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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

UNESP - Campus de Bauru/SP

FACULDADE DE ENGENHARIA

Departamento de Engenharia Civil

Disciplina: 1309 - ESTRUTURAS DE CONCRETO II

NOTAS DE AULA

DIMENSIONAMENTO DE VIGAS DE CONCRETO ARMADO À FORÇA CORTANTE

Prof. Dr. PAULO SÉRGIO DOS SANTOS BASTOS

(wwwp.feb.unesp.br/pbastos)

Bauru/SP

Março/2008

APRESENTAÇÃO

Esta apostila tem o objetivo de servir como notas de aula na disciplina

1309 – Estruturas de Concreto II, do curso de Engenharia Civil da Faculdade de Engenharia, da Universidade Estadual Paulista - UNESP – Campus de Bauru.

O texto apresenta a análise teórica e os procedimentos aplicados pela nova NBR

6118/2003 (“Projeto de estruturas de concreto – Procedimento”) para o projeto de vigas de concreto armado à força cortante. A nova metodologia apresentada na NBR 6118/2003, embora continue considerando a analogia de treliça, em alguns aspectos difere significativamente daqueles constantes da NBR 6118/80 (NB 1/78). A NBR 6118/2003 admite como hipótese básica a analogia com o modelo em treliça, de banzos paralelos, associada a mecanismos resistentes complementares desenvolvidos no interior do elemento estrutural e traduzidos por uma componente adicional V c . A verificação do elemento estrutural à força cortante é sugerida com base em dois modelos de cálculo, chamados Modelos de Cálculo I e II. Uma das principais inovações está na possibilidade

de se poder considerar inclinações variáveis (30° ≤ θ ≤ 45°) para as diagonais comprimidas (bielas de compressão). De modo geral, a nova metodologia segue o MC-90 do CEB-FIP e o Eurocode 2, com algumas modificações e adaptações. Apesar das modificações introduzidas foi possível simplificar o equacionamento, possibilitando a automatização manual dos cálculos de dimensionamento, com conseqüente ganho de tempo nos cálculos.

O autor agradece ao Prof. Luttgardes de Oliveira Neto pelo auxílio e discussão, que

contribuíram para melhorar a qualidade do texto e dos exemplos. Agradecimento especial à ex-aluna Cristiane Pegoraro Xavier, que fez os estudos iniciais

do texto sobre força cortante na NBR 6118/2003. Agradecimento também ao técnico Éderson dos Santos Martins, pela confecção dos desenhos. Quaisquer críticas e sugestões serão muito bem-vindas, pois assim a apostila poderá ser melhorada.

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO

1

2. REGIÕES DE ANÁLISE

1

3. COMPORTAMENTO DE VIGAS HOMOGÊNEAS NO ESTÁDIO I 2

4. COMPORTAMENTO RESISTENTE DE VIGAS SUBMETIDAS À FLEXÃO E À

4

FORÇA CORTANTE

5. MECANISMOS BÁSICOS DE TRANSFERÊNCIA DA FORÇA CORTANTE 10

12

5.2 Concreto Comprimido Não Fissurado 13

5.1 Ação de Arco

5.3 Transferência na Interface das Fissuras Inclinadas

13

5.4 Ação de Pino da Armadura Longitudinal

15

5.5 Tensões Residuais de Tração 18

5.6 Armaduras Longitudinal e Vertical

18

6. FATORES QUE INFLUENCIAM A RESISTÊNCIA À FORÇA CORTANTE

18

6.1 Tipo de Carregamento

19

6.2 Posição da Carga e Esbeltez

19

6.3 Tipo de Introdução da Carga

19

6.4 Influência da Armadura Longitudinal

19

6.5 Influência da Forma da Seção Transversal 20

6.6 Influência da Altura da Viga 20

7. COMPORTAMENTO DE VIGAS SEM ARMADURA TRANSVERSAL

20

7.1

Parâmetros Mais Importantes

21

7.1.1 Resistência do Concreto

21

7.1.2 Altura da Viga

21

7.1.3 Relação entre a Altura da Viga e a Posição da Carga 23

7.1.4 Armadura Longitudinal 24

7.1.5 Força

Axial

24

7.2

Modos de Ruptura

24

8. COMPORTAMENTO DE VIGAS COM ARMADURA TRANSVERSAL

27

8.1 Função do Estribo

27

8.2 Modos de Ruptura

29

9. TRELIÇA CLÁSSICA DE RITTER-MÖRSCH (θ = 45°) 30

10. TRELIÇA GENERALIZADA (θ variável)

34

11. DIMENSIONAMENTO SEGUNDO A NBR 6118/03

36

11.1

Modelo de Cálculo I

37

11.1.1 Verificação da Diagonal Comprimida de Concreto

37

11.1.2 Cálculo da Armadura Transversal

38

11.2

Modelo de Cálculo II

41

11.2.1 Verificação da Diagonal Comprimida de Concreto

41

11.2.2 Cálculo da Armadura Transversal

42

12. ARMADURA MÍNIMA

44

13. DISPOSIÇÕES CONSTRUTIVAS

45

13.1 Diâmetro do Estribo

45

13.2 Espaçamento Mínimo e Máximo entre os Estribos

45

13.3 Espaçamento Máximo entre os Ramos Verticais do Estribo

46

13.5

Ancoragem do Estribo

46

13.6

Barras Dobradas (Cavaletes)

47

14.

EQUAÇÕES SIMPLIFICADAS

47

14.1

Modelo de Cálculo I

48

14.1.1 Força Cortante Máxima 48

14.1.2 Força Cortante Correspondente à Armadura Mínima 48

14.1.3 Armadura Transversal 49

14.2

Modelo de Cálculo II

51

14.2.1 Força Cortante Última

51

14.2.2 Força Cortante Correspondente à Armadura Mínima

51

14.2.3 Armadura Transversal 52

15. CONSIDERAÇÕES SOBRE O ÂNGULO DE INCLINAÇÃO DAS DIAGONAIS DE

COMPRESSÃO (θ)

53

16. REDUÇÃO DA FORÇA CORTANTE

54

17. CARREGAMENTO APLICADO NA PARTE INFERIOR DAS VIGAS

55

18. ARMADURA DE SUSPENSÃO

56

19. EXEMPLO NUMÉRICO 1

59

 

19.1

Equações Teóricas da Norma

60

19.1.1 Modelo de Cálculo I

60

19.1.2 Modelo de Cálculo II com θ = 30 o

62

19.2

Equações Simplificadas

63

19.2.1 Modelo de Cálculo I

63

19.2.2 Modelo de Cálculo II com θ = 30 o

64

19.3 Comparação dos Resultados

65

19.4 Detalhamento da Armadura Transversal

66

20.

EXEMPLO NUMÉRICO 2

69

20.1

Modelo de Cálculo I

70

20.1.1 Equações de Teóricas da Norma

70

20.1.2 Equações

Simplificadas

71

20.2

Modelo de Cálculo II

72

20.2.1

Equações Teóricas da Norma

72

20.2.1.1 Ângulo θ de 30°

72

20.2.1.2 Ângulo θ de 45°

74

20.2.2

Equações Simplificadas

76

20.2.2.1 Ângulo θ de 30°

76

20.2.2.2 Ângulo θ de 45°

77

20.3 Comparação dos Resultados

79

20.4 Detalhamento da Armadura Transversal

79

21.

EXEMPLO NUMÉRICO 3

81

21.1 Dimensionamento da Seção 10 d Segundo o Modelo de Cálculo I (NBR 6118/03)

85

21.2 Dimensionamento da Seção 10 d Segundo o Modelo de Cálculo II com θ = 45°

86

22. EXEMPLO NUMÉRICO 4

87

23. QUESTIONÁRIO

91

24. EXERCÍCIOS PROPOSTOS

92

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

94

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

1

DIMENSIONAMENTO DE VIGAS DE CONCRETO ARMADO À FORÇA CORTANTE

1. INTRODUÇÃO

No dimensionamento de uma viga de Concreto Armado geralmente o primeiro cálculo feito é o de determinação das armaduras longitudinais de flexão. O dimensionamento da armadura transversal para resistência à força cortante é geralmente feito em seguida.

O dimensionamento à força cortante é muito importante, pois a ruptura de uma viga nunca

deve ocorrer por efeito de força cortante, por ser freqüentemente violenta e frágil. Portanto, deve ser evitada. De acordo com a NBR 6118/2003 (item 16.2.3) “é necessário garantir uma boa

ductilidade, de forma que uma eventual ruína ocorra de forma suficientemente avisada, alertando os usuários”. A armadura de flexão é que deve ser proporcionada de forma a garantir que a ruptura se desenvolva lenta e gradualmente. Existe uma infinidade de teorias e modelos para análise de vigas de concreto sob força cortante, desenvolvidos geralmente com base na analogia de treliça ou de campos de compressão de concreto. No Brasil se destacam os modelos de treliça denominados treliça clássica e treliça generalizada.

O modelo inicial de treliça, desenvolvido por RITTER (1899) e MÖRSCH (1920, 1922),

tem sido adotado pelas principais normas do mundo como a base para o projeto de vigas à força cortante. Adicionalmente ao modelo de treliça vem sendo considerada também a “contribuição do concreto” (V c ), e a possibilidade de variação do ângulo de inclinação (θ) das fissuras e bielas de compressão. Apesar da analogia de uma viga fissurada com uma treliça ter sido criada há cerca de cem anos, a sua simplicidade a faz continuar sendo um modelo para o dimensionamento da armadura transversal das vigas. No caso específico da norma brasileira NBR 6118/03, ela admite dois modelos para cálculo da armadura transversal resistente à força cortante nas vigas, denominados Modelo de Cálculo I e Modelo de Cálculo II. A treliça clássica de Ritter-Mörsch, que pressupõe ângulo θ fixo de 45° para a inclinação das diagonais comprimidas (bielas de concreto), é adotada no Modelo de Cálculo I. O Modelo de Cálculo II admite a chamada “treliça generalizada”, onde o ângulo θ pode variar de 30° a 45°, sendo essa a maior inovação da norma na questão da força cortante. Nas últimas décadas surgiram vários modelos mais refinados, como o RA-STM e o FA- STM, desenvolvidos por HSU e seus colaboradores, e o modelo que considera o atrito entre as superfícies das fissuras inclinadas (Truss model with crack friction). Os modelos mais conhecidos com base em campos de compressão são o CFT e MCFT desenvolvidos por MITCHELL, VECCHIO e COLLINS, mas não serão objeto de estudo nesta apostila.

2. REGIÕES DE ANÁLISE

Na teoria clássica de viga a hipótese assumida da seção transversal permanecer plana proporciona um modelo simples e suficientemente preciso para o projeto de vigas fletidas, com ou sem forças axiais aplicadas. Mesmo após a fissuração a teoria pode ser mantida, porque as fissuras de flexão, perpendiculares ao eixo longitudinal da viga, não invalidam a hipótese de seção plana. Como a ruptura por flexão ocorre na seção sob o máximo momento fletor, as condições fixadas para esta seção são geralmente suficientes para o projeto da viga à flexão. Por outro lado, o mesmo não se pode dizer quanto ao projeto das vigas para a força cortante, porque há enormes diferenças de comportamento e de fatores intervenientes. A ruptura por efeito

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

2

de força cortante é iniciada após o surgimento de fissuras inclinadas, causadas pela combinação de força cortante, momento fletor e eventualmente forças axiais. E a quantidade de variáveis que influenciam a ruptura é muito grande, como geometria, dimensões da viga, resistência do concreto, quantidade de armaduras longitudinal e transversal, características do carregamento, vão, etc. Por isso, ao contrário da flexão, o projeto à força cortante deve considerar não apenas uma seção transversal, mas regiões ao longo do vão da viga, as chamadas regiões B, mostradas na Figura 1. Foram SCHLAICH et al. (1987) que introduziram o conceito de regiões D e B, onde a região D se caracteriza por descontinuidades e distribuição de deformações não-linear. Já na região B a distribuição é linear. Em elementos típicos de barra as regiões B encontram-se entre as regiões D (ASCE-ACI, 1998).

B encontram-se entre as regiões D (ASCE-ACI, 1998). Figura 1 - Regiões numa estrutura (ASCE-ACI, 1998).

Figura 1 - Regiões numa estrutura (ASCE-ACI, 1998).

Como o comportamento de vigas à força cortante apresenta grande complexidade e dificuldades de projeto, este assunto tem sido um dos mais pesquisados, no passado bem como no presente (HAWKINS et al., 2005).

3. COMPORTAMENTO DE VIGAS HOMOGÊNEAS NO ESTÁDIO I

Considere a viga não fissurada de seção retangular, bi-apoiada e sob carregamento uniformemente distribuído (Figura 2). Sejam dois elementos infinitesimais A 1 e A 2 da viga de material homogêneo, elástico linear e isótropo (definido como o material que apresenta propriedades de deformação iguais para qualquer direção).

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

3

y a p A x 2 L.N. h A 1 a b w σ c,máx
y
a
p
A
x
2
L.N.
h
A
1
a
b
w
σ
c,máx
a
a
2
2
τ 0
Linha Neutra
y
a
a
1
1

σ t,máx

Figura 2 – Tensões normais e de cisalhamento numa viga de material homogêneo.

As tensões normais de tração e de compressão, atuantes ao nível dos planos a 1 e a 2 , respectivamente, assim como a variação da tensão de cisalhamento ao longo da altura da viga, encontram-se indicadas na Figura 2. Da teoria clássica da Resistência dos Materiais, a tensão normal e a tensão de cisalhamento num elemento A são:

com:

σ =

τ =

M y

I

V S

y

b

w I

M e V = momento fletor e força cortante na seção a-a; y = distância do elemento à linha neutra;

Eq. 1

Eq. 2

S

y = momento estático da área considerada em relação à linha neutra;

I

= momento de inércia da seção transversal;

b

w = largura da viga.

Para seção retangular, a equação quadrática que representa a tensão de cisalhamento τ é:

τ =

V

h

2

2 I

4

2

y

Eq. 3

Com y = 0 na Eq. 3, a tensão de cisalhamento máxima na seção retangular ocorre na posição da linha neutra:

τ

máx

=

3 V

2 b

w

h

Eq. 4

As Figura 3 e Figura 4 mostram o estado de tensão nos elementos A 1 e A 2 , bem como o círculo de Mohr correspondente.

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4

y x V x y x y y R cc x x x L.N. R
y x
V x y
x y
y
R
cc
x
x x
L.N.
R
st
I
A 1
y
x
máxima tensão de
cisalhamento
0
2
tensão principal de
compressão
II
tensão principal de
tração
I
Figura 3 - Tensões no elemento A 1 . y x x y y R
Figura 3 - Tensões no elemento A 1 .
y x
x y
y
R
x
cc
x
x
L.N.
R
st
II
V
A
2
y x
máxima tensão de
cisalhamento
2
tensão principal de
compressão
tensão principal de
tração
I
II

4.

Figura 4 - Tensões no elemento A 2 .

COMPORTAMENTO RESISTENTE DE VIGAS SUBMETIDAS À FLEXÃO E À FORÇA CORTANTE

Uma viga de Concreto Armado resiste a carregamentos externos primariamente pela mobilização de momentos fletores (M) e forças cortantes (V) - Figura 5.

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

5

A V M + dM M V A dx A V M V A Figura
A
V
M + dM
M
V
A
dx
A
V
M
V
A
Figura 5 – Esforços solicitantes num elemento de comprimento dx de uma viga.

Considere uma viga de Concreto Armado bi-apoiada (Figura 6), submetida a duas forças concentradas P de igual intensidade, crescentes de zero até a força última ou de ruptura. As armaduras consistem da armadura longitudinal positiva (composta pelas cinco barras inferiores) resistente às tensões normais de tração da flexão, e da armadura transversal, composta por estribos verticais no lado esquerdo da viga e estribos e barras dobradas inclinadas (cavaletes) no lado direito da viga, dimensionada para resistir às forças cortantes. Nota-se que no trecho da viga entre as forças concentradas P a solicitação é de flexão pura (V = 0).

P P Armadura Transversal (somente estribos) Armadura Transversal (estribos e barras dobradas) l M +
P
P
Armadura Transversal
(somente estribos)
Armadura Transversal
(estribos e barras dobradas)
l
M
+
+
V
-

Figura 6 – Viga bi-apoiada e diagramas de esforços solicitantes. (LEONHARDT e MÖNNIG, 1982).

A Figura 7a mostra a viga submetida às forças P de baixa intensidade, com as trajetórias das tensões principais de tração e de compressão para a viga ainda não fissurada, no Estádio I portanto. Observe que no trecho de flexão pura as trajetórias das tensões de compressão e de tração são paralelas ao eixo longitudinal da viga. Nos demais trechos as trajetórias das tensões são inclinadas devido à influência das forças cortantes. É importante observar também que as trajetórias apresentam-se aproximadamente perpendiculares entre si. Com o aumento das forças P e conseqüentemente das tensões principais, no instante que as tensões de tração atuantes no lado inferior da viga superam a resistência do concreto à tração,

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6

surgem as primeiras fissuras no trecho de flexão pura, chamadas “fissuras de flexão” (Figura 7b). As fissuras de flexão são aquelas que iniciam na fibra mais tracionada e prolongam-se em direção à linha neutra, conforme aumenta o carregamento externo aplicado. Apresentam-se aproximadamente perpendiculares ao eixo longitudinal da viga e às trajetórias das tensões principais de tração, ou seja, a inclinação das fissuras depende da inclinação das tensões principais de tração. O trecho fissurado passa do Estádio I para o Estádio II e os trechos entre os apoios e as forças concentradas, sem fissuras, permanecem no Estádio I, isto é, a viga apresenta trechos nos Estádios I ou II. A Figura 7c mostra os diagramas de deformação e de tensão nas seções a e b da viga, nos Estádios I e II, respectivamente. No Estádio I a máxima tensão de compressão (σ c ) ainda pode ser avaliada de acordo com a lei de Hooke, o mesmo não valendo para o Estádio II.

a)

b)

c)

d)

tração compressão a b a b Estádio I Estádio II Estádio I Seção a-a Seção
tração
compressão
a
b
a
b
Estádio I
Estádio II
Estádio I
Seção a-a
Seção b-b
c
c
= c
E c
c
c
s
s t
< ct,f
s
b b Estádio II Seção b-b c c = f c > f y s
b
b
Estádio II
Seção b-b
c c = f c
> f y
s
s

Figura 7 - Comportamento resistente de uma viga bi-apoiada. (LEONHARDT e MÖNNIG, 1982).

Continuando a aumentar as forças P outras fissuras de flexão continuam a surgir, e aquelas já existentes aumentam de abertura e prolongam-se em direção ao topo da viga (Figura 7d). Nos trechos entre os apoios e as forças P, as fissuras de flexão inclinam-se, devido à inclinação das

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7

tensões principais de tração σ I , por influência das forças cortantes. Essas fissuras inclinadas são chamadas de “fissuras de flexão com força cortante”, ou fissuras de flexão com cisalhamento, que não é o termo mais adequado porque tensões de cisalhamento não ocorrem por ação exclusiva de força cortante. Nas proximidades dos apoios, como a influência dos momentos fletores é muito pequena, podem surgir as chamadas “fissuras por força cortante, ou de cisalhamento” (ver Figura 7d e Figura 8). Com carga elevada, a viga se apresenta no Estádio II em quase toda a sua extensão.

se apresent a no Estádio II em quase toda a sua extensão. Figura 8 - Fissuras

Figura 8 - Fissuras na viga no Estádio II (LEONHARDT e MÖNNIG, 1982).

O carregamento externo introduz numa viga diferentes estados de tensões principais, em cada um dos seus infinitos pontos. Na Figura 9, por exemplo, são mostradas as trajetórias das tensões principais de uma viga ainda no Estádio I, e o estado de tensões principais num ponto sobre a linha neutra. Na altura da linha neutra, as trajetórias das tensões principais apresentam-se inclinadas de 45° (ou 135°) com o eixo longitudinal da viga, e em pontos fora as trajetórias têm inclinações diferentes de 45°.

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8

II I Direção de I (tensões de tração) Direção de II (tensões de compressão) M
II
I
Direção de
I (tensões de tração)
Direção de
II (tensões de compressão)
M
+
x
+
- V
Figura 9 - Trajetórias das tensões principais de uma viga bi-apoiada no Estádio I.
(LEONHARDT e MÖNNIG, 1982).

Além dos estados de tensão relativos às tensões principais, como o indicado na Figura 10b, outros estados podem ser representados, com destaque para aquele segundo os eixos x-y (Figura 10a), que define as tensões normais σ x e σ y e as tensões de cisalhamento τ xy e τ yx .

y
y

X

yx x xy y = 0
yx
x
xy
y = 0

( + )

( - ) + - ) II ( ( + ) I
(
- )
+
- )
II (
( + )
I

y

y

a) eixos x-y;

b) eixos principais.

X

Figura 10 – Componentes de tensão segundo os estados de tensão relativos aos eixos principais e aos eixos x-y (LEONHARDT e MÖNNIG, 1982).

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9

De modo geral, as tensões verticais σ y podem ser desprezadas, tendo importância apenas nos trechos próximos à introdução de forças na viga (região de forças externas aplicadas, apoios, etc.).

Considerando σ y = 0, as expressões que correlacionam σ I e σ II com as componentes σ x e τ (lembrando que τ = τ xy = τ yx ) são:

- Tensão principal de tração:

σ

I

=

σ

x

2

+

1

2

σ x 2 + 1 2

σ

x

2

+

4 τ

2

- Tensão principal de compressão:

σ

II

=

σ

x

1

2 2

σx 2 + 4 τ 2

x

2 +

4 τ

2

Eq. 5

Eq. 6

O dimensionamento das estruturas de Concreto Armado toma como base normalmente as

tensões σ x e τ xy . No entanto, conhecer as trajetórias das tensões principais é importante para se posicionar corretamente as armaduras de tração e para conhecer a direção das bielas de compressão. As tensões principais de tração inclinadas na alma exigem uma armadura denominada armadura transversal, composta normalmente na forma de estribos verticais fechados. Note que, na região de maior intensidade das forças cortantes, a inclinação mais favorável para os estribos

seria de aproximadamente 45°, ou seja, paralelos às trajetórias das tensões de tração e perpendiculares às fissuras. Por razões de ordem prática os estribos são normalmente posicionados na direção vertical, o que os torna menos eficientes se comparados aos estribos inclinados de 45°.

A colocação da armadura transversal evita a ruptura prematura das vigas e, além disso,

possibilita que as tensões principais de compressão possam continuar atuando, sem maiores

restrições, entre as fissuras inclinadas próximas aos apoios.

O comportamento da região da viga sob maior influência das forças cortantes e com

fissuras inclinadas no Estádio II, pode ser muito bem descrito fazendo-se a analogia com uma treliça isostática (Figura 11). A analogia de treliça consiste em simbolizar a armadura transversal como as diagonais inclinadas tracionadas (montantes verticais no caso de estribos verticais), o concreto comprimido entre as fissuras (bielas de compressão) como as diagonais inclinadas comprimidas, o banzo inferior como a armadura de flexão tracionada e o banzo superior como o concreto comprimido acima da linha neutra, no caso de momento fletor positivo.

A treliça isostática com banzos paralelos e diagonais comprimidas de 45° é chamada

“treliça clássica de Ritter-Mörsch”. Sobre ela, Lobo Carneiro escreveu o seguinte: “A chamada treliça clássica de Ritter-Mörsch foi uma das concepções mais fecundas na história do concreto armado. Há mais de meio século tem sido a base do dimensionamento das armaduras transversais – estribos e barras inclinadas – das vigas de concreto armado, e está muito longe de ser abandonada ou considerada superada. As pesquisas sugerem apenas modificações ou complementações na teoria, mantendo no entanto o seu aspecto fundamental: a analogia entre a viga de concreto armado, depois de fissurada, e a treliça”. É válido afirmar que essas palavras continuam verdadeiras até o presente momento.

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10

R s R s a) armadura transversal a 45°; b) armadura transversal a 90°. Rcb
R
s
R
s
a) armadura transversal a 45°;
b) armadura transversal a 90°.
Rcb
Rcb

Figura 11 - Analogia de treliça para as forças internas na região próxima ao apoio de uma viga (LEONHARDT e MÖNNIG, 1982).

Os estribos devem estar próximos entre si a fim de interceptarem qualquer possível fissura inclinada
Os estribos devem estar próximos entre si a fim de interceptarem qualquer possível fissura
inclinada devido às forças cortantes, pois uma ruptura precoce pode ocorrer quando a distância
entre os estribos for ≥ 2 z para estribos inclinados a 45° e > z para estribos a 90° (Figura 12).
2 z
fissura de cisalhamento
z
fissura de cisalhamento

Figura 12 - Analogia clássica de uma viga com uma treliça.

(LEONHARDT e MÖNNIG, 1982).

A NBR 6118/03 (item 17.4.1) preconiza que o dimensionamento de elementos lineares (vigas) pode ser feito segundo “modelos de cálculo que pressupõem a analogia com modelo de treliça, de banzos paralelos, associados a mecanismos resistentes complementares desenvolvidos no interior do elemento estrutural”. No item 10 são deduzidas as forças e tensões nas barras da treliça clássica de Ritter-Mörsch.

5. MECANISMOS BÁSICOS DE TRANSFERÊNCIA DA FORÇA CORTANTE

Em 1968, Fenwick e Paulay afirmaram que o mecanismo de ruptura das vigas por efeito de força cortante não estava ainda claramente definido. Os mecanismos existentes numa viga responsáveis pela transferência da força cortante são complexos e difíceis de identificar e medir, porque após a fissuração ocorre uma complexa redistribuição de tensões, influenciada por vários fatores. Os mecanismos básicos responsáveis pela transferência da força cortante numa viga são vários, e cada um deles tem uma importância relativa de acordo com o pesquisador ou órgão. Excluindo-se a armadura transversal são cinco os mecanismos mais importantes: 1) força cortante na zona de concreto não fissurado (banzo de concreto comprimido – V cz ); 2) engrenamento dos agregados ou atrito das superfícies nas fissuras inclinadas (V ay ); 3) ação de pino da armadura longitudinal (V d ); 4) ação de arco; 5) tensão de tração residual transversal existente nas fissuras inclinadas (MACGREGOR e WIGHT, 2005).

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

11

Três desses mecanismos estão mostrados na Figura 13, sendo a contribuição de cada um mostrada na Figura 14.

sendo a contribuição de cada um mostrada na Figura 14. Figura 13 – Mecanismos de transferência

Figura 13 – Mecanismos de transferência da força cortante em viga com armadura transversal.

(MACGREGOR e WIGHT, 2005).

em viga com armadura transversal. (MACGREGOR e WIGHT, 2005). Figura 14 – Contribuição de cada mecanismo

Figura 14 – Contribuição de cada mecanismo de transferência de força cortante em viga com armadura transversal (MACGREGOR e WIGHT, 2005).

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

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Os numerosos estudos feitos sobre o comportamento de elementos de Concreto Armado submetidos à flexão têm garantido um bom entendimento sobre o comportamento e os mecanismos de ruptura desses elementos, estando as conclusões incorporadas nas normas de vários países. Na questão dos elementos sob flexão e força cortante, no entanto, o progresso no entendimento e formulações não tem alcançado o mesmo sucesso. Isso se deve à complexidade do problema, segundo PARK e PAULAY (1975). Os elementos submetidos à força cortante geralmente encontram-se também sob os

esforços de momento fletor, força axial e torção. Por isso, além do estudo sobre os efeitos da força cortante agindo isolada, é importante examinar também a interação com os outros esforços solicitantes. No caso das vigas sob flexão, os mecanismos resistentes à força cortante interagem com a aderência entre o concreto e a armadura longitudinal, bem como com a ancoragem dessa armadura na sua extremidade.

A transferência da força cortante nas vigas de Concreto Armado é muito dependente das

resistências do concreto à tração e à compressão, e tem, por isso, a ruptura frágil ou não dúctil por efeito da força cortante. Portanto, é muito importante o correto dimensionamento das vigas à força cortante, de modo a sempre evitar a ruptura frágil por força cortante, principalmente nos elementos sob ações de sismos e terremotos. Os modelos elásticos existentes proporcionam resultados aceitáveis na previsão da formação de fissuras e na resistência do elemento. No entanto, o comportamento de elementos sob força cortante torna-se muito complexo após o surgimento de fissuras, que alteram bastante as tensões existentes. As características dos cinco principais mecanismos de transferência de força cortante são descritas a seguir.

5.1 Ação de Arco

Nas proximidades dos apoios o banzo comprimido inclina-se em sua direção, formando um arco, como ilustrado na Figura 15.

P P
P
P

q

formando um arco, como ilustrado na Figura 15. P P q Figura 15 – Ação de
formando um arco, como ilustrado na Figura 15. P P q Figura 15 – Ação de

Figura 15 – Ação de arco ou de pórtico atirantado nas proximidades dos apoios.

(LEONHARDT e MÖNNIG, 1982).

A formação do arco requer uma reação horizontal no apoio, que em vigas bi-apoiadas pode

ser fornecida pela armadura longitudinal positiva, que deve ser cuidadosamente ancorada nas extremidades da viga para servir a esta função.

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

13

A resistência à força cortante proporcionada pela ação de arco depende muito da

possibilidade de acomodação das tensões de compressão do arco, e a intensidade dessas tensões depende principalmente da inclinação do arco, dada pela relação a/d (a = shear span = distância entre o ponto de aplicação da força P e o apoio; d = altura útil da viga), podendo ser expressa em função da força cortante V ou do momento fletor:

a =

d

V

a

M

V

d

V d

=

Eq. 7

A ação de arco é o mecanismo dominante de resistência de vigas-paredes à força cortante

com o carregamento aplicado na sua região comprimida.

5.2 Concreto Comprimido Não Fissurado

A zona não fissurada de concreto comprimido pela flexão (banzo de concreto) contribui e

proporciona uma certa resistência à força cortante atuante numa viga ou laje fissurada. A integração das tensões de cisalhamento sobre a altura desse banzo comprimido fornece uma componente de força cortante, que é as vezes a explicação para a chamada “contribuição do

concreto” (concrete contribution), como encontrado em textos de normas estrangeiras,

principalmente o ACI 318. Essa componente de força cortante não é a componente vertical de um banzo de concreto comprimido inclinado (ASCE-ACI, 1998).

A contribuição do banzo comprimido depende principalmente da altura da zona

comprimida, conseqüentemente, vigas com alturas baixas sem força axial de compressão apresentam pequena contribuição à resistência, porque a altura do banzo é relativamente pequena (TAYLOR, 1972, REINECK, 1991). Diversas pesquisas experimentais executadas em vigas com armadura transversal mostraram que a contribuição da zona do banzo comprimido de concreto alcança valores entre 20 % e 40 % de resistência à força cortante na seção, sendo esta variação dependente principalmente da forma e da natureza das fissuras nas vigas, conforme ACHAYA e KEMP (1965), FENWICK e PAULAY (1968), TAYLOR (1972) e GERGELY (1969), citados no ASCE-ACI (1973).

5.3 Transferência na Interface das Fissuras Inclinadas

Devido à rugosidade dos agregados ocorre um engrenamento entre eles nas superfícies das fissuras, o que proporciona uma resistência ao deslizamento e a transferência de força cortante através uma fissura inclinada.

O termo engrenamento dos agregados (aggregate interlock) vem sendo substituído por

atrito entre as superfícies (crack friction), porque os concretos de alta resistência têm matriz com resistência semelhante à dos agregados, contribuindo para o mecanismo da transferência de força cortante, mesmo após a propagação da fissura entre os agregados. Além disso o termo também indica que o mecanismo não depende meramente das característica do material, o concreto. Nas duas últimas décadas foram feitos grandes progressos para o entendimento desse mecanismo, principalmente por MILLARD e JOHNSON (1984), GAMBAROVA (1981), WALRAVEN (1981) e NISSEN (1987), entre outros citados pelo ASCE-ACI (1998). São quatro os parâmetros mais importantes no mecanismo de atrito nas fissuras: tensão de cisalhamento nas interfaces, tensão normal, largura e escorregamento da fissura.

O atrito entre duas superfícies de concreto é reconhecido como um mecanismo básico para

a resistência à força cortante em elementos fletidos de concreto. O atrito é aquele que ocorre numa fissura do concreto quando um deslocamento (s) é imposto à fissura (Figura 16).

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

14

de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante 14 Figura 16 – Mobilização do concreto pelo

Figura 16 – Mobilização do concreto pelo atrito na fissura com armadura (a) e na fissura sem armadura (b) - (POLI et al., 1987).

Segundo POLI et al. (1987), o mecanismo de engrenamento dos agregados na interface das fissuras proporciona uma contribuição significativa à resistência à força cortante de vigas de Concreto Armado e Protendido. Ensaios experimentais indicaram que entre 33 % e 50 % da força cortante total sobre a viga pode ser transferida pelo engrenamento das interfaces. Outras considerações que esses pesquisadores apresentaram são:

a) os fatores que mais influenciam o fenômeno são a largura da fissura e o tamanho dos

agregados. A resistência diminui com o aumento da largura da fissura e a diminuição do tamanho dos agregados. Concretos com maiores resistências tendem a apresentar superfícies menos rugosas, e conseqüentemente menor transferência de força cortante;

b) quanto menor a largura da fissura maior é a área de contato. A transferência depende também

da capacidade de deformação elástica ou plástica da área de contato com relação a uma força

aplicada. A deformação depende da quantidade de água e ar da matriz argamassa;

c) a contribuição do engrenamento dos agregados é maior nas seções onde as fissuras por cortante

desenvolvem-se dentro da alma da viga, e menor nas fissuras inclinadas que são continuidade de fissuras de flexão, iniciadas na borda tracionada da viga. A porcentagem da contribuição é maior

para valores baixos e médios da tensão ou resistência última ao cortante, mas é ainda notada em valores maiores, quando os efeitos do engrenamento dos agregados diminui devido aos deslocamentos menores das interfaces;

d) uso de estribos de pequeno diâmetro favorecem o engrenamento dos agregados.

A Figura 17 mostra um diagrama com a taxa de armadura transversal (ω st ) no eixo vertical, como uma função da tensão última à força cortante (τ u o ), relativa à resistência do concreto à compressão (f c ). As taxas de armaduras teóricas são mostradas segundo o modelo de treliça sem consideração do engrenamento dos agregados, segundo as normas CEB e ACI. Os valores são relativos ao concreto com f’ c de 21 MPa e aço com f y de 500 MPa. A reta I é relativa ao modelo de treliça considerando-se o engrenamento dos agregados. Nota-se que a reta I tem boa proximidade com os resultados experimentais, principalmente com τ u o /f’ c maiores que 0,2.

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

15

de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante 15 Figura 17 – Curvas de grau de

Figura 17 – Curvas de grau de armadura transversal e resultados de ensaios de vigas.

(POLI, GAMBAROVA e KARAKOÇ, 1987).

Segundo a ASCE/ACI (1998), WALRAVEN (1981) desenvolveu um modelo que considera a probabilidade que as partículas de agregado (idealizadas como esferas) se projetarão da interface da fissura. Neste modelo a relação entre as tensões e os deslocamentos são função da resistência do concreto à compressão, de concretos com resistências normais. Outras relações

foram desenvolvidas em função de

f ' , e embora grandes diferenças possam ocorrer entre as

c
c

leis constitutivas, o mecanismo de atrito na interface é agora bem conhecido e largamente aceito como um importante mecanismo de transferência de força cortante.

5.4 Ação de Pino da Armadura Longitudinal

A ação de pino de uma barra de aço inserida no concreto proporciona um mecanismo de transferência de força cortante que foi percebida na década de 30 do século passado, e ocorre num grande número de aplicações práticas das estruturas de Concreto Armado, como mostrado na Figura 18.

estruturas de Concreto Armado, como mostrado na Figura 18. Figura 18 – Exemplos onde a ação
estruturas de Concreto Armado, como mostrado na Figura 18. Figura 18 – Exemplos onde a ação

Figura 18 – Exemplos onde a ação de pino ocorre (POLI et al., 1992).

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

16

Em 1973, na ASCE/ACI (1973) foi comentado que procedimentos de projeto modernos consideravam a totalidade da força cortante sendo resistida pela zona de concreto comprimido e pelos estribos. Porém, estudos recentes demonstravam que a ação de pino da armadura longitudinal e o engrenamento dos agregados nas fissuras também desempenham efeito importante sobre a capacidade e o modo de ruptura das vigas. Estudos experimentais feitos por KREFELD e THURSTON (1966), PARMELEE (1961), FENWICK e PAULAY (1968), GERGELY (1969), TAYLOR (1969), BAUMANN (1968) e vários outros, citados no ASCE/ACI (1973), indicaram que a força resistente à força cortante proporcionada pela barra de aço na ação de pino (dowel action) é entre 15 % e 25 % da força cortante total.

A força cortante que pode ser transferida pela ação de pino depende de vários parâmetros,

como: a) quantidade de armadura; b) diâmetro da barra; c) espaçamento entre as barras; d) espessura do cobrimento embaixo da barra de aço; e) propriedades do concreto; f) tensões axiais

na armadura; g) existência de armadura transversal impedindo o deslocamento da barra longitudinal.

A resistência é pequena no caso de barras em região de tração e ausência de armadura

transversal, porque a ação fica limitada pela resistência do concreto à tração. Na situação de carga última é necessário considerar as não-linearidades do concreto e do aço, assim como o dano no concreto localizado, na região próxima ao plano da força cortante. Existem equações desenvolvidas com base em modelos de análise limite simples que avaliam a capacidade última do efeito pino (V u ), que fornecem resultados seguros, como

indicados na Figura 19.

fornecem resultados seguros, como indicados na Figura 19. Figura 19 – Força V u relativa ao

Figura 19 – Força V u relativa ao efeito pino em função do diâmetro da barra, para concretos com resistência à compressão de 30 e 75 MPa (POLI et al., 1992).

Dois modos de ruptura podem ocorrer: fendilhamento do concreto do cobrimento, e esmagamento do concreto sob a barra, acompanhada pelo escoamento da barra (Figura 20). O modo de ruptura que irá ocorrer depende dos parâmetros listados anteriormente (POLI et al.,

1992).

O modo de ruptura do tipo I ocorre para pequenas espessuras de cobrimento, e para grandes cobrimentos ocorre a ruptura do tipo II, com o esmagamento do concreto sob a barra. Para o caso de ruptura devido ao aparecimento de fissuras de fendilhamento na superfície de concreto na região próxima à barra (ruptura tipo I - Figura 20), a resistência máxima do efeito pino não é proporcional ao diâmetro da barra, isto é, a eficiência do mecanismo é reduzida

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

17

aumentando-se o diâmetro da barra. Mesmo para o modo de ruptura tipo II o aumento do diâmetro da barra afeta negativamente a eficiência da resistência do mecanismo do efeito pino.

a eficiência da re sistência do mecanismo do efeito pino. Figura 20 – Modos de ruptura

Figura 20 – Modos de ruptura do mecanismo de efeito pino (VINTZILEOU, 1997).

Com base no exposto por VINTZILEOU (1997), as tensões de compressão e tração aplicadas ao concreto por uma barra de aço sob uma força D (Figura 21) aumentam com o aumento do diâmetro da barra, de modo que a máxima força a ser transferida pelo mecanismo de pino será afetado negativamente aumentando-se o diâmetro da barra.

afetado negativamente au mentando-se o diâmetro da barra. Figura 21 – Distribuição esquemática de te nsões

Figura 21 – Distribuição esquemática de tensões ao longo da barra (VINTZILEOU, 1997).

Um dos fatores primordiais na resistência proporcionada pela barra de aço é a espessura do cobrimento lateral da barra (c s ), como indicado na Figura 22.

lateral da barra (c s ), como indicado na Figura 22. Figura 22 – Notação dos

Figura 22 – Notação dos cobrimentos de concreto de uma barra de aço inserida no concreto. (VINTZILEOU, 1997).

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

18

Para pequenas espessuras do cobrimento lateral surgem fissuras horizontais precocemente, que fazem com que a espessura do cobrimento do topo (c t ) não tenha importância. Porém, para grandes espessuras laterais (3 a 4φ) a resistência proporcionada pela barra aumenta linearmente com o cobrimento do topo, embora para cobrimentos do topo superiores a 5φ não ocorre aumento de resistência. Em função das considerações feitas para o cobrimento da barra é esperado que, para pequenos espaçamentos entre barras, a resistência oferecida diminui em função de ruptura causada pelo aparecimento de fissuras prematuras de fendilhamento no concreto. Nesta questão faltam resultados de pesquisas experimentais (VINTZILEOU, 1997). Segundo a ASCE-ACI (1998), normalmente a ação de pino não é muito importante em elementos sem armadura transversal, porque a máxima força cortante proporcionada pela ação de pino é limitada pela resistência à tração do concreto do cobrimento da barra, que apóia a barra. A ação de pino pode ser importante em elementos com grande quantidade de armadura transversal, principalmente quando distribuída em mais que uma camada.

5.5 Tensões Residuais de Tração

Quando o concreto fissura não ocorre uma separação completa, porque pequenas partículas do concreto ligam as duas superfícies e continuam a transmitir forças de tração, para pequenas aberturas de fissura entre 0,05 e 0,15 mm. Essa capacidade do concreto contribui para a transferência de força cortante, importante quando a abertura da fissura ainda é pequena. Vigas grandes próximas à ruptura com fissuras de grande abertura mostram menor contribuição das tensões residuais de tração. A aplicação da mecânica da fratura ao projeto à força cortante toma como base a premissa de que a tensão de tração residual é o mecanismo de transferência mais importante de força cortante. Outros métodos, como o modelo de dente (tooth model) de REINECK (1991), indica que as tensões de tração residuais fornecem uma importante porção da resistência à força cortante de elementos com alturas menores que 100 mm, onde a largura das fissuras inclinadas e de flexão são pequenas.

5.6 Armaduras Longitudinal e Vertical

Numa viga, antes do surgimento das fissuras inclinadas a deformação nos estribos é a mesma do concreto adjacente ao estribo, e como a tensão de tração que causa a fissura no concreto é pequena, a tensão no estribo também é pequena. De modo que somente após ocorrer o início da fissuração inclinada é que os estribos passam a transferir força cortante, isto é, um estribo passa a ser efetivo ao transferir a força de um lado para outro da fissura inclinada que o intercepta. Os estribos também atuam diminuindo o crescimento e a abertura das fissuras inclinadas, proporcionando uma ruptura mais dúctil às vigas. A existência do estribo na viga faz com que ocorra uma mudança na contribuição relativa de cada um dos diferentes mecanismos resistentes à força cortante. A contribuição da armadura transversal à resistência ao cortante da viga é tipicamente computada por meio da treliça clássica, somada à contribuição do concreto, ou por meio da treliça de ângulo variável sem a contribuição do concreto.

6. FATORES QUE INFLUENCIAM A RESISTÊNCIA À FORÇA CORTANTE

a

resistência das vigas à força cortante, cerca de vinte, sendo que de alguns deles não há conhecimento suficiente da sua influência. A seguir apresentam-se alguns dos principais fatores.

Segundo

LEONHARDT

e

MÖNNIG

(1982),

são

muitos

fatores

que

influenciam

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

19

6.1 Tipo de Carregamento

Para carregamento uniformemente distribuído (cargas atuando de cima, diretamente sobre

a viga), alguns ensaios com vigas esbeltas sem armadura transversal indicaram uma capacidade

resistente à força cortante cerca de 20% a 30% maior do que para carga concentrada na posição mais desfavorável. Entretanto, na realidade, não há garantia de uma distribuição uniforme da carga de utilização, por isso, os critérios de dimensionamento devem levar em consideração os resultados mais desfavoráveis referentes às cargas concentradas.

6.2 Posição da Carga e Esbeltez

Nas cargas concentradas tem grande influência a distância do apoio até a carga. Já para as cargas uniformes tem grande influência a esbeltez l/h. Quanto à ruptura de uma viga com e sem armadura transversal por força cortante, a posição mais perigosa de uma carga concentrada foi determinada para o trecho a = 2,5h a 3,5h, o que corresponde a uma relação momento-força

cortante de M/Vh = a/h = 2,5 a 3,5. Para cargas distribuídas, rigidezes de l/h =10 a 14 são as que conduzem a maiores perigos de ruptura por força cortante e, conseqüentemente, na menor capacidade resistente à força cortante.

A capacidade resistente à força cortante aumenta bastante para cargas próximas ao apoio,

para uma relação decrescente a/h < 2,5. Um aumento correspondente acontece com carga distribuída, quando l/h < 10. Isto explica porque o efeito de viga escorada é tão mais favorável, quando mais inclinadas (em relação à horizontal) forem as diagonais comprimidas de concreto. Deve-se prever, a propósito, uma boa ancoragem da armadura longitudinal do banzo tracionado.

6.3 Tipo de Introdução da Carga

Efetuando-se a ligação de uma viga em toda sua altura d com outra viga, a viga que se apóia distribui sua carga ao longo da altura da alma da viga que serve de apoio. Diz-se então que se trata de um carregamento ou apoio indireto. Nos ensaios foi possível mostrar que, na região de cruzamento dessas vigas, é necessária uma armadura de suspensão, deve ser dimensionada para a força total atuante no apoio ou nó. Uma viga no Estádio II transfere sua carga ao apoio primordialmente pela diagonal de compressão, e as diagonais comprimidas no modelo treliça define claramente a necessidade de montantes verticais de tração, ou seja, armadura de suspensão. Entretanto, fora da região de cruzamento, a viga não é influenciada pelo tipo de introdução de carga ou de apoio, isto é, o comportamento em relação à força cortante é o mesmo que para o apoio ou carregamento direto. Essas mesmas considerações valem para o dimensionamento à força cortante. Na região de cruzamento, a armadura de suspensão atende simultaneamente à função de armadura de transversal. As cargas penduradas na parte inferior de uma viga produzem tração na alma e devem ser transferidas pelas barras de tração da alma ao banzo comprimido. Essa armadura de suspensão é adicional à armadura transversal normal para a força cortante.

6.4 Influência da Armadura Longitudinal

O desenvolvimento de uma fissura inclinada por força cortante, ou seja, seu aumento até

próximo da borda superior da zona comprimida de concreto, depende da rigidez à deformação do

banzo tracionado, ou seja, quanto mais fraco for o banzo tracionado, tanto mais ele se alonga com

o aumento da carga e tão mais depressa a fissura inclinada se torna perigosa.

O banzo tracionado não pode, portanto, ser muito enfraquecido na região de uma possível

ruptura por força cortante. Também um escorregamento da ancoragem no apoio tem um efeito enfraquecedor. Ambas as influências devem ser consideradas como detalhes construtivos na execução da armadura.

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

20

Uma outra influência é a qualidade da armadura longitudinal. Ensaios demonstraram, por exemplo, que para a mesma porcentagem de armadura longitudinal, uma distribuição das tensões com maior número de barras finas influencia favoravelmente a capacidade resistente à força cortante.

6.5 Influência da Forma da Seção Transversal

A forma da seção transversal tem uma forte influência sobre o comportamento resistente

de vigas de Concreto Armado solicitadas à força cortante. A seção transversal retangular pode se adaptar livremente a uma forte inclinação do banzo comprimido e, freqüentemente, pode absorver toda a força transversal no banzo comprimido (especialmente no caso de carga distribuída e de carga concentrada próxima ao apoio). Em seções transversais de vigas T, a força no banzo comprimido só pode ter uma inclinação quase horizontal, porque na realidade ela permanece na largura comprimida da laje até a proximidade do apoio, concentrando-se na alma apenas gradativamente em direção ao apoio. O banzo comprimido por este motivo, só pode absorver uma parcela da força cortante, e a maior parte deve ser resistida pelas diagonais comprimidas e pelas barras da armadura transversal. A relação da rigidez do banzo comprimido de largura b f com a correspondente rigidez das diagonais comprimidas da alma com largura b w é muito maior em vigas T do que em vigas retangulares. Nas vigas de seção retangular (b f / b w = 1), os estribos são submetidos a tensões de compressão até que, pouco antes da carga de ruptura, uma fissura de cisalhamento cruze o estribo. Nas vigas T essas tensões no estribo aumentam para almas delgadas, em todos os casos, porém, essas tensões ficam bem abaixo da tensão de escoamento do aço a qual foi calculada de acordo com a analogia de treliça clássica de Mörsch (com diagonais a 45º). Ensaios mostraram também que a inclinação das fissuras inclinadas ou das diagonais

comprimidas varia com a relação b f / b w , essa inclinação situa-se em torno de 30º para b f / b w = 1 e cresce para cerca de 45º para b f / b w = 8 a 12.

O dimensionamento da armadura transversal da alma deve ser feito a partir da distribuição

dos esforços internos, pouco antes da ruptura, ou seja, deve ser considerada a largura da alma em

relação a largura do banzo comprimido.

6.6 Influência da Altura da Viga

Ensaios realizados segundo uma lei de semelhança com vigas sem armadura transversal e diferentes alturas d, com igual porcentagem de armadura longitudinal de mesma distribuição de barras, mostraram que a capacidade resistente à força cortante diminui consideravelmente como aumento da altura d, quando a granulometria e o cobrimento do concreto não variarem de acordo com a escala.

7. COMPORTAMENTO DE VIGAS SEM ARMADURA TRANSVERSAL

O comportamento das vigas após a fissuração modifica-se consideravelmente em função

da existência ou não de armadura transversal. Por isso, inicialmente apresentam-se as características do comportamento das vigas sem armadura transversal, e em seguida das vigas

com armadura transversal. Numa viga de Concreto Armado sob ação de flexão e forças cortantes, que ocasionam

tensões principais como indicadas na Figura 9, a fissura se forma quando a tensão principal de tração excede a resistência do concreto à tração.

A maior parte das fissuras inclinadas são extensões das fissuras de flexão. Em vigas com

mesas, como seções I e T por exemplo, ocorrem fissuras inclinadas nas proximidades da linha neutra.

A previsão da força cortante que provoca a fissura diagonal inclinada, segundo uma

análise das tensões principais e em função da resistência do concreto à tração, é maior que a

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

21

verificada na realidade numa viga sob flexão e forças cortantes. Assim ocorre devido principalmente à redistribuição de tensões de cisalhamento entre as fissuras de flexão, entre outros fatores, como as tensões existentes devido à retração do concreto. Segundo a ASCE-ACI (1998), a presença de fissuras inclinadas em vigas sob ações de serviço são aceitáveis hoje, desde que seja garantida que a abertura das fissuras não ultrapassem os limites máximos estabelecidos.

7.1 Parâmetros Mais Importantes

Existem vários parâmetros que influenciam significativamente a contribuição relativa dos diferentes mecanismos resistentes à força cortante e conseqüentemente a resistência última das vigas sem armadura transversal à força cortante.

7.1.1 Resistência do Concreto

A resistência à força cortante aumenta com o aumento da resistência do concreto, porém,

não está definido ainda se é a resistência do concreto à compressão ou a resistência à tração que exerce maior influência. Normas que consideram a “contribuição do concreto” (V c ) como a força cortante relativa

ao aparecimento da fissuração inclinada, como a NBR 6118/03 e o ACI 318, levam em consideração a resistência do concreto à tração, geralmente por meio de equações em função da resistência do concreto à compressão elevadas a uma potência, como f c 1/4 , f c 1/3 e f c 1/2 .

O aumento da resistência à força cortante com o aumento da resistência do concreto parece

ser mais efetivo em vigas menores com altas taxas de armaduras e feitas com concretos de baixa ou média resistência, como as vigas ensaiadas por MOODY et al. (1954), indicadas no diagrama da Figura 23. As vigas de YOON e COOK (1996), com alturas nem pequenas nem grandes e com taxas de armaduras moderadas, apresentaram a tendência de maneira menos pronunciada. Por outro lado, vigas altas levemente armadas e com concretos de alta resistência de agregados pequenos não mostraram a mesma tendência, como aquelas ensaiadas pelos outros autores. Credita-se tal característica ao fato das superfícies das fissuras serem mais lisas ou menos rugosas nos concretos de alta resistência que nos concretos normais, o que diminui a eficiência do mecanismo de transferência da força cortante nas interfaces das fissuras (atrito na interface).

7.1.2 Altura da Viga

É fato que a resistência à força cortante diminui em vigas de concreto (Armado e

Protendido) com o aumento da altura da viga, efeito chamado “size effect”. Algumas pesquisas

como de SHIOYA et al. (1989), LEONHARDT e WALTHER (1961, 1962, 1963), entre várias outras, mostraram tal comportamento das vigas.

A Figura 24 mostra os resultados experimentais obtidos por SHIOYA et al. (1989) de

vigas com alturas efetivas (d) entre 10 e 300 cm, sem armadura transversal e levemente armadas na direção longitudinal, comparados com a resistência prevista pelo ACI 318-95 e pelo método

simplificado (β) de acordo com o modelo MCFT. A resistência última das vigas maiores foi apenas cerca de um terço das vigas menores, e menos da metade da resistência teórica calculada segundo o ACI 318R-02 (HAWKINS et al., 2005). Nas vigas maiores nota-se que romperam com tensões de cisalhamento menores que a metade das tensões teóricas previstas pelo ACI 318, e o MCFT apresentou bons resultados.

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

22

de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante 22 Figura 23 – Influência da resistência à

Figura 23 – Influência da resistência à compressão do concreto sobre a resistência à força cortante. (KUCHMA e KIM, 2001).

a resistência à força cortante. (KUCHMA e KIM, 2001). Figura 24 – Influência da altura da

Figura 24 – Influência da altura da viga e da dimensão do agregado sobre a resistência à força cortante (COLLINS e KUCHMA, 1999).

Em 1956 ocorreu a ruptura de várias vigas de Concreto Armado, com altura de 91,4 cm, num galpão da força aérea dos Estados Unidos, com força cortante menor que a metade da força

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

23

cortante teórica prevista pela norma ACI (Figura 25). Em investigações realizadas na época vigas semelhantes foram ensaiadas, porém, com modelos em escala de um terço das vigas reais rompidas. Os modelos ensaiados mostraram muito maior resistência à ruptura que as vigas do galpão, e por isso a conclusão para o fator principal da queda foi que a baixa resistência das vigas ocorreu devido a tensões axiais de tração provocadas por retração restringida pelos pilares.

provoc adas por retração rest ringida pelos pilares. Figura 25 – Viga rompida do galpão da

Figura 25 – Viga rompida do galpão da força aérea dos Estados Unidos (CLADERA, 2002).

Hoje, com os maiores conhecimentos sobre a influência da altura da viga sobre sua resistência à força cortante, explica-se a ruptura das vigas pela influência da altura, não corretamente avaliada pelo ACI da época. Porém, o entendimento de tal comportamento das vigas ainda não está completamente entendido pelos pesquisadores, dada as diferentes explicações existentes para o fenômeno. Alguns creditam à redução da transferência de força cortante nas interfaces das fissuras devido a maior largura das fissuras que ocorrem em vigas de grande altura. Outros creditam que, em vigas altas, a propagação de fissuras inclinadas ocorre de maneira mais rápida, o que diminui a resistência à força cortante.

7.1.3 Relação entre a Altura da Viga e a Posição da Carga

Numa viga simples sob carregamento de forças concentradas chama-se “a” a distância entre o apoio e a força concentrada aplicada (“shear span”). Costuma-se analisar a influência desta distância com relação à altura útil das vigas, isto é, a razão a/d, que serve como um indicativo da esbeltez das vigas. Quando a relação a/d diminui a resistência da viga à força cortante aumenta, sendo particularmente importante em relações menores que 2,5 a 3,0, porque uma parcela significativa da força cortante é transmitida diretamente ao apoio pela ação de arco. E quanto menor a relação a/d mais pronunciada se torna a ação de arco. As vigas-paredes são exemplos típicos da existência do efeito arco de forma pronunciada. Em vigas simples sob cargas concentradas a seção sob máximo momento fletor e força cortante ocorre na distância a/d, pois M máx = V máx . a , e a razão de momento fletor para força cortante é M máx / V máx . d = a/d. No caso de viga sob carregamento uniformemente distribuído a relação é M máx / V máx . d = l / 4d, o que significa que a é a distância entre o apoio e a resultante da carga uniformemente distribuída numa metade do vão. O valor de a também relaciona as capacidades das vigas à flexão e à força cortante. Numa ruptura por flexão a força cortante pode ser calculada dividindo-se o momento de ruptura por a, e

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

24

numa ruptura por efeito de força cortante o momento fletor no meio do vão será calculado multiplicando-se a força cortante de ruptura por a.

7.1.4 Armadura Longitudinal

Para um dado carregamento mantido constante, se a armadura longitudinal da viga é diminuída as tensões de flexão e as deformações nessa armadura devem aumentar. Conseqüentemente, as fissuras terão aberturas maiores e a resistência à força cortante diminuída, e além disso, a ação de pino é também diminuída por existir menos armadura. Barras longitudinais dispostas ao longo da altura das vigas diminuem o espaçamento e abertura das fissuras, e por isso aumentam a resistência à força cortante de maneira significativa.

7.1.5 Força Axial

Forças axiais de compressão aumentam a resistência à força cortante porque diminuem a largura das fissuras inclinadas, o que contribui para uma maior resistência nas interfaces das fissuras, e aumentam a altura do banzo de concreto comprimido, e conseqüentemente a sua resistência à força cortante. Forças de tração, ao contrário, diminuem a resistência à força cortante.

7.2 Modos de Ruptura

A ruptura de vigas de Concreto Armado por efeito de força cortante caracteriza-se pela ocorrência de fissuras inclinadas, que pode, em alguns casos, ser seguida pela ruptura da viga, e em outros casos, a viga ainda pode suportar acréscimos de carga antes da ruptura. As fissuras inclinadas podem se desenvolver na alma das vigas como uma extensão de fissuras de flexão já existentes ou de maneira independente. A primeira fissura é chamada “fissura por flexão e força cortante” e a segunda como “fissura por força cortante”. Ocorre também a fissura por flexão pura, como indicadas na Figura 8. Além dos três tipos de fissuras básicas podem também ocorrer outras fissuras secundárias, muitas vezes em decorrência de tensões de tração que causam fissuras de fendilhamento, com o escorregamento relativo entre a barra de aço e o concreto, ou de forças oriundas da ação de pino de barras longitudinais transferindo força cortante através de uma fissura. De acordo com o ACI-ASCE 426 (1973), a maneira como as fissuras inclinadas se desenvolvem e crescem e o tipo de ruptura que ocorre na seqüência depende muito da relação entre as tensões de cisalhamento e as tensões normais de flexão, que podem ser definidas aproximadamente como:

τ = α

1

V

b

w

d

σ

x

= α

M

2 b

f

d

2

Eq. 8

Eq. 9

onde b f é a largura da mesa, b w é a largura da alma, d é a altura útil, e α 1 e α 2 são coeficientes que dependem de várias variáveis, como a geometria, tipo de carga, quantidade e posição das armaduras, tipo de aço, concreto, etc. Uma viga submetida a forças concentradas tem a seguinte relação entre tensões:

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

25

onde:

a ⎞ ⎛ b

σ

x

τ

3

d

b

f

= α

w

α 3 = α 2 /α 1 ; a = distância entre a força aplicada e o apoio (shear span).

Eq. 10

A relação a/d é útil para ilustrar a variação entre a carga correspondente à fissura inclinada

e a capacidade da viga retangular à força cortante. Quando todas as variáveis são mantidas constantes, a influência de a/d sobre a fissuração de vigas retangulares bi-apoiadas em função da esbeltez é classificada como ilustrado a seguir.

a) viga muito esbelta (a/d > 6)

As vigas nesta categoria rompem por flexão geralmente antes do surgimento de fissuras inclinadas.

b) viga esbelta (2,5 < a/d < 6)

Além das fissuras de flexão surgem também fissuras de flexão com influência da força

cortante, isto é, fissuras que se iniciam verticais e depois se inclinam em direção ao banzo comprimido. Fissuras inclinadas devidas à força cortante podem propagar-se em direção ao topo e

à base da viga, causar o escoamento das armaduras e separar a viga em duas partes, o que é chamado ruptura por tração diagonal (Figura 26).

que é chamado ruptura por tração diagonal (Figura 26). Figura 26 – Ruptura por tração diagonal

Figura 26 – Ruptura por tração diagonal (ACI-ASCE 426, 1973).

c) viga curta (1 < a/d < 2,5)

Uma fissura inclinada pode propagar-se pela armadura longitudinal, causando perda de aderência entre as barras longitudinais e o concreto, que escorrega e leva à ruptura da ancoragem (Figura 27). Não ocorrendo falha da aderência pode ocorrer ruptura por esmagamento do concreto comprimido do banzo superior, devido ao prolongamento da fissura inclinada em direção ao topo da viga, que diminui a área do banzo (Figura 28).

ao topo da viga, que diminui a ár ea do banzo (Figura 28). Figura 27 –

Figura 27 – Ruptura por escorregamento das barras longitudinais tracionadas.

(ACI-ASCE 426, 1973).

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

26

de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante 26 Figura 28 – Ruptura por escorregamento das

Figura 28 – Ruptura por escorregamento das barras longitudinais tracionadas.

(ACI-ASCE 426, 1973).

d) viga muito curta (a/d < 1)

As fissuras inclinadas ocorrem ao longo da linha entre o apoio e o ponto de aplicação da

carga. Nas vigas-paredes classificadas nessa categoria uma parcela significativa da força cortante é transferida ao apoio por ação de arco, como indicado na Figura 29. Há várias formas de ruptura:

1)

da ancoragem da armadura longitudinal de tração;

2)

esmagamento do concreto próximo e acima do apoio;

3) flexão – por esmagamento do concreto do banzo comprimido ou por escoamento da armadura de tração;

4)

tração na borda superior acima do arco de compressão;

5)

esmagamento do concreto que forma a ação de arco.

5) esmagamento do concreto que forma a ação de arco. Figura 29 – Modelos de ruptura

Figura 29 – Modelos de ruptura em vigas curtas (vigas-paredes), (ACI-ASCE 426, 1973).

e) viga I

Vigas de seção transversal em forma de I têm tensão de cisalhamento na alma muito superiores às vigas retangulares, e por isso a ruptura mais comum é aquela por esmagamento do concreto nas diagonais comprimidas entre as fissuras (ruptura das bielas de compressão) - Figura 30. Os outros modos de ruptura já descritos para vigas retangulares podem também ocorrer.

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

27

de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante 27 Figura 30 – Ruptura de vigas seção

Figura 30 – Ruptura de vigas seção I (ACI-ASCE 426, 1973).

8. COMPORTAMENTO DE VIGAS COM ARMADURA TRANSVERSAL

A existência de armadura transversal modifica consideravelmente o comportamento das

vigas após o surgimento das fissuras inclinadas. Ao ser interceptado por uma fissura o estribo faz a ponte de transferência das tensões de tração entre os lados da fissura, e ao atingir a tensão f y o

aço do estribo escoa. Ainda existe um ganho de resistência proporcionado principalmente pelo atrito entre as superfícies nas fissuras. Os estribos, ao continuarem escoando, proporcionam uma ruptura dúctil. Em vigas com altas taxas de armadura transversal a ruptura pode ocorrer devido ao esmagamento do concreto comprimido das diagonais inclinadas, principalmente vigas de seção I. Após a formação de fissuras inclinadas uma parte da força cortante passa a ser transferida pela armadura transversal. Quando essa armadura passa a escoar qualquer força cortante adicional deve ser transferida pelos mecanismos já citados. Quando a fissura tem a abertura aumentada o atrito nas interfaces diminui, o que causa um aumento de força transferida pelo concreto do banzo comprimido e pela ação de pino, até que rompe a ação de pino ou o concreto comprimido esmaga.

8.1 Função do Estribo

A colocação de estribos nas vigas tem três funções básicas:

a) resistir à parte da força cortante;

b) restringir o crescimento da abertura das fissuras, o que ajuda a manter o atrito entre as interfaces na fissura;

c) aumentar a ação de pino das barras longitudinais.

Além disso, os estribos proporcionam uma pequena resistência por ação de pino nas

fissuras e aumentam a resistência da zona comprimida de concreto pelo confinamento que promovem.

A Figura 31 mostra a atuação ou trabalho desenvolvido pelo estribo vertical na analogia de

treliça, para uma viga com tração na fibra inferior. No nó inferior o estribo entrelaça a armadura

longitudinal tracionada e no nó superior o estribo ancora-se no concreto comprimido e na armadura longitudinal superior. As bielas de compressão se apóiam nas barras da armadura longitudinal inferior, no trecho final dos ramos verticais dos estribos e nos seus ramos horizontais, principalmente na intersecção do estribo com as barras longitudinais.

O ramo horizontal inferior dos estribos é importante porque, além de servir de apoio às

bielas, também atua para equilibrar as tensões de tração oriundas da inclinação transversal das

bielas diagonais, como indicado na Figura 31III e IV.

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

28

Na Figura 31II mostra-se o apoio da biela na intersecção do estribo com a barra longitudinal inferior, e o acréscimo de tensão ∆σ s na armadura longitudinal, entre um estribo e outro e proveniente da atuação da tensão de aderência τ b , entre a barra e o concreto.

de aderência τ b , entre a barra e o concreto. Figura 31 – Atuação do

Figura 31 – Atuação do estribo no modelo de treliça (FUSCO, 2000).

No nó superior os estribos se ancoram no concreto comprimido, e nas barras longitudinais aí posicionadas. Barras porta-estribos também atuam para evitar o fendilhamento, que pode ser provocado pelo gancho do estribo ao aplicar tensões de tração num pequeno volume de concreto. O ramo horizontal superior do estribo não é obrigatório, porém, sua disposição é indicada para o posicionamento de barras longitudinais internas e para resistir a esforços secundários que geralmente ocorrem. Vigas largas, com larguras maiores que aproximadamente 40 cm, devem ter estribos com mais de dois ramos verticais, sendo muito comum o uso de estribos com quatro ramos, que oferece a vantagem de ser montado sobrepondo-se dois estribos idênticos de dois ramos. No caso do estribo com três ramos é colocada uma barra adicional no espaço entre os ramos de um estribo convencional com dois ramos (Figura 32).

de um estribo convencional com dois ramos (Figura 32). Figura 32 – Estribos com três e

Figura 32 – Estribos com três e com quatro ramos verticais.

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

29

8.2 Modos de Ruptura

As formas de ruptura de vigas por efeito de força cortante também foram estudadas por LEONHARDT e MÖNNIG (1982), e são descritas a seguir. Quando as tensões principais de tração inclinadas σ I alcançam a resistência do concreto à tração, surgem as primeiras fissuras devidas à força cortante, perpendiculares à direção de σ I , como mostrado anteriormente. À medida que as fissuras vão surgindo ocorre uma redistribuição dos esforços internos, e a armadura transversal e as diagonais comprimidas passam então a “trabalhar” de maneira mais efetiva. A redistribuição de esforços depende da quantidade e da direção da armadura transversal, o que leva a diversos tipos de ruptura por força cortante. Com o aumento do carregamento as fissuras de flexão na região de maiores forças cortantes propagam-se com trajetória inclinada, dando origem às chamadas fissuras de flexão com cortante. Se a armadura transversal for insuficiente, o aço atinge a deformação de início de escoamento (ε y ). As fissuras inclinadas por efeito da força cortante próximas ao apoio desenvolvem-se rapidamente em direção ao banzo comprimido, diminuindo a sua seção resistente, que por fim pode se romper bruscamente (Figura 33). A total falta de armadura transversal também pode levar a esta forma de ruptura. A fissura propaga-se também pela armadura longitudinal de tração nas proximidades do apoio, separando-a do restante da viga (Figura 33).

do apoio, separando-a do restante da viga (Figura 33). Figura 33 – Ruptura de viga e

Figura 33 – Ruptura de viga e laje por rompimento do banzo superior comprimido de concreto. (LEONHARDT e MÖNNIG, 1982).

Pode também ocorrer o rompimento dos estribos, antes da ruptura do banzo comprimido, ou a ruptura na ligação das diagonais comprimidas com o banzo comprimido. A Figura 34 mostra a ruptura que pode ocorrer por rompimento ou deformação excessiva dos estribos.

por rompimento ou deformação excessiva dos estribos. Figura 34 – Ruína da viga por rompimento dos

Figura 34 – Ruína da viga por rompimento dos estribos (LEONHARDT e MÖNNIG, 1982).

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

30

Em seções com banzos reforçados, como seções I, que possuam armaduras longitudinal e transversal reforçadas, formam-se muitas fissuras inclinadas, e as bielas de compressão entre as fissuras podem romper de maneira brusca ao atingir a resistência do concreto à compressão. Tal ruptura ocorre quando as diagonais são solicitadas além do limite da resistência do concreto, antes que a armadura transversal entre em escoamento (Figura 35). As bielas de compressão delimitam o limite superior da resistência das vigas ao esforço cortante, o que depende da resistência do concreto. A tensão de compressão nas bielas depende da inclinação dos estribos, como se verá adiante.

da inclinação dos estribos, como se verá adiante. Figura 35 - Ruptura das diagonais comprimidas no

Figura 35 - Ruptura das diagonais comprimidas no caso de armadura transversal reforçada. (LEONHARDT e MÖNNIG, 1982).

9. TRELIÇA CLÁSSICA DE RITTER-MÖRSCH (θ = 45°)

Neste item são apresentadas as equações para as forças e as tensões nas barras da treliça clássica, e no item 11 as equações para a treliça generalizada, que servem de base para a dedução das equações contidas na NBR 6118/03 para o dimensionamento das vigas à força cortante. A treliça clássica é a admitida pela NBR 6118/03 para o Modelo de Cálculo I (item 17.4.2.2), onde o ângulo θ é fixo com valor de 45°.

A analogia de uma viga fissurada com uma treliça foi introduzida por RITTER (1899), e

serviu para o entendimento do comportamento das vigas à força cortante durante o início do século 20. Cada barra da treliça, indicada na Figura 36, representa uma parte de uma viga simples:

o banzo inferior é a armadura longitudinal de tração, o banzo superior é o concreto comprimido

pela flexão, as diagonais inclinadas de 45° representam o concreto comprimido entre as fissuras (bielas de compressão) e as diagonais tracionadas inclinadas do ângulo α os estribos. Essa treliça é a chamada “treliça clássica”. Para estribos verticais imagina-se as diagonais tracionadas dispostas na vertical, com ângulo α de 90°. Este modelo de Ritter foi melhorado por Mörsch, assumindo que as diagonais comprimidas estendem-se por mais de um estribo.

O modelo de treliça tradicional assume que as bielas de compressão são paralelas à direção

das fissuras inclinadas e que nenhuma tensão é transferida através as fissuras. No entanto, existem dois mecanismos que não são considerados no modelo de treliça tradicional: 1) as tensões de tração que existem no concreto transversalmente às bielas de compressão; 2) as tensões de cisalhamento que são transferidas nas faces das fissuras inclinadas pela ação do engrenamento dos agregados ou atrito. Esses mecanismos resultam: 1) o ângulo da tensão principal de compressão na alma é menor que o ângulo de inclinação das fissuras; 2) uma componente vertical da força ao longo da fissura que contribui para a resistência à força cortante, sendo esse mecanismo resistente

chamado como “contribuição do concreto” (V c ). Geralmente, a tensão de tração no concreto entre as fissuras não é considerada nos modelos de treliça (ASCE-ACI, 1998).

A treliça clássica despreza a resistência do concreto à tração e mesmo após a fissuração da

viga as diagonais de compressão mantém-se inclinadas de 45°. A “contribuição do concreto” é considerada por meio da parcela V c , com diferentes valores para cada norma. Considere uma viga bi-apoiada, com o carregamento de uma força concentrada P, e com força cortante constante. A analogia dessa viga fissurada (Estádio II) com a treliça clássica, com

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

31

ângulo θ de inclinação das diagonais comprimidas (bielas de compressão) de 45° e com diagonais tracionadas inclinadas de um ângulo α qualquer, está mostrada na Figura 36. Sendo a treliça isostática, as forças nas barras podem ser determinadas considerando-se apenas as condições de equilíbrio dos nós, a partir da força cortante. Considerando a seção 1-1 da treliça sob atuação da força cortante V, a força na diagonal comprimida (biela de compressão - R cb ) é:

V

= R

R cb =

sen 45 cb V = 2 sen 45
sen 45
cb
V
=
2
sen 45

V

Eq. 11

Eq. 12

1 R cb 45° 1
1
R cb
45°
1

V

P P V = V = P 2 2 V
P
P
V =
V = P
2
2
V

V

) z 2 ( 1 + cotg banzo comprimido diagonal comprimida P 1 V z
)
z 2 ( 1 + cotg
banzo comprimido
diagonal comprimida
P
1
V
z
θ = 45°
45°
1
z ( 1 + cotg
)
V = P
2
diagonal tracionada
banzo tracionado

Figura 36 – Viga representada segundo a treliça clássica de Ritter-Mörsch.

A distância entre duas diagonais comprimidas adjacentes, na direção perpendicular a elas, é (Figura 36):

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

32

z

2
2

(1 + cotg α)

A força em cada diagonal comprimida pode ser considerada aplicada na área de concreto

(área da biela):

b w .

z

2
2

(1 + cotg α)

onde α é o ângulo de inclinação das diagonais tracionadas. A tensão média de compressão na biela é então dada por:

2 2
2
2

R cb

=

)

b

w

V

σ

cb

=

z

 

b

w

2
2

(

1

+

cotg

α

 

2 V

σ

cb

= b

w

(

z 1

+

cotg

α)

A

(

z 1

+

cotg

α)

Eq. 13

força na diagonal tracionada (R s,α ), inclinada do ângulo α, pode ser determinada fazendo

o equilíbrio da seção 1-1 da treliça (Figura 36):

V

=

R

R s, α

s, α

sen

α

=

V

sen α

Eq. 14

Eq. 15

V

R s,α α
R s,α
α

Cada diagonal de tração com força R s,α é relativa a um comprimento da viga, a distância z (1 + cotg α), medida na direção do eixo longitudinal, e deve ser resistida por uma armadura chamada transversal, composta por barras (estribos) espaçadas num comprimento s e inclinadas de um ângulo α (Figura 37).

Asw, s s s s s s s z ( 1 + cotg )
Asw,
s
s
s
s
s
s
s
z ( 1 + cotg
)

Figura 37 – Armadura transversal A sw,α resistente à força na diagonal tracionada.

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

33

Considerando A sw a área de aço de um estribo, a área total de armadura no comprimento z (1 + cotg α) é dada por:

A

sw,

α

(

z 1

+

cotg

α

)

s

onde z (1 + cotg α)/s representa o número de estribos nesse comprimento. A tensão σ sw na armadura transversal resulta:

R

s, α

V

A

s

sw, α

s α
s
α

σ

sw, α

A

sw, α

(

z 1

+

cotg

α

)

=

(

z 1

+

cotg

 

s

 

=

V

s

σ

sw,

α

z

(

sen

α +

cos

α

)

A

sw,

α

O

=

α

)

sen

α

A sw,α

Eq. 16

ângulo α de inclinação da armadura transversal pode variar teoricamente de 45° a 90°,

sendo que na esmagadora maioria dos casos da prática o ângulo adotado é de 90°, com a armadura transversal consistindo de estribos na posição vertical. Porém, é interessante fazer algumas

comparações com o ângulo α assumindo os valores de 45° e 90°, o que é mostrado na Tabela 1.

A equação que determina a tensão na diagonal comprimida (σ cb ) mostra que o ângulo α de

inclinação da armadura transversal influencia o valor da tensão na diagonal comprimida. Quando a armadura transversal é colocada na posição vertical, com α = 90°, como a armadura fica inclinada com relação às tensões principais de tração σ I a tensão na diagonal comprimida (biela de compressão) resulta o dobro da tensão para quando a armadura é colocada inclinada a 45°. Conclui-se que, quanto mais inclinada for a armadura – até o limite de 45°, menor será a tensão nas bielas de compressão.

Tabela 1 - Resumo das relações para a treliça clássica em função do ângulo α de inclinação das diagonais tracionadas.

Relação

α qualquer

 

α = 45°

α = 90°

Força na diagonal compri- mida (R cb )

2 V

2 V

 
2 V

2 V

2 V

2 V

 

Tensão na diagonal comprimida (σ cb )

 

2 V

V

 

2

V

 

b

w

z (1+ cotg α)

 

b

w

z

b

w

z

Força de tração na arma- dura transversal (R s )

 

V

V

   

sen α

 

sen 45

V

 

Tensão na armadura transversal (σ sw )

 

V

s

V

s

V

s

z

(

sen

α +

cos

α

)

A

sw, α

z A 2 sw,45
z
A
2
sw,45

z

A

sw,90

O fato já enunciado da armadura transversal inclinada de 45° ser mais eficiente, por acompanhar a inclinação das tensões principais de tração σ I , fica evidenciado ao se comparar as equações da tensão na armadura transversal (σ sw ). Nota-se que a armadura a 45° resulta 2 vezes

s w ). Nota-se que a armadura a 45 ° resulta 2 vezes UNESP (Bauru/SP) –

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

34

de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante 34 menor que a armadura a 90 °

menor que a armadura a 90°. No entanto, a armadura a 45° apresenta comprimento 2 vezes maior que a armadura a 90°, o que acaba levando a consumos de armadura praticamente iguais.

10. TRELIÇA GENERALIZADA (θ variável)

Com base nos resultados de numerosas pesquisas experimentais verificou-se no século passado que a inclinação das fissuras é geralmente inferior a 45°, e conseqüentemente as bielas de compressão têm inclinações menores, podendo chegar a ângulos de 30° ou até menores com a horizontal, em função principalmente da quantidade de armadura transversal e da relação entre as larguras da alma e da mesa, em seções T e I por exemplo (Figura 38). Além disso, a treliça não considera a ação de arco nas proximidades dos apoios. Por não fazer essas considerações a treliça clássica de Ritter-Mörsch é conservadora e conduz à armadura transversal um pouco exagerada.

P P - 30° - 38°
P
P
- 30° - 38°

a) treliça de alma espessa

- 38° - 45°
- 38° - 45°

b) treliça de alma delgada

Figura 38 - Treliça generalizada (CEB, 1979).

Para levar em conta a menor inclinação das fissuras surgiu, na década de 60, a chamada “treliça generalizada”, com ângulos θ menores que 45° para a inclinação das diagonais comprimidas (Figura 39). A determinação correta do ângulo θ para uma viga é muito complexa, porque depende de inúmeros fatores. A dedução das forças na treliça generalizada é semelhante àquela já apresentada para a treliça clássica. Sendo V a força cortante que atua na seção 1-1 da treliça (Figura 39), a força na diagonal comprimida (R cb ) é:

V

R

= R

cb

sen θ

cb

V

= sen θ

Eq. 17

Eq. 18

1 R cb θ 1
1
R
cb
θ
1

V

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

35

z(cotg θ + cotg α)sen θ banzo comprimido diagonal comprimida P 1 V z θ
z(cotg θ + cotg α)sen θ
banzo comprimido
diagonal comprimida
P
1
V
z
θ
θ
α
1
P z(cotg θ + cotg α)
V =
2
diagonal tracionada
banzo tracionado

Figura 39 - Treliça generalizada com diagonais comprimidas inclinadas com ângulo θ e armadura transversal inclinada com ângulo α.

A distância entre duas diagonais comprimidas adjacentes, na direção perpendicular a elas,

é:

z (cot g θ + cotg α)sen θ

A força em cada diagonal comprimida pode ser considerada aplicada na área de concreto

(área da biela):

b w . z (cot g θ + cotg α)sen θ

onde α é o ângulo de inclinação das diagonais tracionadas. A tensão média de compressão na biela é então dada por:

R cb

σ

cb

=

b

w

z

(

cot g

θ+

cotg

α)

sen

θ

 

=

V

 

σ

cb

b

w

z

(

cot g

θ+

cotg

α)

sen

2

θ

Eq. 19

A força na diagonal tracionada (R s,α ) pode ser determinada fazendo o equilíbrio da seção

1-1 da treliça (Figura 39):

V

=

R

s,

R s,

α

=

α

sen

V

α

sen α

Eq. 20

Eq. 21

V

R s,α α
R s,α
α

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

36

Cada diagonal de tração com força R s,α é relativa a um comprimento da viga, a distância

z (cotg θ + cotg α), medida na direção do eixo longitudinal da viga, e deve ser resistida por uma armadura transversal composta por barras (estribos) espaçadas num comprimento s e inclinadas de um ângulo α, como indicado na Figura 39. Considerando A sw a área de aço de um estribo, a área total de armadura no comprimento

z (cotg θ + cotg α) é dada por:

A sw,

α

z

(

cotg

θ+

cot g

α

)

s

onde z (cotg θ + cotg α)/s representa o números de estribos nesse comprimento. A tensão σ sw na armadura transversal resulta:

R s, α

σ

sw, α

=

A

sw

z

(

cot g

θ+

cotg

α

)

 

s

 

=

V

 

s

σ

sw, α

z

(

cot g

θ +

cotg

α

)

sen

α

A

sw, α

Eq. 22

s α
s
α

A sw,α

No modelo de treliça generalizada o ângulo θ é uma incógnita no problema, sendo dependente de diversos fatores. Este é um assunto que vem sendo pesquisado, sendo que nos modelos desenvolvidos por Collins, Mitchell e Vecchio (CFT e MCFT), o ângulo θ é calculado.

11. DIMENSIONAMENTO SEGUNDO A NBR 6118/03

A partir de março de 2003 uma nova versão da NBR 6118 entrou em vigor no Brasil,

trazendo significativas mudanças em relação à sua versão anterior, a NB 1/78, quanto ao dimensionamento da armadura transversal para a resistência de elementos de Concreto Armado e Concreto Protendido à força cortante. A nova NBR 6118/03 manteve a hipótese básica da analogia de viga fissurada com uma treliça, de banzos paralelos. Porém, introduziu algumas

inovações, como a possibilidade de considerar inclinações diferentes de 45° para as diagonais comprimidas (bielas de compressão), novos valores adotados para a parcela V c da força cortante absorvida por mecanismos complementares de treliça, adoção da resistência do concreto à compressão para região fissurada (f cd2 ), constante no código MC-90 do CEB-FIP (1991) e consideração de uma nova sistemática para verificação do rompimento das diagonais comprimidas, por meio da força cortante resistente de cálculo (V Rd2 ) em substituição à tensão de cisalhamento última (τ wu ).

A norma dividiu o cálculo segundo dois modelos, os Modelos de Cálculo I e II. O Modelo

de Cálculo I admite a chamada treliça clássica, com ângulo de inclinação das diagonais

comprimidas (θ) fixo em 45°. Já o Modelo de Cálculo II considera a chamada treliça generalizada, onde o ângulo de inclinação das diagonais comprimidas pode variar entre 30° e 45°. Aos modelos de treliça foi associada uma força cortante adicional V c , proporcionada por mecanismos complementares ao de treliça.

O Modelo de Cálculo I é semelhante ao método constante da versão anterior da norma

(NB 1/78), porém, com alteração no valor da parcela V c . Pode-se dizer que a nova metodologia

1309–Estruturas de Concreto II – Dimensionamento de Vigas de Concreto Armado à Força Cortante

37

introduzida pela NBR 6118/03 segue em linhas gerais o MC-90 do CEB-FIP (1991) e o Eurocode 2 de 1992, com algumas mudanças e adaptações (SIMPLICIO e ÁVILA, 2005).

A condição de segurança do elemento estrutural é satisfatória quando são verificados os

Estados Limites Últimos, atendidas simultaneamente as duas condições seguintes:

onde:

V

Sd

V

Rd2

 

V

Sd

V

Rd3

= V

c

+ V

sw

Eq. 23

Eq. 24

V Sd = força cortante solicitante de cálculo na seção; V Rd2 = força cortante resistente de cálculo, relativa à ruína das diagonais comprimidas de concreto; V Rd3 = V c + V sw = força cortante resistente de cálculo, relativa à ruína por tração diagonal; V sw = parcela absorvida pela armadura transversal.

V c é a parcela de força cortante absorvida por mecanismos complementares ao de treliça. Tem valor empírico e serve para levar em conta os mecanismos básicos de resistência das vigas à força cortante, apresentados na Figura 13, que são difíceis de serem quantificados. Os três mecanismos principais de resistência são proporcionados por:

a)

banzo de concreto comprimido da flexão;

b)

engrenamento dos agregados ao longo das fissuras inclinadas;

c)

efeito de pino da armadura longitudinal.

11.1

Modelo de Cálculo I

No Modelo de Cálculo I a NBR 6118/03 (item 17.4.2.2) adota a treliça clássica de Ritter- Mörch, ao admitir o ângulo θ de 45 o para as diagonais comprimidas de concreto (bielas de compressão), e a parcela complementar V c tem valor constante, independentemente do esforço cortante V Sd .

11.1.1 Verificação da Diagonal Comprimida de Concreto

A equação que define a tensão de compressão nas bielas de concreto para a treliça clássica

(θ = 45 o ) foi deduzida no item 10 (Eq. 13):

σ

cb

2 V

= b

w

(

z 1

+

cotg

α)

A norma limita a tensão de compressão nas bielas ao valor f cd2 , como definido no código

MC-90 do CEB (1991). O valor f cd2 atua como um fator redutor da resistência à compressão do concreto, quando há tração transversal por efeito de armadura e existem fissuras transversais às

tensões de compressão (Figura 40). O valor f cd2 é definido por:

f

cd2

=

0,60