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POR UM NOVO CONCEITO DE SA⁄DE 1

Christophe Dejours

Parece-nos bastante ambicioso querer colocar face a face pesquisadores cientÌficos e trabalhadores; È como uma aposta. Sensibiliza-nos a pergunta feita por Jean Hodeboug 2 :

ìquem È especialista em matÈria de sa˙de, de condiÁıes de trabalho, de organizaÁ„o do trabalho?î.

Pessoalmente, sempre defendemos o ponto de vista

segundo o qual a contribuiÁ„o dos cientistas, embora necess·ria, È relativamente limitada. Primeiro, deve ela ser inspirada pelos prÛprios trabalhadores; segundo, dirÌamos que

a direÁ„o a ser dada a essa contribuiÁ„o deve tambÈm ser

controlada pelos trabalhadores. Inclui-se aÌ tudo o que concerne ao trabalho, ‡s condiÁıes do trabalho e ‡ organizaÁ„o do trabalho.

Como vamos falar sobre o que È sa˙de, veremos que

o ponto de vista acima tambÈm se impıe quando se trata de definir sa˙de. Por quÍ?

Tentaremos desenvolver a idÈia de que a sa˙de das pessoas È um assunto ligado ‡ prÛprias pessoas. Essa idÈia È primordial e fundamental: n„o se pode substituir os atores da sa˙de por elementos exteriores. … isso que tentaremos demonstrar.

Trata-se, portanto, de definir o que È a sa˙de e como se pode compreendÍ-la. Poder-se-ia pensar que essa È uma quest„o banal, sobre a qual todo mundo tem uma idÈia. Sim, È banal, mas talvez existam coisas sobre as quais, atualmente, haja interesse em discutir, levando-se em conta dados novos que apareceram durante esses ˙ltimos anos. A definiÁ„o internacional diz que a sa˙de seria esse estado de conforto, de

GostarÌamos de tecer uma

bem-estar fÌsico, mental e social crÌtica a essa definiÁ„o.

Em nosso entender, h· duas razıes para esta crÌtica: a primeira È que esse estado de bem-estar e de conforto, se nos aprofundarmos um pouco mais, È impossÌvel de definir.

GostarÌamos que nos dessem uma definiÁ„o desse perfeito estado de bem-estar. N„o sabemos o que È e cremos que n„o haja esclarecimentos consider·veis sobre a quest„o. … muito vaga. ImplÌcita e intuitivamente, sabe-se que isso significa alguma coisa, mas quando se trata de defini-la, n„o È muito simples.

crÌtica a fazer È que, no fundo, esse

perfeito e completo estado de bem-estar

Pode parecer um pouco provocador, mas veremos que isso conduzir· a certo n˙mero de interrogaÁıes e, talvez, a modificaÁıes na compreens„o do assunto.

E a segunda

n„o existe!

1 Palestra proferida na FederaÁ„o dos Trabalhadores da Metalurgia, da ConfederaÁ„o Geral dos Trabalhadores (CGT) e publicada no Brasil pela Revista Brasileira de Sa˙de Ocupacional, 14 (54), 1986.

2 Dirigente da FederaÁ„o dos Trabalhadores Metal˙rgicos ñ CGT, da FranÁa.

Indo mais longe ainda, dirÌamos que esse estado de bem estar È qualquer coisa sobre a qual temos uma idÈia. Em ˙ltima inst‚ncia, poderÌamos considerar como sendo um estado ideal, que n„o È concretamente atingido, podendo ser simplesmente uma ficÁ„o, o seja, uma ilus„o, alguma coisa que n„o se sabe muito bem no que consiste, mas sobre a qual se tem esperanÁas.

TenderÌamos a dizer que a sa˙de È antes de tudo um fim, um objetivo a ser atingido. N„o se trata de um estado de bem-estar, mas de um estado do qual procuramos nos aproximar; n„o È o que parece indicar a definiÁ„o internacional, como se o estado de bem-estar social, psÌquico fosse um estado est·vel, que, uma vez atingido, pudesse ser mantido. Cremos que isso È uma ilus„o e que simplesmente È preciso, e j· È muito, fixar-se o objetivo de se chegar a esse estado. Vejamos como, e o que isso quer dizer.

AtÈ agora, tratamos apenas de criticar essa noÁ„o de sa˙de, tal qual ela È definida pelas organizaÁıes internacionais. O que perguntamos agora È se, no perÌodo recente, puderam ser acumuladas experiÍncias ou novos conhecimentos que teriam por natureza modificar essa definiÁ„o de sa˙de, ou fazÍ-la progredir. Respondemos que sim. Enumeraremos, e depois explicaremos, trÍs elementos a serem considerados.

ñ experiÍncias que se devem levar em consideraÁ„o est„o relacionadas com o que se chama de fisiologia, isto È, a an·lise do funcionamento do organismo, as regras que asseguram seu equilÌbrio e sua sobrevivÍncia.

ñ O segundo ponto È a psicossom·tica. Mais adiante, voltaremos ao assunto, que È muito importante.

ñ A nosso ver, h· ainda um terceiro elemento que

pode mudar a concepÁ„o de sa˙de, que È a psicopatologia do trabalho.

Tentaremos agora detalhar um pouco mais esses trÍs elementos:

ñ A fisiologia nos ensinou certos n˙meros de coisas,

algumas j· antigas, mas que, talvez, n„o tenham sido suficientemente compreendidas ou suficientemente utilizadas. Ensinou que o organismo n„o se encontra num estado est·vel; o organismo n„o p·ra de se mexer, est· o tempo todo em mudanÁa. ¿s vezes sente vontade de dormir, ‡s vezes de ter atividade; isso muda v·rias vezes, no mesmo dia ou na mesma semana.

Considerando-se o crescimento, por exemplo, veremos que o fato de crescer tambÈm n„o È nada est·vel. Ent„o, o que È essa estabilidade da sa˙de? Estamos em pleno movimento, durante longos anos, em seguida, envelhecemos e continuamos em movimento.

Outro exemplo: A concentraÁ„o de aÁ˙car no sangue, que muda o tempo todo, subindo quando se come, o que È normal, para em seguida, baixar. Em outras palavras, chega-se ‡ idÈia de que o organismo se encontra em constante movimento. O estado de sa˙de n„o È certamente um estado de calma, de ausÍncia de movimento, de conforto, de bem-estar e de ociosidade. … algo que muda constantemente e È muito importante que se compreenda esse ponto. Cremos que isso muda por completo o modo como vamos tentar definir sa˙de e trabalhar para melhor·-la.

primeiros elementos ou as primeiras

Os

Isso significa que, se quisermos trabalhar pela sa˙de deveremos deixar livres os movimentos do corpo, n„o os fixando de modo rÌgido ou estabelecido de uma vez por todas.

Colocando-nos em territÛrios que s„o um pouco vizinhos, e que se podem aproximar mais ou menos da

fisiologia, poderemos ver o que se passa a nÌvel psÌquico. Sem querer entrar em definiÁıes, vejamos a ang˙stia, por exemplo:

a ang˙stia È penosa, È uma causa de sofrimento; pois bem, a

sa˙de n„o consiste absolutamente em n„o se ter ang˙stias ñ eis aÌ uma coisa que as pessoas n„o compreendem e que, em nosso entender, n„o È absolutamente clara para os mÈdicos hoje em dia. N„o se trata de fazer desaparecer a ang˙stia. Ali·s, nunca chegarÌamos a isso. Quem n„o È angustiado? Compreende-se que esse È um problema absurdo, pois todo mundo È angustiado. H· porÈm pessoas que, embora angustiadas, encontram-se em boa sa˙de. Conseq¸entemente, n„o se trata de acabar com a ang˙stia, mas de tornar possÌvel a luta contra ela, de tal modo que se a resolva, que se a acalme momentaneamente, para ir em direÁ„o a outra ang˙stia. N„o È quest„o de aprision·-la de uma vez por todas, pois n„o existem situaÁıes assim.

Sempre no campo das coisas irregulares, das coisas que mudam, pode-se falar tambÈm sobre o trabalho. Nos ˙ltimos anos, mostrou-se, embora os trabalhadores h· muito tempo o soubessem, que quando uma tarefa È regular, fixa, imut·vel, repetitiva È muito perigosa, causando, ou podendo causar, muito mal. O trabalho em linhas de montagem È um exemplo tÌpico de coisas que est„o bloqueadas e iguais durante todo o tempo, idÍnticas o tempo todo. Pois bem, cremos que se pode mostrar que, mais uma vez, È a variedade, a variaÁ„o, as mudanÁas no trabalho que s„o as mais favor·veis ‡ sa˙de. Cremos que a primeira aquisiÁ„o desse ponto de vista que vem da fisiologia conduz a que se conceba toda a vida como movimentos, bem como a que se assegure, antes de tudo, a liberdade desses movimentos. Esse È o primeiro ponto.

O segundo ponto, que traz novos conhecimentos e novas experiÍncias, È a psicossom·tica. O que È a psicossom·tica? Trata-se de algo bem recente, que se desenvolveu h· mais ou menos vinte anos.

Psicossom·tica È as relaÁıes que existem entre o que se passa na cabeÁa das pessoas e o funcionamento de seus corpos. Sabe-se que entre um e outro h· relaÁıes que se estabelecem em permanÍncia. Pode-se mostrar, e isso foi mostrado h· uns vinte anos, que, quando temos uma doenÁa, esta tem momentos de evoluÁ„o, de crises, que n„o acontecem

a qualquer momento na vida. Elas ocorrem justamente em

momentos precisos, quando se passa alguma coisa no plano psÌquico, no plano mental, no plano afetivo. Foi necess·rio muito tempo para que se chegasse a estas relaÁıes que agora comeÁam a ser conhecidas. Existem doenÁas que s„o desencadeadas por uma situaÁ„o afetiva difÌcil, por uma espÈcie de impacto psÌquico.

PorÈm, o que È verdade para certo n˙mero de doenÁas n„o È verdade para todas. Particularmente, h· dois tipos de doenÁa que, pode-se dizer, jamais est„o em relaÁ„o com a vida psÌquica, e que s„o, de um lado, as intoxicaÁıes, sejam elas profissionais, ou mesmo as causadas pelo ·lcool ou por medicamentos e, de outro lado, as doenÁas parasit·rias. As intoxicaÁıes ultrapassam todas as possibilidades de defesa do organismo; quando atacam o organismo, desde que certo nÌvel seja atingido, ultrapassam todas as possibilidades de defesa. AÌ n„o h· elementos psÌquicos que contem e, se contam, È muito pouco. O segundo tipo de doenÁa que n„o se enquadra aÌ s„o

as chamadas doenÁas parasit·rias, isto È, doenÁas que se contraem essencialmente em paÌses tropicais, como a £sia e a £frica, e quase nunca em paÌses de clima temperado, como a FranÁa.

Arriscando-nos a chocar vocÍs um pouco, dirÌamos que em quase todas as outras doenÁas encontram-se relaÁıes muito curiosas entre o que se passa na cabeÁa das pessoas e a evoluÁ„o de sua doenÁa fÌsica.

Ainda neste domÌnio, digamos da psicossom·tica, da psiquiatria etc. e, para voltar ‡ quest„o da definiÁ„o de um estado de bem-estar, de um estado de conforto, perguntamos:

o que È a sa˙de mental?

N„o È apenas muito difÌcil de precisar. Indo mais longe, acho que È muito perigoso fazÍ-lo. Creio ser perigoso definir o que È o normal e o que n„o È, do ponto de vista mental.

Tomemos como exemplo o alcoolismo. O alcoolismo È sempre normal? … incÙmodo responder, pois h· pessoas que consomem grandes quantidades de ·lcool e que v„o muito bem, tendo vidas longas. Queremos dizer que se pode viver muito tempo absorvendo quantidades importantes de ·lcool. Observamos muitos casos assim, de pessoas que suportam ·lcool sem nenhuma doenÁa, sem cirrose, sem anomalia

, ·lcool ingeridas poderiam ter matado o vizinho h· vinte anos.

Pode-se dizer o mesmo tambÈm em relaÁ„o ‡ ang˙stia. Nesse caso, ser· que o normal seria controlar tudo, de modo a que jamais houvesse ang˙stias? Estamos convencidos do contr·rio!

Cada pessoa tem sua histÛria, seu passado, suas experiÍncias, sua famÌlia. No fundo, toda sua experiÍncia consiste em estabelecer uma espÈcie de compromisso entre o passado e o presente para tentar escolher o futuro.

PoderÌamos, por exemplo, dizer que o fato de se militar em sindicatos provoca ang˙stias. … verdade, provoca ang˙stias, conflitos, fadiga, contradiÁıes. No fundo, poder-se- ia dizer ñ e aÌ penso que serei muito bem compreendido ñ que os militantes, em certa medida, escolhem atacar justamente essa ang˙stia, essas contradiÁıes. Quando se vÍ um militante angustiado por problemas de lutas, problemas polÌticos, de relaÁ„o de forÁa, seria a soluÁ„o dizer-lhe que È necess·rio parar de militar? Compreende-se que isso È o contr·rio da definiÁ„o do estado de sa˙de mental. Ali·s, se se dissesse a todos que militam e que est„o angustiados porque militam para pararem de militar, n„o estamos certos de que eles se sentiriam melhor; provavelmente, alguns se sentiriam muito pior. A dificuldade est· aÌ. Cremos que o raciocÌnio feito no caso do militante È v·lido para muitas outras profissıes. Queremos dizer que h· muitas outras atividades, muitas outras profissıes ñ como a dos artistas, por exemplo ñ nas quais as pessoas est„o melhor quando se confrontam com esse tipo de ang˙stia e quando tentam resolvÍ-las graÁas ‡ sua atividade, do que quando se colocam ao abrigo de tudo isso.

A idÈia diretora È que os homens procuram

transformar-se e que n„o È verdade que buscam acabar com a ang˙stia. Em certa medida, È todo um processo, toda uma histÛria, sendo necess·rio evitar fazer julgamentos definitivos sobre o que È normal e o que n„o o È.

Na melhor das hipÛteses, podemos conceber a vida

das pessoas como uma sucess„o de etapas e de compromissos

mental, sem nada

enquanto as mesmas quantidades de

entre sua histÛria passada e seu ambiente, para tentar transform·-lo. Pode-se ver aÌ que a ang˙stia tem seu papel a desempenhar.

Portanto, ainda no que diz respeito a questıes psÌquicas, questıes mentais, poder-se-ia dizer que n„o h· um estado de bem-estar e de conforto, mas h·, mais uma vez, fins, objetivos, desejos, esperanÁas. Em nossa linguagem chamamos a isso ìdesejoî.

A sa˙de mental n„o È certamente o bem-estar

psÌquico. A sa˙de È quando ter esperanÁa È permitido. VÍ-se que isso faz mudar um pouco as coisas. O que faz as pessoas viverem È, antes de tudo, seu desejo; isso È uma aquisiÁ„o da

psiquiatria e da psicossom·tica. O verdadeiro perido existe quando n„o h· mais desejo, quando ele n„o È mais possÌvel. Ent„o, tudo se torna muito incÙmodo e È aÌ que as pessoas v„o muito mal. Quando o desejo n„o È mais possÌvel, quando n„o

h· mais desejo, temos o que se chama ìuma depress„oî. … a

perda da fome, perda da ìtens„oî, do entusiasmo, do desejo:

ìa depress„oî. A psicossom·tica nos mostra que quando estamos diante de uma situaÁ„o assim, em que n„o h· mais desejo, encontramo-nos diante de uma situaÁ„o perigosa n„o somente para a cabeÁa (depress„o, tristeza), como tambÈm para o corpo; quando nos vemos diante de um estado assim dur·vel, em que n„o h· mais desejo, o corpo pode adoecer mais facilmente.

Chegamos agora ao terceiro ponto, que trata das aquisiÁıes desses ˙ltimos anos, e que chamamos de psicopatologia do trabalho. Creio que a psicopatologia do trabalho chegou a esse resultado novo (e isso provavelmente

provocar· risos, mas, enfim, È novo para os cientistas e sabe-

se que muitas vezes eles demoram para compreender ou

integrar certas coisas) de que o trabalho È um elemento fundamental para a sa˙de.

Se o trabalho pode ser perigoso, se pode ser causa de

sofrimento, È preciso tambÈm compreender que o n„o-trabalho È igualmente perigoso. Penso que os exemplos desses ˙ltimos anos, particularmente o desemprego, mostraram a que ponto o fato de n„o trabalhar, de n„o se ter atividades, pode engendrar doenÁas. H· levantamentos feitos sobre isso e certos fatos sobre as doenÁas do desemprego comeÁam a ser conhecidos.

O fato de n„o trabalhar pode desencadear uma porÁ„o

de doenÁas. Apressamo-nos a dizer que h· uma espÈcie de

discurso completamente falacioso, que consiste em pensar que quando as pessoas lutam contra certos aspectos perigosos, nocivos ao trabalho, de fato, elas sÛ tÍm uma idÈia: a de querer

n„o fazer nada. O ideal dos oper·rios, e talvez n„o somente dos oper·rios, mas de muita gente (muitos cientistas pensam assim e muita gente tambÈm), seria n„o ter nada para fazer, uma espÈcie de ideologia da ociosidade, uma ideologia de se ìviver de rendasî. Pois bem, isso È fundamentalmente falso.

A psicopatologia do trabalho mostra que isso n„o È

verdadeiro. O objetivo das pessoas n„o È o de n„o fazer nada

e, geralmente, para um psiquiatra, quando as pessoas n„o

fazem nada e podem manter-se num estado de inatividade total, È sinal de que est„o muito doentes. Tomemos o exemplo das crianÁas. Quando crianÁas s„o deixadas livres para fazerem o que quiserem, sua escolha n„o consiste em ficar

inativas durante todo o dia. Quando se deixa uma crianÁa livre, dispondo de meios materiais, ela se pıe em atividade. No inÌcio s„o jogos, depois s„o as construÁıes e a crianÁa comeÁa

a fabricar um universo. Ent„o, a problem·tica n„o È

certamente perguntar se se trata de trabalho ou n„o-trabalho.

A problem·tica È ìqual o trabalho?î.

Nesse projeto, de avanÁar sobre as questıes de relaÁıes entre sa˙de e trabalho, foi feito um certo n˙mero de pesquisas, as quais tentaram, particularmente, estudar as relaÁıes que se estabelecem entre, de um lado, ìo equilÌbrio

psÌquico das pessoas, o equilÌbrio psÌquico dos trabalhadoresî

e, de outro lado, ìo prÛprio trabalhoî.

N„o entraremos em detalhes, pois isso seria muito longo. O que se pode dizer È que o que importa no trabalho em relaÁ„o ao funcionamento psÌquico, em relaÁ„o ‡ vida mental, n„o È qualquer coisa, mas a organizaÁ„o do trabalho.

Temos uma tendÍncia em distinguir condiÁıes de trabalho e organizaÁ„o do trabalho, o que È bem pr·tico. CondiÁıes do trabalho s„o o que chamamos de condiÁıes fÌsicas, quÌmicas e biolÛgicas presentes no ambiente de trabalho.

As condiÁıes fÌsicas s„o a temperatura, a press„o, as vibraÁıes, as radiaÁıes etc. As condiÁıes quÌmicas s„o os vapores, as poeiras, os tÛxicos etc. As biolÛgicas s„o o ambiente dos micrÛbios, ou seja, o ambiente dos vÌrus, bactÈrias, essas coisas de que certamente todos j· ouvimos falar. Essas condiÁıes do trabalho atacam o homem, o trabalhador, no que diz respeito ao seu corpo.

H· uma relaÁ„o, um conflito, uma contradiÁ„o que

opıe as condiÁıes do trabalho ao corpo do homem. Pois bem, ao lado de condiÁıes de trabalho, distingue-se o que chamamos de organizaÁ„o do trabalho. O que vem a ser organizaÁ„o do trabalho? Grosso modo, duas coisas: a divis„o de tarefas e a divis„o dos homens.

A divis„o das tarefas (como se dividem as tarefas), que vai atÈ o conte˙do das tarefas, ao modo operatÛrio, a tudo

o que È prescrito pelo organizador do trabalho. A divis„o das

tarefas È vista na coletividade oper·ria, ou, eventualmente, na atividade dos empregados de escritÛrio, onde tambÈm È feita; isso È feito em todos os lugares.

Sabemos que, quando se prescreve a um oper·rio o uso de tal modo operatÛrio ou que faÁa tal gesto para apertar um parafuso ou para ajustar uma dobradiÁa ou para fazer uma solda, È necess·rio respeitar esse modo operatÛrio. Quando se dividem as tarefas ou quando se quer que as pessoas respeitem efetivamente o que foi decidido, È preciso que haja uma hierarquia, um controle, um comando.

O segundo elemento em que se desdobra a

organizaÁ„o do trabalho È, pois, a divis„o dos homens, ou seja, em uma empresa as pessoas s„o divididas pela organizaÁ„o do trabalho e as relaÁıes entre uns e outros s„o

reguladas e organizadas no nÌvel desse conjunto que se chama de organizaÁ„o do trabalho.

Assim, a organizaÁ„o do trabalho atinge dois pontos:

o conte˙do das tarefas e as relaÁıes humanas. Pois bem,

isso n„o ataca diretamente o corpo, mas a cabeÁa das pessoas que trabalham; ataca o que chamamos de ìfuncionamento mentalî. O estudo sobre a organizaÁ„o do trabalho acerca dessa contradiÁ„o, que coloca, de um lado, a organizaÁ„o do trabalho e, de outro, o funcionamento mental, mostra que h· organizaÁıes do trabalho que s„o muito perigosas para o funcionamento mental e outras que n„o o s„o, ou que s„o menos perigosas. Particularmente, as organizaÁıes do trabalho perigosas s„o as que atacam o funcionamento mental, ou seja,

o desejo do trabalhador. Quando se ataca o desejo do

trabalhador, e h· organizaÁıes que s„o terrÌveis porque atingem diretamente isso, provocam-se n„o somente

perturbaÁıes, mas tambÈm sofrimentos e, eventualmente, doenÁas mentais e fÌsicas.

Por outro lado, h· estudos que mostram tambÈm que

h· organizaÁıes do trabalho que levam a tarefas cujo conte˙do

È justamente um meio de equilÌbrio. Essa situaÁ„o È favor·vel

‡ sa˙de das pessoas. H· trabalhadores que se sentem melhor depois de um trabalho do que antes dele! Nesse caso pode-se dizer que a organizaÁ„o do trabalho n„o reprime o funcionamento mental. Pelo contr·rio, ela oferece um campo de aÁ„o, um terreno privilegiado para que o trabalhador concretize suas aspiraÁıes suas idÈias, seus desejos.

Em geral, isso È possÌvel quando o trabalho È livremente escolhido e quando sua organizaÁ„o È bastante flexÌvel para que o trabalhador possa adapt·-la a seus desejos, ‡s necessidades de seu corpo e ‡s variaÁıes de seu estado de espÌrito. …, portanto, fundamental ressaltar que o trabalho n„o È forÁosamente nocivo para a sa˙de. Ele pode ser toler·vel; pode mesmo ser francamente favor·vel ‡ sa˙de fÌsica e mental. AcrescentarÌamos algumas poucas palavras para dar explicaÁıes precisas sobre a sa˙de, para tentar propor outra definiÁ„o; È um pouco ambicioso, mas pode-se tentar, em todo

o caso, coloc·-la em discuss„o. Ela n„o ser· certamente definitiva, mas deve ser retomada e trabalhada. Faremos, portanto, quatro observaÁıes:

ñ A primeira È a de que a sa˙de n„o È algo que vem

do exterior, e aÌ voltamos ao que disse o Sr. Hodebourg, h· alguns minutos, a propÛsito de condiÁıes de trabalho, e que diremos tambÈm a propÛsito de sa˙de: a sa˙de n„o È assunto dos outros, n„o È assunto de uma inst‚ncia, de uma instituiÁ„o, n„o sendo tambÈm um assunto do Estado ou do mÈdicos. … uma quest„o que n„o vem do exterior.

ñ Ao inverso disso, e È esta a segunda observaÁ„o, a

sa˙de È uma coisa que se ganha, que se enfrenta e de que se depende. … algo onde o papel de cada indivÌduo, de cada

pessoa È fundamental. Isso n„o aparece nessa definiÁ„o, e È necess·rio que este papel motor de cada homem na sua sa˙de apareÁa em alguma parte.

ñ A terceira observaÁ„o È um resumo de tudo o que

foi dito. A sa˙de n„o È um estado de estabilidade, n„o È um estado, n„o È est·vel. A sa˙de È alguma coisa que muda o

tempo todo.

ñ A quarta observaÁ„o È que a sa˙de È antes de tudo

uma sucess„o de compromissos com a realidade; s„o compromissos que se assumem com a realidade, e que se

mudam, se reconquistam, se redefendem, que se perdem e que

se ganham. Isso È a sa˙de!

E o que È, ent„o, essa realidade? Nela podemos ver trÍs facetas.

1. A realidade do ambiente material. … a primeira

realidade com a qual È necess·rio fazer-se compromissos, sendo, portanto, a realidade sobre a qual falamos anteriormente: a realidade fÌsica, quÌmica e biolÛgica. H· compromissos a serem assumidos entre o organismo e tudo isso.

2. A realidade afetiva, relacional, familiar etc., toda a

vida mental, psÌquica e as relaÁıes.

3. A realidade social. Nessa realidade destacamos um lugar particularmente privilegiado ‡ organizaÁ„o do trabalho.

Se tentarmos, ent„o, agora, uma definiÁ„o, buscando

salvar o que sugere a antiga definiÁ„o de sa˙de, dirÌamos que a

sa˙de para cada homem, mulher ou crianÁa È ter meios de traÁar um caminho pessoal e original, em direÁ„o ao bem- estar fÌsico, psÌquico e social.

A

sa˙de, portanto, È possuir esses meios.

O

que significa possuir esses meios e o que È esse

bem-estar?

Creio que para o bem-estar fÌsico È preciso a liberdade de regular as variaÁıes que aparecem no estado do organismo; temos o direito de ter um corpo que tem vontade de dormir, temos o direito de ter um corpo que est· cansado (o que n„o È forÁosamente anormal) e que tem vontade de repousar.

A sa˙de È a liberdade de dar a esse corpo a

possibilidade de repousar, È a liberdade de lhe dar de comer quando ele tem fome, de fazÍ-lo dormir quando ele tem sono, de fornecer-lhe aÁ˙car quando baixa a glicemia. …, portanto, a

liberdade de adaptaÁ„o. N„o È anormal estar cansado, estar com sono. N„o È, talvez, anormal ter uma gripe, e aÌ vÍ-se que isso vai longe. Pode ser atÈ que seja normal ter algumas doenÁas. O que n„o È normal È n„o poder cuidar dessa doenÁa, n„o poder ir para a cama, deixar-se levar pela doenÁa, deixar que as coisas sejam feitas por outro durante algum tempo, parar de trabalhar durante a gripe e depois voltar.

Bem-estar psÌquico, em nosso entender, È, simplesmente, a liberdade que È deixada ao desejo de cada um na organizaÁ„o de sua vida.

E por bem-estar social, cremos que aÌ tambÈm se

deve entender a liberdade, È a liberdade de se agir individual e

coletivamente sobre a organizaÁ„o do trabalho, ou seja, sobre o conte˙do do trabalho, a divis„o das tarefas, a divis„o dos homens e as relaÁıes que mantÍm entre si.

Eis aqui, em resumo, o que queria dizer para vocÍs.