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Essa intervenção permanente do espiritismo nos problemas do mundo se apresenta
bem na Gênese, quando assevera “(...) o espiritismo trabalha com educação. Esta é a base
da própria Doutrina pois, para praticá-la, temos de nos educar. E a educação tem um
conteúdo extremamente político, pois muda nossa forma de ver o mundo e de agir nele”.
Reafirmando a necessidade do espírita não esquecer que ele também é um cidadão, um
homem do seu tempo, com deveres diante da questão social.
Entretanto, a necessidade da nossa participação na vida social é diferente da
situação de apresentar-se com a credencial "espírita" para pedir votos. “O Espiritismo se
liga a todos os campos das atividades humanas, não para entranhar-se neles, mas para
iluminá-los com as luzes do Espírito. Servir o mundo através de Deus é sua função e não
servir a Deus através do mundo”, reitera Kardec na mesma obra já citada do Pentateuco.
Ou seja, se quisermos pleitear a ocupação de um cargo público eletivo, devemos nos
isentar de associar essa cruzada político-social aos papéis desempenhados no movimento
espírita, e como disse Kardec, iluminar nossa jornada política com o espiritismo e não o
espiritismo com a nossa jornada política. Essa é a diferença entre ser um espírita–candidato
e ser um candidato-espírita.
Se acreditamos na vida, somos contra o aborto, contra a pena de morte, a eutanásia e
o suicídio; os defensores dessas bandeiras merecem nosso voto, independentes das crenças
que manifestem. Para isso existem partidos políticos, para congregar essas idéias! Existem
várias formas de se obter espaço, prestígio ou força para defender nossos princípios, que
não seja a opção de destacarmos, dentre um numeroso grupo de espíritas, um representante
para disputar um cargo eletivo.
A césar o que é de césar! O Estado é laico! Essa foi uma grande luta desse país e
constitui a base da democracia. Não penso ser um bom caminho adotarmos o lema “espírita
vota em espírita”. Isso pode redundar em situações –limite de pedição de votos em reuniões
públicas, ou ainda, intervenções na opinião política dos freqüentadores da casa espírita,
ambas as situações que na minha visão seriam eticamente inconcebíveis.
A força do espiritismo não se faz pelos seus representantes governamentais, pelas
celebridades que comungam essa crença ou mesmo pela altura do domo das casas espíritas.
A força vem do exemplo e da difícil tarefa de se fazer a reforma íntima para a construção
do homem de bem. Esse é o nosso desafio!
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E para isso não consigo vislumbrar, sinceramente, a necessidade de se ter um
representante do segmento espírita em qualquer órgão legislativo ou do executivo, como
situação que ajude a promover a renovação na busca do homem de bem. Somos espíritas e
cidadãos, sem serem coisas excludentes. Queremos, sim, pela nossa ação, povoar de
homens de bem as instâncias decisórias, sejam eles espíritas ou não.
O grande risco dessas situações, em um país com muitos espíritas como o nosso,
com um número maior ainda de simpatizantes, é o oportunismo de se aproveitar o bom
nome que goza o espiritismo para carrear votos e a promoção pessoal no período eleitoral.
A questão da representatividade é de mão dupla. O candidato representa o espiritismo, mas
o espiritismo é representado pela sua conduta como político. Se ele se arvora a se proclamar
representante da doutrina, acaba com sua imagem representando-a para quem o ouve,
mesmo que o movimento espírita disso se dê conta.
A decisão de alguém em se candidatar é um direito individual que deve ser
respeitado. A participação política deve ser uma consciência, sob pena de nos tornarmos
analfabetos políticos, como bem preconizava Bertold Brecht. Mas não devemos depositar
nosso voto pelo simples fato do panfleto do candidato trazer, como currículo, o fato de ser
espírita, doutrinador, orador ou congênere.
O voto deve ser dado pela história de cada um, pelas suas propostas e pelo seu
alinhamento na esfera política. Se o votado for espírita, ou não, isso pouco deve importar
nesse contexto...