve tardes de sábado pavorosas em que a minha irmã me chamava para assistir a filmes de terror. Eu não podia recusar. Reconhecia a vergonha do medo pelas coisas que não existem e não queria demonstrar covardia. Olhava para minha irmã de canto de olho – para ver se ela me observava enquanto eu escondia o rosto com as mãos nas cenas mais terríveis. Eu nunca via as piores partes, mas sabia que nessas noites o sono seria perigoso, na iminência dos pesadelos. Foi de tanto ter pesadelos que acabei me acostumando com as imagens mais sinistras e aos poucos, escondia o rosto cada vez menos.

Aos oito anos, já encarava de frente o Jesus

na

casa do meu avô, e por longos minutos.

Vi

que o que tinha de crueldade nele era

exatamente o nosso sentimento de culpa. Di- ziam-nos que ele morrera pela gente. Como

olhá-lo nos olhos, então? Eu queria dizimar numa inquisição de brinquedo um punhado

de folhas secas, e naquela tarde reconheci no

olhar dele um crime que eu nem suspeitava

ter cometido. A primeira vez que aprofundei

minha relação com as imagens foi através do medo e da culpa. Também foi a primeira vez que me revoltei, sem sequer saber o que era isso. Logicamente, naquela idade eu também não poderia suspeitar o que significa ser uma pessoa teofóbica. Mas foi através de Jesus que tive medo de Deus. Dele e de seu séquito de santos retratados em martírio e redenção epifânica.

Certa vez fui com minha mãe visitar

Léo tavares

alguém que tinha em casa uma verdadeira galeria de personagens católicos: anjos e san- tos pendiam de paredes descascadas pintadas de bege, que era a cor do hospital, da igreja, das capelas mortuárias e de todas as coisas amedrontadoras ou tristes construídas na minha cidade. Mas lembro de ter voltado toda a minha atenção para aquela mulher que trazia uma roda com serras de ferro. Perguntei quem era e me disseram que era Santa Catarina de Alexandria. Mais tarde me contaram que a roda fora um instrumento de tortura imposto por um imperador ro- mano; que ela aos dezoito anos vencera com argumentos os cinquenta maiores sábios do mundo, e que quando morrera, no lugar de sangue, saíra leite. Nunca me interessei por questionar a veracidade desses fatos. A histó- ria me deixara embevecido no sentido mais místico que pode existir. Foi uma primeira sensação de enlevo erguendo meu corpo e levando a minha imaginação para longe da terra e de todas as pessoas. Mas não para um lugar de fé, eu sabia. Era um mundo de coi- sas indizíveis, inexplicáveis, muito mais rico do que qualquer mundo que eu já visitara no sono ou quando lançava ao fogo pequenas coisas mortas. Literatura, ficção, conto. Quan- do me contaram a história de Catarina de Alexandria pela primeira vez, eu tive sim, um verdadeiro arrebatamento. Não conseguia explicá-lo, a quem perguntasse. Eu disse à minha mãe: “virei fã de Santa Catarina!”. Em tempos mais antigos, me diriam ser este um êxtase católico, e talvez me levassem a seguir uma vida religiosa porque reconheceriam nisto uma espécie de chamamento. E foi. Não é à toa que hoje escrevo.

Natural de São Gabriel, RS, mora em Brasília, onde estuda Artes Visuais na UnB. Participou da antologia do Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio, edição 2007, Concurso Nacional de Poesia Cassiano Nunes, edição 2009, e Prêmio SESC de Poesia Carlos Drummond de Andrade 2011. Colaborou com textos na edição nº 4 da Revista Literária Macondo. Foi finalista do Prêmio SESC de Literatura em 2010, com o livro de contos Os Doentes em Torno da Caixa de Mesmer.

Blog pessoal: http://mobileazul.blogspot.com

Contos

O Bichinho Diana Cunha Gil
O Bichinho
Diana Cunha Gil

Não dormia há três dias seguidos; co- mer era quando se lembrava; os amigos não lhe punham os olhos em cima; estava uma sombra do que costumava ser. Tudo tinha começado com uma ideia. Estava no café muito bem a conversar e, de repente, a ideia surgiu assim do nada. Desde então só pensava nisso.

Ao princípio ainda conseguia fazer a sua vida normal, mesmo com a ideia dentro da sua cabeça, constantemente a martelar. As ideias são assim, teimosas, obsessivas, ciu- mentas, quanto mais lhes tentamos escapar mais elas se agarram a nós.

Os dias foram passando e parecia que a ideia cada vez crescia mais, ganhava forma dentro dele, alimentava-se do seu próprio corpo e ia ganhando vida própria. Come- çou a falar sozinho na rua, a ficar parado no meio dos passeios, simplesmente a olhar para o vazio; as pessoas atropelavam-no e achavam que estava meio louco.

Os amigos preocupavam-se, diziam- lhe para esquecer o assunto, levavam-no a passear e a beber copos, mas nada o tirava daquele estado.

Começou a ficar cada vez mais tempo fechado em casa, ninguém sabia o que ele fazia. Recusava convites, não atendia o tele- móvel, encerrou-se em profunda solidão.

Chegou a um momento em que já nem ia trabalhar, tinha posto férias. Começava a ter problemas em conciliar a vida com a ideia, pois a ideia era já maior do que a sua própria vida.

O seu melhor amigo pedia-lhe que con- sultasse um médico, um psicólogo talvez, pois era óbvio que estaria doente, talvez à beira de um esgotamento nervoso. Ele não ouvia, os seus ouvidos já só ouviam o que ela lhe dizia, aquela coisa que estava dentro

diana Cunha Gil

dele e contra a qual já não conseguia lutar.

Ao fim de quase duas semanas de re- colhimento, os amigos acharam que era

demais, tinham de saber o que se passava

e, por isso, organizaram uma equipa de

salvamento.

Tocaram à campainha por mais de uma hora, pensaram que afinal talvez tives- se saído. Ligaram para o telemóvel, mas ouviram-no tocar dentro do apartamento. Encostaram o ouvido à porta e ouviram

a presença de alguém, por isso ele estava.

Consideraram a hipótese de arrombamen- to, mas pareceu-lhes excessivo, por isso

tocaram por mais uma hora à campainha. Nada.

Decidiram-se pelo arrombamento e lançaram-se todos sobre a porta. PUM! PUM! PUM! O barulho ecoava pelo prédio

e receavam que alguém chamasse a polícia.

Ao fim de muito esforço e recorrendo a diversas artimanhas a porta abriu-se, exa- tamente no momento em que dois agentes da polícia chegavam a correr para tomar parte da ocorrência.

Ao abrirem a porta viram-no sentado no meio da sala, rodeado de folhas, de portá- til no colo, a teclar de forma furiosa. Nem levantou a cabeça. Só quando um polícia ameaçou os seus amigos de os levar para a esquadra é que se ouviu:

– Senhor agente não se preocupe, eles são meus amigos e não há queixa a apre- sentar.

Ao começarem a ler as folhas que se encontravam espalhadas um pouco por todo o lado os amigos perceberam, a ideia

não era mais que o bichinho da escrita que

o tinha dominado e se tinha transformado

num romance.

Portuguesa, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universida- de de Coimbra, Portugal, publica os seus textos no blog Diário da Loira.

Contos Fábio Wanderson de Sousa João Pilão o sineiro de del rei Não vou ficar
Contos
Fábio Wanderson de Sousa
João Pilão
o sineiro de del rei
Não vou ficar aqui me consumindo em
exaustão, tentando descrever o que já está
tão bem descrito. Bernardo Guimarães as-
sim nos apresenta a bela São João Del Rei,
essa formosa odalisca, que abre as portas das
magníficas regiões do sul de Minas, com seu
aspecto faceiro e risonho a dar-lhe aparência
de noiva gentil trazendo na fronte a grinalda
badalos, onde os sinos falam com seus ha-
bitantes, entoados pela glória dos dobres e
repiques cheios de regras litúrgicas em que
cantam a vida e a morte.
da festa nupcial, e nos lábios o sorriso da
alegria e do amor. Travessa pastorinha. Com
seu aroma de flor de laranjeira, rosa, jasmim,
jambo e manjerona, das fragrâncias que se
exalam de seus inúmeros jardins e pomares,
sempre toucados de flores e frutos porque lá
só se conhecem duas estações, a primavera
É quaresma. E ali, onde abrem as portas
para o Senhor do Bonfim, com suas ruelas
incrustadas de pedras, e casarios coloridos,
desce um negro magro, esguio, e forte. O
negro, conhecido por João Pilão, sineiro de
tradição, ofício transmitido por gerações,
sabedor dos mais de 40 tipos de toques
festivos e criador de outros tantos aprova-
dos pela mais alta cúpula eclesiástica das
confrarias, desce para o cumprimento de
suas obrigações.
e
o outono, que reinam ali harmoniosamen-
te durante todo o ano. Terra dos frutos, das
flores, dos perfumes e das canções, dos risos
das festas, da beleza e do amor A Nápoles
de Minas.
e
Melhor introdução não há de ter, essa
bela dama ribeirinha, com suas pontes de
pedras, envolta pelo sagrado e o profa-
no. Cheia de histórias, mistérios, e lendas,
senhora da erudição, das melodias e dos
Naqueles dias João andava cabreiro, não
se sabe se por amor a uma singela negri-
nha, ou se por conta do seu afastamento
das forças armadas em Juiz de Fora, mas
o certo é que foi visto passar ao lado da
Igreja de São Francisco olhando discreta-
mente e de soslaio, como se para não ser
avaliado. Depois, foi visto no botequim
da Ponte do Rosário, logo na entrada do

Tijuco, a tagarelar com outros negros sobre mulheres, música, e capoeira, entornando uns goles de restilo de cana-de-açúcar.

Lá pelas tantas, a observar o movimento dos transeuntes, percebeu que já se encon- trava em atraso para o cumprimento do dever. Um pixote que por lá passava gritou para ele que o pároco estava à sua procura, pois havia de iniciar a cerimônia dos do- bres convidando os fiéis para a procissão do Senhor dos Passos.

Saiu dali num corisco, subiu a torre cor- rendo dando início naquele dia aos mais belos dobres, jamais ouvidos por aquela estância, e a cidade toda foi envolvida pela sonoridade das baladas de Jerônimo.

Na cidade Del Rei, todo sino tem o seu

nome, todo sino é batizado. E Jerônimo era

o nome do sino de João Pilão, por quem ele

tinha grande estima e admiração. Jerôni- mo era o sino perfeito, de uma precisão rítmica inigualável. E foi por conta dessas considerações que os sineiros foram crian- do voz própria, sendo comum um sineiro reconhecer o outro apenas pela sonoridade que cantavam os sinos, quando estes soa- vam alegres ou tristes por toda a região.

As confrarias subiam formando a pro- cissão e já apontava suntuosa com os seus confrades a carregar o Senhor dos Passos em seus ombros, os coronhinhas vinham à frente, fazendo tilintar numa só harmonia as matracas ululantes, as corolas com suas ladainhas a repetir sem parar os contos

do rosário, e lá no alto, na torre do belís- simo monumento erguido em homenagem

a São Francisco de Assis, cartão postal,

rainha majestosa de todas as igrejas, ro-

Fábio Wanderson de Sousa

dopiava Jerônimo anunciando a passagem da comitiva formada pelo clero, coronéis, comerciantes, beatas e gente do povo são- joanense.

— Hoje os dobres estão perfeitos — dizia

o

De repente os dobres foram perdendo

seu ritmo, o que não era comum, justa-

mente na passagem do Senhor dos Passos. Uma afronta. João abandonará o posto, pensou o Bispo acenando com a mão. O sacristão correu até a torre, entrando zu-

nindo por entre os seus corredores aperta- dos, lá encontrou um pesado alçapão. Com um dos ombros forçou até o esgotamento. Estirado sobre uma poça escarlate o corpo de João Pilão, com sua cabeça decepada um pouco mais adiante. Jerônimo encerra- va o seu último dobre. Lá de cima, já num silêncio absoluto e com todos olhando para cima gritou a sacristão:

o

bispo.

— João morreu, João morreu! — se fez

ecoar por todo o Campo das Vertentes.

Alguns dias depois, lá estava Jerônimo no banco dos réus, o juiz da comarca op- tou pela condenação, e Jerônimo foi cha- mado de o “Sino Assassino”, seu badalo foi retirado e não deveria mais ser tocado até ser conduzido à fundição.

Porém, os sinos são como a Fênix, eles ressurgem das cinzas dando forma a outros sinos, são conduzidos novamente ao batis- mo clerical onde recebem um novo nome. Jerônimo foi rebatizado com o nome de Francisco.

Dizem que nas madrugadas sombrias da quaresma ouve-se Jerônimo chorar o badalo do dobre fúnebre.

Mineiro de São João Del Rei, nascido no ano de 1971. Estudou Filosofia na Faculdade Católica de Anápolis – Goiás. Na filosofia é leitor de Nietzsche, o seu preferido; na literatura, Jorge Amado e Nelson Rodrigues. É membro da U.L.A – União Literária Anapolina. Lançou o seu primeiro livro de contos em julho de 2012. Atualmente deseja entrar para a comunidade SAMIZDAT, por acreditar na sua missão e filosofia.

Contos Zulmar Lopes o Centauro de Saramago Conheceu a Nélida no salão de cabeleireiro. Fora
Contos
Zulmar Lopes
o Centauro de Saramago
Conheceu a Nélida no salão de
cabeleireiro. Fora fazer um corte a
máquina e a gerente, uma fellinia-
na de quase 100 quilos, a convocou
para executar o serviço. Sentado
na cadeira, observando-a através
do espelho, Ignácio sentiu o célebre
desconforto machista em ser atendi-
do por um travesti. Suas mãos eram
pesadas, mãos de homem, a despeito
da tentativa de figura feminina que
Nélida se esforçava em representar.
Não fosse o leve azular da barba e
a voz artificialmente colocada, por
mulher passaria. Ele voltou para
casa incomodado, mas reconhecen-
do que Nélida havia caprichado no
corte.
tou Nélida enquanto manejava com
maestria a máquina. “Professor de
matemática” foi a lacônica resposta.
Como estávamos na Quarta-feira de
Cinzas, Ignácio ouviu atento e as-
sombrado, o relato de Nélida para as
outras cabeleireiras sobre suas aven-
turas no Baile Gay fantasiada de Co-
elhinha da Playboy. Voltou para casa
curioso, imaginando Nélida dentro
dos seus trajes carnavalescos.
Na segunda vez, já estavam um
pouco mais íntimos e o desconforto
diluíra. “Trabalha em quê?” pergun-
Na terceira ida ao salão, encon-
trou um negro forte sentado onde já
considerava o seu lugar. A felliniana
chamou outra cabeleireira para dar
um trato em sua cabeça semirraspa-
da e Ignácio, disfarçando a contra-
riedade, ficou bisbilhotando os mo-
vimentos de Nélida que, num frenesi
entusiástico, esculpia na nuca do
Apolo de Ébano a palavra “Mengo”.

Voltou para casa platonicamente enciumado.

Em sua quarta visita ao salão, durante o ritual do corte, Ignácio pediu Nélida em namoro. Seguiram para a casa do professor e tiveram sua primeira noite de amor.

Passaram a dividir uma quitine- te em Copacabana em companhia de um gato angorá chamado Oscar que interpretava o papel de filho que nunca teriam. Viviam como marido e mulher, pois Ignácio não a desejava como homem e tão pouco Nélida prestava-se ao papel ativo. Só um detalhe atrapalhava a paz conjugal: os flácidos 11 centímetros de Nélida. Ignácio tinha verdadeira ojeriza ao falo da amada, mal con- seguia encará-lo. Passaram muitas madrugadas de carinhos no escuro, com o membro de Nélida ocultado pelo negrume do quarto enquanto o travesti recebia Ignácio de bruços, escondendo a parte de sua anatomia embaraçosa ao seu amor.

Um dia, pousou nas mãos de Néli- da um livro de contos de José Sara- mago. Não era dada a leituras, mas interessou-se pela história de um centauro caçado impiedosamente por um grupo de humanos. Narrava

zulmar Lopes

Saramago que a criatura mitológica sempre tivera o desejo de dormir deitado de costas, o que sua consti- tuição, meio homem, meio equino, o impedia de realizar. Encurralado, o centauro queda-se por um desfila- deiro e tem seu corpo violentamente cortado ao meio por efeito de uma pedra pontiaguda. Em seus últimos momentos de vida, a porção huma- na do centauro caído de costas ex- perimenta o prazer de sentir o solo acariciando suas omoplatas. Emocio- nada, Nélida cerrou o livro e tomou uma decisão.

Foram quase dois anos de espe- ra, mais seis meses de recuperação após a cirurgia. Dr. Euclides Pessoa, conhecido nos meios cirúrgico-cien- tíficos como “O Pitanguy das Xo- xotas”, fizera um trabalho digno de figurar em qualquer galeria de arte, dada a perfeição em que construíra a vagina de Nélida. Então, tal qual o centauro de Saramago, o agora ex- travesti provou da emoção única de, omoplatas roçando os lençóis, receber um homem, seu homem, de frente pela primeira vez na vida e ambos, unidos e extasiados, gozarem os prazeres que um prosaico papai- e-mamãe só àquele casal poderia proporcionar.

Carioca, jornalista, contista e aspirante a romancista, Zulmar Lopes tem um punhado de prêmios literários, a maioria de nenhuma importância. Membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). Roteirista do curta de animação “Chapeuzinho Adolescente”. Em 2011 lançou o livro de contos “O Cheiro da Carne Queimada”. Há anos escreve um romance cujo pano de fundo é o carnaval carioca. Espera terminá-lo ainda nesta encarnação.

http://www.flickr.com/photos/phr3ck/4152171274/

Contos

Isabella Gonçalves Sonho de Cores
Isabella Gonçalves
Sonho de Cores

O verde engole e envolve o tudo.

olhos. Com o movimento, me deixei dormir. Acordei em um lugar en- cantado. Existiam milhares de bor- boletas, e elas pousavam em todos nós, enquanto fotos e flashes eram

disparados. Tentativa de eternizar

o invisível. As aves cantavam, sem

se espantarem muito com a nossa

presença. Tudo era iluminado com

o sol e mais nada. A noite reservava

a presença da lua, que ainda refletia

certa luminosidade, mas apenas o bastante para fazer nossos olhos se acostumarem.

As estrelas decoravam o céu, for- mavam um caminho branco, a via láctea. Deitei no barco, sem saber onde estava. Não podia ser o nos- so planeta, a nossa casa. Era mais.

A estrada fica ali, reservada. Seu cin- za apagado, enquanto carros passam em cima, desejando explorar ainda mais a sua imensidão. Casas peque- nas. Vacas brancas. Árvores. Mato,

mato e mato

E a gente

continua indo e indo em cima desse carro que não sabe muito bem qual destino tomar. Só segue a estrada, perdido e guiado por aquele cami- nho incerto que guarda as surpresas do Pantanal.

Cadê o horizonte? Sumiu

Nem vejo o final.

Pássaros voando. Um, dois, três, quatro. Formavam um V, fazendo ba- rulho e ilustrando o céu. Persegui- os, até que foram embora para não mais voltar. Abandonaram os meus

Fechei os olhos, enquanto tentava

memorizar o instante. Esqueci rápi- do o imensurável. Não tinha como lembrar. Logo já me via espiando, tentando contar todas, perceber os nomes, lembrar os detalhes. Falaram do Cruzeiro do Sul, que apontava

e mostrava a direção, e então o vi.

Navegávamos, seguindo um caminho que ora coincidia com a sua indi-

cação e ora desrespeitava. Ele fica-

va ali, vitorioso e brilhando. Devia

olhar para nós lá de cima, tentar nos contar e guardar as caracterís- ticas. Do jeito que fazíamos. Uma ironia constelar.

Fiz três pedidos. Um para cada estrela cadente. A azul despencou,

depois a verde e a amarela. Caíram

e sumiram no horizonte, forman-

do uma faísca em nossos olhos que

perdurava

descansavam em galhos e jacarés ficavam imóveis, com apenas a ca- beça à mostra, movidos pela curiosi- dade. A gente também os via, quase caindo do barco, de tanto esticar o pescoço. Os olhos deles à mostra, cientes de nossa presença, mas sem atacar.

Ao nosso lado, pássaros

– Ah, se você estivesse fora des-

se navio – deviam pensar. Porque o

bote deles era pequeno demais para aquela embarcação.

Tudo estava preto. Um silêncio quase total. O barco avançava lento, tentando acompanhar a calmaria.

O

céu se clareava pouco a pouco,

e

a lua se despedia dele. O sol se

preparava, emergia lentamente das águas ainda escuras do rio, pronto para iniciar o show e ocultar as ou- tras estrelas.

– “A casa está cheia hoje, chefe” – uma nuvem comentou.

E ele logo se inflou todo, prepa-

rando-se até que o vento lhe sopras- se um aviso final.

Luzes surgiram, com raios irra-

diando atrás de nuvens e invadindo

o céu. O sol nascia. Olhei para a

frente e estava colorido. A bola ver- melha pintava com a sua cor. Azul misturado com laranja em uma aquarela imensa. Alguns pássaros

já se levantavam, tentando tirar um

pouco da cara de sono voando por

aí.

Quando o sol já estava no alto, flashes foram disparados, tentando copiar aquilo tudo. Fotógrafos ga-

nhavam a fama de artistas, enquanto

a estrela amarela era a principal.

Dava vontade de ficar ali, caçando animais com uma câmera e escre- vendo as suas músicas em um papel.

O bom mesmo seria deitar sobre

uma grama dessas para sempre, vendo o Cruzeiro do Sul ao longe, enquanto o verde abraçava e não

deixava ir embora.

http://www.flickr.com/photos/roadblog/96979912/

Contos

oCo LÂNdia Silvana Michele Ramos
oCo
LÂNdia
Silvana Michele Ramos

Naquela pacata terra, tudo funcionava com a mais perfeita integração. Era como uma engrenagem celeste: o açougueiro cortava a carne, o escrivão relatava as ocorrências, o leva-e-traz levava e trazia. Tudo ia bem, até que apareceu lá um arruaceiro.

À sua chegada, todos se alvoroçaram.

Pudera! Ele portava uma bagagem para lá de esquisita. Diversos caixotes castanhos com inscrições de “Cuidado! Frágil!” despertaram curiosidade nos moradores que se achavam na estação de trem no instante do desembarque do sujeito. E, como em todo lugar, houve quem se aproximasse tanto que conseguisse desco- brir, pela denúncia de alguma fresta em um dos contêineres, o teor daquela tralha suspei- tíssima: livros!

O boato logo tomou o lugarejo; e, tal como

no ditado “quem conta um conto aumenta um ponto”, havia quem jurasse que ele, mal en- trara na cidade, já sacara – que perigo! – um robusto exemplar de As mil e uma noites. Já

sobre a bagagem, cogitava-se que seria arti- lharia das mais pesadas: de Gógol a Dostoié- vski, de Donne a Hemingway, passando pelos Machados

Não foi absolutamente infundado concluir que ele traria problemas. E, se os traria, não interessava saber quais seriam ou quando iriam começar. O negócio era cortar logo o mal pela raiz, e em casos como aquele, de ní- tida transgressão, tinha validade saltar toda a baboseira de ouvir o outro lado e chegar sem delongas à parte em que o réu é condenado e punido. Com este ânimo, todos, até os mais liberais, repudiaram em coro a inaceitável abjeção do infame – ainda que não a tivessem presenciado – e se inclinaram, favoráveis, na direção da sentença.

Algumas almas caridosas apiedaram-se quando a noite caiu sem que o forasteiro tivesse encontrado guarida, mas, que remédio? Havia provas irretorquíveis de que ele era re- almente nocivo, e, diante de tantas evidências,

quem se arriscaria a dar hospedagem a ele- mento tão vil? Ficava até mal

A ele coube, então, a sarjeta. Mas não qual-

quer sarjeta. Afinal, havia moradores de rua e moradores de rua, e ele era uma serpente que precisava ser mantida ao largo dos cidadãos de bem. E foi no lugar mais afastado e inós- pito que ele improvisou uma acomodação ao relento.

Na manhã seguinte, um grave acinte. Mal o sol nascera e já estava ele, cometendo franco ato ilícito em plena praça pública: em riste e perigosamente aberto, ostentava nada menos que um Tolstoi, em cuja capa, alguns adoles- centes, já dando sinais de perigosa aculturação, leram: A morte de Ivan Ilitch.

Todos se escandalizavam com aquelas atitudes aviltantes. Que situação! Uma cidade outrora tão tranquila estava agora relegada a

E as crianças eram

as mais suscetíveis. Nutriam temerária simpa- tia pelo degenerado. Se os pais descuidavam- se um instante sequer, lá estavam elas, rentes ao mal-encarado, implorando, ouriçadas, por uma estória. Ele, insensível a todo o dano que isto acarretaria a elas e à sociedade no futuro, contava-lhes as mais instrutivas, e elas, vulne- ráveis, sorviam-nas como água de um poço contaminado, embevecidas, para, mais tarde, de volta às casas, exasperarem os pais com perigosas interpretações, conjecturas e – hor- ror! – questionamentos.

aturar tipos como aquele

Preocupado com a repercussão que aquele exemplo de má conduta teria, o policial do lugar foi ter com o prefeito da cidade, a quem expôs detalhadamente o que se estava passan- do para depois pedir, em nome da manuten- ção da ordem e da segurança, providências as mais emblemáticas.

O prefeito, que era adepto de delegar e de

reprimir, nem pestanejou. Era mesmo o caso de tomar uma atitude para solapar exemplar- mente aquela audaciosa dissidência, sob risco de as bases da governabilidade implodirem a qualquer momento. E, enquanto ele seleciona- va com toda a cautela um castigo à altura da

vilania, a representação do lugar reuniu-se.

Veio o barbeiro, e propôs que se passasse

a navalha. Veio o carpinteiro e sugeriu que se descesse a lenha. Veio o banqueiro e impôs que se fechasse a conta. Mas melhor sugestão

foi a do leiteiro, que se mudara há pouco para

a cidade e ainda pisava em ovos para agradar

os compatriotas e estabelecer seu negócio em

terra tão tradicional. Ele ponderou – atento

a cada reação positiva que sua fala ia impri-

mindo nos semblantes de quem lhe convinha bajular – que um resultado mais eloquente surgiria se se espremesse o indivíduo até a úl- tima gota, exaurindo-o, diante de todos, como uma teta. Sugestão acatada, era hora de cuidar da sua execução. E na calada da noite, um pla- no pela salvação da cidade foi engendrado.

No outro dia, espreitaram desde cedo até se certificarem de que o sórdido tinha-se posto a caminho de seu banco de praça já cativo. Em seguida, esgueiraram-se na direção da mo- radia improvisada. Lá, confiscaram todos os livros do abutre e deixaram um aviso: “O FIM DE QUEM LÊ, AQUI, É O FOGO.”

De volta à morada, ao cair da tarde, o homem deu com a subtração e com o bilhete. Porém, ao contrário do que seria natural em situação semelhante, não fez nenhum alarde sobre o sumiço dos seus bens. Tampouco arre- dou pé dali, e sequer pediu auxílio à autorida- de máxima do lugar, atordoando os idealizado- res e – versáteis! – desencadeadores do ato.

No outro dia, os criadores do plano – que, antecipando-se ao escândalo que o biltre seguramente faria, tinham dado o confisco a saber aos que se encarregariam, involuntaria- mente, da disseminação do boato – divisaram

o atrevido, que se encaminhava, nem minima-

mente abalado e no horário de costume, para

a praça.

Não bastasse isso, o desvelo com que os saqueadores do bem executaram aquela edifi- cante tarefa não bastou para que um exemplar de O Anticristo, de Friedrich Nietzsche, fosse incluído na operação. Desta forma, o abomi- nável levava-o consigo, como um declarado

desafio para um duelo que envolvia a comuni- dade inteira – já toda ciente, àquelas horas, da ineficácia do corretivo. Infâmia! Era a prova da qual os guardiões da honra da cidade necessi- tavam para punir exemplarmente o desajusta- do.

Juntaram-se em volta do infeliz e o arrasta- ram pela praça até chegar ao canteiro cen- tral. Lá, fincaram uma madeira à qual ele foi amarrado. E, como o instrumento acionado na hora H pelo membro da orquestra bem en- saiada, seus valiosos bens ressurgiram, trazidos em lombo de cavalo pelo policial, que mante- ve um risinho sarcástico no rosto por todo o tempo em que os descarregou diante da teta, cuja exaustão, perturbadoramente, tardava em se manifestar, encolerizando ainda mais os protetores da ordem da cidade.

Aquelas crianças para quem o desordeiro lera histórias durante sua polêmica passagem pela cidadela, em franco indício de que o mal já se havia instalado a despeito da seriedade e empenho com que todos trataram a questão, choravam copiosamente. As que felizmente haviam escapado ilesas àquela nefasta impreg- nação, riam-se e gritavam palavras de ordem, atiçadas pelos pais que não cabiam em si de orgulho.

Em tom forçadamente piedoso, o policial,

abarrotado de solenidade, quis saber sobre o último desejo do – seu, enfim! – sujeitado. En- tão o homem – que não era afeito a dar espe- táculos tendo a si como personagem – pediu, em tom artificialmente submisso, que o quei- massem primeiro, e se deu ao luxo de uma justificativa, qual fosse a de que não suportaria ver seus livros, cujo valor, para ele, transcendia

o meramente material e passava a ser afetivo

– sendo, por isso, inestimável – convertendo-se

em inúteis cinzas.

Alguns, precisamente aqueles que se pres- tam a ser os redentores póstumos dos mais indefensáveis criminosos, viram pertinência no pedido. Mas o prefeito, que pertencia à ala dos opressores a la Nero e ansiava por esmagar aquele que ousara ir de encontro a todo um regime que vinha dando certo há tanto tempo

que ninguém se lembrava mais de averiguar a sua legitimidade, determinou que acontecesse precisamente o oposto. Que queimassem os livros antes, e bem na frente dele, para que ele pudesse ter, como última lembrança, a visão de seu tesouro arruinado, e para que eventuais seguidores ficassem certos de que a lei dali tinha de ser cumprida.

Então, os zeladores da tradição do lugarejo

dispuseram, sob o olhar regozijado do leiteiro

– cujo prestígio crescera a ponto de se poder

deleitar no mesmo espaço em que o prefei- to, o policial e outros ilustríssimos do lugar celebravam o triste ocaso da ovelha negra – os livros empilhados a certa distância do réu, de modo que ele pudesse observar sua destrui- ção para, na sequência, senti-la de encontro à própria pele. E não tardou para que calibrosas labaredas começassem a se erguer, enquanto os cidadãos, tochas em punho, observavam, atarantados, o olhar indiferente e até altivo do salafrário.

Subitamente, entretanto, o inusitado acon- teceu: aquelas pessoas impolutas, aqueles autênticos guardiões dos bons costumes, iam, repentina e inexplicavelmente, sendo puxados para o alto em solavancos. Um a um, a come- çar pelos mais próximos da fogueira e depois de maneira caótica, habitantes reles e célebres decolavam, como jatos, para sumirem nas nu- vens. E o homem mantinha-se calmíssimo.

Pânico instalou-se na praça lotada. Enten- dendo que aquilo devia ser alguma espécie de maldição do monstro, a multidão começava

a se dispersar. Houve correria e estardalhaço.

Os lugares mais insuspeitados serviram de esconderijos, mas as pessoas iam, inexoravel- mente, sendo arrancadas de onde quer que estivessem, e, dada a aparente aleatoriedade daquela macabra escolha, não havia muito o que fazerem, a não ser se deixarem ficar – de nenhum modo isentas daquele tormento que amolece e acovarda – até terem que ir. Uma angústia acachapante pairava no ar, mas – não que aquela gente ainda estivesse reparando – o homem dela se eximia. Apenas ficava ali, amarrado e quieto.

 

Depois de algum tempo (o mais longo

era e, ao lançar os olhos em todas as direções

da

vida de quem lá esteve), os puxões ces-

buscando o entendimento amplo, vislumbrei, ao

saram. E, passado o susto, os remanescentes lembraram-se do motivo pelo qual estavam ali. Aproximaram-se do sujeito e o desamar-

olhar para cima, talas e fios coordenando os movimentos de todas elas, e compreendi que não passavam, na realidade, de marionetes. Eu as in-

raram, não sem, simultaneamente, crivá-lo de questões acerca do extraordinário episódio.

duzi a queimarem os livros porque, desta forma, no momento em que as chamas atingissem as

O

que havia ocorrido? Para onde tinham ido

mãos que as animavam, estas mãos, por reflexo,

os

demais habitantes? Por que ele, que deveria

afastar-se-iam, e elas, consequentemente, seriam

ser o mais apavorado, não aparentava o menor

retiradas deste cenário.

dos receios?

Ele caminhou lentamente até o gramado, onde se sentou. Os demais fizeram o mesmo, construindo um semicírculo ao seu redor. Ele, placidamente e fitando cada um daqueles ros- tos tão indagadores quanto familiares, princi- piou uma explicação.

No momento de fazer o pedido, ele conhe- cera que seus algozes, ávidos por demonstra- rem, finalmente, quem mandava – ou desman- dava – naquela cidade, fariam precisamente o oposto do que ele solicitasse. Por isso mesmo, fizera-o ao contrário.

Mas para quê, se você seria queimado em

seguida? – perguntou um menino, que tinha sido – ele reconhecia – um dos frequentadores

mais assíduos das sessões que ele promovera naquela praça.

Ora – respondeu ele – depois de ler todos

aqueles livros, eu aprendi que nem tudo o que aparenta ser, chega a ser, na verdade.

Como assim? – insistiu o garoto.

Note – explicou ele – que todas aquelas

pessoas tinham um comportamento padrão. Elas não tinham vontade própria. Logo, alguém as comandava. Eu me interessei por saber quem

Silvana michele ramos

E nós? Porque nós não fomos puxados tam-

bém? – quis saber uma mocinha que também não lhe era estranha. – Foi porque vocês, ao resolverem não se privar do conhecimento, ad- quiriram, por meio dele, uma volição autônoma que os desatrelou desse comando central.

Assim foi que o homem, auxiliado pela população remanescente, reouve os exempla- res que haviam escapado ao fogo, catalogou os incinerados e, graças a diversas vaquinhas levadas a cabo sobretudo pelas crianças, re- construiu o acervo extraviado.

Algum tempo depois, ele inauguraria a primeira biblioteca da Ocolândia e, anos mais tarde, essa mesma população, junto com seus descendentes, em plebiscito, decidiria que a cidade, em homenagem ao seu opinioso quase mártir, chamar-se-ia Opiniópolis, e que ali, doravante, só haveria uma proibição: recrimi- nar pensamentos que divergissem do senso comum.

E naquela pacata terra, ao se olhar para cima, via-se, agora, o céu azul

(Revisto em 08.07.12)

Ingressou propriamente na Literatura em 2006 com este conto “Ocolândia”. De então até o momen- to da presente republicação, foram 16 as deferências auferidas em seleções literárias. O conto “Ocolândia” foi publicado em 2007, em Belém do Pará, na coletânea “PRÊMIO DE LITE- RATURA AP” (Ícone Gráfica), decorrência de seu 3o. lugar no referido prêmio, em 2006. Pode ser tido como conto de estreia porque a única publicação afim e anterior é a de uma redação em coletânea trilíngue (concurso para universitários brasileiros promovido por UNESCO / Folha Dirigida / MEC em 2005), publicação esta que, apesar de seu alcance além-país (todos os países afiliados da UNESCO), ain- da não assume inteiramente o formato de ficção. Mas o valor do velho conto “Ocolândia” é o de uma “obra-testemunho”: os elementos em que se baseia o estilo atual de escrita da autora já figuravam nele.

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Contos

http://wallpapersup.net/ship-sea-storm-painting/ Contos menina na tempestade João Vereza 48 SAMIZDAT setembro de 2012

menina na tempestade

menina na tempestade
menina na tempestade
http://wallpapersup.net/ship-sea-storm-painting/ Contos menina na tempestade João Vereza 48 SAMIZDAT setembro de 2012

João Vereza

Gabriel Beautrace, o naturalista, deixou sua cabine e a enxurrada lhe cuspiu a cara.

O aguaceiro escorria sem misericórdia, Deus perdeu o coração, o tanto que jorrava, a

água que mandava, descia das calhas do galeão como corredeira. Foram os espécimes, seus potes de insetos, caíram pelo balanço labirintite, volta aqui, rola prali, criançada na gangorra do tombadilho. Beautrace partiu atrás, sal no peito, frio na vista, enfrentou lufada e escorregão, catan- do suas descobertas feito uma tia desesperada.

Céu escuro, troço violento, trovões sem saber de onde, os raios sem saber o próximo, estalo!, explosão!, valei-nos que Deus acordou furioso. A tripulação espalhada na correria, recolham as velas descabeladas, amarrem firme estes barris, Nossa Senhora, tranquem logo os víveres na gaiola.

O Capitão um capeta delirante, ordenou ser amarrado, chumbado, preso ao timão

pela corda serpente. Gorgolejou com os pulmões, gargalhou como uma viúva louca, ‘molhe mais, vente mais, minha menina o Senhor não naufraga!.

Seus marujos visíveis nos relâmpagos estroboscópicos, agora esticam uma corda, agora estirados no convés, agora rezam à garrafa de rum.

O navio carregado pela avalanche do oceano, que chance terão suas almas?, pra que

destino lhes suga o redemoinho?.

Beautrace um suplício em direção à cabine, agachado, bambeado, um braço empilhan- do três jarros de borboletas, o outro se apoiando nos mastros e canhões.

O

O

barco subia, o barco descia, a porta a uma ironia do seu alcance.

naturalista olhou e se apavorou, um jarro de besouros passou entre seus pés, giran-

do sem freio pro mar. Agarrado às madeiras velhas, o moleque Mirandinha também viu, se

do sem freio pro mar. Agarrado às madeiras velhas, o moleque Mirandinha também viu, se recuperar estes bichos, certeza!, Beautrace o adotará como aprendiz.

O vidro cai na água, o menino se livra das cordas e salta o herói alado, o mergulho

sob uma pratada de orquestra. Nada no estômago das ondas, chega até o jarro e agarra-se ao medalhão salva-vidas.

Os besourinhos sobreviventes e amontoados, as patinhas vagarosas pelo ar, as pernas do menino gastando a bravura. Ele grita para o vulto do barco, a água rouca encharcando a voz adolescente.

O Capitão voltaria com sua menina, nem homem, nem besouro, se esquece para trás.

Seu fôlego falhando e o navio se distanciando, a esperança tola ninguém ouviu. ‘Meu Capitão, doutor Beautrace!, já iam lhe jogar a bóia, ‘aqui!, claro que iam, ‘aqui!, já iam já.

João Vereza

32 anos, é carioca. Redator publicitário, mora há 6 anos em São Paulo e tem seus textos publicados nos sites Mundo- Mundano e Jornalirismo.

http://www.flickr.com/photos/amycgx/2877633638/

Contos

Sombras de carne

http://www.flickr.com/photos/amycgx/2877633638/ Contos Sombras de carne Cinthia Kriemler 50 SAMIZDAT setembro de 2012

Cinthia Kriemler

Lola limpou a boca no lençol, pouco se importando com o olhar magoado

do rapaz ao seu lado. Aqueles encontros estavam começando a irritá-la. Rodrigo aparecia mais de uma vez por semana no Mercado Municipal, com um jeito desamparado de cachorro com fome, e ela acabava por se deixar vencer pela

piedade. Os olhos

Rodrigo que atraíam, prendiam. Não a boca, nem os gestos que não passavam de uma mão trêmula e gelada, e de um único grito abafado na hora do gozo. Seus olhos, no entanto, cuspiam sofri- mento, escondiam algum segredo.

Havia entre os dois um comércio. Nada mais. Lola não gostava da demora do rapaz, do tempo arrastado que levava para gozar. Uma coisa tão simples essa de trepar, mas Rodrigo insistia em fazer de cada uma das vezes um ritual de afe- to, como se estivessem num encontro. Ela já estivera com outros da idade dele, outros que se apaixonaram pelos seus seios e pelo seu sexo sem pelos, que a tocaram como gatos nervosos, desajeita- dos, arranhando, mordendo, se esfregan- do em sua pele lisa. Mas Rodrigo tinha aqueles olhos, só podia ser isso! E ela acabava por se deitar com ele novamen- te, rendendo-se a preliminares que não permitia a ninguém mais.

— Por que é que você limpou a boca? — quis saber o rapaz.

Sem lhe dar resposta, Lola enfiou o corpo carnudo debaixo do chuveiro. Ela tinha pressa. Sempre tinha. As coisas deveriam estar fervendo no mercado, e Xavier não gostava de ficar sozinho na banca. Reclamava da demora nas entre- gas e pedia a ela que não se ausentasse por tanto tempo. Não que desconfiasse dela. Não, isso nunca! Mas ficava deso- rientado quando a mulher não estava para atender os fregueses. Embrulhava os queijos e as compotas no papel erra- do, amassava as frutas, e os fregueses só

Eram os olhos de

não iam embora por causa da amizade. Ela e Xavier mantinham a banca desde

que tinham se casado, 18 anos antes. Dezoito anos atrás Rodrigo tinha três anos, pensou, esquecendo-se do marido

e do mercado. Mas logo afastou o pen-

samento e concentrou-se no vaivém da toalha com que enxugava as costas.

Desde que Xavier tinha ficado doente, havia algum tempo, nunca mais fora o mesmo. Acabaram-se as brincadeiras prolongadas no colchão, o sexo em pé, atrás da porta, quando a urgência não permitia chegar ao quarto, e as fugas para os fundos da banca, onde se exci- tavam como adolescentes, escondidos atrás dos caixotes de fruta. Ela se acos- tumara, ano a ano, a fazer tudo com pressa. Não fosse aceitar aquela rapidez do marido, ficaria sem nada.

Traíra Xavier, pela primeira vez, seis anos antes. Um freguês perguntou se faziam entregas em domicílio e ela mesma se encarregou de ir levar as compras. Preferia que o marido ficas- se na banca. Por mais desajeitado que fosse, Xavier era melhor do que ela nas contas, e havia ainda os fornecedores, com quem Lola preferia não ter que lidar. Quando chegou ao apartamen- to sofisticado, foi o freguês quem lhe abriu a porta. Alto, com a pele clara e os cabelos escuros levemente ondulados, recendia a um perfume discreto, mas

insinuante. Lola teve vontade, assim que

o viu, de passear os dedos naquele peito

largo. Deve ser bom deitar em cima dele depois do sexo, se pegou pensando. Depois, as mãos que se roçaram na en- trega das compotas, o pacote que caiu, os dois corpos que se abaixaram juntos na tentativa de pegá-lo, e o perfume que se impregnou nos seus sentidos, rou- bando-lhe o juízo. Por fim, os olhos se provocaram. E os dois se completaram pela fome. Era assim que Lola gostava de se lembrar das coisas.

Fizeram sexo, ela e o homem do perfume suave, por quase um ano. Ele ia até a banca, encomendava os produ- tos e pedia que fossem entregues em sua casa. E a entrega se fazia no suor dos corpos apressados. Lola fez-lhe uma exigência: que comprasse sempre muito. Aplicava, assim, ao amante e a si mesma, um mea culpa. Ambos pagavam, a seu modo, pelo que consumiam. Quando o amante parou de procurá-la, Lola per- cebeu que não sentia falta dele, mas das compras que fazia em abundância. E de- cidiu que era preciso repor o prejuízo. Da banca e do corpo. Um a um, foram surgindo outros fregueses. No princípio, ocasionais, induzidos pela boca pintada de Lola, que parecia a polpa das frutas que vendia. Mas, em poucos meses, o plantel que a solicitava era constante.

Assim que Xavier quis contratar um ajudante para ajudá-la com as entregas,

ela se opôs: “Desse jeito, o lucro vai-se embora!”. Aos 42 anos, Lola rendia-se pela primeira vez em sua vida a um vício. Viciara-se não somente no sexo diversificado, mas na urgência, no de- sejo pelos corpos que aliviavam os seus tremores. Nenhum dos amantes dava trabalho. Nenhum deles fazia do sexo mais do que o prazer das línguas an- siosas, das penetrações que a invadiam com mais ou menos força. Aceitava o aperto nos seios, as bofetadas ocasio- nais que levava ou dava, a cavalgada e

a posse animal. Recusava-se, apenas, a

dentes que lhe marcassem o corpo que

Xavier veria, cedo ou tarde; e aos beijos na boca, que se empenhava em reser- var para o marido. Negava-se, também,

a deitar-se com menores e com mais

de um amante ao mesmo tempo. Afora essas rejeições, fazia pouco sexo com mulheres, porque sentia falta da pene- tração e dos fluidos.

O primeiro rapaz com o qual havia feito sexo tinha cerca de 20 anos. Lem-

brava-se sempre dele e dos outros, de

mesma idade

são desajeitados!, pensava, observando- lhes os gestos durante o coito. Como muitos deles não tinham dinheiro ou renda, comprometiam-se com a obriga- ção de levarem pais e amigos à banca no mercado. Cumpriam direito o trato, com medo de terem que ir correr atrás de jovens cheias de espinhas e regras que os afastavam por pudor ou esperte- za.

É impressionante como

Rodrigo tinha ido à banca, pela pri-

meira vez, num dia frio. Primeiro, ficara olhando para o chão, com timidez, mas no momento em que seu olhar cruzou com o dela, Lola percebeu a inquietação que havia naqueles olhos que fugiam de tudo. Chegando ao pequeno apartamen- to do rapaz para entregar as frutas e os doces, surpreendeu-se com a arrumação

e o bom gosto do lugar. E surpreendeu-

se mais ainda quando Rodrigo lhe disse que morava sozinho. Fizeram um sexo ruim sobre a cama macia e larga, mas Lola não estava interessada nas habili- dades de Rodrigo. Impressionava-se era com os gestos relutantes e respeitosos do rapaz, quase como se lhe quisesse fazer amor.

— Primeira vez? — perguntou, curiosa.

— Não, com certeza não. Mas, de uma certa maneira, sim

Apesar de intrigada, Lola decidiu que já tinham conversado demais. Coitado, não bate bem das ideias, disse a si mes- ma, enquanto saía do apartamento de Rodrigo, logo depois.

O rapaz a procurava havia cinco

meses. Procurava sempre, em excesso.

E Lola concordava em se deitar com ele

por pena, curiosidade, culpa

culpa aquele sentimento que sempre a levava a fazer coisas das quais se arre- pendia depois. Sentia-se culpada por não conseguir dar a Rodrigo o alívio

Sim, era

que vira em outros homens, em outros rapazes, como ele. Era o mesmo senti- mento que a tomava quando percebia os olhares perdidos de Xavier, o cenho franzido, as mãos apertadas como se fossem dar socos no vazio, ou como se pensamentos absurdos lhe passassem pela cabeça.

Chega!, pensava ela agora, contrariada, descendo com barulho as escadas do prédio de Rodrigo. Enquanto caminha- va de volta ao mercado, decidiu que se livraria dele. Rodrigo não lhe fazia bem ao corpo nem aos pensamentos, que se aceleravam em hipóteses que ela não conseguia entender. Que se foda com os seus segredos!, decidiu, pouco antes de chegar à banca.

Naquela noite, Lola resolveu que tinha que se livrar do rapaz. Xavier estava fora, num dos cursos para comerciantes que vivia fazendo, e ela teria tempo de sair e voltar sem ser vista. O marido não era homem de controlar os seus passos, mas ela preferia não ter que se explicar, para não ter que mentir. Orgu- lhava-se de pensar que não mentia para Xavier. Eu omito coisas dele, eu o enga- no, mas não minto para ele, repetia Lola para si mesma, quando a consciência teimava em vir à superfície.

Aprontou-se rapidamente e borrifou nos pulsos e nas orelhas o perfume que usava diariamente. Em vez do táxi que pensara inicialmente pedir, preferiu caminhar. A noite estava um pouco fria e a falta do agasalho fez com que seus mamilos se avolumassem inconvenien- temente sob o vestido de malha decota-

Cinthia Kriemler

do. Prosseguiu a passo rápido, dando-se conta de onde estava apenas quando passou a ouvir alguns gracejos pesados e assovios que começaram a incomodá- la. O atalho pela praia não tinha sido uma boa escolha. Percebeu, tarde de- mais, que atravessava uma das piores zonas de meretrício da cidade. Nos mu- ros, as sombras dos corpos que faziam sexo não a assustavam tanto quanto os corpos que enxergava em carne e osso consumindo-se perto dos barcos, na areia, ou nos carros estacionados ao lon- go do meio-fio. Correu para afastar-se daquelas Lolas multiplicadas em trepa- das rápidas, daqueles espelhos incômo- dos. Encostando-se nas grades de uma loja fechada, vomitou.

Pouco depois, retomou a caminhada, com passos ainda mais rápidos. Viran- do a última esquina em frente ao porto, suspirou, sentindo-se aliviada. No en- tanto, logo a seguir, viu os dois corpos projetados na parede mais à frente. Pen- sou em parar, em recuar, mas alguma coisa naquele coito a atraiu, deixando-a excitada. O movimento das sombras acelerou-lhe os sentidos, e ela procurou avidamente os próprios seios, apertando- os com força. Devagar, gemendo muito baixo, aproximou-se mais e mais do muro que se contorcia, e tornou-se parte daquele clímax.

Então, seus olhos se cruzaram com outros. Nos de Rodrigo, mais nenhum segredo. Nos de Xavier, o fogo que ela perdera para sempre.

Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de con- tos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — RE- BRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.

tradução

Provérbios do inferno

o Casamento entre o Céu e o inferno (excerto)
o Casamento entre o Céu e o inferno (excerto)
o Casamento entre o Céu e o inferno (excerto)
o Casamento entre o Céu e o inferno (excerto)
o Casamento entre o Céu e o inferno (excerto)
o Casamento entre o Céu e o inferno (excerto)
o Casamento entre o Céu e o inferno (excerto)
o Casamento entre o Céu e o inferno (excerto)
o Casamento entre o Céu e o inferno (excerto)

o Casamento entre o Céu e o inferno (excerto)

do inferno o Casamento entre o Céu e o inferno (excerto) William Blake trad.: Henry Alfred

William Blake

trad.: Henry Alfred Bugalho

54 54 SAMIZDAT setembro de 2012 54
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SAMIZDAT setembro de 2012
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entre o Céu e o inferno (excerto) William Blake trad.: Henry Alfred Bugalho 54 54 SAMIZDAT

Na semeadura, aprenda, na colheita, ensine, no inverno, desfrute.

Conduza sua carroça e o arado sobre os ossos dos mortos.

O caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria.

Prudência é uma rica senhora velha e feia cortejada pela incapacidade.

Aquele que deseja mas não age, engendra pestilência.

A minhoca perdoa o arado que a corta.

Mergulha no rio aquele que ama a água.

Um tolo não vê a mesma árvore que vê um homem sábio.

Aquele cujo rosto não resplandece, jamais se tornará uma estrela.

Eternidade é apaixonada pelas obras do tempo.

A abelha ocupada não tem tempo para lamento.

As horas de tolice são contadas pelo relógio, mas as de sabedoria nenhum relógio pode contar.

Nenhuma comida saudável é apanhada com rede ou armadilha.

Usa número, peso e medida num ano de escassez.

Nenhum pássaro voa alto de mais se voa com as próprias asas.

Um corpo morto não vinga ferimentos.

O

ato mais sublime é colocar o outro adiante de si.

Se

o tolo persistir em sua tolice, tornar-se-á sábio.

Tolice é o disfarce da astúcia.

Vergonha é orgulho disfarçado.

Prisões são construídas com as pedras da Lei, bordéis com os tijolos da Religião.

O orgulho do pavão é a glória de Deus.

A luxúria do bode é a recompensa de Deus.

A fúria do leão é a sabedoria de Deus.

A nudez da mulher é a obra de Deus.

Excesso de pesar, risos. Excesso de alegria, pranto.

O rugido dos leões, o uivo dos lobos, a fúria do mar tempestuoso e a espada des-

trutiva são porções da eternidade grandes de mais para o olhar do homem.

A raposa condena a armadilha, não a si mesma.

Alegria impregna. Pesar dá a luz.

Que o homem vista a pele do leão, a mulher o pelego da ovelha.

O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.

O sorridente tolo egoísta e o tolo triste e carrancudo serão ambos considerados

sábios e servirão de exemplos.

O que hoje é prova, ontem era somente imaginação.

A ratazana, o rato, a raposa e o coelho: atenção às raízes; o leão, o tigre, o cavalo

e o elefante: atenção aos frutos.

A cisterna contém; a fonte transborda.

Um pensamento preenche a imensidão.

Esteja sempre pronto para dizer o que pensa e um homem vil o evitará.

Qualquer crença é uma imagem da verdade.

A águia nunca desperdiçou também tempo como quando ela resolveu aprender

com o corvo.

A raposa provê para si própria, mas Deus provê para o leão.

Pense de manhã. Aja ao meio-dia. Coma à tarde. Durma à noite.

Aquele que te permite abusar dele, a ti conhece.

Como o arado obedece às palavras, assim Deus recompensa as orações.

Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.

Espera veneno das águas paradas.

Nunca saberás o que é o suficiente, a não ser que saibas o que é mais do que o suficiente.

Ouve a repreensão dos tolos! É um título real!

Os olhos do fogo, as narinas do ar, a boca da água, a barba da terra.

O débil em coragem é forte em astúcia.

A macieira nunca pergunta à faia como ela deve crescer, nem o leão ao cavalo

como ele deve caçar sua presa.

Aquele que agradece o que recebe tem uma abundante colheita.

Se os outros não fossem tolos, nós deveríamos sê-lo.

A alma do deleite doce não pode ser maculada.

Quando tu vês uma águia, vês uma porção do gênio. Ergue tua cabeça! Assim como
Quando tu vês uma águia, vês uma porção do gênio. Ergue tua cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as folhas mais belas para deitar seus ovos, assim o
padre deita sua maldição nas mais belas alegrias.
Criar uma pequena flor é um labor de eras.
Maldição fortalece. Benção afrouxa.
O
melhor vinho é o mais antigo, a melhor água é a mais nova.
Orações não aram! Elogios não ceifam!
Alegrias não riem! Pesares não choram!
A
cabeça, Sublime, o coração, Pathos, os genitais, Beleza, as mãos e pés, Proporção.
Assim como o ar para o pássaro e o mar para o peixe, assim é o desprezo para o
desprezível.
O
corvo desejaria que tudo fosse preto, a coruja que tudo fosse branco.
Exuberância é Beleza.
Se
o leão fosse aconselhado pela raposa, ele seria astuto.
O
progresso constrói estradas retas, mas os caminhos tortuosos, sem progresso,
são estradas de gênio.
Antes assassinar um bebê em seu berço do que nutrir desejos não realizados.
Onde o homem não está, a natureza é estéril.
A
verdade nunca deve ser dita para ser compreendida, e não ser acreditada.
Basta! Ou de mais!
a i magem d ivina

a i

magem

d ivina

William Blake trad.: Henry Alfred Bugalho
William Blake
trad.: Henry Alfred Bugalho
magem d ivina William Blake trad.: Henry Alfred Bugalho À Misericórdia, Piedade, Paz e Amor Todos

À Misericórdia, Piedade, Paz e Amor Todos rezam em seu sofrimento;

E para estas virtudes de deleite Devolvem seu agradecimento.

Pois Misericórdia, Piedade, Paz e Amor

É

Deus nosso pai querido,

E

Misericórdia, Piedade, Paz e Amor

É

homem, sua cria e cuidado.

Pois Misericórdia tem um humano coração, Piedade, um humano rosto,

E

Amor, a divina humana forma,

E

Paz, a humana veste.

Então, cada homem, em cada clima, Que reza em sua desdita, Reza para a divina humana forma. Amor, Misericórdia, Piedade, Paz.

E todos devem amar a humana forma,

Nos pagãos, Turcos, ou Judeus; Onde Misericórdia, Amor e Piedade habi-

tam

Ali também habita Deus.

o Cordeiro

William Blake trad.: Henry Alfred Bugalho
William Blake
trad.: Henry Alfred Bugalho
o Cordeiro William Blake trad.: Henry Alfred Bugalho Cordeirinho, quem te fez? Acaso sabes quem te

Cordeirinho, quem te fez? Acaso sabes quem te fez? Deu-te vida e comida Pelo córrego e pelo pasto; Deu-te veste de deleite, Veste macia, lanosa, reluzente; Deu-te tal terna voz, Regozijando os vales todos. Cordeirinho, quem te fez? Acaso sabes quem te fez?

Cordeirinho, direi a ti, Cordeirinho, direi a ti:

Por teu nome ele é chamado, Pois ele se chama por Cordeiro. Ele é humilde, ele é amável; Ele se tornou um menino. Eu um menino, tu um cordeiro, Somos chamados pelo nome dele. Cordeirinho, Deus abençoe a ti! Cordeirinho, Deus abençoe a ti!

www.revistasamizdat.com

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SAMIZDAT setembro de 2012

SAMIZDAT setembro de 2012

William Blake (Londres, 28 de novembro de 1757 — Londres, 12 de agosto de 1827) foi um poeta, tipó- grafo e pintor inglês, sendo sua pintura definida como pintura fantástica.

Blake viveu num perío- do significativo da história, marcado pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial na Inglaterra. A literatura es- tava no auge do que se pode chamar de clássico “augus- tano”, uma espécie de para- íso para os conformados às convenções sociais, mas não para Blake que, nesse senti- do era romântico, “enxergava o que muitos se negavam a ver: a pobreza, a injustiça social, a negatividade do poder da Igreja Anglicana e do Estado.”

infância

Blake nasceu na “28ª Broad Street”, no Soho, Londres, numa família de classe média. Seu pai era um fabricante de roupas e sua mãe cuidava da

educação de Blake e seus três irmãos. Logo cedo a Bíblia teve uma profunda influência sobre Blake, tornando-se uma de suas maiores fontes de inspiração.

Desde muito jovem Blake dizia ter visões. A primeira de- las ocorreu quando ele tinha cerca de nove anos, ao decla- rar ter visto anjos pendurando lantejoulas nos galhos de uma árvore. Mais tarde, num dia em que observava preparado- res de feno trabalhando, Blake teve a visão de figuras angeli- cais caminhando entre eles.

Com pouco mais de dez anos de idade, Blake começou a estampar cópias de desenhos de antiguidades gregas com- prados por seu pai, além de escrever e ilustrar suas pró- prias poesias.

aprendizado com Basire

Em 4 de agosto de 1772, Blake tornou-se aprendiz do famoso estampador James Basire. Esse aprendizado, que estendeu-se até seus vinte e um anos, fez de Blake um profissional na arte. Segundo seus biógrafos, sua relação era harmoniosa e tranquila.

aprendizado na the royal academy

Em 1779, Blake começou seus estudos na The Royal Academy, uma respeitada instituição artística londrina. Sua bolsa de estudos permitia que não pagasse pelas aulas, contudo, o material requerido nos seis anos de duração do curso deveria ser providencia- do pelo aluno.

Este período foi marca- do pelo desenvolvimento do

caráter e das ideias artísticas de Blake, que iam de encon- tro às de seus professores e colegas.

Casamento

Em 1782, após um rela- cionamento infeliz que ter- minou com uma recusa à sua proposta de casamento, Blake casou-se com Catherine Boucher. Blake ensinou-a a ler e escrever, além de tarefas de tipografia. Catherine retribuiu ajudando com devoção Blake em seus trabalhos, durante toda sua vida.

trabalhos

Blake escreveu e ilustrou mais de vinte livros, incluindo “O livro de Jó” da Bíblia, “A Divina Comédia” de Dante Alighieri – trabalho interrom- pido pela sua morte – além de títulos de grandes artistas bri- tânicos de sua época. Muitos de seus trabalhos foram mar- cados pelos seus fortes ideais libertários, principalmente nos poemas do livro Songs of Innocence and of Experience (“Canções da Inocência e da Experiência”), onde ele aponta- va a Igreja e a alta Sociedade como exploradores dos fracos.

No primeiro volume de poemas, Canções da inocência (1789), aparecem traços de misticismo. Cinco anos depois, Blake retoma o tema com Canções da experiência esta- belecendo uma relação dia- lética com o volume anterior, acentuando a malignidade da Sociedade. Inicialmente pu- blicados em separado, os dois volumes são depois impressos em Canções da inocência e da experiência - revelando os

dois estados opostos da alma humana.

William Blake expressa sua recusa ao autoritarismo em Não há religião natural e Todas

as religiões são uma só, textos em prosa publicados em 1788. Em 1790, publicou sua prosa mais conhecida, O matrimônio do céu e do inferno, em que formula uma posição religiosa

e política revolucionária na

época: “a negação da realidade da matéria, da punição eterna e da autoridade”.

Apesar de seu talento, o

trabalho de gravador era mui- to concorrido em sua época,

e os livros de Blake eram

considerados estranhos pela

maioria. Devido a isto, Blake nunca alcançou fama signifi- cativa, vivendo muito próximo

à pobreza.

morte

No dia de sua morte, Blake trabalhava exaustivamente em A Divina Comédia de Dante Alighieri, apesar da péssima condição física que culmina- ria no seu fim. Seu funeral, bastante humilde, foi pago pelo responsável pelas ilustra- ções do livro, e apesar de sua situação financeira constante- mente precária, Blake morreu sem dívidas.

Hoje Blake é reconhecido como um santo pela Igreja Gnóstica Católica, e o prêmio Blake Prize for Religious Art

(Prêmio Blake para Arte Sacra)

é entregue anualmente na

Austrália em sua homenagem.

Fonte: http://pt.wikipedia.

org/wiki/William_Blake

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SAMIZDAT setembro de 2012

William Blake, O Grande Dragão Vermelho e a Mulher Vestida em Sol

William Blake, Sete Espíritos de Deus www.revistasamizdat .com www.revistasamizdat .com 63 63

William Blake, Sete Espíritos de Deus

www.revistasamizdat.com

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SAMIZDAT setembro de 2012

William Blake, The Ancient of Days setting a Compass to the Earth

www.revistasamizdat .com 65 65 William Blake, Night startled by the Lark

www.revistasamizdat.com

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William Blake, Night startled by the Lark

http://www.flickr.com/photos/lchifi/231115148/

artigo

http://www.flickr.com/photos/lchifi/231115148/ artigo Henry Alfred Bugalho o m uro de indiferença ou a
http://www.flickr.com/photos/lchifi/231115148/ artigo Henry Alfred Bugalho o m uro de indiferença ou a
Henry Alfred Bugalho
Henry Alfred Bugalho
Henry Alfred Bugalho

Henry Alfred Bugalho

Henry Alfred Bugalho
artigo Henry Alfred Bugalho o m uro de indiferença ou a invisibilidade dos

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indiferença

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o m uro de indiferença ou a invisibilidade dos candidatos a escritores

ou a invisibilidade dos candidatos a escritores

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o m uro de indiferença ou a invisibilidade dos candidatos a escritores
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o m uro de indiferença ou a invisibilidade dos candidatos a escritores
o m uro de indiferença ou a invisibilidade dos candidatos a escritores

Você teve uma ideia brilhante para um livro? Gastou os últimos meses, ou talvez anos, desenvolvendo-a e pondo-a no papel? Sua obra está pronta e agora só falta publicá-la?

É neste ponto que o sonho de ser um escritor converte-se em pesadelo, ou melhor, é quando a realidade se mostra em sua mais crua e angustiante forma:

qualquer um pode escrever um livro, mas não é qualquer um que poderá publicá-lo comercialmente.

a proliferação do talento

Até pouco tempo atrás, a escrita, ou pelo menos a escrita enquanto profissão, era uma tarefa para poucos afortunados.

Não era todo o mundo que tinha acesso a educação de qualidade, nem o domínio técnico da escrita para produ- zir bons livros. Assim como em outras atividades artísticas – nas artes plásticas, na fotografia, na dança, na música e no cinema – era necessário muito tempo de estudo e prática para se consolidar numa carreira, além de ter de estar no lugar certo, relacionando-se com as pes- soas certas.

Inclusive, a quantidade de livros es- critos, peças de teatro, filmes, canções, fotografias, etc., era muito inferior, ape- sar de já ser num volume muito maior do que qualquer ser humano pudesse assimilar.

O fato é que, da década de 80 para cá, publicou-se mais livros do

que nos cinco séculos precedentes, quando Johannes Gutenberg inventou a imprensa.

A primeira constatação a partir desta

explosão criativa foi que talento artís- tico não é uma exclusividade de uns poucos gênios.

Todavia, a segunda descoberta é que sempre haverá muito mais lixo do que obras de qualidade, pois nem todos que pensam ter algum talento o têm de fato, ou, o que é pior, às vezes um escri- tor talentoso acaba desperdiçando seu potencial em projetos ruins, somente na intenção de ganhar dinheiro ou ficar famoso.

o muro da indiferença

O capitalismo é brutal.

Ninguém precisa que eu afirme isto para perceber que o capitalismo funda- se na desigualdade econômica: alguns poucos ganham muito dinheiro, en- quanto a maioria oferece sua força de trabalho por míseros trocados.

O sucesso de poucos depende neces-

sariamente do fracasso de muitos.

Não sou contra o mercado de consu- mo, aliás sou o primeiro a reconhecer seus inúmeros benefícios. No entanto, quando se trata da criação artística e literária, estamos do lado de fora da indústria, fomos esquecidos por ela. Somos e fomos ignorados.

Se você, caro candidato a escritor, já enviou seus originais para algumas

editoras e foi recusado, então já deve ter alguma ideia do que estou falando, senão, está na hora de você tentar.

Em janeiro de 2012, entrei em conta-

to com quase trinta editoras para con- firmar se estavam recebendo originais para análise, pois estas

informações nem sempre estão muito claras nos sites delas.

Destas, somente três responderam, sendo que

duas delas não recebiam mais material por não terem equipe suficiente para dar conta de todos os manuscritos que já haviam recebido anteriormente.

o editor afirma que meu livro é um lixo, que meus personagens são fracos, que não sei escrever, que não tenho nenhum futuro no mercado literário,

pois, pelo menos, terei a certeza que fui lido, que alguém realmente dedicou um pouco de seu tempo para

tentar encontrar algum valor naquelas páginas que me tomaram tantos dias para serem escritas e revisadas.

“Pior do que a

crítica negativa, ou até mesmo do que

a crítica destrutiva,

é a indiferença”

Pior do que a crítica negativa, ou até mesmo do que a crítica destrutiva, é a indife- rença, a sensação que você é tão insig- nificante que não merece sequer uma resposta por e-mail.

Este é o cenário que você, escritor iniciante, encontrará diante de si.

Após mais de uma década escre- vendo, conversando com centenas de escritores e participando de oficinas li- terárias, editando obras e revistas inde- pendentes, não conheço nenhum autor que tenha sido publicado por uma das grandes editoras do Brasil. Nenhum, absolutamente zero!

E isto porque eu, que não tenho ne- nhuma influência no mercado literário, já pude me deparar com escritores bri- lhantes, daqueles que escrevem histórias que reverberam em sua mente por dias e dias, de fazer os pelos de suas costas se arrepiarem durante a leitura. Vários deles não suportaram o muro de indife- rença e hoje nem escrevem mais.

De trinta, somente três respostas!

As que informam que só analisam material enviado através de agentes lite- rários já delimitaram sua política: “não trabalhamos com autores estreantes”. Pois qual autor em início de carreira possui um agente literário influente?

Em julho deste mesmo ano, contatei dez editoras, enviando algumas breves perguntas sobre o processo de sele- ção de autores estreantes e apenas a Soraia Reis, diretora editorial da Editora Planeta, respondeu*.

Agora, cá entre nós, se a equipe de uma editora é incapaz de ler e respon- der simples e-mails, você ainda acredita que eles lerão e darão alguma atenção ao seu livro de trezentas páginas?

Como escritor, eu não me importo se receberei uma carta de recusa na qual

Alguns simplesmente não aguentam.

Alguns não estão prontos para arcarem com o peso da invisibilidade.

a culpa é dos escritores?

Talvez os dois grandes erros de um

escritor iniciante sejam a ingenuidade e

a presunção.

Ingenuidade porque ele não dedicou algumas horas para tentar entender o mercado de livros, o que se tem publi- cado e como se aproximar das editoras.

Segundo Laura Bacellar, editora e autora da obra e site “Escreva seu Livro”:

“qualquer nível de profissionalismo é tão raro entre autores brasileiros que ao fazer isso você já se diferencia do bando de uma maneira extravagante”. Soraia Reis, diretora editorial da Planeta, também defende o mesmo argumento: “Outro ponto importante é enviar

o original para as editoras certas, ou seja, antecipa- damente, verificar quais áreas e gêneros as editoras publicam, para não perder tempo.”

E não temos porque questionar que grande parte da responsabilidade do fracasso é do escritor, e é aí que entra

a presunção, pois vários autores acredi-

tam que suas obras são muito melhores do que realmente são, ou eles imaginam que revolucionarão o mundo da Lite- ratura com suas “obras-primas” e que ninguém é capaz de reconhecer a sua genialidade.

Como aponta Bacellar, não basta que um romance seja bom, ele “precisa ter diferencial”, recomendação que se asse- melha muito à visão de Soraia Reis, que um escritor deve “preparar um belo texto que se diferencie dos demais”.

Muitos escritores em início de carrei- ra tendem a parasitar o estilo e os te- mas de seus autores favoritos, tentando reescrever, a seu modo, o próximo best- seller. Por mais que existam tendências recorrentes no mercado literário, é fundamental que o autor encontre sua própria voz, aquela que o distinga tanto dos grandes escritores do momento quanto de outros que também estão lutando por um lugar ao sol.

A indiferença das editoras talvez seja uma consequência direta da grande quantidade de material que recebem e que não possui o nível

mínimo de qualidade para sequer ser consi- derada com atenção em um parecer inicial.

“Grande parte da responsabilidade do fracasso é do escritor.”

É incrível quanta gente se autoproclama escritor, mas que não consegue escrever com competência uma linha sequer de

literatura relevante. E é justamente esta legião de pretensos autores que deflagra

a avalanche de originais que se amonto-

am nas editoras por todo o Brasil, difi-

cultando não somente o trabalho dos

departamentos editoriais, como também

a descoberta de algum trabalho de mé- rito entre tantos entulhos.

Mesmo assim, Soraia Reis é categó- rica em afirmar que “recebemos muitos originais, como já citado, mas dentre estes, podemos descobrir grandes pérolas, afinal, todo escritor um dia foi inédito, não é mesmo?”

qual é o caminho das pedras?

Se eu pudesse lhe indicar este cami- nho, provavelmente nem estaria escre- vendo este artigo. Talvez nem haja um caminho, a não ser o simples rolar dos dados da Fortuna.

Alguns conseguem, outros não: uma verdade definitiva da existência.

No entanto, nem tudo está perdido.

O panorama é cinzento, as nuvens são

carregadas, mas sempre há uma espe- rança.

Seguem algumas alternativas para o candidato a escritor:

1 - publicação independente

Autopublicar-se nunca foi visto com bons olhos por editores nem por leitores.

No entanto, tudo tem mudado tão rápido que, hoje em dia, com tantos casos de megassucessos instantâneos de autores publicados independentemente nos EUA, a autopublicação não ape- nas não tem sido mais observada com desconfiança, como agora a crítica tem

se voltado contra as grandes editoras

americanas.

“Como é que vocês não perceberam o

potencial comercial deste autor que acaba de vender milhões e milhões de livros digitais?”, é a questão que se levanta, e muita gente tem começado a dar-se conta que nem sempre os editores são um bom referencial na hora de deter- minar o que é que os leitores realmente gostam.

2 - concursos literários

Ganhar algum prêmio literário im- portante, além de inflar seu ego e dar- lhe uns tostões, pode também atrair a atenção de alguma editora.

No entanto, cautela! Nem todos os concursos são confiáveis e alguns deles são obviamente com cartas-marcadas.

Os grandes concursos, entenda-se os que possuem um prêmio em dinheiro apetitoso, atraem tanto autores anôni- mos quanto consagrados, e você pode estar certo que, entre premiar Dalton Trevisan e você, eles escolherão o famoso.

3 - tente as pequenas editoras

Fechar um contrato com uma grande e influente editora é o ideal de todo o escritor, motivado principalmente pela ilusão que assim ele terá muito mais vi- sibilidade nas livrarias e venderá muito mais livros.

Contudo, é preciso começar por algum lugar e existe uma porção de pequenas casas editoriais, às vezes no fundo do quintal do editor, dispostas a encontrar e publicar novos talentos.

Mas também não se engane

Quase

sempre você terá de meter a mão no

bolso e liberar uma verba para custear parte do (ou todo o) processo de pu- blicação. E também divulgar muito e, comumente, vender de porta em porta seu próprio trabalho.

4 - oficinas literárias

Além de ser uma boa maneira para aprender técnicas novas e refinar a sua escrita, algumas oficinas literárias ministradas por escritores influentes podem lhe abrir as portas do merca- do editorial, desde que seu material seja bom o bastante para ele querer recomendá-lo.

5 - escreva um blog

Se não é para ficar rico, nem famoso, nem conseguir publicar por uma edito- ra grande, por que não criar um blog e divulgar seus textos lá?

Pelo menos assim você conquistará alguns leitores e, se seu blog fizer su- cesso ou for muito polêmico, talvez até acabe fisgando alguma editora.

Há alguns casos de autores publica- dos que começaram desta maneira e que hoje estão por aí, vendendo livros e ganhando prêmios.

Mas, no final das contas, o que mais

Henry alfred Bugalho

importa mesmo é ser lido e confirmar que as suas obras têm valor, que mere- cem muito mais do que indiferença.

Conclusão

Não existe fórmula para ser publica- do, assim como não existe fórmula para

o sucesso.

Se você pôs na cabeça que deseja ser

escritor, então prepare-se para ser ig- norado, rejeitado, recusado e criticado. Estas são as provas de fogo que você terá de enfrentar para confirmar esta sua decisão.

O fracasso estará aí, sempre esprei-

tando do outro lado da porta, e, atrás do muro da indiferença, não está o fim nem as respostas, somente outras lutas e outras dificuldades a serem enfrentadas.

Às vezes, o caminho que parece ser

o mais glorioso pode ofuscar as estrei-

tas e obscuras trilhas secundárias, mas

elas continuarão lá, prontas para quem ousar percorrê-las.

* A Editora Globo nos enviou um e- mail informando que os “diretores estão fora da empresa e não poderemos dar a atenção que você merece.”

Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Litera- tura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outros quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fun- dador da Oficina Editora. Autor do best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos, e do “Curso de Introdução à Fotografia do Cala a Boca e Clica!”. Está baseado, atualmente, na Itália, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

Soraia reis, diretora editorial da Planeta, responde: 1 - além de escrever um livro interes-
Soraia reis, diretora editorial da
Planeta, responde:
1
- além de escrever um livro interes-
escritor pode confiar que um livro com
potencial será descoberto em meio aos
demais originais que a editora recebe
todos os meses?
sante, como deve proceder um escritor
em início de carreira para despertar a
atenção das grandes editoras?
Como você disse, escrever bem em pri-
meiro lugar. O autor de ficção deve criar
uma história encantadora, aquela que o
leitor não tem vontade de parar de ler.
Para isto o texto deve ter fluência. Já no
livro de não-ficção, o autor deve conhecer
profundamente sobre o que está escreven-
do. Deve pesquisar, se atualizar. Em ambas
O texto precisa ser bom, condição
primordial, mas quando um agente co-
nhecido acredita no livro, já sabemos que
devemos ler, pois ele já fez a primeira
leitura. Afinal você conhece o trabalho
de cada agente. Mas inúmeras vezes não
contratamos livros vindos dos agentes e
contratamos livros que recebemos direto.
Normalmente o agente ajuda na divulga-
ção do livro, como também a melhorar a
forma do livro.
as
áreas, o escritor precisa se preparar.
Após preparar um belo texto que se
diferencie dos demais, pois as editoras
recebem centenas de originais por mês, o
autor deve fazer uma boa apresentação do
seu trabalho e encaminhar a sua biografia
3 - apostar em um autor nacional es-
treante é um risco? Por quê?
anexa. Outro ponto importante é enviar
o original para as editoras certas, ou seja,
antecipadamente, verificar quais áreas e
gêneros as editoras publicam, para não
perder tempo. O autor deve ter paciência
para receber a resposta também. Às vezes
os
autores inéditos enviam textos para
avaliação e querem resposta em um mês.
O
processo não funciona assim, pois a
pressa pode atrapalhar a avaliação.
2
- um agente literário ou uma indica-
Tudo é risco. Por exemplo: compra-
mos direitos de livros estrangeiros que
venderam 1 milhão de cópias nos EUA,
mais 1 milhão na Europa, e no Brasil não
acontece nada. O editor apostou em um
tema que agrada ao público brasileiro e
que vendeu bem; a princípio, isto seria um
bom parâmetro, mas não o é. Desta forma,
o que pode vender? No que apostar? O
editor não tem bola de cristal, mas o seu
conhecimento e o seu faro podem ajudar.
Seja o autor inédito ou não. Recebemos
muitos originais, como já citado, mas
dentre estes, podemos descobrir grandes
pérolas; afinal, todo escritor um dia foi
ção influente facilita o processo, ou o
inédito, não é mesmo?
http://www.flickr.com/photos/johnjoh/766356899/
Laura Bacellar, editora, consultora editorial e autora de “Escreva seu Livro”, responde: 2 - um
Laura Bacellar, editora, consultora
editorial e autora de “Escreva seu
Livro”, responde:
2
- um agente literário ou uma indica-
1 - além de escrever um livro interes-
sante, como deve proceder um escritor
em início de carreira para despertar a
atenção das grandes editoras?
ção influente facilita o processo, ou o
escritor pode confiar que um livro com
potencial será descoberto em meio aos
demais originais que a editora recebe
todos os meses?
Já vi sucessos sem conta pelos dois
caminhos. Um agente muitas vezes facilita
Deve mostrar que sabe a quem se diri-
ge, em primeiro lugar. Ter conhecimento
do público com quem fala e, se possível, já
se entender com ele – através de um blog
ou rede social ou cursos ou palestras ou
lá o que seja – é um megaponto a favor
para ser levado a sério pelo editor.
a
entrada numa grande editora, porque
Em segundo lugar, deve demonstrar que
conhece o mercado. Os autores america-
nos já têm uma formulazinha para isso,
sempre que apresentam um original a
uma editora dizem com que outros livros
e autores ele concorre, o que tem de me-
lhor ou parecido com esses livros publi-
cados (de sucesso) e como vai conquistar
esse mesmo público que gostou desses
outros livros, elencando as razões para
gostar do seu.
a obra tem todo o perfil de boas vendas
ou muito prestígio. Mas o caminho por
conta própria também é trilhável e ainda
possível em nosso mercado; é mais uma
questão de tentar. O que não pode é
desistir na primeira. Muita gente me diz
que enviou para duas editoras, foi recusa-
do e desistiu. Eu rio. Duas? Eu já tive um
original recusado por dez editoras, apesar
de ser do meio e saber a quem me dirigir.
Depois esse original foi aceito e publica-
do
- apostar em um autor nacional es-
treante é um risco? Por quê?
3
É um risco enorme, todo escritor tem
que entender isso. Porque o editor não
tem a menor ideia de como o público
Aqui isso não é tão difundido, mas
uma postura como esta impressiona
muito bem. Qualquer nível de profissiona-
lismo é tão raro entre autores brasileiros
que ao fazer isso você já se diferencia
do bando de uma maneira extravagante,
recomendo.
vai reagir àquele novo nome, àquele novo
título. Pode não acontecer nada e todo
o
esforço resultar em livros parados no
Em terceiro lugar, o livro precisa ter
diferencial. Não é só interessante, precisa
não ser igual aos milhares de outros na
praça. É por isso que livros de contos cos-
tumam ser recusados, que romances sem
algo marcante não sejam considerados. O
autor deve pensar em algum diferencial
que combine com seu estilo, sua vontade
de contar histórias ou seu tema, e apro-
fundar essa diferença.
depósito. O autor precisa entender que é
uma loteria publicar e fazer de tudo, abso-
lutamente de tudo, para o livro ser um su-
cesso. Tem gente que fica largada em casa,
achando que divulgação é trabalho da
editora. Não é. O autor precisa divulgar
feito louco, colaborar de todas as formas
possíveis para o livro acontecer. E nem vai
ganhar muito dinheiro com isso, mas se
ganhar um certo nome, uma famazinha,
já vale, porque o segundo livro fica muito
mais fácil. Quem quer viver de escrita ou
ser levado a sério precisa pensar estra-
tegicamente na carreira, não em ganhar
dinheiro com a primeira obra.
http://www.flickr.com/photos/johnjoh/766356899/

teoria Literária

Leonardo Araújo Oliveira oS SiGNoS do muNdo, do amor E da SENSiBiLidadE Na LitEratura dE
Leonardo Araújo Oliveira
oS SiGNoS do muNdo,
do amor E da SENSiBiLidadE Na
LitEratura dE
marCEL ProuSt
Oliveira oS SiGNoS do muNdo, do amor E da SENSiBiLidadE Na LitEratura dE marCEL ProuSt 74