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Arquivos Brasikires de Psicologia, v. 61, n. 3, 2008. ARTIGO Proust-Deleuz ado da arte do aprendizado da vida ao apren Proust-Deleuze: From the Learning of Life to the Learning of Art Regina Orgler Sordi ‘Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil Endereco para correspondéncia RESUMO O presente artigo visa contribuir para a compreenséo da aprendizagem humana por meios das visdes literdria e filoséfica de Marcel Proust e de Gilles Deleuze, Do romance, escrito pelo primeiro, e da andlise filoséfica, empreendida pele segundo, surge uma compreensio da aprendizagem, que supera as, ‘concepsées tradicionais, comumente voltadas para a aprendizagem da ciancia. Se, para exza visSo, a Inteligencia tem precedéncia para a aquisicgo do conhecimento, para a aprendizagem da arte, 2 precedéncia ests no acaso ounaquilo que forca a pensar. Carinhamos da razdo para a sensiblidade, da ‘sensibilidade ao signo, da recogniso 3 decifracio, da verdade da vida 4 verdade da arte, da existéncia § ‘esséncia. So apresentados e discutidos os pasos para 2 aprendizagem do artista, tal como Deleuze realizou em sualeitura © andlise da obra de Proust. Palavras-chav prendizagern; Signos: Vida; Arte; Esséncia, ABSTRACT “This article aims to contribute to the understanding of human learning through the literary and philosophical visions of Marcel Proust and Gilles Deleuze. From the romance written by the former and from the philosophical analysis made by the last, it emerges an understanding of learning that ‘overcomes the traditional conceptions w hich describe the apprenticeship of science. If, for this vision, ‘the intelligence has a precedence for the acquirement of know ledge, for the apprenticeship of art, the precedence is on the incidental, on w hat forces to think. We move from sense to sensibility, from ‘sensibility to sign, from recognition to deciphering, from the truth of life to the truth of art, from existence to essence, There are presented and discussed the steps for achieving the apprenticeship of ‘the artist, carried through Deleuze’s reading and interpretation of Proust's » ork. Keywords: Learning; Signs: Life; Art; Essence, Retirado do World Wide Web hetp://n1w»-psicologia.ufy.br/abp/ 2 Arquivos Brasikiros de Psicologia, v. 61, n. 3, 2008. INTRODUGAO (© campo da aprendizagem humana é miltiplo e complexe, podende, por vezes, ser comparado a um caleldoscépio em permanente movimento, no qual a5 combinacées de espelhos e cores formam sempre ovas e surpreendentes configuracées. Por vazes, pensamos que todas as corrbinacées j foram reaizadas, mas ainda assim, movides pela curiosidade, arriscamos mais urn movimento surpreendemo-nos com uma nova composiso que subverte toda a ordem anterior. Onde antes predeminava um amarelo brilhante, com alguns tons avermelhados a0 fundo, agora irradia-se um Vermelho formade de pesas pontiagudas, que mal deixam revelar, em suas extremidades, 0 amarelo brithante que antes quase recobria 0 todo. Foi com essa mesma surpresa e fascinaco que, na busca por novas compreenstes sobre a ‘aprendizagem, encontramo-nos com 0 fldsofo Gilles Deleuze (2006), dissertando sobre a monumental obra de Marcel Proust ~ Em busca do tempo perdido (19832) -, expondo o aprendizado de um homer de letras. As nocdes sobre a aprendizagem, até entio prioritariamente estudadas pelas teorias, psicolégicas e em interlocuso com outras reas do conhecimento, foram abrindo o espaco para um fencontro inusitado entre a Filosofia e a Literatura, 20 mesmo tempo em que as pesas coloridas do caleldoscépio retaram gradativamente para fora do eixo central da imagem, espalhando-se per todos os lados, dando passagem a zonas obscuras e imagens enigensticas. Sobretudo, renovourse o olhar do pesquisader. Este artigo tem por objetivo expor o significado de aprendizagem, na perspectiva de Deleuze @ Proust, cujas compreensdes divergem das concepsdes mais consagradas © que, com fraquancia, consideram Inteligéncia como uma condi¢go sine gua non para o aprender. Visa igualmente aprofundar o significado dda célebre frace de Deleuze (2006, p. 48): "A arte & 0 destino inconsciente do aprendis", ara aqueles entre nés, dedicados a estudar o carinho percorrido por todo ser humano para construir 0 ‘conhecimenta capaz de organizar e simbolizar o mundo, o tema da inteligéncia sempre ocupou um lugar de protagonismo. Por um lado, a Episterologia Genética e, por outro, as fecundas teorizacdes atticulando conhecimento e afetividade, conceituaram a inteligéncia como a capacidade de adaptar-se 20 ‘undo e solucionar problemas. Piaget (1973) definiu a inteliggncia como urn funcionamento que precede e engendra a légica construtora do mundo, sendo concebida come atttalidade das estruturas ‘mentais que o organismo tern & disposiga ern determinado periodo do desenvolvimento e que tern por fungdo essencial extruturar o universe. A énface recai, neste dominio, sobre a concepsao de uma Inteligéncia que precede @ engendra, ou seja, sempre ver antes e & indissocidvel da construso do pensamento, Este, por sua vez, €0 conhecimento valid, participe da tradisdo da ciéncia moderna, inaugurada por Galileu no século XVIL, operando por leis gerais e sermpre na busca de maior racionalidade. Mas é tambérn um conhecimente aceito e explicado pela Filosofia, que orienta 2 andlise filosdfica do que significa "pensar" De acordo comm Deleuze (1988), trata-se de uma Filosofia que supe o pensamnento como sendo naturalmente rato, formade por faculdades concordantes, fundada no cujeito pensante - ergo logo sum We ze exercendo sobre 0 objeto qualquer sab a forma do Mesmo, £ 0 Mesmo que precisa ser representado pelo sujeito pensante, pois alei jd esta conhecida antes mesmo de aplicé-la, Deleuze critica a utlizargo ou 0 elogio da generalizacdo, que é da ordem das leis, uma vez que estas sé determinam a semelhanga dos sujeitos que esto a elas submetidos e a sua equivaléncia aos termos que designa. A ideia filosdfica apresentada por Proust, come mote da Recherche du temps perdu, é a de que o ensamento depende de um encontro com alguma coisa que forca a pensar, a procurar © que & Verdadeiro. F essa "alguma coisa’ no é dada pela inteligencia, que sempre ver depois. Pelo caminho de faculdades divergentes, am que cada uma descobre uma paixo que Ihe prdpria, conclui que somante a arte, na sua poténcia de atormentar, interrogar vitalmente, é que compele & busca da verdade. A precedéncia jd no se encontra mais na inteligéncia, mas na prépria coaco ou no acaso. Se, para a ciéncia moderna, a verdade sé pode ser buscada a partir do carrinho légico, tracado pelos itames da prépria ciéncia, para Proust, a verdade cientfica pode ser apenas considerada légica, mas no necessariamente correta, Em 0 tempo redescoberto (13836), diz que esta é tributdria da Inteligéncia, enquanto que a primeira pertence a um livre carregade de caracteres figurades, no Retirado do World Wide Web hetp://n1w»-psicologia.ufy.br/abp/ 3 Arquivos Brasikiros de Psicologia, v. 61, n. 3, 2008. ‘tragados por nés, que antes de serem compreendidos pela légica, precisam sofrer a coaro do encontro para serem decfrados. £ € esse livre de caracteres figurados que Ihe interessa, pois ele é que “dé que pensar (© caminho proposto, entéo, é o de que no poderos contar com o pensamento para fundar 2 necessidade relativa de que ele pensa, mas, 20 contrario, contar com a contingéncia de um encontro ‘com aquilo que forsa a pensar, a fim de elevar e instalar a necessidade absoluta de urn ato de pensar, de uma paixdo de pensar (DELEUZE, 1988) ‘Trata-se de caminhar em outra diresdo, para um antilogas? uma néo adesio 4 estrutura racional do discurso e encontrar os materiais sensiveis, que compSem o aprendiz de artista. Come explica Bellour © Ewald (1991), 2 Recherchengo é uma obra que explora a meméria, mas uma obra emissora de signes, modos de emissdo que se proliferam no meio de outras espécies de signos, dos quais se tora necessario descobrir a natureza, a matéria, o regime. Em se tratando de uma obra literdria, Proust revaluciona, em 1913, com a publicacso do primeiro volume da Recherche, as leis do romance: sua obra é fragmentada, num encadeamento de partes inconclidveis, no compande nem um todo que ‘contém ar partes, nem partes que exprimem um todo, do qual terlam sido arrancadas, Empreende-se ‘numa labirintica busca pela verdade, maz no uma verdade légica, pressuposta pela Filosofia, e sim aquela revelada pelas rupturar sobre o pensamento produzidas através da arte. Em se tratando da andlise filosdfica de Deleuze, a publicardo de Proust e os signes, em 1964, revela-se um exercicio ‘ersencial para o desenvolvimento de sua tese, publicada quatro anos mais tarde, inttulada Diferenca e repeticao, na medida em que permite formular uma Filosofia que se opée a identidade e 3 representacdo, cuja matéria-prima ja se encontra presente na obra literdria de Proust. Hé, portanto, ‘come que 6 acoplamento de duas maquinas ~ a lteraria e a filoséfica ~, cujo movimento é sempre de ruptura de suas engrenagens @ 0 produto, sempre estranho 2 uma ideia de identidade, fechamento & unificaszo, No seguimento, 0 artigo buscard desenvolver alguns dos conceitos sistematizados por Deleuze - 2 primeira e a tikima palavra do aprendizado (como ele mesmo intitulou) ~, bern como explicar 0 carrinho do aprendizado fora dos eixos do sistema légice. As consideracdes finais retornardo a mativacdo inicial da escrita deste artigo ~ 0 alargamento das noses relativas 4 aprendizagem ~ perspectivando esta ‘temntica na dtica Proust-Delauze, cujo gira desioca o faco de homem come aprendiz de cientista para o homer come aprendiz de artista, © CAMINHO DO APRENDIZADO Primeira Palavra do Aprendizado: ‘Costuma-se pensar que a aprendizagem se desenvolve e se organiza em um sistema ldgica: sob a égide da inteligéncia, conectamos nossas cbservacées, descobrimes leis e vinculamos as partes e o todo, dando uma cosréncia 20 cosmos, onde antes era puro caos. Na tradicdo da Filosofia otidental, Deleuze (2988, p, 224) inttula de recognicdo a esse modelo que se define pelo exercicio concordante © hharmonioso de todas as faculdades sobre um objeto suposto come sendo © masme, come visando 30 idartic. ‘or bom enn, Hae guom page sretar que Sosa So pean sn oga al = que ereomas sua recathcamasy Na Recherche, entretanto, o aprencizade dé-se por outra via, que ndo é a recognico. O que forca a pensar é 0 arrombamento, a vieléncia, e nada supée a Filosofia do logos, tal qual no modelo da representacio, Se o encontrojd nio é mais com 0 Mesmo, como pode ele acontecer? "Aprender diz respeito essencialmente aos signos” (DELEUZE, 2005, p. 4). Talvez, pensando com Deleuze, este) amos ‘mais préximos a uma compreenséo ndo filoséfica da prépria Filosofia, pois, enquanto esta ultima opera por conceitos, a primeira opera por perceptos e afectos, € da prépria razdo que emergem os afactos, ‘fettos de poténcia sobre a vida, e os perceptos, novas maneiras de ver ou perceber. Por isso, falamos ‘em signos, no em representagSes, Os signos reenviam aos medos de vida, que resister a todas az formas de captura, as possibiidades de existéncia ‘© que é encontrado, sé pode ser apreendido por tonalidades afetivas diversas ~ a énfase, aqui, é sobre 0 que 58 pode ser sentido e é a esse respeito que o signo se ope a recognisSo: Retirado do World Wide Web hetp://n1w»-psicologia.ufy.br/abp/ 4 Arquivos Brasikires de Psicologia, v. 61, n. 3, 2008. (© objeto do encontro, 20 contrério, faz realmente nascer a sensibilidade no sentido: no é uma qualidade, mas um signo; no € um dado, mas aquilo pelo qual o dado é dado. Estamos, portanto, avegando num plano que ndo & 0 do sujeito, nem o do objeto, tal como preconiza o logos em sua tistinglo entre 0 sijeito e o objeto do conhacimento racional. £ a prépria matéria que emite signos © indo o dado em si mesmo, enquanto dado identitdrio. A matéria tanto podem ser objetos ou pessoas, ‘mas no em suas formas acabadas e, sim, naquilo que emitem como uma qualidade, uma esséncia ou diferenca, Sempre vindo de era, o signo interpela por qualquer lado, forgando a pensar. Segundo Deleuze, jd ndo se trata mais de um trabalho de recognicio, mas de decifracdo, tal como o do ‘eiptélogo que decifra hierdalifos. Num primeiro memento, caimos na tentaco de pensar que os signos so emitides pelo préprio objeto Nesea perspactiva, resta-nos ser 0 sijeito cognoscente, que, apelando para sua meméria voluntéria, © com a ajuda da inteligéncla, anseia por uma explicacdo sobre o objeto que contém os signos. Essa éa face objetiva do signa, na qual signo e objeto se confundem. Tedavia, “o signa é mais prefundo que o ‘objeto que o emite, sendo o seu sentido mais profundo que © sujeito que o interpreta” (DELEUZE, 2006, 34), Pela mesma razdo, a face subjetiva do signo no se confunde com o sujeito, j4 que a cadeia, ‘Sssociativa de ideias, atividade puramente subjetiva, ainda no é o destino final do aprendiz. Para cchegar & aprendizagem da arte, hd que se passar pela decepedo de renunciar, tanto 4 perspectiva objetivista, quanto a subjetivista: Sejetve eater {tcpeda porums interpratgae sabato que ecansrae cajun ‘Antes de podermos uitrapassar os estados de subjetividade e as propriedades de objetividade, deter- rRos-emos um pouco mais sobre os sistemas de signos. {Na obra proustiana, os signos aparecem formande sistemas totalmente recusados pelo logos, por meio ddo qual a Filosofia delimita um método prévio para resolver um problema: na Recherche, os signos recortam o mundo sem formar relacées entre continente conteido, nem relacées entre as partes 0 ‘todo. O estilo da escrita é o de multiplicaco de pontos de vista em uma mesma frase, desenvelvendo velocidades segunda cadeias acsociativas ©, novamente, dividindo-se em muitos mais pontos de vista verses, no comunicantes ~ como partes 20 lado de partes, Esra forma fragmentada do romance consegue traduzir uma bela imagem do tempo, caracteristca fundamental para a compreenso do Sistema de signos. Se o caminho do aprendizado passa pelos signos mundanes, amorasos, sensivels, até chegarem aos signos da arte, tais como detectados por Deleuze (2006, este sistema no se dd de forma linear: hd como que linhas de tempo privilegiadas, que atravessam cada sistema de signos, num movimento ascendente e descendente, em que cada sistema de signo participa de modo desigual. Uma vez aleangado 0 universo mais expirtual ~ signos da arte ~, esse sistema arrasta consigo todos 0 ‘outros, como um atrator cadtico, conferindo um sentide totalmente novo para os sistemas que o precede. 0 ponte de vista da arte consttui o aprendizado final. ''a Recherche, os signos da ate Feagem e retroagem sobre os outros sistemas e tempos ~ tempo que se perde (signos mundanos), ‘tempo perdido (signos amorosos), termpo que se redescobre (signos sensiveis) ~ para conferir-Ihes um carter de verdade que, de outra forma, cada sistema em si mesma no conseguiria alcancar, ‘anlres si ido de nano antes? a reagae pode sor pos mien, medrese Num primeiro nivel, esto os signos mundanos, aqueles que descrevem a vida frivola e superficial de sua época, final do século XIX, primeiras anos da século XX. Segundo Deleuze, slo signos vazios, que ‘anulam o pensamento por sua caréncia de sentido, mar que, stravessado: pelos signos da arte, £2 revelam ricos em suas zonas cbscuras, pura emissio de signos. Ao caracterizar a burguesia que Frequentava os salées, Proust (19835, p. 139) escreve: Mais profundos que os primeiros, os signos amorosos dizer respeito aos segredos que o amante atribui 120 ser amado, come portader de signos. IN So so signos vazios, como os rrundanos, ras enganosos. O ‘engano parece ser a crenga numa paixSo amorosa pelo outro, quando, em verdade, 0 segredo do amor ‘est em restituir uma harmonia perdida em nés mesmos, nosso hermafroditismo original. Como, nos Retirado do World Wide Web hetp://n1w»-psicologia.ufy.br/abp/ 5 Arquivos Brasikiros de Psicologia, v. 61, n. 3, 2008. ‘encontros intersexuais, essa fusio origindria nunca poderia ser alcangada, 0 armor & sempre enganoso © produz dor. ‘A potiancia de diferir encontra sua forca maior nos signos amoresos. O que aproxima o amante do seu amado ndo é a soma das identificages que, nun movimento retroative, remontam & busca do objeto- mie, O que aproxima no est nem no sujeito que ama, nem no objeto amado, mas num fund que hé tna propria repeticao de diferir de =i mesmar no é o mesmo no outro, mas 0 outro ne mesmo, € preciso gquecer os velhos amores para que surjam os noves pols €o esquecimente que iberaapoténcta de O terceiro sistema da Recherche diz respeito aos signos sensiveis, qualidades e impressées que, por ‘causarem um efeito imediato, jd se diferenciam de seus precedentes, So signos, por excelancia, que Forgam a pensar, pois a qualidade experimentada, a sensacio provocada, no aparece como propriedade do objeto, mas de algo diferente. Mesma assim, ainda esto presos a certa materiaidade e, frente a ‘esta, o autor trabalha por analogias e associacées: uma coisa faz-lhe lerbrar ou imaginar cutra, Mesmo (5 signos sensiveis ainda portam uma certa opacidade. eps que ume erature, ura igca qu ura eos que etnas ml seade, maps, ms eat, Em busca do tempo perdido é uma obra magistral, que percorre o caminho do artista em busca de uma revelaco que sé pode ser alcangada pelos signos da arte, que so desmaterializados, espirituais. ‘Chegames, assim, 4 ultima palavra de aprendizado. Ultima Palavra do Aprendizado: Esséncia (© caminho da arte implica uma ruptura com as cadeias associativas, sem, entretanto, negé-las, pois os signos sensivels ja s30 meio carninho para a realizag3o da arte; todavia, é um caminho que se coloca a0 lado dessas cadeias, num ponto de vista superior aos préprios individuos e aos préprias objetos. A escrita da Recherche, em cada frase, em cada pardgrafo, anuncia os varios sistemas de signos, descreve os signos mundanos e arnorosos, mas os faz, j4 atravessados pelo ponto de vista superior da arte, Por isso, a arte é um atrator cabtico, que carrega junto consigo os outros sistemas. Para alcancar ‘e:ze objetivo, que em nada segue a linha reta do romance, a Rechercheimprime um estilo antilogos, rompe com os pontos de vista exatamente ali onde eles tandem a se fixar, para, enti, dividi-los em. ‘muites outros: onde pederiam se assemelhar, advém pontos de vista no cormunicantes: e onde nunca ‘se encontrariam, acontecem ressonancias insuspeitadas. E no estilo transversal que a obra se corpée, “em que a unidade © a totalidade ze organizam por si mesmas sem unificar ner totalizar objetos ou sujeitos" (DELEUZE, 2006, p. 161). Toda a obra é uma busca pelo aprendizado. Mas © que é que o narrador da Racherche precisa apreender para aprender e realizar a obra arte? Ele precisa explicar 0 sentido do signo, na sua unidade, eno rocuré-lo em outra coisa, como nas associarSes © analogias. [No & suficiente “aprender da meméria", nem por um retorne ao passado, nem por umn conhecimento ‘do singular e subjetivo come a vivancia de situacBes andlogas, distantes no tempo eno espace, Mesmno ‘num patamar que néo reflete uma simples associacdo de ideias, como a experiéncia das madelaines\("bolinhe pequeno e cheio)-, © onde a lerrbranga involuntria intervém no aprendizado para abrir novos caminhos, o herd da Recherche néo estd pronto para entender o porqué, Qual a qualidade Ultima, que nao estd nem na madelaine nem no herdi? € disso que trata az exsénciae, utima palavra do aprendizado. Elas ultrapassam os estados de subjetividade e de objetividade, so aldgicas, constituindo a unidade imaterial e o sentido espiritual do signo, tal qual & revelada na obra de arte. Fragmentos de meméria aparecem, mas que no server mais de que como dlibis para eserever sobre a ‘experiéncia do tempo em seu dezenrolar. A escritura da Recherche é a prépria obra de arte em forma de literatura, a revelacdo para/do artista das essncias que se expressam na liberdade de suas palavras, ‘to mais porosas do que as palavras pretendem ser e que se aliam para se confundirem umas as eutras, ‘mais emitindo signos do que significados acabados. (© aprender pelo caminho do signe, do sentido e da esséncia, leva a revelacio. A esséncia é a prépria revelagéo. Retirado do World Wide Web hetp://n1w»-psicologia.ufy.br/abp/ 6 Arquivos Brasikires de Psicologia, v. 61, n. 3, 2008. NNisto consiste a superioridade da arte sobre a vida: "Todos os signos que encontrames na vida ainda s80 signos materiais e seu sentido, estando sempre em outra coisa, no é inteiramente espiritual” (DELEUZE, 2006, p. 39), ‘Onde ext a verdadeira Combray? De acordo com esse importante trecho, a Combray jd no é mais a da percepeo, nem a da reminiseéncia associada ao sabor da madeleine, Combray aparace coma obra de ‘arte, come no pedendo ter sido vivida em sua realidade, mas totalmente nova, em sua verdade. Superando as relacdes entre causa e efeito, superande at pretenses realstas de descrever as coisas, © narrador verifica, a cada experiéncia, 0 que realmente se passa com ele e exprime, em palavras, ecse "livro essencial, para o qual o escritor no precisa, no sentido da palavra corrente, inventé-lo, pois ja ‘existe em cada um de nés, e sim tradusi-lo, O dever e a tarefa do escritor sdo as de um tradutor” (PROUT, 1983b p. 138). Paradoxalmente, podemos dizer que a verdade aparece como uma traiszo 20 artista, pois ndo ¢ apelando para a boa vortade de sua meméria que encontra a revelagi0, mas é ‘Combray no vivida pela lembranca involuntaria que © assata de fora. Por isso, devernos nos perguntar se é o svjeto que explica a esséncia, ou se é a esséncia que se implica, ‘que se envelve no sujeito. Uma coisa é o sujeito exprimir o rrundo, e outra é a esséncia que, uma vez ‘experimentada, faz nascer 0 rmunde, uma Combray totalmente nova, uma criaedo. A expresso da ‘esséncia é explicada pelo narrador como aquilo que é mais dificil, trabalhoso, que independe da boa vortade da meméria ou do desejo e, por infortunio, & © mais relegado pela literatura, pois & dado como jexprimivel. Buscar a impresso que provoca a experincia, deixando de lado o que constitul essa lmpressgo, no extraindo dela nenhuma mensager nova, dé a ilusso de uma cormunicaso entre ‘espectadores que falam sempre sobre o idéntico, como se os rundes de todos os artistas fossemn ‘apenas um e no miltiplos. ‘© nascimento do mundo que se dé pela revelagio da arte, impossivel por meios diretos e conscientes, diferenca qualitativa decorrente da maneira como o encarames, é largamente explicado pelo heréi da Recherche, em sua obra 0 tempo redescoberto: enon anit ards de néra an eames sus (RUS, 150 913) sat to compleas 6 Este trabalho do artista, em busca de uma diferenca, que se acha sob a matéria, sob a experiéncia, sob 135 palavras, precisa de instrumentos que no so dados, nem pela meméria, nem pela inteligéncia, ‘Ambas participam, sdo necessérias, mas no consttuem a materia prima do aprendizade [A secio seguinte, tratard sobre © caminho do aprendizado da arte, destino inconsciente do aprendiz. 0 Aprendizado da Arte: Deleuze nos diz que o essencial do aprendizado no é a meméria, mas 0 signo e o tempo, Aprofundar © sentidy do signo e desvencihar-se de tempo que apenas passa, permite descebir 6 seyredo do ‘prendizade. No comeso de sua obra, © herdi narra sua inféncia em Illers Combray. Sua narrativa, entratanto, 4 est marcada, desde o inicio, pela ndo adecdo aos fator em si, convidando o leitor a ermpreender junto com ‘ele uma explorasio por caminhos no previamente tracados, apenas intuidas. Foram os signos que deram inicio 20 seu romance, que, por sua vez, nasceu do singelo ato de degustar um pedaco de madelaine. Foi essa zensasio, junto a uma colherada de ch que Ihe provocou uma intensa felicidade, {que deu sentido e unidade a busca do tempo perdido, Até entdo, o heréi despertava durante as noites, ‘2esattado por recordacdes de Combray, mas que eram fugidias, impalpaveis, como langos lurinosos, Ele ‘sabia que aquilo era importante e tentava explicar aquela "Combray, consistinde em apenas dois ‘andares ligados por uma extreita escada, cormo se nunca forse maiz do que sete horar da, noite"(PROUST, 1983d , p. 44). Num esforco para compreender aquelas imagens recortadas de luz em meio atrevas, acabava resignando & meméria voluntaria, que Ihe trazia uma Corrbray tal qual existiu no passado, Esta é tarrbém a meméria da inteligéncia, aquela que, através de um exercicio voluntério de Retirado do World Wide Web hetp://n1w»-psicologia.ufy.br/abp/ 7 Arquivos Brasikiros de Psicologia, v. 61, n. 3, 2008. representardo, pensa encontrar 0 segredo do signo no objeto ou no sujeito com suas associacées e analogias. ‘Sua obra, no entanto, no nasce deste esforso primeiro, da meméria voluntéria ou da meméria da Inteligéncia, Ela nasce da brusea seneacSo produzida pela despretensiosa mistura, em sua boca, da madeleine com o cha e associa a felcidade sentida, naquele momento, com 0 gosto da madeleine, em ‘Combray, em sua inféncia, em seu quarto, nas manh’s de domingo, em que sua tia oferecia esse biscoito mergulhado no ché. Quantas vezes, em sua vida, vira outras tantas madeleines em confeitarias? ‘Quantos anos se passaram? Por que haveria de ser naquele instante que a lembranca stbita apareceria? Esta € a resposta que somente a arte poderia dar. rimeiro, hd 0 trabalho da meméria involuntéria, experimentando a sensaco que retirara nosso heréi bruscamente do foco, da vida de todos os dias. Neste estagio, j4 estamos a caminho da essancia, pois a meméria involuntéria é diretamente solicitada pelo signo sensivel, Por sua vez, 0 signo ainda estd preso, de alguma forma, 4s armadilhas do sujeito e do objeto, entre a relaco material madeleine-Combray. A arte surgird quando a sencaso de provar amadeleine © 0 cha revelarem para ele uma nova Combray, tal qual um cendrio de teatro, totalmente diferenciada, Essa revelag3o, proporcionada pela meméria involuntiria, pode ficar, todavia, num plano de fugacidade, ‘30 no for pelo esforso do artista em fixar, na obra de arte, sua experincia de penetraso no mage da reslidade/criaglo, € neste estagio avancado que a inteligancia pura é chamada a extrair as verdades do ‘feito violento do signo, produside pela memoria involuntaria, E neste estagio, tambérn, que ‘compreendamos que a esséncia jd estava na lembranga involuntéria ou na alegria experimentada do Signo sensivel. Por isso, uma vez revelada pela arte, o carrinho de volta aos signos pade acontecer, mostrando que as esséncias jd estavam ld, encarnadas nos objetos, nos odores, no tempo perdido. A obra Em busca do tempo perdide ¢ uma nova traducdo das esséncias que j4 estavam presentes na vida do narrador, mas que ele ainda no conhecia, e cujo exame das causas precisou adiar. Ele redescobre o tempo no tempo perdido, em que transitou pelos acos e perféricos signos mundanos, para eles extrair uma infinidade de materiais ate entdo inacessivels para o artista: "nada provoca tanto @ nossa curiosidade quanto como saber o que se passa na cabera de um tolo” (PROUST, 1983b, p. 146). Sob a pressio da sensibilidade, trabalha a inteligéncia, momento segundo na obra de arte. Se assim ndo Fosse, saborear o bolinho apenas com o gosto da inteligéncia, se contentaria em localizar o periodo da Infancia em que este sabor foi experimentado, trabalhar sobre linhas estanques e superficies fechadas. A inteligéncia chamada pela sensibilidade trabalha sobre o esquecimento da Historia, para reencontrar 0: ppersonagens, no come foram vivides pelos fatos, mas come feram sendo inventados, criados, vivides Intensivamente, inteligéncia pura, tempo puro, verdade ultima, vida em esséncia, CONSIDERAGOES FINAIS. Este artigo inicla @ encerra com a mesma preocupagéo: buscar alargar a compreensio sobre 3 aprendizagem humana. Num primeiro giro de caleidoscépio, pademos Vislumbrar uma figura dividida er duas partes que, erbora divergentes, no se opSem entre si: uma delas diz respeito a0 conhecimento ‘come representago do mundo, enquanto outra, diz respeito 20 conhecimento carna invenglo do mundo, Trata-se das dimensSes recognitiva e inventiva da aprendizagem. Para esta cikima, nosso ‘caleldoscdpio mais uma vez girado, ja no mais se dividird em duas partes, mas em uma série de pequenos fragmentos de espelhos coloridos, campos teéricos, cujas potencias de invengo nascem Justamente ali onde esses campos nio se esgotam em si mesmos, onde ressoam com outras diferensas, ‘outras linguagens, novas rachaduras. Nesse giro, encontramos os temas da estética, da dimensdo receptiva do conhacimento, das ressonéncias corporais e afetivas advindas des encontros com aquilo ‘que surpreende, que provoca estranhamento, So encontros zignicos, nos ensinard Deleuze) estamos ‘pum campo mais duct, as categorias de sujcito e objeto ja esto ber mais borradas, mas ainda ‘estamos no campo da vida. Somos decifradores des mistérios, buscamos dar uma significaco a cada segredo. Ermbarcamos na onda come egiptélogos a decifrar hierSglfes, mas por precaucdo e despreparo, consideramos acabada nossa tarefa quands 0 Ultimo signo & decifrade, Retirado do World Wide Web hetp://n1w»-psicologia.ufy.br/abp/ a Arquivos Brasikiros de Psicologia, v. 61, n. 3, 2008. |A méquina Proust-Deleuze propie-nos outro giro, mais radical, para o qual as cldssicas categorias do conhecimente j no tém mais utlidade. (Os signos da arte revelam que a busca no tinha de ser feita no contato direto, nem com a matéria, nem ‘com as reminiscncias, mar no contato direto com 0 si mesmo. 34 ndo se trata mais de um subjetivisme, porque no estamos no plano do sujeito dogmatic, identitario. O contato direto com o si mesmo é também a saida de si, para contemplar © mundo multiplicado, cuja revelacdo pulsa sob 2 ‘materia, sob as palavra, sob a vida. Contato direto com a exséncia que, uma vez enrolando-se no sujeito, 0 exprime e 0 explica desde 0 ponto de vista da arte, necessariamente metamorfoseado, necessariamente outro, (© aprendizado que estsja precedide pela inteligéncia nos conduz a esclarecer aquilo que jd estava claro, maz no nos pertence. Pertence a0 mundo das leis mecdnicas, que estabelacem relagdes entre a: coisas, dadas come naturais. Unifermizam a percepedo, ditam leis que organizam mundo. © aprendizado do artista néo estd precedido pela inteligéncia, mas pela sensacSo provocada pelo ‘encontro com e fortuito, com o acaso. No é a inteligéncia, mas o encontro que forca a pensar; a génese criativa que emana do signo e no do objeto identitari, £ deste estranho encontro, portador de segredos, que o aprendis extrai outras tantas leis, buscando deciftar os rristérios que a sensibilidade apreende no signo. A inteligéncia ver depois, para explicar seu sentide. Também no é com 2 Inteligéncia do logos que o narrador ird escrever sua obra e nisso reside uma das facetas mais, surpreendentes da Recherche: a inteligancia da arte, das esséncias, cujo poder & de néo tetalizar, no Unificar, remeter a0 sempre inacabade, Por isso, do aprendizado da vida, portadora dos mistérios, ao aprendizado da arte, decifradora das esséncias, qualidades diferenciais que vo além de qualquer contedido e desvelam um mundo Unico, jamais visto ou vivide, efeito do génio do poder refletor e no da ‘qualidade intrineaca do expaso refletido! coma gate cape utamene ws, em oro dae verde em nde msm stn, urs sempre pas REFERENCIAS BELLOUR, R.; EWALD, F, Signos ¢ acontecimentos. In: ESCOBAR, C. H. (Org.). Dossier Deleuze. Rio de Janeiro: Hélon Editorial, 1991. DELEUZE, 6. Diferenca e repeticao. So Paulo: Graal, 1988. ______: Proust e os signos. Rio de Janeiro: Forense Universitaria, 2008. PIAGET, J. Biologia e conhecimentn. Petrépolis: Vozes, 1973, PROUST, M. Em busca do tempo perdido. Porto Alegre: Ed.Glebo, 19832 0 tempo redescoberto. Porto Alegre: Ed, Globo, 19836. Aprisioneira: Porto Alegre, Ed. Globo, 1983 No caminho de Swann. Porte Alegre, Ed, Globo, 19824, Endereco para correspondénci Retirado do World Wide Web hetp://n1w»-psicologia.ufy.br/abp/ 9 Arquivos Brasikiros de Psicologia, v. 61, n. 3, 2008. Regina Orgler Sordi E-mail:zord vov@terra.combr ‘Submetide em: 27/02/2008, Revisto em: 02/04/2008 Aceito em: 05/04/2003, 1A autora agradece aos alunos da disciplina "Proust e os signas ~ Leltura Dirigida", ministrada ne curso de Pés-Graduaro em Psicologia Social e Institucional/UFRGS e que foram os principais inspiradores ara a escrita deste artigo: Anna Luiza K, da Silva, Bruno Graebin, Eduardo 5. Barcalos, Gileéa V. nette, Juliane T, Farina, Maria Helena De-Hlardin, Neusa K, Mickel, Nilee A. Cardoso, Regina L. Jaeger, ‘Sandra Maria Kuhn e Selma A. Cavalcanti 2.1) "No caminho de Swann"; 2)"A sombra das raparigas em flor"; 3) "O caminho de Guermantes"; 4) "Sedoma e Gomorra’; 5)"A prisioneira"; 6) "A fugitiva’; 7) "O terrpo redescaberto”, 2 Antilogos, terme apresentado por Deleuze (2006) para qualficar a Recherche como uma obra feita de fragmentos que no podem mais se regjustar, composta de pedacos que no fazem parte do mesmo puzzle, ‘que no pertencem a ums totalidade prévia, que no emanam de uma unidade, mesmo que tenha sido perdida °F de sibito a lembranca me apareceu. Aquele gosto era do pedaco de madalena que nos dorringos de manhi em Corbray (pois nos doringos eu ngo saia antes da hora da rissa) minha tia Leéncia me oferecia, depois de o ter mergulhado no seu chd da india ou de tilia, quando ia cumprimentié-la em seu quarto” (PROUST, 19834, p. 47). "Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados na vaiva estriada de uma concha de S, Tiago" (PROUST, 19834, p. 5) 5 esta é a denominasio que Deleuze stribui ao narrador da Recherche.A hipétese aqui sustentada é 2 de que o narrador é um personagem maitiple, ora pedende ser Proust, ora Swann, efeito da condico de desestabilizacdo identitaria da obra. 0 Unico modo de aprecié-las malhor, seria tentar conhecé-las mais completamente Ii onde se achavam isto, em mim mesmo, tornd-las claras até suas profundezas. (Proust, TR, p. 128), Retirado do World Wide Web hetp://n1w»-psicologia.ufy.br/abp/ 10