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De náufrago na «Terra dos Fumos» a cativo na Inglaterra. O mar e o sertão
De náufrago na «Terra dos Fumos» a cativo na Inglaterra. O mar e o sertão

De náufrago na «Terra dos Fumos» a cativo na Inglaterra. O mar e o sertão no percurso de Nuno Velho Pereira

From castaway in the ‘Land of the Pfumos’ to captive in England.The sea and the hinterland in the life and career of Nuno Velho Pereira

ANUÁRIO 2011

Centro de Estudos de História do Atlântico ISSN: 1647-3949, Funchal, Madeira (2011)

pp. 800-798

Atlântico ISSN: 1647-3949, Funchal, Madeira (2011) pp. 800-798 Vítor Rodrigues IICT, Lisboa Manuel Lobato IICT, Lisboa

Vítor Rodrigues

IICT, Lisboa

Manuel Lobato

IICT, Lisboa

Notas curriculares

Notas curriculares Vitor Luís Gaspar Rodrigues – Presidente do Conselho Científico do Instituto de Investigação
Notas curriculares Vitor Luís Gaspar Rodrigues – Presidente do Conselho Científico do Instituto de Investigação
Notas curriculares Vitor Luís Gaspar Rodrigues – Presidente do Conselho Científico do Instituto de Investigação

Vitor Luís Gaspar Rodrigues – Presidente do Conselho Científico do Instituto de Investigação Científica Tropical; Director do Centro de His- tória do IICT; Investigador Auxiliar com Agregação do IICT; autor dos livros A Geografia Eleitoral dos Açores de 1856 a 1884, contributo para o seu estudo, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1986; Portugal y Oriente: El proyecto Indiano del Rei Juan, em co-autoria com João Paulo Oliveira e Costa, Madrid, Ed. Mapfre, 1992; A Batalha dos Alcaides – 1514. No apogeu da presença portuguesa em Marrocos, em co-autoria com João Paulo Oliveira e Costa, Lisboa, Tribuna, 2007; Conquista de Goa, 1510-1512. Campanhas de Afonso de Albuquerque, vol. I, em co- -autoria com João Paulo Oliveira e Costa, Lisboa, Tribuna, 2008; O Esta- do da Índia e os Desafios Europeus. Actas do XII Seminário Internacional de História Indo-Portuguesa, em co-autoria com João Paulo Oliveira e Costa (coord.), Lisboa, Centro de História de Além-Mar, FCSH/UNL/ UAçores e Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portu- guesa/UCP, 2010.

Manuel Leão Marques Lobato - Nascido em 1956 em Lisboa, licen- ciado em História (1980), mestre em «História dos Descobrimentos e Expansão Portuguesa» (1993). Assistente de Investigação (1993-2004) no IICT (Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa). Actual- mente Investigador Auxiliar do IICT, posição adquirida em 2004 com a tese de Comércio, Conflito e Religião. Portugueses e espanhóis nas ilhas Molucas (1512-1618). Vice-coordenador do Centro de História do IICT a partir de 2008 e coordenador (2008-2010) do Conselho Científico do IICT.

Docente no mestrado em Estudos Orientais do Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e na graduação em Estudos Asiáticos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL).

Duas bolsas de estudo pela Fundação Oriente (1991-1994 e 2001-2004). Quatro livros e mais de 35 trabalhos sobre a história da presença por- tuguesa em Moçambique e na Costa Oriental africana, na Índia e no arquipélago malaio-indonésio.

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Resumo Nuno Velho Pereira desempenhou durante duas longas estadias no Oriente as funções de cabo
Resumo Nuno Velho Pereira desempenhou durante duas longas estadias no Oriente as funções de cabo
Resumo Nuno Velho Pereira desempenhou durante duas longas estadias no Oriente as funções de cabo

Resumo

Nuno Velho Pereira desempenhou durante duas longas estadias no Oriente as funções de cabo de guerra e de comandante de navios em paralelo com a de fidalgo mercador, tendo a sua vida aventurosa ficado marcada por episódios extraordinários que a cronística e a literatura de viagens registaram.

Oriundo, tal como a generalidade dos chamados capitães da Índia, de uma linhagem secundária, possuía, no entanto uma estreita ligação à Casa do infante D. Luís, o que, aliado às suas qualidades militares e de chefia, lhe permitiu ascender socialmente a um patamar que a sua con- dição de secundogénito não fazia prever.

Ao contrário da maior parte dos capitães da Índia, não só sobreviveu a uma existência extraordinariamente aventurosa, que lhe conferiu a fama e o direito a ser elevado à condição de herói ímpar da história trágico- -marítima, como também conseguiu, não obstante os grandes prejuízos sofridos em naufrágios, transferir para o Reino uma fortuna apreciável que lhe permitiu terminar os seus dias com significativa notoriedade.

Palavras chave: História trágico-marítima; linhagem; fidalguia; nobre- za; costa oriental africana; sub-continente indiano; “Estado da Índia”; literatura de viagens; naufrágios.

Abstract

During two long sojourns in Asia and Africa, Nuno Velho Pereira played the role of soldier, commander of ship and captain of fortresses, along with the activity of a merchant fidalgo. His adventurous life was marked by extraordinary episodes recorded by chroniclers and travelogues. Born in a secondary lineage, like most of the ‘captains of India’, he had, however, a close connection to the house of Prince Louis, which, along with military and leadership qualities, allowed him to climb the social ladder to a level that his social origins as a second son could not predict. Unlike most of his peers, he survived extremely severe military expe- riences and adversities that have earned him fame and status as a unique hero’s in the história trágico-marítima. He also succeeded, despite the heavy losses sustained in wrecks, in transferring to Portugal a consi- derable fortune and he spent his last days in his hometown, Santarém, enjoying a remarkable status.

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A figura sobre a qual agora nos debruçamos representa o paradigma da actuação dos chamados
A figura sobre a qual agora nos debruçamos representa o paradigma da actuação dos chamados
A figura sobre a qual agora nos debruçamos representa o paradigma da actuação dos chamados

A figura sobre a qual agora nos debruçamos representa o paradigma da actuação dos chamados «capitães da Índia». Nuno Velho Pereira, com efeito, desempenhou durante duas longas esta-

dias no Oriente, não só as funções de cabo de guerra e de comandante de navios, mas também a de fidalgo mercador, vindo, já no final da vida, a revelar-se um elemento comprometido com a sua co- munidade, tendo deixado à Santa Casa da Misericórdia de Santarém uma parte significativa da vasta fortuna conseguida na Índia. A sua vida aventurosa, repleta de situações de grande risco, que tiveram lugar nos mais variados cenários, desde as ilhas atlânticas à costa de Ceilão, passando pela costa orien- tal africana e pelo Mar Arábico, ficou por isso marcada por episódios extraordinários que a cronística e a literatura de viagens registaram 1 .

Tratando-se de uma figura de algum relevo social, político-militar e administrativo, a sua acção, relativamente bem documentada, decorre em vários teatros operacionais da Ásia e de África, num período habitualmente considerado de declínio, mas que a nova historiografia tem mostrado tratar-se de uma época de grande dinamismo e até de reorientação para objectivos mais ambiciosos por parte da coroa portuguesa no quadro da monarquia dual.

1. O homem e a carreira

Nuno Velho Pereira era filho segundo de Baltazar Velho e de D. Inácia Pereira, ambos com raízes familiares em Santarém 2 e que, em virtude da estreita relação que mantinham desde há muito com

1 Navfragio / Da Nao Santo Alberto, / e Itenerario da gente, que delle se salvou. / Por João Baptista Lavanha / Cosmografo Mòr de Sua Magestade / Dedicado / Ao Principe Dom Philippe Nosso Senhor. / Em Lisboa, Em Caza de Alexandre de Siqueyra. / Anno de 1597. Com o título de «Relação do Naufrágio […]», na História Trágico-Marítima, compilada por Bernardo Gomes de Brito com outras noticias de naufrágios, vol. V, Bibliotheca de Classicos portuguezes, (XLIV), Lisboa, 1905, pp. 5-87. Ed. bilingue português-inglês: «Naufragio da Nao Santo Alberto No Penedo das Fontes no anno de 1593. Compiled in 1597, from the manuscript journal kept by the pilot, by Joao Baptista Lavanha, chief cosmographer to the king»,

em G. M. Theal, Records of South-Eastern Africa collected in various libraries and archive departments in Europe, vol. II, Cidade do Cabo, 1964, pp. 225-346. Digo do Couto, Década Undécima, Lisboa, 1788, Caps. XXII a XXVI, pp. 97-135, e Capts. XXVIII a XXXI, pp. 140-164. «Regimento que se fez por ordem do Snõr Vizorrej Matias d’Albuquerque tirado do Roteiro da viagem que fez por terra da Cafraria a gente da nao Santo Alberto governada por Nuno Uelho Pereira», Biblioteca da Ajuda, 52-VIII-58, fls. 117-120v, publicado por Maria Emília Madeira H. Santos, «O Carácter Experimental da Carreira da India: Um Plano de João Pereira Dantas, com fortificação da África do Sul (1556)», Coimbra, separata da Revista da Universidade de Coimbra, 1969 (reimp. Agrupamento de Estudos de História e Cartografia Antiga, «Série Separatas», 1969, n.º 29), pp. 48-53. Sobre o naufrágio da nau Chagas: Tratado Das Batalhas, e Sucessos do galeam Santiago Com os Olandezes na Ilha de Santa Elena, E da Nao Chagas

com os Inglezes entre as Ilhas dos Açores [

2 O Nobiliário de Felgueiras Gayo é o único que o apresenta como primogénito. Cf. Manuel José da Costa Felgueiras Gayo, Nobiliário de Famílias de Portugal, Braga, Ed. Agostinho de Azevedo Meireles e Domingos de Araújo Afonso, 1940. Todavia, a sua condição de secundogénito parece estar muito mais de acordo com o percurso de vida dos dois irmãos, tendo Nuno Velho partido para a Índia, ao contrário do irmão Gaspar que serviu em Tânger e que viria a morrer em Alcácer-Quibir, onde serviu ao lado de D. Sebastião. Cf. Nobiliário, por Diogo Gomes de Figueiredo, t. VI, p. 103. Cf. também Zeferino Sarmento, «Um santareno no Oriente: Nuno Velho Pereira. Notas biográficas», Actas do Congresso Internacional de História dos Descobrimentos, vol. V, pt. I, Lisboa, 1960, pp. 263-275.

].

Escrito por Melchior Estacio do Amaral. Na Officina de Antonio Alvares. No Anno de 1604.

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a casa do Infante D. Luís (1506-1555), integravam a nobreza da corte. Com efeito, não
a casa do Infante D. Luís (1506-1555), integravam a nobreza da corte. Com efeito, não
a casa do Infante D. Luís (1506-1555), integravam a nobreza da corte. Com efeito, não

a casa do Infante D. Luís (1506-1555), integravam a nobreza da corte. Com efeito, não só o seu avô

materno, Lopo Gomes Pereira, servira como amo do príncipe, mas também a sua mãe fora colaça da- quele, acabando mais tarde o seu pai, Baltazar Velho, por ali desempenhar as funções de escrivão da

fazenda. Sabemos, por outro lado, que quer o nosso fidalgo, quer o seu irmão, Gaspar Velho Pereira, eram, à data da morte de D. Luís, moços fidalgos da sua casa 3 .

Nuno Velho era ainda parente, por via do casamento da sua meia-irmã (D. Filipa Pessanha era

filha do primeiro casamento de seu pai com D. Inácia Pessanha), de uma outra figura grada da Corte, Manuel Coresma Barreto, que foi valido de D. Sebastião e seu Vedor da Fazenda, o qual acompanhou

o monarca a Marrocos, aí morrendo. Desse casamento nasceu D. Bárbara Coresma, que viria a casar

com D. Rodrigo Lobo, 5.º Barão do Alvito, com quem aquele parece ter tido uma relação muito pró- xima, deixando-lhes a maior parte da sua vasta fortuna.

O nosso fidalgo terá passado à Índia por volta de 1560, altura em que teria cerca de 20 anos (as-

sentamos esta suposição no facto de sabermos que em 1555 surge referenciado como moço fidalgo da casa de D. Luís, o que nos permite situar a sua data de nascimento por volta de 1540). Os anos seguin- tes foram passados a fazer o seu tirocínio militar nas diferentes armadas que cruzavam o Índico, ou nas fortalezas durante as invernadas, não havendo, naturalmente, qualquer referência à sua pessoa na cronística em virtude da sua ainda reduzida importância social e militar.

A primeira referência que encontramos a seu respeito no Oriente surge pela pena de Couto e re-

fere que em 1565 era já capitão de um navio da armada de Gonçalo Pereira Marramaque, que procedia

à guarda das cáfilas portuguesas a operar ao longo da costa ocidental indiana 4 . Dois anos mais tarde,

integrava como capitão de uma fusta a grande armada enviada para o norte pelo vice-rei D. Antão de Noronha 5 . De acordo com as informações veiculadas por António Pinto Pereira, o nosso capitão terá então comandado uma pequena esquadra de 10 fustas que se lhe haviam juntado em Damão, onde in-

vernara, e de onde saíra com ordens expressas do governador para, durante o verão de 1568, controlar

a navegação e a costa do golfo de Cambaia. Estava-lhe cometida ainda a tarefa de socorrer as «praças

do norte» no caso de um ataque das forças do Nizam ul-Mulk, sultão de Ahmadnagar 6 . Em Outubro desse ano, capitaneou uma pequena força de 40 arcabuzeiros, gente de cavalo e de pé, no ataque à for- taleza do monte Parnel, próxima de Damão e que se encontrava em poder dos mogores, a qual viria a destruir após dois ataques extraordinariamente mortíferos, em que ficou patente a sua temeridade e valentia, bem como a sua extraordinária capacidade de comando 7 .

Em finais de Outubro de 1570 Nuno Velho Pereira integrou como capitão de um navio a armada de D. Francisco de Mascarenhas, enviada para o Norte pelo vice-rei D. Luís de Ataíde, que, assim, procurava travar os ataques iminentes da coligação muçulmana à generalidade das praças portuguesas não só no sub-continente indiano, mas também na Insulíndia 8 . A 3 de Janeiro de 1571 encontra-se em Chaúl defendendo com os seus homens uma das principais tranqueiras que serviam de escudo à praça. Esta, como é sabido não possuía muralhas, razão pela qual foi necessário escavar cavas e erigir tranqueiras que, em paralelo com algumas habitações transformadas em verdadeiros baluartes, foram utilizadas pelos defensores portugueses para travar os ataques sucessivos das forças de Ahmadnagar,

3 Cf. Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa, publ. por D. António Caetano de Sousa, Tomo IV, Parte II, Coimbra, 1950, p. 512.

4 Cf. Maria Augusta Lima Cruz, Diogo do Couto e a Década VIII da Ásia, cap. IX, vol. I, Lisboa, CNCDP-INCM, 1993, p. 75.

5 Idem, Ibidem, p. 224.

6 Cf. História da India no tempo em que a governou o VisoRei Dom Luís de Ataíde, Lisboa, INCM, 1987, p. 30.

7 Idem, Ibidem, p. 36

8 Luís Filipe Thomaz refere que o Estado da Índia se encontrava ameaçado por um eixo muçulmano que, indo de Constantinopla aos confins da Insulíndia, envolvia os principais reinos muçulmanos pondo seriamente em risco a continuidade da presença portuguesa no Oriente. Cf. Luis Filipe dos Reis Thomaz, «A crise de 1565-1575 na História do Estado da Índia», in Mare Liberum, n.º 9, Lisboa, CNCDP, Julho de 1995, pp. 485-486.

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muito superiores em número 9 . Ao longo dos combates, que se prolongaram por vários
muito superiores em número 9 . Ao longo dos combates, que se prolongaram por vários
muito superiores em número 9 . Ao longo dos combates, que se prolongaram por vários

muito superiores em número 9 .

Ao longo dos combates, que se prolongaram por vários meses, e que se encontram descritos com minúcia por Diogo do Couto e Pinto Pereira, o nosso fidalgo viria a revelar todos os seus dotes mili- tares e guerreiros, não só em termos de destreza física e de bravura (bastante comum na fidalguia da Índia nessa altura e que não raro era responsável por graves insucessos militares), mas também, e so- bretudo, como estratega e condutor de homens, atributos que seriam decisivos mais tarde, por altura dos naufrágios em que se viu envolvido, para evitar males maiores 10 .

Alcançada no campo de batalha a honra e glória que buscava para o seu engrandecimento pes- soal e do nome da sua família, regressou ao Reino, em data que não pudemos precisar. Terá, prova- velmente, embarcado em 1571 na armada de D. Luís de Ataíde que, terminado o seu triénio, deixava o Oriente depois de uma acção governativa extraordinariamente bem sucedida, a qual permitiu ao Estado da Índia sobreviver à mais grave crise político-militar de toda a sua história até à chegada dos Holandeses.

A 5 de Outubro de 1577 encontrava-se em Santarém, onde serviu de testemunha de uma petição de Afonso Vaz Viegas, antigo alcaide-mor de Goa e muito provavelmente seu antigo companheiro de armas 11 . Aprestava-se, no entanto para partir de novo para a Índia, mas agora de posse da capitania de Moçambique, que lhe havia sido doada poucos dias antes, a 27 de Setembro 12 , pelos serviços anterior- mente prestados na Índia. Via-se, assim, detentor de uma das mais desejadas capitanias do Oriente, em virtude dos elevadíssimos cabedais que aquela proporcionava aos seus capitães.

Alguns dias mais tarde, a 16 de Outubro de 1577, Nuno Velho Pereira partiu de novo para o Oriente, integrado na armada do vice-rei D. Luís de Ataíde que o escolheu 13 para capitanear o galeão Trindade, que, tal como os restantes dois navios, se destinava a reforçar as esquadras portuguesas es- tacionadas no Índico 14 .

Após a sua chegada ao Índico terá continuado a servir como capitão nas diferentes armadas que todos os anos eram aparelhadas nas ribeiras de Cochim e Goa, sobretudo aqui, aguardando pela sua vagante dos providos para poder tomar posse da capitania de Moçambique, com que havia sido agraciado. A vagante dos providos era uma forma de a Coroa distribuir um maior número de cargos do que aqueles que estavam disponíveis em cada momento, entrando os nomeados na posse da sua mercê por ordem cronológica da mesma. Podiam, no entanto, ter que esperar longos períodos, pelo que as mercês podiam ser vendidas, doadas, legadas a herdeiros e instituições como qualquer outro bem móvel, embora com certas restrições impostas pela coroa, alcançando mesmo uma cotação no mercado. A de Moçambique, designada por «mercê de Sofala», era das mais valiosas pelo rendimento que proporcionava. Nuno Velho, que dela viria a tomar posse em 1583, foi o último a exercer tal car- go antes do advento da contratação do trato dos Rios de Cuama, arrendado ao próprio capitão, novo sistema que introduziu alterações de vulto na governação, administração e exploração comercial da

9 Sobre a organização militar da praça de Chaúl veja-se Vitor Luís Gaspar Rodrigues, «A Organização Militar da “Província do Norte” durante o século XVI e princípios do século XVII», in Mare Liberum, nº 9, Lisboa, C.N.C.D.P., Julho de 1995, pp. 247-259.

10 A dureza dos combates está bem patente nas elevadas baixas registadas em ambos os exércitos, tendo as capitanias de Nuno Velho e de D. Gonçalo de Menezes sido das mais sacrificadas porque se mantiveram na frente das refregas ao longo de praticamente todo o cerco. Cf. António Pinto Pereira, História da India no tempo em que a governou o VisoRei Dom Luís de Ataíde, já cit., pp. 506-527, 571-581 e 647-669; e Maria Augusta Lima Cruz, Diogo do Couto e a Década VIII da Ásia, cap. IX, vol. I, pp. 32-71.

11 Cf. Índex das notas de vários tabeliães de Lisboa, vol. IV, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1949, p. 360.

12 Cf. Registo da Casa da índia, vol. I, introdução e notas de Luciano Ribeiro, Lisboa, AGU, 1954, pp. 203-204.

13 Ao receber as instruções das mãos do rei, a 15 de Outubro, D. Luís de Ataíde ter-lhe-á pedido para que Nuno Velho Pereira e João Álvares Soares fossem nomeados para o acompanharem, o primeiro pela sua experiência militar e o segundo pela experiência na arrecadação da fazenda real

delrey D. Sebastiaõ, […] Do anno de 1575 até o anno de 1578, t. IV, Lisboa,

(cf. Diogo Barbosa Machado, Memorias para a historia de Portugal, [ 1751, p. 191).

]

14 Cf. Maria Hermínia Maldonado, Relação das Naos e Armadas da India com os successos dellas que se puderam saber, para noticia e instrução dos curiozos, e amantes da Historia da India, Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, 1985.

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costa oriental africana ao sul do cabo Delgado 1 5 . O seu desempenho no
costa oriental africana ao sul do cabo Delgado 1 5 . O seu desempenho no
costa oriental africana ao sul do cabo Delgado 1 5 . O seu desempenho no

costa oriental africana ao sul do cabo Delgado 15 .

O seu desempenho no cargo de capitão da fortaleza de Moçambique, no triénio de 1583 a 1586,

pautou-se por actos dignos de menção. Foi, como o próprio afirma, o primeiro capitão a instalar-se na nova fortaleza de S. Sebastião da Ilha de Moçambique, cujas obras, iniciadas em 1558, foram conclu- ídas em 1583 a expensas próprias e de acordo com os seus conhecimentos da arte de fortificar, dando assim cumprimento à ordem régia nesse sentido 16 . Neste particular sabemos ainda que depois de haver terminado o seu triénio à frente da capitania de Moçambique, procedeu «de bom modo ao repairo e concerto das fortalezas da costa do Malabar», o que, em paralelo com o facto de ser um homem avi- sado e muito conhecedor das coisas do mar da Índia, lhe valeu ser escolhido pelo Governador Matias de Albuquerque, em 1591, para o cargo de capitão-mór da armada do Malabar 17 . Tratava-se, assim, de um homem de muitos saberes e ofícios, aprendidos porventura durante as suas andanças asiáticas e no próprio reino, onde terá interiorizado os princípios básicos dos sistemas abaluartados, surgidos como resposta à revolução da pólvora e aos avanços técnicos registados pela artilharia. O seu percurso como cabo de guerra e o exercício de uma das principais capitanias da Índia, aliados à influência de que gozava em Lisboa, explicam, provavelmente, que o seu nome figure, em 1590, na segunda via de sucessão como governador do Estado em caso de morte do vice-rei Matias de Albuquerque 18 .

A sua passagem pela capitania de Moçambique permitiu-lhe construir rapidamente uma imensa

fortuna, como ele próprio declarou ao viajante holandês, Linschoten, quando este, em 1583, passou pela Ilha de Moçambique a caminho da Índia na companhia do dominicano Vicente da Fonseca, ar- cebispo de Goa, que o tomou ao seu serviço como guarda-livros. Linschoten escreveria, mais tarde, no seu célebre Itinerário 19 :

«digo que só o rendimento do capitão no período de três anos é superior a 300 mil duca- dos, isto é, 900 mil florins de ouro, como, quando aqui estávamos ancorados, o próprio capitão Nuno Velho Pereira nos declarou, e a maior parte em ouro que vem de Sofala e Monomotapa».

Não obstante, sofreu também reveses de monta. Na travessia entre Moçambique e o Cuama, efec- tuada fora da monção propícia, por ser a mesma que podia trazer do Golfo Pérsico armadas turcas so- bre aquela costa, perdeu um navio com fazenda avaliada em 24 mil cruzados. Esta perda elevadíssima levou-o a dizer em carta ao monarca:

«não espero hir desta fortaleza tão riquo como os reis passados, e Vossa Magestade, que me fizerão mercê dela, cuidarão, mas quoando cuido que me ei d’ir aprezentar aos pés de Vossa Magestade creio que me não levantarei deles, sem hir muito restaurado desta perda, e isto ma faz sentir tão pouquo, que me não lembra.» 20 .

15 Manuel Lobato, «Maritime Trade from India to Mozambique. A Study on Indo-Portuguese Enterprise (16 th to 17 th Centuries)», K. S. Mathew (ed.), Ship-building and navigation in the Indian Ocean Region, Ad 1400-1800, Nova Delhi, Munshiram Manoharlal Publishers, 1997, pp. 113-131.

16 Cf. Carta Nuno Velho Pereira ao Rei, de 29 de Outubro de 1585, Moçambique, in Documentos sobre os Portugueses em Moçambique e na África Central, vol. VIII, Lisboa, 1975, pp. 526-528.

17 Cf. Carta do rei ao governador da Índia, 18 de Fevereiro de 1595, in Archivo Portuguez Oriental, org. por Cunha Rivara, fasc.º 3, pte. 2, n.º 162, cap. XIII, Nova Goa, 1861, p. 478.

18 Calendar of State Papers. Colonial Series. East Indies. China and Japan. 1513-1616, Londres, 1862, p. 95.

19 Arie Pos e Rui Loureiro (eds.), Itinerário. Viagem ou Navegação de Jan Huyghen van Linschoten para as Índias Orientais ou Portuguesas, Lisboa, CNCDP, 1997, p. 82.

20 Carta de Nuno Velho Pereira ao rei, Moçambique, 29 de Outubro de 1585, Documentos sobre os Portugueses em Moçambique e na África Central,

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A esta perda acrescem outras posteriores. Ainda em Moçambique e após Nuno Velho ter deixado
A esta perda acrescem outras posteriores. Ainda em Moçambique e após Nuno Velho ter deixado
A esta perda acrescem outras posteriores. Ainda em Moçambique e após Nuno Velho ter deixado

A esta perda acrescem outras posteriores. Ainda em Moçambique e após Nuno Velho ter deixado

o cargo de capitão, o seu sucessor, D. Jorge de Meneses, alferes-mór de Portugal, sequestrou-lhe 80 bares de marfim no valor de 24 mil cruzados, um cofre com 4 mil cruzados em peças e tecidos, e um navio seu com 12 mil miticais de ouro no valor de outros 24 mil cruzados 21 . Ainda assim, estas perdas

não o impediram de, alguns anos mais tarde, financiar o Estado da Índia em 11 000 xerafins 22 . Viria ainda a perder uma boa parte da sua fortuna em especiaria, pedraria e outros objectos de grande valor no naufrágio da nau Santo Alberto na costa do Natal, em 1593, como se dirá adiante.

Em 1584, ocorreu, no sertão da Macuana, o massacre de algumas dezenas de moradores portu- gueses e de um número indeterminado de escravos-soldados. Ficou a dever-se à imprudente iniciativa destes moradores que, contrariando as ordens de Nuno Velho e de Gaspar Quitério de Vasconcelos, castelão de Moçambique durante a ausência do primeiro em Cuama, tentaram repelir a invasão da região fronteira à Ilha de Moçambique por populações aguerridas vindas do interior 23 . As fontes por- tuguesas designam estas migrações por Zimbas, ou Azimbas, e descrevem-nas reproduzindo ingenu- amente os mitos que circulavam entre os próprios africanos. Nestas narrativas mistura-se o caniba- lismo e destruição da natureza, mulheres-guerreiras, selvajaria e crueldade. Nuno Velho remediou a situação perseguindo e destruindo as forças rebeldes do rei Mauruça.

Da sua viagem de reconhecimento aos «Rios de Cuama», que teve por finalidade inteirar-se das realidades das minas de ouro e de prata existentes no vale do Zambeze, resultou uma avaliação no terreno sobre a forma como se deveria proceder para uma mais eficaz exploração das suas riquezas naturais. Assim, transmitiu ao rei o parecer de que as minas deveriam ser conquistadas por uma força de dois mil soldados e 200 cavalos e não exploradas através de comércio pacífico com os africanos, recomendando que tal expedição deveria ter por objectivo central a conquista das minas de prata da Chicova, nas imediações de Tete 24 . Também nisto se revelou um visionário e um hábil estratega, pois, embora esquecidos do seu parecer, foi esta a política que os portugueses acabariam por seguir três décadas depois.

O conhecimento dos sertões e dos africanos viria, mais tarde, por ocasião do naufrágio de que foi

vítima, a revelar-se de grande utilidade, permitindo-lhe salvar uma parte significativa dos seus com- panheiros de infortúnio que, sob o seu comando, foram resgatados após uma longa caminhada que os levou da costa do Natal até às terras de Moçambique.

Como se disse atrás, a sua sucessão na capitania de Moçambique, em finais de 1585, pelo alferes- -mór de Portugal, D. Jorge de Meneses, ficaria marcada, a exemplo do que era usual nestas situações, por violentas confrontações entre os dois homens e respectivas clientelas. A questão nasceu do facto de Nuno Velho ter deixado negócios pendentes e créditos por arrecadar ao terminar o seu mandato em Moçambique, de que D. Jorge, que foi o primeiro contratador do trato de Moçambique e Rios de Cuama (vale do Zambeze), se terá aproveitado, ao abrigo de cláusulas do contrato pelo qual o vice-rei D. Duarte de Meneses lhe arrendou o estanco dos tratos naqueles Rios. A actuação do alferes-mór vio- lava os regimentos régios que impediam as autoridades de interferir com os capitães cessantes até lhes ser tirada sindicância (residência) do seu desempenho e suscitou a reacção de Nuno Velho em queixa

já cit., vol. VIII, p. 532.

21 Copia da petição de Nuno Velho Pereira que foi a Sua Magestade em 7 de Janeiro de 89, ibid., p. 540.

22 À data da realização do seu testamento, 31 de Dezembro de 1601, a Coroa ainda lhe devia 6.000 xerafins. Testamento de Nuno Velho Pereira. Testamentos e Capelas, in Arquivo da Misericórdia de Santarém, cód. 658, apud Zeferino Sarmento, «Um santareno no Oriente: Nuno Velho Pereira. Notas biográficas», já cit., p. 270. Em 1630, o assunto voltava a merecer a atenção do vice-rei da Índia, ao qual o monarca ordenou que pagasse em prestações a dívida em causa a D.ª Madalena de Castro, sobrinha de Nuno Velho. Cf. Carta régia para o vice-rei, Lisboa, 20 de Março de 1632, publicada por Germano Correia na História da colonização portuguesa na Índia,vol. III, Lisboa, 1951, pp. 16-17.

23 Carta de Nuno Velho Pereira ao rei, Moçambique, 29 de Outubro de 1585, Documentos sobre os Portugueses em Moçambique e na África Central, já cit., vol. VIII, p. 530.

24 Id., ibid., pp. 526-528.

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dirigida ao monarca 2 5 . O conflito arrastar-se-ia ao longo dos anos, com ambos
dirigida ao monarca 2 5 . O conflito arrastar-se-ia ao longo dos anos, com ambos
dirigida ao monarca 2 5 . O conflito arrastar-se-ia ao longo dos anos, com ambos

dirigida ao monarca 25 . O conflito arrastar-se-ia ao longo dos anos, com ambos os contendores a apela- rem para a intervenção do monarca e a recorrerem ao Tribunal da Relação de Goa. Este processo, em que ambos se acusavam de defraudar o erário régio, só terminaria por morte de Nuno Velho, apesar do monarca, que procurou manter-se equidistante no conflito e remeteu a solução para as instâncias judiciais, ter procurado também conciliar as partes desavindas 26 .

Em Goa, Nuno Velho Pereira foi um dos fidalgos mais desconsiderados pelo governador Manuel de Sousa Coutinho (1588-1591) 27 , porventura por divergências quanto à condução dos negócios do Estado. Encontrando-se em Cananor, em 1591, foi nomeado capitão-mor da armada do Malabar, por destituição de André Furtado de Mendonça, a quem sucedeu, em virtude da acção deste em Ceilão não ter agradado ao vice-rei Matias de Albuquerque. Nuno Velho, no entanto, recebeu Furtado de Mendonça no mar com toda a pompa e circunstância que se devia a um homem que desempenhara altos cargos no Estado da Índia e que era, à época, considerado já um herói de guerra e um grande general 28 . A descrição desta cerimónia pelos cronistas mostra que não era hábito entre os portugueses concederem-se tais honras a pessoas caídas em desgraça e visa atestar o carácter e as qualidades hu- manas da figura em análise 29 .

2. O modelo de herói na História trágico-marítima

Os anos de 1593 a 1595 haveriam de se revelar os mais conturbados na vida de Nuno Velho Pe- reira. Rico e agraciado com os mais altos cargos a que podia aspirar por condição e mérito próprio, decidiu regressar ao Reino após 16 anos de ausência. A 21 de Janeiro de 1593, partiu de Cochim na nau Santo Alberto, sendo o mais rico e prestigiado fidalgo a bordo. A 23 de Março, devido a rombo, a nau encalhava no Penedo das Fontes, na costa do Natal, em 32º e meio S.

Desde que o rombo se declarou, Nuno Velho ofereceu alvíssaras pela sua reparação, o que se verificou impraticável; em seguida conseguiu desimpedir o convés, oferecendo-se para pagar, com cravo-da-Índia que trazia, as fazendas que se deitassem ao mar. Entupidas as bombas de água com pimenta, foi o primeiro a descer ao porão suspenso por cordas para encher barris e manter o navio a flutuar. Como conhecedor de Moçambique e dos Rios de Cuama, partiu dele a ideia de se recolherem as armas de fogo e demais apetrechos indispensáveis à sobrevivência entre as populações africanas.

O exemplo do seu esforço, risco e empenho, confirmando a reputação que adquirira na Índia e em Moçambique, pesaram na sua eleição como capitão-mor dos náufragos. Foi eleito, no dizer de João Baptista Lavanha, «por sua nobreza, prudência, esforço, e experiência». Inicialmente recusou tal responsabilidade, apontando em seu lugar o capitão da nau, Julião Faria de Cerveira, que havia dado mostras de grandes qualidades de comando. Cedeu, contudo, perante a ameaça dos soldados de que abandonariam os náufragos à sua sorte se não aceitasse.

Doravante, confirma-se como centro da acção e protagonista de uma aventura sem paralelo nos anais da história marítima. O Prof. Boxer, com o rigor a que nos habituou, escreveu:

25 Copia da petição de Nuno Velho Pereira que foi a Sua Magestade em 7 de Janeiro de 89, ibid., p. 540.

26 Cf. Carta do rei para o vice-rei D. Duarte de Meneses, de 21 de Janeiro de 1588, ibid., p. 538; Sumário das cartas régias para o vice-rei D. Duarte de Meneses de 21 de Janeiro e 14 de Março de 1588, 6 de Fevereiro de 1589, e para Matias de Albuquerque, de12 de Janeiro de 1591, Boletim da Filmoteca Ultramarina Portuguesa, n.º 2, 1955, pp. 281, 286, 296 e 307.

27 Carta de fr. Manuel Pinto ao rei, Reis Magos [Bardês], 20 de Novembro de 1589, publ. por Félix Lopes, OFM, «Os Franciscanos no Oriente Português de 1584 a 1590», Stvdia, n.º 9, Jan. 1962, doc. XIII, p. 140.

28 Alfredo Botelho de Sousa, Subsídios para a história militar marítima da Índia, vol. I, Lisboa, 1930, p. 282-283.

29 C. R. Boxer e Frazão de Vasconcelos, André Furtado de Mendonça, Macau, Fundação Oriente - Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1989 [Lisboa, 1955 1 ], pp. 18-19.

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«Even the most hostile critics of Portuguese behaviour have been constrained to admit that Nuno
«Even the most hostile critics of Portuguese behaviour have been constrained to admit that Nuno
«Even the most hostile critics of Portuguese behaviour have been constrained to admit that Nuno

«Even the most hostile critics of Portuguese behaviour have been constrained to admit that Nuno Velho Pereira’s leadership in 1593-4 could not have been surpassed, and the march of the survivors from the Santo Alberto through the hinterland of Natal is generally admitted to have been the outstanding feat of its kind» 30 .

A odisseia dos náufragos da nau Santo Alberto é sobejamente conhecida. Trata-se do texto Na-

vfragio / da nao Santo Alberto, / e Itenerario da gente, que delle se salvou. / por João Baptista Lavanha / Cosmografo Mòr de Sua Magestade / dedicado / ao Principe Dom Philippe Nosso Senhor. / Em Lisboa,

em caza de Alexandre de Siqueyra. / Anno de 1597 31 . Logo de início, Lavanha afirma ter-se limitado a escrever um «breve tratado, resumindo nelle hum largo cartapacio, que desta viagem fez o Piloto da dita Nao; o qual emendey, e verifiquey com a informaçaõ, que depois me deo Nuno Velho Pereyra, Capitaõ mòr que foy dos Portuguezes nesta Jornada». Baseou-se pois num detalhado diário, hoje per- dido, escrito pelo piloto Rodrigo Miguéis.

O texto de Lavanha, não obstante ser um resumo, é muito circunstanciado e mantém a estrutura

do diário em que se baseou. É também mais comedido na atribuição de responsabilidades pelo nau- frágio do que Diogo do Couto, na narrativa incluída na Década Undécima 32 , a qual, por sua vez, é um

resumo do diário de Lavanha e, como ela, mantém, especialmente no início e no final da narrativa, algumas das características do diário, o que não é invulgar na cronística desta época, dispensando depois ao itinerário por terra um tratamento muito sumário.

A narrativa de Lavanha inclui-se nos tópicos maiores da História Trágico-Marítima, o do naufrá-

gio seguido de «peregrinação», na terminologia de Giulia Lanciani 33 para designar o que talvez seja a

maior das demandas: a salvação colectiva, com tudo o que isso pode implicar de dimensão salvífica, escatológica e messiânica, mesmo sem Salvador ou Messias. E aqui, quer-nos parecer que nesta nar- rativa há um outro tópico, descurado talvez pelos estudiosos do género, apesar de estar presente do princípio ao fim a acção: o herói.

Não o herói que meramente pratica actos de bravura e de que a cronística está repleta, pois, de facto, desde que toma o comando, Nuno Velho Pereira não os pratica, nem coloca em risco a própria vida, mas o herói responsável e condutor do seu povo pelos dédalos de um inferno onde, para o su- perar, apenas pode contar com as suas qualidades morais e força de carácter. É esse o leitmotiv desta história: o chefe que toma as melhores decisões em função do bem de todos, que se preocupa com os menores detalhes, que afirma a sua autoridade com brandura e firmeza, que respeita o africano, seu potencial inimigo, o conquista pela deferência e o mantém confinado mediante o efeito psicológico desencadeado pela suposta magia da arma de fogo.

Nuno Velho Pereira convenceu os companheiros a caminharem através do interior em direcção à Baía de Lourenço Marques, em vez de seguirem ao longo da costa, trajecto mais longo e cheio de dificuldades, descrevendo-lhes o que se passara quatro anos antes com os náufragos da nau S. Tomé, cujo relato, escrito pelo sota-piloto, Gaspar Ferreira Reimão, ele lera em Goa. E no discurso que então

30 C. R. Boxer, «An Introduction to the História Trágico-Marítima», Miscelânea de Estudos em honra do Professor Hernani Cidade. Revista da Faculdade de Letras, 3.ª série, n.º 1, Lisboa, 1957, pp. 48-99, reimp. em From Lisbon to Goa, 1500 1750: studies in Portuguese maritime expansion, Hampshire, Collected studies series, Variorum Reprints, 1990, p. 99.

31 Esta narrativa conheceu desde então várias reedições, quer anteriores quer posteriores à sua inclusão na História Trágico-Marítima compilada por Fr. Bernardo de Brito, tendo sido traduzida para inglês como NAUFRAGIO / DA NAO SANTO ALBERTO / No Penedo das Fontes no anno de 1593/Compiled in 1597, from the manuscript journal kept by the pilot, by Joao Baptista Lavanha, chief cosmographer to the king. // ed. bilingue português-inglês, em G. M. Theal, Records of South-Eastern Africa collected in various libraries and archive departments in Europe, vol. II, Cidade do Cabo, 1964, pp. 225-346.

32 Couto, Década Undécima, Lisboa, 1788, caps. XXI a XXIII, pp. 97 e ss.

33 Os relatos de naufrágios na literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII, Lisboa, Instituto de Cultura Portuguesa, Biblioteca Breve, Série Literatura, n.º 41, 1979.

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fez, citou de cor outros relatos de naufrágios ali ocorridos em meados do século. Lourenço
fez, citou de cor outros relatos de naufrágios ali ocorridos em meados do século. Lourenço
fez, citou de cor outros relatos de naufrágios ali ocorridos em meados do século. Lourenço

fez, citou de cor outros relatos de naufrágios ali ocorridos em meados do século. Lourenço Marques, como ele bem sabia, era o ponto mais a sul para onde o capitão de Moçambique, cargo que ocupara, enviava cada dois anos um navio a comerciar marfim.

O nosso herói surge ainda como o protector das damas, especialmente de uma D.ª Isabel Pereira e

de sua filha D.ª Luísa de Melo, donzela muito formosa de 16 anos de idade. D.ª Isabel Pereira era filha de Francisco Pereira, que fora capitão e tanadar-mór de Goa, e viúva de Diogo de Mello Coutinho, que fora capitão de Ceilão. Lavanha diz que Nuno Velho Pereira a «acompanhava e amava», expressão que

Couto mudou em «acompanhava e estimava» 34 , mas destes amores, de um homem que sabemos ter morrido solteiro e sem descendência, nada se sabe.

Já de idade e longa barba, caminhava em passo lento pelo qual se guiava toda coluna convertida

em arraial, com vanguarda, retaguarda, etc. As fidalgas seguiam em andores levados por escravos do mesmo Nuno Velho. Da nau salvou-se uma caixa com peças de ouro e prata que lhe pertenciam. a qual mandou entregar ao tesoureiro do arraial para que o produto da venda fosse distribuído em partes iguais por todos, como viria a ser à chegada a Moçambique, tendo rendido a sua venda 1600 cruzados.

Os sobreviventes da Santo Alberto encontraram na Baía de Lourenço Marques a feitoria portu- guesa instalada na ilha dos Portugueses, então designada por ilha do Inhaca, do nome do rei que os acolheu até embarcarem no navio Nossa Senhora da Salvação, enviado pelo capitão de Moçambique, D. Pedro de Sousa, ao trato de marfim naquela baía e no cabo das Correntes. Era capitaneado por Ma- nuel Malheiro e pilotado por Baptista Martins, piloto que se salvara da perda da nau Santiago naquela costa, em 1585 35 , tendo Martins sido uma das fontes de informação a que recorreu Diogo do Couto para escrever o relato desse naufrágio 36 .

Vinte e oito náufragos, que não couberam no navio, seguiram a pé para Sofala, onde se encon-

trava o dominicano Frei João dos Santos, o qual relata na sua Etiópia Oriental que «polas desordens,

e demasias que tiveram, e usaram com os cafres no caminho, foram mortos polos mesmos cafres, e

muito poucos escaparam, que foram ter a Sofala. Onde se viu claramente a falta que lhes fez Nuno Ve- lho Pereira, o qual com sua prudência, e bom governo os tinha guiado, e sustentado por toda a terra da cafraria, até à ilha do Inhaca, com muita paz, e quietação, sem algum deles perigar, nem ser afrontado de tantas, e tão diversas nações de cafres, que acharam» 37 .

Ao chegarem a Moçambique, os náufragos da Santo Alberto puderam embarcar na nau Cinco Chagas, capitânia da mesma armada de torna-viagem desse ano de 1593, cujo capitão-mór era Fran- cisco de Melo Canaveada ou Canaveado, irmão do Monteiro-mor. Esta nau, «muito grande e formo- sa», construída em Baçaim 38 , arribara a Moçambique juntamente com a N.ª S.ª da Nazaré, capitão Brás

Correia, que neste porto ficou impossibilitada de prosseguir viagem. Por essa razaão, a Chagas recebeu

a sua fazenda e passageiros, bem como os náufragos da Santo Alberto 39 , ainda que alguns tivessem

preferido regressar à Índia a embarcar numa nau tão sobrecarregada e sobrelotada, com 400 pessoas a bordo, das quais 270 eram escravos. Nuno Velho Pereira foi dos que arriscaram a passagem juntamen- te com D.ª Isabel e D.ª Luísa, suas protegidas.

O protagonismo de Nuno Velho Pereira na destruição desta nau pelos ingleses, ao largo dos

Açores, não passou despercebido à generalidade dos autores que se ocuparam da história trágico-

34 Década Undécima, cit., p. 105.

35 Caetano Montez, Descobrimento e fundação de Lourenço Marques. 1500-1800, Lourenço Marques, 1948, pp. 33 e 41.

36 Boxer, «An Introduction to the História Trágico-Marítima», já cit., p. 67.

37 Etiópia Oriental e Cousas de Vária História do Oriente, Lisboa, CNCDP, 1999, cap. XV, p. 578.

38 Em Goa, segundo Couto (Década Undécima, Lisboa, 1788), p. 97.

39 Frei João dos Santos declara «Achámos aqui mais nesta ilha a Nuno Velho Pereira com toda a gente, que se salvou da perdição da nau S. Alberto, e a mais dela se tornou a embarcar nesta nau Chagas pera Portugal» (Etiópia Oriental e Cousas de Vária História do Oriente, já cit., cap. XIV, p. 576).

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-marítima 4 0 . A Chagas partiu de Moçambique em Novembro; dobrado o Cabo da
-marítima 4 0 . A Chagas partiu de Moçambique em Novembro; dobrado o Cabo da
-marítima 4 0 . A Chagas partiu de Moçambique em Novembro; dobrado o Cabo da

-marítima 40 . A Chagas partiu de Moçambique em Novembro; dobrado o Cabo da Boa Esperança, o capitão Canaveado anunciou as instruções do vice-rei Matias de Albuquerque para não escalar a ilha de Santa Helena nem o Brasil, mas Luanda, como fez. Sem água nem mantimentos para alcançar o Reino, decidiu o capitão escalar os Açores e logo todos a bordo se prepararam para o combate quase certo com os corsários ingleses. Estes foram avistados a 22 de Junho de 1594, tratando-se de três naus inglesas do conde de Cumberland, que haviam zarpado de Plymouth no início de Abril, capitaneadas pelo capitão de infantaria Cave.

O combate travou-se à entrada do canal que separa as ilhas do Pico e Faial. Faltando, porém, bombardeiros, mortos de doença, foram substituídos por fidalgos, entre os quais o nosso Nuno Velho. Os defensores repeliram duas tentativas de abordagem, a segunda das quais mediante o expediente de Nuno Velho, que incendiou a vela inglesa mais próxima com uma lança de fogo. Aliás, ele recusara um posto certo a bordo, preferindo ficar livre para acudir onde mais necessário fosse. Ao cabo de muitas horas de combate a nau pegou fogo e os portugueses atiraram-se à água, onde foram todos mortos, excepto 13, uns «por respeito de alguns bisalhos de pedraria, que lhes mostraram», e Nuno Velho e Brás Correia por este ter prometido bom resgate 41 . Finalmente a nau explodiu e afundou-se.

Neste passo, o cronista reproduz uma fala de D.ª Luísa de Melo, a qual foi decerto recolhida do depoimento de Nuno Velho Pereira. Diz Couto:

«Neste lance foi que Dona Luiza de Mello entrou a formar queixas contra a sua fortuna, dizendo: ‘Quanto melhor me fora acabar no naufrágio da náo Santo Alberto, ou ficar en- terrada nas aréas da Cafraria; porque se me fuccedéra qualquer destas cousas, nao me achara agora em tão acerba afflicção. Cruel fortuna, pêra que me lisongeaste com teus favores, se me havias de enganar tão cruelmente? Ingratas aréas da Cafraria, que cubristes e comestes Dona Leonor de Sá, por que não tivestes comigo a mesma piedade quando por vós caminhei três mezes, e nelles trezentas léguas?» 42

Os ingleses, que sofreram 235 baixas, entre mortos e feridos, recorreram aos prisioneiros Nuno Velho e Brás Correia 43 como intérpretes para intimarem a nau S. Filipe a render-se. Esta, que saíra de Lisboa, conseguiu escapar. Os fidalgos portugueses foram conduzidos a Inglaterra, onde chegaram a 28 de Agosto de 1594, tendo sido bem tratados pelo conde de Cumberland e resgatados passado um ano pela quantia de 3.000 cruzados, que Nuno Velho pagou por ambos.

40 Cf. Giulia Lanciani, Os relatos de naufrágios na literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII, cit., p. 127.

41 Frei João dos Santos difere neste ponto. Cf. Etiópia Oriental e Cousas de Vária História do Oriente, já cit., cap. XV, p. 579.

42 Década Undécima, cap. XXIX, p. 154.

43 «Narrative of the Destruction of a great East India Carak, in 1594, written by Captain Nicholas Downton», Hakluyt’s Voyages, vol. V, apud Robert

Kerr (ed.), A general history and collection of voyages and travels, vol. VII, Londres, 1824, pp. 456-460. Downton refere terem sido recolhidos da

água «two gentlemen. One of them was an old man named Nuno Velio Pereira (

).

The other was named Bras Carrero» (p. 459).

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Conclusão

Conclusão A figura de Nuno Velho Pereira enquadra-se no perfil habitual dos chamados capitães da Índia,
Conclusão A figura de Nuno Velho Pereira enquadra-se no perfil habitual dos chamados capitães da Índia,
Conclusão A figura de Nuno Velho Pereira enquadra-se no perfil habitual dos chamados capitães da Índia,

A figura de Nuno Velho Pereira enquadra-se no perfil habitual dos chamados capitães da Índia, grupo constituído na sua grande maioria por fidalgos secundogénitos de média condição, oriundos de ramos familiares colaterais. No entanto, a sua ligação estreita à casa do infante D. Luís, por um lado,

e as suas qualidades de chefia militar e administrativa, bem como a experiência adquirida em impor-

tantes cenários de guerra, por outro, conferiram-lhe uma relevância social e política que a sua origem não permitia prever.

Assim, estamos perante um fidalgo cuja ascensão social se fez através duma brilhante folha de serviços, militar e administrativa, que lhe possibilitou a aquisição de uma enorme fortuna no exer- cício de cargos públicos, designadamente na capitania de Moçambique, e que foi coroada com a sua nomeação para as vias de sucessão no governo do Estado da Índia. Constitui também um dos poucos casos documentados em que as riquezas adquiridas ao longo da sua carreira, não obstante os grandes prejuízos sofridos em naufrágios, foram sendo transferidas para o reino, proporcionando-lhe um final de vida com alguma notoriedade.

Ao contrário da maior parte dos capitães da Índia, sobreviveu a uma existência por demais aven-

turosa, repleta de situações limite, em que tantas vezes esteve perto de perder a vida, e que lhe conferiu

a fama e o direito a ser elevado à condição de herói ímpar da história trágico-marítima. Dificilmente

se encontrará neste género literário uma figura que alie o sucesso pessoal e as qualidades de carácter às desventuras da fortuna, e que, tendo sobrevivido onde todos os demais pereceram, conduza o leitor

a um desfecho que, embora trágico, é também único: a condição de herói que a própria sobrevivência lhe granjeou.

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