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Justificação, Santificação, Glorificação

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JJUUSSTTIIFFIICCAAÇÇÃÃOO,, SSAANNTTIIFFIICCAAÇÇÃÃOO,, GGLLOORRIIFFIICCAAÇÇÃÃOO Hans K. LaRondelle, Th.D.
JJUUSSTTIIFFIICCAAÇÇÃÃOO,, SSAANNTTIIFFIICCAAÇÇÃÃOO,,
GGLLOORRIIFFIICCAAÇÇÃÃOO
Hans K. LaRondelle, Th.D.

DIRETÓRIO ACADÊNICO SIEGFRIED KÜMPEL DA FACULDADE ADVENTISTA DE TEOLOGIA 1979 INSTITUTO ADVENTISTA DE ENSINO Estrada de Itapecerica da Serra, Km 23 Santo Amaro – São Paulo Editado pela LEVYPRESS

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Justificação, Santificação, Glorificação

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PREFÁCIO

Em setembro de 1977, o IAE recebeu a visita do Dr. Hans K. LaRondelle, sendo patrocinada pelo Departamento Ministerial da Divisão Sul Americana da IASD, quando o autor dedicou tempo de suas férias para a realização de um simpósio sobre JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ, para todos os obreiros da Grande São Paulo e alunos da Faculdade Adventista de Teologia. Por iniciativa do Diretório Acadêmico desta faculdade, as quatro palestras foram gravadas e a pedido os organizadores e dos participantes, que demonstraram grande interesse em possuir o assunto apostilado, o material foi transcrito, com a permissão do autor, e agora sai em forma de apostila. As perguntas e respostas foram feitas durante as palestras, não foram separadas por temas e encontram-se em capítulo especial. O último capítulo é um sermão proferido pelo Dr. LaRondelle na Igreja do Capão Redondo, trazendo assim nova visão sobre o assunto dos Três Elias. Outrossim, este material não apresenta similaridade com outros trabalho do autor. Agradecimentos sejam feitos, principalmente, ao Dr. Hans K. LaRondelle por permitir sermos possuidores desse material. Agradecemos também a todos os que estiveram envolvidos na preparação do material, bem como às diretorias anteriores do Diretório Acadêmico que trabalharam com o propósito de que esta apostila fosse uma realidade.

DIRETÓRIO ACADÊMICO SIEGFRIED KÜMPEL DA FACULDADE ADVENTISTA DE TEOLOGIA

1979

Justificação, Santificação, Glorificação

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ÍNDICE

I. RECONCILIAÇÃO

 

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Inimigos

Reconciliados

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A

Cruz: Ponto de

 

Atração

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A

Fé .

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A

Verdadeira Base

 

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Dispensacionalismo, Um Equívoco

 

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O

Evangelho Eterno

 

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Amor – Deus

– Justiça

 

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Sacramento e Sacramentalismo

 

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Preço do Resgate

 

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O

Justo e Justificador

 

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II. JUSTIFICAÇÃO

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Base do Evangelho

 

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24

Definindo Evangelho

 

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Teologia da Cruz

 

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Rocha de Ofensa

 

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Completa

as

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Justiça,

Troca de Roupa

 

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A Fragrância de Cristo

 

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A Necessidade de Nós

Todos

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Arrependimento – Confissão – Batismo

 

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III. SANTIFICAÇÃO

Fé e Obras

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43

. Santo ou Pecador

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Perdão ou Poder

 

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O

Trabalho de Cristo e do Espírito Santo

 

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Qual a Minha Parte na Santificação

 

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Binômio: Justificação - Santificação

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As Duas

Naturezas

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IV. GLORIFICAÇÃO

 

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O

Ensino de Jesus Sobre o Reino Presente e Futuro

 

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Teologia de Paulo a Respeito da Glória

 

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Redenção

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Adoção .

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V. PERGUNTAS E RESPOSTAS

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1. A justificação e o perdão são coisas idênticas?

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2. Quem é nascido de Deus? (I João 3:9)

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3. Como pode-se explicar Romanos 9:16 e 18?

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4. Gostaria de saber se a lei em Gálatas se refere à lei cerimonial ou à lei moral,

ou ambas?

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5. Deus usa o castigo para levar o homem ao arrependimento?

6. O senhor foi convertido pelo livro O Grande Conflito. O meu problema

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é o seguinte: Devemos apresentar O Grande Conflito a uma pessoa católica,

desmascarando aquilo que crê, ou apresentar um outro livro que mostra o

amor de Cristo e de Deus?

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7. Qual a diferença entre os pecados perdoáveis e os pecados imperdoáveis?

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(I João 5:16)

8. Pode o senhor estabelecer um relacionamento entre a idéia da morte

como resultado natural do pecado e a idéia da morte como preço

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estabelecido pela justiça divina?

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9. Seria possível explicar a expressão: "Cristo fora de nós"? Não posso falar aos outros de minha experiência cristã?

10. É ideal falar da própria experiência cristã, sendo que no Pentecostes os apóstolos não fizeram isto? Mas os modernos carismáticos falam das suas experiências

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11. O que Paulo queria dizer em Filipenses 2:13?

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12. O que é a carne pecaminosa? Até quando teremos carne pecaminosa? Que tipo de carne teve Jesus, carne pecaminosa?

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13. Favor explicar as seguintes declarações do Espírito de Profecia:

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14. Se Jesus veio em carne sem pecado, como explicar a degenerescência humana

nEle, depois de 4.000 anos de pecado?

15. Como harmonizar Romanos 3:28 com Tiago 2:24?

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16. Em Romanos 7:19-23 o homem conhece a lei de Deus, mas é escravo do pecado, ao passo que o homem mencionado em Romanos 8:1-4, anda segundo o espírito

carne!

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e não segundo a

17. Se Paulo diz que pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores,

a afirmação não vem abonar a doutrina católica romana do pecado original?

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18. No momento da crucificação de Cristo, Ele sofreu como homem ou como Deus? Cristo na Terra era divino-humano, ou somente humano?

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19. Favor explicar Romanos 1:16 e 17: "Primeiro o judeu e também o grego"

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VI. OS TRÊS ELIAS (Sermão no Capão Redondo)

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RECONCILIAÇÃO

Ler I Cor. 4:1 e 2. Também II Cor. 5:14-21.

Esta é certamente a passagem clássica do evangelho da reconciliação. Há uma certa tensão nestes versos, porque lemos no verso 18 que Deus nos reconciliou consigo mesmo. Esta é uma ação feita no passado. É um pacto objetivo que ocorreu fora de nós. Lemos nos versos 20 e 21 que nós somos convidados a nos reconciliar com Deus. Isto não está no indicativo, mas é um imperativo. Pede que cooperemos com Deus. Isto exige uma reação de nossa parte. A questão é a seguinte: Por que depois do ato da reconciliação da parte de Deus, mais esta ação da parte do homem? Se Deus nos reconciliou não deveria haver nada mais para fazer. Por que então o apóstolo apela aos crentes para que se reconciliem com Deus? Esta é a questão. Muitos teólogos já procuraram resolver estes problemas, e muitos deles tomaram uma posição radical. Alguns chegaram à conclusão que o homem nada tem a ver com

a reconciliação. O pregador deve pregar as boas-novas de que Deus reconciliou a

humanidade. Quando Cristo morreu na cruz do Calvário todos os nossos pecados foram pagos, e o pregador somente deve anunciar estas boas-novas para que todos cheguem ao conhecimento delas. Eles foram reconciliados com Deus, nada precisam fazer, apenas ouvir. Assim muitos concluíram que, logicamente, toda a humanidade será salva. Esta é a doutrina dos Universalistas. Porém, alguns caem num outro extremo dizendo que na reconciliação o homem tem uma parte a fazer, que Deus depende das obras dos homens, que a salvação depende apenas de nossa boa vontade. Resumindo: Uns declaram amplamente que Deus nos reconciliou, afirmando que ao homem nada compete fazer, e outros salientam que nós precisamos ser reconciliados com Deus e que a parte que cabe a Deus fica um tanto obscurecida.

Inimigos Reconciliados

Esta, porém, não é a solução para o problema. O apóstolo Paulo afirma que a

parte do homem e a parte de Deus estão intimamente relacionadas, formando um todo.

O que o apóstolo Paulo pensa sobre a parte que cabe a Deus? Esta parte foi terminada

com ou sem a nossa participação? Vamos ler Romanos 5:6, 8 e 10. No verso 10 diz que nós éramos ainda inimigos de Deus quando fomos reconciliados. Não éramos amigos de Deus quando Cristo morreu. Éramos inimigos dEle, pecadores, sem Deus. Porém, assim mesmo Deus reconciliou o mundo consigo mesmo. Podemos concluir que quando Deus nos reconciliou consigo mesmo, isto ocorreu na cruz, na morte dAquele que era sem pecado, mas que levou os pecados da humanidade.

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Quem foi reconciliado? Um certo grupo de pessoas, os crentes, ou toda a humanidade? Eu creio que se refira a toda a raça humana. Cristo não morreu apenas para os justos, mas para toda a raça humana. A raça humana é uma. Somos filhos de Adão e Eva e também estamos unidos em nossa situação de perdidos. Nós todos descendemos de um Adão que caiu. Portanto, herdamos todos esta natureza caída. Nós todos estamos com esta mesma necessidade. O pecado é universal – esta é a mensagem de Romanos 3:19-20. Esta passagem nos mostra que como indivíduos todos carecemos de Cristo. Gosto de ler os livros da irmã White. Mensagens Escolhidas, vol. I, pág. 343 diz que quando Cristo morreu naquela cruz, que era uma vergonha lá na Palestina, toda a raça humana foi colocada numa situação de reconciliação com Deus. Este é um pensamento bíblico muito lindo. É uma boa-nova para todos os homens. É ótimo para o evangelismo, porque no evangelismo estamos convidando todos os descrentes para ouvir. Eles não precisam de fé para assistir às reuniões, precisam apenas vir, e ouvir as boas-novas. Somente então a fé nasce. Fé é a reação do homem para com as boas-novas. A fé, portanto, resulta da mensagem de salvação. Deus nos reconciliou. S. Paulo diz em II Cor. 5:14: "Um morreu por todos". Cristo não morreu apenas por uns poucos, mas por todos. Ele morreu até por aqueles que vão se perder. Ler Colossenses 1:20. Isto é um grande mistério. Todo o planeta é reconciliado com Deus. Está Deus interessado na resposta do homem a esta reconciliação? Quão essencial é esta nossa fé? É a fé um fator constituinte nesta reconciliação? A Cruz: Ponto de Atração

Deus aguarda a resposta do homem a esta reconciliação em Cristo. Deus está tão interessado que pode ser comparado a uma flecha enviada em direção ao coração humano. A fé é essencial para a nossa salvação, porém a fé não é um fator constitutivo nesta reconciliação. Quando Cristo nos reconciliou, nós não tínhamos fé. Onde estavam os 12 apóstolos quando Cristo morreu? Pedro jurou que nem O conhecia. Todos os apóstolos haviam fugido. Cristo morreu sozinho. Porém Deus nos reconciliou assim mesmo. Porque Ele nos amava e tomara a iniciativa nesta reconciliação. A reconciliação dependia unicamente de Cristo, e estas são as boas- novas. É uma nova maravilhosa. Traz esperança. Deus quer a nossa fé nesta mensagem. Porém, esta fé é apenas a aceitação desta mensagem de reconciliação, sem que isto dependa de nossas condições. A mensagem da reconciliação em Cristo cria fé nesta mesma mensagem. Sobre aqueles que não resistem à mensagem, a cruz de Cristo tem uma força atrativa sob a liderança do Espírito Santo. S. João 12:32 nos diz: "Todos serão atraídos para Mim." Não diz que serão atraídos para o ministro, para a igreja, para doutrinas, mas diz: "para Mim". Cristo está

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atraindo todos os homens para Si ao ser Ele erguido. É isto que devemos fazer no evangelismo e nas pregações, precisamos erguer o homem do Calvário. Não preguemos dogmas e doutrinas, embora estas tenham uma parte importante. As doutrinas são necessárias para sabermos o que precisamos crer. Elas são como a casca na árvore. A casca serve para proteger a árvore a fim de que a seiva possa chegar até a copa. Sem a casca a árvore morre, porém a casca não se constitui em seiva. De maneira que não podemos dissociar as doutrinas da Bíblia de Cristo, mas nem uma doutrina poderá nos salvar. compete a nós, como adventistas, erguermos Cristo diante do mundo. E é então que Cristo vai atrair o povo a Si. E quando as pessoas se entregam à influência desta fé salvadora, então aparece a fé. A fé nasce quando o Espírito Santo leva o homem a entregar-se. Não é esta uma experiência maravilhosa? Há pessoas que são contrárias a tudo que ouvem e querem ser tão intelectuais, que não sabem mais o que é fé. Tais pessoas acham que a fé é a conclusão racional das evidências que se apresentam. Porém, a fé nasce quando nós nos submetemos às evidências das Escrituras. A fé, conseqüentemente é uma dádiva de Deus. Em Romanos 10:17 temos uma definição de fé, sua origem. Como é que a fé começa a ser gerada? Não é pela nossa vontade, desejo, mas é quando uma mensagem de Cristo vem do exterior para o interior. Não adquirimos a fé salvadora pelo estudo da Natureza, mas somente por ouvirmos a mensagem de Deus. A fé, tornamos a dizer, é uma dádiva de Deus. Porém, é nossa responsabilidade exercermos esta fé. É também um ato do homem. Assim a fé é uma dádiva de Deus e um ato do homem. Fé é o estender das mãos vazias do homem em direção a Deus, para abraçar a Jesus cristo. É abraçar uma Pessoa. Na Idade Média, antes de Lutero e Calvino virem, todos os católico-romanos olhavam a Bíblia como um livro de regras e lei. Era um livro de palavras e sentenças. Eles nunca conseguiram entender a Bíblia. Era uma abordagem errada da Bíblia. Quando, porém, Lutero descobriu a Deus nas Escrituras e quando Calvino achou a salvação nas Escrituras, os dois concluíram que as Escrituras contêm Cristo. Ainda concluíram que as Escrituras são o Oráculo Vivo de Deus, que as Escrituras jamais existem sem o Espírito Santo. Quando os reformadores declararam que criam somente nas Escrituras, eles tinham esta expressão latina: Sola Scriptura – "Somente a Escritura", "Somente pelas Escrituras". Eles não acreditavam nas Escrituras sem o Espírito Santo. Acreditavam sim, nas Escrituras sem o Papa, sem um outra autoridade tradicional. Acreditavam que as Escrituras continham a Cristo e o Espírito Santo. Em Efésios 6:17 diz-nos que as Escrituras e o Espírito Santo estão intimamente relacionados. Não devemos jamais separar a Bíblia do Espírito Santo. Jesus verificou que os líderes israelitas dos seus dias não viam Cristo nas Escrituras. Em S. João 5:39-40 diz: "Estas Escrituras testificam de Mim, mas vocês não querem vir a Mim". Como podem vocês ler as Escrituras e rejeitar o Cristo das Escrituras? Isto é algo impossível. Tinham separado a Bíblia de Cristo, e o Cristo da Bíblia. Ao separar Cristo e o Espírito Santo da Bíblia o que sobra? Um livro de

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palavras como um jornal, como as leis. Então não poderíamos entender mais a Bíblia, porque o coração é posto de lado. Somente podemos ter uma interpretação literal da Bíblia se nós literalmente aceitarmos a Cristo, e formos literalmente influídos pela operação do Espírito Santo. A aplicação literal das Escrituras Sagradas incluem a Cristo e o Espírito Santo. Esta é a verdadeira interpretação da Bíblia. Esta é a interpretação literal. Se nós não vermos a Bíblia como um organismo que contém inteiramente a Cristo, então teremos uma interpretação literalística. Portanto eu faço uma diferença entre interpretação literal e interpretação literalística.

A Fé

Voltemos agora à fé. A fé em si mesma não contém mérito algum. A fé em si não é meritória. É um instrumento como o braço é no corpo, como a mão vazia. A fé procura pegar alguma coisa. A fé é um braço que lança mão de Cristo e Sua justiça, que não contém virtude alguma em si mesma, porque tem apenas prazer na justiça de Cristo e em Suas virtudes expiatórias. Desta forma a fé é um instrumento usado para usufruirmos a salvação em Deus. Olhemos agora para a cruz! Temos na cruz o ato de reconciliação com Deus. Deus nos reconciliou sem a nossa cooperação. Nós não nos reconciliamos com Deus, mas Deus nos reconciliou consigo mesmo. A iniciativa procede do alto e é dirigida para o homem. Agora, Deus quer que aceitemos esta reconciliação. E esta é a aceitação pela fé. E nós nos ajoelhamos aos pés da cruz e respondemos a Deus: Eu aceito esta reconciliação. Se a fé é usada fora do ato de Deus, fora das promessas de Deus é apenas superstição. Fé nas promessas de Deus é fé genuína. Mas temos outro extremo: Fé nas promessas de Deus que resulta em presunção. Qual a diferença entre fé e presunção? Nós vemos isto nas tentações a Jesus no

deserto. Satanás disse: "Se Tu és o Filho de Deus, então torna estas pedras em pães."

"Se tu és o Filho de Deus, lança-Te da torre do templo porque os Salmos declaram que Deus envia os Seus anjos para proteger Seus filhos". E Satanás disse que Ele irá abandonar as promessas. É evidente que a promessa foi feita, porém o Senhor Jesus não saltou, não porque não acreditasse nas promessas, porém Ele viu que as condições não tinham-se cumprido. A presunção usa as promessas em condições erradas. A fé lança mão das promessas na hora certa. Aqui vemos a diferença entre fé e presunção. Ambas lançam mão das promessas de Deus, porém uma obedece a Deus e a outra não. A fé é humildade, é ajoelharmo-nos, é aceitação. Fé é confiança em Deus, nas obras de Deus, em obediência aos mandamentos de Deus. Tal fé muda o coração e transforma o caráter. Uma palavra sinônima para reconciliação é a palavra expiação. A palavra expiação se tornou muito conhecida na fé cristã. Porém a história a este respeito atinge mais a morte de Cristo no Calvário, por parte do cristianismo histórico. Se aquele ato

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da morte de Cristo na cruz se torna reconciliação, ou expiação, então nós não prestamos atenção ao conjunto total das Escrituras Sagradas. A Bíblia diz que Deus já teve parte na reconciliação antes e depois da cruz. No Velho Testamento encontramos o Santuário em Israel onde encontramos os sacerdotes participando deste templo. No livro de Levítico, capítulo 4, vemos que o pecador arrependido era expiado. Neste capítulo são mencionados quatro tipos de expiação (vs. 27 a 32). A reconciliação individual que é feita (v.31) diz aqui que o sacerdote fará expiação por ele. Portanto a expiação também era feita na velha dispensação. Que relação tem esta expiação com a cruz? Aqui temos uma porção de animais que fazem expiação, e o sacerdote levítico. Que relação existe entre este sacerdote, o animal e a cruz do Calvário? O sangue de animais não pode apagar pecados. (Hebreus 10:4) É impossível. O sangue do cordeiro era apenas uma profecia com relação ao cordeiro da cruz. Diz-nos que o sangue do cordeiro era a sombra e que o sangue do Cordeiro de Deus era a realidade. Toda a mensagem do livro de Hebreus é que todo sacerdócio levítico e o seu sacrifício apontavam apenas para o verdadeiro sacrifício que teria lugar depois. Por que Deus aceitara apenas provisoriamente o sangue dos cordeiros ? Para Deus o sacrifício de Cristo já contava mesmo antes de ter ocorrido. Quando Cristo morreu na cruz Ele era ao mesmo tempo Sacerdote e Sacrifício, porque na cruz Ele Se deu a Si mesmo, Sacerdote e Sacrifício. Esta é a mensagem do livro aos Hebreus. De maneira que já existia uma expiação no tempo do Velho Testamento, baseada na vindoura expiação na cruz.

A Verdadeira Base

Aqui também acontece a mesma coisa no tempo do Novo Testamento. Cristo ressuscitou dos mortos e existe agora o santuário celestial, onde Ele é o Grande Sumo Sacerdote, mediando entre o Céu e a Terra. Em Romanos 8 Ele ainda está orando por nós. Este trabalho intercessório de Jesus também é chamado expiação. Hebreus 2:17 - Se refere a Sua obra intercessória no santuário celestial. Temos portanto a expiação antes da cruz e temos também depois da cruz. A cruz de Cristo é a verdadeira base. É eficiente em todos os tempos. Ler II Cor. 5:19. Refere-se isto apenas à cruz? Quero lhes fazer lembrar que o evangelho existiu desde que o pecado entrou no mundo. Em Gênesis 3:15 temos a primeira promessa evangélica. Então a reconciliação começou. Deus disse a Adão e Eva que no dia em que eles comessem daquela árvore eles morreriam. Deus não disse que eles iriam morrer depois de mil anos. Ele disse que no dia que eles comessem, morreriam. Este seria o juízo de Deus sem o evangelho. Como seria possível que depois do pecado ainda Adão vivesse mil anos? Porque Deus não tirou a vida de Adão e Eva no momento em que pecaram? Jesus foi quem

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deu as vestimentas de pele. Estas vestimentas de animais eram simbólicas. Elas indicavam as vestes de bondade e misericórdia divinas. Patriarcas e Profetas à página 366 diz: "Não somente por ocasião do advento do

Salvador, mas através de todos os séculos após a queda e promessa de redenção, “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”. II Cor. 5:19. Cristo era o fundamento e centro do sistema sacrifical, tanto da era patriarcal como da judaica." Cristo era

representado em cada cordeiro; em outras palavras, as obras eram Cristo. Sintetizando: O cordeiro e o sacerdote não apontavam apenas para o Cristo que haveria de vir, mas eles também tinham em Israel um Salvador presente. Ele estava ali, no próprio Santíssimo. Cristo estava naquele luminar de glória de noite e também de dia.

Por isso Ellen White continua: "Adão, Noé, Abraão, Isaque, Jacó e Moisés compreenderam o evangelho. Esperavam a salvação por meio do Substituto e Fiador do

homem." Patriarcas e Profetas, 366. Este é o evangelho em tipo, antes da cruz. Não era apenas o evangelho das festas

e cerimônias, mas era também o evangelho do poder e da vitória. Eles não somente

olhavam para a salvação do templo mas eles também experimentaram esta salvação. Ali no Santíssimo Deus estava realmente presente, com eles no Shekinah. Muitos cristãos perderam de vista a realidade que os Israelitas tinham de Cristo no santuário. Tiremos a Cristo do santuário; e então o que sobra? Somente aquelas mesas de pedras. Então todo o santuário se transforma numa sistemática legalista, pela justiça das obras.

Dispensacionalismo, Um Equívoco

Na América do Norte existe um movimento entre os evangélicos que se chama "DISPENSACIONALISMO". Eles têm uma Bíblia própria chamada a "Bíblia de Scofield". Milhões de Bíblias destas são distribuídas com certas notas à margem. Eles também têm curso bíblico por correspondência, estação de rádio, Seminário de Teologia no Texas. Eles penetram nas igrejas batistas nesta sistemática. A idéia deles é que o Velho Testamento desde Moisés até Cristo era a dispensação apenas da Lei, e que desde o Pentecostes até o final é o período de pura graça. Acho que as expressões que eles usam são um tanto estranhas.

Por que chamar a graça de pura graça? Existe uma graça que não é pura? A graça

é um favor imerecido de Deus. Mas se tivermos obras no meio, então não é mais graça

pura!

Assim vemos que estes teólogos na verdade confundem os termos. Eles acham

que a dispensação do Velho Testamento é a salvação apenas pelas obras. Eles tiraram

a Cristo da sistemática do santuário. É uma pressuposição errada. Os erros resultam

destas falsas pressuposições. Os Adventistas do Sétimo Dia têm uma idéia mais elevada do Velho Testamento. Nós consideramos que os primeiros três capítulos de Gênesis são merecedores de total fé e aceitação nossa. Mas nós também consideramos o santuário como se Cristo já estivesse presente, oferecendo expiação em vista do Seu futuro acontecimento na cruz.

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É evidente que nem todos que viveram na velha dispensação viram isto com

plena clareza. Nem os doze apóstolos entenderam que Cristo deveria morrer como um criminoso na cruz. Para eles a cruz era um lugar de ofensa. Crer que a expiação de nossos pecados tem que vir através da cruz – um lugar para criminosos – isto nós só

podemos aceitar pela fé, pela autoridade do próprio evangelho. Isto traz paz ao coração pois nos livra da culpa e do sentimento de culpa, porque cremos que o evangelho é a verdade.

O evangelho não é uma filosofia. A filosofia existe apenas na mente do homem.

Contudo, a filosofia jamais poderá satisfazer as necessidades do coração, porque a filosofia jamais pode entender a ação da culpa e da morte. Os filósofos não lidam com culpa e morte. O evangelho não é uma ideologia, porque o evangelho na verdade é que o Verbo se fez carne e viveu entre nós e vimos a Sua glória cheia de verdade. Esta é a realidade histórica.

"As vossas iniquidades fizeram separação entre vós e o vosso Deus". Isaías 59:2.

Onde se encontra a origem? Como Deus pode unir esta separação, e fazer de um pecador um santo? Quando foi que Deus resolveu a nossa salvação? Depois que pecamos, quando cremos; ou antes de sermos criados, antes da fundação do mundo? Que diz o apóstolo S. Pedro? Ele diz que foi antes da fundação do mundo. (I Pedro 1:18 a 20). O apóstolo Paulo concorda com esta afirmação (Efésios 1:4). Deus nos escolheu antes da fundação do mundo. Portanto, o plano da redenção foi feito na época da Criação. O plano da salvação não foi um pensamento posterior. A nossa reconciliação não resultou de nossas boas obras, de nossa boa intenção e aceitação. O homem não procurou esta graça de Deus, porém a graça foi enviada à nossa procura. Quando Adão e Eva pecaram eles foram em procura da graça ou eles se esconderam da graça? O que aconteceu? Deus foi atrás do homem! Deus teve a iniciativa em nossa salvação. Eles quis a nossa salvação antes que nós a quiséssemos. Ele nos amou antes de nós O amarmos. Nós O amamos em realidade porque Ele nos amou primeiro. A nossa fé e amor para com Deus resultam do Seu amor e aceitação. É por isso que o nome de Cristo será exaltado para todo o sempre pelos redimidos. Nós todos de acordo com Apocalipse 5:12 cantaremos no Céu: Onde está o Cordeiro que foi morto, para receber honra, poder e glória?

A soberana eleição partiu de Deus antes da criação do mundo. É a nossa base de

salvação, é a nossa fonte de salvação. É intocável, e irrevogável . Quer creiamos ou não, aceitemos ou não, Deus quer a nossa salvação pelo preço que Ele pagou. Ele pagou a dívida em Jesus Cristo, e Ele espera a nossa resposta pela nossa fé. Se aceitarmos o poder salvador pela fé, a alegria e a salvação serão o resultado. Devemos nos apegar a esta certeza da salvação, a qual não está dentro, mas fora de nós. É ali na cruz do Calvário que está a nossa certeza. Está fora de nós, é um ato de Deus.

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Se queremos sair da decepção, das dúvidas, não devemos olhar dentro de nós, não devemos pensar quão bom ou quão ruins nós somos, mas devemos ler nos evangelhos e devemos ver o Mestre, devemos olhar para Jesus. Seremos mudados e receberemos fé. Não o Cristo em nós, mas o Cristo fora de nós é a certeza de nossa salvação.

O Evangelho Eterno

Ler Hebreus 13:20. É interessante a expressão: "A eterna aliança". Isto quer dizer que é uma aliança que permanece. Não muda, é divina. Em Apocalipse 14:6 diz que a igreja no tempo do fim deve pregar o evangelho eterno. É um evangelho que não foi e não será jamais mudado. Não podemos acrescentar nada e nem tirar nada do evangelho. Devemos restaurar o evangelho como era nos dias apostólicos. A dispensação final pregará o mesmo evangelho das primeiras gerações.

É impossível pregarmos um evangelho diferente daquele que os apóstolos

pregaram? Existe este perigo. Já nos dias apostólicos eles foram advertidos (II Cor.

11:4). Os cristãos podem ser enganados, mesmo apelando a Jesus, ao Espírito Santo,

aos evangelhos; porém na realidade trata-se de outro evangelho, um outro Espírito Santo e um outro Jesus. Esta é uma possibilidade terrível. Para os pastores e teólogos adventistas é uma tremenda responsabilidade.

O que é o evangelho? Não é emoção, saltar no púlpito, gritar: Aleluia! Alguns

pregam o evangelho dizendo quão bem eles se sentem. Que sentimento maravilhoso eles têm. Há um perigo grande. O evangelho não é subjetivismo.

O evangelho constitui-se na pregação da mensagem maravilhosa de Deus em

Jesus Cristo. O que os apóstolos estavam pregando no dia de Pentecostes? Estavam cheios do Espírito Santo, eram os verdadeiros pentecostais, mas não pregaram dos

sentimentos, do êxtase, ou glossolália. Em Atos 2 lemos que eles estavam pregando as grandes obras de Deus, em Jesus Cristo. Eles pregavam que Cristo estava fora deles. Não podemos pregar de Cristo dentro de nós porque o evangelho nos fala de Cristo fora de nós. Eles pregavam a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.

O evangelho nos fala de como Cristo está ministrando no Céu em nosso favor, e

como Ele voltará. Estes são os grandes temas do evangelho. Devemos pregar este evangelho com emoção. É um pecado não ser comovido pelo evangelho, falando apenas com os lábios e fazendo gestos para chamar a atenção para o pregador. Isto é perigoso. Oro a Deus cada dia para que possa entender melhor o evangelho, porque ele

é uma estrutura delicada, onde nós devemos nos aprofundar muito.

O que Deus está fazendo na reconciliação? Paulo nos fala da justificação e da

santificação. Como ele usa estas expressões? Só podemos pregar o que já entendemos. Isto é básico para todo pregador e instrutor bíblico. Precisamos conhecer a vontade de

Deus. Somente conheceremos a nós mesmos, conhecendo a Deus.

O pecado começou neste relacionamento. Adão e Eva descreram em Deus, e

portanto tiveram também problemas em seu relacionamento social. Adão disse: "A mulher que me deste é culpada do que aconteceu." Isto é estranho. Ele pecou a fim de

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ficar com Eva. Ele amava Eva tão profundamente que resolveu permanecer com ela abandonando a Deus. Mas quando Deus disse: "Adão vem cá", Adão abandonou Eva, o seu relacionamento com Eva foi quebrado, rompido. Desta quebra de relacionamento surge a consciência culpada. Este é um problema psicológico. Podemos dizer então que o pecado contra Deus é a causa de todos os problemas psicológicos. Assim o relacionamento com Deus é fundamental. Se este relacionamento com Deus for quebrado, todos os outros relacionamentos seguirão o mesmo ritmo; mesmo o relacionamento com nosso ambiente ficará distorcido, e um sem número de problemas surgem.

Amor – Deus – Justiça

Abelardo não reconhecia este relacionamento vertical. Ele só falava a respeito de Deus como sendo Ele um Deus de amor. Mas não podemos falar de Deus apenas como um Deus de amor. A Bíblia não diz apenas que Deus é amor. Sabemos que isto está escrito em I João 4. Mas muitas vezes a Bíblia também diz que Deus é Santo, Justo. Nós não podemos falar a respeito de Deus apenas com uma palavra. E portanto algumas autoridades dignas de crédito têm falado que Deus resolve nossos problemas de culpa, não apenas como produto do Seu amor, mas também como produto de Sua santidade. E a santidade é uma característica fundamental de Deus. O conceito de santidade é mais amplo que o de amor. Santidade é a combinação do amor e da justiça. Esta é a parte mais importante no caráter de Deus. Portanto Deus requereu o sangue da expiação para Si mesmo. Qual o significado do sangue da expiação no santuário? Ler Levítico 17:11. Este é um verso profundamente significativo, principalmente quando olhamos para os sacrifícios pagãos. Eles também possuíam templos e sacerdotes e sacerdotisas e muitas espécies de sacrifícios; muito sangue, eles exageravam e sacrificavam os primogênitos. Nos templos pagãos considerava-se o primeiro filho como dado pelos deuses. Se este primeiro filho fosse oferecido havia grandes promessas para aquela mãe. Isto é justificação pelas obras. Faço alguma coisa para que Deus retribua. Dou alguma coisa a fim de que Ele possa me retribuir. Este é o princípio da justificação pelas obras, e o princípio fundamental de todas as religiões pagãs. Tais pessoas fazem uma obra meritória a fim de que Deus possa recompensá-las, aceitá-las. Isto se tornava manifesto através dos rituais de seus templos. O sacerdote oferecia ao deus irado um sacrifício para aplacá-lo, e receber a propiciação. O sacrifício visava, portanto, uma recompensa. Este era o princípio: dar o sangue para Deus a fim de receber uma recompensa.

Ler Levítico 17:11 novamente. "A vida da carne está no sangue". "Eu vos tenho

dado". É justamente o oposto da expiação praticada pelos gentios. Não era o Israel que oferecia o sangue a Jeová para expiação ou reconciliação, mas era justamente o oposto. Deus disse: "Eu dei a vocês este sangue."

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Não é Israel que oferece o sangue a Deus como se fosse para aplacar a ira divina. Tal idéia pertence ao paganismo. Para efeito da salvação é Deus que oferece o sangue

para sermos reconciliados com Ele.

Os israelitas corriam o perigo de assimilar a idéia pagã com relação à expiação ao seu Deus. Até mesmo os sacerdotes corriam este perigo, ao pensar que o ritual que praticavam produziria a expiação. Então Deus enviava profetas. Ler Salmo 50:12. Esta é a ironia divina. "Que tolice é esta em pensar que Eu, o Criador de todas as coisas, precisaria de sangue de touros e cabritos!" Não havia expiação automática em Israel.

Sacramento e Sacramentalismo

Estes eram sacramentos santos em Israel, mas se degeneraram em sacramentalismo. Como sabemos, a Igreja Católica segue este princípio de "Ex opere operatum". Isto significa que a missa torna-se eficaz pelo próprio oferecimento dela. Na base da obra realizada, a obra torna-se eficaz. Este é o princípio da mágica. Isto se introduziu na igreja cristã, assim como nos sacrifícios de Israel. Ler Isaías 43:25. "Não são os cordeiros de vocês, os seus cabritos, que eliminam os seus pecados. Os sacerdotes levíticos não podem apagar os pecados de vocês. Sou Eu aqui no Céu que faço isso." Mas Deus diz ainda: "Eu vos dei o sangue para que possam apresentá-lo sobre o altar." Ler Hebreus 9:22. Aqui temos um grande verso. Isto apenas intensifica o problema e a questão que temos diante de nós. Deus considera essencial haver sangue na expiação. Considerou isso já essencial nos sacrifícios apresentados por Caim e Abel. Abel apresentou o sangue para expiação mas Caim tentou justificar-se por suas obras.

Por que isto é tão essencial para Deus? Este é o cerne de todas as perguntas. A Bíblia diz que isso é essencial. Mas diz a Bíblia porque é essencial? Isto toca o coração do evangelho, o evangelho da reconciliação, o fundamento da justificação e da santificação. Esta é a questão!

Preço do Resgate

Na liturgia de Israel, no culto apresentado no santuário, eles cantavam o hino que está no Salmo 49:7. Israel sabia de uma coisa: o homem não pode pagar por seus próprios pecados, não pode salvar ao irmão nem a si mesmo. Mas o homem não tem o preço do resgate porque o resgate é elevado demais. Quem pede o preço do resgate? Alguns teólogos antigamente diziam que este preço era pedido pelo diabo. Um pai da igreja, Irineu, escreve que Deus pagou o preço do resgate ao diabo a fim de redimir o homem. Posteriormente a igreja cristã rejeitou este ponto de vista. Seria mais bíblico dizer que Deus em Sua santidade e justiça leva o pecado tão a sério que o pecador tem que pagar o seu preço. A justiça diz: "O pecador morrerá".

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Deus está desejoso de pagar o preço daquele resgate para Si mesmo. Ele providencia o preço do resgate em Seu próprio coração. Ele providencia o cordeiro. Jesus não foi dado por nós ao Pai, mas o Pai é que nos deu o Filho. Foi o amor de Deus que providenciou o resgate a fim de que a Sua santidade fosse plenamente satisfeita. Portanto Deus é justificado ao perdoar nossas faltas. Ler Marcos 10:45. Cristo mesmo diz no Salmo 49 que o homem não pode pagar o resgate. Mas Deus providencia alguém que pagará o resgate. Isaías 53 é o clímax de toda pregação do Velho Testamento. Por que Deus exige o sangue da expiação? Todos os profetas sofreram (Jeremias, Jó, etc.). Na maioria dos casos sofreram em conseqüência das suas mensagens. Somente Jesus sofreu com o coração de Sua mensagem. O sofrimento de Cristo era a Sua mensagem. Não houve nem um profeta que veio para sofrer e morrer. De quem poderia ser dito o que está em Isaías 53? Lembremos especialmente desta frase: "O Senhor fez cair sobre Ele a iniquidade de todos nós". Este é o coração do evangelho, esta é a chave que abre o reino dos céus. Precisamos abrir aqueles portais por intermédio desta chave. Temos o direito de depositar a culpa sobre Jesus? Quem nos dá o direito de dizer que Cristo é o responsável por nossas culpas? No mundo isto é ridículo. As religiões orientais acham absurdo. Dizem eles que a lei do Karma afirma que cada qual é responsável por seus atos. Rejeitam a expiação substitutiva, rejeitam que alguém pode ser substituto, rejeitam a transferência de culpa. Que direito e que certeza temos de que Cristo tomou o nosso lugar? Quem colocou as nossas iniqüidades sobre Ele? Que diz a Bíblia? O Senhor mesmo colocou as iniqüidades sobre Ele. Isto é uma coisa objetiva, está além de nós mesmos. Deus mesmo colocou – isto é o importante. João Batista, apontando para o homem de Nazaré, disse: "Eis o Cordeiro de Deus", que leva sobre Si as iniquidades. João Batista liga as profecias com o ritual do santuário. Esta é a única maneira de ganharmos um judeu. Pergunte a um judeu qual o significado do ritual do santuário. Ele não sabe. Sem Jesus todo ritual é um enigma. Passam a confiar naquele sangue. Isto é justificação pelas obras.

O Justo e Justificador

Ler Isaías 53:10. Esta passagem é difícil de ser entendida. Deus queria que Jesus Cristo sofresse e morresse pelo pecadores. Será que Jesus queria isso? Que fez

Ele no Getsêmani? Orou: "Pai, se existe outro caminho Eu gostaria de afastar-Me do caminho da cruz, de sentir em Mim a maldição divina; contudo, não seja feita a Minha vontade, mas a Tua".

Deus não poderia perdoar os nossos pecados se Jesus não tivesse morrido pelos nossos pecados. Por Deus não poder desculpar o pecado, Ele não pode olhar o pecado com algo superficial.

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Há uma declaração muito linda de Ellen White no livro Patriarcas e Profetas à

página 522: "Nunca houve nem nunca haverá perdão incondicional do pecado." Quando

nos perdoamos uns aos outros apenas dizemos: Sinto muito pelo que fiz. Então vem a resposta: Está tudo muito bem, nós reconhecemos porque todos somos humanos. Somente fazemos uma restituição se for o caso. Repito: "Nunca houve nem nunca

haverá perdão incondicional do pecado. Tal perdão mostraria o abandono dos princípios de justiça que constituem o próprio fundamento do governo de Deus. Isto encheria de consternação o universo dos seres não caídos."

Deus só pode perdoar nosso pecado porque Ele puniu o pecado completamente, e a Sua justiça foi plenamente satisfeita. Concentrou toda ira divina sobre Si mesmo. Ler Romanos 3:25-26. Foi nesse capítulo que Lutero achou a salvação. Nestes versos não é mostrada a misericórdia de Deus, nem o amor, mas a justiça. Como é revelada a justiça de Deus? Romanos 3:25. Deus é justo e justificador dos que a Ele se achegam. O que Paulo está dizendo é que por 4 mil anos Deus aceitou o sangue de animais. Mas o sangue de animais não podia fazer expiação, era apenas a maneira provisória. Por 4 mil anos Ele foi longânimo, e então todos os pecados da humanidade foram colocados sobre Cristo. Foram estas coisas que esmagaram a alma divina. O pensamento que o Pai O tinha abandonado foi que O levou ao desespero. Ele não tinha um só raio de luz que iluminasse para além da tumba. A face do Pai estava oculta. Os pecados do mundo estavam sobre Ele e uma legião de anjos maus ao Seu

redor. Então exclamou: "Deus Meu, Deus Meu, por que me desamparaste?" Jesus sentiu-

se abandonado pelo Pai. A própria Natureza não quis encarar a terrível cena. Três horas de escuridão e ao redor da cruz ainda mais denso negror. Jesus sentiu que estava rodeado pelos poderes do mal. Pensou que teria que morrer eternamente. Ele sentiu o que cada ser humano haveria de sentir se entregue a sua própria sorte! Não é isso amor? Nossos pecados foram perdoados. Ele disse: "Está consumado!" Tudo estava feito, o preço do resgate fora pago. A expiação fora perfeita. Ellen White diz que Cristo colocou a Sua cruz entre o Céu e a Terra unindo a justiça e a misericórdia através do abismo. Deus foi propiciado na cruz. Sua ira santa foi propiciada – expiação perfeita. Se Deus tivesse perdoado Adão e Eva sem um resgate, o pecado teria se espalhado por todo o Universo. Mas na cruz a justiça foi satisfeita. Este foi o caminho para a plena restauração da Terra, em perfeita santidade.

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JUSTIFICAÇÃO

Ler Romanos 1:16 e 17. Esta passagem trouxe uma vibração ao coração de Lutero. Tornou-se, na realidade, a fonte da Reforma. Portanto, esta passagem também é vital para a última reforma, da igreja remanescente. Vemos nesta passagem como a lei e o evangelho se distinguem e também se unem. O evangelho dá o que a lei requer. A lei nos traz condenação, ao passo que o evangelho nos traz justificação. A lei e o evangelho se unem na programação de Deus para um determinado fim: para que o homem sinta a sua necessidade de justificação, para restaurar-se na imagem original de Deus. Para nós nos restaurarmos a esta imagem original de Deus, precisamos conhecer o evangelho corretamente. Não somente de maneira vaga e emocional, mas com inteligência. Jorge Whitefield, na Inglaterra, ao pregar para mineiros, um dia perguntou para um deles em que ele acreditava.

– Oh!, disse o mineiro, eu acredito aquilo que a igreja ensina. Mas o evangelista perguntou:

– O que é que a sua igreja ensina?

– Bem, disse ele, a igreja ensina aquilo que eu acredito. Whitefield, porém, ainda perguntou:

– Em que os dois acreditam?

– Ah! Nós dois acreditamos na mesma coisa!

Esta certamente não era uma fé inteligente. Nós não devemos crer que nossos ouvintes todos saibam o evangelho. Nós não devemos crer isto nem dos membros de nossa igreja.

Base do Evangelho

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Em nossos esforços evangelísticos muitas vezes fazemos muitas coisas para chamar a atenção do público e não apresentamos Cristo. Ellen White nos adverte no livro Evangelismo:

"Muitas pessoas são ignorantes quanto ao plano da salvação. Eles precisam de mais instrução sobre este tão importante assunto, mais do que sobre qualquer outro. Discursos teóricos são essenciais para que o povo possa ver a corrente de verdade ligada elo a elo como um perfeito conjunto, porém, nem um discurso deveria ser pregado sem apresentar a Cristo crucificado como a base do evangelho. Quando a dádiva gratuita da justificação por Cristo não é apresentada, os discursos tornam-se secos e sem espírito e os cordeiros não são alimentados."

É por isso que a congregação às vezes adormece na igreja. Cristo não é apresentado. Lutero vivia nos dias escuros da Idade Média. Não era um período de falta de cultura, porque Rafael e Miguel Ângelo viveram nesta época e fizeram obras de arte até hoje admiradas, porém, moral e espiritualmente viviam em trevas. E Lutero passou a ler a Bíblia. Porque ele deveria ensinar doutrinas e a sua própria alma clamava pela verdade. Ele tinha uma consciência muito sensível, sentia que estava debaixo da condenação. Ele não se sentia santo, não tinha paz na consciência. Assim, procurou encontrar paz na Bíblia. Quando ele lia a respeito da justiça, o seu coração tremia de temor. E Romanos 1:17 não lhe trazia grande conforto. Lutero procurou a paz de acordo com a prescrição da igreja: fazendo obras,

penitências, boas obras. Todavia, em sua mente a característica dominante de Deus era a justiça. Ele conhecia a palavra justificação no sentido latino de justiça, que de acordo com o conceito romano baseava-se na idéia de justiça aplicada por Deus diretamente. De maneira que a Igreja Católica nessa época entendia a justiça de Deus direta sobre o homem. Quando Lutero abriu o livro dos Salmos, que também precisava ensinar, ele não podia entender como Davi podia orar no Salmo 31: "Livra-me por Tua justiça" (V. 1) e

segundo a Tua justiça" (V. 1), porque a palavra

no Salmo 143: "Responde-me

justiça era como um trovão aos seus ouvidos, falando da justiça de Deus e do castigo eterno. Desesperado, ele abriu o Novo Testamento para encontrar conforto.

Definindo Evangelho

Qual é o verdadeiro sentido da palavra Evangelho? Lutero abriu o livro de Romanos e começou a ler o primeiro capítulo. No verso 16 ele leu que o evangelho é poder de Deus para a salvação. Era por esta salvação que seu coração anelava. Entendeu que ainda não estava salvo. Era muito religioso mas não tinha nascido de novo. E isto não é a mesma coisa. Lutero ficou excitado quando encontrou ali a palavra salvação. Ele queria conhecer este segredo do evangelho de maneira que continuou a ler no verso 17 que nele se revela a justiça de Deus. Lutero não passou adiante, aquilo lhe tirou a última esperança do coração.

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O apóstolo Paulo lhe diz que o evangelho era a revelação da justiça de Deus. Como podia o apóstolo chamar o evangelho de justiça? Será que o evangelho é uma outra manifestação da lei? Então o evangelho também condenaria o pecador. Muitos teólogos no tempo de Lutero viam no evangelho apenas um novo Moisés. Lutero, porém, não desistiu; ele era persistente, por isso continuou a ler o livro de Romanos. No capítulo 3 encontrou o contexto (3:21). Ele perguntou o que significa isto: A justificação separada da lei. Isto era contra o Romanismo. Que significa isto, que a justificação é separada da lei? Inesperadamente compreendeu o significado. A justificação, da qual Paulo fala aqui, não era a justiça que Deus requer do homem, mas era a justiça que Deus oferece ao homem. Era a justiça manifestada através da Pessoa

de Jesus Cristo. Portanto esta era uma grande manifestação do evangelho da parte de

Deus. Deus oferece a justiça de Cristo para o crente, porque a justiça de Cristo é a justiça de Deus. Deus justifica o pecador através da justiça de Cristo. A justiça pelo evangelho não é a obra que podemos fazer, mas uma dádiva pela qual Ele nos justifica e nos dá salvação. Nessa hora Lutero ficou livre. Ele começou a cantar. Ele era cantor, como sabemos, e ensinou a nação alemã a cantar. Escrevendo sobre essa experiência mais tarde ele recordava: "Parecia-me que

tinha renascido, como se eu tivesse entrado no paraíso por uma porta recém aberta. De repente a Escritura Sagrada começou a falar diferente para mim. Esta mesma frase que antes eu temia, "a justiça de Deus", agora era a que mais amava entre todas. Assim, essa passagem de Paulo tornou-se para mim a porta para o Paraíso."

Vocês podem notar que a justiça e justificação para Lutero eram de magna importância. Ele lutou com esta palavra até que o assunto se esclareceu. Ele lutou com Deus e lutou com as Escrituras, até que finalmente entendeu o sentido das Escrituras.

A sua consciência foi aliviada. Ele não encontrou o evangelho na oração, numa

experiência mística ou carismática, ou como resultado de estudos racionais e

científicos; encontrou o evangelho com a Bíblia aberta. Era uma descoberta exegética. Para Lutero significava uma nova compreensão de Deus. Nova relação para com Deus. Não mais baseado nas virtudes das obras de Lutero para com Deus, mas da parte

de Deus para com Lutero.

Teologia da Cruz

Agora Lutero se gloriava na cruz. A teologia que Lutero desposou é a teologia da cruz. Ele trouxe uma garantia de salvação que não podia ser ab-rogada. Deus somente pode ser encontrado, escreveu ele, na cruz de Cristo. Este era um pensamento profundo, porque, dizia ele, essa verdade não pode ser entendida pelo intelecto ou por considerações pessoais místicas, mas pela fé somente! Lutero se apoiava muito em Romanos 3:28 – "Uma chave para justificação". O que isto significa? Se nós pudermos entender este verso corretamente, e pudermos comunicar isto corretamente, seremos homens de Deus. Nós ganharemos almas, nós não os traremos apenas para a igreja mas para Cristo. Não satisfaz completamente vir à igreja. A alma deve se unir a Cristo. Este é o centro do evangelho.

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(Rom.

3:28):

"Concluímos,

pois,

que

o

homem

é

justificado

pela

fé,

independentemente das obras da lei." Será que isso se refere à lei cerimonial? Certamente, mas não é apenas à lei cerimonial, mas também à lei moral. Nós somos aceitos por Deus não na base da nossa moral, porém separados de nossa moral, pela fé somente. Isto às vezes é difícil de aceitar. O que sobra da nossa vida moral? Por isto a Igreja Católica acusava Lutero de estar desmoralizando a nação alemã. E também dirão a mesma coisa de vocês na Igreja Adventista do 7º Dia. E é por isto que existe em nossa igreja uma excitação sobre o que realmente significa justificação pela fé. E alguns dos dirigentes até dizem: "Este é um assunto perigoso, porque vai desmoralizar a igreja!" Mas podemos nós mudar o evangelho? Em Gálatas 1 lemos que se um anjo do Céu vier com outro evangelho ele será amaldiçoado. O evangelho é inatacável. Tem uma estrutura muito delicada, e nós devemos receber aquilo que Deus declara ser o evangelho. Então não há temor de desmoralização, porque Deus também dá grande importância à vida moral. Mas esta fase se chama santificação, e não é a mesma coisa que justificação. Aqui podemos ver claramente a diferença e ao mesmo tempo a intrínseca unidade de ambos. No próximo capítulo estudaremos a parte da santificação, para não precisarmos temer ser desmoralizados.

Rocha de ofensa

Hoje estudaremos a justificação, que na verdade é o coração de toda verdadeira religião, pois é a melhor esperança de salvação que há no mundo. Torna-se, porém, uma rocha de ofensa para os moralistas. E a Igreja Católica Romana rejeitou totalmente a doutrina da justificação pela fé. Em 1546, quando começou o Concílio de Trento, eles disseram que a justificação que é explicada na expressão latina "Sola Fide" – Somente a Fé – era um ídolo da confiança dos hereges; que este era realmente o clamor de batalha para a Reforma. Antes de Lutero morrer, Deus já tinha despertado um outro homem para proclamar esta mesmas doutrina com poder. O seu nome era João Calvino. Lutero e Calvino proclamaram esta doutrina com muito poder. Eles tinham entendido esta expressão em seu sentido correto e por isso que toda a igreja da Europa começou a tremer. Deus despertou uma boa reforma na igreja, pelo menos começou bem. E por declarar a Igreja Adventista do 7º Dia ser a segunda Reforma, como nos devemos relacionar com a primeira Reforma? Podemos nós negligenciá-la ou negá-la? Não deveríamos nós incorporar esta doutrina e aperfeiçoá-la? Não deveríamos nós repousar sobre os ombros de Lutero e Calvino? Então nós podemos ver além do que eles enxergaram. Podemos ler tudo isto no livro O Grande Conflito de Ellen White. Vamos voltar ao estudo exegético bíblico. O que quer dizer justificado pela fé? No verso 28 Lutero adicionou na sua Bíblia, uma pequena palavra, é a palavra somente. Não se encontrava no original. Mas Lutero era um bom tradutor. Ele pensou:

É o que significa! E estava certo, porém pode ser mal entendido. Às vezes nós

Justificação, Santificação, Glorificação

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adventistas entendemos mal a palavra "somente". Por isso vamos estudar cuidadosamente. Quando Lutero e Calvino usaram a palavra "Sola", como Sola Scriptura (Somente a Escritura), somente pela fé, somente em Cristo; eles não excluíram o Espírito Santo. Eles não excluíram o verdadeiro arrependimento. Revela, porém, uma declaração polêmica contra as adições católico-romanas, pois eles declaravam que a fé baseava-se na Bíblia e na tradição, na fé e nas obras, em Cristo e Maria. De maneira que a expressão "Sola" é uma expressão teológica, contra os méritos das boas obras. Paulo quer dizer aqui em Romanos 3:28 o que nós encontramos muito bem explicado nos capítulos 4 e 5. Significa fé em Cristo. Também na sua carta aos Gálatas ele explica essa mesma verdade. Romanos e Gálatas eram duas espadas com as quais Lutero e Calvino lutavam neste aspecto, contra a Igreja, pois Paulo salienta várias vezes que esta fé a que ele se refere é a fé em Cristo, esta fé que abraça a Jesus. Quando nós temos a Jesus, nós temos a Sua justiça. Para termos a justiça de Cristo, precisamos ter a Cristo. Seus méritos não aumentam os nossos méritos. São, porém, os nossos únicos méritos diante de Deus.

Completa as Deficiências?

O que vocês pensam da idéia da seguinte filosofia: "Senhor, eu fiz o melhor, podes Tu completar o resto?" Às vezes nós podemos ouvir isto do púlpito. A justiça de Cristo existe apenas para completar aquilo em que somos deficientes? Sobre uma tal fé jamais cairá a chuva serôdia. O Espírito Santo apenas é derramado onde Cristo é exaltado. Quando mais nós elevamos a Cristo mais poder recebemos. Esta é a parte principal do evangelho. Ler Gálatas 6:14. Mas vocês certamente terão uma pergunta: "E as nossas obras de obediência não têm algum valor diante de Deus? Não são as nossas obras resultantes de um novo nascimento operado pelo Espírito Santo?" Minha resposta é a seguinte: boas obras são o fruto do Espírito Santo. São os frutos necessários do Espírito Santo, mas são os frutos da justificação. Nossa justificação não está baseada nas nossas obras. A raiz de nossa justificação não é a nossa obediência, mas sim a obediência de Cristo, Sua obediência unicamente. "Pastor", dirá alguém, "comprove com uma passagem." Muito bem, estava disposto a dar. Ler Romanos 5:19. Este texto prova esta doutrina? Talvez tenhamos que ler mais de uma vez. Quem é este homem da desobediência? Adão. Quem é este outro homem que pela Sua justiça nos torna todos justos? Jesus, o segundo Adão. Pensem sobre esta passagem. São boas-novas. Não precisamos experimentar ser bons para sermos salvos agora! Precisamos ser primeiros salvos para depois nos tornarmos bons. Paulo também fala sobre isto em I Cor. 4:7 e Jesus também fala a esse respeito em Lucas 17:10.

Justificação, Santificação, Glorificação

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Agora vejamos o que diz Paulo em Romanos 4, onde ele traça a diferença entre o verdadeiro caminho de justificação e o falso. (Romanos 4:4-5). Esta passagem é de uma importância tremenda. É aqui que o Protestantismo e o Catolicismo se dividem. Alguém não precisa trabalhar para ser justificado, é o que Paulo diz nestes versos. Não precisamos fazer nada para sermos justificados. Precisamos crer! Crer em que? Precisamos crer e confiar em Cristo como Justiça Nossa. Não é como no mundo econômico. Se vocês trabalharem numa fábrica e ganharem o seu salário, ganharam o

salário trabalhando e não de presente, porque a fábrica lhes deve o salário. É a mesma situação para com Deus? Esta era uma grande pergunta para Tomás de Aquino e no Concílio de Trento e para o mundo de hoje.

É interessante notar como os Católicos Romanos sentem-se presos por esta

passagem. Tomás de Aquino dá a seguinte resposta: "É a mesma coisa em nossa relação para com Deus." Mas, de fato, não podemos dizer que Deus deva coisa alguma ao homem. Mas Deus em Seu decreto e pela Sua graça, prometeu que Ele o deve ao homem. É uma maneira muito estranha de raciocinar. Ele quer dizer Sim e Não ao mesmo tempo. Que diz, porém, o apóstolo Paulo no verso 5? A fé é apenas uma fé salvadora quando confia. Isto é mais do que crer apenas intelectualmente. É uma atitude mental para viver. É uma fé que procede do coração. Em Romanos 10:10, Paulo nos diz que é com o coração que nós cremos e não somente com o intelecto. Porque o coração é maior que a inteligência, porque na Bíblia o coração inclui a vontade e as emoções também. "Vocês precisam crer de coração, ou vocês não acreditam." Porque há muitas pessoas que crêem apenas com a mente. Crêem mas não fazem nada. Esta, porém, não é fé salvadora. A fé apenas intelectual não merece a palavra fé. Mais tarde nós voltaremos a isto, ao chegarmos ao livro de S. Tiago. Para o apóstolo S. Paulo a fé não é obra, mas crença em Cristo, em Sua justiça e em Sua obediência; e aceitando isto como nossa justiça e nossa obediência. A expressão bíblica não é fazei mas foi feito. Não obras, mas crença.

Justificação, Troca de Roupa

Vamos dar outra ilustração: O pecador está na presença de Deus com roupagem imunda. Isaías diz que toda nossa justiça é trapos de imundícia. Também vocês podem

ver isto em Zacarias no capítulo 3. O Sumo Sacerdote Josué em trajes imundos e Satanás então diz: "Olha para ele, imundo!" Porém Deus diz: "Dai-lhe roupa branca e imaculada." Isto é justificação.

A roupa imunda é tirada. Então ele está nu. É o símbolo da culpa na Bíblia. De

maneira que ele tem que ser coberto com as vestiduras da justiça, que ele não possui. Deus, porém, nos diz: "Eu dou a justiça de Cristo para ele." Paulo diz: "Nós precisamos nos vestir de Cristo." Então Cristo pega a roupa imunda como o Cordeiro

de Deus que tira o pecado do mundo. Deus teve que tratar de Cristo na cruz como se Ele fosse um pecador, como se Ele fosse o primeiro Adão.

Justificação, Santificação, Glorificação

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Assim, em cada perdão, nós entregamos as nossas culpas para Jesus. E Ele nos dá a Sua justiça. Portanto, perdão é a mesma coisa que justificação. Não são boas-novas estas? Quantos de vocês acreditam nisto? Este é o centro de todo o evangelho. E é isto que todo membro deve ouvir cada sábado. Não tem nada a ver com a moral, com a vida ética. Este é um trabalho de Deus unicamente. Isto é redenção. Esta é a certeza da salvação. É isto que se devia pregar cada sábado ao povo. Nós não devemos começar um sermão ensinando aos outros o que devem fazer. Mas sempre devemos começar falando sobre o que Deus fez e o que Deus está fazendo. E nos últimos 10 minutos ou talvez nos últimos 2 minutos, nós dizemos à igreja: "Sigam a Cristo e não pequem mais!"

O sermão é organizado para proclamar a obra de Deus e não moralizar a igreja

para trabalhar um pouco mais. Se nós queremos que os membros da igreja trabalhem

um pouco mais, nós precisamos primeiro nos unir mais com Cristo. E quando o

coração estiver unido a Cristo, então vem a alegria e satisfação ao coração. Quando o coração está cheio, a boca falará palavras de alegria e salvação, porque uma fé viva abraçou a Cristo. E quando Cristo é nosso, quando é abraçado por nós, nós O seguiremos, e trabalharemos por Ele. Trabalharemos por Ele 100% e o faremos com prazer, porque amamos muito; porque fomos muito perdoados.

O apóstolo S. Paulo registra o princípio da justificação pela fé com dois exemplo

tirados do Velho Testamento. Em Romanos 4, primeiro faz ele referência a Abraão e depois a Davi. Queremos dizer que o Velho Testamento ensina o mesmo evangelho ensinado pelo apóstolo S. Paulo. O princípio da justificação pela fé está no Velho Testamento como também no Novo Testamento. Pois não adiantaria apelar a Abraão e Davi se não houvesse esta união de princípios. Paulo faz referência ao concerto Abraâmico e também Davídico. Leiamos Romanos 4:1-6. É uma citação de Gênesis 15. Abraão creu em Deus, acreditou nas promessas de Deus. Isto significa também que ele viveu de acordo com estas promessas, e o Senhor imputou-lhe isto como justiça. Isto é justificação pela fé. Abraão foi justificado pela fé nas promessas do Senhor. Esta é a condição pela qual Deus justificou a Abraão. Justificação significa sermos tidos por justos. Isto significa que somos aceitos justos diante de Deus.

A pergunta é sempre: Será que justificação significa também santificação? Será

que o imputar justiça significa também tornar a pessoa justa? Na teologia Católica Romana a justificação é completamente absorvida pela santificação. Eles dizem que somos justificados ao mesmo tempo que somos santificados. E como não somos completamente santificados nesta vida também não poderemos ser justificados. E assim o que se perde? A segurança da salvação. Na teologia Católico-Romana não há segurança de salvação. A não ser por especial revelação de Deus. Esta é uma das razões porque o Movimento Carismático teve entrada na Igreja Católica. Mas na Bíblia não há identidade entre justificação e santificação. Justificação é a raiz e a santificação é o fruto. A raiz não é o fruto. A raiz

Justificação, Santificação, Glorificação

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está oculta no solo. Nós só sabemos se a raiz é boa ao percebermos que os frutos são bons.

Agora falaremos sobre a raiz, isto é, a justificação. Deus imputa ao crente em Cristo a justiça. Isto realmente tem valor diante de Deus. Talvez isto não tenha validade diante de nossa própria consciência, mas o que realmente importa é a opinião de Deus ao nosso respeito. Deus é maior que o nosso coração. Diz o apóstolo S. João: "A palavra de Deus apenas traz paz à consciência e alegria ao coração." Quando Deus diz: "Eu te aceito", então a consciência não mais tem o direito de nos condenar. Abraão foi justificado pela fé, em Gênesis 15, o primeiro livro da Bíblia, e este é o coração do evangelho no Novo Testamento. Quando Paulo chega ao apogeu de sua conclusão, em Romanos 3:28, ele vai então aos capítulos seguintes para ilustrar estes fatos do Velho Testamento. Romanos 4 foi escrito a fim de dar apoio a Romanos 3:28. Paulo também apresenta Davi como exemplo (Rom. 4:6-8). Notamos aqui uma citação bastante longa do Velho Testamento (Salmo 32). É um salmo penitencial. Paulo cita os primeiros versos desse Salmo. Comparando estes versos com os versos do Salmo 32, descobriremos alguma coisa. Ao lermos os primeiros versos do Salmo 32 descobriremos o que é perdão. "Os pecados são cobertos", cobertos pelo sangue da expiação, o sangue de Jesus! No verso seguinte (Salmo 32:2) lemos: "Bem-

aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado". Isto também tem

significado de perdão. Isto indica que o Senhor jamais imputará pecado à pessoa perdoada. Que significa isto? Romanos 4:6 explica. Esta é a interpretação Paulina do Salmo 32.

No Salmo 32 Davi diz: "Bem-aventurado o homem cujas transgressões são perdoadas e a quem Deus não imputa o pecado", mas Paulo diz que isto significa o seguinte: "Bendito o homem a quem o Senhor atribui justiça independente das obras".

Assim que, perdão é idêntico a justificação pela fé, independente de obras. Assim Davi também experimentou o evangelho. O cristão, portanto não possui outra justificação a não ser aquela do Velho Testamento. A Sra. White diz que a justificação pela fé é idêntica ao perdão, portanto precisamos de justificação diária. Cada vez que somos perdoados recebemos justificação.

A Fragrância de Cristo

No livro do Apocalipse lemos de como os anjos permanecem diante do altar com as salvas de incenso. Refiro-me a Apocalipse 8:3-4. O que significa para nós este ato simbólico? É um ato de adoração no Céu, cheio de significado. Mas qual o seu real significado? Darei a resposta, contida num trecho do Espírito de Profecia (Mensagens Escolhidas, livro I, pág. 344). É um pensamento bastante profundo. Diz ali que:

"Mesmo as nossas orações, o louvor, a confissão penitente do pecado, são tão contaminados por nossa natureza carnal que a menos que sejam purificados pelo sangue

Justificação, Santificação, Glorificação

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jamais terão valor diante de Deus. Porque todos os nossos exercícios religiosos passam

pela nossa natureza corrupta." (tradução do original em inglês) Pensemos nisto por um momento. Nossas orações mais piedosas e nossa adoração a Deus não são aceitáveis a Deus, a menos que purificadas pelo sangue de Cristo. O incenso do altar representa a justiça de Cristo. Esta é a razão porque necessitamos de perdão, mesmo depois de termos sido justificados. Cada dia, quando somos santificados, disse Lutero em sua maneira peculiar, precisamos perdão inclusive para nossas boas obras. Este é um pensamento bastante profundo, porque todas nossas boas obras são misteriosamente contaminadas por nossa natureza carnal que existe bem dentro de nós. Ellen White explica isto nesta mesma página: "Oxalá vissem todos que quanto à

obediência, penitência, louvor e ações de graças, tudo deve ser colocada sobre o ardente fogo da justiça de Cristo! A fragrância desta justiça ascende qual nuvem em torno do propiciatório."

Não

necessitamos

portanto

diariamente

de

justificação?

Necessitamos

constantemente de justificação. Isto ocorre instantaneamente quando confessamos os pecados. Não precisamos esperar por isto. É recebido pela fé, e podemos agradecer por isto no mesmo momento. Necessitamos também perdão para nossos pecados inconscientes, como diz o Salmo 19:12. Vocês sabem que têm faltas ocultas? Talvez nem sintam, nem saibam disso! Existe uma natureza pecaminosa dentro de nós, em todos nós sem exceção. Só que talvez alguns possam ocultar tal fato melhor que outros. Todos somos filhos do Adão caído e, portanto, não necessitamos apenas de perdão dos pecados, não apenas por determinados atos de transgressão. Todos esses pecados são oriundos do PECADO com letras maiúsculas. Todos os pecados provêm de um coração pecaminoso. Esta é a natureza pecaminosa. Este é o coração inconsciente e pecaminoso. Isto significa que o homem é desde o seu nascimento atraído por si mesmo. Somos inclinados a nós mesmos. Esta é a essência do pecado:

EGOÍSMO. Todos os pecados têm origem no egoísmo e nós não podemos erradicar totalmente o egoísmo. É por isso que temos a santificação após a justificação. Na justificação precisamos perdão para os pecados e precisamos o perdão para o PECADO. Precisamos de perdão para tudo aquilo que existe em nós. Tornemos isto bem concreto. Vocês tiveram um bom dia no trabalho do Senhor. Estudaram 4 horas a Bíblia e o Espírito de Profecia de maneira adequada. Deram um bom testemunho de Cristo. Foram polidos e educados para com cada pessoa. A pessoa sente-se bem. Este foi um bom dia. Agora vestimos o pijama, vamos dormir, mas primeiro vamos orar. O que você diz? "Senhor, hoje eu não preciso de perdão!" Nós não dizemos isto. Dizemos: "Senhor, sou-Te grato por um dia feliz. Contudo, Senhor,

eu necessito de Ti. Aceita-me, perdoa-me, justifica-me."

Talvez não vamos mencionar nem um pecado particular, nem uma transgressão em especial. Tivemos um dia vitorioso, mas quanto mais próximo chegamos de Deus, tanto menores nos sentimos. Precisamos então de perdão para nossa natureza pecaminosa.

Justificação, Santificação, Glorificação

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O Salmo 19:12 nos ensina tal coisa: "Quem há que possa discernir as próprias

faltas?" Quem pode compreender os próprios erros? Devemos pedir perdão pelos pecados, mas carecemos primeiro compreender a terrível dimensão do pecado. De maneira diferente diz o Salmo 51:5. Nós somos pecadores desde a matriz. Deus sabe disso. Somente Jesus, quando nasceu, não possuía esta natureza pecaminosa. Somente de Jesus o anjo disse a Maria sua mãe: "Aquele que nascer de ti será chamado Santo". De nenhuma outra pessoa pode ser dito isto. Mas Jesus veio a fim de assumir o nosso lugar, como Substituto. Ele não necessitava de um libertador. Ele não necessitava de um Salvador. Ele mesmo era o Salvador. Ele veio para tirar o pecado e por esta razão Ele sofreu. Jeremias diz no capítulo 17:9: "Enganoso é o

coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?"

A Necessidade de Nós Todos

Este é o seu e o meu coração. Alguns de nós talvez pensam não ser pecaminosos. Isto é um grande problema. Se por acaso estamos acostumados a apontar os pecados nos outros, isto torna-se algo muito sério e perigoso. Enquanto aponto um dedo para uma pessoa, três dedos apontam para mim. Quando nós condenamos a alguém estamos dizendo que estamos fazendo aquilo que ele deveria fazer. Dizemos que os outros estão errados, damos a impressão de que nós estamos certos. Não é este um problema em nossa igreja? Jesus diz à 7ª igreja, à igreja de Laodicéia: "Você pensa realmente ser bom, rico e poderoso e de nada necessitando, mas você não sabe aquilo que você é: necessitado, pobre, cego." A nossa igreja necessita de verdadeiro arrependimento. E se o pastor no púlpito e em seu trabalho pastoral não estiver arrependido, a igreja não compreenderá o que é arrependimento. Todos os verdadeiros profetas clamaram por verdadeiro arrependimento. Eles se humilhavam diante do Deus vivo e viviam baseados na graça de Deus. Que Deus possa conceder mais gente humilde em nossa igreja. Que não vão de um lado para outro condenando as pessoas e sentindo-se melhor consigo mesmo, mas que saibam o que significa condenar-se a si mesmo. Assim não estarão mais acusando os irmãos, mas estarão permanecendo junto com os irmãos na mesma necessidade. Deus quer que reconheçamos a nossa própria ruindade. Ele muda as circunstâncias ao nosso redor. Faltas são subitamente reveladas, faltas essas que jamais pensávamos existirem. Ellen White fala a este respeito no livro A Ciência do Bom Viver, páginas 470 e 471. Subitamente podemos cair no pecado. Talvez digamos palavras que jamais imaginaríamos pronunciar. Como podemos conhecer a Deus a fim de conhecermo-nos a nós mesmos? Nós precisamos dEle a cada momento. À medida que mais o conhecermos, maior será o nosso sentimento da necessidade dEle. Se dissermos que não temos pecado, nos enganamos a nós mesmos. Mas se confessarmos, Ele é fiel e justo para nos purificar de toda injustiça (I João 1:9). O

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verbo purificar está no tempo presente em I João 1:9. Nós precisamos de purificação da alma. O que é, então, justificação, pela fé? É a imputação divina da justiça de Cristo ao nosso nome individual. É um estado juridicamente perfeito diante de Deus pelos méritos de Cristo. Quando Deus abre os livros do juízo, Ele procura então a justificação, e se Ele vê que a última coisa escrita a nosso respeito naquele livro é justificação ou perdão, Ele coloca então o Seu selo. Ele então afirma que de agora em diante tal pessoa será justificada eternamente. Tudo o que necessitamos é permanecer em Cristo, em perdão. Este é o ensino do Velho Testamento. Qual a condição necessária para termos a justificação? Gálatas 2:16. Portanto, eis a condição para sermos justificados: FÉ EM CRISTO. É por esta razão que falamos em justificação pela fé. Significa isto que a fé é nosso Salvador? A fé é apenas um meio de salvação, um canal de salvação, mas Cristo é o Salvador. A fé se apodera de Cristo e da Sua justiça como um Salvador pessoal e assim somos individualmente justificados por Deus, e ninguém pode nos arrancar das mãos de Deus, pois Deus tem dito: "Eu aceitei esta pessoa." Nós estamos então seguros. Esta é a base de nossa segurança de salvação.

Arrependimento – Confissão – Batismo

Há outra condição para justificação: é a implicação da fé, a fim demonstrarmos que temos fé viva. Isto é o arrependimento. É fé manifestada por intermédio do arrependimento. Isto pode ser expresso na confissão. Davi faz isto no Salmo 51:4 – Davi justifica a Deus, ao Deus condená-lo. Isto parece indicar que nós precisamos justificar a Deus antes que Ele nos justifique. Esta é nossa confissão. Em nossa confissão então dizemos que Deus é justo e nós errados. Então o diabo permanecerá envergonhado e de mãos vazias. Porque o diabo diz que Deus está errado e ele está certo. Precisamos entender isto dentro do contexto do grande conflito. O diabo ataca o caráter de Deus, o governo de Deus. Ele diz que Deus não é um bom Deus, Seus atos são despóticos. Se alguém disser a Deus que Ele é puro, justo e irrepreensível, então Ele fará a seguinte declaração: "Aqui está uma alma que pode permanecer ao meu lado." Deus então coloca o Seu braço ao redor dessa alma e diz: "Tu estás justificado." Portanto, a justificação pela fé é selada pelo batismo, como um símbolo do nosso nascimento e também da justificação pela fé. Porque o batismo significa realmente que a pessoa foi incorporada na morte, sepultamento e ressurreição de Jesus Cristo, efetuada há 2.000 anos. Em Lucas 7:29 está escrito que o povo que foi batizado com o batismo de João, justificou a Deus. Nossa confissão de culpas, selada no batismo, justifica a Deus, porque declara o fato de Deus ser justo. E então nós creditamos a Deus o fato de Ele ser irrepreensível. É nesta confissão que Deus está interessado. Ele deseja esta

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confissão, não somente dos crentes, mas também dos descrentes. Ele terá esta confissão inclusive do próprio Satanás.

Isaías 45:23 diz: "Diante de Mim todo joelho se dobrará". Todos se dobrarão

diante do trono da Sua Santidade, e confessarão a bondade e a justiça de Deus. Tanto aqueles que estarão dentro da Cidade Santa como os que estarão fora da cidade louvarão o nome de Deus. Aqueles que estão dentro da cidade farão com grande júbilo. Hoje é o tempo de aprendermos a confessar a justiça de Deus. Esta é a grande reforma e reavivamento nesta igreja. Mas somente começará quando aceitarmos a mensagem de Laodicéia individualmente.

Paulo diz em Gálatas 2:21: "Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão."

A justificação não vem por intermédio da lei. A justificação é um dom da graça. É a imputação da justiça de Cristo ao nosso coração. O que pensa Deus a respeito daqueles que se baseiam em suas próprias obras? Em Gálatas 3:10 e Romanos 11:6 lemos a esse respeito. Paulo aqui trata de dois princípios: lei e graça – o que significa:

justificação pela lei ou justificação pela graça. Voltemos a Gálatas 2 mais uma vez. Muitos interpretam de maneira errônea este

texto verso 21: "Pois se a justiça é pela lei, segue-se que Cristo morreu debalde". Assim,

alguns evangélicos concluem que não é preciso guardar a lei, e usam este texto. Como responderíamos ao falar com eles? Algumas pessoas colocam a lei de um lado e a graça de outro. Então dizem: Se temos a cruz, não precisamos da lei. Isto é chamado antinomianismo. Inclusive Lutero e Calvino estavam combatendo o antinomianismo. Mas o texto não diz isto. Não diz em Gálatas que a lei está errada e a graça está certa. Como poderia isto ser se a lei provém do próprio Deus? Deus não é esquizofrênico. Deus dá ambas as coisas: a lei e a graça. Portanto, ambas são boas. Mas o texto diz alguma coisa mais. A justificação por intermédio da lei, se existisse, não haveria mais necessidade da cruz e da graça. O dilema não é lei contra a graça, mas sim justificação pela lei contra justificação pela graça. Se a lei for mal usada como meio de justificação, então está em oposição direta à função da graça. A lei não foi dada para justificação, mas para condenação, a fim de dar importante lugar para a justificação pela graça. Portanto, a justificação pela lei é impossível. Somos justificados pela graça. A lei ainda permanece a fim de condenar, para sermos justificados pela justiça de Cristo.

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SANTIFICAÇÃO

Leiamos uma passagem bíblica. Apocalipse 14:6 e 7. Dar glória a Deus é santificação. O apóstolo S. Paulo diz que devemos dar glória a Deus com o corpo e o espírito. I Coríntios 6:17-20. O corpo aqui representa a vida completa que vivemos todos os dias, significa nossa vida moral, a nossa vida histórica, a nossa conduta social. Este é o coração da 1ª mensagem angélica: Chamar o povo para uma vida mais elevada, para uma vida santificada. Paulo nos diz: que não somos de nós mesmos. Que pensamento profundo é este! Não podemos fazer o que queremos fazer. Para fazer a vontade de Deus é que Ele nos chamou. Não pertencemos mais a nós mesmos porque fomos adquiridos por um preço que é a redenção. Nós pertencemos a Cristo. Isto é selado no batismo. Por isso devemos glorificar a Deus em nosso corpo. Notemos a ordem encontrada neste verso 20 – Primeiro a redenção em Cristo

Jesus: "Fostes comprados por bom preço". "Glorifica, pois, a Deus em vosso corpo". É o

nosso chamado moral – a ética. Primeiro a redenção depois a ética. Se trocássemos a ordem, primeiro a ética e a moral, e depois a salvação, teríamos o legalismo. Nós não precisamos ser bons para sermos salvos agora, mas precisamos ser salvos para sermos bons! Isto é ser julgado no juízo investigativo. Se queremos que o povo tenha uma vida moral mais elevada, não devemos dizer o que eles precisam fazer para viver uma vida mais santificada, mas devemos mostrar o preço que foi pago pela redenção.

O preço que Deus pagou pela nossa salvação transcende a toda compreensão que

o homem pode ter. Nós jamais podemos pagar a Deus pelo Seu amor. Porém, este

preço pago pelo Redentor é o Seu direito à nossa vontade, ao nosso talento, à nossa ambição, à nossa fé.

Fé e Obras

O propósito da justificação é a santificação. Deus nos salva a fim de restaurar em

nós a primitiva Sua imagem. A justificação é a raiz. A santificação, o fruto. A raiz não

é o fruto. A raiz está sempre escondida no chão e ninguém vê. Porém, os frutos

demonstram que as raízes estão vivas. Se nós queremos saber se temos fé, só podemos

saber pelos frutos. A fé sempre está escondida, porém a santificação é visível.

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Contudo, não devemos separar a justificação da santificação. Não são dois compartimentos diferentes. Eles estão unidos organicamente; como os dedos à mão:

são uma unidade, mas os dedos resultam da mão. A justificação viva produz a santificação. Se não há santificação então não pode ter havido justificação. Este é o método vital. É a relação entre a fé e as obras. Nós acreditamos na fé e nas obras. Mas se dissermos fé e obras, damos uma impressão errada, como se a fé fosse uma coisa e as obras fossem outra coisa. Então, sem saber, adotamos a filosofia católica.

Vejamos o que a Igreja Católica estabeleceu no Concílio de Trento. Para a Igreja Católica a fé tem duas faces distintas: a 1ª é intelectual, aceitação intelectual das doutrinas da Igreja e da Bíblia. É puramente intelectual. O coração não está envolvido. Dizem que isto é possível para o descrente. Ele crê, porém não tem fé salvadora. Esta

é a posição católica romana, não a nossa, não da Reforma. Eles dizem que o indivíduo

é batizado na Igreja, recebe o sacramento, então ele recebe a Graça Sacramental que

produz na alma um hábito. Uma fé formada pelo amor. Eles não falam, porém, em fé salvadora. Falam em fé sobrenatural, amor. Temos, assim, a primeira e a segunda parte da fé. O que está errado nesta apresentação? Lutero e Calvino estudaram esta apresentação. Eles acharam alguma coisa errada com esta sistematização complexa. Eles achavam que faltava a simplicidade da fé bíblica. Para eles a aceitação intelectual não é fé na Bíblia. Lançaram fora totalmente esta primeira parte. Declararam que isto

era apenas uma opinião, não fé bíblica. Diziam eles que a fé verdadeira, criada pelo sacramento, também está errada, de maneira que não sobrava muita coisa boa para a Igreja Romana, porque a fé não é produzida pela aceitação do sacramento. Esta fé- amor também não é bíblica, porque o amor aí é que dá base para a fé. De maneira que lançaram fora o conjunto todo. Isto é que era reforma.

Mas eles desenvolveram alguma coisa melhor. Eles declaravam que a fé resultava de ouvir a Palavra de Deus, a fé resulta não dos sacramentos, mas da Palavra de Deus, através da operação do Espírito Santo. Cada vez que a Palavra de Deus é pregada, o Espírito Santo está ali para criar a fé. Então eles sempre uniam a Palavra de Deus e o Espírito Santo numa Unidade inseparável. Esta é a estrutura básica da Reforma protestante: A Palavra e o Espírito juntos em união inseparável; a lei e o evangelho. Isto é verdadeira reforma. Chegaram à conclusão de que a descrença resultava da rejeição da Palavra de Deus. O pecado é descrença. A fé viva para os reformadores era a aceitação de Cristo, o abraçar a Cristo. Uma relação direta com o Autor da Bíblia. Não mais as doutrinas, mas a relação direta com o Autor. Esta fé para eles sempre era salvadora.

Não existe fé que não salve. Se não, então não é fé. Fé só merece este nome se nos leva a esta atitude direta com o Salvador. De maneira que fé para os reformadores sempre foi algo ativo. Uma fé morta não é fé. Uma fé ativa é uma fé que opera. Eles acharam uma passagem muito bonita em Gálatas 5:6, onde Paulo fala da fé que atua pelo amor. De maneira que a fé produz amor. A fé não precisa ser suplementada pelo

amor para unir as duas coisas sinteticamente através dos sacramentos.

manifesta no amor. De maneira que não devíamos falar em fé e obras, mas fé que

A fé viva se

Justificação, Santificação, Glorificação

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opera. Nesta fórmula sintetizamos toda esta questão. Não somos salvos pela fé e obras, mas pela fé que opera. Não é bonito isto? É tão simples! É ridículo, afirmava Lutero, dizer que a fé deve operar. É o mesmo que dizer ao Sol que deve brilhar. O Sol simplesmente brilha! Assim também com a fé viva. Ela opera. Lutero declarava que era errado dizer 2 x 2 tem que ser 4, porque é 4. Assim é também com a fé. É uma manifestação espontânea de si mesma, porque está em conexão com Cristo. Cristo é o objeto da fé. Ela estabelece, então, entre a alma e Cristo uma relação pessoal. Enquanto estiver unida a Cristo, a alma é transformada, é aquecida, é motivada e opera. Cristo não pode ser dividido. Ele não nos oferece uma parte de perdão isolada, ou justificação. Cristo Se oferece, a Si mesmo. Não devemos exaltar somente a justificação e a santificação, devemos exaltar a Cristo, em quem a justificação e santificação são uma coisa. O Cristo vivo deve ser pregado, não a doutrina isolada. As doutrinas são muito importantes para demonstrar o que é que nós cremos, porém a alma jamais é salva por uma doutrina, nem por doutrinas boas! A doutrina da Justificação pela Fé não pode salvar a ninguém. Não é suficiente entendermos a doutrina. Somente Cristo pode salvar. Quando temos esta relação pessoal com Cristo, então estaremos salvos. Nós recebemos justiça, santidade, ao recebermos a Cristo. Ele é a nossa mensagem. Ele é a nossa norma, Ele é a nossa salvação, e Ele é o mesmo ontem, hoje e amanhã.

Santo ou Pecador

Para o velho Israel Deus já dizia: "Sereis santos, porque Eu Sou Santo." Lev. 11:44. Aos cristãos Deus diz a mesma coisa. I Pedro 1:15 e 16. Como cristãos servimos ao mesmo Deus do Israel do passado. Deus requer dos cristãos a mesma santificação que Ele requeria do antigo Israel. Deus era conhecido no Velho Testamento como "O Santo". E no Novo Testamento Jesus é conhecido como "O Santo". Para Jesus santificação era completa obediência. Cristo preferiu morrer a desobedecer. Este é o clímax da santificação. É isto que Deus está procurando produzir no pecador. Santificação e pecado são coisas opostas. Não existe terreno intermediário. Se não formos santos, então seremos pecadores. Ellen White fala em Testimonies volume 2, à pág. 445: "Sem santificação o

coração humano é egoísta, pecador e vicioso."

Santidade é o mais elevado atributo de Deus. Se devemos ser restaurados à primitiva imagem de Deus, devemos ser restaurados na santificação. Em Hebreus 12:14 a santificação é um dos requisitos para o Céu. Certa vez um homem desafiou o pregador Moody, dizendo: "Por que é que o Senhor requer de nós que deixemos de fumar? A Bíblia não exige isto para nossa

salvação!" E ele respondeu: "Está certo, mas o último livro da Bíblia diz que nada de impuro entrará na Nova Jerusalém!"

Justificação, Santificação, Glorificação

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nos dá,

precisamos ser realmente santos. Jesus nos prometeu em Mateus 5:8 "Bem-

aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus." Para vivermos uma vida

santa precisamos ter um coração santo. A santidade de coração é que produz ação santa. Ainda nos é dito em Testimonies volume 2, à pág. 445: "A ausência da santidade é

que nos leva a atos injustos, a termos ciúmes, inveja e qualquer outro pecado." A ausência

de santidade é que nos leva a isto! Davi descobriu isto certa vez, quando cometeu um grande pecado. Ele premeditou a morte de alguém e o adultério. A que ponto um ungido do Senhor pôde chegar! Nós, uma vez santificados não estamos para sempre santificados. Precisamos ser purificados cada dia. Cada dia precisamos ser justificados e santificados. É uma obra diária para exercermos fé, para andarmos com Cristo. Na justificação nós nos entregamos a Cristo; na santificação nós seguimos a Cristo, andamos com Ele. Foi um grande choque para Davi quando ele acordou, quando sua consciência foi despertada. Ele viu a si mesmo sob uma nova luz. Em saco e cinza, ele se arrependeu profundamente. Foi sincero o seu arrependimento? Como podemos saber? Ele fez uma confissão pública. Os pecados secretos precisam ser confessados em segredo para Deus, mas pecados públicos precisam ser confessados publicamente. Onde encontramos esta confissão pública de Davi? No Salmo 51. Aqui aprendemos que Davi pediu mais do que simplesmente perdão a Deus. Ele pediu um coração puro. Salmo 51:10-12. Ele não pediu apenas por justificação, perdão, mas

pediu mais, ele pediu por santificação. Não somente a culpa deveria ser removida, mas

a razão da culpa deveria ser afastada também. Ele não confessa apenas os seus

pecados, mas confessa que procede de uma origem pecadora. Ele é pecador desde o íntimo da sua alma. Ele diz neste Salmo que em pecado sua mãe o concebera. Este é o mais profundo reconhecimento do pecado. Somos pecadores desde o ventre da mãe. Ele não precisa somente perdão dos seus pecados, dos seus atos, das suas palavras, ações e pensamentos. Ele reconhece que a fonte deve ser purificada. Ele não pode purificar o seu próprio coração. Uma alta posição não pode purificar o coração, nem a

ciência, ou a psicologia. Por isso ele clama: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro".

É necessário um poder criador. Precisamos reconhecer o nosso Criador como nosso

Redentor. Somente o Criador pode mudar o coração humano, tornando-o santo.

Deveríamos pedir isto cada dia. O Salmo 51 não foi escrito para demonstrar quão grande pecador Davi foi, mas

para

precisamos receber a mesma salvação. A santificação é algo mais amplo que a justificação, porém a salvação inclui a justificação e a santificação. A salvação inclui o libertamento do corpo e da alma incluindo, assim, a glorificação também. Não é um milagre que Deus queira salvar um indivíduo pecador, tornando o coração arrependido o lugar da sua habitação? Porém, Deus jamais pode habitar num coração orgulhoso, que se exalta a si mesmo.

Uma coisa é muito certa: A santificação não é uma opção que se

podermos

identificar-nos

com

ele,

pois

não

somos

melhores

que

Davi;

Justificação, Santificação, Glorificação

33

Isaías 57:15. Aqui nos é dito que Deus tem dois lugares de habitação, entre os santos anjos, no templo celestial e no nosso coração. Qual é a condição? Que o coração reconheça que é indigno. Que o coração seja contrito, humilde. Mas arrependimento não é o ponto final para nós.

Perdão ou Poder

Como podemos receber a Deus, que é santo, em nosso coração? A santificação é alegria, ela deve ser uma experiência. Não podemos falar de alegria se não a possuímos. Devemos demonstrar que a nossa religião é atraente, é uma alegria verdadeiro para que o povo seja atraído para ter esta alegria também. Santificação é uma Pessoa. É a pessoa de Deus. Deus é todo alegria. Ele é todo santo. É também Jesus Cristo e o Espírito Santo. O espírito de alegria, a alegria da salvação. Qual é então o segredo da santificação? "Aceitamos a Cristo como Salvador

pessoal, e seguindo o Seu exemplo de negação própria, este é o segredo da santificação."

– Ellen White, S.D.A.B.C., vol. 6, pág. 1117. Vocês podem lembrar isto? Duas coisas inseparáveis:

1º – Aceitar a Cristo como Salvador pessoal.

2º – Seguir o exemplo de Cristo de negação própria. Não podemos ter um sem o outro. Jesus diz (Mateus 16:24): "Se alguém quer vir

Esta é a fase da

santificação. É simples e muito prática. A justificação e a santificação unidas são o

evangelho completo. Jesus jamais deu a alguém o perdão sem o chamado à santificação. Em S. João 8 há um bom exemplo. Os escribas e fariseus trouxeram uma mulher que tinha sido apanhada em adultério. Eles tinham até preparado o caminho para apanhar a mulher em pecado. Com esta mulher vieram a Jesus, e perguntaram se deveriam apedrejá-la de acordo com a lei de Moisés. Jesus respondeu que aquele que estivesse sem pecado, e Ele falava em relação a esta mulher, que fosse o primeiro a lançar a pedra. Ellen White diz que todos haviam cometido pecado contra esta mulher. Eles, portanto, desapareceram. Jesus disse à mulher (verso 11): "nem Eu também te

condeno; vai-te e não peques mais."

Esta é a santificação de Deus. Ele não somente perdoa, mas dá poder para a vitória, para uma vida santa. Deus ofereceu a esta mulher justificação e santificação. O perdão e o poder. Salvação e um poder novo. "Se Deus é por nós quem será contra

nós?"

após mim, a

si

mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me."

E a irmã White nos diz que esta mulher se tornou uma das mais fiéis seguidoras de Jesus. Na elevação dessa mulher Jesus produziu o milagre maior do que curar as mais terríveis enfermidades. Ele curou o mal espiritual que destruía eternamente (D.T.N., pág. 462). Por isso que o pastor é mais importante que o médico. Muitos médicos disseram que se pudessem voltar atrás eles estudariam Teologia e não Medicina.

Justificação, Santificação, Glorificação

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A mais profunda necessidade humana é sempre espiritual, e a Psicologia e a Psiquiatria jamais resolverão estes problemas. Quando uma pessoa é vencida pelo

demônio, o médico e o psicólogo não podem entender isto. Eles chamam de histerismo

e dão algumas drogas, mas o diabo permanece. Se o pastor for dedicado e tiver a

verdadeira compreensão e santidade de vida, ele vai e expulsa o demônio. Então a pessoa é curada. Certa vez, Jesus parou debaixo de uma árvore em Jericó. Ele disse a Zaqueu:

"Zaqueu, desce depressa, porque hoje Me convém pousar em tua casa!" Jesus Se

convidou a Si mesmo, mas foi bem recebido. Zaqueu se encontrava com o sentimento de culpa por seus pecados. Todos sabiam que ele era pecador e não gostaram que Jesus fosse à sua casa. Zaqueu já tinha resolvido pagar sua fraude, ele tinha retirado dinheiro demais do povo. Mais do que os romanos exigiam. Ele ouvira falar de Jesus e do Seu maravilhoso e santo amor e sua consciência o apertava. Ele foi atraído a Jesus. Ele já estava começando a devolver, o que era um sinal de verdadeiro arrependimento. Quando Jesus Se aproximou, viu nele uma alma disposta a ser salva. Não Se importou com a opinião pública e foi à sua casa. E não levantou o dedo, não disse a Zaqueu que ele estava errado, não pediu que ele se arrependesse. A presença de Jesus foi o suficiente. Não precisamos reprovar o pecado se apresentarmos a Cristo, Sua presença é uma condenação. Na presença da multidão, Zaqueu disse: "Dou a metade dos meus bens aos pobres

e se tenho defraudado a alguém, devolvo 4 vezes mais." Isto é 400%. Imaginem agora

Zaqueu. Ele vai a uma casa, a família se preocupa, mas ele diz: "Eu não vim cobrar

mais, eu vim para devolver o que cobrei a mais. Eu vos devolvo 4 Vezes mais do que lhes defraudei."

O que os moradores da casa pensaram quando Zaqueu foi embora? Pensaram que ele era um grande homem! Um homem de coragem moral. E eles perguntavam: "Por que se deu esta mudança em Zaqueu?" Ele então lhes contava de Jesus. Na verdade Jesus veio buscar e salvar o que se havia perdido.

Em S. Mateus 5:48, Jesus disse: "Sede perfeitos como é perfeito vosso Pai

Celeste." Aos discípulos Jesus falava da santificação. Ele quer isto de nós agora mesmo. A relação entre a justificação e a santificação é uma coisa muito importante. Não podermos entender isto completamente por nosso intelecto, como não podemos justificar e entender a vida. Chamamos isto uma organização orgânica. Alguns cristãos não têm a compreensão necessária de justiça pela fé. Não pregam

a redenção primeiro. A primeira coisa que pregam do público é o moralismo, e os

membros da igreja não são alimentados. Apenas ouvem um discurso, não um sermão onde a salvação em Jesus é pregada. Em nossa igreja a justificação é bem entendida. Não podemos separar a justificação e a santificação em dois compartimentos distintos. Não podemos ter um sem o outro.

O Trabalho de Cristo e do Espírito Santo

Nós recebemos justiça quando recebemos o Espírito Santo.

Justificação, Santificação, Glorificação

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Romanos 3:28 nos diz que o homem é justificado independente das obras da lei. Isto é justificação pela fé. É a imputação da justiça de Cristo sobre a alma. Ele é reconhecido como justo por Deus, mas não se sente justo. Contudo, ele é justo aos olhos de Deus. Esta é a maior realidade. Reconhecido como justo é tratado como tal, como se nunca houvesse pecado. Sem as obras da lei. Não como resultado de nossas obras, ou boas intenções ou boas qualidades. Somente pela fé. Não a fé intelectual, mas do coração. Com a existência toda, fé com vontade, fé que confia, que abraça a Cristo. A fé que se manifesta em genuíno arrependimento. Agora passemos a Gálatas 3:2 e 5. Temos aqui uma semelhança muito íntima entre Gálatas 3 e Romanos 3. Romanos 3 diz que somos justificados sem as obras da lei, e em Gálatas 3 nos diz que recebemos o Espírito sem as obras da lei mas pela fé. De maneira que somente pela fé recebemos a justiça de Cristo e da mesma maneira recebemos o Espírito Santo. O que recebemos primeiro: A justiça de Cristo ou o Espírito Santo? Ou recebemos ambos na mesma hora? Gosto de dizer na mesma hora! E falando

racionalmente,

reconhecidos justos, Deus nos trata como justos e nos dá o Espírito Santo. Tudo ocorre na mesma hora. O Espírito Santo produz o renascimento de maneira que somos nascidos de novo. Talvez isto ocorra uma vez só, porém recebemos a justificação diariamente e diariamente recebemos o Espírito Santo. Do Espírito Santo podemos receber mais e mais de acordo com a capacidade do coração. Podemos, portanto, ver que a justificação e o Espírito Santo também não estão separados. É uma única experiência. Podemos chamar uma organização orgânica. Nós não confundimos a justificação e a santificação. Não são misturados, são distintos. Porém, uma resulta da comunicação direta com a outra. O que nós fazemos com o Espírito Santo? Por que Ele é dado? Para que nós possamos cooperar com o Espírito Santo! Para que nós possamos vencer o pecado. Para que possamos viver uma vida mais elevada, pura, santa. Toda ela baseada em Jesus Cristo. Ouçamos as Suas palavras em S. João 16:33 - "Eu venci o mundo." Jesus era um ser vitorioso em todas as tentações. Jesus orava muito. Ele orava como homem ao Pai. Orava porque queria viver uma vida de fé. Jesus venceu pela fé somente. Ele confiou no Pai até o fim. Cristo venceu onde Adão caiu. Cristo é o 2º Adão. Ele caminhou a mesma estrada onde Adão caiu e onde Israel caiu. Israel esteve 40 anos no deserto, eles eram rebeldes, não estavam satisfeitos com o alimento. Jesus veio, Ele também foi ao deserto, Ele condensou aqueles 40 anos em 40 dias. Jejuou durante 40 dias para demonstrar que nós devemos viver por uma fé que confia. Ele representou a Israel, e venceu. Venceu por nós e apesar de nós. E o que conta para Ele conta para nós. Nós não podemos vencer somente como Ele venceu, mas porque Ele venceu! Vocês podem ver a diferença? Darei um exemplo: Na Suíça há muita neve nas montanhas e de repente muita neve pode cair. Um avô junto com o seu neto, constituíam uma família. Eles tinham ido passear e quando voltaram para casa muita neve tinha caído. Eles mal e mal

sermos

temos

que

aceitar

justificação

primeiro,

e

na

base

de

Justificação, Santificação, Glorificação

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podiam caminhar, havia mais ou menos, um metro de neve, quase da altura do menino, porém tinham que ir para casa. O avô disse ao me nino: "Eu caminho na frente e você põe os pés nas minhas pegadas." Onde quer que o avô punha os pés o neto também punha e foi relativamente fácil.

O que teria acontecido se o neto tivesse dito o seguinte: "Vovô o que o senhor

está fazendo é muito bom. Eu vou fazer a mesma coisa que o senhor?" Se ele tivesse tomado o avô apenas como um exemplo e tivesse tentado caminhado por si só, ele

jamais teria alcançado o alvo. Ele, porém, chegou porque não tomou o avô apenas como um exemplo, mas também como seu substituto.

Qual a Minha Parte na Santificação

Como nós podemos seguir a Jesus, atrás dEle ou sem Ele? Podemos nós vencer como Jesus venceu, porém separados dEle? Então nós tomamos a Jesus apenas como nosso Exemplo. Esta é a essência do legalismo. Jesus então é apenas um mestre moral. Ele é apenas um exemplo moral que procuramos imitar com nossas próprias forças. Nós pensamos que o que Ele pode fazer nós também podemos fazer! Esta é uma grande ilusão e nada tem que ver com o evangelho, porque moraliza o evangelho. Jesus jamais indicou esta maneira. Ele diz: "Tende bom ânimo, Eu venci o mundo." "Siga-Me". Isto quer dizer: Nós devemos pisar onde Jesus pisou. Ele nos precedeu. Em Suas pegadas poderemos ser vitoriosos. Venceremos não somente porque Ele venceu, mas porque Ele venceu por nós. Devemos pedir a vitória de Jesus como a nossa vitória. Devemos nos apegar a Jesus e Suas promessas. Sua vitória poderá ser nossa. Não temos vitórias por nós mesmos; Sua vitória é nossa vitória.

O que nós precisamos acima de tudo é unir a nossa fé à Sua.

O Desejado de Todas as Nações, pág. 123: "Enquanto a Ele estivermos ligados

pela fé, o pecado não mais terá domínio sobre nós. Deus nos toma a mão da fé, e a leva a apoderar-se firmemente da divindade de Cristo, a fim de atingirmos a perfeição de caráter."

Só poderemos ser vitoriosos enquanto nos mantivermos unidos a Cristo. Quando nós sofremos por Cristo o sofrimento pode ser doce se estivermos unidos a Ele. Como isto pode ser? Qual é a nossa parte na santificação? É pela fé somente ou pela fé e as obras? É pela fé que opera!

Jesus nos diz em João 15:4, 5: "Permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós.

Porque sem Mim nada podeis fazer." (V. 7, 8): "Se permanecerdes em Mim, e as Minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito. Nisto é glorificado Meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis Meus discípulos."

Como podemos habitar ou estar em Cristo, isto é, seguir a Cristo? Pela mesma maneira como nos unimos a Ele no princípio, pela fé viva, fé que genuína, que abraça a Cristo. Se estivermos unidos a Cristo Ele nos protegerá. Ele nos vai dar alimento espiritual, Ele vai produzir os frutos do Espírito Santo em nós. Quero ler a vocês de Ciência do Bom Viver, pág. 182, um pensamento

maravilhoso. "Coisa alguma é aparentemente mais desamparada, e na realidade mais invencível, do que a alma que sente o seu nada e que descansa inteiramente nos méritos

(

)

Justificação, Santificação, Glorificação

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do Salvador. Pela oração e pelo estudo da Sua palavra, pela fé em Sua constante presença, o mais fraco dos seres humanos pode viver em contato com o Cristo vivo, e Ele o segurará com mão que nunca o soltará."

Qual é a nossa parte? Três coisas apenas são mencionadas aqui: Oração, estudo da Sua palavra e fé em Sua constante presença. Lembro-me de outra citação neste momento que tem muito significado para mim. A irmã White escreveu esta expressão várias vezes. Não me lembro agora em que livro, porém esta é a declaração: "Não há limite para a capacidade de alguém que afasta o eu e abre o coração para que Cristo nele habite e viva uma vida consagrada a Deus."

["Não há limites à utilidade de uma pessoa que, pondo de parte o próprio eu, oferece margem à operação do Espírito Santo na alma, e vive uma vida de inteira consagração a

Deus." DTN, 250, 251] Ela diz três coisas: Que não há alcance para a utilidade de tal pessoa. Que desafio para os jovens! Não existe limites! A vida cristã é uma vida de grandes desafios. Podemos ser possuídos pelo Espírito Santo. Não é apenas um privilégio, mas é um dever. Em Efésios 5:18 lemos que devemos estar cheios do Espírito Santo. É uma ordem e uma promessa. Se o indivíduo não estiver cheio do Espírito, ele vive uma vida inferior, com pouco poder, com pouca alegria. Eles são os adventistas que não

são capazes de sorrir, que olham para

o chão quando estão caminhando. São

pessimistas, não têm coragem e nunca testificam, não ganham uma alma sequer. Fazem pouca coisa, mas ainda se agarram à Igreja, eles acham que por pertencerem à Igreja vão se salvar. Paulo diz que devemos estar cheios do Espírito. Devemos pedir por isto. Sem isto não podemos viver a vida do Espírito.

Binômio: Justificação - Santificação

Por que estamos falando sobre a santificação nesta manha? Isto é a vida com o Espírito. O Espírito de Cristo. E não podemos ter justificação sem santificação. Podemos perder a justificação se não quisermos ser santificados. Podemos regredir em vez de progredir. Podemos perder a nossa salvação ou a alegria da vossa salvação por não andarmos com Cristo. Isto nos torna muito mais responsáveis. Também na carta aos Gálatas, o apóstolo une a justificação e a santificação intimamente. Gálatas 2:16 é um verso claro sobre a justificação. Agora leiamos o verso 20. Este é um verso de santificação. No mesmo capítulo, Paulo não cessa de falar sobre a justificação mas ele prossegue na santificação. Justificação é a nossa relação com Cristo que está lá no Céu, fora de nós. A santificação é a relação com Cristo dentro de nós. A santificação fala de um Cristo que vive em nós. Não podemos ter um sem o outro, mas começa com o Cristo no Céu. A justificação é o ponto n.º 1, mas Cristo quer morar no coração, assim foi com o apóstolo Paulo. Se Cristo mora no coração nós não podemos ter confiança em nós mesmos. O que acontece com o nosso ego? Diz

Justificação, Santificação, Glorificação

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Gálatas 2:20 - "Já estou crucificado com Cristo". Não diz que o indivíduo é diariamente crucificado. Este texto diz que foi uma vez crucificado. Quando Cristo foi crucificado, eu fui crucificado, este é o centro do evangelho. O que não devemos crer é que o evangelho se resume em misticismo e emocionalismo. O evangelho é sempre uma relação com o Cristo histórico – Cristo que viveu uma vez na Terra, morreu uma vez, ressurgiu e foi ao Céu uma vez só. Nisto Ele representa a raça humana. O que aconteceu com Ele acontece conosco. Isto

é a fé cristã. Por isso é que Paulo diz: "estou crucificado com Cristo". Há quantos anos atrás nós também podemos dizer? Mas ele acrescenta: Isto não quer dizer somente que eu viva. Isto é santificação. O eu é o ego, o egoísmo continua sempre centralizado no indivíduo. Assim também na santificação. A santificação não quer dizer que o ego se santifique. Quer dizer que o ego está agora crucificado, e permanece crucificado. Está legalmente morto, porém na realidade empírica, o nosso eu ainda está vivo. Vou ilustrar: Na cruz histórica de Cristo, a crucificação era no tempo romano apenas para os escravos. A crucificação não é morrer numa cadeira elétrica. Esta mata num instante, ou com uma arma que mata de uma vez. A crucificação também não é um enforcamento que pode terminar rapidamente. Ser enforcado leva alguns momentos, porém a crucificação leva dias. Algumas pessoas crucificadas permaneceram na cruz 4 e até 5 dias. Eles morriam gradualmente. Às vezes os amigos do crucificado o tiravam da cruz à noite e ele se recuperava, vivia outra vez. Mas vivia escondido. Ele não tinha direito de viver. Legalmente ele tinha sido morto. Como é, porém, na vida cristã? Em II Cor. 5:14 diz: "Quando um morreu, todos morreram". Quando Jesus morreu a humanidade toda pagou o preço perante a lei de Deus. Esta foi uma expiação substituinte. Um morreu por todos. Uma vez para sempre. Isto é selado na hora do batismo. Quando somos batizados, nós não reconhecemos apenas que enterramos a vida passada, mas, como diz em Romanos 6:3, fomos batizados na morte de Cristo. Alguns precisam remodelar a seqüência batismal. Precisamos relacionar isto com

a cruz de Cristo. Às vezes nós batizamos as pessoas na morte errada, porque elas se converteram. Porém, não é esta a teologia paulina, esta é mais profunda. O sermos batizados significa que somos incorporados no Corpo que está na cruz. O candidato ao batismo é incorporado ao corpo de Jesus morto na cruz, há 2.000 anos. Esta é a mensagem de Romanos 6:3-6. No batismo, nós somos crucificados porque Cristo foi crucificado. E agora toda a nossa vida crista está tipicamente pendurada na cruz até o dia da Volta de Cristo. Nós estamos na cruz com o nosso ego, o nosso eu.

As Duas Naturezas

Quando somos batizados o nosso eu é declarado legalmente morto. Este é um ponto muito importante, por isso Paulo diz que já não somos nós mesmos. O diabo não tem mais poder sobre nós. Porque nós pertencemos a Cristo. Porém, nesta cruz o ego ainda está vivo. Está apenas legalmente morto, empiricamente ainda está vivo e pode

Justificação, Santificação, Glorificação

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cair. Alguns descem da cruz outra vez. Começam a viver a velha vida outra vez. Devemos, portanto, entender a morte legal e a morte empírica. Esta distinção mostra porque após a cruz o indivíduo tem que lutar consigo mesmo. Porque o cristão que deve renascer tem duas naturezas: a carne e o espírito. Estes dois combatem entre si. Gálatas 5 e Romanos 7 falam a este respeito. Alguns discutem esta questão de Romanos 7, porém Gálatas 5 é indiscutível. Eu acredito que ambos estes textos falam da vida cristã. É uma vida de luta contra o próprio eu. Nós

temos um forte ego e um espírito fraco. Por isso é que vivemos mais carnalmente que espiritualmente. Por isso há pessoas que vivem mais carnalmente que espiritualmente. Elas têm uma relação com Cristo que é tão frágil que não tem valor algum. Há cristãos que gostam de alimentar as duas naturezas. Assim que eles constantemente estão numa luta muito íntima. Eles não têm muita alegria, não têm muita paz. Porém, há cristãos que não alimentam o velho homem, mas alimentam o homem espiritual. Oram muito, lêem diariamente a Bíblia, eles trabalham por Jesus Cristo. Estes têm um espírito forte. A ilustração seria entre dois cães. Quando dois cães de igual força lutam, nenhum pode vencer. Porém, se vocês derem pouca comida para um durante uma semana e então deixarem que lute com outro bem alimentado, ele será derrotado. Assim também

é nossa vida espiritual. Se permaneço sempre diante da TV, se leio revistas

pornográficas, se leio fotonovelas, se gasto muito tempo alimentando meu próprio eu, fico uma hora e meia diante do espelho para pentear o meu cabelo, eu sempre estarei ocupado com o velho homem. Eu acho que devemos pentear o cabelo. Alguns não o fazem mais! Mas eu também creio que devemos alimentar o homem espiritual. Não deveria o cristão ler a Bíblia diariamente? Não só nos sábado de manhã – estes são os cristãos fracos. Os cristãos verdadeiros deveriam ler os escritos de Ellen G. White. Eles deveriam ler os livros da série O Grande Conflito! Eles poderão tornar-se grandes pregadores. Eles se tornarão pessoas espiritualmente fortes, pilares na igreja e quando Jesus voltar, com prazer dirão: "Nós esperamos por Ele!" Nossa vontade deve ser posta ao lado de Deus. Não devemos viver de acordo com nossos próprios desejos. Devemos viver de acordo com a vontade de Deus. O Espírito Santo não fará aquilo que devemos fazer. Nós precisamos cooperar com o Espírito Santo. Isto é santificação. A irmã White até usa uma ilustração um pouco chocante: Ela diz que nós estamos numa embarcação que tem dois remos. Diz que para continuarmos esta viagem precisamos puxar os dois remos. Se nós usarmos um remo só, andaremos em círculo.

E para balançar bem nós não devemos ter apenas fé, mas também obras. Das obras

Deus requer a nossa vontade, a nossa ação. Porém, ela não quer dizer obras separadas da fé, ou fé separada das obras. Toda ilustração tem os seus defeitos. Esta ilustração é útil somente para aqueles que são capazes de entender, como nós entendemos nesta

manhã: Não fé aqui e obras ali, porém numa organização orgânica: fé que opera. Aí é que nós entramos, porque nós temos que nos apegar às promessas.

Justificação, Santificação, Glorificação

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Quando somos tentados não devemos olhar para dentro de nós. Mas devemos olhar para Jesus. O Seu sangue, a Sua vitória, deve ser nossa vitória. Então a tentação é vencida. Experimentemos isso, realmente resulta em grandes bênçãos.

GLORIFICAÇÃO

O cristão não somente vive na ditosa certeza de sua redenção no presente, mas também na esperança de sua redenção final ou glorificação. A esperança bíblica não é como a do mundo, onde as pessoas esperam o melhor quando a situação só tende a piorar. Tal esperança mundana é meramente um pensamento anelante ou a expectativa de algo melhor. Mas a esperança da Bíblia é inabalável porque se baseia nas seguras promessas de Deus. A esperança cristã é a âncora segura e firme da alma que penetrou no santuário celestial aonde Jesus entrou como nosso precursor (Heb. 6:19 e 20).

Cristo assegurou-nos pessoalmente: S. João 14:1-3: "Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em Mim. Na casa de Meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, Eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E quando Eu for, e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para Mim mesmo, para que onde Eu estou estejais vós também."

Esta é a esperança de nossa glorificação. Os melhores dias para nós acham-se precisamente à nossa frente.

Heb. 10:35 e 36"Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galardão. Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa."

Assim, a mensagem da justiça pela fé em Cristo tem definidas dimensões escatológicas. Mais que qualquer outro, o apóstolo Paulo escreveu sobre a tensão interna no coração do cristão, entre a justiça pela fé e a justiça pela esperança, entre a salvação no presente e a salvação no futuro. E essas duas dimensões não devem ser confundidas uma com a outra, pois a distinção entre elas constitui a salvaguarda apostólica contra o perfeccionismo, isto é, contra a idéia de que nossa justiça ou perfeição tem de ser sentida em nosso coração já mesmo agora. Em duas de suas cartas, Paulo estabeleceu distinções entre a redenção que já possuímos e a redenção que ainda não possuímos.

Gál. 5:5 – "Porque nós, pelo Espírito, aguardamos a esperança da justiça que provém da fé."

Justificação, Santificação, Glorificação

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Romanos 8:22-24 – "Sabemos que toda a criação a um só tempo geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. Porque na esperança fomos salvos. Ora, a esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera?"

Aí nos é declarado que há uma justiça que ainda tem de ser aguardada pelos cristãos, uma adoção de filhos que ainda teremos de receber no futuro, uma redenção que ainda não pode pertencer-nos. O grande filósofo judeu, , não estava, portanto, completamente errado ao afirmar: "Vivemos num mundo não resgatado!" Como, então, os cristãos interpretam tudo isso? Em que sentido o cristão é redimido, e em que sentido ainda não o é? E por que existe semelhante distinção fundamental? Estas perguntas só podem ser devidamente respondidas se considerarmos a teologia de Paulo sobre as "duas épocas", baseada no ensino de Jesus acerca da vinda do reino de Deus em ditas etapas.

O Ensino de Jesus Sobre o Reino Presente e Futuro

Ele introduziu o conceito de que em Sua própria presença o reino de Deus e sua justiça chegara no meio de Israel e estava triunfando sobre o pecado e Satanás; mas ensinou também que a completa consumação do reino de Deus só ocorreria no fim dos séculos. O ensino de Jesus de que o reino de Deus chegara no primeiro advento de Cristo encontra-se em S. Mateus 12:28 e S. Lucas 17:21, entre outras passagens:

(S. Mateus 12:28): "Se, porém, Eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus,

certamente é chegado o reino de Deus sobre vós."

(S. Lucas 17:21): "Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está

dentro de vós." (A Bíblia de Jerusalém: "Pois o Reino de Deus está no meio de vós.") (Revised Standard Version: "The Kingdom of God is among you.")

Que Jesus também admitia a vinda dramática do reino de Deus no futuro, por

ocasião do segundo advento de Cristo, é evidenciado pelas passagens que seguem:

S. Mateus 6:10 – "Venha o Teu reino, faça-se a Tua vontade, assim na Terra

como no Céu." Mat. 13:39 e 40 – "A ceifa é a consumação do século, e os ceifeiros são os anjos. Pois, assim como o joio é colhido e lançado ao fogo, assim será na consumação do século."

S. Mateus 25:31, 34 e 41 – "Quando vier o Filho do homem na Sua majestade e

Então dirá o Rei aos

todos os anjos com Ele, então Se assentará no trono da Sua

que estiverem à Sua direita: Vinde, benditos de Meu Pai! Entrai na posse do reino que vos

Então, o Rei dirá também aos que

está preparado desde a fundação do

estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de Mim, malditos , para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos."

Justificação, Santificação, Glorificação

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S. Luc. 20:34-36 – "Então, lhes acrescentou Jesus: Os filhos deste mundo casam- se e dão-se em casamento; mas os que são havidos por dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos não casam, nem se dão em casamento. Pois não podem mais morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição."

Aprendemos aí que a "era vindoura" começa realmente com a ressurreição dos justos. O ensino de Cristo acerca da vinda do reino de Deus em duas etapas, ocasionando duas épocas ou eras do reinado de Deus, está firmemente arraigado nas profecias do Velho Testamento a respeito dos dois adventos do Messias: primeiro Sua vinda em humildade, e depois Sua vinda em glória. No tempo de Jesus, o judaísmo cria na doutrina de duas eras diferentes (Efésios

deles

pecaminoso, antes do Juízo Final; e o outro isento de pecado, após o Juízo de Deus. Jesus introduziu, porém, a nova idéia para os judeus de que o Messias viria antes do

Juízo Final, produzindo assim uma nova modalidade de tempo – o período que decorreria entre os dois adventos do Messias. A nova modalidade desse período intermediário é que ele participa ao mesmo tempo de duas épocas. A época antiga prossegue, mas os poderes da era vindoura do reinado de Deus têm irrompido na época antiga por meio de Cristo. Na própria Pessoa de Cristo e especialmente no Pentecostes, os poderes vitoriosos da era irromperam na época presente com manifestações impressionantes. Dizemos que foi a "Chuva Temporã" do Espírito Santo, que é o Espírito de Cristo. Em Hebreus 6:5, Paulo escreveu que os cristãos provam agora "a boa Palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro". (Comparar com Efésios 1:21, e 22.) Esta sobreposição das duas épocas no tempo que decorre entre as duas vindas de

Cristo tem profundas inferências para a luta individual do cristão consigo mesmo, visto que ele pertence agora ao mesmo tempo à era antiga e à nova era. É por isso que

o verdadeiro cristão tem duas naturezas opostas em sua vida interior. E ele participa

dessa tensão, desse dualismo, com sofrimento e angústia. Alguns ficam desalentados e abandonam a luta porque não compreendem o motivo de terem ainda de pugnar tão

intensamente consigo mesmos. Eles negam a realidade da nova era em seu coração. Outros pendem para o outro lado, procurando antecipar muito cedo a perfeição e

o repouso da glória de Deus em seu íntimo. Também não podem aceitar a necessidade dessa tensão interna. Querem negar a realidade dos impulsos pecaminosos em seu coração e em sua carne. Não podemos, porém, esquivar-nos à dramática presença de nossas tendências pecaminosas, nem negar a paz e o poder de Cristo em nosso coração. Ellen G. White nos dá os seguintes conselhos a esse respeito:

"O ensino dado com relação ao que é denominado 'carne santa' é um erro. Todos podem obter agora corações puros, mas não é correto pretender nesta vida possuir carne santa. O apóstolo Paulo declara: 'Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum'. Rom. 7:18. Aos que têm procurado tão afanosamente obter pela fé a chamada

1:21),

mas

somente

como

dois

períodos

completamente

diferentes:

um

Justificação, Santificação, Glorificação

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carne santa, quero dizer: 'Não a podeis obter. Nem uma alma dentre vós tem agora carne santa'. Ser humano algum na Terra tem carne santa. É uma impossibilidade. "E se bem que não possamos pretender perfeição da carne, podemos possuir perfeição cristã da alma. Mediante o sacrifício feito em nosso favor, os pecados podem ser perfeitamente perdoados. Nossa confiança não está no que o homem pode fazer; sim, naquilo que Deus pode fazer pelo homem por meio de Cristo. Quando nos entregamos inteiramente a Deus, e cremos plenamente, o sangue de Cristo purifica de todo pecado. A consciência pode ser libertada da condenação. Pela fé em Seu sangue, todos podem ser aperfeiçoados em Cristo Jesus. Graças a Deus por não estarmos lidando com impossibilidades. Podemos pretender santificação." Mensagens Escolhidas, livro 2, p.

32.

"Não podemos dizer: 'Sou isento de pecado', enquanto este ignóbil corpo não for transformado e moldado à semelhança do corpo de Sua glória." Signs of the Times, 23

de março de 1888. Irmãos e irmãs, não deixemos de batalhar contra nós mesmos, contra o mundo e contra Satanás! Todos os cristãos têm de passar pela experiência de Gálatas 5 e Romanos 7. Disse, porém, o apóstolo Paulo: "Para mim tenho por certo que os

sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória por vir a ser revelada

em nós." Romanos 8:18. Deus não nos prometeu uma navegação suave; e, sim, uma chegada segura! Não procuremos estar cientes de nossa própria justiça, como estamos cientes do pecado. Nossa justiça é pela fé, não pelo sentimento; pela esperança, e não pela vista. Avancemos confiando nas promessas de Deus.

"Podemos fruir o favor de Deus. Não devemos estar ansiosos acerca do que Cristo e Deus pensam de nós, mas do que Deus pensa de Cristo, nosso Substituto. Vós sois

aceitos no Amado." Mensagens Escolhidas, livro 2, pp. 32 e 33.

Teologia de Paulo a Respeito da Glória

Em virtude de sua fé em Cristo, o crente pode viver a vida da nova era. Estar "em Cristo" é uma expressão inventada pelo apóstolo Paulo para denotar o contrário de estar "em Adão". Para ele, isso significa ser transportado para o reino da graça de Cristo (Col. 1:13), mediante o poder recriador desse reino: "Se alguém está em Cristo, é

nova criatura: as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas." II Cor. 5:17.

Em virtude da morte do Salvador, o crente em Cristo é absolvido d e toda a culpa e é resgatado deste mundo mau em que vivemos (Gál. 1:4).Ele é transferido do domínio do pecado e de Satanás para o reino de Cristo (Col. 1:13). A cruz de Cristo ocasionou a derrota de todos os poderes do mal. O crente redimido, ainda vive, porém, num mundo não resgatado e num corpo mortal, na antiga era. Por um lado, ele experimenta já mesmo agora os poderes da era vindoura, a libertação do domínio do pecado (Rom. 8:1 e 2). Mas também está pesarosamente cônscio de sua própria natureza pecaminosa e de sua debilidade, e de um mundo em escravidão, decadência e iniquidade ao seu redor (Romanos 8:20-23).

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A vida do crente é, portanto, uma experiência ambígua. Ele vive numa tensão de

experimentada e antecipada escatologia, entre o cumprimento parcial e a completa consumação do divino reino de justiça. Essa tensão é expressa na seguinte aplicação dupla da mesma terminologia de Paulo:

Redenção

Efés. 1:7; Col. 1:14; Rom. 3:24; apolutrosis (redenção) é salvação no presente, o perdão dos pecados mediante o sangue de Cristo. Em Efés. 4:30; 1:14 e Romanos 8:23, a palavra "redenção" é, porém, usada

para designar a futura salvação na Segunda Vinda de Cristo.

Adoção

Romanos 8:15 e Gálatas 4:5 conferem a haiothesia (adoção como filhos) o sentido de uma experiência de salvação no tempo presente, pela qual clamamos a Deus: "Aba, Pai". Em Romanos 8:23, essa mesma palavra é usada com referência ao futuro. O homem é inseparável de seu corpo. A alma e o corpo se acham tão misteriosamente entrelaçados que cada um deles influi sobre o outro, também na vida do cristão. Mas jamais o santo coração do crente influirá de tal maneira sobre os impulsos naturais e as tendências egoístas do corpo que ele obtenha carne santa, tornando assim supérflua a futura redenção do corpo.

É neste sentido que as declarações de Paulo exercem uma influência equilibrante

e defensiva sobre o entusiasmo unilateral pela presente redenção e pela progressiva santificação por meio do Espírito Santo. Para Paulo, a vitória sobre o poder do pecado (que é o que ele quer dizer com a expressão a "lei do pecado" em Romanos 7 e 8) na conduta do cristão não é completamente idêntica à extinção da presença do pecado nos "corruptos canais da

humanidade" (I ME, 344).

Em Romanos 8:2, Paulo não declara que o Espírito de Cristo o livrou do pecado e da morte, isto teria sido irreal na experiência cristã. Ele diz, porém, o seguinte: "A lei do Espírito me livrou da lei do pecado e da morte". Os exegetas afirmam que "lei" tem aí o significado de "poder" ou "domínio". O apóstolo assevera, portanto, que o dominante poder do pecado no homem natural é vencido pelo poder preponderante do santo Espírito de Cristo. Isto é redenção presente, franqueando a todos os crentes o desenvolvimento de um perfeito caráter cristão à semelhança divina. No entanto, é necessária a redenção futura, por ocasião do Segundo Advento de Cristo, para libertar o crente da própria existência de seu "corpo do pecado" (Rom. 6:6) mediante a transformação ou a ressurreição desse corpo. Paulo indica a realidade desse dualismo c dessa luta na vida do cristão em três passagens elucidativas: Romanos 8, II Coríntios 5 e I Coríntios 15.

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Em Romanos 8 ele o faz declarando que a participação na "lei do Espírito da vida

em Cristo Jesus" (V. 2) significa ter "as primícias do Espírito" (V. 23, aparche). Esse

vocábulo – aparche – não nega a autêntica presença e atividade da plenitude do Espírito no coração do crente. Apenas revela a necessária dimensão apocalíptica para o toque final do Espírito Santo na futura redenção do corpo.

A presente atuação do Espírito, mortificando os "feitos do corpo" (Rom. 8:13)

por meio de nossa ativa cooperação no Senhor, constitui apenas a promessa e garantia da redenção final e total do corpo.

O apóstolo reitera essa mesma verdade em II Coríntios 5:1-5, onde ele deduz

no verso 5: "Foi o próprio Deus quem nos preparou para isto, outorgando-nos o penhor [arrabon] do Espírito." Ele chama a presente atuação do Espírito Santo no

coração dos crentes de "pagamento inicial" (arrabon), que garante a futura transformação deste corpo mortal numa habitação imortal.

Esse corpo imortal será semelhante ao corpo de Cristo ressuscitado (Filip. 3:21) – um corpo glorioso.

O atual corpo dos crentes redimidos não é próprio para a vida da Era Vindoura,

pois é perecível, desonroso e débil. O novo corpo a ser conferido quando soar a última trombeta será imperecível, glorioso e forte (I Cor. 15:42 e 43). O contraste entre o corpo do cristão no presente e seu corpo no futuro é sintetizado por Paulo nas palavras psychikon versus pneumatikon (V. 41). Como cristãos, ainda temos um corpo psychikon – isto é, um corpo "natural" ou "físico" que só é adequado para esta vida.

O corpo ressuscitado será adaptado à vida do pneuma de Deus, estando livre de

toda tendência ou impulso egoísta. Esse corpo finalmente possuirá "carne santa", achando-se plenamente isento de pecado e constituindo uma obra-prima do Espírito Santo.

Paulo conclui sua exposição em I Coríntios 15 com a enfática declaração de que

"num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta" (V. 52), a

morte e o pecado serão tragados pela vitória (Vs. 54-56) quando o corpo natural do cristão se transformar num corpo espiritual (V. 44). Ele explica a sua declaração

culminante no Verso 56: "O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei."

A carne e o sangue do cristão "não podem herdar o reino de Deus" (V. 50). Ele

ainda não possui substância celestial e ainda não traz a imagem do "Homem do céu" (V. 49, Bíblia na Linguagem de Hoje), mesmo que tenha a plenitude do Espírito Santo em seu coração, pois ainda contém o aguilhão morte – o pecado!

Esse "pecado" não pode ser alguma imperfeição do caráter ou algum acariciado hábito pecaminoso. Paulo deve ter tido em mente a intrínseca constituição pecaminosa dos seres humanos, que nascem em pecado desde o ventre materno. O ponto focal nesse trecho é o incitante poder da morte.

A perfeição do caráter cristão, a vitória total sobre todo hábito escravizante ou

paixão natural, jamais poderá obliterar a raiz da estimulação pecaminosa. Isto compete

exclusivamente à futura redenção predita pelo apóstolo Paulo.

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Verso