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OS MOVIMENTOS ARGUMENTATIVOS: REFUTAÇÃO

Refutar consiste em negar a pertinência do ponto de vista do adversário. Há três formas principais de refutação que podem ser utilizadas:

1. negar uma relação de causa e consequência;

2. negar a verdade do julgamento feito acerca de um fato, um objeto, um evento uma pessoa;

3. pôr em evidência as contradições presentes na análise do adversário.

1. Refutar negando a relação de causa e consequência

Leia o parágrafo a seguir:

Os governantes, em um grande número de países, estão preocupados com os altos níveis de desemprego. É por essa razão que eles aplicam uma série de medidas de estímulo ao emprego, como a diminuição de encargos sociais das empresas. Assim, quando o desemprego começa a diminuir, é normal que os governantes fiquem satisfeitos com sua política de apoio à criação de novos postos de trabalho.

O parágrafo acima expressa a seguinte análise dos fatos:

X

Política de estímulo ao emprego do governo

acarreta

X Política de estímulo ao emprego do governo acarreta está na origem de Y Diminuição do

está na origem de

Y

Diminuição do desemprego

1. A oposição à política governamental pode refutar essa análise da seguinte forma:

Retomada

da

posição

do

O governo quer nos fazer acreditar que a diminuição do desemprego observada nos últimos três meses deve-se às medidas por ele adotadas para tratar desse tema.

adversário

 

O governo gostaria de nos fazer acreditar que a diminuição dos encargos sociais é a causa principal da elevação do número de postos de trabalho.

Primeira refutação

Ora, observa-se essa mesma diminuição nos países vizinhos que não adotaram a mesma política de nosso governo.

A

política não tem efeito

(comparação com os outros

países)

Conclusão

Na verdade, é a retomada econômica a única responsável pela diminuição do desemprego.

Ou então:

Segunda refutação

O governo está enganado. Mesmo que ele tivesse tomado outras medidas, o desemprego seria de qualquer forma diminuído, graças à retomada econômica, como aconteceu em outros países.

O governo se engana. Ainda que ele não tivesse adotado qualquer medida, os índices de desemprego seriam diminuídos.

Qualquer que seja a política adotada, o desemprego diminuirá graças à retomada econômica.

A operação de refutação fundamenta-se sobre a seguinte relação:

acarreta

Não X

A operação de refutação fundamenta-se sobre a seguinte relação: acarreta Não X Y Diminuição do desemprego

Y

Diminuição do desemprego

está na origem de

1. Você pode, sobre o mesmo tipo de relação, adotar a seguinte formulação:

Retomada

da

posição

do

O governo quer nos fazer acreditar que a diminuição do desemprego observada nos últimos três meses deve-se às medidas por ele adotadas para tratar desse tema.

O governo gostaria de nos fazer acreditar que a diminuição dos encargos sociais é a causa principal da elevação do número de postos de trabalho.

adversário

Refutação

 

Não haveria diminuição do desemprego se não tivesse acontecido a retomada econômica

Na verdade, nenhuma diminuição dos índices de desemprego teria sido observada se não acontecesse a retomada econômica.

Conclusão

A explicação segundo a qual a política governamental provocou a diminuição do desemprego não tem sustentação.

4. A oposição pode refutar o ponto de vista do governo ainda de outra forma:

Retomada

da

posição

do

O governo quer nos fazer acreditar que a diminuição do desemprego observada nos últimos três meses deve-se às medidas por ele adotadas para tratar desse tema.

O governo gostaria de nos fazer acreditar que a diminuição dos encargos sociais é a causa principal da elevação do número de postos de trabalho.

adversário

Refutação

 

Ora, essas mesmas medidas, tomadas em outros países, não produziram qualquer efeito / não resultaram numa diminuição do desemprego.

As

mesmas

medidas

tomadas

em

outros

países

 

não

surtiram

o

efeito

esperado.

 

Conclusão

 

Não se pode, pois, considerar as medidas tomadas pelo governo como causa da diminuição do desemprego. Na realidade, o reaquecimento da economia é o responsável pelo aumento do número de postos de trabalho.

Neste último caso, a operação de refutação fundamenta-se sobre a seguinte relação:

X

Política de estímulo ao emprego do governo

acarreta está na origem de

estímulo ao emprego do governo acarreta está na origem de Não Y Exercícios sobre a refutação

Não Y

Exercícios sobre a refutação baseada em negação de relação de causa-consequência no final da apostila.

2. Refutar negando a verdade de um julgamento sobre um fato, um objeto, um evento, uma pessoa

Leia o texto abaixo, uma carta de um leitor refutando a argumentação exposta por um jornalista em um artigo:

Aposentadoria justa

Venho discordar do artigo do jornalista Fernando Rodrigues 'Uma saída para a Previdência' (Opinião, 22/5). Em seu artigo, ele endossa a tese de muitos tecnocratas que, dentro da lei do menor esforço, buscam tapar o falso rombo da Previdência com a redução do valor da aposentadoria e o aumento do tempo da contribuição. O Sr. Fernando Rodrigues foi infeliz em chamar de 'mamata' a aposentadoria integral. Ele não sabe que para ser dela beneficiário o funcionário público paga a devida contribuição? Se for para estabelecer um teto, vai o Estado devolver, com juros e correção, o que foi pago pelo contribuinte? A solução definitiva da Previdência está em acabar com as verdadeiras mamatas as aposentadorias milionárias, as aposentadorias prematuras e cumulativas que incluem aquelas por tempo de exercício de cargo eletivo. A solução está, também, em cobrar a dívida para com a Previdência de milhares de empresas e em acabar a corrupção que a imprensa tem divulgado. Outra coisa a fazer é aumentar o número de contribuintes o que o aumento do desemprego e a explosão das atividades informais têm impedido. Ilson Guimarães Carvalho (Salvador, BA) Painel do Leitor, Folha de S. Paulo, 24/05/00.

informais têm impedido. Ilson Guimarães Carvalho (Salvador, BA) – Painel do Leitor, Folha de S. Paulo
informais têm impedido. Ilson Guimarães Carvalho (Salvador, BA) – Painel do Leitor, Folha de S. Paulo

No texto acima, a refutação fica evidenciada já na frase de abertura. A negação da verdade do julgamento feito pelo jornalista Fernando Rodrigues pode ser percebida, por exemplo, pelo uso dos adjetivos “falso” (segunda frase) e “infeliz” (terceira frase). Fernando Rodrigues entende que a aposentadoria integral do funcionalismo público é uma “mamata”. O leitor Ilson Carvalho refuta esse julgamento apresentando, entre outros argumentos, (1) o fato de que o funcionário paga para receber a aposentadoria integral e (2) a idéia de que são verdadeiras “mamatas” as aposentadorias milionárias, prematuras e “cumulativas que incluem aquelas por tempo de exercício de cargo eletivo”.

Nesse caso, a refutação aconteceu de duas formas: primeiro apresentou-se uma informação que demonstra não ter a aposentadoria integral as características que permitiriam classificá-la como “mamata”; depois apresentaram-se exemplos do que

poderia ser, no entendimento do leitor Ilson de Carvalho, chamado adequadamente de “mamata”.

Leia agora um trecho da carta do linguista Carlos Alberto Faraco dirigida ao deputado federal Aldo Rebelo a propósito do projeto de lei que objetiva restringir o uso de estrangeirismos no Brasil:

Não há nenhum indício de „descaracterização‟ da língua (seja lá o que isso signifique); as transformações que estão ocorrendo no português em nada diferem qualitativamente das transformações ocorridas em outros momentos de sua longa história. Portanto, ao contrário do que afirma sua justificativa, todos os fenômenos detectados de mudança do português contemporâneo se ajustam perfeitamente aos processos de evolução das línguas, conforme amplamente demonstrado pela linguística histórica.

O deputado entende que nossa língua está sendo descaracterizada. Essa idéia é refutada por Faraco, que afirma não haver indício de descaracterização. Na verdade, o linguista questiona até mesmo o conceito de “descaracterização”. Para invalidar a interpretação do deputado, Faraco faz uma comparação com fatos do passado, reinterpretando como “transformação” aquilo que é qualificado negativamente como “descaracterização”. Portanto, não é o fato que é negado, mas sim o juízo que foi emitido a seu respeito.

3. Refutar evidenciando as contradições presentes na análise do adversário

Um meio bastante eficaz para refutar o ponto de vista do outro é destacar quando isso é possível, obviamente a existência de uma contradição no seu posicionamento. A contradição envolve uma ruptura da lógica do raciocínio,

acontecendo quando alguém diz ou deseja (explícita ou implicitamente) alguma coisa e seu contrário.

Por exemplo, um candidato a prefeito de uma cidade qualquer poderia, fazer as seguintes promessas em um debate:

“Eu entendo que também é responsabilidade da administração municipal cuidar da segurança pública. O prefeito não pode se omitir dessa responsabilidade. É preciso criar uma guarda municipal que proteja os honestos cidadãos do nosso município.

Quanto aos impostos municipais, reafirmo a posição de nosso partido:

somos absolutamente contra aumento dos tributos. “Nossa população já paga impostos elevados e não pode ser submetida a sacrifícios ainda maiores do que aqueles que tem suportado.”

Seu adversário, candidato à reeleição, poderia apontar para a inviabilidade das propostas do candidato oposicionista demonstrando a contradição que há na defesa simultânea dessas duas idéias. O candidato situacionista poderia mostrar que a criação de uma guarda municipal exigiria muitos recursos, os quais precisariam ser obtidos com aumento de impostos. Embora essa refutação pudesse ser contestada (o candidato oposicionista poderia afirmar que reduziria gastos desnecessários e, com essa economia, financiaria a guarda municipal), o certo é que ela seria um exemplo da terceira forma de refutação: aquela em que se evidencia a contradição no discurso do oponente.

No texto a seguir, um leitor critica a ação da polícia contra professores e funcionários públicos mostrando haver contradição entre (a) a justificativa para essa ação e (b) a conduta da polícia um mês após quando os torcedores do São Paulo comemoraram um título.

Argumentos inválidos

No dia 18 de maio, professores e funcionários públicos foram submetidos

a uma brutal violência policial com bombas de gás lacrimogêneo, cavalos,

cachorros e balas de borracha. Toda essa truculência foi 'justificada' pelo fato de os manifestantes terem interditado uma das 'principais vias de acesso a hospitais de São Paulo', a avenida Paulista, e por 'impedirem o direito de ir e vir das outras pessoas'. Para minha surpresa, anteontem, 18 de junho, torcedores do São Paulo interditaram, com a ajuda da polícia, as duas pistas da mesma Paulista. Nada contra os são-paulinos, mas por que eles podem e os professores, não? Será que em dia de jogo de futebol ninguém fica doente e precisa se locomover até um dos hospitais da região? Ou em finais de campeonato está suspenso o 'direito de

ir e vir' tão defendido um mês antes?

José Cássio Másculo (São Paulo, SP) Painel do Leitor Folha de S. Paulo,

20/06/2000

Eis algumas expressões que podem sinalizar uma contradição: “é contraditório que”, “não há lógica em”, “é ilógico”, “é incoerente”.

Referências

CASTRO, Maria Fausta. Aprendendo a argumentar: um momento na construção da linguagem. Campinas: Unicamp, 1996.

VIGNER, Gérard. Écrire pour convaincre. Paris: Hachette Livre, 1996.