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y). P. Netto © M.C. Brant Carvalho COTIDIANO: Conhecinento ercritica Sedicio 9 lil aovet | SSBF a Sesita $ dois ensaios reunidos neste Or: prefaciado por Michael Lowy, abordam, sob angulos diferentes, a problematica da vida cotidiana. O trabalho de Maria do Carmo Brant Carvalho, depois de definir 0 Ambito da cotidianidade, procura detectar os seus tracos significativos e relacionélos A “revolucio. passi- va" que, segundo a autora, se de- senvolveu nos paises capitalistas avancados apés a Segunda Guerra q gumentagao busca, especialmente, estabelecer as cone xdes entre o cotidiano e a priitica social dos 2 © texto de José Paulo Netto incide no nivel tedrico-metodologi- co: determinando 0s componentes struturais da cotidianidade, 0 autor aponta as categorias que, do seu ponto de vista, permitem fun- dar uma critica radical da vida A tese sustentada € que esta 56 € possivel a partir da critica da economia politica operada com um instrumental dialético. José Paulo Netto Doutor em Servico Social pel: Pontificia Universidade Catélica de Sao Paulo, é professor titular da Escola de Servico Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro e tem larga experiéncia do- COTIDIANO: Conhecimento e critica 0 Registro: 003562 Dados Intornacionais de Catalogagao na Publicagao (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Carvalho, Maria do Carmo Brant de. Flo4y — Cotidiano : eonhecinenty ¢ erfuica Maria do Camo Brande Carvalho, José Paulo Netto, ~ §. ed, ~ Siio Paulo, Cortez, 2000. Bibliogratia ISBN 85-249-0092-X 1. Bscola marxisiade sociologia 2. Fenomenologia existeneial 3. Lukies, Gyorgy, 1885-1971 4. Serviga Social ~ Filosofia L Netto, José Paulo, 1947-11 Titulo, cpp -361.001 -142.7 “142.78 301.092, 71064 -335.438301 indices para catalogo sistematico: bsxisteneialismo: Filosoria 141.0% Fenomenologiaexistencial: Filosofia 142.7 ‘Matxismoe sociologia 335.438301 ‘Servigo Social : Filosofia 361.001 Sociologia matxista 35.438301 Soci6logos: Biografiac obra 301.092 J.P. Netto M.C. Brant de Carvalho Conhecimento e critica Stedigéio CoRTez € wirora COTIDIANO: contecimento e erttiea José Paulo News Maria do Carmo Brant de Carvalho Capa: Carlos Ciémen FRevisdo: Ana Maria Batbosa Composieao: Dany Baditora Lida Coordenagao editorial: Danita A. Q. Morales ‘[racuLpAge my NNeahuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sen utorizagao expressa dos autores & do edi © 1987 by Autores Direites para esta odigaa CORTEZ EDITORA ‘Rua Barra, 317 ~ Perdizes {95009-040.~ Sa0 Paulo ~ SP ‘Tels (0-11) 864-0111 Fux: (0-11) 864-4290 Esmail: cortez @eartezeditora com be Inopess no Brasil ~ abril de 2000 Sumario Nota a 3° edigéio Prefitcio © conhecimento da vida cotidiana: base necessiria A pratica social Maria do Carmo Brant de Carvalho I — Vida cotidiana: 0 centro de atengaio de hoje I — 0 que € a vida cotidiana? I — A vida cotidiana n nosso mundo: algumas questées relevantes aa wae IV — 0 cotidiano é a pritica socia Bibliografia || dos assistentes sociais Para a erftiea da vida cotidiana José Paulo Netto . As determinasGes. fundamenta A postura tedrico-metodolsgii As categorias contrais A critica da vida cotidiana Bibliografia da cotidianidade 13 7 23 31 31 62 64 65 n 6 85 91 Nota a terceira edigao Quando, em prinefpios de 1987, preparamos os ensaios que compoem este pequeno livro, sabiamos que estévamos atcndendo a uma demanda clara entre os assistentes sociais (mas que também existia em outras Areas das ciéncias sociais): a discussio sobre 0 cotidiano ganhava espago € havia pouco material brasileiro incidente sobre a polémica. Neste sentido, cabia inteiramente um volumito enfeixando dois escritos muito diferentes: um texto que derivava de um exercicio académico (o de Brant de Carvalho, inserido numa investigagiio patrocinada pelo CNPq) e outro, que nao se propunha mais que ser um “ensaio de ocasifio” (0 de Netto). Numa palavra, nds pretendiamos tio-somente oferecer wart Conuibuigio conjuntural xo debate que entdy se aden- sava. Compreensivelmente, fomos surpreendidos pela aceita- iio de Cotidiano: conhecimento e critica — de fato, nunca pensamos que haverfamos de ter o prazer de vé-lo em terceira edigdo. A recepgiio que o livrinho continua a ter inaliza muitas coisas — até mesmo 0 equivoco de nossas projegdes sobre o futuro desses escritos —, e talvez, a mais importante seja nao s6 a continuidade da demanda original, mas, especialmente, a exigéncia de uma bibliografia rigorosa © atualizada, Entretanto, nada modificamos nos textos originais: o conjunto sai em terceira edigio sem qualquer alteragao (conservado, inclusive, 0 generoso preficio com que, em 1987, nos obsequiou Michael Lowy), exceto a corregdo de grathas que eseaparam nas edigdes anteriores. Ainda que considerando os avangos nesta area de pesquisa e 0 cres- cimento ponderdvel da bibliografia pertinente, julgamos que modificagdes significativas implicariam a redagio de outros ensaios. E, como todo material posto & prova do juizo Publico, este também tem a sua histéria e as suas limitagdes —e nao cremos de bom alvitre revisi-las, até porque continuamos acreditando na esséneia do que aqui foi ex- plicitado. José Paulo Netto Maria do Carmo Brant de Carvatho Rio de Janeiro/Sio Paulo, janeiro de 1994. Prefacio Maria do Carmo Brant de Carvalho € autora de trabalhos sobre os movimentos sociais urbanos, inspirades por um ponto de vista que rejeita a pretensa neutralidade positivista © toma partido pela auto-organizagao popular. José Paulo Netto € conhecido filésofo marxista ¢ autor, entre outros escritos, de um notével livro sobre capitalismo ¢ reificagao. Vindos de horizontes diversos, mas partilhando uma visio critica da realidade social contemporfnea, eles reuniram, neste inteligente © itil livrinho, dois ensaios sobre a vida cotidiana. A forma ensaio, segundo a bela definigio de Lukiics, na Alma e as Formas, foge & “perfeigio ftia e definitiva” do sistema: forma aberta e inacabada, cla permite entretanto uma “reordenagio inteligivel” da vida. Este € 0 senticlo que tém os dois trabalhos aqui publicades: provocar uma abertura da reflexiio sobre a vida cotidiana, e nao “fechar a questiio” com uma formulagio de tido sistematico Apesar da diversidade entre os dois ensaios, este livro apresenta uma evidente coeréncia, isto resulta do fato que tanto Maria do Carmo quanto José Paulo utilizam 0 mesmo enfoque metodolégico e se ceferem a mesma corrente de pensamento: a tendéneia dialética/revoluciondria dentro do 9 marxismo, inaugurada por Lukécs ¢ continuada por Henri Lefebvre, Lucien Goldmann, Karel Kosik e Agnes Heller. Para o marxismo vulgar — em suas varias versdes: economicismo, materialismo abstrato, semipositivismo “cien- tifico”, cstruturalismo, stalinismo — a vida cotidiana nao aparece como objeto digno de estudo. Impossfvel de en- quadrar no sistema rigido das estruturas, ou no arcabougo esquemético da contradigio entre forgas ¢ relagdes de pro- dugao, cla escapa ao horizonte do diamat e do. histmas Nao € por acaso que a teoria critica que parte de uma visio dialética da totalidade social € a Unica capaz de abordé-la com rigor e profundidade, Os dois ens marxis iOS se referem sobretudo aos escritos fas de Lukécs. Mas mesmo no seu periodo “idealista” ou neo-romantico (antes de 1919) encontramos observagées interessantes sobre o problema da vida cotidiana, Por exem- plo, na Alma e as Formas (1911), no ensaio sobre a metafisica da tragédia, Lukées desenvolve uma fascinante critica ético-social & vida emptrica, que ele define como “uma anarquia do claro-escuro”. Nesta vida habitual (ie. cotidiana) “nada se realiza totalmente, e nada jamais é Jevado a seu temo... Tudo escorre, tudo se mistura sem freius © forma uma aliagem impura; tudo € destruido, tudo € desmantelado, jamais coisa alguma no floresce até a vida verdadeira. Viver & poder viver algo até o fim (ausleben).. A verdadeira vida & sempre irreal, sempre impossivel para a vida empirica. Algo resplandece, brilha como um relaémpago por cima dos caminhos batidos; algo que perturba e seduz, algo de perigoso ¢ surpreendente, 0 0, © grande instante, o milagre (das Wunder)”, (Georg Lukécs, Die Seele und die Formen, Berlin, Luchterhand, 1971, p. 219.) 10 Alguns anos mais tarde, ao escrever Historia e Cons- ciéncia de Classe (1923), Lukécs integra estas intuigdes profundas, mas supera o enfoque demasiado metafisico de seus ensaios de juventude: ele descobre na reificagdo das relagdes entre os individuos o “tipico da vida cotidiana contemporinea” (José Paulo Netto). E a ruptura dialética com a reificagdo cotidiana j4 nao é a espera desesperada do acaso ou do milagre, mas sim a préxis revoluciondria, a agio emancipadora da classe oprimida. Nos seus ultimos escritos, a Estética e a Ontologia do Ser Social, Lukées volta a abordar, sob um Angulo diferente, a questo da vida cotidiana, Analisando estas obras, José Paulo Netto observa que para Lukdcs existem wés formas privilegiadas de objetivagio que permitem suspender a he- terogeneidade da vida cotidiana: 0 trabalho criador, a arte c aciéncia, Esta posi¢do vai inspirar diretamente os trabalhos de Agnes Heller: para a fildsofa hingara, como bem o mostra © estudo de Maria do Carmo Brant de Carvalho, existem quatro formas de suspensao da vida cotidiana, de passagem do meramente singular ao humano genérico: 0 trabalho, a arte, a ciéneia a moral Ora, © que me parece faltar neste tipo de colocagio, tanto no “velho” Lukacs como em Agnes Heller, é preci- samente aquela forma de suspensio do cotidiano, de obje- tivagio social, de passagem do singular a0 genérico, que ocupa 0 lugar central em Histéria ¢ Consciéncia de Classe: a agio coletiva, a praxis libertadora, a transformacio dos explorados em sujeitos histéricos conscientes. Esta agio nao conduz evidentemente & negagdo da cotidianidade — cate- goria insuprimivel da vida social como 0 constata com raziio 0 tiltimo Lukdcs —, mas & sua suspensio durante o momento revoluciondrio, e, sobretudo, a mais longo prazo, u A superagdo da natureza reificada das relagdes sociais co- tidianas. Se consideramos, como José Paulo, que a perspectiva revoluciondria & 0 ponto arquimédico do pensamento mar- xista, €, como Maria do Carmo, que a prética social das classes oprimidas € a que tem a possibilidade de conquistar para 0 conjunto da sociedade um nivel superior de liberdade © realizago humana, ndo podemos deixar de constatar a atualidade das formulagdes de Lukiées em 1923. Estas consideragdes aparcntemente abstratas ¢ “curo~ péias” tm, entretanto, implicagdes evidentes para o Brasil de hoje. A preocupagio com a realidade brasileira é, alids, um dos prineipais fios condutores deste livro... Michael Léwy O Conhecimento da Vida Cotidiana: Base Necessaria 4 Pratica Social* Maria do Carmo Brant de Carvalho ‘0 fildésofo e « filosofia nto podem mats se isolar, nem se nutscarar, nen se esconier. B isso precisamente porque em dltima instincia a vide cotidiana julga a sabedaria, 0 conkecimento ¢ poder” (Lefebvre, £961, D Até um passado recente, poucos pensadores se detinham| a estudar a vida cotidiana: ela era especialmente apresentada por romancistas ou ainda por historiadores enquanto registro de uma dada época histérica, Jé em Marx, a busca do conhecimento sobre a vida cotidiana aparece como preocupagie filoséfiea, pois aele a filosofia toma explicitamente nova diregio: “Os filésofos se limitaram a interpretar 0 mundo diferentemente, cabe trans- formé-lo (Marx, 1978b: 53) Este relaiésio sucinio foi elaborado com dois objetivos: primeizo, submeter a0 CNPq ui sintese dos estudos que, sob seus auspicins, realizamos sobie a vida cotidiana, O scgundo, apresentar um quadro referencial gerador dle questées que motivem alunos e dacentes « pesquisar esta temética de interesse do Programa de P6s-Graduagio em Servigo Social da PU 13 Hoje, as obras artistico-literdrias acumuladas e presentes neste século, os estudos realizados, as legislagSes introdu- zidas, as produgdes de bens e servigos voltados para a vida cotidiana introduziram uma percepgiio ampliada do que se pode compreender como vida cotidiana. A vida cotidiana, esta vida de todos os dias ¢ de todos os homens, é percebida e apresentada diversamente nas suas miiltiplas cores ¢ faces: + a vida dos gestos, relagées ¢ atividades rotineiras de todos os dias; + um mundo de alicnagio; + um espago do banal, da rotina e da mediocridade; * 0 espago privado de cada um, rico em ambivaléncias tragicidades, sonhos, ilusdes; + um modo de existéncia social ficticio/real, abstrato/ conereto, heterogéneo/homogéneo, fragmentirio/hierarquico, » a possibilidade ilimitada de consumo sempre renovavel; + 0 micromundo social que contém ameagas ¢, portanto, carente de controle € programagao politica ¢ econdmica; + um espago de resisténeia e possibilidade transform: dora. A vida cotidiana € também vista como um espago onde 0 acaso, o inesperado, 0 prazer profundo de repente descoberto num dia qualquer, eleva os homens dessa coti- dianidade, retornando a ela de forma modificad: E um palco possivel de insurrei vessam informagées, buscas, transformagio. . jf que nele atra- trocas, que fermentam sua Todos os estudos sobre a vida cotidiana indicam a complexidade, contraditoriedade e ambigiidade de seu con- teido, E © que € mais importante, a vida de todos os dias no pode ser recusada ou negada como fonte de conhecimento © pratica social E nesta relagio — priitica social e vida cotidiana — que esté a origem motivacional de nosso estudo. Nossa pritica social, como assistentes sociais, se faz com e na vida de todos os dias dos grupos sociais oprimidos. Este estudo buscou apoio teérico especialmente em Henri Lefebvre e Agnes Heller, embora outros pensadores (ver Bibliografia) tenham merecido certa ateng%o enquanto atualizagdo do tema, Os estudos de Henri Lefebvre © Agnes Heller sio de riqueza e avango ainda nao ultrapassados Esta reflexo contém uma sfntese dos elementos que comportam esta totalidade chamada vida cotidiana em relagao a totalidade mais ampla: 0 mundo moderno capitalista. Na primeira parte, buseamos ressaltar a vida cotidiana como fonte permanente de investigagao e estudo ndo sé para intelectuais que aspiram a compreendé-la e retird-la da obscuridade, mas igualmente para o Estado para as forgas produtivas capitalistas que aspiram a programd-la, controli-la e melhor aproveité-la para seus fins. Na segunda parte, buscamos falar da vida cotidiana em si mesma: o que é vida cotidiana. Nossa intengio foi a de apresentar, de forma didéitica, caracteristicas & contetidos da vida cotidiana, valendo-nos_ particularmente dos estudos realizados por Agnes Heller. Na terceira parte elegemos algumas teméticas impor- contidas na relagio entre 9 mundo do cotidiano & © mundo mais amplo da modernidade. 15 Por fim, na quarta parte, muitas quesides referentes 2 intervengdo dos profissionais na vida cotidiana dos grupos sociais oprimidos. A. seqiiéncia adotada traz uma reflexio em espiral, onde afirmagdes ja colocadas sfio retomadas em novas dimensGes. introduzimos algumas das I Vida Cotidiana: o Centro de Atencio de Hoje Antes, parecia que somente os poetas, pintores, teatré- logos e romancistas buscavam captar, expressar ou denunciar a vida cotidiana; ou, entdo, jornalistas interessados em relatar algumas das banalidades, tragicidades ou situages cémicas (quando vistas do exterior) que atravessam a cotidianidade, Mas no € verdade. A vida cotidiana, faz algum tempo, € sobretudo o centro de ateng%io do Estado € da produgio capitalista de bens de consumo. Conforme Henri Lefebvre (1981: 126), 0 Estado mo- demo gere © cotidiano seja directa ow indiretamente, Dire~ tamente pelos regulamentos e leis, pelas proibig6es ou intervengdes mdltiplas, pela fiscalizagdo, pelos aparelhos da Justiga, pela orientagao da midia, pelo controle das infor- magdes ete O que que escapa ao Estado? © insignificante, as mi- dsculas devises nas quais se encontra € experimenta a Tiberdade (.), Se é verdadeiro que o Estado deixa fora apenas o insignificante, 6 igualmente verdadeiro que © edilfcio politico-burocrético sempre 7 tem fissuras, vdos e intervalos, De um lado, a atividade adminis- lativa se dedica a tapar esses buracos, deixando cada vez menos esperanga e possibilidades ao que podemos chamar de liberdade intersticial. De outro lado, o individuo procura alargar estas fissuras © pasar pelos vaios” (Lefebvre, 1981, Il: 126-7). Para Lefebvre, as relagdes sociais de dominagao e a reprodugio destas relagdes conquistaram, ao curso de grandes conflitos © acontecimentos, a prioridade sobre as relages de produgio que elas implicam e, & sua maneira, as contém. E assim que o Estado moderno assume o papel de gestor da sociedade. Esta gestio repousa sobre o cotidiano, tem por base a cotidianidade (Lefebvre, 1981, TMI: 122). Para @ produgdo capitalista de bens de consumo, também, © cotidiano.é um centro de atenco, uma base de rentabilidade econémica inesgotavel. ‘Técnicas publicitérias, as mais sofisticadas, introduzem na vida cotidiana fabuloso progresso das méquinas © utensilios domésticos, capazes de transformar radicalmente a paisagem da vida cotidiana, seja dos ricos, seja dos pobres. Através dos meios de comunicagio, tais miaquinas e utensilios (a televisdo, © aparelho de som, o forno de microondas, o videocassete, 0 microcomputador, o automével, os instruments de “bricolagem”, os cremes de’ beleza, os congelados, etc...) se apresentam como sedugdo permanente 20 prético, ao pragmitico, ao magico, ilusério, Consumi-los tora-se imperativo da era tecnolégica moderna € condicionante ao chamado homem atual As méquinas adentram também os espagos coletivos (pragas, estagSes de metré, instituigdes, empresas, etc...), substituindo os pequenos vendedores de sanduiche, café, cigarro, chocolate, et A maquina vende estes © outros produtos, eliminando nfo sé a mao-de-obra humana, mas igualmente muitas das rotineiras relagéies humanas face a face, de todos os dias. A sedugao agressiva dos meios publicitérios (e 0 crédito colocado & disposigdo...) quebram todos os obstéculos ao mais consumir, 0 que permite introduzir “estes fantasticos © ilusérios bens de consumo” a qualquer individuo de qualquer classe sovial em qualquer condigiio. “G..) um grande niimero de casais trabalhadores tem uma maquina de lavar, uma televisio, um carro, Mas os interessados. tem. geralmente sacrificado odtra coisa a este equipamenta, por exemplo: a vinda de uma crianga (..)” (Lefebvre, 1, 1961: 16). Nao s6 se introduziram utensilios e maquinas de uso cotidiano, mas também os conselhos € receitas, como mer- cadorias altamente luerativas, Estas vaio desde a arte de limpar e decorar o lar, cozinhar, medicar, até 0 nivel da manipulagio dos sonhos © das Fantasias. Receitas inspiradas na vulgarizagiio da ciéneia, na astrologia, na clarividéncia, divindades espirituais as mais divers na natureza, na Toda receita pode ser encontrada no mercado para “curar” qualquer mal existencial ou material do cotidiano. © corpo, por exemplo, a partir de sua mais refinada exploragao comercial, é seduzido por uma rede de produtos altamente sofisticados, desde os estéticos até os sensuais © créticos, acompanhados sempre de receitas, exper azes de atender todas as buscas de satisfagio e Vista sob um certo dngulo, a vida cotidiana é em si © espago modelado (pelo Estado € pela produgdo capitalista) para erigir o homem em robo: um rob6 capaz de consumismo décil e voraz, de eficiéneia produtiva e que abdicou de sua condigiio de sujeito, cidad E assim que a vida cotidiana é, para o Estado ¢ para as forgas capitalistas, fonte de explorago e espago a ser controlado, organizado e programado. Nesse processo getenciador © controlador, as classes médias foram instituidas como ponto de apoio e mediagio. No mundo modermo, elas sio © vefeulo através do qual se expande e se homogeneiza um modo de vida cotidiano, A moda que elas trazem, intitulada muitas vezes como revolugiio cultural, nada mais é, na maioria das vezes, que um reformi arregado de ilusio e reforgador do consumismo alienante. Foi nas tiltimas décadas que filésofos e cientistas sociais passaram a tomar a vida cotidiana como objeto importante de investigagao e reflexao, Ao estudar esta vida cotidiana muitos deles buscam apreendé-la em sua totalidade. Alguns chegam 14, Outros perdem no discurso fragmentirio das ciéncias sociais. Assim, a alguns 0 cotidiano parece como restrito a fendmenos microssociais opostos ao macrossocial, sindnimo de global € universal. Outros se limitam a contesté-la e a recusé-la. Como constata Lefebvre, na maioria dos estudos sobre © cotidiano a questio polit existisse; 0 pragmatismo os contagia (Lefebvre, 1981, IL 10). Ou, ainda, uma certa paixdo otimista e cotidiano nega qualquer possibilidade de analis "a nao aparece, como se no nica sobre 0 © critica, © quadro assim apontado indica a importincia de dar continuidade e avangar nos estudos sobre a vida cotidiana, ‘As investigag&es existentes que buscaram apreendé-la em sua totalidade ainda no esgotaram toda a gama de questées que ela suscita. 20 FACULDADE MUNDO MODERNG Biblioteca A partir dos estudos de Lefebvre ¢ possivel inferir que, para apreender a vida cotidiana, trés perspectivas con- vergentes devem ser consideradas. A primeira delas diz respeito 4 busca do real e da realidade. Nessa busca, & preciso ter claro que a vida cotidiana compreende 0 dado sensfvel © pritico, o vivido, a subjetividade fugitiva, as emogées, os afetos, hibitos e comportamentos, ¢ 0 dado abstrato, isto é, as representagdes © imagens que fazem parte do real cotidiano, sem, no entanto, perder-se no imaginario (Lefebvre, 1981, UL: 11). A segunda perspectiva diz respeito A totalidade, Con- forme Lukées, somente no contexto "que integra os diferentes fatos da vida social (enquanto elementos do devir histérico) numa totalidade, se torna possivel o conhecimento dos fatos como conhecimento da realidade”. As partes encontram no todo © seu conceito ¢ a sua verdade. O todo nao é a soma das partes (Lukdcs, 1974: 23-4). Fi preciso também lembrar que a totalidade esta sempre em processo de estruturagio c desestruturagao, Ela é histérica. Assim, & preciso captar o seu movimento e a sua diregio enquanto devir histérico. Como diz Lefebvre, 0 conceito de cotidiano é global, “ele se refere © questiona a tolalidade no curso de scu desenvolvimento”. Querer buscd-lo e defini-lo em sua escala aparente — as microdecisdes, os microefeitos — € deixé-lo fugir; querer buscar 0 global sem ele é também deixar fugir a totalidade (Lefebvre, 1981, Il: 162). A terceira perspectiva diz respeito ds possibilidades da vida cotidiana enquanto motora de transformagées globais. A vida cotidiana tem se insinuado como um dos centros 21 motores das atuais possibilidades de transformagio da so- ciedade. A raiz desta intuigao esté no fato de que nao sao as relagdes de produgio, mas sim as relagdes socials de dominagio © poder que (¢m sua primazia na_modernidade. Sendo assim, um dos focos estratégicos da praxis revolu- cionaria teré que ser 0 cotidiano vivido pelas classes e grupos sociais oprimides. i O que é a Vida Cotidiana? A vida cotidiana € aquela vida dos mesmos gestos ritos e ritmos de todos os dias: é levantar nas horas certas, dar conta das atividades caseiras, ir para o trabalho, para a escola, para a igreja, cuidar das criangas, fazer 0 café da manhé, fumar 0 cigarro, almogar, jantar, (omar a cerveja, a pinga ou o vinho, ver televisiio, praticar um esporte de sempre, ler o jornal, sair para um “papo” de sempre, etc Nessas atividades, & mais 0 gesto meciinico ¢ automatizado que as dirige que a consciéncia. Mesmo os sonhos ¢ desejos construidos dia a dia, no silencio € no devaneio, no representam um ato de cons ciéncia, © jogo dos sonhos © atividades rotineiras produz in- satisfagSes, angéstias, opressio, mas também seguranca. Raras sdo as pessoas que nfo se deixam intoxicar por esse cotidiano. Raras sao as pessoas que 0 rompem ou o suspendem, concentrando todas as suas forgas em atividades que as clevem deste mesmo cotidiano e Ihes permitam a sensagio © a consciéncia do ser homem total, em plena relacdio com o humano e a humanidade de seu tempo. 23 Para cxplicitar 0 cotidiano, vamos tazer aqui © pen- samento de Agnes Heller. O cotidiano é a vida de todos os dias e de todos os homens em qualquer época histérica que possamos analisar Nao existe vida humana sem o cotidiano © a cotidia- nidade, O cotidiano esté presente em todas as esferas de vida do individuo, seja no trabalho, na vida familiar, n as relagdes sociais, lazer, ete. © cotidiano e a cotidianidade existem, penetram eter- namente em todas as esferas da vida do homem. A histéria ¢ 9 progtesso transformam continuamente sua paisagem, mas nfo o exterminam. Em cada época histérica os ritmos e as regularidades da vida cotidiana se distinguem, se tornam. diferencidveis. A vivéncia e experiéncia da cotidianidade também € dife- rencidvel segundo os grupos ou classes soviais a que os individuos pertencem e em cada modelo societario existente. “A vida cotidiana 6 @ vida do homem inteiro; ov seja, 0 homem participa na vida cotidiana com todos 08 espectos de sua individualidade, de sua personalidade, Nela colocam-se ‘em funcionamento’ todos os seus sentidos, ody ay suas capacidudes imetectuais, suas habllidades manipu- Jativas, seus sentimentos, paixbes, idéias, ideologias, © fato de que: tod: icidades se coloquem em funcionamento determina também, naturalmente, que nenhuma detas possa realizar-se, nem de longe, em toda sus intensidade” (Heller, 1972: 17), Na cotidianidade, o homem se pe numa superficialidade fluida, ativa e receptiva que mobiliza sua atengio. Joga nela todas as suas forgas, mas nao toda a sua forga.* ¥ Vor artigo de José Paula Netto neste volume, 24 “0 homem nasce jd inserido em sua cotdianidade, © ama- durecimento do homem significa, em qualquer sociedad, que 0 individuo adquire todas as habilidades imprescindfveis para a vida cotidiana da sociedade (canada social) em questéo B aduito quem é caper de viver por si mesmo a sun cotiianigade” (Heller, 1972: 18) A vida cotidiana € heterogénea © também hierdrquica Isto 6, a vida cotidiana € caracterizada por um conjunto de ages € relagdes heterogéneas que contém em seu bojo uma certa hierarquia. Esta niio é rigida nem imutivel, como diz Agnes Heller. Bla se altera seja em fungao dos valores de uma dada época hist6rica, seja em fungio das particularidades € interesses de cada individuo e nas diferentes tapas de sua vida, Por exemplo, até pouco tempo, nés_vivfamos num século em que o trabalho humano tinha valor, determinando hierarquicamente a sua primazia na heterogénea vida coti- diana, Esta ordem hierarguica garante a organicidade da vida cotidiana e “esse funcionamento rotineiro da hierarquia espontinea & igualmente necessirio para que as esferas heterogéneas se mantenham em movimento simulténeo” (Heller, 1972: 18). bsta_heterogeneidade hicrarquizada — em movimento — da vida cotidiana introduz uma certa sucesso linear de gestos, atos € atividades repetitivas no dia-a-dia. A rotina, caracteristica da cotidianidade, é feita exatamente desta sucessiio linear repetitiva. E caracteristica igualmente da vida cotidiana a sua imediaticidade e€ © pensamento manipulador. No plano da cotidianidade o Util é o verdadeiro, porque € este o critério de eficdcia, O critério de validez no cotidiano é o da funcionalidade. A esfera do cotidiano é uma esfera precisa; & a esfera do homem conereto. A objetivag%io que se passa no cotidiano € aquela em que 0 homem faz do mundo o seu ambiente imediato. A vida cotidiana € © conjunto de atividades que ca- racteriza a reprodugdo dos homens singulares que, por seu tumo, eriam a possibilidade da reprodugiio social. Isso significa que, na vida cotidiana, 0 individuo se reproduz diretamente enquanto individuo e reproduz indire- tamente a totalidade social. Toda a reprodugio que ultrapassa o imediato na vida cotidiana deixa de ser cotidiana. Na vida cotidiana © homem aprende as relagbes sociais teproduz, enquanto instrumento de sobrevivéncia, Mas o homem nilo é s6 sobrevivéncia, s6 singularidade, © homem é, ao mesmo tempo, singular e genérico. Apenas, na vida cotidiana, este ser genérico, co-participante do coletive, da humanidade, se encontra em poténcia, nem sempre realizavel. Na vida cotidiana s6 se percebe o singular. “O indivfduo (a individualidade) contém tanto a particula- ridade quanto 0 homem genético que funciona consciente e incunse ene nu homem (...). © desenvolvimento do individlue € antes de mais nada, mas de nenhum modo exclusivamente, fungio de sua liberdade fétiea ou, de suas possibilidades de liberdade, A explicitagdo dessas possibilidades de liberdade origina, em maior ou menor medida, a unidade do individuo, a ‘alianga’ de particularidade e genericidade para produzir ums individualidade unitaria Quanto mais unitéria for essa individualidade (pois essa bunidade, naturalmente, € apenas tendéncia, mais ou menos con: ciente), tanto mais rapidamente deixa de ser aquela muda vt 26 vital do genético e do particular a forma earacteristica da inteira vide” (Heller, 1972: 23), Na vida dos individuos é um fato excepcional a elevagao do individuo ao género; a esmagadora maioria dos homens nfio realiza essa experiéncia, Nao chega A consciéncia, “mantém-se muda unidade vital de particularidade € gene- ricidade”, Este fato deixa de ser excepcional quando hé situagées hist6ricas excepcionais; mesmo aqui, esta possibi lidade atinge. poucos. ‘Também “os choques entre particularidade © generici dade no costumam tornar-se conscientes na vida cotidiana; ambas submetem-se sucessivamente uma a outra do aludido modo, ou seja mudamente” (Heller, 1972: 23). A grande questo passa a ser a passagem do homem inteiro (muda relag%o de sua particularidade e genericidade) para o inteiramente homem (unidade consciente do particular © do genérico). Esta passagem ocorre, como diz Agnes Heller, quando se rompe com a cotidianidade; quando um projeto, uma obra ou um ideal convoca a inteireza de nossas forgas ¢ entdo suprime a heterogeneidade. Ha nesse momento uma objetivagilo, A homogeneizagiio é a mediagio necesséria para suspender a cotidianidade. Este processo de homogeneizagaia 84 acorre quande o individuo concentra toda sua energia © a utiliza numa atividade humana genérica que escolhe consciente ¢ auto- nomamente (Heller, 1972: 27) ‘A intensidade de uma grande paixao, um grande amor, © trabalho livre e prazeroso, uma intensa motivagio do homem pelo humano genérico resultam na suspenstio do cotidiano. Ha, segundo Agnes Heller, quatro formas de suspensdo da vida cotidiana, de passagem do meramente singular ao 2 humano genérico. clas: 0 trabalho, a arte, « ciéncia & a moral. Esta suspensiio da vida cotidiana nado é fuga: é um cireuito, porque se sai dela e se retorna a ela de forma modificada. A medida que estas suspensdes se tornam freqiientes, reapropriagiio do ser genérico é mais profunda © a percepgiio do cotidiano fica mais cnriquecida. Nesta suspenstio, a singularidade se conhece como participe da universalidade (lotalidade), O individuo sente, mesmo que temporariamente, a plenitude existencial, a ple- nitude de comunhio consigo préprio, com os homens ¢ com 0 mundo. Esta susper nitude obtida permite ganhos de consciéncia e pos de tansformagio do cotidiano singular € coletivo. io & temporaria, mas a apreensio de ple- ibilidade “A vida cotidiana nfo esti ‘fora’ da histéria, mas no ‘centro’ do acontecer hist6rico: & a verdadeira ‘esséncia’ da substancia social. Nesse sentido, Cincinato € um simbolo. As grandes ages niio-cotidianas que so contadas nos livros de tistéria partem di vida cotidiana © a ela retornam, Toda grande faganha histérica concreta (orn-se particular e histériea precisamente gragas a seu posterior efeito na cotidianidade. O gue assimila a cotidianidade de sua épaca assimil cembora tal assimilagiio possa nfo ser consciente, mas apenas ‘em, si" (Heller, 1972: 20). tamhdm, cam isso, 0 passado da humanidade, A substincia social de que fala A, Heller sio os homens, pois estes silo os “portadores da objetividade social”, so eles que constroem uma dada estrutura social e a tansmitem. Sao eles, enfim, os motores e depositirios da “infinitude extensiva das rela Ora, este movimento da substineia que contém “néo apenas 0 essencial, mas também a continuidade de toda a 28 heterogénea estrutura social” ¢ 2 “continuidade de valores”, chama-se histér Assim, a histéria é a substdncia da sociedade (Heller, 1972: 20). A continuidade dos valores € questiio fundamental nos estudos de A. Heller: é a presenga deles que determina um modo de vida cotidiana favorecedor, em maior ou menor intensidade, da esséncia humana. Agnes Heller cita os cinco atributos (a partir de Marx) que definem essa esséncia humana: 9 trabalho, a sovialidade, a universalidade, a consciéncia ¢ a liberdade. Estes atributos encentram-se em poténcia, podendo ou nfo se converterem em realidade. Sti possibilidades © valor € tudo aquilo que favorece o desenvolvimento dessa esséneia humana, Os valores néio desparecem da sociedade, Eles existem, mas podem estar abafados uns em relagdo a outros. O valor ¢ fundamental para entender a histéria como espago de emergéncia do género. A vida cotidiana, portanto, se insere na histéria, se modifica © modifica as relagdes sociais. Mas a direedo destas modificagées depende esiritamente da consciéncia que os homens portam de sua “esséncia” e dos valores presentes ou néo ao seu desenvolvimento. 29 FACULDADE MUNDO MODERNO Biblioteca iT A Vida Cotidiana em Nosso Mundo: Algumas Questées Relevantes 1. A revolugdo passiva do pés-guerra — Ao se estudar a vida cotidiana na modernidade € impossivel deixar de la num contexto mais amplo: a sociedade Capitalista wera dos paises desenvolvidos, A primeira metade do nosso século assistiv a uma virada significativa das estruturas sociais, dos processos de acumulagio capitalista, das estruturas i dominag Como diz Christine Buci-Ghicksmann, operou-se uma, revolugdy passiva, uv sentido dado a cla por Grams As crises prGprias ao proceso de acumulagio capitalista, 0s constantes enfrentamentos da burguesia com um prole- tariado consciente de sua exploragio © opressiio e, mais particularmente, 0 contexto politico mundial pés-29 permitem siva” da classe dominante uma retomada revoluciondria “pa capitalista (0) através da noglio de revolugio passiva como nova tendéncia imanente ao modo de produgtio cupitalista, Gramsci aborda as suidas possiveis, € nig Unieas, de uma erise. Em periodo de crise 31 i has (clay mais forles Glordismo @ americanismo}, 0 capitalismo pode se reesirulurar aproveitando-se tanto da prépria erise do movimento operirio, agindo sobre o proletariada em todos os niveis, da divisio do trabalho ao Bstado. A classe dominante, para continuar a dirigir © dominar, torna-se ‘revolucionéria’: ela revoluciona suas préprias bases materiais ¢ politicas, oferecendo jas outras classes uma nova perspectiva” (Buci-Glucksmann & Therborn, 1981: 141), O consentimento das classes trabalhadoras a esta re- volugio passiva sem diivida se deu, de infeio, porque, de carta maneira, estas mesmas classes renunciaram a buscar outros modelos de sociedade alternativa face aos horrores do faseismo ¢ do stalinismo ¢ & possibilidade de um paeto com a sociedade capitalista, Reportando-se ainda a reflexdo realizada por Christine Buci-Glucksmann, a revolugiio passiva contém uma soma de contradigées nao-resolvidas: uma revolugdo passiva que opera pela neutralizagao de toda iniciativa popular real, minando a explosiio ou generalizagho das autonomias de classe por um reformismo moderado, Este reformismo mo- derado se traduz na satisfagiio de reivindicagées, mas em pequenas doses, legalmente, de maneira reformista, apoian- do-se no Estado e resolvendo através do Estado as tarefas historicas e progressivas de uma classe (Buci-Glucksmann & Therborn, 1981: 139).* por isso que, para Gramsci, a revolugiio passiva sugere 08 primeiros delineamentos de uma teoria da subalternidade social © politica que excede 0 campo classista da exploragéo de classe © Somente os pafses capitalists desenyolvides” (Buci-Glueksmann & Therborn, 1981 145), * B importante assinalar gue Gramsci e Lefebvre, embora partindes de Juma mesma fonte — Macx —, pensam o Estado com algumoas diferengas. Para © presemte estudo, no entanto, estas diferengas nao so relevantes. 32 Para melhor compreender esta questio vale a pena descrever as caracterfsticas dessa revolugio passiva, ainda que sumariamente, através de alguns de seus principais dicadores: + a cvolugio de um capitalismo individualista, selvagem, deixado as suas préprias forgas, para um capitalismo pla- nificado, tansnacional, monopolista; + a generalizagiio © mundial clo do assalariado; + a forte expansdio das fungées do Estado. O Estado assume as fungdes de mediagao entre capital ¢ trabalho, intervindo tanto na racionalizagao e planificagio econdmica quanto na protegdo social © no jogo e dizegdo das relagdes sociais. Em outras palavras, 0 Estado se torna presente como sujeito econdmico ¢ sujeito socializante; + a introdugio de um pacto social com classes trabalhadoras, corolirio de pressdes © conflitos nao-contro- ldveis sem negociagées efetivas. Deste pacto resulta a ex- pansiio e fortalecimento do chamado Estado-Providénci que assume progressivamente as fungdes de reprodugao da forga de trabalho (educaciio, saiide, etc.), produz maior eqiiidade social, expande a demanda de consumo de bens roduzidos pelo sistema capitalista, assim como processa a difusdo uniformizante de um consumo de massa. Deste pacto resultou também a introdugdo de uma praxis politica democrata, duradoura ¢ extensiva (em maior ou menor grau), em todos os paises capitalistas desenvolvidos; * as relagdes de dominagio © poder tomam uma forma corporativista, funcional, triangular (sindicatos, Estado, bur- guesia monopolista), tendo o Estado como figurante mediador principal. Ao corporativizar ¢ institucionalizar a presenga € participagio das classes através de suas organizagdes ¢ liderangas, se alteram as condigdes mesmas da pratica politica © as formas que tomam ay relagies sociais de dominagao. 33