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Deixe vir, deixe ir, meditar é aprender a esquecer.

Revista Bons Fluidos (setembro/2007)

Te or ia s foca n do o bu dism o e a m e dit a çã o nã o fa lt a m n o m u n do. Un s e n ca r a m o


m e dit a r com o t e r a pia , out r os pr e fer e m u m r et ir o ze n a pe na s com o lu ga r de
de sca n so. E por qu e nã o? N o fu n do, os con ceit os pou co im por t a m dia nt e da
e x pe r iê n cia , j á que e ssa , sim , é ca pa z de da r se n t ido a t udo. Aqui o fot ógr a fo e
vide om a k e r Br u no M it ih r egist r a e con t a u m a de sua s a n da n ça s em bu sca do
equilíbrio entre mente, corpo e alma.

Texto e Fotos: Bruno Mitih

Diz a história que Sidarta Gautama, sentado em profunda meditação sob a árvore Bodhi, teria
se iluminado ao avistar a estrela da manhã antes do amanhecer do oitavo dia. Segundo suas
palavras, todos os seres haviam se iluminado nesse momento, tornando-se parte de um só
corpo harmonioso. Assim inspirados, é comum os praticantes do budismo partirem para o
Retiro da Iluminação, anualmente, no período em que o Buda Shakyamuni, como ficaria
conhecido, teria despertado. É o que fazemos de 1 a 8 de dezembro, das 6 horas da manhã
até as 7 e meia da noite, contabilizando cerca de oito horas diárias de meditação (zazen ou
meditação_sentado).
Minha rotina começa às 5 da manhã. O dia nem sequer nasceu e já estamos na rua, eu e
Sodô, uma amiga de Florianópolis que está hospedada em minha casa, em São Paulo. Depois
de 15 minutos de caminhada e quatro quarteirões de subida íngreme, o Himalaia, como diria
minha amiga, alcançamos o metrô. Vamos para o templo Busshinji, na Liberdade, um bairro
conhecido pela concentração de imigrantes japoneses e onde a cultura desse país tem uma
forte presença. Ainda está escuro no templo. Algumas pessoas fazem alongamento para
melhor suportar o dia, outros se apressam nos preparativos para o café-da-manhã, outros
ainda preparam o salão para o longo dia que nos espera. Junto-me aos que preparam o
corpo.
MEDITAÇÃO
Apenas sente-se. Essa é a resposta do mestre a quem procura saber mais sobre o zen. Em
posição de lótus, procuro fazer como o sugerido e me desapegar dos pensamentos, os bons e
os ruins. A idéia é: deixe vir, deixe ir; aprenda a esquecer. Durante o dia todo, vários
instrumentos, como o mokuhan (bloco de madeira tocado com um martelo), marcam o início
e o fim do zazen, da meditação andando, dos intervalos para o descanso e dos sutras
(espécie de oração). Falar? Só o necessário, pois a proposta é esvaziar-se. Até do ego,
acostumado a se movimentar o tempo todo. Lá, a idéia é a não-ação.
No templo da Liberdade, não há espaço para a acomodação, por isso os praticantes voltam
para casa todos os dias. O bicho começa a pegar depois do terceiro dia. Doem as pernas, os
joelhos, as costas. E o humor fica em frangalhos. No primeiro retiro de que participei, fugi.
Depois disso, resolvi fortalecer as pernas, fazendo caminhadas e subindo escadas sempre que
possível. Mas não é só o desconforto físico que nos atinge. Em muitos momentos somos
invadidos por uma alegria e leveza sem igual.

REVERÊNCIA
O bairro da Liberdade fica no centro da cidade. No quarto dia de meditação, o céu estava
escuro e com nuvens apressadas. Imóvel na sala desde as 6 horas da manhã, eu conseguia
ouvir o som da minha respiração, os carros da rua São Joaquim, o alarido de crianças
brincando na calçada, o canto de um bem-te-vi. Como bem diz meu professor: É preciso
iluminar-se no lugar onde vivemos . Não adianta ir para a montanha se depois temos que
voltar para o vaivém urbano.
A imobilidade na sala de meditação foi então quebrada pelo inesperado tocar de um sino. De
pé, Saikawa Roshi, o abade do templo, se levantou, fez três prostrações diante da imagem de
Buda Manjushri, o Buda da sabedoria, e passou a entoar um sutra. Nessa hora, o dia se abriu
e iluminou a sala toda.
Dentro do zendô (sala de meditação), todas as nossas ações são ritualizadas, exigindo um
estado de atenção constante. Fazemos reverência ao Buda Shakyamuni, ao monge mestre,
aos amigos do retiro, à almofada em que meditamos e ao que mais quisermos. O próprio ato
de atenção plena a que nos propomos é uma reverência constante à vida. É a importância do
aqui e agora, um princípio budista experimentado nos pequenos gestos cotidianos. Quando
arrumamos nossos chinelos antes do zazen, estamos contribuindo para a harmonia do
mundo , diz Dogen, o mestre fundador da Escola Soto Zen.
ALIMENTAÇÃO
Comer é a alegria do zen , diz-se. E é mesmo. Esse momento é tão importante quanto o da
meditação. O tenzô (monge chef) prepara as refeições. Vale dizer que essa atividade é muito
respeitada, pois, digamos, além da mente, é preciso alimentar o corpo com a mesma
dedicação.
A cada dia, são destacados alguns participantes do retiro para ajudar a preparar as refeições
e servir (o que você vê nas fotos é hambúrguer de soja com catchup e couve). Essa é uma
maneira de todos colaborarem. Voluntários da comunidade também ajudam na cozinha, além
de doar alimentos. No entanto, em outro retiro, não houve rodízio e fiquei destacado para
servir todos os dias. No início, quis resistir e várias vezes propus ao professor Jisho Handa
que incluísse os outros, sem sucesso. No entanto, apenas servir aos outros foi uma
verdadeira descoberta quando tudo terminou.
A percepção também fica diferente. No retiro, toda tarde há um pequeno lanche. No quinto
dia, tomei a xícara de chá verde e comi os dois biscoitos como sempre. Mas o sabor daquele
chá era diferente de tudo que já tomara. Curioso, fui até a cozinha para ver a marca dele.
Deveria ser importado, imaginei. Mas me enganei. Era um chá exatamente igual ao que eu
tinha em casa.

LIMPEZA
Sempre em silêncio e com a mente concentrada na atividade que se está fazendo, todos os
dias participamos da limpeza do templo. Limpamos assim nossa mente também.
No sétimo dia, o zazen avança até a madrugada. Saikawa Roshi recebe cada participante para
uma entrevista individual em sua sala. Diante do mestre, é hora de tirar dúvidas sobre a
prática. Ele vai responder, mas nem sempre da forma que esperamos ou gostaríamos. Um
amigo contou que fez a seguinte pergunta: Sinto sono durante o zazen, o que faço?
Durma , foi a resposta. Segundo o professor Jisho, não estamos ali para ganhar nada. Ao
contrário, vamos justamente para perder. Perder um pouco de nossa ignorância, nossa
prepotência e nosso apego. Voltamos para casa, Sodô e eu. Sou tomado pela forte intuição de
que algo mudou em mim.

PARA SABER MAIS


TEMPLO BUSSHINJI
R. São Joaquim, 285, Liberdade, São Paulo,
tels. (11) 3208-4515 e 3208-4345.

Fonte: http://bonsfluidos.abril.uol.com.br/livre/edicoes/0101/06/06.shtml