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As Institutas

Edição especial com notas para estudo e pesquisa

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As Institutas - Edição especial com notas para estudo e pesquisa
As Institutas de 1539 Calvino traduziu para o francês (1541), da qual
editora Cultura Cristã traduziu para o português.

Tradução: Dr. Odayr Olivetti


Formato: 16 x 23 cm
- Coleção em 4 volumes, capa dura colorida;
- Total de 1072 páginas em papel Chamois;
- Notas para estudo e pesquisa elaboradas pelo Dr. Hermisten Maia
Pereira da Costa;
- Harmonia temática com a Edição Clássica traduzida do latim;
- Linguagem contemporânea e acessível.

Compre este livro na Cultura Crista http://www.cep.org.br

O que pretendemos nesta apostila é apresentar as Institutas da Religião


Cristã. Portanto o que se segue são as primeiras páginas de cada capítulo,
sendo o último (Capítulo XVII - Vida Cristã) completo. Segue também
algumas considerações nas páginas finais. Com isso pretendemos produzir o
interresse da leitura por esta Maravilhosa obra de João Calvino.
Montado pelo site Teologia Calvinista
25 de Julho de 2007 e atualizado em 14 de Maio de 2008.
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A Institutio christianae religionis (Instituição da Religião Cristã) é um manual de


instrução cristã, ou, como dirá Calvino, um resumo, uma “suma”, do ensino doutrinário
próprio para a formação de um cristão. Este livro de João Calvino é a obra mais influente
da Reforma Protestante e depois das Escrituras Sagrada não há nada que se compare a ela.
As Institutas começaram com Deus, concluíram com Deus e encontraram todas as coisas
em Deus, o Deus triúno. Calvino escreveu com clareza, com uma lógica de advogado.
Escreveu eloqüentemente, como um autor que maneja com perícia as suas palavras.
Escreveu brilhantemente, com uma mente que aprende a inteireza da verdade de Deus
como é possível ao homem conhecê-la. Escreveu apaixonadamente, com um coração
devotado inteiramente ao seu Senhor. E escreveu humildemente, porquanto sua vida tinha
sido resgatada do lamaçal do pecado unicamente pela graça de Deus. Ninguém havia
escrito assim anteriormente. E, posteriormente, ninguém conseguiu escrever de maneira a
aproximar a magnificência com que Calvino expôs as “verdades da religião cristã”.

João Calvino

Jean Cauvin, mais conhecido por nós como João Calvino, nasceu em
Noyon, França, em 10 de Julho de 1509. Aos 14 anos foi estudar em
Paris preparando-se para entrar na universidade. Estudou gramática,
retórica, lógica, aritmética, geometria, astronomia e música. Em 1523
foi estudar no famoso Colégio Montaigu.
Em 1528, com 19 anos, iniciou seus estudos em Direito e, depois, em
Literatura. Em 1532 escreveu seu primeiro livro, um comentário à
obra De Clementia de Sêneca. Em 1533, na reabertura da
Universidade de Paris, escreveu um discurso atacando a teologia dos
escolásticos e foi perseguido. Possivelmente foi neste período 1533-
34 que Calvino foi convertido pelo Senhor, por influência de seu
primo Robert Olivétan.
Em 1536, a caminho de Estrasburgo, encontrou uma estrada obstruída, o que o fez passar a
noite em Genebra. Como sua fama já o precedia, Farel o encontrou e o convenceu a
permanecer em Genebra para implantarem a Reforma Protestante naquela cidade.
Começou a escrever a obra magna da Reforma – As Institutas da Religião Cristã. Em 1538
foi expulso de Genebra e viajou para Estrasburgo, onde trabalhou como pastor e professor.
Casou-se com uma viúva anabatista chamada Idelette de Bure. Em 1541 foi convidado a
voltar a Genebra. Em 1559 escreveu a edição final das Institutas e, no decorrer de seus
poucos anos de vida, escreveu tratados, centenas de cartas, e comentários sobre quase
todos os livros da Bíblia.

Em 27 de Maio de 1564, com 55 anos de idade, foi ao encontro do Senhor. O grande


Teólogo da Reforma, usado por Deus, influenciou o mundo com seus escritos. Sua piedade
e dedicação ao estudo da Palavra são inspiradores. [www.seminariojmc.br]

Ele viveu cinqüenta e quatro anos, dez meses, e dezessete dias, e dedicou metade de sua
vida ao sagrado ministério. Ele tinha estatura mediana; a aparência sombria e pálida; os
olhos eram brilhante até mesmo na morte, expressando a agudez da sua compreensão.
Theodore Beza

Eu poderia feliz e proveitosamente assentar-me e passar o resto de minha vida somente


com Calvino.
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Carta de Karl Barth ao amigo Eduard Thurneysen, escrita em 8 de junho de 1922.

Calvino, falando das diversas calúnias que levantavam contra ele, partindo, inclusive, de
falsos irmãos, diz:

Só porque afirmo e mantenho que o mundo é dirigido e governado pela secreta providência
de Deus, uma multidão de homens presunçosos se ergue contra mim alegando que
apresento Deus como sendo o autor do pecado. [...] Outros tudo fazem para destruir o
eterno propósito divino da predestinação, pelo qual Deus distingue entre os réprobos e os
eleitos.

O que nos chama a atenção na aproximação bíblica de Calvino é, primeiramente, o seu


amplo e em geral preciso conhecimento dos clássicos da exegese bíblica, os quais cita com
abundância, especialmente Crisóstomo, Agostinho e Bernardo de Claraval. Outro aspecto é
o domínio de algumas das principais obras dos teólogos protestantes contemporâneos, tais
como Melanchton – a quem considerava um homem de “incomparável conhecimento nos
mais elevados ramos da literatura, profunda piedade e outros dons [e que por isso] merece
ser recordado por todas as épocas" –, Bucer e Bullinger. Contudo, o mais fascinante é o
fato de que ele, mesmo se valendo dos clássicos – o que, aliás, nunca escondeu –,
conseguiu seguir um caminho por vezes diferente, buscando na própria Escritura o sentido
específico do texto: a Escritura interpretando-se a si mesma.¹

Autor: Hermisten Costa


Fonte: Coleção Pensadores cristãos - Calvino de A a Z, Editora Vida, Compre este Livro em
http://www.editoravida.com.br

Não nos é possível precisar as circunstâncias e data da “súbita conversão” de Calvino.

No que se refere à sua conversão, em 1539 diz:

“Contrariado com a novidade, eu ouvia com muita má vontade e, no inicio, confesso, resisti
com energia e irritação; porque (tal é a firmeza ou descaramento com os quais é natural
aos homens resistir no caminho que outrora tomaram) foi com a maior dificuldade que fui
induzido a confessar que, por minha vida, eu estivera na ignorância e no erro” [a].

Na Introdução do seu comentário de Salmos (1557), diz que: “Inicialmente, visto eu me


achar tão obstinadamente devoto às superstições do papado, para que pudesse
desvencilhar-me com facilidade de tão profundo abismo de lama, Deus, por um ato súbito
de conversão, subjugou e trouxe minha mente a uma disposição suscetível, a qual era mais
empedernida em tais matérias do que se poderia esperar de mim naquele primeiro período
de minha vida”[b].

Nota:
[a] Juan Calvino, Respuesta al Cardeal Sadoleto, 4ª ed. Barcelona, Fundación Editorial de
Literatura Reformada, 1990, p. 63.
[b] João Calvino, O livro de Salmo, São Paulo, Parakletos, 1999, Vol 1, p. 38.

Autor: Dr. Hermisten Maia Pereira da Costa


Fonte: Nota 1 da página 11, Vol I, As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed.
Cultura Cristã, tradução Odayr Olivetti.
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índice
João Calvino - 02

Volume I

Capítulo I - O Conhecimento de Deus - 05

Capítulo II - O conhecimento do homem e o livre-arbítrio - 07

Capítulo III - A Lei - 09

Volume II

Capítulo IV - Fé: Credo Apostólico - 11

Capítulo V – Arrependimento - 14

Capítulo VI - Justificação pela Fé - 17

Volume III

Capítulo VII - Semelhança e diferença do AT e NT - 20

Capítulo VIII - A Predestinação e Providência - 22

Capítulo IX - A Oração - 29

Capítulo X - Os Sacramentos - 32

Capítulo XI - O Batismo - 35

Volume IV

Capítulo XII - A Ceia do Senhor - 38

Capítulo XIII - Os Cincos outros Sacramentos - 40

Capítulo XIV - A Liberdade Cristã - 41

Capítulo XV - Poder Eclesiástico - 43

Capítulo XVI - Governo Civil - 45

Capítulo XVII - Vida Cristã – 47 – CAPÍTULO COMPLETO

Algumas Considerações

Breve História das Institutas

Objetivo das Institutas da Religião Cristã - 73

Efeito produzido pelas Institutas e testemunhos - 74

Circunstância da Publicação das Institutas - 76

Fonte, Tom e Testemunho invocados das Institutas - 80

Recomendamos - 83
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Volume I
Capítulo I

O Conhecimento de Deus
1. A sabedoria integral está no conhecimento de Deus e do homem

[1536] A soma total da nossa sabedoria, a que merece o nome de sabedoria verdadeira e
certa, abrange estas duas partes: o conhecimento que se pode ter de Deus, e o de nós
mesmos.
[1539] Quanto ao primeiro, deve-se mostrar não somente que há um só Deus, a quem é
necessário que todos prestem honra e adorem, mas também que ele é a fonte de toda
verdade, sabedoria, bondade, justiça, juízo, misericórdia, poder e santidade, para que dele
aprendamos a ouvir e a esperar todas as coisas. Deve-se, pois, reconhecer, com louvor e
ação de graças, que tudo dele procede.

Quanto ao segundo, revela a nossa ignorância, miséria e maldade, induz-nos à humildade,


à não confiança própria e ao desprezo de nós mesmos; inflama em nós o desejo de buscar a
Deus, certos de que nele repousa todo o nosso bem, do qual nos vemos vazios e desnudos.

Ora, não é fácil discernir qual dos dois precede o outro e o produz. Porque, visto que o
homem está repleto de qualidade indignas, mal nos contemplamos e tomamos
conhecimento das nossas péssimas condições, e de imediato elevamos os olhos a Deus para
que dele venha um pouco de conhecimento a seu respeito. Assim, graças ao sentimento
que temos da nossa pequenez, da nossa insensatez e vaidade, e mesmo da nossa
perversidade e corrupção, reconhecemos que a verdadeira grandeza, sabedoria, verdade,
justiça e pureza estão em Deus.

Finalmente, somos impedidos por nossas maldades e fraquezas de considerar os bens do


Senhor, e não podemos sequer aspirar com amoroso empenho aos bens divinos, enquanto
não começarmos a ficar aborrecidos com nós mesmos. Pois, qual dos homens não descansa
em si mesmo e em si mesmo não tem prazer? Quem não descansa desse modo e durante
todo o tempo em que não se conhecendo bem mostra-se satisfeito com as suas capacidades
e ignora as suas miseráveis condições? Porquanto, cada um de nós não somente é instigado
pelo conhecimento de si próprio a buscar a Deus, mas é como que levado pela mão ao seu
encontro.

2. Conhecer o homem depende de conhecer a Deus

Por outro lado, é notório que o homem jamais pode ter claro conhecimento de si mesmo,
se primeiramente não contemplar a face do Senhor, e então descer para examinar a si
mesmo. Porque esta arrogância está arraigada em todos nós – sempre nos julgamos justos,
verdadeiros, sábios e santos, a não ser que, havendo sinais evidentes, sejamos convencidos
de que somos injustos, insensatos e impuros. Mas não seremos convencidos se só dermos
atenção a nós mesmos, e não também ao Senhor, pois esta é a regra única à qual é
necessário que se ajuste o julgamento que se queira fazer. Isso porque, uma vez que nós
somos naturalmente inclinados à hipocrisia, em vez de contentar-nos com a verdade,
ficamos muito satisfeitos com uma vã aparência de justiça. E, tendo em vista que não há
nada em nós que não esteja gravemente contaminado por grosseira impureza, o que nos
parece um pouco menos vil aceitamos como elevada pureza, enquanto mantemos o nosso
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espírito dentro dos limites da nossa condição humana, que é totalmente corrupta. É o que
acontece com olhos só acostumados a verem a cor negra; uma brancura um tanto obscura
ou mesmo acinzentada é, para esses olhos, a mais alva brancura. Todavia, menos se pode
compreender as qualidades da alma e mais enganados seremos nessa compreensão,
comparando-a com a nossa visão física. No entanto, quando em pleno dia olhamos para o
solo ou para as coisas que estão ao nosso redor, achamos que a nossa visão é clara e firme.
Mas quando elevamos o nosso olhar diretamente para o Sol, somos constrangidos a
confessar que a excelente visão que tínhamos quando olhávamos a terra fica confusa,
ofuscada pelo fulgor do Sol.

É o que acontece quando avaliamos os nossos poderes espirituais. Porque, enquanto a


nossa contemplação vai ale da terra, ficamos satisfeitos com a nossa justiça, com a nossa
sabedoria e com a nossa capacidade ou poder, e nos gratificamos e nos elogiamos a nós
mesmos, pouco faltando para que nos consideramos semideuses. Mas se, uma vez que seja,
pensarmos no Senhor e virmos a perfeição da sua justiça, da sua sabedoria e do seu poder,
a cujo modelo devemos ajustar-nos, o que nos agrava parecendo justiça, logo veremos que
não passa de uma grande iniqüidade, o que nos impressionava maravilhosamente sob
título de sabedoria se revelará como loucura extrema, e o que tinha a aparência de
capacidade se mostrará miserável fraqueza. Assim, o que em nós tem aparência de
absoluta perfeição nem de longe se assemelha à pureza de Deus.

Aqui são apenas as duas primeiras páginas do capítulo I, Calvino continua a desenvolver
este assunto maravilhosamente. Compre este maravilhoso livro em
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Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 1, pg 55-56.
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Capítulo II

O Conhecimento do homem e o Livre-arbítrio


1. Conhece-te a ti mesmo

[1539] Não é sem motivo que o provérbio antigo recomenda tanto ao homem o
conhecimento de si mesmo. Porque, se achamos que é uma vergonha ignorar as coisas
pertencentes à vida humana, o desconhecimento de nós mesmo é muito mais prejudicial,
pois, dependendo do conselho alheio sobre todas as coisas, deixamos-nos enganar
lamentavelmente, e acabamos até ficando totalmente cegos. Mas, assim como o preceito é
muitíssimo útil, com muito maior razão é necessário cuidar diligentemente para não
entendê-lo mal. Isso temos visto acontecer com alguns filósofos. Porque, quando eles
admoestam o homem no sentido de conceder a si próprio, reduzem o seu objetivo a
considerar sal dignidade e suas qualidades excelentes. Com isso, levam-no a nada mais
contemplar, senão aquilo no que ele possa exaltar-se em vã confiança própria e inchar-se
de orgulho.

2. Sem presunção

Ora, a verdade de Deus nos manda procurar outra coisa, quanto à nossa estima própria.
Manda-nos buscar um conhecimento que nos afaste para longe de toda presunção quanto
à nossa virtude pessoal e nos despoje de todo tipo de glória, para nos levar à humildade.
Essa é a regra que devemos seguir, se desejamos conseguir o objetivo do bem sentir do
bem fazer. Sei quanto é agradável ao homem que o levem a reconhecer seus talentos e as
suas qualidades elogiáveis, em vez de ser levado a entender e a enxergar a sua pobreza, a
sua infâmia, a sua torpeza e a sua loucura. Porque não há no espírito humano maior
apetite que o de que lhe passem mel na boca dizendo-lhe doces palavras lisonjas.

3. Fome de lisonjas, e seus estragos

Todavia, quando os ser humanos vê que mostram apreço por suas qualidade, inclina-se a
acreditar em tudo o que lhe dizem a seu favor. Portanto, não é de admirar que a maior
parte do mundo erre desse modo nesse aspecto. Uma vez que os seres humanos têm um
amor desordenado e cego por si mesmos, mostram-se dispostos a acreditar que não existe
meles nada que mereça desprezo. Assim, sem necessidade de outro advogado, todos
acolhem a vã opinião de que o ser humano é auto-suficiente para ter uma vida digna e feliz.
Se existem alguns que se dispõem a um sentimento mais modesto, concedendo alguma
coisa a Deus para que não pareça que atribuem tudo a si mesmo, não obstante repartem
tudo entre Deus e eles. Mas fazem isso de tal maneira que a maior parte da virtude, da
sabedoria e da justiça fica com eles. Sendo, pois, assim, que o ser humano é tão inclinado a
gabar-se, não há nada que o possa agradar mais do que quando o afagam com vãs lisonjas.
É por isso que aquele que mais exalta a excelência da natureza humana é sempre o mais
bem recebido. Todavia, essa doutrina – a que ensina o ser humano a aprovar a si mesmo –
não faz mais que enganá-lo. E isso, seja quem for aquele em quem se ponha fé, só causará
ruína. Pois, que proveito poderemos ter em conceber uma vã aliança para deliberar,
ordenar, tentar e empreender o que nos parece bom, e, entretanto, fraquejar, tanto por
falta de uma inteligência saudável quanto por falta de capacidade para pretendida
realização? Fraquejar, ou mostrar fraqueza, digo eu, desde o começo, e, contudo, insistir
nesse intento com coração obstinado até sermos totalmente postos em confusão. Ora, não
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pode ver outro fruto aos que se acham capazes de fazer qualquer coisa por sua própria
virtude e poder. Se alguém der ouvidos aos mestres que falam dessa maneira, os quais nos
distraem querendo que tenhamos consideração por nossa justiça e virtude, esse, que lhes
dá ouvidos, não terá proveito nenhum no conhecimento de si próprio, mas estará cego,
vítima de perniciosa ignorância.

Aqui são apenas as duas primeiras páginas do capítulo II da Institutas – Edição especial.
Calvino continua a desenvolver este assunto maravilhosamente e neste capítulo II, mas a
frente fala sobre o livre-arbítrio. Compre este maravilhoso livro em
http://www.cep.org.br.

Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 1, pg 81-83.
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Capítulo III

A Lei
1. Introdução

[1539] Ao explicarmos as coisas que se requerem para o verdadeiro conhecimento de Deus,


não é possível concebê-lo segundo a sua grandeza, sem que imediatamente nos venha à
mente este pensamento: somente ele tem a majestade merecedora de soberana honra.
Quanto ao conhecimento de nós mesmos, dissemos que o ponto principal é que, estando
vazios de toda fantasia ou ilusão sobre o nosso próprio poder, despojados de toda
confiança em nossa justiça, e, ao contrário, abatidos pela consideração da nossa pobreza,
aprendemos a perfeita humildade, rebaixando-nos e destituindo-nos de toda glória. Ambos
esses aspectos nos são mostrados pela lei de Deus, na qual o Senhor, reivindicando
primeiramente o poder de comandar, ensina-nos a ter reverência por sua divindade,
demonstrando em que se situa essa reverência; e a seguir, tendo ordenado a regra de
justiça, ele nos recrimina, tanto por nossas tendências como por nossa injustiça.
Igualmente mostra que a justiça da nossa natureza, sendo, como é, corrupta e perversa, é
inteiramente contrária e repulsiva à justiça de Deus. E mais: que à perfeição dessa justiça
as nossas faculdades pessoais não podem corresponder, débeis e inúteis que são para a
prática do bem. Portanto, a ordem que registra que registramos no começo desta obra nos
leva a tratar agora da lei de Deus.

2. A lei interior

Ora, tudo o que nos é necessário saber dela, de algum modo nós é ensinado pela lei
interior, da qual dissemos acima que está escrita e praticamente impressa no coração de
cada ser humano. Porque a nossa consciência não nos deixa dormir um nosso perpétuo
sem nenhum sentimento. Antes, em nosso íntimo, ela nos dá testemunho e nos admoesta a
respeito do que devemos a Deus, mostra-nos a diferença entre o bem e o mal, e assim nos
acusa quando deixamos de cumprir o nosso dever. Todavia, o homem está de tal maneira
envolvido nas trevas da ignorância que a duras penas consegue, por essa lei natural, ter
uma bem fraca percepção de qual serviço agrade a Deus. Ao menos, longe está de conhecê-
lo retamente. Além disso, tão inchado de orgulho e de ambição é ele, tão cego de amor-
próprio, que nem mesmo pode observar a si mesmo e descer ao seu nível para aprender a
humilhar-se e confessara sua miséria. Por isso, conforme necessário à altivez do nosso
espírito e à nossa arrogância, o Senhor nos outorgou sua lei, escrita, para nos dar mais
certo e claro testemunho dos pontos muitos obscuros da lei natural e, ponto fora a nossa
negligência ociosa, tocar mais vivamente o nosso espírito e a nossa memória.

3. O que se de aprender da lei

Agora fica fácil entender o que se aprender da lei. São as seguintes verdades: como Deus é
o nosso Criador, tem todo o direto de ocupar sobre nós a posição de Senhor e Pai; por essa
razão, devemos render-lhe glória, reverência, amor e temor; e ainda, não somos livres para
seguir a cobiça do nosso espírito, para onde quer que nos incite. Mas aprendemos também
que em tudo dependemos do nosso Deus e devemos restringir-nos unicamente àquilo que
lhe dá prazer; e mais, que a justiça e a retidão lhe são agradáveis, ao passo que, ao
contrário, a iniqüidade lhe é abominável. Por isso, se não quisermos por perversa
ingratidão abandonar p nosso Criador, devemos amar justiça e aplicar-nos a estudá-la a
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vida toda. Porque, se somente lhe prestamos a devida reverência quando preferimos a
vontade de Deus à nossa, segue-se que não se pode dar-lhe outra honra legítima que não
seja a observância da justiça, da santidade e da pureza. E não elícito ao homem desculpar-
se por não ter capacidade e, como um devedor pobre, por não ter com que pagar. E não é
conveniente nem sensato medir a glória de Deus pelos nossos poderes, visto que, o que
quer que sejamos, ele é sempre comparável a si mesmo – e ele é amigo da justiça e inimigo
da iniqüidade. E qualquer coisa que exija de nós, visto que só fazê-lo com justiça, só temos
que obedecer, por obrigação natural.

O que não conseguimos fazer é por nosso defeito, porque, se somos detidos como que
amarrado, por nossa cobiça, na qual impera o pecado, não estando livres para obedecer ao
nosso Pai, não devemos, para defender-nos, alegar que se trará de um mal necessário,
sendo que o mal está em nós e a nós deve ser imputado.

Aqui são apenas as duas primeiras páginas do capítulo III da Institutas – Edição
especial. Calvino continua a desenvolver este assunto maravilhosamente e neste capítulo
III, mas à frente, explica cada mandamento do Decálogo do ponto de vista prático, e
depois o Sumário da Lei, dado por Jesus Cristo. Compre este maravilhoso livro em
http://www.cep.org.br de seqüência a leitura.

Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 1, pg
163,164.
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Volume II

Capítulo IV

A Fé, ou Explicação do Credo dos Apóstolos¹

[1536] Agora é fácil entender, graças ao que foi tratado no livro anterior, quais deveres o
Senhor exige de nós em sua lei. Lembremo-nos de que, se falharmos no menor ponto, ele
manifestará a sua ira e o seu terrível juízo, condenando-nos à morte eterna. Além disso, ele
declarou que, não somente é difícil aos homens o cumprimento da lei, mas também que
essa é uma coisa que está acima das suas forças. Porque, se levarmos em conta somente a
nós mesmos, considerando o que merecemos, não nos restará sequer uma gota de boa
esperança, mas, sim, um desespero mortal, uma vez que somos totalmente rejeitados por
Deus.

Mas depois ficou demonstrado que existe um meio, um só, de evitar essa calamidade, a
saber, a misericórdia de Deus, contanto que a recebamos com uma fé segura e firme e que
nela descansemos com inabalável esperança.

1. A natureza e o fim da fé

[1539] Cabe-nos agora explicar como deve ser essa fé, por meio da qual todos quantos o
Senhor escolheu para serem seus filhos entram na posse do reino celestial. É sabido e
notório que nenhuma opinião ou persuasão, que não proceda de Deus, seria suficiente para
gerar tão grandioso bem. É necessário que nos dediquemos com o mais diligente empenho
a procurar conhecer a verdadeira natureza de fé, pois vemos hoje em dia quão perniciosa é
a ignorância generalizada sobre este assunto. Porque, em sua grande maioria, os homens
entendem que a fé é uma simples e comum credulidade, com a qual eles dão assentimento,
ou seja, mostram uma aceitação superficial da narrativa do evangelho. Esse mal, como
tantos outros numerosos males, deve ser atribuído aos sofistas e a certos mestres da
Sorbonne. Esses tais, além de diminuírem o valor da fé pela obscura e sombria definição
que dela fazem, arranjando uma frívola distinção entre a fé formada e a fé informe,
atribuem o título de fé a uma opinião vã e vazia do temor de Deus de toda piedade. Toda a
Escritura contradiz esse fátuo conceito.

2. Impugnação da falsa definição, com base na natureza da fé

Disponho-me a impugnar a definição deles declarando simplesmente a natureza da fé


como demonstrada pela Palavra do Senhor, pela qual se vê claramente como eles falar e
falaram sobre isso, mas de maneira confusa e sem espírito. A distinção que eles fazem não
vale uma pitanga! Porque, embora concedamos, para fins didáticos, que existem duas
espécies de fé, quando queremos mostra que tipo de conhecimento de Deus é o dos ímpios,
todavia reconhecemos e confessamos com o apóstolo Paulo que os ilhós de Deus só têm
uma fé.

É verdade que [1536] muitos crêem que só existe um Deus e que o conteúdo do Evangelho
e da Escritura é verdadeiro. Mas crêem nisso baseados no mesmo critério com que estão
habituados a julgar como sendo verdade o que se lê nas histórias e o que os olhos vêem.
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[1539]Há outros que vão além, pois têm a Palavra de Deus como um oráculo indubitável,
não menosprezam nenhum dos mandamentos, e de algum modo são sensibilizados pelas
promessas. Dizemos que as pessoas desse tipo não estão sem fé; mas falam de maneira
imprópria, porque não impugnam com manifesta impiedade a Palavra de Deus, e não
rejeitam nem a desprezam, mas têm alguma aparência de obediência.

[1536] Todavia, como essa sombra ou imagem de fé é nula e não tem nenhuma
importância, tampouco merece o nome de fé.

[1539] E embora logo vejamos mais amplamente quanto esse tipo de fé difere da
verdadeira, não fará mal fazemos um breve demonstração.

3. Simão, o mágico, e os tipos de terreno improdutivo

Diz a Escritura que Simão, o mágico, creu [At 8.13], ma ele manifesta pouco depois a sua
incredulidade. Não entendemos, com alguns, que esse testemunho de fé é só de palavras,
dé fingida, sem nada no coração. Entendemos, antes, que, cativada pela majestade divina,
a pessoa ajusta esse tipo de fé, de modo que, reconhecendo Cristo como o autor da vida e
da salvação, de voa vontade o aceita como tal.

Nesse sentido, o Senhor diz, em Lucas, capítulo 8 (Lc 8.13), que os que “crêem apenas por
algum tempo” são aqueles nos quais a semente da palavra é sufocada e os frutos não
vingam, ou seca-se a tenra planta e se perde, sem fincar raiz. Não temos dúvida de que eles
sentem gosto pela palavra, recebem-na de boa vontade e são abalados pelo seu poder, ao
ponto de, em sal hipocrisia, enganarem não somente os homens, mas também o seu
próprio coração. Porque eles se persuadem de que a sua reverência apara com a palavra de
Deus é a piedade mais verdadeira que eles podem ter. Isso porque só vêem impiedade
quando a palavra é manifestamente vituperada ou menosprezada.

Pos bem, seja o que for essa forma de receber o evangelho, este não penetra o coração para
ali se fixar. E, embora às vezes pareça fincar raízes, não obstante estas não são vivas. Assim
é o coração humano, cheio de vaidade, com os mais diversos esconderijos de mentiras!
Acha-se envolto em tanta hipocrisia que se engana a si mesmo. [1536] Mas, tomara aqueles
que se gloria em tal simulacro da fé entendam que em nada são superiores ao Diabo neste
aspecto (Tg 2.19).

[1539] Certamente, os primeiros dos quais falamos são muito inferiores, visto permanecem
desatentos, apesar de ouvirem coisas que fazem tremer os demônios. Nisto os outros são
parecidos, pos o sentimento que eles têm acabam finalmente em terror e angústia

4. A verdadeira fé cristã²

Diferentemente, a verdadeira fé cristã, a única que de fato merece ser chamada fé, não se
satisfaz com um simples conhecimento da história, e se estabelece no coração do homem,
limpando-o do corante, da ficção e da hipocrisia que o cobriam, e ocupando-o de tal
maneira que não há o que desaparecer levianamente.

Primeiro, para podermos entender a sua força e a sua propriedade, é preciso que tenhamos
o cuidado de recorrer à Palavra de Deus, com a qual ela tem tal afinidade e correlação que
não poderá ser bem avaliada fora dela. [1536] Porque a palavra é como se objeto e sua
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meta, pelo que a fé deve estar perpetuamente atenta incerta e um erro flutuante. [1536] A
mesma Palavra é também o fundamento em que a fé se sustém e se apóia, e, se for retirada
desse fundamento, imediatamente cai. [1539] Se a Palavra for retida, não restará fé.

Nota:
¹ Leia o credo apostólico em
http://www.teuministerio.com.br/BRSPIGBSDCMCMC/vsItemDisplay.dsp&objectID=CF641E62-F9AD-48C0-
9E4755448BDD87AB&method=display
² “[Fé] É um conhecimento firme e certo da vontade de Deus concernente a nós,
fundamento sobre a verdade da promessa gratuita feita em Jesus Cristo, revelada ao
nosso entendimento e selada em nosso coração pelo Espírito Santo.” (As Instituas, III 2.7)

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especial. Calvino continua a desenvolver este assunto Maravilhosamente nas páginas
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Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 2, pg 5-8.
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Capítulo V

O Arrependimento

[1539] Depois das considerações sobre a fé, é necessário falar subsequentemente sobre o
arrependimento, visto que este não somente é parte integrante da fé, mas também é gerado
por esta. Porque, assim como a graça e a remissão dos pecados são apresentadas ao
pecador pela pregação do evangelho para que, sendo libertado da miserável servidão do
pecado e da morte, seja transferido para o reino de Deus, segue-se que ninguém pode
receber a graça do evangelho pela fé, sem que volte atrás em sua vida extraviada, tome o
caminho reto e se dedique com todo o empenho a refletir no verdadeiro arrependimento.

1. O que vem antes?

Os que julgam que o arrependimento precede à fé, e não que dela procede, são movidos a
isso por uma razão muito superficial. Cristo, dizem eles, e João Batistas, em seus sermões,
exorta primeiro ao arrependimento e depois dizem que o reino de Deus está próximo. Essa
instrução, dizem eles, é baixada aos apóstolos, e essa ordem de fatores é seguida pelo
apóstolo Paulo, nos termos em que é citado pelo evangelista Lucas. Mas eles ficam
supersticiosamente presos à ordem das sílabas; não levam em conta o propósito das
sentenças e como são colocadas juntas. Porque, quando Jesus Cristo e João batista fazem
esta exortação, “Arrependi-vos, porque está próximo o reino dos céus”, não deduziram
que a causa do arrependimento está no fato de que Jesus Cristo nos oferece graça e
salvação? Por isso, aquelas palavras valem como se eles tivessem dito: “Visto que o reino
dos céus está próximo, arrependei-vos”. O próprio apóstolo Mateus, tendo citado essa
pregação de João Batista, registra que com ela se cumpriu a profecia de Isaías [Mt 3.2,3]
referente à “Voz do que clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor; endireitai no
ermo vereda a nosso Deus’.”[Is 40.3] Ora, a ordem do profeta é que a voz deveria começar
por consolações e por notícia alegre. Não obstante, quando dizemos que a origem do
arrependimento está na é, não temos a intenção de dizer que haja algum intervalo de
tempo no qual ele deixe de ser gerado, mas queremos dizer que o homem não pode aplicar-
se retamente ao arrependimento se não reconhecer que pertence a Deus. Ora, ninguém
pode concluir que pertence a Deus, a não ser que primeiro tenha reconhecido a sua graça.
Mas estas coisas serão mais claramente deduzidas conforme avançarmos neste estudo.

Ademais, os que inventam nova modalidade de Cristianismo, exigindo do candidato ao


batismo alguns dias de arrependimento antes de ser recebido à comunhão da graça do
evangelho, não têm nenhuma analogia de apoio ao se erro e à sua tolice. Refiro-me a
muitos anabatistas, e principalmente àqueles que gostam de ser chamados espirituais. Mas
essas coisas são frutos produzidos por um certo espírito de cegueira frenética, que ordena
que se exercite o arrependimento uns poucos dias, quando o cristão deve continuar essa
prática durante toda a sua vida.

2. Componentes do arrependimento

[1536] Alguns homens sábios, e isso há muito tempo, querendo pura e simplesmente alar
do arrependimento segundo a regra da Escritura, diziam que ele consiste de duas partes,
quais sejam: a mortificação e a vivificação. E interpretavam a mortificação como uma dor e
um terror do coração, forma de sentir que se concebe pelo conhecimento do pecado e pelo
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senso do juízo de Deus. Porque, quando alguém é induzido ao verdadeiro conhecimento do


se pecado, começa então a odiá-lo e a detestá-lo. Aí ele verdadeiramente se desgosta
consigo mesmo em seu coração, confessa-se miserável e confuso, envergonhado, e aspira a
ser o que não é. E mais, se sente tocado pelo sentimento do juízo de Deus (porque um se
segue imediatamente ao outro), humilhado, aterrorizado e abatido, ele reme, perturbar-se
e perde toda a esperança. Eis ai a primeira parte do arrependimento, que se chama
contrição. Os homens acima citados interpretam a vivificação como uma fortalecedora
consolação produzida pela fé. Isso acontece quando o homem, confuso e envergonhado
pela consciência do seu pecado e atingido pelo temor de Deus, pondo os olhos na bondade
e na misericórdia de Deus, na graça e na salvação que há em Jesus Cristo, reanima-se,
respira, toma coragem, e se sente como pouco menos que retornado a morte à vida.

3. Duas espécies de arrependimento

Outros, vemos na Escritura diferentes nomes para o que estudamos aqui, falam e duas
espécies de arrependimento. E, para distinguir entres elas, a um chamam legal, pela qual o
pecador, angustiado pelo duro castigo imposto ao se pecado, e como que partido ou
quebrado pelo terror da ira de Deus, permanece preso a essa perturbação, sem poder se
desentravar. A outra espécie eles chama de arrependimento evangélico, pelo qual o
pecador, estando lamentavelmente ensimesmado e aflito, não obstante levanta-se e eleva-
se, abraçando a Jesus Cristo como o remédio para a sua chaga, o consolo para o terror que
o abate, o bom porto para o abrigar em sua miséria. Caim, Saul, Judas [Gn 4.8-16; 1Sm15;
Mt 27.3-5] são exemplos do arrependimento legal. Quando a Escritura nos descreve o
arrependimento deles, ela entende que, depois de conhecerem a gravidade do seu pecado,
temeram a ira de Deus, mas, só pensando na vingança e no juízo de Deus, deixaram-se
dominar por esse pensamento. Portanto, o seu arrependimento não é nada mais nada
menos que o portal do inferno. Nele entrando desde a presente existência, já começaram a
sofrer o peso da ira da majestade de Deus.

4. O arrependimento evangélico

Vemos o arrependimento evangélico em todos aqueles que, depois de feridos pelo aguilhão
do pecado, firmados, porém, na confiança na misericórdia de Deus, voltam a ele. Ezequias
turbou-se, tendo recebido a mensagem de que ia morrer, mas, chorando, orou e,
considerando a misericórdia de Deus, recobrou a confiança [2Rs20.1-11]. Os ninivitas se
apavoraram ante a terrível declaração da sua ruína [Is 37]; mas, cobrindo-se de pano de
saco e de cinzas, oraram, na esperança de que o Senhor mudasse da idéia e se desviasse do
furor da sua ira [Jn 3]. Davi confessou que tinha pecado gravemente quando fez o
recenseamento do povo, mas acrescentou: “Ó Senhor, peço-te que perdoes a iniqüidade do
teu servo” [2Sm 24.10,25]. À repreensão feita por Nata, Davi confessou o crime de
adultério e se prostrou diante de Deus [2Sm12.13], mas igualmente recebeu perdão. Assim
foi o arrependimento dos que, tendo ouvido a pregação de Pedro, confrangeram-se de
coração, mas, confiantes na bondade de Deus, clamaram: “Quem faremos, irmãos?”[At
2.37] Dessa natureza foi também o arrependimento do apóstolo Pedro que “chorou
amargamente” [Lc 22.62], mas não perdeu a esperança.

5. Que é arrependimento?

Embora sejam verdadeira todas estas coisas, e são, todavia, visto que as posso aprender da
própria Escritura, é necessário, por outro lado, entender o que significa arrependimento.
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Pois, confundir a fé com o arrependimento é um erro repudiado pelo que diz o apóstolo
Paulo em Atos, quando declara que, diante do juiz de vivos e de mortos, ele vinha
“testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em
nosso Senhor Jesus Cristo” [At 20.21; cf. At 10.42]. Nessa passagem, o apóstolo fala da fé e
do arrependimento como coisas diferentes. E então? O verdadeiro arrependimento pode
subsistir sem a fé: Não. Mas, conquanto não seja possível separá-los, é possível distinguir-
los. Porque, assim como a fé não pode existir sem a esperança, sendo que, contudo, a fé e a
esperança são diferentes, assim também, semelhantemente, o arrependimento e a fé,
embora entretecidos por um laço que não se pode desfazer, melhor será uni-los que
confundi-los.

6. Abrangência do Arrependimento

[1539] Não ignoro que, com o nome de arrependimento, abrange-se a conversão completa,
da qual a fé é uma das partes componentes. Mas, quando forem explicadas a natureza e a
propriedade dele, ficará patente em que sentido se diz isso. A palavra hebraica para
significar arrependimento quer dizer conversão; a dos gregos significa mudança de
conselho ou propósito e de vontade e, de fato, a realidade não corresponde mal a esses
vocábulos. Sim, pois, em suma, arrependimento significa que nos retiramos de nós
mesmos e nos convertemos a Deus, e, tendo abandonado a nossa primeira forma de pensar
e de que querer, assumimos uma nova. Por isso, em minha opinião, podemos defini-lo
apropriadamente desta maneira:

7. Definição de arrependimento

[1536] O arrependimento é uma verdadeira conversão da nossa vida para servir a Deus e
para seguir o caminho por ele indicado. Procede de um legítimo temor de Deus, não
fingido [Ex 18], e consiste na mortificação da nossa carne e do nosso velho homem, e na
vivificação do Espírito.

Nesse sentido, devem ser tomadas todas as exortações dos profetas e dos apóstolos, pela
quais eles admoestavam os homens do seu tempo concitando-os ao arrependimento.
Porque desejavam levá-los ao ponto em que, estando confusos e envergonhados de seus
pecados, e aflitos pelo temor do juízo de Deus, se humilhassem e se prostrassem diante da
majestade divina por eles ofendida, e adentrassem o reto caminho. Portanto, quando eles
falam em que o pecador deve converter-se e voltar ao Senhor, arrepender-se e comprovar
na prática o seu arrependimento, eles sempre tendem para em mesmo fim. O apóstolo
Paulo e João batista dizem que é preciso produzir frutos dignos de arrependimento,
entendendo que o pecador arrependido deve levar uma vida que mostre e testifique, em
todas as suas ações, a pretendida mudança.

Aqui são apenas as quatros primeiras páginas do capítulo V da Institutas – Edição


especial. Calvino continua a desenvolver este assunto. Compre este maravilhoso livro em
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Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 2, pg 129-
132.
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Capítulo VI

A Justificação pela Fé e os Méritos das obras

[1536] Parece-me que já expliquei acima, bastante acuradamente, que resta um refúgio
para a salvação dos homens, o qual é a fé, uma vez que pela lei todos eles estão debaixo de
maldição. Também me parece que falei suficientemente de que fé se trata, como também
disse quais bênçãos ou graças de Deus essa fé comunica ao homem, e quais os frutos que
ela produz nele. E o resumo foi que pela fé nós recebemos e temos Jesus Cristo, como ele
nos é oferecido pela bondade de Deus, e que, sendo participantes dele, temos dupla graça.

A primeira é que, sendo por sua inocência reconciliados com Deus, temos no céu um Pai
deveras clemente, e não um juiz para nos condenar. A segunda é que somos santificados
por seu Espírito para refletirmos e programarmos uma vida santa e inculpável.

Pois bem, quanto à regeneração, que é a segunda graça, foi dito o que julguei proveitoso. A
justificação foi abordado ligeiramente, porque primeiro é preciso entender que, como a fé
não é ociosa e destituída de boas obras, assim por ela obtemos justiça gratuita, graças à
misericórdia de Deus; também é necessário entender quais são as obras dos santos, e nisso
consiste uma parte da questão de que devemos tratar.

Portanto, agora devemos considerar mais extensamente o tema da justificação pela fé, e
fazê-lo lembrando-nos de que este é o principal artigo da religião cristã, para que cada um
se empenhe diligentemente em conhecer as soluções a seu respeito. Porquanto não
teremos nenhum fundamento para estabelecer a nossa salvação, se não soubermos qual é a
vontade de Deus com relação a nós; como também não termos fundamento algum para nos
edificar na piedade e nos temor de Deus. Mas a necessidade que temos de entender esta
matéria aparecerá melhor em decorrência da informação dada sobre ela. Ora, para que não
suceda que sejamos apanhados logo no primeiro passo (o que aconteceria se entrássemos
numa discussão sobre algo incerto), devemos explicar primeiro o sentido destas frases: ser
justificado pela, ou pelas obras.

Justificado diante de Deis é aquele que é julgado justo perante o juízo de Deus e que é
aceito como tendo satisfeito à sua justiça. Porque, assim como a iniqüidade é abominável a
Deus, assim também o pecador não pode encontrar graça perante a sua face. Por isso, onde
estiver o pecado, lá se manifestarão a ira e a vingança de Deus. Portanto, é justificado
aquele que não pode ser tido como pecador, mas, sim, como justo, e que, por essa razão,
pode subsistir no trono judicial de Deus, diante do qual todos os pecadores tropeçam e são
postos em confusão. Assim como qualquer homem, acusado injustamente, depois de
examinado pelo juiz é absolvido e declarado inocente, dizendo-se dele que foi justificado
com justiça, assim também diremos que foi justificado diante de Deus o homem que, tendo
sido separado do rol dos pecadores, tem Deus por testemunha e comprovador da sua
justiça.

Diremos que o homem seria justificado diante de Deus por suas obras, se em sua vida
houvesse tal pureza e santidade que mereceria o título de justo diante de Deus; ou então,
que seria justificado aquele que, pela integridade das suas obras, pudesse responder e
satisfazer ao juízo de Deus. Ao contrário, ser descrito como justificado pela fé aquele que,
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sendo excluído da justiça das obras, apropria-se da justiça de Cristo pela fé; revestido
desta, comparece à presença de Deus, não mais como pecador, mas como justo.

1 Uma justiça mista: imaginária

Todavia, visto que a maior parte dos homens imagina uma justiça mista, pela fé e pelas
obras, mostremos também, antes de passarmos a outro ponto, que a justiça da fé difere de
tal maneira da justiça das obras que, se uma for estabelecida, a outra será anulada. Diz o
apóstolo [Fp 3.8,9] que considera “todas estas coisas” como “esterco, para que possa
ganhar a Cristo, e seja achado nele, não tendo a sua justiça, que vem da lei, mas a que vem
pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé”. Vemos nessa passagem que
ele as compara, por contraste, como coisas contrárias, e mostra que é necessário que
aquele que quiser obter a justiça de cristo abandone a sua própria. Por isso ele diz, noutro
lugar [Rm 10.3], que essa foi a causa da ruína dos judeus, os quais, “procurando
estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus”. Se, vestindo a nossa
própria justiça, rejeitamos a de Deus, para obter esta é necessário que aquele seja
totalmente abolida. É também o que ele quer dizer quando afirma que a nossa jactância
“não é excluída pela lei, mas pela fé”. [RM 3.27] Disso decorre que, tendo-se em vista que
não há nem uma só gota de justiça em nossas obras, não temos em que nos gloria.
Portanto, se a fé exclui toda gloria pessoal, a jsutiça da fé não pode xoexistir com a das
obras.¹

Foram os teólogos de Sorbonne que ensoparam o mundo com essa falsa opinião,
comumente aceita; mas o abuso deles é duplo. É que eles chamam de fé a certeza de que
podem contar com a recompensa dada por Deus, e pelo nome de graça eles não entendem
o dom da justiça gratuita que recebemos, mas, sim, a ajuda do Espírito Santo para o
homem ter uma vida virtuosa e santa. Eles lêem nos escritos apostólicos que “é necessário
que aquele que aproxima de Deu creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o
buscam”.[Hb 11.6] Mas eles não enxergam a maneira pela qual devemos aproximar-nos de
Deus. Isso vamos mostrar logo adiante.

Que eles fazem violência à palavra “graça” vê-se nos seus livros. Pois o seu mestre das
sentenças expõe a justiça que temos por meio de Cristo de duas maneiras². Em primeiro
lugar, diz ele, a morte de Cristo nos justifica quando gera caridade em nosso coração, e por
ela somos feitos justos. Em segundo lugar, por ela é extinto o pecado, sob o qual o Diabo
nos mantinha cativos; e de tal modo é extinto que já não pode dominar-nos. Vemos que o
mestre das sentenças não leva em consideração a graça de Deus, a não ser no sentido de
que somos dirigidos nas boas obras pelo poder do Espírito Santo. Ele teve a intenção de
seguir a opinião de Agostinho, mas a segue de muito longe, e na verdade se desvia
grandemente da fiel imitação. Porquanto o que é dito claramente por este santo homem,
ele obscurece; e o que este apresenta leve mancha de erro, ele corrompe totalmente. As
escolas sorbonistas vão sempre de mal a pior, e acabam tropeçando no erro de Pelágio.

Nota:
¹ “Fora de Cristo não há justiça alguma, nem salvação e, em suma, nem mérito.” [João
Calvino, Efésios (Ef 2.3), p. 54]
² Lib III, sent., dist. 19, c. I.
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Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 2, pg 187-
189.
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Volume III

Capítulo VII

Semelhas e Diferenças entre o Antigo e o Novo Testamento


1. Combate introdutório contra o clero usurpador

[1539] Expus anteriormente, à medida que me foi possível, um resumo da doutrina cristã
sobre o conhecimento de Deus e de nós mesmos, pela qual obtemos a salvação. Agora
temos necessidade de acrescentar um artigo que é um bom recurso para ajudar-nos a
estabelecer a veracidade daquela doutrina que previamente ensinamos. É que todos os
homens que desde o princípio de mundo Deus chamou para a companhia do seu povo
chegaram a alcançar tal graça mediante essa doutrina e se uniram a Deus pelos seus laços.
Bem certo está que os testemunhos que juntamos, tanto da Lei como dos Profetas, para
mostrar o que dizíamos, mostram suficientemente que jamais o povo de Deus teve outra
regra de santidade e de religião; entretanto, como os doutores freqüentemente fazem
longos debates sobre a diferença entre o Antigo e o Novo Testamentos, discussões que
poderiam gerar alguma inquietação de consciência, em pessoas simples, parece-me bem
fazer um tratado especial para discutir melhor este assunto. Ademais, isso é muito útil e
necessário por causa da importunação feita por alguns anabatistas, que consideram o povo
de Israel como uma manda de porcos, visto que pensam que o Senhor só o quis engordar
na terra, como que numa manjedoura, sem nenhuma esperança da imortalidade celestial.
Por isso, a fim de tirar todos os fiéis desse erro pestilente e igualmente livrar as pessoas
simples de todas as dificuldades introduzidas em sua mente quando se faz menção de
alguma diversidade entre o Antigo e o Novo Testamentos, consideremos resumidamente o
que tem de semelhante ou de diferente a aliança que o Senhor fez com o povo de Israel
antes do advento de Cristo, e a que ele fez conosco, depois que se manifestou em carne.

Ora, ambos os aspectos podem ser resolvidos com uma palavra: é que a aliança feita com
os pais antigos, em sua substância e em sua verdade é tão semelhante à nossa que se pode
dizer que ambas são somente uma; só existe diferença na ordem da dispensação de cada
uma delas. As, visto que com tal brevidade ao falar deste assunto ninguém poderia
entendê-lo bem, é necessário dar-lhe seqüência mais ampla, se é que desejamos ter algum
proveito. Ao explicar a sua semelhança, ou melhor, a sua unidade, seria supérfluo tratar
novamente de todas as extensas partes que já definimos. Restrinjamos-nos aqui a três
artigos.

1. Três artigos sobre a unidade existente entre o Antigo e Novo Testamento

Primeiro, o Senhor não propôs aos judeus uma felicidade ou opulência terrena como uma
meta à qual eles devessem aspirar, mas os adotou com vistas à esperança da imortalidade,
e lhe revelou e testificou essa adoção, tanto por visões como em sua Lei e em seus Profetas.

Segundo, a aliança pela qual eles foram ligados a Deus não se fundou nos méritos deles,
mas unicamente na misericórdia de Deus.

Terceiro, eles tinham e reconheciam Cristo como o seu Mediador, pelo qual estavam
unidos a Deus e foram feitos participantes das suas promessas.
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O segundo ponto nos deve ser notório que provamos claramente, com muitos testemunhos
dos profetas, segundo os quais todo o bem que o Senhor fez ou prometeu a seu povo
proveio de seu pura bondade e clemência. O terceiro também já demonstramos aqui e ali
com a com facilidade; mesmo no primeiro tocamos um pouco, de passagem. Mas, como
este foi mais ligeiramente que outros, e é o que tem sofrido mais debates e controvérsias,
devemos explicá-lo mas diligentemente. Mas precisamos deter-nos aí de tal maneira que,
se faltar alguma coisa à correta exposição dos outros pontos, os resolvamos sucintamente.

Aqui são apenas as duas primeiras páginas do capítulo VII da Institutas – Edição
especial. Calvino continua a desenvolver este três pontos dobre as diferença entre o AT e
NT maravilhosamente nas páginas seguintes. Compre este maravilhoso livro em
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Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 3, pg 5-6.
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Capítulo VIII

A Predestinação e a Providência de Deus


Consideramos agora o seguinte: tendo-se em vista o fato de que a Aliança da Vida não é
pregada igualmente por todos, vê-se nessa diversidade um admirável mistério do juízo de
Deus. Não há dúvida nenhuma de que essa variedade atende ao seu beneplácito, agrada ao
se querer. Pois bem, como é evidente que isto é feito pela vontade de Deus – que a salvação
é oferecida a uns e os outros são deixados de lado – daí decorrem grandes e altas questões,
as quais só se resolvem ensinando aos crentes o que eles podem compreender da eleição e
da predestinação de Deus.

1. Divisa da Matéria

Esta matéria compõe-se de duas partes. Primeiramente, devemos resolver a questão sobre
o motivo pelo qual uns são predestinados para a salvação e outros para a condenação.
Depois é preciso demonstrar como o mundo é governado pela providência de Deus, visto
que tudo o que se faz depende da sua ordenação e do seu comando.

Antes, porém, de tratar desse argumento, devo fazer um estudo preliminar sobre as duas
classes de pessoas. Porque, além de o presente tema ser em si mesmo um tanto obscuro, a
curiosidade dos homens o torna complexo e complicado, e mesmo perigosos. Por quê?
Porque o entendimento humano não pode refrear-se e conter-se, mas sempre tende a
desgarrar-se, metendo em grandes desvios e rodeios, e a subir alto demais em suas
pretensões. Seu desejo é, de possível, não deixar nenhum segredo de Deus se, a sua
investigação minuciosa. Pois vemos muitos caírem nessa audácia e nessa presunção. Além
disso, muitos há que não são maus, mas que carecem da nossa admoestação do sentido de
se dominarem e se controlares nesta área.

Em primeiro lugar, então, quando os homens quiserem fazer pesquisa sobre a


predestinação, é preciso que se lembrem de entrar no santuário da sabedoria divina. Nesta
questão, se a pessoa estiver cheia de si e se intrometer com excessiva autoconfiança e
ousadia, jamais irá satisfazer a sua curiosidade. Entrará num labirinto da qual nunca
achará saída. Porque não é certo que as coisas que Deus quis manter ocultas e das quais ele
não concede pleno conhecimento sejam esquadrinhadas dessa forma pelos homens.
Também não é certo sujeitar a sabedoria de Deus ao critério humano e pretender que este
penetre a sua infinidade eterna. Pois ele quer que a sua altíssima sabedoria seja mais
adorada que compreendida (a fim de que seja admirada pelo que é). Os mistérios da
vontade de Deus que ele achou bom comunicar-nos, ele nos testificou em sua Palavra. Ora,
ele achou bom comunicar-nos tudo o que viu que era do nosso interresse que nos seria
proveitoso.

Se alguma vez nos ocorreu ou nos ocorrer este pensamento: que a Palavra de Deus é o
único caminho que nos leva a inquirir tudo quanto nos é lícito conhecer sobre ele; e mais,
que ela é a única luz que nos ilumina para contemplarmos tudo quanto nos é lícito ver – ela
nos poderá manter afastados de toda atitude temerária. Porque saberemos que, saindo dos
limites próprios, caminharemos fora do caminho e vagaremos na escuridão total. E assim
só poderemos errar, tropeçar e nos ferir a cada passo. Tenhamos, pois, em mente que será
uma loucura querer conhecer todas as coisas relacionadas com a predestinação, exceto o
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que nos é dado na Palavra de Deus. Estejamos igualmente apercebidos de que, se alguém
quiser caminhar por entre as rochas inacessíveis, irá mergulhar nas trevas.

2. Certa Ignorância é mais douta que o saber

E não nos envergonhemos por ignorar algo deste assunto, no qual há certa ignorância mais
douta que o saber. Melhor faremos em dispor-nos a abster-nos de um conhecimento cuja
exibição é estulta e perigosa, e até mesmo perniciosa. Se a curiosidade da nossa mente nos
solicitar que investiguemos tudo, sempre temos em mãos esta sentença para rebater essa
pretensão: “Quem esquadrinhar a majestade de Deus será oprimido por sua glória”. Muito
bom será que nos desenterremos dessa audácia, pois vemos que ela n~so no pode fazer
outra coisa senão precipitar-nos na desgraça.

3. O outro extremo: omissão negligente

Por outro lado, há outros que, desejando remediar esse mal, esforçam-se para fazer com
que a lembrança da predestinação seja enterrada; quando menos, eles nos advertem de que
tomam cuidado para não inquirir nada a respeito dela, considerando-a uma coisa perigosa.
Embora seja louvável a modéstia de queremos abordar os mistérios de Deus com grande
sobriedade, descer tão baixo nisso não dá bom resultado para os espíritos humanos,
porque estes não se deixam domar tão facilmente.

4. O equilíbrio da Escritura

Por isso, para que tenhamos aqui bom equilíbrio, devemos examinar a Palavra de Deus, na
qual temos excelente regra para o entendimento firme e correto. Porquanto, a Escritura é a
escola do Espírito Santo, na qual assim como nada que seja útil e salutar conhecer é
omitido, assim também não há nada que nela seja ensinado que não seja válido e proveito
saber.

Portanto, devemos ter o cuidado de não impedir os crentes de procurarem saber o que há
na Escritura sobre a predestinação, para não parecer que desejamos fraudá-los negando-
lhes o bem que Deus lhes comunicou, ou que pretendemos discutir com Espírito Santo,
como se ele tivesse divulgado coisas que faria bem em suprimir.

Permitamos, pois, que o cristão abra os ouvidos e o entendimento para toda doutrina
dirigida a ele por Deus. Isso com a condição de que ele sempre mantenha este equilíbrio,
esta moderação: quando vir fechada a santa boca de Deus, feche também o caminho da
inquirição. Eis um bom marco memorial da sobriedade: se em nossa aprendizagem ou em
nosso ensino seguirmos a Deus, tenhamo-Lo sempre adiante de nós. Contrariamente, se
ele para de ensinar, paremos de querer continuar a ouvir e a entender. Então, o perigo que
a boa gente que citei teme não é tão importante que deva lavar-nos a deixar de prestar
atenção em Deus, em tudo quanto ele diz. Reconheço que os homens maus e blasfemos
depressa encontram na doutrina da predestinação coisas para acusar, torcer, remoer e
zombar. Mas, se cedermos à sua petulância, eles darão fim aos artigos da nossa fé, dos
quais não deixarão um só que não fique contaminado por suas blasfêmias. Um espírito
rebelde se porá a campo e, tanto ousará negar que numa só essência de Deus há três
Pessoas, como também que, quando Deus criou o homem, previu o que lhe aconteceria no
futuro. Semelhantemente, esses maus elementos não se absterão de rir-se quando lhes for
dito que não faz muito mais que cinco mil anos que o mundo foi criado. Por que vão querer
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que lhes expliquemos como é que Deus ficou ocioso por tão longo tempo. Para reprimir
tais sacrilégios, devemos deixar de falar da divindade de Cristo e do Espírito Santo?
Devemos calar-nos sobre a criação do mundo?

Antes, muito ao contrário, a verdade de Deus é tão poderosa, tanto nesta questão como em
tudo mais, que não teme a maledicência dos ímpios. O que Agostinho confirma muito bem
em sua pequena obra intitulada Sobre o Benefício da Perseverança (“Du bien de
persévérance”). Porque vemos que os falsos apóstolos, ridicularizando e difamando a
doutrina do apóstolo Paulo, nada mais puderam fazer do que se tornarem objeto de
vergonha.

5. Velhas Objeções

Há alguns que consideram esta discussão perigosa, mesmo quando mantida entre os
crentes. Dizem eles que a doutrina da predestinação é contraria às exortações. Abala a fé,
perturba os corações e os abate. Mas essa alegação é fútil. Agostinho não dissimula o fato
de que era criticado pelas razões acima citadas, pois ele pregava livre e abertamente a
predestinação. Mas, com facilidade os refutou suficientemente. Quanto a nós, visto que
fazem objeção com diversos absurdos contra a doutrina que apresentamos, melhor será
deixar para resolver, mas adiante, uma por vez. Por ora, desejo conseguir que todos os
homens, em geral, se juntem a nós neste propósito: que não procuremos as coisas que
Deus quis manter ocultas, e que não negligenciemos as que ele tornou manifesta. Isso para
que, por um lado, não sejamos acusados de curiosidade exagerada, ou, por outro, de
ingratidão. Neste sentido, esta sentença de Agostinho é muito boa: “Podemos seguir com
segurança a Escritura, a qual condescende com a nossa pequenez, como a mãe
condescende com a pequenez do seu bebê, quando quer ensiná-lo a andar”.

6. Definição de termos

Os antigos explicavam diferentemente os vocábulos presciência, predestinação, eleição e


providência. Nós, deixando de lado toda discussão supérflua, seguimos simplesmente a
propriedade dos termos. Quando atribuímos presciência a Deus, queremos dizer que todas
as coisas sempre estiveram e continuam estando sob os seus olhos, de modo que para o seu
conhecimento não há nada que seja futuro ou passado. Todas as coisas lhe são presentes, e
de tal modo presente que ele não as imagina como que mediante algumas espécies ou
categorias, como acontece com as coisas que temos na memória e que, lembrando-as, vêm
diante dos nossos olhos pela imaginação, mas as vê e as observa real e verdadeiramente,
como estando diante do seu rosto. Dizemos que este pré-conhecimento abrange toda a área
do universo e todas as criaturas.

Denominamos predestinação o conselho eterno de Deus pelo qual ele determinou o que
deveria fazer com cada ser humano. Porque ele não criou todos em igual condição, mas
ordenou uns para vida eterna e os demais para a condenação eterna. Assim, conforme a
finalidade para a qual o homem foi criado, dizemos que foi predestinado para a vida ou
para a morte.
O uso conseguiu impor que se chame providência à ordem que Deus segue no governo do
mundo e na direção e condução de todas as coisas.
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7. A doutrina da predestinação

Em primeiro lugar, trataremos da predestinação. Conforme o que a Escritura mostra


claramente, dizendo que o Senhor constituiu uma vez por todas, em seu conselho eterno e
imutável, aqueles que ele quis tornar para a salvação, e aqueles que ele quis deixar em
abandono. Quando aos que ele chama para a salvação, dizemos: que ele os recebe por sua
misericórdia gratuita, sem levar em conta a dignidade deles; que, ao contrário, o acesso à
vida é vedado a todos aqueles que ele quis deixar entregues à condenação; e que isso é
realizado por seu juízo oculto e incompreensível, conquanto justo e imparcial. Ensinamos,
ademais, que a vocação dos eleitos é como uma demonstração e um testemunho da sua
eleição. Semelhantemente dizemos que a justificação deles é outro símbolo e sinal dela, até
quando eles chegarem à glória, na qual se dará o seu cumprimento e a sua consumação.

Pois bem, assim como o Senhor assinala aqueles que ele escolheu chamando-os e
justificando-os, assim também, ao contrário, privando os réprobos do conhecimento da
sua Palavra, ou da santidade realizada pelo seu Espírito, ele demonstra por tal sinal qual
será o fim deles, e que julgamento está preparado para eles. Deixo de lado, nesta altura,
muitas fantasias forjadas por números tolos, na tentativa de derrubar a predestinação. Vou
restringir-me unicamente a considerar os argumentos deles que têm lugar entre pessoas
dotadas de saber, ou que poderiam gerar escrúpulos entre os simples, ou, ainda, que têm
alguma aparência de verdade, podendo fazer crer que Deus não é justo, se assim o
considerarmos.

O que ensinamos sobre a eleição gratuita dos crentes não é dito sem dificuldade. Porque
em geral se considera que o Senhor distingue entre os homens segundo prevê os méritos de
cada um deles. Assim sendo, ele adota e introduz no número dos seus filhos aqueles cuja
natureza ele prevê que deve ser tal que eles não são indignos da sua graça. Ao contrário,
dizem os tais mestres, Deus deixa na perdição aqueles que ele sabe que devem ser
inclinados à maldade oi à impiedade. Essa opinião, comumente aceita nesses termos, não
pertence somente à gente comum do povo; em todos os tempos, ela tem tido a seu favor
grande escritores. O que eu declaro francamente, a fim de que não se pense que isso
prejudicará muito a nossa causa, se acontecer contra nós.

Porque a verdade de Deus é tão clara neste campo que não poderá ser obscurecida; e tão
certa e firme que não poderá ser abalada por nenhuma autoridade dos homens.
Certamente o apóstolo Paulo, ao nos ensinar que “fomos eleitos em Cristo antes da criação
do mundo” [Ef 1.4], elimina toda e qualquer consideração por nossa dignidade ou
merecimento. É como se disse: visto que na semente universal de Adão, o Pai celestial não
encontrou nada que fosse digno da sua eleição, dirigiu o olhar para o seu Cristo, a fim de
eleger, como membros do seu corpo, aqueles que ele quis admitir à vida. Fique pois
definido e estabelecido este argumento entre os crentes: que Deus nos adotou em Cristo
para sermos seus herdeiros, porque em nós mesmos não tínhamos capacidade para
alcançar tão excelente posição. Isso o apóstolo registra igualmente bem noutro lugar,
quando exorta os colossenses a darem graças a Deus por havê-los feito idôneos para
participarem da herança dos santos [Cl 1.12]. Se a eleição de Deus precede a esta graça pela
qual ele nos torna idôneos para obtermos a glória da vida futura, que encontrará ele em
nós que o mova a eleger-nos?

O que pretendo mostrar ficará ainda mais bem expresso por esta outra sentença: Deus nos
escolheu, diz ele, “antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis
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perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meios de
Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” [Ef 1.4,5]. Paulo coloca o beneplácito
de Deus em oposição a todos os méritos que se possa mencionar, porque, onde quer que
reine o beneplácito de Deus, nenhuma obra entra em consideração. É certo que ele não
trata disso nessa passagem, mas devemos entender essa comparação nos termos em que
ele a explica noutro lugar, quando diz: Deus “nos salvou e nos chamou com santa vocação;
não segundo as nossas obras, mas conforme a sal própria determinação e graça que nos foi
dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” [2 Tm 1.9]. As palavras que na passagem
de Efésios ele acrescenta (“para sermos santos e irrepreensíveis”) não nos livram
totalmente de inquietação. Sim, pois, se dissermos que Deus nos escolhe porque previu
que seríamos santos, estaremos invertendo a ordem seguida pelo apóstolo Paulo.

8. Sumário certo e seguro

Podemos então afirmar com segurança: visto que ele nos escolheu a fim de que fôssemos
santos, logo não foi porque previu que haveríamos de ser santos. Porque as duas coisas são
contraditórias entre si: que os crentes obtenham a sua santidade graças a sua eleição; e que
por essa santidade eles tenham sido eleitos. As astúcias sofísticas a que os tais mestres
recorrem não têm nenhum valor aqui. No presente caso, eles dizem que, embora Deus não
recompense os méritos anteriores À graça da eleição, ele os recompensa pelos méritos
futuros. Mas logo se vê que quando se diz que os crentes foram escolhidos para serem
santos, significa que toda a santidade que eles haveriam de ter tem sua origem e seu início
na escolha. E com que tipo de coerência se poderá dizer que o que é produto de eleição seja
a causa desta? Além disso, o apóstolo confirma com ainda maior firmeza o que tinha dito,
acrescentando que Deus nos escolheu conforme decreto da sua vontade, que ele
determinou em si mesmo. Isso equivale a dizer que ele não considerou coisa alguma fora
de si mesmo à qual desse atenção, quando procede a essa deliberação. Por isso Paulo
acrescenta, logo a seguir, que tudo aquilo em que se resume a nossa eleição tem que ver
com este objetivo: “para louvor da glória de sua graça”. Certamente a graça de Deus só
merece ser exaltada em nossa eleição se for gratuita. Ora, não seria gratuita se Deus, ao
escolher os seus, atribuísse algum valor às obras de cada pessoas eleita. Daí se vê que o que
Cristo disse aos seus discípulos é verdade aplicável a todos os crentes. Disse ele: “Não
fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros” [Jo 15.16].
Com isso ele não somente exclui todos os méritos anteriores, mas também quer dizer que
eles não tinham nada em si mesmos que desse motivo para serem escolhidos, pois ele se
antecedeu a eles com a sua misericórdia. Nesse sentido devemos também tomara estes
dizeres do apóstolo Paulo: “Quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?”
[Rm 11.35] Porque ele quer mostrar que a bondade de Deus de tal maneira se antecipa aos
homens que ela não encontra nada neles, nem quanto ao passado nem quanto ao futuro,
que lhes possibilites cooperar com ela.

9. Ilustra baseada em Jacó e Esaú

Acresce que, na Epístola aos Romanos, onde Paulo começa este argumento do ponto mais
alto e depois lhe dá seqüência mais ampla, ele trata, sob o exemplo de Jacó e Esaú, da
condição dos eleitos e dos reprovados, e o faz desta maneira [Rm 9.11-13]: “E ainda não
eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal) para que o propósito de
Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora
dito a ela: o mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me
aborreci de Esaú”. Que é que pretende aqueles que, obscurecendo essas palavras, atribuem
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algum lugar às obras em nossa eleição (quer anteriores quer futuras)? Isso é inverter
completamente o que o apóstolo diz, pois, segundo este, a diferença existente entre os dois
irmãos não depende em nenhum aspecto das suas obras, mas da pura e simples vocação de
Deus. Sim, porquanto Deus determinou o que iria fazer antes de eles terem nascido. A
sutileza utilizada pelos sofistas não escaparia ao conhecimento de Paulo, se tivesse algum
fundamento. Mas, como ele sabia que Deus não poderia prever nada de bom no homem,
senão o que deliberou dar-lhe pela graça da sua eleição, deixou de lado essa opinião
perversa, que consiste em preferir as boas obras às sua causa e origem. Das palavras do
apóstolo, deduzimos que a salvação dos que crêem funda-se no beneplácito da eleição de
Deus, e que esta graça não é adquirida por boas obras, mas lhes vem da sua bondade
gratuita. Elas nos propiciam também como que um espelho ou um quadro que representa
esta verdade. Esaú e Jacó são irmãos, gerados dos mesmos pais, de uma mesma gestação,
estando juntos no ventre de sua mãe antes de nascerem. Todas as coisas são semelhantes
num e no outro; todavia, o juízo de Deus distingue entre eles, pois escolhe um e rejeitou o
outro. Só restava a questão da primogenitura, que fazia que um fosse preferido ao outro.
Mas mesmo isso foi deixado para trás; foi dado ao que nasceu por último o que foi gerado
ao que nasceu primeiro.

10. Outros exemplos

Em muitos outros casos se vê que Deus, com deliberado propósito, desprezou a


primogenitura a fim de extirpar da carne todo elemento de glória. Rejeitando Ismael, ligou
o seu coração a Isaque; rebaixando Manasses, preferiu Efraim [Gn 17 e 48 (ver Gn21.12)].
Se alguém replicar que não devemos julgar questões relacionadas com a vida eterna
recorrendo a coisas inferiores e levianas, e que é uma zombaria inferior que aquele que
exaltado pela honra da primogenitura é adotado como participante da herança celestial
(havendo alguns que não poupam nem mesmo o apóstolo Paulo, dizendo que abusou dos
testemunhos da Escritura, aplicando-os a este assunto), respondo que o apóstolo não falou
disso inconsideradamente, e não quis torcer o sentido dos testemunhos da Escrituras; mas
ele enxergava o que esse tipo de gente incapaz de considerar. É que Deus quis, por meio de
um sinal corporal, representar a eleição espiritual de Jacó, a qual, noutro aspecto, estava
oculta em seu conselho secreto. Porque, se não aplicássemos à vida futura a primogenitura
que foi dada a Jaci, a Bênção que ele recebeu seria totalmente ridícula, porque não teria
outra coisa senão total miséria e calamidade.

Vendo, pois, o apóstolo Paulo que Deus, por meio dessa bênção exterior testificou sua
bênção eterna, que ele preparou em seu reino celestial para o seu servo, não teve dúvida
nenhuma em tomar o argumento de que Jacó recebeu primogenitura para provar que ele
foi escolhido por Deus. Portanto, Jacó foi eleito, Esaú tendo sido repudiando, e assim é
feita distinção entre eles pela eleição de Deus – apesar de não haver diferença em seus
méritos.

11. Qual o motivo disso?

Se alguém pedir a razão disso, Paulo lhe dará; é o que Deus disse a Moisés: “Terei
misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem em me
compadecer” [Ex 33.19 (Rm 9.14-16)]. E que será que isso quer dizer? Claro está que o
Senhor afirma explicitamente que não encontra em nós nenhuma razão pela qual deva
fazer-nos bem, mas que se baseia totalmente em sua misericórdia, pelo que a salvação dos
seus é sua obra, de mais ninguém.
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Aqui são apenas as nove primeiras páginas do capítulo VIII da Institutas – Edição
especial. Calvino continua a desenvolver este assunto de forma maravilhosa nas páginas
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Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 3, pg 37-46.
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Capítulo IX

A Oração, com a explicação da oração do Senhor


1. Introdução, relacionando o texto presente com textos prévios

[1536] Do que foi tratado anteriormente, vemos muito bem quão desnudo e desprovido de
todo bem o homem é, e como lhe falta tudo quanto lhe é necessário para a sua salvação.
Porque, se ele quiser suprir a sua necessidade, terá que sair de si e buscar socorro fora.
Além disso, também foi explicado ao leitor que o Senhor se apresenta a nós liberalmente
em seu Filho Jesus Cristo, oferecendo-nos, por meio dele, toda a felicidade, em lugar do
nosso infortúnio; toda a abundância, em lugar da nossa pobreza; e nos desvendando, nele,
todos os seus tesouros e riquezas celestiais. Com que finalidade? A fim de que toda a nossa
fé seja posta no seu dileto Filho, dele seja a nossa dependência, e toda a nossa esperança
seja posta nele. Esta é uma filosofia misteriosa, oculta e velada, e não pode ser entendida
por meio de silogismos; mas a compreendem aqueles a quem o Senhor abriu os olhos, para
que, em sua luz, enxergassem claramente.

Vê-se então que a fé nos ensina que todo o bem que nos é necessário e que em nós mesmos
não existe está em Deus e em seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, em quem o Senhor
constituiu toda a plenitude das suas bênção e da sua liberalidade [Cl 1.19 e contexto; Jo
1.14-18]. Seu propósito é que, como de uma fonte transbordante da qual todos nós nos
abeberamos, o busquemos e, por nossas preces e orações, peçamos a ele o que aprendemos
que nela há. Porque, diversamente, conhecer a Deus e reconhecê-lo como senhor, autor e
distribuidor de todos os bens, e que ele nos convida a solicitá-los dele, e não nos dirigirmos
a ele e nada lhe pedirmos, seria tão nulo como se alguém desprezasse e deixasse enterrado
e oculto sob o solo um tesouro que lhe tinha sido mostrado. Portanto, devemos tratar
agora, mais amplamente, deste ponto, sobre o qual não falamos antes, senão
incidentalmente e de passagem.

2. A oração nos leva ao templo celestial

[1539] É, pois, pelo benefício da oração que penetramos nas riquezas que temos em Deus.
Porque ela é uma forma de comunicação dos homens com Deus pela qual, sendo
introduzidos no verdadeiro templo, que é o céu, eles fazem presentes ao Senhor as suas
promessas para que, de maneira experimental, ele lhes mostre, quando a necessidade
exigir, que a sua simples palavra, que eles creram ser verdadeira, não é mentida nem coisa
vã. Assim, não vemos Deus propor-nos alguma coisa que devemos esperar dele que,
paralelamente, não nos mande pedir em oração. Tanto é verdade o que dissemos, que pela
oração buscamos e encontramos os tesouros que são expostos e ensinados à nossa fé no
evangelho. Agora quanto é necessário, e de quantas maneiras o exercício da oração é útil
para nós, não se pode explicar satisfatoriamente com palavras.

3. Invocar o nome do Senhor é segurança de salvação

Certamente não é sem motivo que o Senhor testifica que toda a segurança da nossa
salvação se funda na invocação do seu nome [Joel 2], visto que por ele obtemos tanto a
presença da sua providência, pela qual ele se mostra vigilante no cuidado que nos
dispensa, como do seu poder, pelo qual ele nos alivia e nos consola em nossa franqueza e
imperfeição, e também da sua bondade, pela qual ele nos recebe em sua graça, apesar de
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estarmos carregados de pecados. E, para falar resumidamente, como pela oração o


chamamos para que se manifeste inteiramente presente conosco, daí decorre um singular
repouso pra a nossa consciência. Porque, após expormos ao Senhor a necessidade que nos
cerca, temos onde descansar satisfatoriamente, sendo que entendemos que nada da nossa
miséria está oculta para aquele cuja boa vontade para conosco é certa, e cujo poder para
nos ajudar é indubitável.

4. Objeção: não é desnecessário ou inútil orar?

Todavia, alguém poderá objetar, dizendo: ele não nos conhece sem necessidade de
informação, e não sabe em que aspecto estamos em aperto, e quais recursos nos são úteis?
Disso decorre que pareceria coisa supérflua pedi-los em oração, visto que estamos
acostumados a solicitar coisas inúteis e ociosas. Mas os que argumentam desse modo não
vêem a que fim o Senhor instituiu a oração para os seus. Porque não a estabeleceu por sua
causa, mas em atenção a nós. Porque, embora ele esteja sempre em vigilância e faça
constantemente a ronda para nos preservar, mesmo quando somos tão tolos e obtusos que
não percebemos os males que nos rodeiam, e embora, por vezes, ele nos dê socorro antes
de ser invocado, todavia nos é necessário suplicá-lo constantemente.

5. Motivos para orar

Primeiro, a fim de que o nosso coração seja inflamado de um veemente e ardente desejo de
buscar, amar e honrar sempre a Deus, o que nos fará habituar-nos a ter nele o nosso
refúgio em todas as necessidades, como o único porto de salvação. Depois, a fim de que o
nosso coração seja tocado de algum desejo, que nem sempre lhe ousamos confessar de
imediato, como quando expomos diante dos seus olhos todo o nosso afeto e, por assim
dizer, desenrolamos e abrimos todo o nosso coração perante ele. E ainda, a fim de que
sejamos habilitados a receber suas bênçãos com verdadeiro reconhecimento e ação de
graça, visto que pela oração somos advertidos de que elas nos vêm da sua mão [Sl 45 (notar
os versículos 2,6 e 7)]. Além desses motivos, este: a fim de que, tendo obtido o que
pedimos, tenhamos em consideração o fato de que ele nos atendeu e, por isso, sejamos
incitados a meditar mais ardorosamente em sua benignidade. E também tenhamos mais
prazer em gozar os benefícios que ele nos faz, tendo em mente que os obtivemos por meio
das nossas orações. Finalmente, a fim de que a sua providência seja confirmada e aprovada
em nosso coração, na medida da nossa pequena capacidade, sendo que nós vemos que ele
não somente promete jamais abandonar-nos, mas também nos dá acesso para buscá-lo e
lhe fazer súplicas quando há necessidade.

Por todas essas razões, o Pai, cheio de clemência, jamais dorme nem cessa o seu cuidado.
Todavia, às vezes, parece dormir e cessar, a fim de que por isso sejamos incitados a dirigir-
lhes orações e súplicas; recurso divino válido para corrigir a nossa preguiça e o nosso
esquecimento. Portanto, é grande perversidade querer alguém fazer com que deixemos de
orar, alegando que é coisa supérflua solicitar, por nossas preces, a providência de Deus, a
qual, sem ser solicitada, vela pela preservação de todas as coisas. O que ao contrário se vê é
que o Senhor não testifica em vão que estará perto de todos os que encovarem seu nome
em verdade [Sl 145.18].

6. Negar o valor da oração é loucura


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É uma grande loucura alegar que não há nenhuma razão para pedir as coisas que o Senhor
voluntariamente está pronto a cumular sobre nós. Por quê? Porque ele quer que nos
concederemos que as bênçãos que recebemos, provenientes da sua liberalidade gratuita,
são concedidas às nossas orações.

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páginas seguintes dita algumas regras e explica ponto por ponto a oração do “Pai
nossos”.. Compre este maravilhoso livro em http://www.cep.org.br de seqüência a leitura.

Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 3, pg 91-94.
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Capítulo X

[1536] Os Sacramentos
1. Definição e uso

Agora devemos falar sobre os sacramentos. Temos grande necessidade de receber doutrina
correta, pela qual possamos ficar sabendo com que finalidade eles foram instituídos e de
que maneira os devemos usar.

Precisamos primeiro entender o que é sacramento. É um sinal exterior pelo qual o Senhor
representa para nós e nos testifica a sua boa vontade para conosco, para sustentar,
confirmar e fortalecer a nossa fraca fé. Também se pode definir diferentemente o
sacramento e descrevê-lo como um testemunho da graça de Deus, testemunho declarado
mediante um sinal exterior. Com isso vemos que jamais o sacramento é apresentado sem a
Palavra de Deus, que o precede. Ele é acrescentado à Palavra como um apêndice ordenado
para simbolizá-la, confirmá-la e certificá-la mais fortemente em nosso interesse, pois o
Senhor vê que temos necessidade disto pela ignorância com que julgamos as coisas e pela
fraqueza da nossa carne. Não significa que a palavra não seja suficientemente forte e firme
em si mesma, ou que ela própria careça de melhor confirmação e fortalecimento (porque
outra coisa ela não é senão a verdade de Deus, em si e por si tão certa e segura que não
pode receber de outra parte melhor confirmação e fortalecimento; só o pode receber de si
mesma); o objetivo é que com ela e por ela sejamos fortalecidos.

A razão disso é que a nossa fé é tão pequena e débil que, se não tiver suporte por todos os
lados e não for mantida por todos os meios, de repente se verá totalmente abalada,
sacudida e vacilante. E como somos tão ignorantes e tão dados e apegados às coisas
terrenas e carnais que não pensamos nem podemos entender nem conceber nada que seja
espiritual, o Senhor misericordioso se acomoda com isso à rudeza dos nossos sentidos de
modo que, pelos elementos carnais dos sacramentos, ele nos conduz a si e nos faz
contemplar, mesmo na carne, o que pertence ao espírito. Não por que as coisas que nos são
oferecidas com sacramentos tenham em sua natureza alguma qualidade e algum poder,
mas porque são assinadas e assinalas por Deus para terem esta significação.

2. Astúcias totalmente rejeitáveis

Não devemos dar ouvidos a alguns que, em suas astúcias, argumentam falsamente
dizendo: “Ou sabemos que a Palavra de Deus, que precede ao sacramento, é a verdadeira
vontade de Deus, ou não sabemos. Se o sabemos, nada aprendemos de novo pelo
sacramento subseqüente. Se não o sabemos, o sacramento não no-lo poderá ensinar, visto
que toda a sua virtude e eficácia jaz na palavra”. Só lhes seja respondido, resumidamente,
que os selos que se coloca nas cartas e nos instrumentos públicos, em si nada são, porque,
se no pergaminho ou papel não houver nada escrito, eles não servirão para coisa alguma, e
em vão serão postos nele. E, todavia, nem por isso eles deixam de confirmar, atesta e
tornar mais autêntica a escritura contida nas cartas ou nos documentos, quando a estes os
selos são acrescentados. E não poderão dizer que esta figura foi forjada por nós, feita a
nosso bel-prazer, pois o apóstolo Paulo fez uso dela quando se referiu ao sacramento da
circuncisão com uma palavra grega [Rm4.11], a saber, sfraguida (quer dizer selo).
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[1539] Na passagem acima citada, o apóstolo demonstra que a circuncisão não foi
imputada a Abrão para justiça. É antes um selo da aliança, na confiança e garantia da qual
ele já tinha sido justificado. E por que, rogo que me digam – por que isso deverá fazer-nos
merecedores de injúria, se ensinamos que a promessa é selada pelos sacramentos, viso que
é claro e manifesto que, entre as promessas, uma é confirmada por outra? Porque a que é
mais manifesta é mais própria para assegurar a fé. Ora, os sacramentos nos trazem
promessas claríssimas, e com esta particularidade superior à Palavra, que eles representam
vividamente as promessas, com que numa pintura. E não devemos deixar-nos abalar pela
diferença que se fala que existe entre os sacramentos e os selos das cartas patentes. A
saber, que, uma vez que uns e outros consistem de elementos carnais deste mundo, os
sacramentos não podem servir para selar as promessas de Deus, que são espirituais, como
acontece com os selos utilizados para selar escritos de príncipes, que tratam de coisas
transitórias e obsoletas. Não se leve isso em conta porque o homem crente, ao ver o
sacramento, não se prende à exterioridade, mas, sim, com santa consideração, eleva-se
para contemplar os altos mistérios ali ocultos conforme a harmonia existente entre a
figurar carnal e a realidade espiritual.

3. Sinai e selos da aliança, colunas da fé, espelhos da graça

[1536] Sendo, pois, que o Senhor dá às promessas o nome de acordos ou alianças, e aos
sacramentos os de sinais e instruções das alianças, pode-se aproveitar algo da semelhança
dos acordos e alianças dos homens [Gn 6.18; 9.9,17; 17.20,21]. Para confirmação dos seus
acordos, os antigos costumavam matar uma porca. [1536] Que adiantaria uma porca
morta, se não houvesse palavras de acordos, ou melhor, se estas não tivessem sido lavradas
antes? Porque, muitas vezes, se matam porcas sem haver nisso mistério nenhum.
Semelhantemente, que dizer do aperto das mãos, visto que muitos apertam as mãos dos
seus inimigos com a intenção de lhes fazer mal? E, todavia, quando tiverem sido proferidas
as palavras de amizade e de aliança, tais sinais servem para confirmá-las, mesmo quando
já tenham sido propostas, realizadas e estabelecidas. Portanto, os sacramentos são
exercícios praticados com a finalidade de nos tornar mais certos e seguros da Palavra de
Deus e de Suas promessas. E como somos carnais, os sacramentos também nos são dados
em coisas carnais, a fim de que eles nos instruam conforme a capacidade da nossa rude
condição e nos dirijam e nos conduzam como os mestres fazem com as crianças que estão
aos seus cuidados. Por isso, Agostinho¹ chama ao sacramento palavra visível, porque nos
mostra, como numa pintura, as promessas de Deus, e as representa vividamente para nós.

4. Outras figuras

Podemos usas ainda outras figuras para designar os sacramentos e, por elas, tornar a sua
significação mais completa e mais clara. Por exemplo, podemos chamá-los colunas da
nossa fé. Porquanto, assim como edifício se fixa e se sustém sobre o seu fundamento, e,
contudo, quando se acrescentam a ele colunas que lhe dêem suporte, ele se torna mais
seguro e mais firme, assim também a fé descansa e se sustém sobre a palavra de Deus
como sobre seu fundamento; mas, quando lhe são acrescentados os sacramentos, estes lhe
servem como colunas, sobre as quais se apóia com mais firmeza e mais se fortalece.

Também podemos chamá-los espelhos, nos quais podemos contemplar as riquezas da


graça de Deus, por ele distribuídas. Sim, pois, como já foi dito, ele se manifesta a nós à
medida que a nossa entorpecida mente o pode conhecer, e por eles testifica a sua boa
vontade para conosco.
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Nota
¹In Ioh. Tractat. 80.3 (Migne, 35,184) cf. Contra Faustum, lib XIX, c. XVI (Migne. 42,356).

Aqui são apenas as Três primeiras páginas do capítulo IX da Institutas – Edição


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Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 3, pg 141-
144.
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Capítulo XI

O Batismo
1.Objetivos da instituição do Batismo

[1536] O Batismo nos foi dado por Deus primeiramente para servir à nossa fé naquele que
o instituiu e, em segundo lugar, para servir à nossa confissão dessa fé perante os homens.
Trataremos nessa ordem desses dois objetivos e motivos da sua instituição.

Quanto ao primeiro objetivo, o Batismo faz três benefícios à nossa fé, os quais é necessário
examinar separadamente, um por vez. Primeiro, o propósito de Deus é que ele seja um
símbolo e um sinal da nossa purificação, ou, melhor dizendo, foi-nos enviado por Deus
como uma mensagem pela qual ele nos comunica, confirma e assegura que todos os nossos
pecados foram perdoados, cobertos, abolidos e cancelados de tal maneira que jamais serão
apresentados à sua consideração, nem recordados para nova remissão, nem imputados a
nós. Nesse sentido, ele quer que todos os que crerem sejam batizados para a remissão dos
pecados [Mt 28.19; At 2.38]. Por isso, aqueles que se atreveram a escrever que o Batismo
não é senão uma marca e um símbolo pelo qual declaramos diante dos homens a nossa
religião, como um soldado leva a farda e a insígnia do seu príncipe para com isso declarar-
se subordinado a ele, deixaram de considerar o principal do Batismo, a saber: que devemos
recebê-lo com a promessa de que os que crerem e forem batizados receberão a salvação
[Mc 16.16].

2. Fundamentos bíblicos

Nesse sentido, se deve entender o que apóstolo Paulo escreveu [Ef 5.26], que Cristo se
entregou pela igreja, sua esposa, “para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da
lavagem de água pela palavra”, isto é, pelo Batismo com água. E noutros lugar [Tt3.5], que,
“segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do
Espírito Santo”. E também o que o apóstolo Pedro escreveu [I Pe 3.21], dizendo que o
batismo nos salva. Certo é que o apóstolo Paulo não quer dizer que o nosso lavamento e a
nossa salvação sejam realizadas perfeitamente por meio da água; nem que a água contenha
alguma virtude ou poder para nos purificar, regenerar ou renovar. Tampouco o apóstolo
Pedro quis dizer que a água é a causa da nossa salvação. Eles somente quiseram dizer que
no sacramento se recebe a segurança de tais graças. As próprias palavras empregadas
explicam isso claramente. Porque o apóstolo Paulo junta a Palavra da vida, que é o
evangelho, ao batismo com água, como se dissesse: pelo evangelho nos é anunciada a nossa
purificação e santificação, e pelo Batismo esse anúncio ou essa mensagem é simbolizada e
selada. E o apóstolo Pedro, depois de dizer que o Batismo nos salva, imediatamente
acrescenta: “não sendo a remoção da imundícia da carne” que o faz, “mas a indagação de
uma boa consciência par com Deus”, que provém da fé.

[1539] Por outro lado, porém, o Batismo não nos promete outra purificação que a que é
feita pela aspersão do sangue de Cristo, representado pela água por sua semelhança com
esta, em sua função de lavar e purificar. Quem, pois, dirá que nós somos purificados pela
água do Batismo, sendo que ele testifica que o sangue de Cristo é o nosso verdadeiro e
único lavamento, a nossa verdadeira e única aspersão? [1 Pe 1.2] Assim, não se poderia
encontrar melhor argumento pra refutar o erro daqueles que atribuem tanta virtude à água
do que demonstrando o sentido do Batismo.
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3 Remissão dos pecados passados e futuros

[1536] Não devemos achar que o Batismo nos é dado unicamente para atestar solução para
o passado, de modo que para os pecados que voltemos a cometer depois de termos sido
batizados precisamos encontrar outra solução, um novo remédio. Certamente desse erro
procede o fato de que antigamente alguns não queriam ser batizados senão no fim da sua
existência na terra, na hora da sua morte, para que assim obtivessem pleno e completo
perdão para toda a sua vida. Contra essa tola fantasia os bispos falaram muitas vezes em
seus escritos.

[1536] Mas devemos saber que em qualquer tempo em que sejamos batizados, somos
lavados e purificados uma vez por todas e por todas e por todo o tempo da nossa vida. Por
essa razão, toda vez que cairmos em pecado devemos recorrer à lembrança do Batismo e
por ela nos confirmar e nos fortalecer na fé, para que estejamos sempre certos e seguros do
perdão dos nossos pecados. Porque, embora pareça que, por nos ter sido administrado
uma só vez, o Batismo já tinha perdido o seu efeito, todavia ele não é cancelado ou apagado
pelos pecados subseqüentes. Porquanto a pureza de Cristo nos é oferecida nele, e a sua
pureza está sempre em vigor, dura para sempre, e não há mancha que a possa sobrepujar.
A pureza de Cristo elimina toda a nossa sujidade e nos purifica de toda a nossa imundícia.

Contudo, não devemos ver nisso ocasião para pecar depois do Batismo, pois é certo que,
neste ensino, não há nada que nos incite a essa audácia. Esta doutrina é oferecida
unicamente àqueles que, depois de terem cometido pecado, sentem-se desolados, e se
lamentam, cansados e sobrecarregados sob o peso dos seus pecados, para que tenham com
que se levantar e se consolar, e não fiquem confusos nem caiam no desespero. Por essa
razão, diz o apóstolo Paulo [Rm 3.25] que Jesus Cristo nos foi feito, ele próprio,
propiciação pelos pecados passados. Com isso ele não quis dizer que nele não temos
perpétua e continua remissão dos pecados, até à nossas morte. O que quis dizer é que
Cristo foi dado pelo Pai aos pobres pecadores que, feridos pelo cáustico cautério da
consciência, suspiram pelo médico. A esses é oferecida a misericórdia de Deus. Mas
aqueles que, descansados em sua impunidade, buscam e tomam ocasião e liberdade para
pecar, só o que fazem é provocar contra si mesmos a ira e o juízo de Deus.

4. Mortificação e nova vida em Cristo

O segundo consolador benefício que nos fé o Batismo é que nos mostra a nossa
mortificação em Jesus Cristo e também a nossa nova vida nele. Porque, com diz o apóstolo
Paulo [Rm 6.4], “em Cristo fomos batizados em sua morte” e fomos “sepultado com ele na
morte pelo batismo; para que ... também andemos nós em novidade de vida”. Com essas
palavras ele nos exorta, não somente a que o imitemos, como se dissesse que o Batismo
nos admoesta no sentido de que, à semelhança e segundo o exemplo da morte de Jesus
Cristo, morramos para as nossas concupiscências, e que, a exemplo da sua ressurreição,
revivamos para a justiça. Não. Ele sobe a maiores alturas e afirma que pelo batismo somos
feitos participantes da sua morte, a fim de que sejamos enxertados nela. E como o enxerto
extrai a sua substância e o seu nutriente da raiz na qual foi inserido, assim também,
aqueles que recebem o Batismo com a fé com a qual ele deve ser recebido, sentem
verdadeiramente a eficácia da morte de Jesus Cristo na mortificação da sua carne. E o
mesmo se dá também com a sua ressurreição na vivificação do seu espírito. Disso o
apóstolo toma ocasião e matéria par nos exortar nos sentido de que, se somos cristãos,
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morramos para o pecado e vivamos para a justiça. Ele usa o mesmo argumento noutra
passagem [Cl 2.11,12], na qual afirma que fomos circuncidados e despojados do velho
homem, e então fomos sepultados com Cristo no Batismo. Nesse sentido, na passagem que
citamos anteriormente [Tt3.5], ele descreve essa ação como lavamento de regeneração e
renovação.

5. A bênção da nossa união com Cristo

[1539] Finalmente, pelo Batismo a nossa fé recebe também esta reconfortante bênção: não
somente nos é dada a certeza de que estamos inseridos como enxerto na morte e na vida de
Jesus Cristo, mas também que estamos de tal modo unidos a ele que ele nos faz
participantes de todos os seus bens. Porque por essa razão, ele consagrou e santificou o
Batismo em seu corpo [Mt 3.13], para que fosse um firme laço da comunhão e da união que
ele quis ter conosco. Tal é o significado disso que o apóstolo Paulo prova que somos filhos
de Deus pelo fato de que pelo Batismo fomos revestidos de Cristo [Gl 3.27}. Vemos, assim,
que o cumprimento do Batismo está em Cristo, razão pela qual o chamamos objeto e meta
a que o Batismo vida. Por isso não deve causas estranheza que os apóstolos tenham
batizado pessoas em nome de Cristo [At 8.16; 19.5], embora tivessem recebido
mandamento [Mt 28.19] para batizar em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Porque todos os dons e dádivas de Deus que nos são oferecidos no Batismo se encontram
em Cristo e unicamente nele. Todavia, quem batiza em nome de Cristo não pode deixar de
invocar igualmente o nome do Pai e do Espírito Santo. Fácil é ver a razão disso, pois, se
temos, como é fato que temos, a nossa purificação no sangue de Cristo, é porque o Pai,
querendo derramar a sua bondade e a sua clemência, reconciliou-se conosco por meio dele
como o Medidor. Como também recebemos a nossa regeneração por sua morte e por sua
vida se, santificados pelo Espírito, é por ele edificada em nós uma nova natureza espiritual.
Segue-se, pois, que devemos reconhecer que a nossa purificação e regeneração a temos no
Pai; a matéria, no Filho; e o efeito, no Espírito Santo. [1536] Vê-se que primeiro João e
depois os apóstolos ministraram o Batismo de arrependimento, para remissão dos
pecados, entendendo pela palavra arrependimento a regeneração, e pela remissão dos
pecados, a purificação [Mt 3.6-11; Lc 3.16; Jo 3.23; 4.1,2; At 2.38,41.].

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Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 3, pg 141-
144.
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Volume IV

Capítulo XII

Sobre a Ceia do Senhor


1. Propósito da instituição da Ceia

[1536] O outro sacramento instituído pelo Senhor e por ele dado à igreja cristã é o pão
santificado pelo corpo do Senhor Jesus Cristo e o vinho santificado pelo seu sangue, como
os antigos costumavam falar. E nós lhe chamados Ceia do Senhor, ou Eucaristia, porque
por ele somos alimentados e fortalecidos espiritualmente pela benignidade do Senhor, e,
de nossa parte, lhe rendemos graças por sua bênção.

A promessa que aí nos é feia mostra claramente com que fim foi instituído e a que visa, o
que se pode expor nestes termos: o sacramento da Ceia nos assegura e confirma que o
corpo do Senhor Jesus Cristo foi entregue uma vez por nós de tal maneira que agora é
nosso, e o será perpetuamente; e, igualmente, que o seu sangue foi derramado uma vez por
nós de tal maneira que será nosso para sempre.

2. Necessidade de contestar os que negam que o sacramento é exercício da fé

É por isso que novamente se refuta até à persuasão o erro daqueles que se atrevem a negar
que os sacramentos são uma forma de exercício da fé, dados para mantê-la, elevá-la,
fortalecê-la e aumentá-la. Portanto estas são as palavras do Senhor a esse respeito: “Este é
o cálice da nova aliança no meu sangue”(Lc 22.20; 1Co 11.25); quer dizer, é um sinal e um
testemunho de uma promessa. E onde há promessa, ali a fé tem sobre o que se apoiar e
com que se consolar e se fortalecer.

3. Frutos da Ceia

Nossa alma pode obter deste sacramento frutos de grande dulçor e consolação, porque nos
apercebemos de que Jesus Cristo está de tal modo incorporado em nós, e nós nele, que
tudo o que é dele podemos dizer que é nosso, e tudo o que é nosso, podemos declarar que é
dele. Por isso ousamos afirmar com segurança que a vida eterna é nossa e que o reino dos
céus não no pode ser retirado, nos mesmos termos em que o próprio Senhor Jesus Cristo
não pode ser privado dele. Por outro lado, podemos assegurar que não podemos ser
condenados por nossos pecados, não mais que Cristo, porque não são mais nossos, mas
dele. Não que seja possível atribuir-lhe alguma culpa, mas sim que ele se constituiu
devedor em nosso lugar, e é bom pagador. Esta é a permuta que, em sua bondade infinita,
ele quis fazer conosco: recebei nossa pobreza, e nos transferiu suas riquezas; levou sobre si
a nossa fraqueza, e nos fortaleceu com o seu poder; assumiu a nossa mortalidade, e fez
nossa a sua imortalidade; desce à terra, e abriu o caminho para o céu; fez-Filho do homem,
e nos fez filhos de Deus.

Essas coisas são prometidas ta completamente por Deus neste sacramento que devemos
estar certos e seguros de que nele são demonstradas tão verdadeiramente que é como se
Jesus Cristo mesmo estivesse ali presente pessoalmente, visivelmente, e que o víssemos
com os nossos próprios olhos, e tão palpavelmente que é como se o tocássemos com as
nossas próprias mãos. Porque esta sua palavra não pode falhar nem mentir: “Tomai,
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comei; isto é o meu corpo... Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova
aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.26-28; Mc
14.22-24; Lc 22.19,20; 1 Co 11.23-25). Ordenando que o tomemos, ele quer dizer que é o
nosso. Ordenando que o comamos e o bebamos, demonstra que ele é feito uma substância
conosco. Quando ele diz “Isto é o meu corpo oferecido por vós; este é o meu sangue
derramado por vós”, declara e ensina que são mais nossos que dele, porque ele os assumiu
e os deixou, não para se favorecer, mas por amor de nós e para nosso proveito.

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Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 5,6.

Capítulo XIII
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Sobre as cinco ouras cerimônias falsamente chamadas


Sacramentos, Quais sejam: A Confirmação, A Penitência, A
Extrema-unção, As ordens Eclesiásticas e o Casamento.
1. Introdução

A discussão que se fez no capítulo anterior sobre os sacramentos pode satisfazer a todas as
pessoas sóbrias e dóceis, não dispostas a ir adiante em sua curiosidade nem a acatar, se
base na Palavra de Deus, outros sacramentos além dos que foram instituídos pelo Senhor.
Mas, como foi introduzida a opinião favorável a sete sacramentos, opinião muito como
entre os homens e tão divulgada nas escolas, nos debates, nos sermões que lançou antigas
e profundas raízes no coração de todos em geral, e ali continua fixa e arraigada, pareceu-
me proveitoso considerar separadamente e mais de perto as outras cincos cerimônias que
comumente são incluídas entre os sacramentos do Senhor. Pretendo, depois de pôr a
descoberto toda a sua falsidade, dar a conhecer aos simples o que realmente elas são, e por
que, sem nenhuma razão, são recebidas com se fossem sacramentos. Vejamos:

2. Só Deus pode instituir sacramentos

Desde logo devemos reter e manter o que já comprovamos com argumentação irrefutável;
que poder de instituir sacramentos só pertence ao Deus único. Pois, graças à promessa
firme e segura de Deus, o sacramento deve dar segurança e consolo à consciência dos
crentes, segurança que eles nunca poderiam obter dos homens. O sacramento deve ser
para nós um testemunho da boa vontade de Deus para conosco. Ora, nenhum dos homens
nem dos anjos jamais poderia dar tal testemunho, visto que nenhum deles foi conselheiro
de Deus (Rm11.34). É somente Deus que de si mesmo nos dá testemunho por sua Palavra.
O sacramento é um selo que se imprime no Testamento e n promessa de Deus. Ora, coisas
corporais e elementos deste mundo não poderiam servir-lhes de selo, se para isso não
fossem competentemente assinalados e destinados. Portanto, o homem não pode instituir
sacramento, pois não cabe ao poder humano fazer que tão grandes ministérios de Deus se
ocultem sob coisas tão vis. É necessária a precedência da Palavra de Deus para fazer com
que o sacramento seja de fato sacramento.

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Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 51,52.
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Capítulo XIV

Sobre a Liberdade Cristã


1. Introdução

[1536] Devemos tratar agora da liberdade cristã, assunto do qual deve esquecer-se quem se
proponha a abranger num breve compêndio uma súmula de toda a doutrina evangélica.
Esse estudo é muito necessário, e, sem o conhecimento dele, dificilmente as consciências
ousarão empreender alguma coisa, senão em dúvida, muitas vezes hesitando e parando;
sempre temerosos e vacilantes.

Embora tenhamos vez por outra tocado de leve neste tema, todavia o adiamos e
reservamos sua discussão completa até o presente espaço. Tivemos este cuidado porque, se
for feita alguma menção da liberdade cristã antes da hora, de imediato uns dão rédeas solta
às suas concupiscências e outros promovem grandes tumultos, se ao mesmo tempo não se
puser ordem para conter os espíritos levianos, que corrompem as coisas mais excelentes
que a eles se apresentem. Porquanto uns, a título de seguirem esta liberdade, rejeitam toda
obediência a Deus e dão livre curso à sua carne. Já outros se opõem e não querem ouvir
falar desta liberdade, pois acham que ela só se presta para derrubar toda ordem, toda
modéstia e toda discrição.

Que fazer aqui, em tal aperto? Não seria melhor deixar de lado a discussão sobre a
liberdade cristã para enviar evitar tais perigos? Mas, como foi dito, sem este conhecimento,
nem Jesus Cristo nem a verdade do evangelho poderão ser bem conhecidos. Muito ao
contrário, devemos pôr toda a diligência no sentido de que esta doutrina tão necessária não
fique omissa e sepultada e que, ao mesmo tempo, se ponha freio às objeções absurdas
movidas contra ela.

2. Três partes componentes da liberdade cristã

Segundo o meu juízo, a liberdade cristã compõe-se de três partes. A primeira é que, em
geral, a consciência dos crentes, quando a questão é buscar a certeza da sua justificação, se
exalta e se eleva acima da Lei, e esquece toda a justiça que é própria da Lei. Porque, como
acima foi demonstrado, visto que a lei não vos deixa nenhum justo, ficamos neste impasse:
ou só nos resta perder toda a esperança de sermos justificados, ou é preciso que sejamos
libertados dela. E que fiquemos de tal modo livres dela que não precisamos nem pensar em
nossas obras. Porque, aquele que pensar que deve contribuir um pouco que seja com suas
obras para obter justiça, não conseguirá determinar nem o fim nem a medida delas, mas se
fará devedor de toda a Lei. Por isso, quando se trata da nossa justificação devemos
desfazer-nos de toda e qualquer consideração da Lei e das nossas obras, para abraçarmos
unicamente a misericórdia de Deus, e devemos afastar de nós mesmos o olhar para fixá-lo
somente em Jesus Cristo. Porque neste ponto não se trata da saber se somos justo, mas,
sim, de saber como é que, sendo injustos e indignos, podemos ser considerados justo. Se a
nossa consciência quer ter alguma certeza disso, não deve dar nenhum lugar à Lei.

Note-se, porém, que isso não deve levar a inferir que a Lei é supérflua para os crentes,
porquanto ela não deixa de ensiná-los, exortá-los e estimulá-los à prática do bem,
conquanto seja um fato de que no juízo de deus ela não tem lugar em nossa consciência.
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Sendo, pois, que estas duas coisas são bem diferentes, assim também nos é necessário
discernir-las cautelosa e diligentemente.

Toda a vida dos cristãos deve ser uma constante meditação e exercício ou prática da
piedade, visto que somos chamados para a santificação (Ef 1.4; 1 Ts 4.3,7). Nisto consiste o
ofício da Lei: em advertir os cristãos do seu dever e incitá-los a amar a santidade e a
inocência. Mas quando as consciências se inquietam sobre como poderão torna Deus
propício, sobre o que terão para responder e em que tipo de confiança elas poderão
manter-se quando chamadas e denunciadas no tribunal de Deus, não devem quere prestar
contas baseadas na lei, nem devem preocupar-se em saber o que ela exige, mas devem ter
consigo unicamente a Jesus Cristo como sua justiça, seguros de que ele sobrepuja toda a
perfeição da Lei.

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Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 89,90.
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Capítulo XV

Sobre o Poder Eclesiástico


1. Combate introdutório contra o clero usurpador

[1536] Assim como tudo o que foi dito anteriormente sobre a liberdade cristã pertence ao
reino espiritual, igualmente nesta discussão não combatemos a autoridade das leis civis,
mas o poder que usurpam os que querem ser vistos como pastores da igreja e, ao contrário,
são, verdadeiramente, carrasco cruéis. Porque eles dizem que as leis por eles feitas são
espirituais e pertinentes à alma e afirma que são necessárias à vida eterna. Com isso, o
reino de Cristo sofre assalto e é violado, e a liberdade por ele dada à consciência dos
crentes sofre opressão e é derribada. Por ora eu deixo de falar sobre qual impiedade eles
baseiam a observância das suas leis, alegando eles que por esse meio obtemos a remissão
dos pecados e a justiça, incluindo nelas a soma total da religião.

Por ora só debaterei o seguinte ponto: não se deve impor necessidade ou obrigatoriedade
ás consciências nas coisas das quais elas foram libertadas por Jesus Cristo, recebendo
liberdade sem a qual elas não podem estar em paz com Deus, como previamente
ensinamos.

2. Reconheçamos um só Rei, Cristo, e uma só lei, a lei da liberdade em Cristo

As consciências cristãs devem reconhecer como Rei um só Cristo, seu Libertados, e que são
governadas somente pela lei da liberdade, que é sagrada Palavra do evangelho. Isto se é
que desejam manter a graça que uma vez obtiveram em Jesus Cristo. E que elas não se
sujeitem a nenhuma servidão, nem se deixem capturar por laço algum.

3. Onde o jugo suave e o fardo leve?

Esses legisladores fazem parecer que as suas constituições são leis de liberdade, jugo suave
e fardo leve. Mas quem não vê que são puras mentiras? Quanto a eles próprios, nem
sentem o peso da suas leis, visto que, tendo rejeitado totalmente o temor de Deus, com
atrevimento desprezam igualmente as suas leis e as de Deus. Mas os que se sentem tocados
por algum sentimento de dever quanto à sua salvação, estão muito longe de considerar-se
livres, tão presos estão aos seus laços.

4. Que diferença de Paulo!

Vemos quão diligentemente Paulo evitou sobrecarregar as consciências, ao ponto de não


ousar prendê-las nem com uma só coisa. E não sem motivo. Certamente ele sabia que é
verdadeira praga mortal impor ás consciências a obrigatoriedade das coisas cuja liberdade
lhes foi dada por deus. Por outro lado, com dificuldade se poderia contar as numerosas
constituições que os que aqui estamos combatendo têm ordenado rigorosamente, sob pena
de morte eterna, e às quais eles obrigado têm ordenado rigorosamente, sob pena de morte
eterna, e às quais eles obrigam os homens como sendo essenciais à salvação. Entre elas há
exigências muito difíceis de cumprir, e, tomadas todas em conjunto, são inexeqüíveis, pelo
seu número excessivamente grande. Que é que se pode fazer, então, para que não se sintam
premidos de angústia e perplexidade os que se sentem sobrecarregados com tão duto
fardo?
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Por isso nos cabe concluir brevemente, conforme já ensinamos, que a nossa consciência
não deve levada a considerar-se obrigada para com Deus a todas as constituições feitas
com o fim de manter presas as almas crentes perante Deus, incluindo uma obrigação,
como se ordenassem coisas indispensáveis para a salvação. Ora, são desse jaez todas as
constituições hoje chamadas eclesiásticas, as quais eles dizem que são necessárias para que
honremos e sirvamos bem a Deus. E como são inumeráveis tais constituições, igualmente
inumeráveis são os laços que tendem a manter cativa a nossa alma.

5.Não há então nenhum poder eclesiástico legítimo?

Como, então? Não há nenhum poder eclesiástico? Muitas pessoas simples, que são as que
principalmente desejamos ensinar, espantam-se com essa nossa objeção.

Respondemos que na verdade não reconhecemos nenhum poder eclesiástico, a não se que,
como diz o apóstolo Paulo [2Co 10 E13], seja dado para edificação, não para destruição. Os
que fazem bom uso desse poder não se consideram nada mais do que “ministro de cristo e
despenseiros dos mistérios de Deus” [1Co 4.1].

Aqui são apenas as duas primeiras páginas do capítulo XV da Institutas – Edição


especial. Calvino continua a desenvolver este assunto Maravilhosamente nas páginas
seguintes. Compre este maravilhoso livro em http://www.cep.org.br de seqüência a leitura.

Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg
105,106.
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Capítulo XVI

Sobre o Governo Civil


1. Transição do governo eclesiástico para o governo civil. Distinção

[1536] Sendo, pois, que foram constituídos para o homem dois regimes e que já falamos
suficientemente sobre o primeiro, que reside na alam, ou no homem interior, e que
concerne à vida eterna, aqui se requer que também exponhamos claramente o segundo,
que visa a unicamente estabelecer uma justiça civil e aperfeiçoar os costumes exteriores.

Primeiro, antes de avançar no assunto, devemos recordar a distinção anteriormente


exposta para não suceder o que comumente sucede com muitos, o erro de confundir
inconsideradamente as duas coisas, as quais são totalmente diferentes. Porque eles,
quando ouvem no evangelho a promessa de uma liberdade que não reconhece rei nem
senhor entre os homens, mas se atém unicamente a Cristo, acham que não gozarão
nenhum fruto essa liberdade enquanto virem algum poder acima deles. E pensam que
nada irá bem, a não ser que todo o mundo se converta a uma nova forma, na qual não haja
nem julgamentos, nem leis, nem magistrados nem coisa alguma semelhante pela qual
considerem que a sua liberdade está sendo impedida. Mas quem souber discernir entre
corpo e alma, entre esta presente vida transitória e a vida por vir, que é eterna, entenderá
igualmente muito bem que o reino espiritual de Cristo e a ordem civil são coisas muito
diferentes.

Visto, pois, que é uma loucura judaica cercar e encerrar o reino de Cristo sob os elementos
deste mundo, e nós, antes, pensamos (como a Escritura nos ensina amplamente) [Gl 5;
2Co 7.21] que o fruto que nos cabe receber da graça de Cristo é espiritual, cuidemos
zelosamente de manter dentro dos seus limites esta liberdade, a qual nos é prometida e
oferecida em Cristo. Pois, por que é que o próprio apóstolo que nos ordena que não ordena
que não nos submetamos de novo “a jugo de escravidão”, noutra passagem ensina que os
servos não devem preocupar-se com o estado no qual estejam, sendo que a liberdade
espiritual pode muito bem subsistir na servidão civil? Nesse sentido também devem ser
entendidas outras declarações que ele faz, quais sejam: que no reino de Deus “não pode
haver judeu nem grego; nem escravo num liberto; nem homem nem mulher” [Gl 3.28]. E
igualmente: “não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro,
cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos” [CL 3.11]. Com essas sentenças Paulo
quer dizer que é indiferente a condição a que pertencemos entre os homens, ou qual a
nação a cujas leis devemos obediência, visto que o reino de Cristo não se localiza nestas
coisas.

2. A distinção feita não autoriza a negligência quanto aos deveres civis e cívicos

Todavia, esta distinção não tem como finalidade levar-nos a considerar que as
determinações legais relacionadas com práticas manchadas pelo mal não dizem respeito
aos cristãos. É a pura verdade que alguns amantes de utopias hoje em dia falam dessa
maneira, isto é, afirmam que, como fomos mortos por Cristo para os elementos deste
mundo e fomos transferidos para o reino de Deus, para as realidades celestes, devemos
considerar como coisa vil e indigna da nossa excelência ocupar-nos dessas solicitudes
imundas e profanas concernentes aos negócios deste mundo, dos quais os cristãos devem
ficar longe e totalmente afastados. “Para que servem as leis”, dizem eles, “não havendo
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litigantes nem julgamentos? E que é que têm que ver os litigantes com o homem cristão? E
mesmo considerando a proibição de matar, com que propósito nós haveríamos de ter leis e
julgamentos?” Mas, como pouco acima advertimos que essa espécie de regime é diferente
do reino espiritual e interior de Cristo, também nos é necessário saber, por outro lado, que
de forma alguma o repugna.

3. O cristão neste mundo aspirar à eternidade

Dizemos o que acima foi dito porque o reino espiritual já na terra nos faz sentir certo gosto
do reino celestes, e nesta vida mortal e transitória certo gosto da bem-aventurança imoral e
incorruptível. Mas o objetivo do reino temporal é fazer que possamos adaptar-nos à
companhia dos homens durante o tempo que nos cabe viver entre eles, estabelecer os
nossos costumes em termo de uma justiça civil, viver em harmonia uns com os outros, e
promover e manter paz e tranqüilidade comum. Reconheço que todas estas coisas seriam
supérfluas, se o reino de Deus, que ora se matem em nós, anulasse a presente existência.
Mas se é da vontade de Deus que caminhemos na terra enquanto aspiramos à nossa
verdadeira pátria, a se, ademais, tais acessórios são necessários nessa viagem para lá, os
que querem separá-los do homem vão contra a sua natureza humana.

Porque, no tocante ao que os tais sonhadores alegam, que deve existir na igreja uma
perfeição tal que seja suficiente para cobrir todas as leis, ou que as torne dispensáveis , é
pura imaginação deles tal perfeição; jamais se poderá encontrar na comunidade dos
homens. Pois, se a insolência dos maus é tão grande e a maldade tão rebelde que a duras
penas se pode manter a ordem pelo rigor das leis, que se poderá esperar deles, se
descobrirem que gozam de desenfreada liberdade para a prática do mel? Pois é preciso um
esforço enorme para à força contê-los e impedi-los de praticar o mal!

4. Alguns benefícios do governo civil

Haverá, porém, logo adiante, um espaço mais oportuno para se falar da utilidade do
governo civil. No presente, queremos tão-somente dar a entender que, querer rejeitá-lo é
uma barbárie desumana, pois que a sua necessidade entre os homens não é menor que a de
pão, água, sol e ar, e a sua dignidade é muito maior ainda. Porque não se relaciona apenas
com o que os homens comem, bebem e buscam para o seu sustento (se bem que abrange
todas estas coisas, tornando possível aos homens viverem juntos). Contudo, não se limita a
isso, mas também visa a benefícios como os seguintes: impedir que a idolatria, as
blasfêmias contra o nome de Deus e contra a sua verdade, e outros escândalos relacionados
com a religião sejam publicamente fomentados e semeados entre o povo; velar para que a
tranqüilidade pública não seja perturbada; proteger a propriedade de cada um; vigiar para
que os homens façam seus negócios sem fraude nem prejuízo; em suma, que possa
expressar-se uma forma pública da religião entre os cristãos, e que a humanidade subsista
entre os seres humanos.

Aqui são apenas as quatros primeiras páginas do capítulo XVI da Institutas – Edição
especial. Calvino continua a desenvolver este assunto de forma maravilhosa. Compre este
maravilhoso livro em http://www.cep.org.br de seqüência a leitura.

Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 144-
148.
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XVII

Sobre a Vida Cristã

1. Introdução
[1539] Dispondo-me a descrever em que consiste a vida do cristão, sei que entro num
assunto amplo e muito diversificado, que poderia encher um grande volume, se eu quisesse
abranger tudo quanto contém. Sabemos muito bem como são prolixas as exortações dos
doutores antigos quando tratam de alguma virtude específica. Não é que simplesmente os
que exageram no falar tenham culpa disso, porque sobre qualquer virtude que se queira
apreciar e recomendar é tal a abundância de material disponível que parecerá ao mestre
que não discutiu bem o assunto se não consumiu nisso muitas palavras. Bem, não é minha
intenção estender-me sobre a doutrina da vida cristã de que pretendo tratar apresentando
detalhadamente cada virtude e fazendo de cada uma delas longas exortações. Isso pode ser
encontrado em livros de outros autores, principalmente nas homilias ou sermões
populares dos doutores antigos. Quanto a mim, considero suficiente mostrar certa ordem
pela qual o cristão possa ser conduzido e dirigido à verdadeira meta que consiste em
ordenar adequadamente a sua vida.
2. Método e limites
[1541] Eu me contentarei, pois, em apresentar uma breve regra geral que lhe sirva de
parâmetro para orientar todas as suas ações. [1539] Talvez tenhamos ocasião de, noutra
oportunidade, fazer deduções e aplicações como as que encontramos nos sermões dos
doutores antigos. O trabalho que temos em mãos exige que exponhamos uma doutrina
simples e clara dentro do menor espaço possível.
3. Comparação da filosofia com a Bíblia
Assim como os filósofos tratam de algumas finalidades da honestidade e da retidão das
quais deduzem os deveres particulares e todas as ações próprias de cada virtude, assim
também a Escritura tem sua maneira de agir neste assunto, maneira aliás muito melhor e
mais certa que a dos filósofos. A única diferença é que eles, se sua ambição, exibiram a
perspicuidade ou clareza mais notável que puderam, para que se vissem a ordem e a
disposição empregadas por eles e assim mostrassem a sua perspicácia. Ao contrário, o
Espírito Santo ensina sem exibida ostentação, e nem sempre nem estritamente observa
alguma ordem e algum método. Todavia, quando ocasionalmente os emprega, significa que
não os devemos despreza.
4. Divisão bíblica do assunto
Pois bem, a ordem da Escritura da qual falamos consiste de duas partes. Uma visa
imprimir em nosso coração o amor pela justiça, para o qual por natureza não temos
nenhuma inclinação. A outra visa dar-nos uma regra definida para que, seguindo-a, não
fiquemos vagando sem rumo certo e não edifiquemos mal a nossa vida.
Quanto à primeira parte, a Escritura tem muitas razões excelentes para inclinar o nosso
coração ao amor pela retidão. Temos feito menção de algumas dessas razões em diversos
lugares da nossa obra, e tocaremos nalgumas outras aqui.
5. O padrão divino: santidade
Que fundamento seria melhor para começarmos do que admoestar-nos no sentido de que
devemos ser santificados porque o nosso Deus é santo? Fortalecemos o argumento com a
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lembrança de que, havendo por assim dizer vivido espelhados como ovelhas desgarradas e
dispersas pelo labirinto deste mundo, ele nos recolheu para juntar-nos a si. Ao sabermos
que Deus promove esta sua união conosco, devemos lembrar que o laço desta união é a
santidade. Não que pelo mérito da nossa santidade passemos a gozar da companhia ou da
comunhão com o nosso Deus, visto que primeiro é preciso que nos acheguemos a ele para
que ele derrame a santidade sobre nós, mas sim que, como não há nenhuma associação da
sua glória com a iniqüidade e com a impureza, temos que nos assemelhar a ele porque lhe
pertencemos.
Por isso a Escrituras nos ensina que esta é a finalidade da nossa vocação, finalidade à qual
devemos estar sempre atentos, se queremos responder positivamente ao nosso Deus. Por
que, de que valerá livrar-nos da impureza e da corrupção em que estávamos imersos, se o
tempo todo ficamos querendo revolver-nos de novo nessa lama? Além disso, a Escritura
nos admoesta no sentido de que, se desejamos estar na companhia do povo de Deus, temos
que habilitar em Jerusalém, na sua santa cidade. Cidade que, como ele consagrou e
dedicou à sua hora, também não é lícito que seja contaminada e corrompida por habitantes
impuros e profanos. Daí decorrem sentenças como esta: “Que, Senhor, habitará no teu
tabernáculo? Quem h[a de morar no teu santo nome? O que vive com integridade, e pratica
a justiça, e, de coração, fala a verdade” [Sl 15.1,2; 24.3; Is 35.8etc.; Rm 6.1-3,13,17-23].
6. Cristo, nosso Redentor e nosso Modelo
Acresce que, para nos despertar mais vivamente, a Escritura nos demonstra que, assim
como Deus em Cristo nos reconciliou consigo, assim também ele o constituiu em exemplo
e padrão ao qual devemos amoldar-nos. Que aqueles que consideram que somente os
filósofos tratam devidamente da doutrina moral me mostrem em seus livros um método
que seja tão bom como o que eu acabo de citar. Quando eles querem exortar-nos quanto
podem à virtude, outra coisa não nos passam senão que vivamos como convém à natureza.
Já a Escritura nos leva a uma fonte melhor de exortação, quando não somente nos ordena
que reportemos toda a nossa vida a Deus, seu autor, mas, depois de nos ter advertido de
que nos degeneramos em relação à verdadeira origem da nossa criação, acrescenta que
Cristo, reconciliando-nos com Deus, seu Pai, nos é dado como um exemplo de inocência e
cuja imagem deve ser representada em nosso viver. Que se poderia dizer com maior
veemência e com maior eficácia? Que outra coisa mais se poderia desejar? Porque, se Deus
nos adora como seus filhos, com a condição de que a imagem de Cristo se veja em nossa
vida, se abandonarmos a justiça e a santidade, não somente estaremos abandonando o
nosso Criador com a mais negligente deslealdade, mas também estaremos renunciando a
ele como Salvador.
Por conseguinte, a Escritura toma tampo e espaço para nos exortar quanto a todos os
benefícios que nos vêm de Deus e a todas as partes da nossa salvação, como quando diz:
Visto que Deus nos é dado como Pai, mereceremos ser repreendidos por nossa grande
ingratidão, se não nos comportarmos com seus filhos. Visto que Cristo nos purificou e nos
lavou com o seu sangue, e nos comunicou está purificação pelo Batismo, é mister que não
nos maculemos com nova impureza. Visto que ele nos uniu a si e nos enxertou em seu
corpo, devemos zelosamente cuidar que não nos contaminemos de modo algum, já que
somos seus membros. Visto que ele, que é a nossa Cabeça, subiu ao céu, é de toda
conveniência que nos desfaçamos de todo apego às coisas terrenas, para aspirarmos de
todo coração à vida celestial. Visto que o Espírito Santo nos consagrou para sermos
templos ou santuários de Deus, é necessário que façamos tudo o que pudermos para que a
glória de Deus seja exaltada em nós, e, por outro lado, para que não nos deixemos manchar
por nenhuma forma de contaminação do pecado. Visto que a nossa alma e o nosso corpo
foram destinados à imortalidade do reino de Deus e à incorruptível coroa da sua glória, é
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necessário que nos esforcemos para conservar alma e corpo puros e imaculados, até o dia
Senhor.
Aí estão fundamentos verdadeiramente bons e próprios para que sobre eles edifiquemos a
nossa vida. Não se vai encontrar nada parecido em todos os filósofos, porque eles nunca
vão além dos limites da dignidade meramente natural do homem, quando procuram
mostrar qual é o seu dever.
7. Mensagem aos cristãos nominais
Nesta altura devo dirigir a palavra àqueles que, não tendo nada de Cristo exceto o título,
entretanto querem ser reconhecidos como cristãos. Que atrevimento deles, quererem
gloriar-se em seu sacrossanto nome! Pois só têm relação de amizade com Cristo aqueles
que o conhecem verdadeiramente mediante a Palavra do evangelho. Pois bem, o apóstolo
Paulo nega que alguém possa receber o correto conhecimento de Cristo, a não ser aquele
que aprendeu a despojar-se “do velho homem, que se corrompe segundo as
concupiscências do engano”, sendo então revestido do novo homem [Ef 4.20-24].
Vê-se, pois, que é baseados em ensinamentos falsos que esses tais dizem que conhecem a
Cristo. E com isso lhe fazem grande injúria, por mais belas que sejam as suas palavras.
Porque o evangelho não é uma doutrina de língua, mas de vida. E, diferentemente das
outras disciplinas, não se apreende só pela mente e pela memória, mas deve envolver e
dominar a alma e ter como sede e receptáculo as profundezas do coração. De outra forma,
o evangelho não será recebido adequadamente como deve ser. Portanto, ou que tais
cristãos nominais deixem de se gabar do que não são, com o que afrontam
vergonhosamente a Deus, ou que tratem de mostrar que são discípulos de Cristo.
Demos o primeiro lugar à doutrina em matéria de religião, uma vez que constitui o
princípio da nossa salvação. Mas, para que nos seja útil e frutífera, também é necessário
que ela nos penetre o íntimo do coração e demonstre o seu poder em nossa vida, e que até
mesmo nos transforme fazendo-nos conformes à sua própria natureza. Se os filósofos com
razão ficam indignados contra aqueles que, declarando0se amantes da arte, a que eles
chamam mestra da vida, contudo a convertem numa loquacidade sofística, muito maior
razão temos nós para detestar os palradores que se contentam em ter o evangelho na boca,
desprezando-o totalmente em sua maneira de viver! Pois a eficácia do evangelho deveria
penetra as profundezas do coração e arraigar-se na alma, cem mil vezes mais que todas as
exortações filosóficas, que, em comparação, não tem grande vigor!
8. Reconhecendo limitações, o cristão deve aspirar a perfeição requerida por Deus
Não exijo que a vida do cristão seja um evangelho puro e perfeito, embora o devamos
desejar e esforçar-nos por esse ideal. Não exijo, pois, uma perfeição cristã de tal maneira
estrita e rigorosa que me leve a não reconhecer como cristão a quem não tenham
alcançado. Porque, se fosse assim, todos os homens do mundo seriam excluídos da igreja,
visto que não se encontra nem um só que não esteja bem longe dela, por mais que tenha
progredido. E a maioria ainda não avançou nada ou quase nada. Todavia, nem por isso os
devemos rejeitar. Que fazer então?
Certamente devemos ter diante dos nossos olhos como nossa meta a perfeição que Deus
ordena, para a qual todas as nossas ações devem ser canalizadas e à qual devemos visar.
Repito: temos que nos esforçar para chegar à meta. Sim, pois não é lícito que
compartilhemos com Deus apenas aceitando uma parte do que nos é ordenado em sua
Palavra e deixando o restante a cargo da nossa fantasia. Porque Deus sempre nos
recomenda, em primeiro lugar, integridade [Gn 17.1]. Com essa palavra ele se refere a uma
pura singeleza e sinceridade de alma, destituída e limpa de toda fantasia ou ficção e
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contrária à dobrez do coração. Como, porém, enquanto estamos nesta prisão terrena,
nenhum de nós tem a presteza necessária, e, na verdade a maior parte de nós é tão fraca e
débil que vacila e coxeia pouco podendo avançar, prossigamos avante, cada um segundo a
sua pequena capacidade, e não deixemos de seguir o caminho no qual começamos.
Ninguém caminhará tão pobremente que não avance ao menos um pouco por dia,
ganhando terreno.
Portanto, não cessamos de buscar a meta proposta, aproveitando constantemente os
benefícios da vereda do Senhor. E não nos desanimemos, ainda que o nosso proveito seja
diminuto. Mesmo que o nosso progresso não corresponda ao que imaginávamos, o esforço
não foi totalmente perdido quando se vê que o dia de hoje supera o de ontem. Somente
fixemos os nossos olhos na meta com pura e sincera simplicidade, e façamos todos os
esforços possíveis para alcançá-la, sem acariciar o nosso ego com vã adulação nem
desculpar os nossos erros morais. Esforcemos-nos sem cessar, empenhado em que cada
dia sejamos melhores do que somos, até alcançarmos a bondade suprema, que devemos
buscar durante toda a nossa vida. Perfeição que obteremos quando, despojados da
fraqueza da nossa carne, seremos feitos plenamente partícipes dela, isto é, quando Deus
nos acolher para vivermos para sempre em sua companhia.
9. Não somos nossos; somos do Senhor
[1541] Passemos agora à segunda parte. Embora Leis de Deus tenha, como tem, um
excelente método e um arranjo bem ordenado com vistas à edificação da nossa vida, não
obstante pareceu bem ao nosso bondoso Mestre celestial formar os seus por meio de uma
doutrina mais sublime que a que nos é comunicada em sua Lei.
Então, o princípio dessa forma de instrução consiste em determinar que é dever dos
crentes oferecerem seu corpo “por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”, que constitui
o culto legítimo que lhe devemos prestar [Rm 12.1]. Deste princípio decorre a exortação a
que eles não se acomodem à imagem deste século, mas que sejam transformados pela
renovação da sua mente, para buscar e experimentar a vontade de Deus. Temos aí já um
importante motivo para dizer que somos pessoas consagradas e dedicadas a Deus para que
não pensemos, nem meditemos, nem façamos coisa alguma que não seja para a sua glória.
Porque não é lícito aplicar algo sagrado a uso profano. Ora, se nós não nos pertencemos,
mas somos do Senhor, vê-se claramente o que devemos evitar para não errarmos, e para
onde devemos canalizar todas as ações que praticarmos em nosso viver.
Não somos de nós mesmos; portanto, não permitamos que a nossa razão e a nossa vontade
exerçam domínio sobre nossos propósitos e sobre nossas ações. Não somos de nós
mesmos; portanto, não tenhamos como nosso objetivo buscar o que nós traz proveito à
carne. Não somos de nós mesmos; esqueçamo-nos, pois, de nós mesmos, quando possível,
e de tudo o que nos cerca.
E agora: nós somos do Senhor; vivamos e morramos por ele e para ele. Somos do Senhor;
que a sua vontade e a sua sabedoria presidam a todas as nossas ações. Somos do Senhor;
relacionemos todos os aspectos da nossa vida com ele como o nosso fim único. Ah, quão
proveitoso será para o homem que, reconhecendo que não é dono de si, negue à sua razão
o senhorio e o governo de si mesmo e o confie a Deus! Porque, assim como a pior praga,
capaz de levar os homens à perdição e à reina, é se comprazerem a si mesmo, assim
também o único e singular porto de salvação não está em o homem julgar-se sábio, como
tampouco em querer nada de sua vontade própria, mas em seguir unicamente ao Senhor
[Rm 14.7,8].
10. Passos da vida cristã e do serviço a Deus
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O primeiro passo é, pois, que nos afastemos de nós mesmos a fim de aplicarmos todas as
forças da nossa mente ao serviço de Deus. Chamo serviço não somente o que consiste na
obediência à Palavra de Deus, mas também aquele pelo qual o entendimento do homem,
despojado dos seus próprios sentimentos, converte-se inteiramente e se sujeita ao Espírito
de Deus. Essa transformação, que o apostolo Paulo chama renovação da mente [Rm 12.1,
ver também Ef 4.22-24], tem sido ignorada por todos os filósofos, apenas de constituir o
primeiro ponto de acesso à vida. Eles ensinam que somente a razão deve reger e dirigir o
homem, e pensam que só a ela devemos ouvir e seguir; com isso, atribuem unicamente à
razão o governo da vida. Por outro lado, a filosofia cristã pretende que a razão ceda e se
afaste, para dar lugar ao Espírito Santo, e que por ele seja subjugada e conduzida, de modo
que já não seja o homem que viva, mas que, tendo sofrido com Cristo, nele Cristo viva e
reine [Gl 2.19,20].
11. Buscar não o que nos agrada, mas o que agrada e glorifica Deus
Disso decorre a segunda parte de que falamos, que não busquemos as coisas que nos
agradam, mas as que agradam a Deus e que se prestam para exaltar a sua glória.
Temos aqui também uma grande virtude, no sentido de que, praticamente nos esquecemos
de nós mesmos, ou ao menos procurando não nos preocupar com nós mesmos, apliquemos
e dediquemos com fidelidade nossos diligentes esforços para seguir a Deus e obedecer aos
seus mandamentos. Porque, quando a Escritura nos proíbe preocupar-nos particularmente
com nós mesmos, não somente elimina do nosso coração a avareza, a ambição de poder e
de receber grandes honras e alianças impróprias, mas também quer extirpar de nós toda
ambição e apetite de glória humana, e outros males ocultos. É, pois, necessário que o
cristão se disponha de tal maneira a que todo o seu pensamento se dirija às boas relações
que deve manter com Deus a vida toda. Seja esta a sua preocupação: consciente de que terá
que prestar contas de todas as suas obras a deus, dirigirá a ele todas as suas intenções e
nele as manterá fixas.
Uma razão disso é que todo aquele que tem Deus em sua mente em todas as obras que
pratica facilmente evita que o seu espírito se deixe levar por pensamentos e projetos vãos.
Refiro-me à abnegação ou à renúncia de nós mesmos que Cristo com tanto empenho e zelo
exige [Mt 16.24] de todos os seus discípulos, como sua primeira aprendizagem. Então, uma
vez ocupado nesse exercício o coração do homem, logo são exterminados dele o orgulho, a
arrogância e a ostentação, como também a avareza, a intemperança, a superfluidade e a
busca de prazeres, juntamente com todos os demais vícios e males gerados pelo amor a nós
mesmos.
Por outro lado, onde não reina este espírito de abnegação, ou o homem se extravasa em
todo tipo de vilania sem o menor pudor, ou, caso haja alguma aparência de virtude, esta é
corrompida por uma pecaminosa cobiça de glória. Pois que me mostrem um homem que
exerce benignidade gratuitamente, se não renunciou a si mesmo, segundo o mandamento
do Senhor. Porque aqueles que não se deixam levar por essa cobiça, no mínimo seguem a
virtude com vistas a receberem louvor. Mesmo os filósofos que têm lutado para mostrar
que se deve buscar a virtude por amor de virtude, de tal maneira se têm inflado de orgulho
que se vê que não desejam a virtude por outro senão o de terem com isso motivo para
orgulhar-se.
Pois bem, nem os ambiciosos que buscam glória mundana nem os que se enchem de
presunção interior agradam a Deus, tanto assim que ele declara contra os primeiros que já
receberam sua recompensa neste mundo, e contra os últimos, que estão mais longe do
reino de Deus que os publicanos e os devassos. Contudo, ainda não demonstramos com
suficiente clareza quantas coisas impedem o homem que não se negou a si mesmo de se
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dedica à real prática do bem. Os antigos já diziam com razão que há um mundo de vícios
ocultos na alma do homem. E não encontraremos remédio para isso, a não ser que,
renunciando ou negando a nós mesmos e deixando de buscar o que nos agrada,
impulsionemos e dediquemos o nosso entendimento a buscar as coisas que Deus exige de
nós, e a buscá-las unicamente porque lhe são agradáveis.
12. Abnegação com vistas aos homens e mormente a Deus
Devemos notar que a abnegação ou renuncia de nós mesmos em parte visa ao bem dos
homens e em parte, na verdade principalmente, visa à nossa relação com Deus. Ora,
quando a Escritura nos ordena que nos portemos de tal maneira para com os homens que
os prefiramos em honra a nós próprios e que nos empenhemos com toda a lealdade a
promover o seu progresso, ela nos dá mandamentos que o nosso coração não será capaz de
cumprir, se primeiro não for esvaziado dos seus sentimentos naturais. Porque somos todos
tão cegos e tão dominados pelo amor de nós mesmos que não há ninguém que não julgue
ter todos os bons motivos para elevar-se acima dos demais e para menosprezá-los a fim de
exaltar-se a si próprio. Se Deus nos concede algum dom digno de apreço, imediatamente, à
sombra disso, o nosso coração se eleva. E não somente nos inflamos, mas quase nos
arrebentamos de orgulho.
Nossos vícios e defeitos, dos quais estamos cheios, tratamos de zelosamente ocultar dos
demais, e procuramos fazer com que lhes pareçam pequenos e leves. Às vezes até os
consideramos virtudes. Quando se trata de graças ou dons por nós recebidos, tanto os
valorizamos que até os fazemos objeto de extasiada contemplação. Mas se tais dons se
manifestam noutras pessoas, e mesmo dons maiores que nos vemos constrangidos a
reconhecer, procuramos obscurecê-los ou então os desprezamos o mais que podemos. Por
outro lado, quando se manifestam vícios e defeitos nos outros, não nos contentamos em
fazer-lhes severa observação, mas os aumentamos odiosamente. Daí procede esta
arrogante insolência – que cada um de nós, como se estivesse isento da condição humana
comum, ambiciona preeminência, colocando-se acima de todos os demais e a todos, sem
exceção, considera inferiores a si. Os pobres cedem aos ricos; os plebeus, aos nobres; os
servos, a seus senhores; os indoutos, aos sábios – mas não há ninguém que, no intimo do
seu coração, não alimente a fantasia de que tem dignidade superior à de todos os demais.
Dessa forma, cada qual em sua categoria se vangloria e mantém um reino em seu coração.
Porque, atribuindo a si mesmos valores a seu bel-prazer, critica o espírito e os costumes
dos demais. E se chegam a travar contenda, o veneno de cada um logo aparece. Há muitos
que mantêm certa aparência de mansidão e de modéstia, em quanto não são contrariados
por coisa alguma. Mas, poucos são os que continuam a mostrar brandura e modéstia
quando provocados e irritados. E de fato não se pode alterar isso, a não ser que a praga
mortal do amor próprio e da exaltação própria seja arrancada do fundo do coração, como
determina o ensino da Escritura. Se dermos ouvidos à sua doutrina, esta nos fará lembrar
que todas as graças que Deus nos concede não são propriamente nossas, mas são dádivas
gratuitas da sua imensa generosidade.
Portanto, quem se orgulha demonstra ingratidão. Por outro lado, constantemente
reconhecendo os nossos vícios e defeitos, somos levados a proceder com humildade. Com
isso nada nos restará de que nos orgulharmos, mas, antes, haverá forte motivo para que
nos rebaixemos e nos humilhemos. Além disso, também nos é ordenado que todos os dons
de Deus que vejamos em nossos semelhantes sejam por nós de tal maneira exaltados e
reverenciados que, em função deles, honremos as pessoas nas quais eles residem. Seria
uma grande maldade querer despojar um homem da honra que Deus lhe deu. Acresce que
nos é ordenado que não fiquemos observando e anotando as faltas do próximo, mas que as
cubramos; não por adulação, mas para que não insultemos o faltoso, visto que lhe somos
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devedores de amor e de honra. Decorre disso que a todos aqueles com quem nos
relacionarmos, não somente tratemos com modéstia e moderação, mas também com
brandura e companheirismo. Tenha-se por certo que ninguém jamais chegará por outro
caminho à verdadeira mansidão, a não ser dispondo-se de coração a rebaixar-se a si
mesmo e a exaltar os outros.
13. A abnegação requer diligente empenho
Quão difícil é cumprir o dever de trabalhar pelo proveito do próximo! Se não deixarmos de
lado a consideração de nós mesmos e não nos despojarmos de todo afeto ou interesse
carnal, não conseguiremos fazer nada nessa esfera. Porque como havemos de cumprir os
deveres que o apostolo quer que cumpramos com amor, se não renunciarmos a nós
mesmos para dedicar-nos de coração aos nossos semelhantes? “O amor é paciente”, diz ele,
“é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz
inconvenientemente, não procura os seus interesses”, etc. Ainda que ele só nos ordenasse
que não busquemos nosso próprio proveito, ainda teríamos que forçar a nossa natureza,
que de tal modo nos leva a amar a nós mesmos que não permite com facilidade que
deixemos de procurar benefício próprio para atender diligentemente ao nosso próximo. Ou
melhor, não nos deixa perder nossos direitos para cedê-los ao nosso próximo.
Ora, a Escritura, para nos persuadir a respeito, lembra-nos que tudo o que recebemos da
graça do Senhor nos foi entregue sob esta condição: que o tornemos parte do bem comum
da igreja. E, portanto, que o uso legítimo dos bens recebidos consiste em compartilhá-los
fraternal e liberalmente, visando ao bem do nosso próximo. Para levar a efeito esse
compartilhar, não se pode achar melhor regra nem mais certa do que quando se diz: tudo o
que temos de bom nos foi confiado em depósito por Deus, e, nessas condições, deve ser
distribuído para o bem dos demais.
E a Escritura vai além, comparando as graças e dons que cada um de nós tem com as
qualidades ou funções próprias de cada membro do corpo humano. Nenhum membro tem
sua faculdade independentemente, e não a aplica para seu beneficio particular, mas para
proveito comum, e não recebe nenhum beneficio que não proceda do beneficio distribuído
e partilhado por todo o corpo. Dessa maneira, o crente deve pôr tudo quanto é do seu
poder à disposição dos irmãos, não fazendo uso disso unicamente para si, mas sempre com
a nobre a clara intenção de que propicie o bem comum da igreja.
Portanto, para nos orientarmos na prática do bem e das ações humanitárias, adotemos esta
norma: de tudo o que o Senhor nos deu com o que podemos ajudar o nosso próximo,
somos despenseiros ou mordomos, sendo que teremos que prestar contas de como nos
desincumbimos da nossa responsabilidade. E mais: não há outra maneira recomendável de
administrar o que recebemos senão a de seguir a norma do amor. Em decorrência disso,
não somente juntaremos os esforços para beneficiar o nosso próximo à solicitude que
aplicamos com vistas ao nosso próprio proveito, mas também sujeitaremos o nosso
proveito ao dos demais.
E realmente, para nos mostrar que essa é a maneira de administrar bem e devidamente o
que ele nos dá, Deus a recomendou antigamente ao povo de Israel, mesmo com referencia
aos menores beneficio que ele lhe fazia. Recordemos que ele ordenou que fossem ofertadas
as primícias, ou seja, os primeiros frutos das colheitas, para que desse modo o povo
testificasse que não lhe era lícito desfrutar nenhuma espécie de bens antes de lhe serem
consagrados. Ora, se os dons de Deus nos são finalmente santificados, após os havermos
consagrado de nossas mãos, certamente se vê que é um abuso condenável negligenciar a
referida consagração. Por outro lado, seria uma verdadeira loucura tentar enriquecer a
Deus dando-lhes as coisas que temos em mãos. Visto, pois, que o bem que podemos fazer
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não pode subir a Deus, como diz o profeta, devemos praticá-lo em favor dos seus servos
que vivem neste mundo.
14. Fazer o bem a todos, quer mereçam quer não
Além do que acima foi dito, para que não nos cansemos de fazer o bem, o que de outra
forma aconteceria em pouco tempo, devemos recordar o que apóstolo Paulo logo adiante
diz: “o amor é paciente... não se exaspera”. O Senhor ordena que façamos o bem a todos,
sem exceção, apesar do fato de que em sua maior parte são indignos, se os julgarmos
segundo os seus próprios méritos. Mas a Escritura não perde tempo e nos admoesta no
sentido de que não temos que observar tais ou quais méritos dos homens, mas, antes,
devemos considerar em todos eles a imagem de Deus, a qual devemos honrar e amar.
Singularmente, o apóstolo nos exorta a que a reconheçamos nos da “família da fé”, visto
que neles a imagem de Deus é renovada e restaurada pelo Espírito de Cristo.
Portanto, seja quem for que se apresente a nós como necessitado do nosso auxílio, não há o
que justifique que nos neguemos a servi-lo. Se dissermos que é um estranho, o Senhor
imprimiu nele uma marca que deveríamos reconhecer facilmente. Se alegarmos que é
desprezível e de nenhum valor, o Senhor nos contestará, relembrando-nos que o honrou
criando-o à sua imagem. Se dissermos que não há nada que nos ligue a ele, o Senhor nos
dirá que se coloca no lugar dele para que reconheçamos nele os benefícios que ele [o
Senhor] nos tem feito. Se dissermos que ele não é digno de que demos sequer um passo
para ajudá-lo, a imagem de Deus, que devemos contemplar nele, é digna de que por ela nos
arrisquemos, contudo o que temos. Mesmo que tal homem, além de não merecer nada de
nós também nos fez muitas injúrias ultrajantes, ainda assim isso não é causa suficiente
para que deixemos de amá-lo, agradá-lo e servi-lo. Porque, se dissermos que ele não
merece nada disso de nós, Deus nos poderá perguntar que é que merecemos dele. E
quando ele nos ordena que perdoemos aos homens as ofensas que nos fizeram ou fizerem,
é como se o fizéssemos a ele.
Não há outro caminho pelo qual possamos chegar a praticar o que não somente é difícil
para a natureza humana, mas também lhe é totalmente repulsivo, isto é, que amemos os
que nos odeiam, que devolvamos o bem pelo mal, que oremos pelos que falam mal de nós.
Só chegaremos a esse ponto se nos lembrarmos de que não devemos dar atenção à malícia
dos homens, mas contemplar neles a imagem de Deus, a qual, por sua excelência e
dignidade, pode mover-nos a amá-los e pode apagar todos os vícios que poderiam fazer-
nos desviar do caminho que nos cabe seguir
15. Só o amor nos habilita a mortificar-nos
Então, essa mortificação só terá lugar em nós quando exercermos vera caridade. O que não
consiste em apenas cumprir todos os deveres da caridade, mas em cumpri-los movidos
pelo verdadeiro amor. Pois pode acontecer que alguém faça ao seu próximo tudo o que
deve quando se trata do cumprimento meramente exterior do dever, e, todavia estar bem
longe de cumprir o seu dever movido pela razão legítima. Vê-se muito isso, pois há aqueles
que querem parecer muito generosos e, todavia, não dão coisa alguma sem lançar em
rosto, seja pelo semblante altivo, seja por palavra soberba. Atualmente chegamos a esta
desgraça, que a maioria não dá nenhuma esmola senão acompanhada de algum insulto.
Perversidade intolerável, mesmo entre pagãos.
Pois bem, o Senhor exige dos cristãos coisa muito diferente do que semblante alegre e
amável, para tornar a sua beneficência simpática graças a um tratamento humanitário e
terno. Primeiro, devem colocar-se no lugar da pessoa que tem necessidade de ajuda;
segundo, que tenham dó da sua sorte como se eles próprios estiverem passando por essa
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situação; e, terceiro, que se deixem mover pelo mesmo sentimento de misericórdia ao


ajudá-la, como se eles próprios fossem os necessitados socorridos. Quem tiver tal
disposição de ânimo na ajuda que prestar a seus irmãos, não somente não contaminará a
sua beneficência com qualquer laivo de arrogância ou censura, mas também não
menosprezará a pessoa beneficiada por sua indigência, nem quererá subjugá-la, como se
ela lhe devesse obrigação.
A verdade que não insultamos nenhum dos nossos membros enfermos, por cujo
restabelecimento todo o resto do corpo trabalha, e nem por isso achamos que ele fica
especialmente obrigado aos demais membros pelo empenho destes em socorrê-lo.
Porquanto o que os membros se comunicam uns aos outros não deve ser considerado
como coisa gratuita, mas, antes, como pagamento e cumprimento do que a lei da natureza
exige.
Daí decorre também que venceremos outro aspecto, pois não nos consideraremos livres e
com as contas pagas por termos feito o nosso dever nisto ou naquilo, como geralmente se
pensa. Porque o rico acredita que, depois de ter dado algo do que possui, pode dar-se por
satisfeito, e então negligencia todas as outras responsabilidades, como se não lhe
dissessem respeito. Ao contrário, cada um deverá considerar que é devedor ao próximo de
tudo o que tem e de tudo que está em seu poder, e que não deve limitar a sua obrigação de
praticar o bem, a não ser quando já não tenha recursos para isso; estes, até onde podem
estender-se, devem estar subordinados ao que manda a caridade.
16. Abnegação ou renúncia com vistas a Deus
Tratemos agora da outra parte da abnegação ou renúncia de nós mesmos, agora com
relação a Deus. Já tratamos disso aqui e ali; seria supérfluo repetir tudo o que já foi dito.
Será suficiente mostrar como essa disposição nos leva à paciência e à mansidão.
Consideremos: primeiramente, enquanto procuramos meios de viver ou gozar paz e
comodidade, a Escritura sempre nos faz voltar a ver a necessidade de entregar a Deus todo
o nosso ser e tudo quanto temos, sujeitando a ele os nossos afetos e os sentimentos do
nosso coração, para que ele os domine e os dirija soberanamente. Há em nós uma
intemperança furiosa e uma cobiça desenfreada que nos levam a desejar crédito e honras, a
buscar posições de poder, a acumular riquezas e a juntar tudo quanto nos parece
conveniente para uma vida de pompa e de magnificência. Por outro lado, tememos e
detestamos pavorosamente a pobreza, a pequenez e a ignomínia; por isso fugimos delas o
mais que podemos. Por essa causa se vê quanta inquietude de espírito padecem todos
aqueles que procuram dirigir a sua vida conforme o seu próprio conselho, quantos meios
tentam e de quantas maneiras se atormentam, para chegar a uma situação para a qual os
levam a sua ambição e a sua avareza, a fim de evitarem a pobreza e uma condição inferior.
17. A bênção de Deus nos basta
Dado o que acima foi dito, para que os crentes não se deixem prender por esses laços, terão
que seguir este caminho: primeiro, não devem desejar nem esperar nem imaginar outro
meio de prosperar senão graças à bênção de Deus, é, por conseguinte, nela devem firmar-
se, apoiar-se e descansar. Pode parecer que a carne é em si suficiente para levar a efeito a
sua intenção, quando aspira a honras e riquezas, confiante em que as pode obter por seu
engenho e arte, ou quando ela faz esforços para isso, ou quando é ajudada pelo favor dos
homens. Entretanto, o certo é que todas essas coisas de nada valem e nenhum proveito nos
darão, não por nosso engenho nem por nosso labor, a não ser que o Senhor os torne
profícuos. Ao contrário, unicamente sua bênção achará caminho através de todos os
obstáculos para nos dar bom êxito em todas as coisas.
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Além disso, ainda quando pudéssemos adquirir honras e fortuna sem buscar para isso a
bênção de Deus, pois, constantemente vemos os ímpios conseguirem grandes riquezas e
alta posição, todavia, uma vez que nas coisas sobre as quais pesa a maldição de Deus não se
pode experimentar nem uma só gota de felicidade, qualquer coisa que obtivermos nos fará
infelizes, a não ser que a bênção de Deus esteja sobre nós. Ora, seria uma loucura querer
algo que nos pode infelicitar.
18. A bênção de Deus é o segredo da moderação e de um viver profícuo e benéfico
Portanto, se acreditamos que o único meio de prosperar é a bênção de Deus, e que sem ela
nos sobrevirão misérias e calamidades, o que devemos fazer é deixar de desejar com
sofreguidão riquezas e honras e de pôr a nossa confiança em nosso engenho ou em nossos
esforços ou no favor dos homens ou na sorte. E mais, devemos pôr sempre os nossos olhos
em Deus para que, sob a sua direção, sejamos conduzidos à condição na qual lhe pareça
bem colocar-nos.
Disso resultará que não procuraremos conseguir riquezas nem usurpar honras a torto e a
direito, pela violência, por trapaça e por outros meios escusos, mas só buscaremos obter o
que não nos faça culpados diante de Deus. Porque, haverá quem espere que a bênção de
Deus o ajude a cometer fraudes, rapinas e outras maldades? É, assim como a bênção divina
favorece os que são retos em seus pensamentos e em suas obras, assim também o homem
que a deseja deve manter-se longe de toda iniqüidade e de toda má cogitação.
Acresce que a submissa confiança na bênção de Deus nos servirá de freio para nos conter,
impedindo que nos inflamemos de uma desordenada cobiça por riquezas e que labutemos
ambiciosamente pela nossa exaltação. Pois, que impudente ousadia será pensar que Deus
nos ajudará a obter coisas que desejamos contrariamente à sua Palavra! Longe de nós
pensar que Deus favorece com a graça da sua bênção algo que ele amaldiçoa com a sua
própria boca!
Finalmente, quando as coisas não sucederem conforme o nosso desejo e a nossa esperança,
a presente consideração nos impedirá de deixar-nos arrastar pela impaciência e de odiar a
nossa situação. Porque saberemos que fazê-lo seria murmurar contra Deus, por cuja
vontade são distribuídas as riquezas e a pobreza, o desprezo e as honras.
Em suma, todo aquele que descansar na bênção de Deus, como acima foi dito, não desejará
obter por meios escusos e maus nenhuma das coisas que em geral os homens cobiçam
desenfreadamente, pois sabe que esses meios não lhe darão nenhum real proveito. E se lhe
advier alguma prosperidade, não a imputará aos seus esforços diligentes, nem à sua
capacidade, nem à sorte, mas reconhecerá agradecido que lhe vem de Deus.
Por outro lado, se ele não consegue progredir, e até regride, enquanto outros conseguem
tudo o que querem, não deixará por isso de suportar com mais paciência e equilíbrio a sua
pobreza do que a suportaria um ímpio por não alcançar as riquezas medíocres que almeja,
que a final não são tão grandes que valha a pena desejá-las. Porque o crente fiel
desconsidera com maior tranqüilidade todas as riquezas e honras do mundo porque tem o
consolo de saber que todas as coisas de que decorrem da ordenação e direção de Deus
visam à sua salvação.
19. A abnegação nos habilita à paciência e à moderação em todas as circunstâncias
É necessário, porém, que os crentes não somente mantenham nessa questão essa paciência
e moderação, mas também que a estendam a todas as situações a que estamos sujeitos
nesta existência. Por isso, ninguém terá devidamente renunciado a si mesmo, enquanto
não se render de tal modo a Deus que aceite de boa vontade que a sua vida seja governada
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por seu beneplácito. Quem tiver esta disposição de ânimo, aconteça o que acontecer não se
considerará infeliz, nem se queixará de sua situação lançando acusações sobre Deus.
Pois quão necessária é esta maneira de sentir logo se nos tornará manifesto, se
considerarmos quantos são os acidentes a que estamos sujeitos. Há mil tipos de
enfermidades que nos molestam constantemente. Ora a peste nos atormenta, ora a guerra,
ora geada ou o granizo torna improdutivos os campos, e, em conseqüência, a indigência
nos ameaça; ora perdemos a esposa, filhos e outros parentes; às vezes o fogo irrompe em
nossa casa. Essas coisas fazem com que os homens maldigam sua vida, detestem o dia em
que nasceram, repudiem o céu e a luz, falem mal de Deus, e, como estão sempre prontos a
blasfemar acusem-no de injustiça e crueldade.
Ao contrário, o homem crente e fiel é levado a contemplar, mesmo nessas coisas, a
clemência de Deus e sua bondade paternal. E assim, ainda que se sinta consternado pela
morte de todos os que lhe são chegados e veja sua casa deserta, não deixará de bendizer a
Deus. Antes se dedicará a meditar: visto que a graça de Deus habita em sua casa, não a
deixará triste e vazia; ainda que as suas vinhas e suas lavouras sejam destruídas pela
geada, pela saraiva ou por qualquer outro tipo de tempestade, prevendo-se por isso o
perigo de fome, ainda assim ele não perderá o ânimo e não ficará descontente com Deus.
Em vez disso, persistirá em sua firme confiança, dizendo em seu coração: apesar disso
tudo, estamos sob a proteção de Deus, somos “ovelhas de sua mão” e “rebanho do seu
pastoreio”. Por mais grave que seja a improdutividade da terra, ele sempre nos dará o
sustento. Mesmo que o crente padeça enfermidade, não se deixará abater pela dor nem se
deixará arrastar pela impaciência e queixar-se de Deus. Ao contrário, considerando a
justiça e a bondade do Pai celestial nos castigos que ministra, o crente fiel se deixará
dominar pela paciência.
Em resumo, sabedor de que tudo provêm da mão do Senhor, o que quer que lhe advenha o
crente fiel receberá com o coração sereno e não ingrato ou ressentido, não se dispondo a
resistir à ordenação daquele a quem uma vez se entregou confiante. Com maior razão,
longe esteja do crente a estulta consolação dos pagãos qual seja: para suportar com
paciência as adversidades, atribuí-las à sorte. Os filósofos argumentam nesse sentido
afirmando que seria loucura rebelar-se contra a sorte [ou a deusa Fortuna] a qual é
impulsiva e cega, e lança ao acaso o seus dardos contra bons e maus, indiscriminadamente.
Ao contrário, um ditame da verdadeira piedade cristã é que somente a mão de Deus
conduz e governa a boa ou má sorte, lembrando que a sua mão não age de maneira
impetuosa e inconsiderada, mas dispensa o bem e o mal segundo uma justiça sabiamente
ordenada.
20. Levar pacientemente cada dia a sua cruz é um dos componentes da abnegação do
cristão
A dedicação do cristão deve subir a um ponto ainda mais alto, para o qual Cristo chama
todos os que lhe pertencem. Chama-os para que cada qual leve a sua cruz. Porque todos
quantos o Senhor adotou e recebeu na comunidade dos seus filhos devem dispor-se e
prepara-se para uma vida dura, laboriosa e repleta de labutas e de infindáveis espécies de
males. É da vontade do Pai celestial exercitar assim os seus servos, a fim prová-los.
Começou a agir dessa forma com Cristo, seu Filho, e depois com todos os demais. Porque,
apesar de ser ele seu Filho amado, em quem sempre se agradou, vemos que não foi tratado
com brandura concessões indulgentes neste mundo. A tal ponto que se pode dizer que ele
não somente padeceu constante aflição, mas também que toda a sua vida foi uma espécie
de cruz perpétua. Como, então, vamos querer isentar-nos da condição à qual se sujeitou
Cristo, nossa Cabeça? Ainda mais quando nos lembramos de que se sujeitou a isso por
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nossa causa, para dar-nos exemplo de paciência! Por isso o apóstolo anuncia que Deus
predestinou todos os seus filhos para esta finalidade: que se façam semelhantes a Jesus
Cristo.
Desse fato nos advém uma singular consolação. É que, sofrendo todas as misérias em geral
descritas como coisas adversas e más, co-participemos da cruz de Cristo para que, assim
como ele passou por um abismo repleto de todos os males para entrar na glória celestial,
assim também nós cheguemos lá por meio de muitas tribulações. Noutra passagem o
apostolo Paulo nos ensina que quando experimentamos certa participação nas aflições de
Cristo, ao mesmo tempo nos é dado captar o poder da sua ressurreição. E que quando
participamos da Sua morte, preparamo-nos dessa maneira para chegar à sua eternidade
gloriosa. Quão grande é a eficácia desta realidade, para suavizar todo o amargor que
poderia haver na cruz – ter a convicção de que, quanto mais formos afligidos e quanto mais
misérias sofrermos, mais certos e seguros estaremos de que estamos unidos a Cristo! Pois
quando temos real comunhão com ele, as nossas adversidades não somente se tornam
bênçãos, mas também nos ajudam grandemente a progredir em nossa salvação!
21. A cruz assinala marcantemente a presença da Soberana graça de Deus em nossa vida
Lembremo-nos de que o Senhor Jesus não tinha necessidade nenhuma de levar a cruz e de
sofrer tribulações, exceto para atestar e comprovar sua obediência a Deus, seu Pai. Mas por
muitas razões nos é necessário sofrer perpétua aflição nesta vida.
Primeiro, como somos por demais inclinados por natureza a nos exaltar e atribuir tudo a
nós mesmos, se a nossa fraqueza não for demonstrada de maneira patente, depressa
avaliaremos exageradamente o nosso poder e virtude e não duvidaremos de que vamos
permanecer invencíveis frente a todas as dificuldades que se nos anteponham. Daí sucede
que nos elevamos firmados numa vã e estulta confiança na carne, o que a seguir nos incita
a orgulhar-nos contra Deus, como se a nossa capacidade fosse suficiente para nós, sem a
sua graça.
Não há melhor meio pelo qual ele põe abaixo a nossa arrogância do que mostrar-nos
experimentalmente como somos fracos e frágeis. Por isso ele nos aflige, quer nos
ocasionando afrontas vergonhosas, quer pela pobreza, ou doença, ou perda de parentes,
quer por outras calamidades, de tal modo que logo sucumbimos, visto que não temos
forças para resistir. Então, humilhados e agora humildes, aprendemos a implorar seu
poder, a única força que nos habilita a subsistir e a manter-nos firmes sob o peso desses
tão pesados fardos.
Até os mais santos, embora reconheçam que a sua firmeza se funda na graça do Senhor e
não em seu próprio poder, ainda assim tenderiam a confiar demais em sua força e em sua
constância, se o Senhor não os conduzisse a um conhecimento mais correto sobre si
mesmos, provando-os pela cruz. E, no caso de se jactarem, concebendo a seu próprio
respeito uma opinião de firmeza e perseverança quando tudo lhes vai bem, depois de
passarem por alguma tribulação reconhecem que aquilo não passava de hipocrisia.
Temos aí, pois, a maneira pela qual os santos são advertidos de sua fraqueza por tais
provações, para que aprendam a humilhar-se e a despojar-se de toda perversa confiança na
carne e se rendam totalmente à graça de Deus. Então, havendo-se rendido, sentem a
presença do poder de Deus, no qual encontram satisfatório refúgio e fortaleza.
22. A cruz produz em nós perseverança e experiência
É o que o apóstolo quer dizer quando declara que “a tribulação produz perseverança; e a
perseverança, experiência”. Como o Senhor prometeu aos que nele crêem assisti-los nas
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tribulações, eles experimentam a realidade dessa promessa quando perseveram com


paciência, sustentados por sua mão, cientes de que não o poderiam fazer por suas forças. A
perseverança é, pois, uma prova de que Deus verdadeiramente presta o socorro que lhes
prometeu, sempre que se faz necessário. Com isso é confirmada e fortalecida a sua
esperança, considerando que seria uma grande ingratidão não confiar na veracidade futura
de Deus, tendo já sido comprovada a sua firmeza e imutabilidade.
Já vemos aí, então, quantos benefícios nos provêm da cruz, como numa corrente
ininterrupta. Destruindo a falsa opinião que naturalmente concebemos sobre a nossa
própria virtude e capacidade, e desmascarando a nossa hipocrisia, que nos seduz e nos
engana com suas lisonjas, a cruz elimina a confiança em nossa carne, confiança assaz
perniciosa. Depois, havendo-nos humilhado dessa forma, ensina-nos a descansar em Deus
que, sendo como é o nosso real fundamento, não nos deixa sucumbir nem desanimar.
Dessa vitória segue-se a esperança. Pois visto está que o Senhor, tendo cumprido o
prometido, estabelece como certa e segura a sua veracidade quanto ao futuro.
Com certeza, ainda que só houvesse essas razões, vê-se quão necessário é o exercício da
cruz. Porquanto não é pequena bênção que o nosso amor a nós mesmos, amor que nos
cega, seja extirpado, para que reconheçamos adequadamente a nossa debilidade; que
tenhamos bom discernimento dela para aprendermos a desconfiar de nós mesmos; que,
desconfiando de nós mesmos, ponhamos a nossa confiança em Deus; que nos apoiemos
em Deus com segura e firme confiança, de coração, para que, mediante seu auxilio,
perseveremos vitoriosos até o fim; que permaneçamos firmes em sua graça, e assim
saibamos e reconheçamos que ele é verdadeiro e fiel em suas promessas; e que tenhamos
como certas e manifestas as suas promessas, para que dessa forma a nossa esperança seja
confirmada e fortalecida.
23. A cruz prova a nossa paciência e nos ensina a obediência
O Senhor tem ainda outro motivo para afligir os seus servos, qual seja, provar sua
paciência e ensinar-lhes a obediência. Não que eles possam ter outra obediência além da
que lhes é dada; agrada ao Senhor, porem, mostrar e atestar as graças que dá aos seus que
nele crêem, a fim de que não permaneçam ociosos e fechados em si mesmos. Por isso,
quando ele fala da virtude da perseverança com que dotou seus servos, declara que prova a
paciência deles. Disso procedem as expressões referentes ao fato de que ele provou Abraão
e, viu sua piedade; visto que não se negou imolar seu filho para agradar ao Senhor. Pela
mesma razão o apóstolo Pedro declara que a nossa fé não é menos provada pela tribulação
que o ouro pelo fogo.
Ora, quem negará que é de toda conveniência que um dom tão excelente como esse, dado
pelo Senhor aos seus servos, seja posto em uso, e assim se torne notório e manifesto? De
outro modo, os homens jamais o apreciariam como convém. Ora, se o Senhor tem justa
razão para dar importância às virtudes que colocou em seus servos, para que as exercitem e
não fiquem fechados em si mesmos tornando-as inúteis, vemos que não é sem motivo que
ele envia aflições, sem as quais seria nula sua paciência ou sua perseverança.
Digo também que a cruz ensina aos cristãos a paciência, pois assim aprendem a viver, não
para agradar os desejos do seu coração, mas para agradar a Deus. É evidente que se todas
as coisas lhes sucedessem como gostariam, nunca saberiam o que é seguir a Deus. Note-se
que Sêneca, filósofo pagão, disse que antigamente, quando se queria exortar alguém a
suportar pacientemente as adversidades, costuma-se citar este provérbio: “É necessário
seguir a Deus”. Com isso os antigos queriam dizer que o homem se submete real e
finalmente ao jugo do Senhor quando se deixa castigar e voluntariamente oferece mãos e
costas aos seus açoites. Ora, se é razoável que nos façamos obedientes em todas as coisas
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ao Pai celestial, não devemos negar-nos a que ele nos acostume por todos os meios
possíveis a prestar-lhe obediência.
24. A cruz freia a intemperança da nossa carne
Todavia, não enxergaríamos a grande necessidade de prestar-lhe esta obediência, se não
considerássemos quão grande é a intemperança da nossa carne, predisposta a arrojar de
nós o jugo do Senhor, tão logo se vê tratada com brandura. Acontece com ela o que se dá
com cavalos fogosos que, depois de serem deixados por algum tempo ociosos e
descansados no estábulo, tornam-se indomáveis e desconhecem o seu dono, a quem antes
se sujeitavam. Em resumo, o que o Senhor lamentava haver acontecido com o povo de
Israel vê-se costumeiramente em todos os homens – que, engordando muito pelo trato
generoso, voltam-se contra aquele que os tratou.
Certo é que convinha que a generosidade de Deus nos levasse a considerar e amar a sua
bondade. Ma, visto que a nossa ingratidão é tão grande que, ao sermos beneficiados pela
indulgência de Deus, somos mais corrompidos do que estimulados à prática do bem, é
mais que necessário que ele nos freie com rédeas firmes e sempre nos mantenha sob algum
tipo de disciplina, para que não deixemos atravessar a nossa petulância. Por essa causa,
para que não fiquemos orgulhosos por uma grande abundância de bens, para que as
honras não nos tornem arrogantes, e para que os ornamentos do corpo e da alma não
gerem em nós alguma forma de atrevimento insolente, o Senhor intervém e impõe ordem,
refreando e dominando, com o remédio da cruz, a loucura da nossa carne. E isso ocorre de
diversas maneiras, conforme Deus considere benéfico e salutar em cada caso. Porque nem
todos estamos tão enfermos como outros, nem padecemos o mesmo tipo de enfermidade.
Portanto, não é necessário aplicar o mesmo tipo de cura a todos. Esse é o motivo pelo qual
Deus faz uso de diferentes tipos de cruz, a uns e a outros. Todavia, como ele quer prover à
saúde de todos, aplica remédios mais suaves a uns, e mais ásperos e rigorosos a outros,
sem abrir nenhuma exceção, visto que sabe que todos estão enfermos.
25. A cruz previne com vistas ao futuro e corrige o passado
Além do que foi dito, é necessário que o nosso bondoso Pai não somente trate
preventivamente da nossa fraqueza, com vistas ao futuro, mas também que corrija as
nossas faltas passadas, a fim de nos manter na obediência a ele. Por isso, assim que nos
sobrevenha alguma aflição, devemos recordar a nossa vida passada. Procedendo dessa
forma, certamente veremos que cometemos alguma falta merecedora do castigo recebido,
se bem que não devemos considerar o reconhecimento do nosso pecado como o fator
principal de estímulo à paciência e à perseverança. Pois a Escritura põe em nossas mãos
uma consideração muito melhor dizendo que dessa maneira “somos disciplinados pelo
Senhor, para não sermos condenados com o mundo”.
26. A cruz é testemunho do imutável amor de Deus
Devemos então reconhecer a clemência e a benignidade do nosso Pai, mesmo em meio ao
maior amargor que pese sobre nós em nossas tribulações, visto que mesmo nessas
circunstâncias ele não deixa de levar avante a nossa salvação. Porquanto ele nos aflige, não
para nos perder ou destruir-nos, mas para nos livrar da condenação deste mundo. Este
pensamento nos leva ao que a Escritura nos ensina noutra passagem, dizendo: “Filho meu,
não rejeites a disciplina do Senhor, nem te enfades da sua repreensão. Porque o Senhor
repreende a quem ama, assim como o pai, ao filho a quem quer bem”. Quando ficamos
sabendo que os castigos de Deus são açoites paternais, não é nosso dever tornar-nos filhos
dóceis, em vez de, resistindo, imitar aqueles para os quais já não há esperança,
endurecidos que estão por suas más obras? Estaríamos perdidos, se o Senhor não nos
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puxasse para si por meio dos seus corretivos quando caímos. E, como diz o apóstolo,
somos “bastardos e não filhos”, se estamos sem a sua disciplina. Portanto, estaremos sendo
muito perversos se não nos dispusermos a suportar o Senhor, quando a verdade é que ele
com sua disciplina manifesta a Sua bondade e o cuidado que tem por nossa salvação.
A Escritura assinala esta diferença entre os incrédulos e os crentes fieis: aqueles,
semelhantes aos antigos escravos, tendo natureza perversa, só pioram e se endurecem
quando recebem açoites; estes, como filhos bem nascidos, aproveitam bem os açoites,
arrependendo-se e corrigindo-se. Saibamos escolher agora entre quais deles queremos
estar. Mas, visto que já tratei deste argumento noutra parte, basta tocar nele
resumidamente aqui.
27. A suprema consolação: sofrer perseguição por causa da justiça
Mas temos a suprema consolação quando sofremos perseguição por causa da justiça.
Porque é quando podemos e devemos lembrar como o Senhor nos honra, dando-nos as
insígnias da sua milícia.
Chamo perseguição por causa da justiça, não somente a que sofremos por defender o
evangelho, mas também a que padecemos por manter toda e qualquer causa justa. Quer
por defender a verdade de Deus contra as mentiras de Satanás, quer por fazermos frente
aos maus em defesa dos inocentes, impedindo que sofram deles nenhuma fraude e
nenhuma injuria. Sempre nesses casos Satanás fará que incorramos no ódio e na
indignação do mundo, e nessas circunstâncias poremos em perigo a nossa honra, ou os
nossos bens ou a nossa vida. Que não nos pareça mal chegarmos a esse ponto em nosso
serviço a Deus, e não nos julguemos infelizes, pois vem dos seus lábios a declaração de que
somos bem-aventurados.
É certo de que a pobreza, considerada em si mesma, é uma desgraça. Como também
desgraças são o exílio, o desprezo, a ignomínia, a prisão – e, finalmente, a morte é uma
extrema calamidade. Mas quando Deus tem em vista manifestar o seu favor, nenhuma
dessas coisas há que ele não torne em bem e em felicidade. Saibamos então preferir o
testemunho de Cristo a uma falsa opinião proveniente da nossa carne.
Resultará dessa preferência que, a exemplo dos apóstolos, nos regozijaremos todas as
vezes que formos considerados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Cristo. Porque, se
nós, sendo inocentes estando com a consciência limpa somos despojados dos nossos bens
pela maldade dos ímpios, aos olhos dos homens estaremos reduzidos à miséria, mas, com
relação a Deus, as nossas riquezas aumentam. Se somos expulsos de nossa casa e banidos
da nossa pátria, com maior cordialidade somos recebidos na família do Senhor. Se nos
contrariam e nos molestam, tanto mais nos firmamos no Senhor, buscando nele refugio e
forças. Se nos fazem afrontas e nos humilham, mais exaltados somos no Reino de Deus. Se
morremos, abre-se para nós o portal da vida bem-aventurada.
28. Sejamos gratos a Deus pela superior consolação espiritual
Não seria uma vergonha considerarmos menos valiosas as coisas que Deus tanto estima,
comparadas com os prazeres deste mundo, que depressa se desfazem como fumaça? E
como a Escritura nos anima e nos consola em todas as afrontas e calamidades a que somos
submetidos em nossa luta para defender a justiça, seremos muito ingratos. se não as
aceitarmos pacientemente e com bom ânimo. Especialmente tendo em vista que, acima de
todas as demais, essa espécie de cruz é própria dos crentes fiéis, visto que por ela Cristo
quer ser glorificado neles, como diz o apóstolo Pedro.'
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Considere-se, porém, que Deus não exige de nós uma tão jovial alegria" que seja capaz de
eliminar em nós todo sentimento de amargura e dor. Nesse caso, a paciência e a
perseverança dos santos não teriam nenhum valor - numa cruz sem tormentos e sem
dores, não sentindo eles nenhuma angústia quando perseguidos de alguma forma. Assim,
se a pobreza não lhes fosse dura e amarga, se na doença não sentissem nenhum tormento,
se não se sentissem feridos pela ignomínia, se a morte não lhes causasse nenhum horror,
que força ou moderação haveria em desprezar todas essas coisas? Mas, como cada uma
delas traz consigo um amargor com o qual naturalmente faz doer o coração de todos nós,
nisso se demonstra a força do homem crente e fiel, pois, sendo tentado por tais agruras e
tendo que enfrentar lutas tremendas, todavia, resistindo a tudo, sobrepuja e vence tudo
isso." Dessa maneira se manifesta a sua paciência - se, sendo espetado por tal sentimento,
não obstante se refreia como que pelas rédeas do temor de Deus, para não suceder que,
deixando de lado o recato e a modéstia, cometa excessos.! E então se vêem o seu gozo e a
sua alegria em que, embora ferido pela tristeza e pela dor, aquiesce e se tranqüiliza sob a
consolação espiritual de Deus.'
29. O combate cristão: submisso e dinâmico
Este combate, que os crentes travam contra o sentimento natural de dor, sendo marcado
pela paciência e pela moderação, é muito bem descrito por estas palavras do apóstolo
Paulo: "Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não
desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos".
Vemos que levar a cruz pacientemente não é urna atitude estulta nem significa não sentir
dor nenhuma, como os filósofos estóicos tolamente descreviam no passado o homem
magnânimo, que, despojando-se da sua humanidade, não ligava nem para a adversidade
nem para a prosperidade, nem se havia tristeza ou alegria. ou, melhor dizendo, era
destituído de sentimento, como uma pedra. E que proveito tiveram dessa tão elevada"
sabedoria? Na verdade pintaram um simulacro ou uma falsa representação da paciência,
coisa que jamais se viu nem se poderá ver entre os homens. O que de fato fizeram foi que,
pretendendo ter uma paciência tão admirável. eliminaram o uso da verdadeira paciência"
entre os homens. I
Existem hoje em dia cristãos semelhantes àqueles estóicos, que consideram um mal. não
somente gemer e chorar, mas também entristecer-se e preocupar-se ou mostrar solicitude.
Essas opiniões anti-sociais em geral procedem de pessoas ociosas. que, dedicando-se. mais
a especular que a pôr mãos à obra, só podem produzir fantasias como essa.
30. Ensino e exemplo de Jesus Cristo
De nossa parte, nada temos com essa dura e rigorosa filosofia, condenada pelo Senhor
Jesus não só por palavras, mas também por seu exemplo. Pois ele mesmo gemeu e chorou,
tanto por seus próprios sofrimentos como pelos de outros. e não ensinou coisa diferente
aos seus discípulos, como se vê nestas palavras: "Em verdade, em verdade eu vos digo que
chorareis e vos lamentareis. e o mundo se alegrará".! E para que ninguém visse nenhum
mal nisso, declarou que são bem-aventurados os que choram.' O que não é de admirar,
porque, se devêssemos condenar toda sorte de lágrimas, que juízo faríamos do Senhor
Jesus. de cujo corpo brotaram gotas de sangue? Se vamos julgar como infidelidade ou falta
de fé toda manifestação de temor, como qualificaremos o tremendo horror' que se
apoderou dele? Como aprovaremos esta sua confissão: "A minha alma está profundamente
triste até à morte"?
31. A paciência e a perseverança cristãs coadunam-se com a prazerosa aceitação da
vontade de Deus
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Quis dizer essas coisas para impedir que os bons de coração se desesperem, e para que não
renunciem ao exercício da paciência por não poderem se desfazer do sentimento natural de
dor.g Agora, o que acontece com os que consideram, paciência urna tolice e que
confundem o homem forte e corajoso com um tronco de árvore, é que eles ficam
completamente desanimados quando é necessário que demonstrem paciência. A Escritura,
ao contrário, louva a paciente tolerância dos santos quando, sendo tremendamente
afligidos pela dureza dos seus males, não se deixam abater nem desfalecer; quando são
espetados por grande amargura e, contudo, demonstram gozo espiritual; c quando,
pressionados por forte angústia, nem por isso perdem o alento, regozijando-se na
consolação de Deus. Entretanto, isto lhes causa repulsa: que lhes fuja o afeto natural e que
tenham horror de tudo o que lhe é contrário. Por outro lado, a piedade cristã os impulsiona
a obedecer à vontade de Deus, mesmo em meio a estas dificuldades. Sobre a repulsa acima
referida Jesus Cristo se expressou quando disse ao apóstolo Pedro: "Em verdade, em
verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde
querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para
onde não queres" [Jo 2 I. I 8). Não é nem um pouco provável que o apóstolo Pedro, que
haveria de glorificar a Deus com sua morte, tenha sido arrastado a isso à força e contra o
seu querer, pois, se fosse assim, o seu martírio não mereceria muito louvor. Todavia, ainda
que obedecesse ao mandado de Deus com ânimo forte e alegre, considerando que ainda
não se havia despojado da sua humanidade, ficou dividido por um duplo desejo. Porque,
enquanto pensava na morte cruel que deveria sofrer, enchia-se de horror, e bem que
gostaria de escapar. Por outro lado, quando considerava que a essa morte era chamado por
ordem de Deus, dispunha-se a apresentar-se a ela voluntariamente, e até com alegria,
pondo sob seus pés todo o temor. Portanto, se queremos ser discípulos de Cristo, devemos
empenhar-nos no sentido de que o nosso coração se encha de tal reverência e obediência a
Deus que nos habilite a dominar e subjugar todos os sentimentos contrários ao seu
beneplácito." Decorre disso que, em qualquer tribulação que estejamos, mesmo na maior
aflição de alma que seja possível alguém sofrer, não deixaremos de perseverar em nossa
paciência. As adversidades sempre nos causarão agrura e sofrimento. Por essa causa,
quando formos afligidos por enfermidades, gemeremos e choraremos, e desejaremos ser
curados; quando formos oprimidos pela indigência, sentiremos alguns aguilhões nascidos
da perplexidade e da preocupação. Semelhante mente, a humilhação, o desprezo e todas as
formas de injúria que nos causem nos farão sentir dor no coração. Quando morrer algum
parente ou amigo. não deixaremos de derramar lágrimas por ele, atendendo à lei da
natureza. Mas sempre chegaremos a esta conclusão: "Como. porém. Deus o quis, sigamos a
sua vontade". E é necessário que esse pensamento intervenha mesmo em meio às punções
de dor, às lágrimas e aos gemidos. para que o nosso coração seja movido a conduzir-se com
alegria sob as coisas que dessa forma o tenham entristecido.
32. Diferença entre a paciência Cristã e a dos filósofos
Visto que baseamos a principal razão para levar pacientemente a cruz na consideração da
vontade de Deus, devemos definir em poucas palavras a diferença existente entre a
paciência cristã e a filosófica. Bem poucos filósofos chegaram ao ponto de entender que os
homens são exercitados pela mão de Deus mediante as aflições, pelo que nos cabe
obedecer à sua vontade. Mas, mesmo aqueles que chegaram a entender isso, não
apresentam outra razão senão esta: é necessário que assim seja. Ora, que quer isso dizer
senão que é necessário ceder a Deus porque em vão tentaríamos resistir a ele? Porque, se
obedecêssemos a Deus simplesmente porque é necessário, assim que pudéssemos fugir
deixaríamos de lhe prestar obediência. Mas a Escritura determina que consideremos outra
coisa própria da vontade de Deus, qual seja, sua justiça equânime; e segue-se a isso a
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atenção que ele dedica à nossa salvação. Isso explica por que nos são feitas estas exortações
cristãs: quando a pobreza, o exílio, a prisão, os ultrajes, a doença. a perda de entes
queridos ou outras formas de adversidade nos atormentem, consideremos que nada destas
coisas nos acontece senão pela vontade e pela providência do Senhor.' Além disso,
devemos crer que Deus não faz coisa alguma que não seja pela reta justiça por ele
ordenada.4 Por quê? Ora. os pecados que cometemos diariamente não merecem castigo
muito mais rigoroso e que este seja aplicado com muito maior severidade do que a que ele
usa ao castigar-nos? Não é bom e justo que a nossa carne seja dominada e permaneça
debaixo de jugo para que não se extravie e não seja levada à intemperança. segundo os
impulsos da natureza não regrada? A justiça e a verdade de Deus não são dignas de que
soframos por elas? Se a justiça equânime de Deus se manifesta em todas as nossas aflições,
como é óbvio que se manifesta, não podemos murmurar nem rebelar-nos' sem cometer
iniqÜidade.
Portanto, não demos ouvidos a esta fria canção dos filósofos:b devemos sujeitar-nos,
porque é inevitável. Mas atendamos a esta exortação vívida e plenamente eficaz: devemos
obedecer, porque não nos é lícito resistir.
Devemos ter paciência, visto que a impaciência é rebelião contumaz contra a vontade de
Deus.
Ora, como só gostamos verdadeiramente do que sabemos que é bom e salutar para nós, o
Pai de misericórdias também por esse meio nos consola, declarando que naquilo em que
ele nos aflige pela cruz provê e encaminha a nossa salvação. E então, se as tribulações são
salutares para nós, por que não havemos de recebê-las com coração sereno e grato? Por
isso, suportando-as pacientemente, não nos rendemos a elas porque isso é inevitável, mas
aquiescemos a elas de bom grado, seguros de que visam ao nosso bem.
Digo, pois, que estas considerações farão com que, quanto mais o nosso coração for
envolvido na cruz pelos sofrimentos que por natureza lhe são próprios, tanto mais se
dilatará de gozo espiritual. Daí se seguirá a ação de graças: que não pode subsistir sem
alegria. E assim, se o louvor do Senhor e a ação de graças só podem provir de um coração
alegre e feliz, e nada no mundo lhes pode ser empecilho invencível, vê-se quão necessário é
temperar o amargor da cruz com a alegria espiritual.

33. As presentes condições levam-nos a meditar na vida futura


Além das ponderações acima registradas, toda e qualquer aflição que nos sobrevenha deve
levar-nos a ter em vista este propósito: habituar-nos a desprezar a vida presente de modo
que nos sintamos incentivados a meditar na vida futura. Porque, visto que o Senhor sabe
muito bem como somos propensos a um amor cego e até brutal por este mundo, ele faz uso
de um recurso muito apropriado para nos despertar da nossa preguiça espiritual, a fim de
que não fiquemos ligados demais a esse estulto' amor.
Certamente não há entre nós quem não queira ser considerado como alguém que durante
toda a sua vida aspira à eternidade celestial e se esforça para lá chegar. Porque nos causa
vergonha em nada sermos superiores aos animais; cuja situação não seria nem um pouco
inferior à nossa, se não tivéssemos esperança da vida após a morte numa eternidade feliz.
Entretanto, se examinarmos os propósitos, as deliberações, os empreendimentos e as
obras de cada um, não veremos nada mais que pura terra. Pois bem, essa estupidez
procede do fato de que o nosso entendimento se deixa cegar pelo vão brilho das riquezas,
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das honras e das posições de poder em sua aparência exterior, e assim não conseguimos
enxergar mais longe. E também o nosso coração, tomado pela avareza, pela ambição e por
outras cobiças perversas, prende-se de tal modo a este mundo que não consegue elevar os
olhos.' Finalmente, estando toda a nossa alma envolvida pelos prazeres da carne e como
que comprometida com eles, busca a sua felicidade na terra.
Então o Senhor, para impedir esse mal, mostra a seus servos a vaidade da vida presente,
disciplinando-os constantemente por meio de diversos sofrimentos, para que não esperem
paz e tranqÜilidade nesta existência. Ele permite que muitas vezes o mundo seja assolado e
atormentado por guerras, tumultos, banditismo e outros males, para que os seus servos
não desejem com muita cobiça as riquezas que realmente de nada valem, nem se
acomodem passivamente às que já possuem. Ele os reduz à indigência, já pela esterilidade
do solo, já pelo fogo, já por outros meios; ou os mantém em posição mediana ou na
mediocridade. Para que não abusem dos prazeres da vida conjugal, ou lhes dá mulheres
rudes e ruins de cabeça. que os atormentam;d ou lhes dá filhos maus, que os humilham; ou
os aflige tirando do seu convívio mulher e filhos! Se em todas essas coisas ele os trata com
brandura, todavia, para que não se ensoberbeçam deixando-se levar pela vanglória, ou
para que não desenvolvam autoconfiança desordenada, adverte-os por meio de
enfermidades e perigos, e coloca diante dos seus olhos quão frágeis e efêmeros são os bens
sujeitos à mortalidade.
Portanto, teremos grande proveito da disciplina da cruz quando aprendermos que a
presente vida, considerada cm si mesma, está repleta de inquietações, problemas e
misérias, e que, em nenhum aspecto, é verdadeiramente feliz; que todos os bens deste
mundo são transitórios, incertos, frívolos e envoltos em infindos males.! Por isso tudo,
concluímos que aqui não devemos nem procurar nem esperar nem lutar por coisa alguma,
e que é pela nossa coroa que devemos alçar os olhos ao céu. Porque o certo é que o nosso
coração não se sentirá movido a desejar a vida futura e nela meditar, enquanto não for
movido a desprezar a presente vida.J
34. Entre céu e terra não há meio termo
Não há meio termo entre estes dois extremos: ou menosprezamos a terra ou ficamos
apegados a ela com um amor desordenado. Por isso, se temos algum interesse pela
imortalidade feliz, devemos esforçar-nos diligentemente para que nos libertemos desses
laços, perniciosos. Ora, visto que a presente vida sempre nos pressiona por meio de
prazeres para atrair-nos, e há nela forte aparência de amenidade, graça e dulçor com o que
pretende seduzir-nos, temos grande necessidade de freqüentemente retirar-nos das coisas
do mundo para que não sejamos arrastados e como que enfeitiçados por tais afagos e
lisonjas. Porque, rogo ao leitor que me diga, que aconteceria se gozássemos aqui uma
felicidade perpétua, pois, sendo espetados constantemente pelas esporas de tantos males,
mal podemos dar-nos conta da nossa miséria. Não são somente os doutos que reconhecem
que a vida humana é semelhante à sombra fugidia ou à fumaça que se esvai, mas também o
sabe o povo comum, para o qual essa verdade já se tornou proverbial. E como se via que o
conhecimento disso é de grande utilidade, tem sido celebrada com muitas e belas
sentenças.
Não obstante, não há nada no mundo que negligenciemos mais ou de que nos lembremos
menos. Porque tudo o que aqui empreendemos o fazemos como se estivéssemos
estabelecendo a nossa imortalidade na terra. Se participamos dos funerais de alguém, ou se
passeamos entre os túmulos de um cemitério, tendo assim uma imagem da morte diante
dos nossos olhos, reconheço que nessas circunstâncias filosofamos extraordinariamente
sobre a fragilidade desta vida. Se bem que nem sempre fazemos isso, porque por vezes,
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ocorre que estas coisas não nos comovem nem um pouco. Mas, quando isso acontece. o
resultado é uma filosofia transitória e, mal lhe damos as costas, ela se desvanece. e dela
não fica nada em nossa lembrança. E assim, esquecendo-nos, não somente da morte. mas
também da nossa própria mortalidade. como se jamais tivéssemos ouvido falar dessa nossa
condição, tornamos a nos firmar numa tola segurança e confiança na imortalidade terrena.
Entretanto, se alguém nos cita o provérbio antigo que diz que o homem é um animal de um
dia,b nós o aceitamos sem vacilar. e de tal modo que a idéia de que vamos viver
perpetuamente permanece fixa em nosso coração.'
Quem negará, então, que é muitíssimo necessário. não somente que sejamos admoestados,
mas também que sejamos persuadidos por tantas experiências quantas forem possíveis, de
quão infeliz é a presente condição do homem? Pois, ainda quando estamos convencidos
disso, a duras penas deixamos de ter grande admiração por este mundo. e por pouco não
ficamos atônitos ao contemplá-lo. como se ele contivesse a mais completa felicidade! Ora,
se é preciso que o Senhor nos instrua dessa forma, é nosso dever dar ouvidos às suas
exortações pelas quais ele nos desperta da nossa negligência a fim de que, desprezando o
mundo, seja a nossa grande aspiração meditar de coração na vida futura.
35. O cristão não odeia a vida presente na qual Deus Manifesta o seu amor
Todavia, os crentes devem habituar-se a um desprezo pela vida presente que não lhe gere
ódio a ela, nem ingratidão a Deus. Porque, conquanto esta vida esteja, cheia de misérias
sem fim, com razão é contada com as bênçãos de Deus, bênção~ que não devemos
menosprezar. Por isso. se não reconhecemos nela nenhum, manifestação da graça de Deus,
somos culpados de grande ingratidão. Para os crentes ela deve ser considerada
singularmente como um testemunho da bondade do Senhor. visto que, em todos os seus
aspectos. foi destinada a promover a nossa salvação. Pois o Senhor, antes de nos revelar
plenamente a herança da glória eterna, quer declarar-se nosso Pai em coisas menos
importantes; isto é, nas bênçãos que de suas mãos recebemos diariamente. Sendo. então.
que esta vida no: serve para nos apercebermos da bondade de Deus, iremos nós achar que
ela não contém em si nenhum bem?
Portanto, devemos ter tal sentimento e afeto que nos leve a considerar a presente vida
como um dom da benignidade divina, dom que não devemos repudiar. Porque, mesmo que
não houvesse testemunhos da Escritura, a própria natureza nos exorta no sentido de que
devemos render graças a Deus - porque nos criou e nos colocou neste mundo; porque nos
sustenta e nos preserva nele; e porque nos supre de tudo quanto nos é necessário para a
nossa subsistência na terra.
Acrescente-se esta razão muito mais importante: considerarmos que Deus aqui nos
prepara para a glória do seu Reino. Porque outrora ele ordenou que aqueles que hão de
receber a coroa no céu, lutem primeiro na terra, para que não tenham a vitória final
enquanto não enfrentarem as dificuldades do combate cristão e de terem obtido a vitória.
Ainda outra razão tem seu peso. É a seguinte: começamos a apreciar aqui o dulçor da sua
benignidade, demonstrada por suas bênçãos, e dessa forma somos incitados a esperar e a
desejar a revelação plena e completa. Após havermos fixado esta verdade, qual seja, que a
vida terrena é um dom da clemência divina, pelo qual ficamos obrigados a Deus, a quem
devemos demonstrar a nossa gratidão, chega então o momento de condescendermos em
considerar a infeliz condição desta existência, para que nos desvencilhemos' desta grande
cobiça à qual, como já demonstramos, somos naturalmente propensos. E tudo quanto
tirarmos do amor desordenado por esta vida, é necessário transferir ao amor pela vida
celestial.
36. Nem se compara a gloria futura com a vida na terra!
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Reconheço que, conforme o sentir humano, julgaram bem os que consideravam como o
primeiro e supremo bem não nascer, e o segundo, morrer quanto antes. Porque, como
eram pagãos, destituídos da luz de Deus e da religião verdadeira, que poderiam ver na vida
terrena senão miséria e horror?d Igualmente, não é sem motivo que os citas. choravam o
nascimento dos seus filhos e, quando morria algum dos seus pais, alegravam-se e
realizavam festa solene; mas isso não lhes aproveitava nada. Porque, como lhes faltava a
verdadeira doutrina da fé, não viam como algo que em si não dá felicidade nem é desejável
torna-se em segurança e paz para os crentes. Por isso o desespero era a conclusão a que
chegavam.
Então, que os servos de Deus, ao considerarem esta vida mortal, vendo que só tem a
oferecer miséria, busquem sempre como sua meta dedicar-ser mais e com mais disposição
a meditar na vida futura e eterna. Quando as compararem, não somente estarão
capacitados a negligenciar a primeira, mas também a desprezá-la, e a não lhe dedicar
nenhuma estima em detrimento da segunda. Porque. se o céu é a nossa pátria, que outra
coisa é a terra, senão exílio e desterro?" Se partir deste mundo é entrar na verdadeira vida,
que outra coisa é a terra senão um sepulcro? E demorar-se nele, que outra coisa é senão
soterrar-se na morte? Se a liberdade consiste em ficar livre deste corpo, que outra coisa é o
corpo senão uma prisão? Se fruir a presença de Deus é a felicidade suprema. não é uma
tremenda infelicidade não fruí-Ia? Ora. é certo que enquanto estivermos neste corpo.
estaremos distantes' de Deus.2. .' Por tudo isso. se compararmos a vida terrena com a vida
celestial, não haverá dÚvida de que aquela pode ser desprezada e considerada pouco
menos que esterco. Lembremo-nos, porém. de que não devemos odiá-la, exceto no que ela
nos retém em sujeição ao pecado. Se bem que não é próprio imputar-lhe essa culpa.
O caso é que, diga-se o que se disser, apesar do cansaço ou fastio que acaso sintamos deste
mundo, vivamos de maneira agradável a Deus e cuidemos para que o nosso tédio não nos
leve à murmuração e à impaciência.' Porque é como se estivéssemos num local de
temporada no qual o Senhor nos colocou e onde devemos permanecer até quando ele nos
chamar de volta. O apóstolo Paulo lamenta o fato de estar preso ao corpo por mais tempo
do que ele gostaria. e suspira de ardente desejo de libertação. Todavia, em sua obediência à
vontade de Deus. declara que está pronto a uma coisa e à outra, pois se reconhece devedor
a Deus e se dispõe a glorificar o seu nome, quer pela vida quer pela morte.? Ora, cabe ao
Senhor determinar o meio pelo qual deve ser glorificado. Por isso nos convém viver e
morrer para ele, deixando aos cuidados do seu beneplácito tanto a nossa vida como a nossa
morte. Todavia, façamo-lo de modo que desejemos. sempre a nossa morte e nela
meditemos constantemente, desprezando esta vida mortal com vistas à imortalidade
futura, e estando dispostos a renunciar à vida presente sempre que isso aprouver ao
Senhor, considerando que ela nos mantém sujeitos à escravidão do pecado.
37. Desejar e esperar a vida eterna é infinitamente melhor do que temer a morte
Uma coisa que mais parece um prodígio monstruoso é o fato de que muitos que se gabam
de serem cristãos, em vez de desejarem a morte, têm horror a ela. Mal ouvem falar dela,
tremem de medo, como se fosse a maior desgraça que lhes pudesse ocorrer. Não é de se
estranhar que o nosso sentir natural se abale e se espante quando ouvimos que a nossa
alma deverá separar-se do corpo. Mas é intolerável a idéia de que não haja no coração do
cristão suficiente luz para habilitá-la sobrepujar e dominar esse temor, como é igualmente
certo haver para ele uma consolação muito maior. Porque, se considerarmos que o
tabernáculo deste corpo, que é inseguro, maculado pelo mal, corruptível, de nulo valor real
e sujeito à decomposição, será desfeito e destruído para depois ser restaurado e revestido
de uma glória perfeita, segura, incorruptível e celestial, como a fé não nos constrangerá a
apetecer ardentemente o que a natureza repudia e evita com horror? Se considerarmos que
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a morte nos livra de um miserável exílio para então vivermos em nosso país, sim, em nossa
pátria celestial, não haveremos de conceber desse fato uma singular consolação?
Mas alguém objetará que tudo o que existe deseja permanecer como é. Reconheço isso. Por
isso mesmo eu sustento que devemos aspirar à imortalidade futura, onde teremos uma
condição inabalável, coisa que não se vê em parte alguma na terra. Essa é a razão pela qual
os animais inferiores, e mesmo a criação inanimada, até mesmo as árvores e as pedras,
possuindo algo como um senso da sua vaidade e da sua corrupitibilidade, aguardam "em
ardente expectativa” o Juízo, esperando a sua redenção "para a liberdade dos filhos de
Deus". E muito mais nós, que primeiro temos algo da luz natural e, além disso, somos
iluminados pelo Espírito de Deus, em nosso caso, não elevaremos os nossos olhos para
além e acima da podridão terrena?
Mas não é minha intenção discutir longamente aqui sobre tão grande perversidade. E, de
fato, já no início declarei que não queria tratar aqui de cada matéria na forma de exortação,
Aconselho aos de ânimo fraco que leiam o livro de Cipriano, ao qual ele intitulou Sobre a
Mortalidade, não seja o caso de que mereçam que os remeta aos filósofos, os quais
demonstraram tal desprezo pela morte que os encheria de vergonha. Contudo, atenhamo-
nos a esta máxima: ninguém progrediu muito na escola de Cristo senão aquele que espera
com gozo e alegria o dia da sua morte e a ressurreição fina\. Porque o apóstolo descreve os
crentes referindo-se a esse marco e meta, e a Escritura sempre nos faz lembrar isso,
quando nos fala do tema da alegria cristã. "Exultai e erguei a vossa cabeça: porque a vossa
redenção se aproxima". I Com que propósito, rogo ao leitor que me diga, vamos
transformar em tristeza e assombro o que para Jesus Cristo é próprio para nos fazer
regozijar? E se há de ser assim, por que nos gloriamos de ser seus discípulos? Retomemos,
pois, ao bom senso, c, por maior repulsa que isso cause à nossa carne, em sua
concupiscência e cegueira estulta, esperemos a vinda do Senhor como algo
verdadeiramente maravilhoso. E não nos limitemos a desejá-la, mas tomara passemos a
gemer e a suspirar por ela. Porque ele virá
redentoramente e nos introduzirá na herança da sua glória, depois de nos tirar deste
abismo de males e misérias sem conta.
38. Assumamos nosso papel de ovelhas e cordeiros do cordeiro
É necessário que todos os crentes, enquanto vivem na terra, sejam como ovelhas
destinadas ao matadouro, para se fazerem semelhantes a seu Chefe e Cabeça. Jesus Cristo.
Pois seriam desesperadamente infelizes,~ se não dirigissem seu pensamento para o Alto,
para suplantarem tudo o que há no mundo e para que a sua atenção e o seu interesse
transcendam as coisas da presente vida.
Muitíssimo melhor será se os crentes elevarem seus pensamentos para além das coisas
terrenas, mesmo quando virem florescer os ímpios com suas riquezas e honras, gozando
paz e tranqüilidade e vivendo em meio a prazeres e pompas. E até quando forem tratados
pelos ímpios de maneira desumana, sofrerem ultrajes, forem oprimidos ou afligidos por
toda sorte de afrontas humilhantes, pois, ainda assim, com os pensamentos postos no Alto,
não lhes será difícil consolar-se em meio a todos esses males. Porque terão sempre diante
dos seus olhos o dia final dia em que eles sabem que o Senhor vai ajuntar todos os que nele
crêem, recoIhendo-os ao repouso do seu Reino, vai enxugar as lágrimas dos seus olhos, vai
dar-Ihes uma coroa de glória e vestes de jubilosa alegria, vai saciá-los com o dulçor
indescritível dos prazeres celestiais e exaltá-los às alturas da sua glória; em suma, sabem
que ele os fará participantes da sua própria felicidade. Ao contrário, lançará à ignomínia
extrema os ímpios que são enaltecidos na terra, mudará seus prazeres em tormentos
horríveis, seu riso e alegria em choro e ranger de dentes, seu repouso e tranqüilidade em
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assombrosa aflição de consciência; em suma, ele os lançará no fogo eterno e os colocará em


sujeição aos crentes, que por eles foram maltratados com tanta maldade.
Certamente nisso está o nosso único consolo. Se nos privarem dele, cairemos no desânimo,
ou buscaremos afago e mel em consolações vãs e inúteis, que serão a nossa ruína. Pois o
próprio profeta confessou que vacilou, que os seus pés quase resvalaram, enquanto
prestava atenção na felicidade atual dos ímpios, e declarou que não pôde resistir a isso
enquanto não se pôs a contemplar. em sua meditação, o santuário de Deus; isto é,
enquanto não passou a considerar qual será o fim dos justos e o dos ímpios.
Para concluir com poucas palavras, afirmo que a cruz de Cristo triunfa definitivamente no
coração dos crentes contra o Diabo, a carne, o pecado, a morte e os ímpios quando voltam
seu olhar para contemplar o poder da sua ressurreição.
39. Ensino Bíblico sobre o uso dos bens Terrenos
Dentro deste mesmo assunto, a Escritura nos ensinar também que uso devemos fazer dos
bens terrenos. E não devemos negligenciar esta doutrina, visto que se relaciona com a boa
maneira de ordenar a nossa vida. Porque, se temos que viver, também precisamos utilizar
os recursos necessários à vida. Tampouco podemos abster-nos das coisas que mais
parecem atender ao bem viver e ao bem estar, que à necessidade. Por isso precisamos
estabelecer certa medida que nos permita usá-las em sã consciência, tanto para satisfazer à
nossa necessidade como para propiciar-nos prazer. Essa medida nos é indicada por Deus,
quando ele nos ensina que, para os seus servos, a vida presente é como uma peregrinação
rumo ao Reino celestial. Ora, se só devemos passar pela terra, não há dúvida de que
devemos usar os bens terrenos de tal maneira que nos ajudem a ir avante em nossa
caminhada e não a retardem.
Mas, visto que esta matéria pode provocar escrúpulos e corre o perigo de ser levada de um
extremo a outro, é de bom aviso firmar-nos em boa e sã doutrina que nos garanta uma
solução segura. Houve bons e santos personagens que, entretanto, vendo que a
intemperança dos homens se extravasa desordenadamente e sem freios quando não se lhe
impõe severa restrição, querendo corrigir tão grande mal, proibiram aos homens o uso de
bens materiais. a não ser em caso de real necessidade. Eles fizeram isso por não terem
visto outro remédio. Seu conselho provinha de boa intenção, mas agiram de maneira
excessivamente rigorosa. Porque fizeram uma coisa muito perigosa, qual seja: ataram aS
consciências muito mais apertadamente do que as obriga a Palavra de Deus.
Por outro lado, hoje em dia há muitos que, na busca de qualquer pretexto para escusar
toda a intemperança no uso das coisas externas e para deixar a carne às soltas, a qual está
sempre pronta a se exceder, dão como estabelecido o seguinte artigo, com o qual não posso
concordar: não devemos impor nenhuma restrição à liberdade, e que cada um faça uso
dela conforme lhe permita a sua consciência e segundo lhe pareça lícito.
40. Regras ou princípios gerais da Escritura
Reconheço que não se pode nem se deve impor à consciência fórmulas e preceitos nesta
questão. Mas, visto que a Escritura nos dá regras gerais sobre o uso legítimo dos bens
temporais, por que não havemos de render-nos a esse critério? O primeiro ponto que se
deve adotar é que o uso dos dons de Deus não é mau se se limitar ao fim para o qual Deus
os criou e os destinou, visto que os criou para nosso bem, e não para nosso mal. Portanto,
ninguém terá diante de si um caminho mais certo e reto que aquele que considerar
diligentemente esse fim.
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Ora, se considerarmos o fim para o qual Deus criou os alimentos. veremos que ele não só
quis prover à nossa necessidade. mas também ao nosso prazer e recreação. Assim, quanto
ao vestuário, além de considerarmos a sua necessidade, devemos aplicar-lhes o que se vê
na relva. nas ervas. nas árvores e nas frutas. pois, sem contar as suas outras utilidades e os
benefícios que delas colhemos. Deus quis alegrar-nos a visão por sua beleza e propiciar-nos
ainda outro deleite ao aspirarmos seu agradável aroma. Se isso não fosse certo. o profeta
não contaria entre as bênçãos de Deus "o vinho, que alegra o coração do homem" e "o
azeite, que lhe dá brilho ao rosto"; a Escritura não faria a menção que faz aqui e ali da
benignidade de Deus, que faz todos esses benefícios ao homem. E as próprias qualidades
que todas as coisas têm por natureza mostram como devemos alegrar-nos por elas, com
que finalidade e até que ponto. E vamos considerar que não é lícito sentir prazer em
contemplar a beleza dada por Deus às flores? Vamos pensar que o Deus, que lhes deu tão
agradável odor. não quer que o homem se deleite em aspirar o aroma que elas recendem?'
Além disso. que dizer das cores variadas - com variantes de matiz e graça? E Deus não
revestiu de aspectos encantadores o ouro, a prata, o marfim e o mármore. para que fossem
mais nobres e mais preciosos que os outros metais e as outras pe dras? Finalmente, não
nos deu o Senhor muitíssimas coisas que devemos valorizar e que, entretanto, não nos são
necessárias?'
. Deixemos de lado, pois, essa filosofia desumana que, não concedendo ao homem
nenhuma utilização das coisas criadas por Deus, a não ser por sua real necessidade, não
somente nos priva sem razão do fruto lícito da benignidade divina, mas também, quando
aplicada, despoja o homem de todo sentimento e o toma insensível como uma acha de
lenha. Mas, por outro lado, é necessário que não menos diligentemente repudiemos a
concupiscência da nossa carne, que se extravasará sem medida, se for deixada sem freios.
Lembremo-nos de que, como eu já disse, há alguns que, sob o pretexto de liberdade,
concedem à carne tudo quanto ela deseja.

41. Primeira regra para refrear a carne: Gratidão a Deus


Das regras que visam refrear a carne, a primeira é a seguinte: todos os bens que temos
foram criados para que reconheçamos o seu autor e magnifiquemos a sua bondade com
ações de graças. Ora, onde haverá ação de graças, se por gula você se enche de vinho e
comida até ficar tonto e incapaz de servir a Deus e de cumprir os deveres próprios da sua
vocação? Onde estará o reconhecimento de Deus, se a carne, incitada por uma grande
abundância de vis concupiscências, contamina com a sua impureza a sua mente e o seu
entendimento e o cega e lhe impede o discernimento entre o bem e o mal? Como
agradeceremos a Deus por nos dar as vestes que usamos, se as revestimos de tal
suntuosidade que nos envaidecemos e desprezamos as demais pessoas e se as usamos com
arrogância tão provocante que passam a ser instrumentos de corrupção moral?' Como,
digo e repito, poderemos ser gratos ao nosso Deus, se fixamos os olhos na contemplação da
beleza das nossas roupas? E se pode dizer a mesma coisa quanto às outras espécies de bens
materiais.
Vê-se, pois, que a consideração supra já é suficiente para restringir a liberdade excessiva e
o mau uso dos dons de Deus.
42. Segunda regra para refrear a carne: meditar na imortalidade feliz
Mas, o caminho mais certo e mais curto para levar o homem a desprezar a vida presente é
meditar na imortalidade celestial. Dessa regra decorrem outras duas.
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A primeira é que os que desfrutam deste mundo devem fazê-lo com o mínimo de apego,
como se nada desfrutassem dele; os que se casam como se não fossem casados; os que
compram como se não possuíssem nada, conforme o preceito do apóstolo Paulo.
A outra regra subsidiária é: aprendamos tanto a sobrelevar pacientemente e com coração
sereno a pobreza, como a usar moderadamente a abundância. Aquele que ordena que
desfrutemos do mundo como se não desfrutássemos nada dele, não se limita a coibir a
intemperança no beber, no comer, nos prazeres, a ambição exagerada, o orgulho, o
descontentamento importuno, tanto na questão de edifícios como nas vestes e no modo de
viver. Ele corrige" igualmente toda preocupação e todo afeto que nos desviem ou nos
impeçam de pensar na vida celestial e de aprimorar a nossa alma com os ornamentos
próprios e legítimos. Com grande acerto disse antigamente Catão: onde há muita vaidade
no vestir falta virtude.
Como também diz o antigo ditado que aqueles que se ocupam demasiado com os adornos
do corpo pouco ou nada se preocupam com a alma.
Portanto, embora quanto à liberdade dos crentes nas coisas externas não devemos
restringi-Ia mediante certas fórmulas, não obstante sua liberdade está sujeita a esta lei:
que os crentes se permitam o mínimo que lhes for possível e que, por outro lado. sejam
vigilantes e eliminem tudo o que é supérfluo e todo aparato dispensável de abundância,
distanciando-se o mais possível da intemperança; e que tomem todo o cuidado para não
transformar em obstáculos as coisas que devem prestar-Ihes ajuda.
43. Terceira regra para refrear a carne: paciência na pobreza; moderação na riqueza.
A outra regra será que aqueles que se acham na pobreza aprendam a suportar com
paciência a sua escassez, para não se atormentarem com demasiada preocupação. Os que
conseguem observar esse equilíbrio emocional têm tido não pequeno proveito da escola do
Senhor. Já aquele que não aproveitou o que dela se pode aprender, dificilmente poderá ter
algo que prove que é discípulo de Cristo. Porque, além do fato de que muitos outros vícios
acompanham a cobiça de coisas terrenas, quase sempre sucede que aquele que não suporta
com paciência a pobreza mostra o vício contrário quando se vê na" abundância.2 Explico
isso dizendo que aquele que se envergonha de usar roupa rústica ou modesta usará com
vanglória vestes finas; quem não se contenta com uma alimentação frugal atormenta-se
com o desejo de melhor comida e não conseguirá conter-se quando tiver mesa mais farta e
rica; quem não souber viver em condição humilde ou sem cargos públicos, não conseguirá
evitar o orgulho e a arrogância, se passar a uma situação socialmente honrosa.
Por isso tudo, todos quantos desejam servir a Deus com sinceridade aprendam do exemplo
do apóstolo, que sabia viver contente na abundância e na escassez; saibam, pois. conduzir-
se moderadamente na abundância e ter positiva paciência na pobreza.
44. Outra regra: reconhecer que somos mordomos ou administradores dos bens de Deus,
e agir como tais
A Escritura tem ainda outra regra, a terceira regra ou princípio geral. pela qual devemos
moderar o uso dos bens terrenos, regra da qual tratamos resumidamente quando falamos
sobre os preceitos do amor cristão. Porque a presente regra nos mostra que todas as coisas
nos foram dadas de tal maneira pela benignidade de Deus, e destinadas ao nosso uso e
proveito. que elas nos foram deixadas como em custódia, em depósito, e chegará o dia em
que deveremos prestar contas delas. Por isso devemos administrá-las tendo sempre em
mente esta sentença: teremos que prestar contas de tudo o que o Senhor nos tem confiado.
Também devemos pensar em quem nos vai chamar a contas: Deus. que tanto nos exorta à
abstinência, à sobriedade, à temperança e à modéstia, como igualmente tem condenado à
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execração toda sorte de intemperança, orgulho, ostentação e vaidade; por quem nenhuma
administração será aprovada senão a que é regida pelo amor; e quem com sua própria boca
já condenou todas as formas de prazeres que levam o coração do homem a afastar-se da
castidade e da pureza. ou que embotam o seu entendimento.
45. A nossa vocação deve ser levada em conta em tudo quanto planejamos e fazemos
É também nosso dever observar diligentemente que Deus ordena que cada um de nós leve
em conta a sua vocação em todas as ações da sua existência. Pois ele sabe muito bem
quanto o homem se inflama de inquietação e com que facilidade passa de um lado a outro;
como também sabe com quanta ambição e cobiça ele é solicitado a abarcar muitas coisas
ao mesmo tempo. Por isso, para que não compliquemos tudo por nossa temeridade e
loucura, ele ordenou a cada um o que fazer; estabelecendo distinções entre posições ou
estados e diversas maneiras de viver. E, para que ninguém ultrapasse levianamente os seus
limites, deu a tais maneiras de viver o nome de vocações. Portanto, cada qual deve
considerar o seu estado ou posição como um posto estabelecido por Deus e no qual ele o
colocou para que não fique girando e circulando inconsideradamente
para cá e para lá a vida toda.
Pois bem, essa distinção é tão necessária que segundo ela todas as nossas obras são
avaliadas por Deus, e muitas vezes de um modo contrário ao critério de julgamento
filosófico ou da razão humana. Tanto as pessoas comuns como os filósofos consideram
como o ato mais nobre e mais excelente que se poderia realizar é libertar o seu país da
tirania. Por outro lado, o homem de vida privada ou particular que se lance contra um
tirano é abertamente condenado pela voz de Deus. Contudo, não pretendo me demorar
aqui relatando todos os exemplos que se poderia citar a respeito.
É suficiente que saibamos que a vocação de Deus é como que um princípio e fundamento
baseados no qual podemos e devemos governar bem todas as coisas, e que aquele que não
atentar para ela jamais encontrará o caminho reto e certo para desincumbir-se
devidamente do seu dever. Poderá por vezes fazer algo cuja aparência exterior inspire
louvor, mas não será aceito pelo trono de Deus, seja qual for o valor que os homens lhe
atribuam.
Além de tudo mais, se não tivermos a nossa vocação como uma regra permanente, não
poderá haver clara consonância e correspondência entre as diversas partes da nossa vida.
Assim, será muito bem ordenada e dirigida a vida de quem a conduzir tendo em vista esse
propósito. Desse modo de entender e de agir nos resultará esta singular consolação: não há
obra, por mais humilde e humilhante que seja, que não brilhe diante de Deus e que não lhe
seja preciosa, contanto que a realizemos no serviço e cumprimento da nossa vocação.

Autor: João Calvino


Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 177-
225.

Nesta apostila não consta as excelentes notas feitas pelo Rev. Hermisten Maia Pereira da
Costa do livro ‘As Institutas - Edição especial com notas para estudo e pesquisa’, ed.
Cultura Cristã (www.cep.org.br), no qual foram fetais as digitações desta apostila. Vale
muito comprá-la e a ler por completo.
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Algumas Considerações

Breve História das Institutas

As Institutas [foi] concluída em agosto de 1535, teve a sua primeira edição em março de
1536 (Basiléia), na topografia de Thomas Platter e Balthasar Lasius. Esta edição original,
escrita em latim, dispunha de 6 capítulos em apenas 520 páginas, com formato
aproximado de 18X10cm – um livro de bolso que facilitava o seu transporte discreto. A
última [edição das Institutas] passou por algumas ampliações, revisões e reorganizações
1536,
1539,
1543,
1545 (sem alteração),
1550,
1553 (sem alteração),
1554 (sem alteração),
até atingir a forma definitiva – publicada em Genebra em 1559 na tipografia de Robert
Etienne.

[Este edição definitiva de 1559] foi reimpressa duas vezes 1561. Tive acesso a uma destas,
editada em Genebra por Antonius Rebulins, constando de 980 páginas e mais 67 páginas
de índice remissivo (formato: 18X11, tipo 8), divida em 80 capítulos.

Conforme o próprio Calvino no diz; ele só se satisfez com o arranjo e ordem desta última
(Prefácio à edição de 1559). A tradução francesa foi impressa na tipografia de Jean Girard,
em Genebra (1541), seguindo-se outras: 1545, 1551, 1553 e 1554(sem alteração, 1557, e a
definitiva, 1560. objetivando facilitar a difusão da obra de Calvino na França, parte da
segunda edição latina (1539) circulou subscrita sob o pseudônimo de Alcuino, um
anagrama do seu próprio nome, que possivelmente visava despistar seu inquisidores[1].
Ela exerceria poderosa influência sobre as Igrejas da França, tendo o Parlamento francês
inclusive interditado a obra e destruído alguns volumes (1542), e a Faculdade de teologia a
incluiu entre os livros censurados (1545) [2]. Apesar das sucessivas edições ampliadas das
Institutas, a realidade é que sua teologia não mudou[3].

É bom lembrar que toda a sua obra foi produzida não num clima de sossego e paz, numa
“torre de marfim”, mas em meio à números problemas: administrativos, domésticos,
financeiros e, principalmente de saúde. Calvino, que sempre teve saúde débil,
acompanhada de uma capacidade hercúlca de trabalho, em 8/2/1564, escreve a médicos de
Montpellier agradecendo os remédios e a gentil atenção. Nesta carta ele descreve sua
enfermidade: artrite, pedras nos rins, hemorróidas (enfermidade que impedia de cavalgar),
febre, nefrite, indigestão, cólicas, úlceras, emissão de sangue por via urinária.[4]

[As Institutas de 1539 Calvino traduziu para o francês (1541), a editora Cultura Cristã
traduziu para o português sob título de "As Institutas - Edição especial com notas para
estudo e pesquisa"
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As Institutas 1559 Calvino a considerou por satisfeito e definitiva e a editora Cultura Cristã
traduziu do latim para o português sob título de "As Institutas - Edição Clássica".]

Nota:
[1] – Vd. Jeam Cardier: In: Prefácio à edição Francesa: Jean Calvin. L’instituion
Chrétienne, Genéve, Labor et Fides, 1955, Vol. I, p. iX; François Wendei, Calvin, New York,
Harper & Row, Publishers, 1963, p. 113-114).
[2] – Vd. Jean Cardier, op. cit., p. IX; Jean Cardier in: Prefácio à edição francesa
comemorativa de 4º centenário de 1ª edição: Jean Calvin, Institution de la Religion
Chresltienne, paris, Sociéte lês Belles Lettres, 1936, Vol. I, p. XX-XXI; François Wendel,
op. cit., p. 116-117).
[3] – Para uma visão sinóptica das mudanças dos capítulos da Institutas, Vd, Forrd Lewis
Battles, Analysis of the Institutes of the Christian Religion of john Calvin, 3ª ed, Grand
Rapids, Michigan, Baker Book House, 1989, p 15-16. Vd. Tanbém: jon T. McNeill, op. cit.,
p. 119ss; T.H.L. Packer, Portrait of Calvnin, lonon, SCM PreessLTD., 1954, p. 39; Georgia
Harkness, Calvino e Sua tradição: In: Willian K. Anderson, (dir.) Espírito e Mesnagem do
Protestantismo, São Paulo , Junta Gerald a Igreja Metodista do brasil, 1953, p. 100;
Vicente T. Lessa, Calvino 1509-1564. Sua Vida e Obra, São Paulo, Casa Editora
presbiteriana (ed. CEP), [s.d.], p. 76; Jorge P. Fisher, op. cit., p. 199-200; Albert Hyma, the
Life of John Calvin, grande Rapids, Michigan, 1943, p. 39,44; W.S. Reid, A Propagação do
Calvinismo no Século XVI: In: CSIMO, p. 46,54.
[4] – Vd. John Calvin. “To the Phtsicians of Montpellier”, “Letters,” John Calvin. [CD-
ROM], (Albany, OR: Age Software, 1998), nº 665). Nota de Dr. Hermisten Maia Pereira da
Costa

Autor: Dr. Hermisten Maia Pereira da Costa


Fonte: Nota 355 do livro A Inspiração e inerrância das Escrituras, p. 118, editora Cultura
Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br .
Entre [ ] ajuste e acréscimo do webmaster.

Objetivo das Institutas da Religião Cristã

[Calvino dá para seu livro o seguinte título:]

“Instituição da Religião Cristã, resumo quase completo da piedade, abrangendo tudo o


que, quanto à doutrina da Salvação, é necessário conhecer; obra seleta e à altura de todos
os estudiosos da vida piedosa, recentemente publicada. Prefácio dedicado ao cristianíssimo
rei da França, a quem este livro é oferecido no interesse de uma confissão de fé.”¹

O título do livro diz bem qual é o seu objetivo. A palavra instituição pertence no latim ao
vocabulário pedagógico. Para a formação de orador. Quintiliano tinha escrito uma
Institutio oratoria (Instituição para a Oratória). Erasmo tinha dado o programa da
educação de um príncipe em sua Institutio principis christiani (Instituição para o prínceoe
cristão). A Institutio christianae religionis (Instituição da Religia Cristã) é um manual de
instrução cristã, ou, como dirá Calvino, um resumo, uma “suma”, do ensino doutrinário
próprio para a formação de um cristão.

A obra Institutas foi escrita em latim. Mas, e a carta ao rei? Foi impressa tanto com a data
de 1º de agosto como com a de 23 desse mês. Pensada em francês, terá sido escrita
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primeiro em francês e dirigida ao rei nessa língua? O modo como o tuteio é empregado
parece indicar que a carta foi escrita primeiro latim. Tudo faz pensar que ela foi escrita
antes das Institutas. Mas a primeira tiragem, ao que se sabe, é de 1541. A todo momento,
estaremos falando de uma primeira tradução do livro, possivelmente desde 1537. Pois bem,
situa-se em 1537 uma carta da rainha de Navara destinada ao rei: “...Desejas o bem geral
de todo o mundo e a promoção da honra de Deus, em cuja honra te suplico que não tenhas
temor de usar o que te enviei, porque incessantemente o tenho provado, de modo que me
atrevo a elogiá-lo arriscando a minha honra”. Seria as Institutas o elogiável objeto cujos
benefícios a rainha prova sem cessar, objeto que se irmão poderia ter medo de ler, mas
cujo valor todo o mundo é certo? Notemos, por outro lado, que, de fevereiro a abril de
1536, Francisco I encontra-se freqüentemente em Lião. Teria ele recebido um exemplar
ricamente encadernado, que seria bem interessante reencontrar? Lião está na rota da
Itália; e, durante a primavera de 1536, Calvino ficou em Ferrara, perto de Renée de
France.²

Nota:
¹ Título referente a uma Institutas de bolso que facilitava o seu transporte discreto – 520
pg, formato pequeno, em 8º de 10cm pó 15cm.
² A duquesa de Ferrara, favorável aos protestantes.

Autor: Jacques Panner


Pastor, Doutor em Letras, Bibliotecário da Sociedade de História do Protestantismo
Francês.
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 1, pg 16-17.
Compre este maravilhoso livro em http://www.cep.org.br .

Efeito produzido pelas Institutas e testemunhos

Uma dezena de edições latinas, uma quinzena de edições francesas, numerosas traduções
em línguas estrangeiras foram dadas a público durante a vida do autor. Ele pode dizer, não
por orgulho, mas com reconhecimento, que, graças às Institutas, ele tem filhos espirituais
no mundo inteiro. Um dístico¹ que se deve a um húngaro declara que, desde os escritos
apostólicos, nada se igualas às Institutas.

Durante o século 16, do ponto de vista religioso, nenhum livro, depois da Bíblia, tem
semelhante autoridade; do ponto de vista literário, nenhuma obra contribui com igual
clareza e igual força para a expansão do pensamento francês. Aos olhos de um holandês do
século 17, é “um tesouro caído do céu: desde o conselheiro do tribunal supremo até os
cocheiros e barqueiros, todos são versados na teologia calvinista, todos relêem dia e noite
estas institutas de ouro”. Ainda no século 18, Bayle escreve: “Jamais houve livro tão
comum como esse”.²

Alguns exemplares são encadernados suntuosamente, com fechos de ouro. Outros trazem
os sinais dos tempos de perseguição: foram escondidos debaixo do assoalho, nos celeiros; a
primeira página foi arrancada, o nome do autor foi raspado ou cortado, para escaparem da
destruição. AS edições mais antigas foram em grande parte consumidas elas chamas. Com
efeito, os adversários não somente contestavam vivamente, mas condenavam e queriam
suprimir o que uma deles (Florimont de Raemond) denominava “o Talmude de heresia,
um amontoado de quase todos os erros do passado e... do futuro.”
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[Vejamos alguns testemunhos a respeitos das Institutas²:]

O historiador Félice, a denomina “primeiro monumento teológico e literário da Reforma


francesa” (G. de Félice, História dos Protestantes da França, São Paulo, Typografia
Internacional , 1888, p. 53)

“Após três séculos e meio, ela conserva sua inquestionável preeminência como o maior e
mais influente de todos os tratados dogmáticos” [B. B.B Warfield, Calvin and Calvinism,
Grand Rapids, Michigan. (“The Work’s of benjamin B. Warfield”), 1981, Vol V, p.8]

Albreeht Ristschl ( 1822-1889) a chama de “obra-prima da teologia protestante” [ Apud B.


B. Warfield. Calvin and Calvinism, Vol V. p.9]

“A Institutas não é somente uma obra prima de teologia cristã; ela é um clássico
devocional.” [John Murray, Calvin as Theologian and Expositor, Carlisle, Pennylvania, The
Banner of Truth Trust. (Collected Writings of John Murray, Vol I), 1976, p. 331.]

“A Institutio de Calvino é a mais importante obra da história da ciência teológica” (William


Cunningham, The Reformers and the Theology of the Reformation, Carlisle, Pennsyvania,
The Banner of Truth Trust, 1989 (Reprinted), p. 295)

Nota:
¹ Dicionários Priberam define dístico como. (1) estrofe de dois versos que formam sentido
completo; (2) máxima de dois versos; (3) grupo de dois versos formado por um hexâmetro
e um pentâmetro; (4) título, rótulo, letreiro; (5) divisa de um escudo.
(http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx)

² Nota 2 de Dr. Hermisten Maia Pereira da Costa, pg. 29, As Institutas ed. Especial, Vol I,
ed. Cep.

Autor: Jacques Panner


Pastor, Doutor em Letras, Bibliotecário da Sociedade de História do Protestantismo
Francês.
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 1, pg 29-30.
Compre este maravilhoso livro em http://www.cep.org.br.

Circunstância da Publicação das Institutas

O propósito de redigir uma profissão de fé para os reformados franceses, ou, como se dizia
então, para os evangélicos, parece presente no espírito de Calvino já nos primeiros meses
do ano de 1534.

João Calvino tinha, então, 25 anos. Sua infância tinha se passado à sombra da catedral de
Noyon, sua cidade natal. Seu pai era escrivão do capítulo, [ isto é, da assembléia do
cantão]. Ele soube aproveitar-se da proteção dos grandes prelados de Noyon para enviar
seu filho a Paris, para os seus estudos. No colégio chamado da Marche, Calvino teve,
embora por pouco tempo, o mais famoso mestre e pedagogo da época, Mathurin Cordier,
que lhe ensinou latim (agosto de 1523). Pouco mais tarde, em Bourges, onde fez curso de
direito, o professor Melchior Wolmar, luterno declarado, lhe ensinou grego. Concluídos os
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seus estudos jurídicos, Calvino dedicou-se à literatura. Talvez pensasse numa carreira de
humanista, como a de Erasmo, por quem ele tinha grande admiração. Mantinha-se ligado
aos humanistas e a alguns homens que se preocupavam com a vida religiosa, como seu
primo Robert Olivetan. Subitamente, sua vida laboriosa foi perturbada por um escândalo
em que estavam envolvidos os teólogos da Sorbonne. Aconteceu que no dia 1º de
novembro de 1533, por ocasião da reabertura da Universidade de Paris, o reitor, conforme
o costume, leu um discurso. Este continha algumas declarações inesperadas em tal
circunstância. Mostrando grande desprezo pelos sofistas, que reduziam a teologia aos
exercícios da escolástica, opôs a eles a “filosofia de Cristo”, expressão do gosto de Erasmo,
suspeito para os teólogos. Ele proclamava Cristo como o único mediador, o que a Sobornne
considerava ofensivo à “Virgem” e aos santos. Ele elogiava o retorno ao Evangelho: era o
rompimento com a Igreja e suas tradições.

O discurso lido pelo reitor era de Calvino. Tal foi o escândalo que Sorbonne denunciou o
autor ao Parlamento de Paris com o fim de processá-lo por heresia. Cop, o reitor, fugiu
para Basiléia; Calvino se escondeu num subúrbio parisiense (em Chaillot, ao que parece), e
depois se refugiou na casa de um amigo, em Claix, perto de Angoulême. Foi lá, em sua
solidão, tendo à mão uma rica biblioteca, que ele formou o propósito de redigir sua
profissão de fé. Ele tina renunciado ao estudo da literatura; passou a dedicar-se
unicamente à vida espiritual. Foi lá que se deu a sua conversão que, segundo suas
confidências, tinha sido repentina.

De Angoulême ele tinha ido para Nérac, capital dos Estados da rainha de Navara, sendo ela
um tanto indulgente para com os evangélicos molestados e perseguidos. Calvino tinha
voltado a Noyon para ali renunciar a seus benefícios eclesiásticos, e a Paris, quando um
novo escândalo desencadeou a perseguição contra os luteranos.

Na noite de 17 de outubro de 1534, em Paris, foram fixados cartazes contra a missa, e isso
foi feito até na porta do quarto do rei, no castelo situado às margens do Rio Loire. Soube-se
mais tarde que tinha sido obra de um lionês chamado Marcourt, primeiro pastor em
Neuchâtel, a partir de 1531.

O parlamento logo submeteu os suspeitos à tortura, condenou-os a suplícios de extrema


crueldade: que lhes arrancassem a língua e lhes amputassem as mãos, antes de queimá-los
vivos. O rei assinou uma ordem surpreendente da parte de um amigo das letras, proibindo,
sob pena de morte, a impressão de todo e qualquer livro (em 13 de janeiro de 1535).

Passou-se um ano até que, como privilégio excepcional, fosse feita uma concessão a doze
impressoras. As pilhas de volumes queimados com os hereges que os escreveram ou os
imprimiram ou os divulgaram explicam por que durante meio século não foi editada
nenhuma Bíblia francesa na França, e pro que, até 1562, não foi possível imprimir as
Institutas.

No meio da tempestade, o autor continua sua obra. Ele sabe – talvez meio dos confidentes
de Marguerite d’Angoulême – como o rei é inconstante. Enquanto na França se aplica
tanto rigor, na Alemanha, Francisco I procura fazer aliança com os príncipes luteranos
contra o imperador. Um edito de 29 de janeiro de 1535 prescreve o extermínio dos hereges;
mas, muitos dias depois, a mesma mão real assina um documento memorial redigido pelo
embaixador Du Bellay em homenagem aos eleitores e aos aliados do cristianíssimo rei.
Francisco I explica que está sendo acusado injustamente de perseguir pessoas por motivo
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de religião: são revolucionários em fúria, alega ele, são sediciosos, que ele tem o direito e o
dever de reprimir.

Entretanto, uma reviravolta em favor dos evangélicos sempre parecia possível; ao rei,
poderia aplicar-se o epíteto dado por Farel a Erasmo: camaleão! No dia 10 de março de
1534, um professor estabelecido em Paris já por cinco anos, Jeam Sturm, tinha escrito ao
reformador Bucer, natural de Estrasburgo: “Jamais se cumpriu melhor o versículo: ‘O
coração do rei está nas mãos de Deus’, porque no meio das fogueiras ele sonha com uma
reforma religiosa... Insisto na necessidade de sua viagem e da de Melanchton” (o melhor
colaborador de Lutero)... “A situação tão perigosa dos fiéis deve-se menos ao juízo pessoal
do rei que das informações caluniosas dadas por conselheiros parciais. Nenhuma distinção
se faz entre anabatistas, seguidores de Erasmo e luteranos; todos são feitos prisioneiros.
Creio que a idéia do rei seria a de agir diferentemente contra os sediciosos e contra os que
não professam a doutrina da igreja sobre a eucaristia”.

Essa opinião é a de um observador bem informado, envolvido nas negociações que visavam
a restabelecer a paz entre os cristãos, e que, em breve, em Estrasburgo, teria seguido
contatos com Calvino. A esperança de Sturm parecia que ia realizar-se na primavera de
1534; pois, no dia 23 de junho, Francisco I, oficialmente, e Du Bellay, em seu próprio
nome, convidam Melanchton para vir à França. Mas o eleitor da saxônia não lhe dá
permissão e, alem disso, Sorbonne recusa a discussão pública sugerida pelos diplomatas.

Uma no depois, o espírito e a pena de Calvino ficam livres para consagrar-se inteiramente
à sua grande empresa. Na primavera de 1535, é publicado em Beuchâtel o Novo
Testamento de Robert Olivétan, para o qual seu primo escreveu um prefácio: “A todos os
que amam Jesus Cristo e seu Evangelho, saudações”. Calvino diz expressamente: “Nós o
traduzimos o mais fielmente que nos foi possível, em conformidade com a verdade e com a
propriedade da língua grega”, assinalando assim sua participação nessa obra de grande
fôlego; e especifica a intenção: “para que os cristãos e cristãs que entendem a língua
francesa possam entender e reconhecer a lei que devem ter a fé que devem seguir”,
propósito patriótico semelhante ao de Lefévre, doze anos mais tarde; no começo do seu
próprio Novo testamento, disse que tinha trabalhado visando à consolação dos súditos do
reino, para que este não fosse mais simplesmente chamado Reino Cristianíssimo, mas que
se tornasse al de fato.

Em toda a Europa ocidental, a época que vai de 1534 a 1536 é, como a então recente, de
1521-22, uma época crítica. Os reformadores trabalham, cada um em seu país, para
propagar a Palavra de Deus na língua nacional, esperando a conversão de soberanos e de
povos: em outubro de 1534, Lutero termina a tradução alemã da Bíblia; em outro de 1536,
o tradutor da Bíblia em inglês, Tyndale, morre na fogueira orando a Deus que abra os olhos
do rei da Inglaterra. Neste mesmo ano, em que é publicada a carta de Calvino ao rei da
França, ao mesmo Francisco I é dedicada a Christianae fidei brevis et clara expositio
(Breve e clara exposição da é cristã) de Zwínglio, publicada após a morte do sua autor por
se sucessor em Zurique.

A Bíblia francesa de 1535 sai do prelo em 4 de junho. N fim do mês, chega uma notícia
horrível: em Munster, foram exterminados em massa os anabatistas alemães, que
buscavam nas Escrituras, não somente princípios religiosos, mas também pretextos para
uma revolução social. Os adversários da Reforma a declaram responsável pelos excessos
dos anabatistas, ou, ao menos, solidários a eles.
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Na França (Michelet viu bem isso), a origem da Reforma “é espontânea, primeiramente


francesa”. Seus primeiros adeptos levavam uma vida pacífica. Eram operários em Meaux,
agricultores em Thiérache, humanista na corte. Isso não impede os seus inimigos de
compararem os inofensivos “biblistas” da França com os desenfreados anabatistas da
Alemanha. Uma testemunha H. Estienne, conservou sobre isso lembranças interessantes:
“Evitava-se dar a entender que eles eram gente boa como os demais e que não eram
zombadores nem falsos; que tinham recebido o sacramento do batismo, etc., mas, antes,
diziam que eram pessoas completamente diferentes, que zombavam de Deus, que tinham
suas mulheres em comum, que eram piores que os judeus, os turcos e os sarracenos”. O
manifesto dirigido aos príncipes da Alemanha era a expressão oficial dos erros,
preconceitos e calunias que tinham livre curso em Paris. Contra eles eleva-se o protesto
indignado da consciência de Calvino.

A princípio, sua exposição da fé cristã destinava-se a fortalecer os fiéis e a esclarecer os que


não tinham bom conhecimento da causa; agora servirá de apologia contra os caluniadores.
O doutros em direito de Orleans transforma em discurso de defesa as páginas concebidas
pelo teólogo. E esse discursos ele enviará ao supremo juiz da França; essa é a origem da
carta ao rei, conforme narrativa do próprio autor que consta no prefácio do seu
Comentário do Livro de Salmos, por ele publicado em 1557.

“Foram queimados na França muitas pessoas santas e fiéis; chagando isso ao


conhecimento das outras nações, os autores das queimas foram considerados cruéis...;
eles(os príncipes luteranos) elaboraram um protesto contra os autores daquela tirania (o
rei e o parlamento); para apaziguar isso, deu-se divulgação a opúsculos infelizes (como o
manifesto de primeiro de fevereiro, também afixado em quadros murais), cheios de
mentiras: que só eram tratados cruelmente os anabatistas e os sediciosos (citação de um
expressão do manifesto), os quais, com seus extravios e com suas opiniões falsas,
subvertem, não somente a religião, mas também toda a ordem política. Quanto a mim,
vendo que esses falsos religiosos, com seus fingimentos, faziam tudo para que a
indignidade desse derramamento de sangue inocente não somente fosse mantida oculta
pelas blasfêmias e calúnias das quais eles acusavam falsamente os santos mártires depois
da morte deles (no dia 15 de fevereiro, De la Forge, um amigo de Calvino, tinha sido
queimado), mas também, em acréscimo, faziam tudo para pisar os pobres fiéis, sendo que
a ninguém era permitido mostrar compaixão por eles, pareceu-me que, se eu não me
opusesse vigorosamente, quanto me fosse possível, eu não poderia desculpar-me, se fosse
julgado frouxo e desleal”. (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Parakletos, 1999,
Vol. 1, p. 39)

Aí esta, pois, um advogado que se sente constrangido por sua consciência assumir a defesa
de um inocente acusado de crimes que poderiam levar à condenação e à morte. Se com
justiça M. Lefranc dá a Calvino o título de “criador da eloqüência francesa”, é graças ao
tom da cara ao rei, mais do que ao plano tão claro e às deduções tão lógicas das Institutas
propriamente ditas. “Calvino esperava reconduzir Francisco I a disposições mais
benevolentes, revelando ao grande público o verdadeiro caráter dos reformadores
franceses, odiosamente transformados em malfeitores pelos adversários. Uma vez isolados
e abandonados pela opinião européia, não haveria nada que pudesse impedir a sua
eliminação. Com essa clarividência superior que faria dele, aos trinta anos, um líder e um
condutor de almas, o jovem reformador denunciou o perigo iminente; ele se fez o porta-voz
dos seus correligionários caluniados” (Introdução de uma edição das Institutas, 1911).
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Tendo saído da França no inicio de 1535, Calvino, após uma breve estada em Estrasburgo,
fixa-se em Basiléia, onde vive “disfarçado”, como simples membro da “pobre igreja por
banimentos expulsa”. Toma pensão no subúrbio de Saint-Albain, na casa de uma viúva, a
senhora Petit, que mais tarde dará alojamento a Ramus. “Aqui”, escreverá este, “em vigílias
memoráveis, celestiais, foram elaboradas as Institutas”. O autor ainda não tinha vinte e
seis anos de idade.

Calvino entra em contato com dois tipógrafos associados, Platter e Lasius. No mês de
agosto, a expressiva carta, que serviria de preâmbulo, tinha sido concluída “por Jean
Calvin, de Noyon”. Uma das principais feiras de livros novos começava em setembro. É
provável que o editor (Oprin) tenha pressionado Calvino e terminar a carta de modo que
pudesse ser composta a tempo e ser anexada à parte inicial do livro: mas não conseguiram.
Sete meses se escoaram antes de o volume sair do prelo, para a feira realizada da Páscoa,
“mense Martio, anno 1536”.

Autor: Jacques Panner


Pastor, Doutor em Letras, Bibliotecário da Sociedade de História do Protestantismo
Francês.
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol. 1, pg 9-16.
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Fonte, Tom e Testemunho invocados das Institutas

Fonte:

O livro Institutas, em princípio, não pretende ser outra coisa que um comentário da
Escritura Sagrada. Quando a esta, já há uma dezena de anos, Olivétan levou Calvino a
reconhecer a autoridade soberana em matéria de fé; Calvino estudou hebraico e grego a
fundo para poder ler melhor que na Vulgata os textos do Antigo e do Novo Testamento. As
edições de Erasmo, os comentários de Lefévre, são seus livros de cabeceira.

Ele lê também os chamados pais da igreja, e, depois de 1541, os lerá mais do que antes de
1539. Entre os “pais” gregos ele só fica conhecendo bem João Crisóstomo; ele lê maior
número de “pais” latinos, sobretudo Agostinho.

Com respeito a autores profanos, Aristóteles e Plantão, Cícero e Sêneca, freqüentemente


editados e comentados pelos humanistas, fornecem muitas referências. Muitas vezes os
estóicos são criticados, o mesmo acontecendo com os escolásticos, entre os quais Calvino
inclui os sorbonistas do seu tempo. De bom grado cita história antiga e também a história
profana.

Quanto aos reformadores, Calvino não cite Ecolampádio em 1536 (e, todavia, a lembrança
do teólogo de Basiléia era ainda muito recente naquela cidade quanto Calvino fez chegar lá
o livro Institutas), como também não cita Bucer em 1539 e em 1541 (e, todavia, a influência
do pastor alsaciano se faz sentir nas páginas acrescentadas à redação primitiva: sobre a
doutrina da igreja, etc.).
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De Lutero, Calvino fala com respeito; ele não tinha lido as suas obras em alemão, língua
que lê ignorava, mas em latim.

Por fim, suas leituras estendem-se aos escritos dos adversários. Um deles é Béda (ex-
diretor do colégio Montaigu, onde Calvino estudou alguns meses), inspirador das
declarações da Sorbonne contra Ersamo, Lefévre, Berquin e Lutero (Béda não pôde ler e
condenar as institutas, pos morreu em 1536).

Tom:

Contra os adversários, Calvino batalhará vigorosamente, empregando termos enérgicos,


sobretudo após 1541. Como os primeiros escritos dos evangélicos franceses e como os
primeiros extratos das obras de Lutero, selecionados pelos tradutores franceses, as
primeiras edições latina e francesa das Institutas pretendem ser obras de edificação, antes
que tratados de controvérsia. Não quer dizer que nos textos de 1539 e de1541 não se
encontram expressões cáusticas, mordazes e até violentas; mas Calvino, aos 29 anos de
idade, ainda não é o homem que se tornará à medida que envelhecer, mostrando=se na
juventude muito irritado pelas oposições, pelas dificuldades, pelas inquietações e pela
doenças¹ que o mantiveram preso al leitor durante boa parte do seu tempo de trabalho.

Mais ainda que os adversários declarados, ele vê com maus olhos, desde 1539, aqueles que,
como Rabelais e Des Périers, tendo-se inclinado para o evangelho, depois o abandonaram:
assim, dois ex-discípulos de Lefêvre, o cônego flamengo Clichtow (cujos sermões foram
publicados em 1535) e o capelão de Marguerite d’Angoulême, que se tornou bispo de
Oloron, Gerard Roussel: as cartas contra os “Nicodémites” (hipócritas) foram compostas
em Ferrara em 1536, O Tratado sobre os Escândalos em Estraburgo, em 1540, portanto
entre a segunda edição das Institutas e sua versão francesa.

Os Testemunhos Invocados:

Calvino recorre também, quando se lhe apresenta a ocasião, às descobertas – ainda


bastante rudimentares – dos sábios, às obras dos artistas, aos espetáculos da natureza, em
favor da causa que lhe é cara; mais ainda, em favor da Causa que, de toda a sua alma, ele
crê que é santa. Como bom advogado, ele invoca todas as autoridades das quais pode
reclamar testemunho: a autoridade de autores profanos, de “pais” da igreja e, sobretudo,
de escritores sacros,; mas, para tocar o coração de todos, de reis e dos sábios, como
também dos “simples e rudes” que têm sede da verdade. Calvino conta, antes de tudo e
quase unicamente, com uma ação superior aos poderes humanos, com a intervenção
pessoal e direta do Pai celeste na consciência dos seus filhos, com o testemunho do Espírito
Santo. Esta doutrina especificamente calvinista, baseada na Escrituras Sagrada, é o fio
condutor que permite seguir de um extremo ao outro o plano e os diversos capítulos do
livro. Outra doutrina, destinada a receber mais tarde grande desenvolvimentos, a da
predestinação, é rapidamente formulada nos textos de 1539 e de 1541. Se Calvino comenta
a Palavra de Deus, se escreve as Institutas, é porque está persuadido de que esta palavra
pode e deve exercer uma ação irresistível sobre as almas a quem Deus concede esse
privilégio.

Post tenebras lux (luz após trevas) é o versículo de Jó que Calvino viu torna-se a divisa de
Genebra quando esta adotou a Reforma, em 1536. Quando essa luz de Deus brilha, quando
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a voz de Deus se faz ouvir, só nos resta obedecer. “Promptè et sincerè” (Pronta e
sinceramente) é uma palavra de ordem que Calvino toma para si e dá aos outros.

Nota:
¹ Calvino reflete sobre a fragilidade humana: João Calvino, As Institutas, 1.17.10. Calvino,
que sempre teve saúde débil, acompanhada de uma capacidade hercúlca de trabalho, em
8/2/1564, escreve a médicos de Montpellier agradecendo os remédios e a gentil atenção.
Nesta carta ele descreve sua enfermidade: artrite, pedras nos rins, hemorróidas
(enfermidade que impedia de cavalgar), febre, nefrite, indigestão, cólicas, úlceras, emissão
de sangue por via urinária... (Vd. John Calvin. “To the Phtsicians of Montpellier”, “Letters,”
John Calvin. [CD-ROM], (Albany, OR: Age Software, 1998), nº 665). Nota de Dr.
Hermisten Maia Pereira da Costa.

Autor: Jacques Panner


Pastor, Doutor em Letras, Bibliotecário da Sociedade de História do Protestantismo
Francês.
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 1, pg 26-28.
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A edição original das Institutas escrita em latim – dispunha de 6 capítulos em apenas


520 páginas, com formato aproximado de 15x10 – um livro de bolso que facilitava o seu
transporte: a última – passando por algumas ampliações, revisões e reorganizações
[1536, 1539, 1543 (sem alteração, 1545), 1550 (sem alteração: 1153 e 1554)], até atingir a
forma definitiva – publicada em Genebra (1559) na tipografia de Robert Estienne. Esta
foi reimpressa duas vezes em 1561. [Nota 2 de Dr. Hermisten Maia Pereira da Costa, pg.
30, As Institutas ed. Especial, Vol I, ed. Cep]
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em latim, de 1559, com consultas à Edição Francesa, texto atualizado de
Pierre Marcel e Jean Cadier, de 1955, à respeitada tradução para o inglês de
Ford Lewis Battles (edição de 1961), à tradução de John Allen, 7ª edição
americana, de 1936, à versão alemã de Karl Muller, edição de 1928 e à
espanhola de Cipriano de Valera (revisão de 1967);
- Harmonia temática com a Edição Especial com Notas para Estudo e
Pesquisa, traduzida do francês;
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primeira obra do gênero, predecessora de dezenas de outras até nossos dias. Segundo,
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porque foi escrita apenas um decênio após a morte do Reformador, ainda no século XVI,
por pessoa que conhecia de perto os fatos registrados, dada a sua longa convivência com o
biografado, além de sua intimidade e relacionamento com o Teólogo de Genebra. É obra de
leitura imprescindível a quantos queiram conhecer de perto a vida e a obra do insigne
patriarca da fé reformada.
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Calvino de A a Z
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Autor: Hermisten Costa


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Muitas obras trazem comentários e alusões sobre a vida e os escritos de vários teólogos. No
entanto, certamente é ainda mais enriquecedor recorrer à própria fonte que tem inspirado
esses registros.
Esse é o objetivo de Calvino - de A a Z, obra cuidadosamente elaborada para todos os
interessados em conhecer melhor o pensamento do grande reformador. Você terá acesso a
cerca de 1 400 citações do próprio Calvino, distribuídas em mais de 200 verbetes,
formando uma coletânea riquíssima de conceitos que fizeram e ainda fazem a história da
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Calvinismo

Autor: Abraham Kuyper


Formato: 16 x 23 cm
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O canal em que se moveu a reforma do séc. 16, enriquecendo a vida cultural e espiritual
dos povos que o adotaram. O sistema que hoje a igreja deve reconhecer como bíblico.
A palavra calvinismo tem vários sentidos. Em seu significado mais amplo, como se vê neste
livro, o calvinismo se refere a um sistema que alcança todos os aspectos da vida humana.
Como muitos "ismos" conhecidos, o calvinismo apresenta à humanidade um conjunto de
alternativas com respeito às três questões básicas da vida:
1.Como uma pessoa se relaciona com Deus;
2.Como uma pessoa se relaciona com as outras pessoas;
3.Como uma pessoa se relaciona com o mundo.
Nesta edição é apresentada a relação do Calvinismo com Religião, Política, Ciência e Arte.

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Calvino', 'Os Cinco Pontos' , 'A Reforma' do site
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Montagem:
Nilson Mascolli Filho
nilsonmascollifilho@yahoo.com.br
www.teologiacalvinista.com
http://escritosdejoaocalvino.blogspot.com/