Sei sulla pagina 1di 4

As Meninas da Tia Laura

Amigo, agradeço sua resposta. Desculpe a pressa, mas estou partindo.


O faço com a carteira vazia e o coração cheio.
Partir é desafiante, mas muito perigoso.
Deixo para trás algumas lembranças.

Lembranças a todas as fogosas meninas da Tia Laura.


Reitero as perguntas que fiz antes
Como estão a Josette e a Joãozinho?
A última dizia ter se apaixonado por mim.
Deram-lhe esse apelido por causa do corte de cabelo, bem curtinho.

Em junho ainda faz frio no Mangue 1?


Quanto ao preço, estou de acordo.
Bem justo, sem mais valia.
Elas mereciam até mais.
E a segurança, continua tranqüila?

Lembra do Jair que num agüentou o “rabo de galo” 2?


Acabamos caindo na “Zona”.
Ficava na Rua Pinto de Azevedo, entre o Estácio e o Mangue.
Também chamada de “a Rua da PE” 3.
O amigo que me desculpe, mas o que te deu pra ter aquela infeliz idéia?
Lembro-me do sufoco que foi atravessá-la: o forte cheiro de urina,
As casas, cortiços e vielas, um cenário degradante.
Só servia mesmo pros récos 4 e pros pobres cabaços 5 como nós.
E num barraco apertado fui ter com uma loura a primeira transa.
E foi daquele jeito, com a dona, pra variar, fumando e lendo jornal!
Mas foi a última lá.

Tempos de sonhos: Bucetinha de Ouro, Bucetinha de Prata, ....6


Tudo muito caro, apenas pra os ricos. Coisa acima de 200 reais, o básico papai-
com-mamãe.
E ainda tinham leões-de-chácara 7 da pesada, podiam te expulsar por coisa
mínima.

Aí alguém, que não o amigo, deu a dica da Tia Laura,


Meninas um pouco melhores e preços mais em conta.
E foi a grande descoberta.
Numa noite, do grupo fomos dois, só pra estudar o clima.
Noite escura, com o mau cheiro do canal que exalava.
A rua era a Av. Presidente Vargas. O número?
Lembro que era cento e alguma coisa.
A porta, bem rente à calçada, só tinha o buraco da fechadura.
Tocamos a campainha e, tempos depois, um cara mal encarado esbravejou:
Quem é?
- A Tia Laura é aqui?, falei meio sem coragem.
- Abriu a porta e disse: Sobe!
Não deu pra contrariar o cara e subimos rápido a longa escadaria de madeira.

1
Aí demos de cara com a dona do estabelecimento. A Tia Laura, que seria a nossa
anfitriã por muitos anos.
Depois de elogiar o estabelecimento, a beleza e jovialidade das meninas, mudou
o tom e atacou:
- Vão tirando a grana, pois aqui o pagamento é adiantado. E nos deu uma ficha
de plástico, do tipo usado na época como passagem nos ônibus.
Era pra entregarmos à moça por nós escolhida.
- Cuidado pra não perder, pois não vou dar outra, avisou Tia Laura. Passem pro
ral!
Agarrei aquela fichinha com tanta força que fiquei dias com a mão marcada.

Aí entramos no tal ral (hall em inglês) e as vimos:


As Meninas da Tia Laura.
Louras, morenas, mulatas, negras, polacas, a maioria jovens, bonitas e bem
provocantes.
E mal deu pra escolher, pois derepentemente elas nos cercaram e começaram a
brigar entre si.
Motivo: ainda estava cedo, 19:00 h, e éramos os únicos “clientes”.
O que queriam mesmo era ficar com a tal ficha que, no final do “expediente”,
valeria dinheiro.
Uma bela morena, num movimento rápido e preciso, pegou a minha ficha e falou
pras outras: esse é meu.

Foi aí que conheci a Joãozinho.


Uma mistura de negra com índia. A pele era brilhosa, cor de chocolate. O cabelo
curto lhe dava mais sensualidade pois deixava ver toda sua longilínea e sensual
nuca. Coxas, bunda e seios fartos, mas no ponto, sem exageros. Rosto suave,
semblante expressivo e de extrema simpatia.
E me levou pro seu quarto, que, como descobri mais tarde, era o melhor de lá.
Uma cama grande, de ferro, colchão macio; uma poltrona estofada, maneira, no
canto. Um armário alto, envernizado, onde guardava suas roupas, sapatos e
bolsa.
Tudo bem ajeitado.
E foi lá que ela me entregou seus tesouros!
Muitas carícias, pegadas e posições pela primeira vez vivenciadas,
E só imaginadas e vistas nas revistinhas do Zéfiro 8
Coração disparando, pele com pele, sem desgrudar.
Senti o dentro dela e ela sentiu o meu dentro dela
Sei que a toquei e beijei toda, não faltou um milímetro sequer.
Conversas como se amantes antigos fôramos,
Confissões e anseios,
Lutava pra dar educação a seu filho,
Queria sair de lá, mas .....
Era pra ficar uma hora, mas ela quis que eu ficasse mais.
Uma das meninas, bateu na porta: a Tia não estava gostando.
E o meu amigo também estava esperando.

Voltei na Tia Laura muitas e muitas vezes,


Ficava quase sempre com a Joãozinho.
Quando estava ocupada, ela é que escolhia outra pra ficar comigo.
Eu não podia.
Mas sempre era uma gostosa como ela.
2
Assim, fiquei conhecido de muitas delas.
Mas a minha preferida era a Joãozinho.

Em geral ia lá depois que saia do cursinho pra faculdade.


Era o Politécnico 9, que ficava no Centro.
Mas, teve dias que não agüentava e ia cedinho pra lá, bem na hora de abrir.
E depois, já na faculdade UFRJ no Fundão 10, não perdia uma semana sem passar
na Tia Laura.

Aí, em 68, teve o AI-5 11 e os meganhas espalharam o terror pela cidade.


À procura de jovens, estudantes como eu, ligados aos movimentos estudantis.
Pra desanuviar, fui procurar as Meninas de Tia Laura.
Triste notícia tive eu de que o local tinha sido fechado por ordem dos milicos, na
verdade todo o Mangue foi fechado.
Pois a TFP (Tradição, Família e Propriedade) 12, à bem dos costumes, assim exigiu.
E a milicada achava que lá poderia ser local pra “esconderijo de comunas”
E toda a região do Mangue, virou um deserto, as doces meninas foram expulsas
de lá.
Da Joãozinho, nunca mais tive notícia.

Por isso, amigo,


Insisto no pedido.
Favor dar notícias dela pra mim e de mim pra ela.
Diga que estou bem, sobrevivi pois segui muitos de seus conselhos,
Aprendi a ser um humano mais otimista, amoroso, amigo e compreensivo.
Mas também diga que ainda tá pra nascer uma chota13 igual à dela.
Um beijo nas demais meninas.

Diógenes, o grego
15/05/2010

Notas:

3
1
Nome da região onde hoje se situa a Cidade Nova no Rio de Janeiro; era uma área entre os bairros do
Estácio, Praça da Bandeira e Central do Brasil.
2
Bebida servida nos bares do Rio de Janeiro, uma mistura de gim ou vodca com cachaça, que, acreditava-se,
dava força sexual aos homens.
3
PE, sigla da Polícia do Exército.
4
Soldado raso, ou o individuo recém entrado no exército, que era obrigado a cortar o cabelo bem curto.
5
Homem que ainda não tinha tido uma relação sexual com mulheres.
6
Dois dos mais famosos bordéis da cidade do Rio de Janeiro
7
Pessoas designadas para fazer a segurança de boates e bordéis
8
Revistas em quadrinhos, com histórias e ilustrações de forte teor erótico, produzidas por Carlos Zéfiro nas
décadas de 50 e 60. Eram lidas por velhos, adultos e jovens, principalmente no Rio de Janeiro.
9
Curso pré-vestibular para a área de Engenharia, localizado nas dependências da antiga Escola de
Engenharia da UFRJ no Largo de São Francisco, Centro do Rio de Janeiro.
10
Ilha do Fundão, onde a Escola de engenharia da UFRJ passou a funcionar.
11
Ato Institucional nº 5 do governo militar, que acabava com as liberdades democráticas no Brasil.
12
Sigla do movimento de extrema direita que significava Tradição, Família e Propriedade
13
Essa eu não preciso explicar, né?