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PTV ERT m® SHAUN OTAOUVW SATAOUTH A VUCIH AWLNA SH1N a VaCIH ALN q 83 B | XXVI- ENTRE HIDRA F HERCULES considerado 0 problema do fascinio doutrinario pela principiolo- gia, apontando-se para equivocos tedricos ¢ dogmaticos. Por fim, farei um comentario critico & prética constitucional confusa em torno dos principios, considerando alguns casos julgados pelo Supremo Tribunal Federal e um processo em andamento perante essa Corte. Nas observacées finais, retomarci a metafora expressa no ti tulo, para considerar que tipo de juiz é mais preparado para enfrentar e superar, em cada caso concreto, o paredoxo da relagio entre principios e regras: o juiz Hércules ou o juiz Hidra? Ne- hum dos dois! cap yLOT DOS MODELOS JA CLASSICOS DE DISTINGAO ENTRE PRINCIPIOS E REGRAS JURIDICAS... 1. Anorma entre 0 texto normativo e o fato juridico Ao discutir-se a distingao entre principios e regras, tanto no. plano da teoria geral do direito quanto da dogmética constituc nal, 0 debate dirige-se & caracterizagio de tipos normativo: clusive para averiguar se ambas as categorias esto abrangidas pelo conceito de norma, Portanto, o primeiro passo € afastar @ confusio entre texto normativo e norma. Também se pode uti isposicao normati ‘ou “enunciado normative”, para distinguir a forma linguistica zar os termos “formulagio da norma", mediante @ qual uma norma se expressa no plano do direito posi- tivo, particularmente o direito escrito, Para esse fim, utilizarei as ocugdes “texto normative” em geral ou “éisposigao normativa” Aamio, 1990, pp. 181-2 [trad esp. 19978, p. Canotiho, 3998, pp. 1075-6; Schauer, 1991, pp 62-4, dstinguindo regs cformulacio de regrs * CF Alexy 2986, pp. 545s. [trad bras. 2008, pp. 6%.) dstinguindodisposigo de dite fundamental e norma de direitofundamentak Canotilhe, 1998, pp. 2077 +80; Guastini, 2005, pp. 24 5s, confundindo, porém, 0 niveis do significantee do significado, ao chamat “teste normatvo! qualquer documento elaborade por uma uloridade normative’ (p24) e, 20 mesmo tempo, definirdisposicio e norma nos ‘seguintes termos: “a dsposigio€ (parte de) um texto ainda por ser interpeetado; a norma ¢ (parte de) um texto interpretado”(p. 26) Portanto, a rigor, m sua term nologi, ele nde distingue precisamente entre texto e norma ( ‘mo “enunciado” normativo para me referir & express ico-dogn pretende descrever ou determinar o contetido semantico da nor- sm “dispositivo normative") em espe ca de uma propo: 10 interpretativa ou juri (Suplementarmente, cabe empregar a expressio “enunciado fo normativo, para normativo’, em vez de disposigio ou disposi referir a assergio de norma atri indiretamente ao texto legal ‘ou constitucional pelo encartegado da interpretagio-aplicagio juridicamente vinculante,) Trata-se aqui de distinguir entre os pla nos dk icante e do significado’. A conexio entre ambos im- plica uma relacao semantica de significagdo ou, de maneita mais abrangente, de dacéo de sentido no processo de comunicasao. ‘Mas, em nosso contexto, essa relagdo nao se apresenta apenas en- tre dois polos, o da disposigao e o da norma. Configura-se, no inimo, um proceso quat gular entre disposigdo normativa, norma, enunciado normative e proposi¢éo normativa. Diante de fspes pp 846; Carvalho, PB, 2008, pp. 126 fgindo as normas dos documentos normatives. 5 io, a0 dstinguir entre interpretagio em sentido amplo, que se refere 20s iversssignifiados possveis de uma dsposigio normativa (“formulagdo de nor Interpretacio em sentido estrito, que seleciona um ou ificados iva, empregaotermo "enunciado it 10 (Aarnio, 1990, p.183 [tad esp. 19973. bras. 1974, pp es Lacan, 1966, pp. ifcado eo sigaificante"¢ OS MODELOS 14 CLASSICOS 3 a(s) norma(s) ignificado(s) normativo(s) Ihe pode(m) ou deve(m) ser uma disposigao normativa, cabe indagar qual( ido(s). Mediante 0 enunciado normativo (ou interpretativo) )-se determinado(s) significado(s) normativo(s) ou 8 disposigao normativa. Entretanto, novamente, podem- -se indagar quais significados normativos ow normas foram atti bbuidos & disposi¢ao por meio do enunciado normativo (ou inter- pretativo), ou seja, qual proposigdo normal expressa através deste’, Essa lerpretativa tuagao nao é linear, na forma de ‘metalinguagem ¢ linguagem-obj cularidade na cadeia de dagdo do st processado, ‘Alm do significante e do significado, sao relevantes, no plano semantico, os referei 3s, que nao sio dados reais iltimos (cuja exis- signitcants,correspondentemente, entre enunciado normativo (= enunciado da roposicto normativa) e dsposicée normatia (ou texto da norma). Na traducio proposizo como fambém no plano do signficante que ‘cos piradozos do interior da Tinguagem. levando ingwagem-objeto metalingwagem. Voltarei a esse tema A; ENTRE HIDRA E MERCULES téncia apenas se supe no processo comunicativo), mas sim fatos « objetos construidos na linguagem, ou melhor, na comunicagao, Dessa maneira apresenta-se, de um lado, a relagao entre tex ico-normativo (significante) € norma juridica (signi de outro, a relagdo entre esta e o fato juridico (referent mediada sobretudo pela hipdtese normativa do fato irradiador dos efeitos concretos da norma (hipdtese de incidéncia, tipo, an- tecedente etc.) ‘Aqui cabe um esclarecimento para se evitarem equivocos pos- teriores. Nao se deve confundir o suporte fético no sentido domi- rnante em Pontes de Miranda com o Tatbestand no sentido que predomina na linguagem juridica e dogmatica alema, © Tatbe- stand € 0 tipo, a hipétese de incidéncia ou, como prefiro, @ hips- tese normativa do fato irradiador dos efeitos concretos da norma (que chamarei simplificadamente de hipétese normativa do fato ou apenas hipétese normativa'). © suporte fitico em Pontes de ‘Miranda é a dimensio do real sobre a qual a norma incide e, com isso, transforma-se em fato juridico”. Excepcionalmente, Pontes de Miranda refere-se a “suporte féctico (abstrato)"" e pretende, esse modo, referir-se & hipétese normativa do fato, Parece, por- tanto, que, quando mencionaosuporte fitico como" Tatbestand”, ad ‘opeio seria sar a expressio "hipitesefictica”(Vilanova, 1985, p. 137), nfm, trata-se de uma hipétese ormativamente construida, nio do antece dente de uma proposicio cognitiva © Em contaposigio ao © Pontes de Miranda, 297. Virgiio Afonso da Silva a de Alery, 198%, pp 272 [tad bras, 2008, pp. 301 ‘essa terminologia cm seus trabalhos Siva, V. A, 2008, pp 67S; 2006, Pp. 32-5. Os MODELOS [A CLASSICOS 5 std a referir-se ao suporte fatico abstrato, Mas cabe ponderar que, na linguagem juridica alema, no ambito processual, 0 Tatbestand € também tratado como as circunstincias reais que correspon dem a hipétese normat tando associado, portanto, & nogdo de suporte fitico concreto' Como a expressio “suporte fitico” se refere predominantemente, sobretudo por forga do nosso vernculo, a realidade subjacente 20 fato juridico, mesmo quando consideramos esta como cons- truida seletivamente no processo de incidéncia da norma" zarei essa expresso apenas para referir ao chamado “suporte féc- tico concreto'” E, em vez de “suporte fatico abstrato’, empregarei a locugao “hipétese normativa do fata” para me referir ao press posto abstrato da incidéncia da norma. A questa dos principios e regras situa-se no plano da norma (do significado), entre os planos do texto normativo (significante) € do fato juridico (referente). Contudo, evidentemente, os proble- ‘mas relativos as disposicdes normativas e aos referentes factuais equ use nas expect vas normasjuriicasabstryas. No di sual, o Sachverhalt designado fequentemnte como Tatbestand (p. ex, § 313 I Nt. § ZPO [Codigo de Proceso Civil alamo), embora a metodoogiajuridica cor 2003, p. 403). Em fo processual Doras gu o con mend andag so de Pontes de Nand consi fe relatos no procerso de concretia- mediante a afirmacto da incidéncia da no referent (consruido) de um enunciado implicito ou explicito de subsuncio. 6. eNTRE HIDRA E HERCULES tém um papel fundamental em relagao a ela. A esse respeito, cabe considerar 0 problema da ambiguidade (na conotagao) ¢ vagneza {na denotagao) do texto normativo™. A primeira significa que as disposigoes, em particular as constitucionais, nao sio univocas, (ou seja, ao menos prima facie, podem ser-Ihes atribuidos mais de uum significado, Isso significa a possibilidade de que mais de uma norma possa ser “extraida” de uma mesma disposi¢ao normativa ‘ou, mais precisamente, atribuida a esta. Por sua vez, a vagueza refere-se a impreciséo em definir quais sio os referentes da nor ‘ma, ou seja, a indeterminagao dos limites do ambito dos fatos juridicos e respectivos efeitos juridicos que estio previstos na disposigao normativa e, pois, na norma. As vezes, superada aam- biguidade (deter minou-se o significado da disposigo norma- tiva e, portanto, jé se definiu a norma a aplicar), ainda assim surgem problemas de vagueza, tendo em vista a dificuldade de determinar quais os fatos que se enquadram na respectiva nor- ‘ma. Dessa maneira, por exemplo, mesmo que seja delimitado cla- ramente o sentido de *pluralismo politico” nos termos do art. 1%, inciso V, da Constituicao Federal, persistiré a dificuldade em de- terminar quais as situagdes fticas em que um partido extremis- ta deve ser considerado uma ameaga ou um perigo para o plura- lismo juridico, Precisa-se, portanto, de uma “interpretagéo dos fatos"” para que se supere a vagueza para o caso concreto e a nor- ma possa ser aplicada. limensio semantica de sentido "No sentido ligico, a conotacio correrponde (significado) smantica de reerénca (f. Von ‘Wright, 1963 pp. 93-4 [tad esp. 1970p. 10]; Copi 1961, pp. 107 tad. bras. 1978, pp. so) pesamenesbreaambiude on tra) da os MoDELOS 14 CLASsICOS-7 Para a superagio da ambiguidade de disposigoes normativas, é fundamental a interpretagdo do respectivo texto, Para a supera. «ao da vagueza e a aplicagdo normativa a um caso concrete, vai- -se além, desenvolvendo-se um amplo processo seletivo de con- cretizagdo da norma”, Esclarega-se, porém, que, com o final da concretiza¢io, a norma jutidica ndo se torn individual e concre- ta, apenas torna-se possivel ser-Ihe subsumido 0 caso mediante uma norma de decisio (em regra, individual e conereta)"". A con- cretizacio implica, portanto, a interpretagao tanto do texto da norma quanto dos fatos juridicos relevantes para o caso. Em um sentido mais abrangente, envolve, na terminologia de Friedrich Miller, a articulagdo tanto do “programa da norma” (dados pri- mariamente linguisticos) quanto do "mbito da norma” (dados ptimariamente reais) como componentes da estrutura da nor- ‘ma'*, O processo de passagem da ambiguidade (imprecisio co- notativa) prima facie da disposicio normativa & superagao da va- gueza (imprecisio denotativa) exige nao propriamente que se “considerem todos os fatores” do contexto, mas que se determine seletivamente se 0s fatos juridicos relevantey ao caso enquadrani- -se na hipdtese normativa” ‘A respite ver Hest, 96, pp. st: Miler F topo tgabsChrtenen 2980 pp. 873 Aine tonto ef, pe, Miller E995 pp. 372-3 ‘Ck supa ota 8s nto. Miles, F 1995 ep: pp aS 1996 p.232-4 «psn: stb ep. 30 sgysespe pp. 289 , ne "Arno dtingoe ent andi pri ac de un expresso canis que toma tor anadera ts sates Cal ng cme) ia gies tin aa tn eago pla da norms (190, Bp. 185 Dopp sess 92h pp 19H) Antes, Pesci G6 pp 250 Alte ap cnsderaao de todos o fre como det inte ngeconiered owe peed av pats abo gue ode, cnsderados indo ostream rode umantrpetago ia ("The hina Sd aw ison produc fam optimal interpretation). Ma, em coteto de alta 195 €8P6C PP. 16651904; tagao dir respeito apenas 20 B-ENTRE HHDRA k HERCULES Esse processo seletivo levou & compreensio, que ja se tornou um lugar comum, de que “a propria norma juridica sé € produzi- la no decurso da solugao do caso”, in ‘0 nico legislador zando-se as atividades legi deer ni alirmando-se que «©, correspondentemente, caracteri- twinte como atividades sso de texto legal e estabelecimento de texto constitucio- -mbora fascinantes essas formulagdes, parece-me que elas podem levar a equivocos. Se afirmarmos que a produgio da nor- ma s6 ocorre no processo concretizador, persistira a questo de firma: “Quem tora dec ide, a competéncia [jurisdic {quem toma decsio co 159)-Em verde apenasabranger a gras, caberia ampliar 9 mbito dessa em geal. Mas Schauer parte de outros pressupos: consideragio”. Da porque ve deve es. Jace’, nao a estou vsando na cept. expresso “allthingconsiderst da disposiio normatva ou mesmo 3 ‘essa coneretizagao, antes de que Plea) que serve de eto deiitivo Mller, F. 1994p. 273, CE Christensen, 1989, p 9. Em o s euldadosoc. Gra 996 pp 605209 990, p. 227. nota 16, Form Cardozo, que se referia 20 lad, bras, 2004 pp. 74s) do é descobert, mas do legis exige a sabedon {tred, bras. p. 84, com erro grave de traducio ao inverter ‘riado"). Cardozo acrescentava: “Nao hd, na verdade, ylucionério ou de novo nessa visio da funcio judicial” (p. 116 [tra negativa:“descoberto, nada de CE-Miller,F, 1994, pp. 264 €270. os MODELOS JA CLASSICOS. 9 se 05 uizes e drgios competentes para a concretizagao normativa de cada solugio de nio estariam subordinados a normas caso, Pode-se cair em um realismo decisionista, se esses modelos no forem tratados com os devidos cuidados e, ew diria, com cer- tas restrigoes. ‘A relagao entre aquele que expede o texto normativo ¢ aquele icional importa a dupla contingéncia”. Em principio, o problema da du. pla contingéncia esta presente na relagao de observacio reciproca entre ego e alter na interacdo, Masa questo da dupla contingéncia rio se restringe a interagao, na qual os polos ego ¢ alter remetem a (embora nao se confandam com) pessoas, tendo em vista que al- , portanto, também a ter¢ ego podem remeter a sistemas soc! dimensées (subsistemas) deles; aqui, a legislacao (ou ao legislati- ‘mariamente juridica. ‘A dupla contingéncia implica que ego conta com a possi dade de que a agio de alter seja diversa daquela que ele projetou génc ‘gio da inseguranga’ mediante a “estabilizacao de expectativas mente o outro fracassaria ine “a tentativa de prever pr velmente”. Isso importa a suposigao mitua de “graus de liber- 2002, pp. 315 [trad esp. 20076, sont, segundo Luhmans (39872, ‘um grupo de Parsons 1968p. 436 ® Luhmann, 19873. pp 48 ss 19876. 148: 200) resquisadores a ele vineulados. Cf. Parsons etl, 1951, P- Lulkmann, 9872, pp. 152 €» 2 Cf Lulhmann, 19872, pp. 168 €185 5 ® Luhmann, 19873 258 Lubmann, 19873, . 256. dade"™ (a agdo de alter pode ser bem diversa da projetada no vi- venciar de ego e vice-versa), que converte o comportamento em asao: "O comportamento torna-se agio no espago de liberdade de outras possibilidades de determinacao.” Disso decorre que a dupla contingéncia envolve uma combinagio de nao identidade e identidade: “Ego vivencia alter como alter ego. Ao mesmo tempo que tem a experiéncia com a ndo identidade das perspectivas, ego vivencia a identidade dessa experiéncia de ambos os lado: 1Na relacao entre legislagao e jurisdigao ou, mais abrangente- mente, entre normatizacio e concretizaca0 normativa, estabele: ce-se inicialmente uma dupla contingéncia como em qualquer rocesso comunicativo. Ao fazer referéncia a0 legislador (nao no sentido subjetivo, pessoal, mas sim institucional), o intérprete-apli- cador atribui-Ihe uma dagao de sentido para o respectivo texto normativo. Isso no significa que essa atribuicao importe que este substitua aquele como produtor da respectiva norma. A sittagio aponta para uma pretensio limitada de estruturar a dupla contin- géncia e determinar 0 contetido de uma comunicagio (0 que é que alter quis dizer?). A mensagem do legislador ou constituinte {alter) carrega um contetido informative que precisa ser compre- endido por ego (juiz), que poderd equivocar-se. Essa alterldade é andloga a todo processo social, inclusive os mais simples do coti- diano: “eu digo que tu disseste isso quando falaste naquela opor- tunidade’: Nesse caso, ego nao esté dizendo que o contetido da fala seja sua. Ele atribui um sentido a fala de alter, conforme o contetido informativo que compreendeu na mensagem. Essa re- lagao de mensagem, informagao e compreensio, insita a qualquer ® Luhmano, 19873, p. 186 Laban, 19870, p. 169, % Lahmant, 19873, p. 172. DOS MODELOS 1A CLASSICOS 11 comunicagao", também se aplica na macroescala dos sistemas sociais. No nosso contexto, isso significa que a imputagio de um contedido ao texto normativo (assim como a um texto literario) nao significa que eu seja autor da respectiva norma (ou livro), 0 da produgdo institu: Nesse sentido, cabe distinguir dois ni cional (inclusive nio organizada no caso dos costumes juridicos) dda norma e a construsao hermeneutica da norma no processo de concretizacio, Supée-se uma dacao de sentido prima facie pelo drgio de producto normativa, que, no processo concretizador, é complementada ow transformada por uma dagio de sentido em cardter definitivo, Mas permanece a alteridade: a construgao her- menéutica (no sentido amplo deste termo) parte da producio institucional da norma, sendo controlada socialmente no decur- so do processamento da dupla contingéncia e, portanto, criticavel como incorreta ou inadequada &s condig6es do presente™ Essas observagdes servem-nos para esclarecer que 0 proble- rma da distingao entre principios e regras (especialmente consti- tucionais) situa-se no plano da argumentagao que se desenvolve no processo concretizador, em que se pretende determinar 0 con- teido de normas a aplicar. Pressupde a questéo do processamen- to seletivo da dupla contingéncia e, especificamente, a confronta do com a ambiguidade e vagueza das disposicdes normativas, ‘com a conexao entre sentidos prima facie ¢ definitivo de normas icos relevantes aos casos a € com 2 interpretagao dos fatos ju serem decididos. Loman, 19854, p 237539872, pp. 199 $85 2002, pp. 292 8 (tad. esp. 2007b, Pp. 306 = Nee sentido, embora com base em outros pressuposts tedrics ¢ com outras impliagbes cf. Bet 980, Pp. 330 12 ENTREMIDRA E MéRCULES 2. Grau de impreci generalidade como principios e regras de distingao entre (0 debate entre principios ¢ regras constitucionais é, em gran: de parte, cativo ao tema classico dos principios gerais do direit. Nessa perspectiva, surge uma multidio de critétios, como o de os principios constituirem “diferentes ideias. fandamentais™ ou, simplesmente, “o fundamento da ordem juridica™, a funcio heuristica dos prine sua importéncia para o ordenamen- ificadora para o sistema juridico entre muitos outros", Nesse contexto, também surge a pre de enumeragao de catélogos de principios (catdlogos de topoi)”. Uma exposigio detalhada desses modelos de critério e de enume- aslo foge a0 presente trabalho, como ja adiantei na introdugao. Ou seja, 0 debate cléssico sobre os chamados principios gerais do direito nao deve ser confundido com a questao da articulagao \s € regras constitucionais. Mas alguns aspectos da discussio clissica sobre principios refluiram persistentemente no tratamento desta questo, merecendo algumas consideragdes. Nesse contexto, tornon-se usual a di demarcacao fragil (diferenca quantita to juridico™, a sua fungao Ingo entre as teses da , dademarcagao forte Engisch, 1983 [1956], pp. 165-6 [trad. bras 1977, pp. 260-1), tratando das con tradigées de prin 1949p. 222 [tad. bras. 2007, p. 270], em releréncas aos rincipios gerals do direito, Em sentido analogo, Bandeira de Mello (2003, p. 817) define p no “mandamento nuclear de um sistema, verdadeico alcerce dele” * Com uma breve mengio a diverss critéros de distingSo entre principios ¢re- i705 ef.Alexy, 1986, pp. 72-5 [trad, bras. 2008, p. 86-90) » Ver, p. ex, Struck, 1971, pp. 20-34. Cf. Eckhoffe Suna bos MODELOS IA CLASSICOS 13 (diferenga qualitativa) e da confusdo ou coincidéncia entre prinei- tar brevemente neste pios e regras™, Os modelos que pretendo item sio enquadrados no campo das teses da demarca¢ao fragil Em primeiro lugar, cabe considerar os modelos que apontam para uma maior imprecisio dos principios em relagio as regras. Esses modelos, muito comumente, estao vinculados & questo do igrau da discricionariedade oferecido pela norma ao interprete- aplicador' A esse respeito, cabem alguns esclarecimentos iniciais. Nio se deve confundir a questio da imprecisio com a ques- ido estrito. A imprecisio se- iva) e vague7a (de- implica, a partir primariamente do significado do texto jva em relagao & tao da discricionariedade em sei mantica, nas formas de ambiguidade (conot e do seu ambito de referéncia, a incerteza cog norma a aplicar. Essa questao est estreitamente vinculada a com. plexidade e contingénciat, a diversidade de expectativas inter- pretativas em relagao a0s textos normativos e is resp ‘mas®. Em sociedades menos complexas,as normas apresentam-se como evidentes*, nao se configurando como relevante a questio Retornareia casa ques »P. ex, Eckhoff e Sundby, 1988 p. 108 raplexidade entendida como presenga permanente de mais possbiidades de ser realzadas;contingéncia com- Ets lestoves podem ser eee das que fs implandn, portant inerrant as expec 2 eve ar cho orem, a ar quests de compleiade econtngnsa no proven commie, ro mio som ca prec semitia (conotae sd ovata detent sponges ow ened note, em formas areal de sociedad nfo se sigue ene norma ¢ felon, pls, procdinento institucional fui Wake 985 pp sas ead. ras 004, so 2 p73: Sener, 1978 Po 6 14-ENTRE HIDRA E HERCULES dla imprecisio das disposigdes normativas. A partir do momento mas também 4 compreensio normat textos legais e const inclui também a diversidade de interpretagdes do caso, conforme compreensdes as mais incongruente dos fatos subjacentes, A discricionariedade em sentido estrito nio deve ser confun- dida com a imprecisio seméntica dos textos normativos e a in- certeza denotativa em torno da norma a aplicar a0 caso, mas sim com o oferecimento, na prépria norma, de alternativas para o 6r- gio encarregado da concretizagao". Nao sendo aqui o local de discutir os tipos de ato discriciondrio, tema debatido de maneira pormenorizada no ambito do admi vo", pode-s, genericamente, distinguir duas formas tipicas de discricionarie- dade (em sentido estrito e rigoroso): a referente ao exercicio do ato, quando a expedigao deste fica a cargo de condi¢des politicas ou de oportunidade e conveniéncia administrativa a serem ava liadas pelo 6rgao; a concernente ao contetido, quando, dada a in- ‘ Habermas, 1982a, vol. 1, pp. 349 €351; vol. pp. 2618: 1982b,p- 135; Luhmann, 1995, P2575 19870, 9.150) “Bsa dstingdo entre pponde, de cela manel Aaplicasso do diceito”e "indeterminagao dite", conforme licas como uma moldura dentro da ppossibilidades de interpretagSo" (1960, pp 348s. [trad bras. 2004, pp. 390 5 ‘A concretizagia juridica¢entendida aqui como um proceso social de communica: es, no qual se supera a dicotomia epstemolégca clissca“subjetivolabjeuvo" em nome da dferenga “sistema/ ambiente” (cf Luhmann, 1987, pp. 25-6) *Cf, entre outros, Bandera de Mello, 2006 pp 9s. os MODELOS 14 CLA: cos 45 cidéncia da norma, 0 érgio competente pode escolher uma das alternativas oferecidas, nas dimensdes material, pessoal, tempo- ral ou territorial. Mas a op¢ao entre as alternativas deixadas pela norma & discri¢ao do érgio competente nao se confunde com a mpreciséo semantica sobre a norma a aplicar. Vale argumentar 0 para que se defina se uma norma abre um espago a di do érgio de aplicacdo nor- impde-se inclusive que seja superado eventual problema de imprecisdo semantica, a fim de saber se ha competéncia dis- cticionéria ow nao; a norma oferece as opgdes a, b € ¢ ou apenas rescreve a aplicagao a, Inclusive se partissemos de um modelo de uma tinica decisio ou interpretacao correta, esta poderia ser a que determinasse o carder discricionério da competéncia atribui- da pela norma. Feitas essa consideragdes, compreende-se que a discussio uantitativa que se delineia na distingao entre regras e principios refere-se ao problema da imprecisio semantica dos textos norma- tivos, na medida em que esta leva a incerteza cognitiva a respeito da norma a aplicar. Nessa vertente, afirma-se que os principios so ‘mais imprecisos do que as regras". Essa posigao nao parece susten- tivel. Tanto no plano legal quanto no plano constitucional, nés en- Hegel, 1986 30. ENTRE HIDRA E HERCULES Hegel. Trata-se, por as de um estado ide, tido de preferéncias assumidas pela respectiva coletividade, mas sim de um desenvolvimento racionalmente determinado. E, se consideramos a identidade da diferenca entre o racional ¢ o real em Hegel, de uma evolugio determinada pela realidade. Nao me parece que um modelo desta n era possa servir para a compreensio da teoria dos principios constitucionais. $6 se adotassemos aqui um historicismo idealista, que pattiria de Principios suprapositivos norteadores do desenvolvimento do di- positivo, Os principios constitucionais sio contingentes, si0 conquistas, invengdes ou construgées do Estado constitucional modemno. Se consideramos, por exemplo, 0 principio da igualda- de, expresso no art. 52, caput, da Constituicio Federal, é manifes. tamente ilus6rio sustentar que ele se apresenta como principio por apontar imediatamente para fins a alcangar. Trata-se de uma norma, uma determinacio contrafactual, que poderd ser mais ou menos socialmente eficaz (0 que vale para qualquer norma, in clusive para as regras). Nesse sentido, assiste raz a Fabio Com- arato, que, distinguindo entre a isonomia (pressuposto da a cago normativa concreta) e a chamada “igualdade materi (meta politico-juridica referente a igualdade de condigdes so-