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(Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Dados Internacionais de Catalogagio na Publicagao (CIP) ‘Santos, Boaventura de Sousa ‘Um discurso sobre as cites / Boaventora de Sousa Santas.— 5. ed. Sto Paulo : Cortez, 2008, era 978-85-249-0952-8 1. Cigneia~Filesofia. 1. Titulo, 03.4966 cpp-so Indices para catilogo sistematico: 1. Doséncia Edveagto 370 BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS UM DISCURSO SOBRE AS CIENCIAS 5* edigdo SS UM DISCURSO SOBRE AS CIENCIAS Boaventura de Sousa Santos Capa: DAC sobre projeto grafico das Eaigoes Afrontamento ‘Composgfa: Dany Baitora Uda. Coordenagiaeitorial: Danilo A.Q. Morales ate texto 6 uma versio ampliada da Oragto de Sapitnetn proferida na abertura solene das aulas na Universidade de Coimbra, no ano lectivo de 1985/86. Por recomendagie do Autor foi mantida a ortografia vigente em Portugal ‘Obra publicads simultaneamente pelas Edigbes Alrontamento, Porto, Portugal. [Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem auto- zagio expressa do autor edo editor. 19 1987, B. Sousa Santos e dies Afrontamento Direitos para esta edigto (CORTEZ EDITORA ua Monte Alegre, 1074 —Perdizes (05014-001 — Sto Paulo-SP ‘Tels (11)3864-0111 Fax: (11)3861-4290 E-mail: cortez@cortezeditora.combr www cortezaditora.com.br Impresso no Brasil ~fevereiro de 2008 Fe | Indice Prefécio ... 7 © paradigma dominant .... 20 A crise do paradigma dominante 40 O paradigma emergente 59 1. Todo 0 conhecimento cientifico-natural 6 cientifico-social 2. Todo 0 conhecimento € local e total 3. Todo 0 conhecimento é autoconhecimento .. 80 4, Todo 0 conhecimento cientifico visa constituir-se em senso comum 88 SURE | Prefadcio A edi¢cao brasileira | | Este pequenc livro foi publicado pela primei- ra vez em Portugal em 1987 (Porto, Afrontamen- to) e foi publicado, posteriormente, como artigo de revista, no Brasil (Revista do Instituto de Estu- dos Avancados da Universidade de S40 Paulo, Vol 2, n° 2, 1988, pp- 46-71) e nos Estados Unidos da ‘América (Review of the Fernand Braudel Center, Volume XV, n° 1, Winter 1992, 9-47). O livro co- rheceu um éxito que me surpreendeu, sendo anos a fio leitura recomendada nos cursos de filosofia, quet do ensino secundério, quer do ensino supe~ rior. Estd hoje em circulagao a 13* edi Neste livro, que é uma versao ampliada da Oracéo de Sapiéncia que proferi na abertura so- Jene das aulas da Universidade de Coimbra, no ano lectivo de 1985/86, defendo uma posicao epistemol6gica antipositivista e procuro funda- menté-la a luz dos debates que entdo se trava- ‘vam na fisica ena matematica. Ponho em causa a EE EEE EEE Eee ere eee eee eee eee ete eee Seer Steere SCLRGO SORE AS CENCUS , teoria representacional da verdade e a primazia das explicacbes causais e defendo que todo 0 co- nhecimento cientifico é socialmente construido, que o seu rigor tem limites inultrapassaveis e que a sua objectividade nao implica a sua neutralida- de. Descrevo a crise do paradigma dominante e identifico os tragos principais do que designo como paradigma emergente, em que atribuo as ciéncias sociais anti-positivistas uma nova cen- tralidade, e defendo que a ciéncia, em geral, de- pois de ter rompido com o senso comum, deve transformar-se num novo e mais esclarecido sen- so comum. Estas ideias foram desenvolvidas e aprofun- dadas em livros posteriores, nomeadamente em. Introdugiio a uma ciéncia pés-moderna (Porto, Afron- tamento, 1989, hoje em 6* edicao; Sao Paulo, Graal, hoje em 3* edicdo) e A critica da razio indo- lente: Contra o Desperdicio da Experiéncia (Porto, Afrontamento, 2000, hoje em 2* edicdo; Sao Pau- Jo, Editora Cortez, hoje em 4 edigao). Um discurso sobre as ciéncias teve, pois, uma carreira feliz. Entretanto, em meados dos anos noventa, eclodiu, primeiro na Inglaterra e depois nos Estados Unidos da América, um novo epi: dio de debate aceso entre positivistas e anti-po- aa ” ‘WoAVENTURA DE SUA SFOS sitivistas, entre realistas e construtivistas, que em breve se transformou numa nova guerra da cién- cia. O momento mais intenso desta guerra ficou conhecido pelo nome do Sokal affair por ter tido origem num embuste redigido pelo fisico mate- miéatico Alan Sokal e publicado na revista Social Text, com o objective de denunciar as supostas debilidades das posicdes anti-positivistas ditas pés-modernas. Nesse artigo Sokal menciona, como textos representativos desta corrente, Lim discurso sobre as ciéncias e Introdugio a uma ciéncia pés-noderna, Logo depois, 0 esclarecimento do embuste é publicado em Lingua Franca, num arti- go intitulado “A Physicist Experiments with Cul- tural Studies” (Lingua Franca, 1996, 62/64). Em 1997 Sokal publica, conjuntamente com Jean Bricmont, o livro Impostures intellectuelles (Paris: Odile Jacob; Lisboa: Gradiva; Rio de Janeiro: Record), em que é desenvolvida a critica aos fil6- sofos e cientistas sociais “pdés-modernos” france- ses, genericamente acusados de uso incoxrecto de teorias e conceitos das ciéncias fisico-naturais. Entretanto, em 2002, foi publicado em Por- tugal um livro intitulado O discurso pds-moderno contra a ciéncia: obscurantismo e irresponsabilidade, daautoria de Anténio Manuel Baptista. Em gran- La sconso sos as ats n de medida este livro repete, e nem sempre correctamente, os argumentos de Alan Sokal e dos que, do seu lado, intervieram nas “guerras da ciéncia’, tomando Um discurso sobre as ciéncias como o seu principal alvo. A minha resposta a Anténio Manuel Baptista e & corrente epistemo- logica que ele pretende representar est no livro Conhecimento prudente para uma vida decente: Um discurso sobre as ciéncias revisitado, a publicar pro- ximamente pela Cortez Editora (S40 Paulo, no prelo). Neste livro, que conta com a participagéo de vérios cientistas brasileiros, a linha geral de argumentagio parte de Ur discurso sobre as cién- cis. Como este livro ndo estava facilmente dis- ponivel aos leitores brasileiros, decidi promover agora a sua publicagio, mantendo o texto origi- nal, sem qualquer actualizacao. Este livro deve, pois, ser lido em conjuncao com Conhecimento pru- dente para uma vida decente: Um discurso sobre as ciéncias revisitado. Estamos a quinze anos do final do século XX. ‘Vivemos num tempo atonito que ao debrugar-se sobre si préprio descobre que os seus pés so um cruzamento de sombras, sombres que vém do passado que ora pensamos jé néo sermos, ora pensamos nao termos ainda deixado de ser, som- bras que vém do futuro que ora pensamos jé ser- ‘mos, ora pensamos nunca virmos a ser. Quando, ao procurarmos analisar a situacdo presente das ciéncias no seu conjunto, olhamos para 0 passa- do, a primeira imagem é talvez a de que os pro- gressos cientificos dos tiltimos trinta anos sao de tal ordem dramiéticos que os séculos que nos pre- cederam — desde 0 século XVI, onde todos nés, cientistas modernos, nascemos, até ao proprio século XIX — nao sio mais que uma pré-histéria longinqua. Mas se fecharmos os olhos e os vol- tarmos a abrir, verificamos com surpresa que 0s grandes cientistas que estabelecereme mapearam \ “ AVENTURA DE SOUSA SANTOS ‘© campo teérico em que ainda hoje nos move- mos viveram ou trabalharam entre o século XVII € 08 primeiros vinte anos do século XX, de Adam Smith e Ricardo a Lavoisier e Darwin, de Marx e Durkheim a Max Weber e Pareto, de Humboldt ¢ Planck a Poincaré e Einstein. E de tal modo é assim que é possivel dizer que em termos cienti- ficos vivemos ainda no século XIX e que 0 século XX ainda nao comecou, nem talvez comece antes de terminar. E se, em vez de no passado, centrar- mos 0 nosso olhar no futuro, do mesmo modo duas imagens contraditérias nos ocorrem alter- nadament{ Por um lado, as potencialidades da traduc&o techolégica dos conhecimentos acumu- lados fazem-nos crer no limiar de uma socieda- de de comunicagio e interactiva libertada das caréncias e insegurangas que ainda hoje com- pdem os dias de muitos de nés: 0 século XX a comecar antes de comegar. Por outro lado, uma reflexao cada vez mais aprofundada sobre os li- mites do rigor cientifico combinada com os peri- gos cada vez mais verosimeis da catéstrofe eco- légica ou da guerra nuclear fazem-nos temer que 0 século XXI termine antes de comegar | Recorrendo & teoria sinergética do fisico tes- rico Hermann Haken, podemos dizer que vive- LC DISCUS SORLE As CHENCAS s mos num sistema visual muito instvel em que a minima flutuacao da nossa percepso visual pro- voca rupturas na simetria do que vemos. Assim, olhando a mesma figura, ora vemos um vaso gre- go branco recortado sobre um fundo preto, ora vemos dois rostos gregos de perfil, frente a fren- te, recortados sobre um fundo branco. Qual das imagens é verdadeira? Ambas e nenhuma. E esta a ambiguidade e a complexidade da situacao do tempo presente, um tempo de trarsicao, sincrone com muita coisa queest4 além ouaquém dele, mas descompassado em relacio a tudo o que o habita. Tal como noutros perfodos de transigo, di- ficeis de entender e de percorre:, 6 necessério voltar as coisas simples, & capacidade de formu- lar perguntas simples, perguntas que, como Einstein costumava dizer, sé uma crianca pode fazer mas que, depois de feitas, sfo capazes de trazer uma luz nova nossa perplexidade. Te- nho comigo uma crianga que hd precisamente duzentos ¢ trinta e cinco anos fez algumas per- guntas simples sobre as ciéncias e os cientistas. Félas no inicio de um ciclo de produgio cientifi- ca que muitos de nés julgam estaragora a chegar ao fim, Essa crianga é Jean-Jacques Rousseau. No seu célebre Discours sur les Sciences et les Arts (1750) “ AVERTURA DE SOUSA SOTOS Rousseau formula varias quest6es enquanto res- ponde a que, também razoavelmente infantil, lhe fora posta pela Academia de Dijon’. Esta tiltima qquestio rezava assim: o progresso das ciéncias € das artes contribuird para purificar ou para cor- romper 0s nossos costumes? Trata-se de uma pergunta elementar, ao mesmo tempo profunda ¢ f4cil de entender. Para lhe dar resposta — do modo eloquente que Ihe mereceu o primeiro prémio e algumas inimizades — Rousseau fez as seguintes perguntas no menos elementares: ha alguma relacdo entre a ciéncia e a virtude? Hd alguma razo de peso para substituirmos 0 co- nhecimento vulgar que temos da natureza e da vida e que partilhamos com os homens e mulhe- res da nossa sociedade pelo conhecimento cien- tifico produzido por poucos ¢ inacessivel & maio- ria? Contribuird a ciéncia para diminuir 0 fosso crescente na nossa sociedade entre o que se € ¢ 0 que se aparenta ser, 0 saber dizer e 0 saber fazer, entrea teoria ea pratica? Perguntas simples a que Rousseau responde, de modo igualmente sim- ples, com um redondo nao. 1, Jean-Jacques Rousseau, Discours sur les Sciences ef les Art, in ‘Ocuores Completes, vo. 2, Paris, Seuil, 1971, p. 52 ess xe iscuRso Son AS CNS i: Estavamos entao em meados do século XVII, numa altura em que a ciéncia moderna, safda da revolucao cientifica do século XVI pelas maos de Copérnico, Galileu e Newton, comegava a deixar os célculos esotéricos dos seus cultores para se transformar no fermento de uma transformacéo técnica e social sem precedentes na histéria da hu- manidade. Uma fase de transigéo, pois, que dei- xava perplexos os espiritos mais atentos e os fazia reflectir sobre os fundamentos da sociedade em que viviam e sobre o impacto das vibragdes a que eles iam ser sujeitos por via da ordem cientifica emergente. Hoje, duzentos anos volvidos, somos todos protagonistas e produtos dessa nova ordem, testemunhos vivos das transformagées que ela produziu. Contudo, nao 0 somos, em 1985, do mesmo modo que o éramos hé qainze ou vinte anos. Por raz6es que alinho adiante, estamos de novo perplexos, perdemos a confianca epistemo- l6gica; instalou-se em nés uma sensagao de per- da irreparével tanto mais estranha quanto nao sa- bemos ao certo 0 que estamos em vias de perder; admitimos mesmo, noutros momentos, que essa sensagio de perda seja apenas a cortina de medo atrés da qual se escondem as novas abundancias da nossa vida individual e colectiva. Mas mes- fa oavanTuRA DE SOUSA SANTOS mo af volta a perplexidade de nao sabermos 0 que abundaré em nés nessa abundancia. Daf a ambiguidade e complexidade do tem- po cientifico presente a que comecei por aludir. Daf também a ideia, hoje partilhada por muitos, de estarmos numa fase de transigao. Dat final- mente a urgéncia de dar resposta a perguntas simples, elementares, inteligiveis. Uma pergun= taelementar é uma pergunta que atinge o magma mais profundo da nossa perplexidade individual e colectiva com a transparéncia técnica de uma fisga. Foram assim as perguntas de Rousseau; te- ro de ser assim as nossas. Mais do que isso, du- zentose tal anos depois, as nossas perguntas con- | tinuam a ser as de Rousseau, Estamos de novo | regressados a necessidade de perguntar pelas re- lagées entre a ciéncia e a virtude, pelo valor do conhecimento dito ordindrio ou vulgar que nés, sujeitos individuais ou colectivos, criamos e usa- mos para dar sentido as nossas préticas e que a ciéncia teima em considerar irrelevante, ilusério ¢ falso; ¢ temos finalmente de perguntar pelo papel de todo o conhecimento cientifico acumu- lado no enriquecimento ou no empobrecimento prético das nossas vidas, ou seja, pelo contributo positivo ou negativo da ciéncia para a nossa feli- UWA DBCURS sOHRE AS CNS ” cidade. A nossa diferenga existencial em relacao a Rousseau é que, se as nossas perguntas sao sim- ples, as respostas sé-lo-4o muito menos. Estamos no fim de um ciclo de hegemonia de uma certa ordem cientifica. As condicGes epistémicas das ! nossas perguntas esto inscritas no avesso dos conceitos que utilizamos para lhes dar resposta. # necessério um esforgo de desvendamento con- duzido sobre um fio de navalha entre a lucidez e a ininteligibilidade da resposta. Sao igualmente diferentes e muito mais complexas as condigées sociolégicas e psicolégicas do nesso perguntar. E muito diferente perguntar pela utilidade ou pela felicidade que 0 automével me pode pro- porcionar se a pergunta é feita quando ninguém na minha vizinhanga tem automdvel, quando toda a gente tem excepto eu ou cuando eu pré- prio tenho carro ha mais de vinte anos. Teremos forgosamente de ser mais rousseau- nianos no perguntar do que no responder. Come- carei por caracterizar sucintamente a ordem cien- tifica hegemGnica. Analisarei depois os sinais da crise dessa hegemonia, distinguindo entre as con- digGes tedricas e as condigGes sociolégicas da cri- se. Finalmente especularei sobre o perfil de uma nova ordem cientifica emergente, distinguindo de » BOAWENTURA De SOUSA SANTOS novo entre as condigies tedricas e as condicdes so- ciolégicas da sua emergéncia. Este percurso anali- tico serd balizado pelas seguintes hipdteses de tra- balho: primeiro, comega a deixar de fazer sentido a distingéo entre ciéncias naturais e ciéncias so- ciais; segundo, a sintese que ha que operar entre elas tem como pélo catalisador as ciéncias sociais; terceiro, para isso, as ciéncias sociais terao de re- cusar todas as formas de positivismo légico ou empfrico ou de mecanicismo materialista ou idea- lista com a consequente revalorizagio do que se convencionou chamar humanidades ou estudos humanisticos; quarto, esta sintese nao visa uma ciéncia unificada nem sequer uma teoria geral, mas, t0-s6 um conjunto de galerias tematicas onde con- vergem linhas de agua que até agora concebemos como objectos tedricos estanques; quinto, 4 medi- da que se der esta sintese, a distingao hierarquica entre conhecimento cientifico e conhecimento vul- gar tenderd a desaparecer e a prética serd 0 fazer e © dizer da filosofia da prética. O PARADIGMA DOMINANTE O modelo de racionalidade que preside & ciéncia moderna constituiu-se a partir da revolu- ‘Un piscuns SoRRE A CANES u so cientifica do século XVI e foi desenvolvido nos séculos seguintes basicamente no dominio das ciéncias naturais. Ainda que com alguns pre- mincios no século XVIII, é s6 no século XIX que este modelo de racionalidade se estende as cién- cias sociais emergentes. A partir de entao pode falar-se de um modelo global de racionalidade cientifica que admite variedade interna mas que se distingue e defende, por via de fronteiras os- tensivas e ostensivamente policiadas, de duas formas de conhecimento nao cientifico (e, por- tanto, irracional) potencialmente perturbadoras e intrusas: o senso comum e as chamadas huma- nidades ou estudos humanisticos (em que se in- cluiram, entre outros, os estudos histéricos, filolégicos, juridicos, literérios, filoséficos e teo- légicos). Sendo um modelo global, a nova racionali- dade cientifica é também um modelo totalitario, na medida em que nega o cardcter racional a to- das as formas de conhecimento que se nao pau- tarem pelos seus principios epistemolégicos e pelas suas regras metodoldgicas. E esta a sua ca- racteristica fundamental e a que melhor simboli- za a ruptura do novo paradigma cientifico com 0s que 0 precedem. Est4 consubstanciada, com 2 nvenTuRA De sous SOS crescente definigéo, na teoria heliocéntrica do movimento dos planetas de Copérnico, nas leis de Kepler sobre as érbitas dos planetas, nas leis de Galileu sobre a queda dos corpos, na grande sintese da ordem cdsmica de Newton e finalmen- te na consciéncia filoséfica que Ihe conferem Bacon e sobretudo Descartes. Esta preocupacao em testemunhar uma ruptura fundante que pos- sibilita uma e sé uma forma de conhecimento verdadeiro esté bem patente na atitude mental dos protagonistas, no seu espanto perante as pré- prias descobertas e a extrema e ao mesmo tempo serena arrogiincia com que semedem com os seus contemporneos. Para citar apenas dois exem- plos, Kepler escreve no seu livro sobre a Harmo- nia do Mundo publicado em 1619, a propésito das harmonias naturais que descobrira nosmovimen- tos celestiais: “Perdoai-me mas estou feliz; se vos zangardes eu perseverarei;(...)O meu livro pode esperar muitos séculos pelo seu leitor. Mas mes- mo Deus teve de esperar seis mil anos por aque- les que pudessem contemplar o seu trabalho”?. Por outro lado, Descartes, nessa maravilhosa au- 2, Consulteda @ edligéo alema (introdusio ¢ traducéo de Max Caspar), Johannes Kepler, Well-Harmonik, Munique, Verlag Oldenbourg, 1939, p. 280. ‘ww oscuso soma as ces B tobiografia espiritual que é 0 Discurso do Método ea que voltarei mais tarde, diz, referindo-se ao método por si encontrado: “Porque j& colhi dele tais frutos que embora no juizo que faco de mim prdprio procure sempre inclinar-me mais para 0 lado da desconfianga do que para o da presun- 40, e embora, olhando com olha: de fildsofo as diversas acgdes e empreendimentos de todos os homens, nao haja quase nenhurra que néo me pareca va e intitil, nao deixo de receber uma ex- trema satisfac com o progresso que julgo ter feito em busca da verdade e de conceber tais es- perangas para o futuro que, se entre as ocupa- ‘Ges dos homens, puramente homens, alguma ha que seja solidamente boa e importante, ouso crer que é aquela que escolhi’®. Para compreender esta confianga epistemo- légica & necessario descrever, ainda que sucin- tamente, os principais tracos do novo paradig- ma cientifico. Cientes de que o que os separa do saber aristotélico e medieval ainda dominante nao é apenas nem tanto uma melhor observa- ¢&0 dos factos como sobretudo uma nova vis4o 3. Descartes, Discurso do Método e as Paixdes da Alma, Lisbos, S& da Costa, 1984, p. 6. “ SOAVENTURA DS SOU SANTOS do mundo e da vida, os protagonistas do novo paradigma conduzem uma luta apaixonada con- tra todas as formas de dogmatismo e de autori- dade. O caso de Galileu é particularmente exem- plar, e é ainda Descartes que afirma: “Bu ndo podia escolher ninguém cujas opiniées me pa- recessem dever ser preferidas as dos outros, e encontrava-me como que obrigado a procurar conduzir-me a mim préprio”s. Esta nova visao do mundo e da vida reconduz-se a duas distin- des fundamentais, entre conhecimento cienti- fico e conhecimento do senso comum, por um lado, e entre natureza e pessoa humana, por outro. Ao contrario da ciéncia aristotélica, a cién- cia moderna desconfia sistematicamente das evi- déncias da nossa experiéncia imediata. Tais evi- déncias, que estéo na base do conhecimento vulgar, s4o ilusérias. Como bem salienta Einstein no prefacio ao Didlogo sobre os Grandes Sistemas do Mundo, Galileu esforga-se denoda- damente por demonstrar que a hipstese dos mo- vimentos de rotagao e de translagao da terra nao € refutada pelo facto de nao observarmos quais- quer efeitos mecdnicos desses movimentos, ou 4. Descartes, ab. cit, p. 16. ‘UM Disc SOBRE AS INC % seja, pelo facto de a terra nos parecer parada e quieta®. Por outro lado, é total a separagdo entre a natureza e o ser humano. A natureza é téo-s6 extensio e movimento; é passiva, eterna e rever- sivel, mecanismo cujos elementos se podem des- montar e depois relacionar sob a forma de leis; no tem qualquer outra qualidade ou dignidade que nos impeca de desvendar os seus mistérios, desvendamento que nao é contemplativo, mas antes activo, jé que visa conhecer a natureza para adominar e controlar. Como diz Bacon, a ciéncia fard da pessoa humana “o senhor e 0 possuidor da natureza”®, ‘Com base nestes pressupostos o conhecimen- to cientifico avanga pela observacio descompro- metida e livre, sistematica e tanto quanto possi- vel rigorosa dos fenémenos naturais. O Novum Organum opée a incerteza da razo entregue a si 5. Binstein in Galileu, Dialogue Concerning the Two Chief World Systems, Berkeley, University of California Pres, 1970, p. XVI. 6. Consultada a edigio esparhola(prepesada e traduzida por Gallach Pals, F. Bacon, Noourn Organ, Macid, Nueva Biblioteca Filos6fie, 1933. Para Bacon “a senda que conduz o homem ao poder € a que o conduz & cincia estio muito préximas. Sendo quase a mes- rma’ (p. 110), Seo objecivo da ciéncia € dominar a natureza no é menos verdade que “56 podemos vencer a natureza obedecende-the” (@.6 sublinhado meu), o que nem sempre tem sido devidamentese- Tenlado nas interpretagSes da tora de Bacon sire a cénca, 6 avers DE sous TOs mesma 4 certeza da experiéncia ordenada’. Ao contrario do que pensa Bacon, a experiéncia nao dispensa a teoria prévia, o pensamento dedutivo ‘ou mesmo a especulacéo, mas forca qualquer deles a nao dispensarem, enquanto instancia de confirmagio tiltima, a observacao dos factos. Galileu s6 refuta as dedugées de Aristételes na medida em que as acha insustentaveis e é ainda Einstein quem nos chama a atengo para o facto de os métodos experimentais de Galileu serem to imperfeitos que s6 por via de especulagées ousadas poderia preencher as lacunas entre os dados empiricos (basta recordar que.nao havia mediges de tempo inferiores ao segundo)’. Des- cartes, por seu turno, vai inequivocamente das ideias para as coisas e nao das coisas para as ideias e estabelece a prioridade da metafisica enquanto fundamento tltimo da ciéncia. As ideias que presidem a observagio e a ex- perimentacio sao as ideias claras e simples a par- tir das quais se pode ascender a um conhecimento mais profundo e rigoroso da natureza. Essas ideias so as ideias matematicas. A matemdtica fornece 7. Cle. A. Koyté, Consideragdes sobre Descartes. Lisboa, Presenca, 1981, p30. 8. Hinstein, ob. cit, p. XIX. ‘Discuns son A aC » 4 ciéncia moderna, nao sé o instrumento privile- giado de andlise, como também a légica da inves- tigaciio, como ainda o modelo de representagao da propria estrutura da matéria. Fara Galileu, 0 livro da natureza est inscrito em caracteres geo- métricos’ e Einstein nao pensa de modo diferen- te. Deste lugar central da matemética na ciéncia moderna derivam duas consequéncias principais. Em primeiro lugar, conhecer significa quantificar. Origor cientifico afere-se pelo rigordas medicdes. As qualidades intrinsecas do objecto sao, por as- sim dizer, desqualificadas e em seu lugar passam. 8. Entre muitos outros passos do Didlogo sore os Grandes Siste- tna, ef. a seguints fala de Salviat: “No que respita & compreensio intensiva ena medida em que este termo denotaa compreensio per- feitadealguma proposicto, igo que a intligencis humana compreen- de algumas delasperfeitamente que, portant, a respeito delas tern tuma certoza to absoluta quanto a propria natureza. Tas so as pro- posigbes das ciacias matométicas, sto 6 da geometiae da avis a nas quas a inteligéncia divina conhece infinitamente mais propo- sigGes porque as conhoce todas. Mas no que respeita aquelas poucas que inteligtncia humana compreende, penso que o seu conhecimen- {0 6 igual a0 Divino em certeza objectiva porque, nesses casos, conse gue compreender a necessidade para elésn da qual nfo hd maior cer teza", Galilou, ob. et, p. 103 10, admiragio de Einstin por Gaile est berm expressa 0 pre {4cio referido na nota 5. O modo radical (¢instintvo) como Einstein *yé" anatareza matemstica da esteutura da maiéiaexplicaem parte a ssa longa batalha sobre a intorpretagio cla mecca quantica (especal- mente cotzaainterpretao de Copenhague). Cie B, Hoffmann, Abert Einstein, Creator and Reba, Nova Torque, New American Library, 1973, p.173 ess 2» OWWENTURADE Sous SANTOS a imperar as quantidades em que eventualmente se podem traduzir. O que nao é quantificavel 6 cientificamente irrelevante. Em segundo lugar, o meétodo cientifico assenta na redugéo da comple- xidade. O mundo é complicado e a mente huma- na nao o pode compreender completamente. Co- nhecer significa dividir e classificar para depois poder determinar relagdes sistematicas entre o que se separou. Jé em Descartes uma das regras do Mé- todo consiste precisamente em “dividir cada uma das dificuldades... em tantas parcelas quanto for possivel e requerido para melhor as resolver”. A divisao primordial é a que distingue entre “con- dices iniciais” e “leis da natureza’”. AS condicoes iniciais sao 0 reino da complicacao, do acidente e onde é necessério seleccionar as que estabelecem, as condigGes relevantes dos factos a observar; as leis da natureza sfo o reino da simplicidade e da regularidade onde é posstvel observar emedir com rigor. Esta distingao entre condigdes iniciais e leis da natureza nada tem de “natural”. Como bem observa Eugene Wigner, é mesmo completamen- te arbitréria!®, No entanto, é nela que assenta toda a ciéncia moderna. 11 Descartes, ob. cit, p. 17. 12, E. Wigner, Symmetries and Reflections. Scientific Essays. Cambridge, Cambridge University Press, 1970, p.3 Ui CURSO SoARE AS GENTS » A natureza te6rica do conhecimento cientf- fico decorre dos pressupostos epistemol6gicos e das regras metodolégicas jé referidas. E um co- nhecimento causal que aspira & formulacdo de leis, a luz de regularidades observadas, com vis- taa prever o comportamento futuro dos fenéme- nos. A descoberta das leis da natureza assenta, por um lado, e como jé se referiu, no isolamento das condicées iniciais relevantes (por exemplo, no caso da queda dos corpos, a posicao inicial ea velocidade do corpo em queda) e, por outro lado, no pressuposto de que.o resultado se produzira independentemente do lugar e do tempo em que se realizarem as condigées iniciais. Por outras palavras, a descoberta das leis da natureza as- senta no principio de que a posigiio absoluta ¢ 0 tempo absoluto nunca sao condigées iniciais re- levantes. Este princfpio é, segundo Wigner, o mais importante teorema da invariincia na fisica classica’. As leis, enquanto categorias de inteligibili- dade, repousam num conceito de causalidade es- colhido, nao arbitrariamente, entre os oferecidos pela fisica aristotélica. Aristételes distingue qua- 13, E. Wigner, ob. cit, p. 226 x” AVENTURA DESOUSA SANTOS tro tipos de causa: a causa material, a causa for- mal, a causa eficiente e a causa final. As leis da ciéncia moderna sdo um tipo de causa formal que privilegia 0 como funciona das coisas em detri- mento de qual o agente ou qual o fim das coisas. E por esta via que 0 conhecimento cientifico rom- pe com o conhecimento do senso comum. E que, enquanto no senso comum, e portanto no conhe- cimento pratico em que ele se traduz, a causa ea intengao convivem sem problemas, na ciéncia a determinac&o da causa formal obtém-se com a expulsio da intengdo. E este tipo de causa formal que permite prever e, portanto, intervir no real e que, em tltima instancia, permite 8 ciéncia mo- dea responder a pergunta sobre os fundamen- tos do seu rigor e da sua verdade com o elenco dos seus éxitos na manipulaco e na transforma- cdo do real. Umconhecimento baseado na formulacao de leis tem como pressuposto metatedrico a ideia de ordem e de estabilidade do mundo, a ideia de que o passado se repete no futuro. Segundo a mecanica newtoniana, o mundo da matériaé uma méquina cujas operagdes se podem determinar exactamente por meio de leis fisicas e mateméti- cas, um mundo estatico e eterno a flutuar num ‘Un piscunso Sora as ccs au espaco vazio, um mundo que o racisnalismo car- tesiano torna cognoscivel por via da sua decom- posicao nos elementos que o constituem. Esta ideia do mundo-maquina é de tal modo podero- sa que se vai transformar na grande hipétese universal da época moderna, o mecanicismo. Pode parecer surpreendente e até paradoxal que uma forma de conhecimento, assente numa tal io. do mundo, tenha vindo a constituir um dos pilares da ideia de progresso que ganha corpo no pensamento europeu a partir de século XVIII e que 6 o grande sinal intelectual da ascensio da burguesia"*. Mas a verdade é que a ordem e a es- tabilidade do mundo sao a pré-condicio da trans- formacao tecnolégica do real. O determinismo mecanicista ¢ 0 horizonte certo de uma forma de conhecimento que se pre- tende utilitdrio e funcional, reconhecido menos pela capacidade de compreender profundamen- te o real do que pela capacidade de o dominar e transformar. No plano social, é esse também o horizonte cognitivo mais adequado aos interes- ses da burguesia ascendente que via na socieda- 14, Cir, entre muitos, &. Pollard, The Idee of Progress. Londzes, Penguin, 1971, p. 98 a avevTuRA DE SOUSA SASTOS de em que comecava a dominar o estédio final da evolugéo da humanidade (0 estado positivo de Comte; a sociedade industrial de Spencer; a solidariedade organica de Durkheim). Daf que 0 prestigio de Newton e das leis simples a que re- duzia toda a complexidade da ordem césmica tenham convertido a ciéncia moderna no mode- lo de racionalidade hegeménica que a pouco e pouco transbordou do estudo da natureza para co estudo da sociedade. Tal como foi possivel des- cobrir as leis da natureza, seria igualmente pos- sivel descobrir as leis da sociedade. Bacon, Vico Montesquieu sio os grandes precursores. Bacon afirma a plasticidade da natureza huinanae, por- tanto, a sua perfectibilidade, dadas as condicdes sociais, juridicas e politicas adequadas, condigées que é possivel determinar com rigor, Vico su- gere a cxisténcia de leis que governam determi- nisticamente a evolugao das sociedades e tornam possivel prever os resultados das acces colecti- vas. Com extraordindria premonigéo Vico iden- tifica e resolve a contradigo entre a liberdade ea imprevisibilidade da acco humana individual e a determinacao e previsibilidade da acco 15. Bacon, ob. cit. {a iscunso sont as CNS 3 colectiva"*. Montesquieu pode ser considerado um precursor da sociologia do direito ao estabelecer a relagio entre as leis do sistema jurfdico, feitas pelo homem, e as leis inescapaveis da natureza”. No século XVIIL este espirito precursor éam- pliadoe aprofundadoeo fermentointelectual que daf resulta, as luzes, vai criar as condigdes para a emergéncia das ciéncias sociais no século XIX. A consciéncia filoséfica da ciéncia moderna, que ti- vera no racionalismo cartesiano e no empirismo baconiano as suas primeiras formulagées, veio a condensar-se no positivismo oitocentista. Dado que, segundo este, sé hd duas formas de conhe- cimento cientifico — as disciplinas formais da l6gica e da matemética e as ciéncias empfricas segundo 0 modelo mecanicista das ciéncias na- turais — as ciéncias sociais nasceram para ser empiricas. O modo como o modelo mecanicista foi assumido foi, no entanto, diverso. Distingo duas vertentes principais: a primeira, sem diivi- da dominante, consistiu em aplicar, na medida do possivel, ao estudo da sociedade todos os prin- cipios epistemolégicos e metodolégicos que pre- 16, Vico, Scienza Nuove, in Opere. Milso, Riccardi, 1953. 17, Montesquieu, L'Esprit des Lois. Paris, Les Belles-Lettres, 1950. 4 SouvENTURA De Sous suTos sidiam ao estudo da natureza desde o século XVI; a segunda, durante muito tempo marginal mas hoje cada vez mais seguida, consistiu em reivin- dicar para as ciéncias sociais um estatuto episte- molégico e metodolégico préprio, com base na especificidade do ser humano e sua distingo po- lar em relagdo a natureza. Estas duas concepgdes tém sido consideradas antagonicas, a primeira su- jeita ao jugo positivista, a segunda liberta dele, e qualquer delas reivindicando o monopdlio do co- nhecimento cientifico-social. Apresentarei adian- te uma interpretagio diferente, mas para jé carac- terizarei sucintamente cada uma destas variantes. A primeira variante — cujo compromisso epistemoldgico esta bem simbolizado no nome de “fisica social” com que inicialmente se desig- naram 0s estudos cientificos da sociedade— par- te do pressuposto que as ciéncias naturais sao uma aplicagéo ou concretizacdo de um modelo de conhecimento universalmente valido e, de res- to, 0 tinico valido. Portanto, por maiores que se- jam as diferengas entre os fenémenos naturais e 0s fenémenos sociais é sempre possivel estudar 06 tiltimos como se fossem os primeiros. Reco- nhece-se que essas diferengas actuam contra os fenémenos sociais, ou seja, tornam mais dificil 0 ‘s cunSo Som as NCS * cumprimento do canone metodolégico e menos rigoroso o conhecimento a que se chega, mas nio ha diferencas qualitativas entre 0 proceso cien- tifico neste dominio e o que preside ao estudo dos fendémenos naturais. Para estudar cs fenémenos sociais como se fossem fenémenos naturais, ou seja, para conceber os factos sociais como coisas, como pretendia Durkheim’, o fundador da socio- logia académica, é necessario reduzi: os factos so- ciais as suas dimensées externas, cbservaveis e mensurdveis. As causas do aumento da taxa de suicidio na Europa do virar do século nao sao pro- curadas nos motivos invocados pelos suicidas e deixados em cartas, como é costume, mas antes a partir da verificagao de regularidades em fungao de condigées tais como 0 sexo, o estado civil, a exis- téncia ou nao de filhos, a religiao dos suicidas”. Porque essa reducgdo nem sempre é facil e nem sempre se consegue sem distorcer grossei- ramente os factos ou sem os reduzir 4 quase irre- levancia, as ciéncias sociais tém um longo cami- nho a percorrer no sentido de se compatibiliza- rem com os critérios de cientificidade das cién- 18. B. Durkheim, As Regras do Método Sociol. Lishoa, Presen- sa, 1980 19. E Durkheim, 0 Swicitio, Lisboa, Presensa, 1973. “ owvecTuRA DeSousa sos cias naturais. Os obstéculos sao enormes mas nao so insuperdveis, Ernest Nagel, em The Structure of Science, simboliza bem o esforgo desenvolvido nesta variante para identificar os obstdculos e apontar as vias da sua superacdo, Eis alguns dos principais obstdculos: as ciéncias sociais nao dis- poem de teorias explicativas que lhes permitam abstrair do real para depois buscar nele, de modo metodologicamente controlado, a prova adequa- da; as ciéncias sociais nao podem estabelecer leis universais porque os fenémenos sociais sao his- toricamente condicionados e culturalmente de- terminados; as ciéncias sociais nao podem pro- duzir previsdes fidveis porque os seres humanos modificam 0 seu comportamento em fungio do conhecimento que sobre ele se adquire; os fené- menos sociais sao de natureza subjectiva e como tal no se deixam captar pela objectividade do comportamento; as ciéncias sociais nao sio objectivas porque o cientista social nao pode li- bertar-se, no acto de observacdo, dos valores que informam a sua pratica em geral e, portanto, tam- bém a sua pratica de cientista”, 20. Emest Nagel, The Structure of Science. Problems inthe Logic of Scientific Explanation. Nova Torque, Harcourt, Brace & World, 1961, p-d47 es. ‘A DISCURSO SORE ASIEN ” Em relacdo a cada um destes obstdculos, Nagel tenta demonstrar que a oposigao entre as ciéncias sociais e as ciéncias naturais nao é tao linear quanto se julga e que, na medida em que ha diferencas, elas so superdveis ou negligen- cidveis. Reconhece, no entanto, que a superagao dos obstdculos nem sempre é fécil e que essa é a razo principal do atraso das ciéncias sociais em telagao as ciéncias naturais. A ideia do atraso das ciéncias sociais é a ideia central da argumenta- do metodolégica nesta variante, e, com ela, a ideia de que esse atraso, com tempo e dinheiro, poderd vir a ser reduzido ou mesmo eliminado. Na teoria das revolugées cientfficas de Thomas Kuhn o atraso das ciéncias sociais é dado pelo cardcter pré-paradigmitico destas ciéncias, ao contrario das ciéncias naturais, essas sim, pa- radigmiéticas. Enquanto, nas ciéncias naturais, 0 desenvolvimento do conhecimento tornou pos- sivel a formulagao de um conjunto de prinefpios ede teorias sobre a estrutura da matéria que so aceites sem discussdo por toda 2 comunidade cientifica, conjunto esse que designa por paradig- ma, nas ciéncias sociais nao ha consenso para- digmético, pelo que o debate tende a atravessar verticalmente toda a espessura do conhecimento » varus DE SOUSA STDS adquirido. O esforco eo desperdicio que isso acar- reta é simultaneamente causa e efeito do atraso das ciéncias sociais. ‘A segunda vertente reivindica para as cién- cias sociais um estatuto metodoldgico préprio. Os obstdculos que ha pouco enunciei so, segundo esta vertente, intransponiveis. Para alguns, é a prdpria ideia de ciéncia da sociedade que esté em causa, para outros trata-se téo-s6 de empreender uma ciéncia diferente. O argumento fundamen- tal é que a acco humana é radicalmente subjec- tiva. O comportamento humano, ao contrario dos fenémenos naturais, nao pode ser descrito e mui- to menos explicado com base nas suas caracte- risticas exteriores e objectivaveis, uma vez que 0 mesmo acto externo pode corresponder a senti- dos de acco muito diferentes. A ciéncia social serd sempre uma ciéncia subjectiva e nao objecti- va como as ciéncias naturais; tem de compreen- der os fenémenos sociais a partir das atitudes __ mentais e do sentido que os agentes conferem as suas acgdes, para o que é necessdrio utilizar mé- todos de investigacio e mesmo critérios,episte- mol6gicos diferentes dos correntes nas ciéncias naturais, métodos qualitativos em vez de quan- titativos, com vista obtencao de um conheci- wa DscuRs0 s08Re As cas » mento intersubjectivo, descritivo e compreensi- vo, em vez de um conhecimento objectivo, expli- cativo e nomotético. Esta concepgao de ciéncia social reconhece- se numa postura antipositivista e assenta na tra- digo filosdfica da fenomenologia ¢ nela conver- gem diferentes variantes, desde as mais modera- das (como a de Max Weber} até 2s mais extre- mistas (como a de Peter Winch)”. Contudo, numa teflexéo mais aprofundada, esta concepcao, tal como tem vindo a ser elaborada, revela-se mais subsididria do modelo de racionalidade das cién- cias naturais do que parece. Partilha com este modelo a distingdo natureza/ser humano e tal como ele tem da natureza uma visao mecanicista & qual contrapée, com evidéncia esperada, a es- pecificidade do ser humano. A esta distingao, primordial na revolugio cientifica do século XVI, ‘v4o-se sobrepor nos séculos seguintes outras, tal como a distingao natureza/cultura e a distinggo ser humano/animal, para no século XVIII se po- der celebrar o caracter tinico do ser humano. A 21, Max Weber, Methodologischen Schriften. 2ranktur, Fischer, 1968. 22. Peter Winch, The Idea of a Social Science and is Relation to Piilosoply. Londses, Routledge e Kegan Paul, 197. @ sewer oes sce fronteira que entao se estabelece entre 0 estudo do ser humano e 0 estudo da natureza nao deixa de ser prisioneira do reconhecimento da priorida- de cognitiva das ciéncias naturais, pois, se, por um lado, se recusam os condicionantes biolégicos do comportamento humano, pelo outro, usam-se ar- gumentos biolégicos para fixar a especificidade do ser humano. Pode, pois, concluir-se que ambas as concepgGes de ciéncia social a que aludi perten- cem ao paradigma da ciéncia moderna, ainda que aconcepgao mencionada em segundo lugar repre- sente, dentro deste paradigma, um sinal de crise e contenha alguns dos componentes da transigio para um outro paradigma cientffico. A CRISE DO PARADIGMA DOMINANTE Sao hoje muitos e fortes os sinais de que o modelo de racionalidade cientifica que acabo de descrever em alguns dos seus tragos principais atravessa uma profunda . Defenderei nesta seccao: primeiro, que essa crise é nao s6 profun- da como irreversivel; segundo, que estamos a viver um periodo de revolugio.cientifica que se iniciou com Einstein e a mecnica quantica endo se sabe ainda, quando acabatictercelro, que os ‘ac scunso some ascuBNCAS “ sinais nos permitem téo-s6 especular acerca do paradigma que emergird deste perfodo revolu- ciondrio mas que, desde j4, se pode afirmar com seguranca que colapsarao as distingdes basicas em que assenta 6 paradigma dominante é a qué aludi na seccao precedente. (A crise do paradigma dominante é 0 resul- tado interactive de uma pluralidade de condi- @eS|Distingo entre condigbes sociais e condiges teGficas. Darei mais atengio as condigées teéri- case por elas comeco. A primeira observagio, que no é tao trivial quanto parece, 6 que a identifica- 40 dos limites, das{insuficiéncias estruturais do paradigma cientificd moderno € 0 resultado do grande avangono conhecimento quecle propiciou.| Oaprofundamento do conhecimento permitiu ver a fragilidade dos pilares em que se funda. Einstein constitui 0 primeiro rombo no pa- radigma da ciéncia moderna, um rombo, alias, mais importante do que o que Einstein foi subjectivamente capaz de admitir. Um dos pen- samentos mais profundos de Binstzin é 0 da re- latividade da simultaneidade. Einstein distingue entre a simultaneidade de acontecimentos pre- sentes no mesmo lugar e a simultaneidade de acontecimentos distantes, em particular de acon- a sAvERTURA DE SOUSA SANTOS tecimentos separados por distancias astronémi- cas. Em relagio a estes tiltimos, o problema légi- co a resolver 6 0 seguintefcomo é que 0 observa- dor estabelece a ordem temporal de acontecimen- tos no espaco2{[Certamente por medicies da ve- locidade da luz, partindo do pressuposto, que é fundamental a teoria de Einstein, que ndo hé na natureza velocidade superior & da luz. No entan- to, ao medir a velocidade numa direcgo tinica (de A a B), Einstein defronta-se com um circulo vicioso: a fim de determinar a simultaneidade dos acontecimentos distantes & necessério conhecer a velocidade; mas para medir a velocidade é ne- cessério conhecer a simultaneidade dos aconte- cimentos. Com um golpe de génio, Einstein rom- pe com este circulo, demonstrando que a simul- taneidade de acontecimentos distantes nao pode ser verificada, pode tao-s6 ser definida. E, portan- to, arbitréria e daf que, como salienta Reichenbach, quando fazemos medigées nao pode haver con- tradicSes nos resultados uma vez que estes nos devolverao a simultaneidade que nés introduzi- mos por definicao no sistema de medigao®. Esta 29. 1. Reichenbach, From Copernicus to Einstein. Nova Torque, Dover Publications, 197, p60 Us caRGo Soak AS CENCAS * teoria veio revolucionar as nossas concep¢des de espaco e de tempo [Nao havendo simultaneida- de universal, 0 tempo e g espago absolutos de Newion deixam de existiz,[Dois acontecimentos simultaneos num sistema He referéncia nao sio simult4neos noutro sistema de referénciq. Asleis da fisica e da geometria assentam em medi¢ées locais. “Os instrumentos de medida, sejam relé- gios ou metros, nao tém magnitudes independen- tes, ajustam-se ao campo métrico do espaco, a es- trutura do qual se manifesta mais Caramente nos raios de luz”. . O cardcter local das medigées e, portanto, do rigor do conhecimento que com base nelas se obtém vai inspirar o surgimento da segunda con- digo tedrica da crise do paradigma dominante, amecanica quantica. Se Einstein relativizou o ri- gor das leis de Newton no dominio da astrofisi- ca, a mecanica quantica fé-lo no dominio da mi- crofisica. Heisenberg e Bohr demonstram que no € possivel observar ou medir um cbjecto sem in- terferir nele, sem o alterar, e a tal ponto que o objecto que sai de um processo de medigao nao é ‘o mesmo que ld entrou. Como ilustra Wigner, “a 24. H. Reichenbach, ob. cit, p. 68. “ fexvarTuna pe sous sasTOS medigao da curvatura do espago causada por ‘uma particula no pode ser levada a cabo sem criar novos campos que sao bilides de vezes maio- res que 0 campo sob investigacao”®/A ideia de que nao conhecemos do real sendo o que nele in- troduzimos, ou seja, que ndo conhecemos do real sendo a nossa intervengao netfee bem expres- sano prinefpio da incerteza dé Heisenberg: nao se podem reduzir simultaneamente os erros da me- digo da velocidade e da posiao das particulas; © que for feito para reduzir o erro de uma das medig6es aumenta o erro da outra”, Este princi- pio, e, portanto, a demonstragao da interferéncia estrutural do sujeito no objecto observado, tem implicacées de ole ke um lado, sendo estru- turalmente limitado 3'rigor do nosso conheci- mento, 86 podemos aspirar a resultados aproxi- mados e por isso as leis da fisica sao tao-s6 probabilisticas, Por outro lado, a hipstese do de- terminismo mecanicista é inviabilizada uma vez que a totalidade do real ndo se reduz a soma das partes em que a dividimos para observar e me- 25.E, Wigner, ob ct, p.7. 26. W. Heisenberg, A Iinagem da Natureza na Fisica Moderna. Lis- boa, Livros do Brasil, s/d.; W. Heisenberg, Physics and Beyond. Lon- des, Allen and Unwin, 1971 ‘DISCUS SORREAS CNC 6 dir |Por ultimo, a distingao sujeito / objecto é mui- to thais complexa do que & primeira vista pode parecer. A distingao perde os seus contornos dicot6micos e assume a forma de um cantinuy Origor da medic&o posto em causa pela me- clinica quantica seré ainda mais profundamente abalado se se questionar o rigor do veiculo for mal em que a medicdo ¢ expressa, ou seja, o rigor da matematica. E isso 0 que sucede com as inves- tigagdes de Gédel e que por essa razao considero serem a terceira condicdo.da-crise-doparadigma. teorema da incompletude (ou do nao comple- tamento) e os teoremas sobre a impossibilidade, em certas circunstancias, de encon-rar dentro de um dado sistema formal a prova da sua consis- téncia vieram mostrar que, (mesmo seguindo & risca as regras da ldgica matematica, 6 possivel formular proposig6es indecidiveis, proposigSes que se ndo podem demonstrar ner refutay, sen- do que uma dessas proposicées é precisamente a que postula 0 cardcter nao-contraditério do sis- tema”. Se as leis da natureza fundamentam 0 seu 27, O impacto dos teoremas de Gédel na filosofia da ciéncia tem sido diversamente avaliado. Clr, por exemplo, J. Ladriére, “Les Limi- tes de la Formalization”, in J. Plaget (org), Logique et Connaissance Scientifique, Pavis, Gallimard, 1967, p. 312 e ss; K. Jones, Physics as « AVENTURA De SOUSA SANTOS rigor no rigor das formalizagdes mateméticas em que se expressam, as investigagées de Gédel vém demonstrar que o rigor da matemitica carece ele proprio de fundamento/ A partir daqui € possi- vel nao s6 questionar o rigor da matematica fomo também redefini-lo ¢nquanto forma de rigor que se opée a outras formas de rigor alternativo, uma forma de rigor cujas condigdes de éxito na cién- cia moderna nao podem continuar a ser concebi- das como naturais e dbvias. A propria filosofia da matemética, sobretudo a que incide sobre a experiéncia matematica, tem vindo a problema- tizar criativamente estes temas e reconhece hoje que o rigor matematico, como qualquer outra for- ma de rigor, assenta num critério de selectividade e que, como tal, tem um lado construtivo e um lado destrutivo. Ca quarta condico teérica da crise-do_para- digma newtoniano € constituida pelos avancos do conhecimento nos dominios da microfisica, da quimica e da biologig nos tiltimos vinte anos. A ‘Metaphor. Nova Torque, New American Library, 1982, p.158;J.Parain- Vial, Philosophie des Sciences de la Nature, Tendances Nowellee. Paris, Klincksiock, 1983, p. 52 e ss R. Thom, Pardbolas « Catstrofes. Lisboa, D. Quixote, 1985, p. 36 J. Briggs e F. D. Peat, Looking Glass Universe. ‘The Emerging Science of Wholeness, Londres, Fontana, 1985, p. 22. {a DSCURSO S0IRE AS CENCHS © titulo de exemplo, menciono as investigacdes do fisico-quimico Ilya Prigogine. A teoria das estru- turas dissipativas e o principio da “ordem atra- vés de flutuacées” estabelecem que em sistemas abertos, ou seja, em sistemas que funcionam nas margens da estabilidade, a evolugio explica-se por flutuagdes de energia que em ceterminados momentos, nunca inteiramente previsiveis, de- sencadeiam espontaneamente reaccdes que, por via de mecanismos nao lineares, pressionam o sistema para além de um limite maximo de ins- tabilidade e 0 conduzem a um novo estado macroscépico. Esta transformagio irreversivel e termodinamica é 0 resultado da interaccao de processos microscépicos segundo uma l6gica de auto-organizacdo numa situagéo de ndo-equilt- brio. A situagao de bifurcagio, ou seja, 0 ponto critico em que a minima flutuagao de energia pode conduzir a um novo estado, representa a potencialidade do sistema em ser atrafdo para um novo estado de menor entropia. Deste modo a irreversibilidade nos sistemas abe-tos significa que estes sfio produto da sua histéria®. 28.1. Prigogine e. Stengers, La Nowelle Altance Metamorphose de a Science, Pasi, Gallimard, 1979; L. Prigogine, From Bring to Becoming. Francisco, Freeman, 1980; I. Prigogine, “Time, Ireversibitity and « onvanruna De sous sata A importancia desta teoria esta na nova con- cepsio da matéria e da natureza que propée, uma concepcao dificilmente compagindvel com a que herddmos da fisica cléssica(Em vez da eternida- de, a histéria; em vez do determinismo, a impre- visibilidade; em vez do mecanicismo, a interpe- netrac&o, a espontaneidade e a auto-organizacéo; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade ea evolucio; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade eo acidente, A teo- ria de Prigogine recupera inclusivamente concei- tos aristotélicos tais como os conceitos de poten- cialidade e virtualidade que a revolugao cientifi- ca do século XVI parecia ter atirado definitiva- mente para o lixo da histéria. (Masa importancia maior desta teoria est4 em que ela no é um fenémeno isolad6}Faz parte de um movimento convergente, pujante sobretudo a partir da Ultima década, qu€atravessa as va- rias ciéncias da natureza e até as ciéncias sociais, um movimento de vocacao transdisciplinar que Jantsch designa por paradigma da auto-organi- zacao}e que tem afloragées, entre outras, na teo- Randomness”, in E. Jantsch (org), The Evolutionary Vision. Boulder, ‘Westview Press, 1981, p. 73 € 8. ‘UM DIscURSO SORE AS cabs ° ria de Prigogine, na sinergética de Haken®, no conceito de hiperciclo e na teoria da origem da vida de Eigen®, no conceito de autopoiesis de Maturana e Varela”, na teoria das catdstrofes de Thom®, na teoria da evolugao de Jantsch®, na teo- tia da “ordem implicada” de David Bohm* ou na teoria da matriz-S de Geoffrey Chew e na filo- sofia do “bootstrap” que Ihe subjaz**. Este movi- mento cientifico e as demais inovagées tedricas que atrds defini como outras tantas condigdes te6- 78. F. Haken, Syergtice: An Introduction. Hekelbecg, Springer 197; 1. Haken “Synorglics ~ An Interdgcipirary Approach fo Phenomena of SelOrganizaton”, Gefr, 16 (1935. 205 130. M, Higene P Schuster, The yer a Evincpeof Neturl SlfOrganzatin. Heidelberg Springer, 1973. 31H. R Maturana eF. Varela, De Mapnts Sees Vive. Sants- g0.do Chil, Eaitorial Universiti, 1973; 1 R Maturana eF. Vaele, [Rutopoietic Sytem, Urbana, Balgial Compute: Laboratory Uni ‘ery of Minis, 1975. Cz. também, F. Benscles . Hee W. Koch (ores) Anopsse Commanicatin ond Sait, The Toor ofAutapite Salons nthe Scel Scene rank, Camp, 1960. 32.R Thom, ob ct, p 850s 58. E Jantech, The Sef Organising Unizerse: Scent ond Haman Inplicaton othe Emerging Poadign of Elution, Oxon, Pergamon, 1980; Jansch, “Unijing Principles of Evolution” n Janse org) The Evolutionary Visim cl, p. 83 €8. 3 D, Bohm, Wholenss andthe Inplicte Ore. Londres, Atk Paperbacks 1984 35. G. Chevy Bootstrap: a scenic ie", Scene, 161 (1968, p. 762 ess G. Chew, “Hardon bootstrap: triumph or frustration?” Pings Today, 23 970, p23 ee; F Capa, "Qua pyc without ‘quarks A review ofrecnt developments inS-matis theory”, American Iournt of Pris, 47 (1979). Thess if avenue De SOUSA SANTOS ricas dd crise do, paradigma dominante tém vin- do a propiciar uma profunda reflexag/epistemo- légica sobre o conhecimento cientifico, uma re- flexdo de tal modo rica e diversificada que, me- Thor do que qualquer outra circunstncia, carac- teriza exemplarmente a situacdo intelectual do tempo presente. Esta reflexao apresenta duas facetas sociglégicas importantesEm primeiro lugat, a reflexo é levada a cabo predominante- ‘mente pelospréprios cientistas, por cientistas que adquiriram uma competéncia e um interesse fi- loséficos para problematizar a sua prética cienti- fica. Nao € arriscado dizer que nunca houve tan- tos cientistas-filsofos como actualmente, e isso no se deve a uma evolugio arbitréria do inte- resse intelectual. Depois da euforia cientista do século XIX e da consequente aversao a reflexiio filoséfica, bem simbolizada pelo positivismo, chegémos a finais do século XX possufdos pelo ((desejo quase desesperado de complementarmos ‘0 conhecimento das coisas com o conhecimento do conhecimento das coisas, isto é, com 0 conhe- cimento de nés prépriog/A segunda faceta desta reflexdo é que ela abrange questées que antes eram deixadas aos socislogos) A andlise das con- digGes sociais, dos contextos culturais, dos mo- delos organizacionais da investigacao cientifica, ‘wc Discus SORE As cHENCUS a antes acantonada no campo separado e estanque da sociologia da ciéncia, passou a ocupar papel de relevo na reflexdo epistemolégica. Do contetido desta reflexio respigarei, a ti- tulo ilustrativo, alguns dos temas principais. Em primeiro lugar so questionados 0 conceito de lei e 0 conceito de causalidade que lhe esté asso- ciadoJA formulagio das leis da natureza funda- se na ideia de que os fenémenos observados in- dependem de tudo excepto de um conjunto ra- zoavelmente pequeno de condigées (as condigées iniciais) cuja interferéncia 6 observada e medida. Esta ideia, reconhece-se hoje, obrigaa separagées grosseiras entre os fenémenos, separagées que, alis, sdo sempre provis6rias e precérias uma vez que a verificacao da no interferéncia de certos factores é sempre produto de um conhecimento imperfeito, por mais perfeito que seja. As leis tem assim um cardcter probabilfstico, aproximativo e provisério, bem expresso no princfvio da falsifi cabilidade de Popper. Mas acima de tudo{a sim- plicidade das leis constitui uma simplificagao ar- bitrdria da realidade que nos confina a um hori- zonte minimo para além do qual otros conheci- mentos da natureza] provavelmente mais ricos e com mais interesse humano, ficam por conhecer. 2 owvaNTURA DeSousa STOS (Na biologia,londe as interacgdes entre fenéme- nos e formas de auto-organizacao em totalida- des nao mec4nicas sao mais visiveis, mas tam- bém nas demais ciéncias{a nogio de lei tem vin- doa ser parcial e sucessivamente substituida pe- las nogdes de sistema, de estrutura, de modelo e, por tiltimo, pela nogéo de processo| O declinio da hegemonia da legalidade é concomitante do declinio da hegemonia da causalidade. O ques- tionamento da causalidade nos tempos moder- nos vem de longe, pelo menos desde David Hume e do positivismo légico. A reflexéo critica tem incidido tanto no problema ontolégico da causalidade (quais as caracterfsticas do nexo cau- sal?; esse nexo existe na realidade?) como no pro- blerma metodolégico da causalidade (quais 0s cri- térios de causalidade?; como reconhecer um nexo causal ou testar uma hipétese causal?). Hoje, a relativizagéo do conceito de causa parte sobretu- do do reconhecimento de que o lugar central que ele tem ocupado na ciéncia modema se explica menos por razdes ontoldgicas ou metodolégicas do que por razées pragmiticas. O conceito de cau- salidade adequa-se bem a uma ciéncia que visa intervir no real e que mede o seu éxito pelo am- ito dessa intervengio. Afinal, causa é tudo aquilo ‘UM bIscuRS SOBRE AS CIENCAS 2 sobre que se pode agir. Mesmo os defensores da causalidade, como Mario Bunge, reconhecem que ela é apenas uma das formas do determinismo e que por isso tem um lugar limitado, ainda que insubstituivel, no conhecimento cientifico¥A verdade é que, sob a égide da biologia e também da microfisica, 0 causalismo, enquanto categoria de inteligibilidade do real, tem vindo a perder terreno em favor do finalismo..) O segundo grande tema de reflexdo episte- molgica versa mais sobre o contetido do conhe- cimento cientifico do que sobre a sua forma. Sen- do um conhecimento minimo que fecha as por- tas a muitos outros saberes sobre o mundo, 0 co- nhecimento cientifico moderno é um conheci- mento desencantado e triste que transforma a natureza num autémato, ou, como diz Prigogine, num interlocutor terrivelmente estipido”. Este 35, M, Bunge, Causality ad Modern Scene Nova Torque, Dover Publications 3" edigio, 197, p. 383: "The causal principles, n short, neither a panacea nor a myth: itis a general hypothesis subsumed ‘under the universal principle of determinacy, and having an approximate validity in its proper domain”. Em Portugal ¢ justo s3- lientar neste dominio a notével obeateSzica de Armando Castzo. Cf Teoria do ConhesimentoCientifie, vols. LIV, Porto, Limiar, 1975, 1978, 1980, 1982; vol. V, Porto, Afrontamento, 1987. 37.1. Prigogine eT Stenger, ob cit p13. “ Boavanuna DE Sova SOS aviltamento da natureza acaba por aviltar 0 pré- prio cientista na medida'em que reduz 0 suposto didlogo experimental ao exercicio de uma pre- poténcia sobre a natureza. © rigor cientifico, por- que fundado no rigor matematico, éum rigor que quantifica e que, ao quantificar, desqualifica, um. rigor que, ao objectivar os fenémenos, os objectualiza e os degrada, que, ao caracterizar os fendémenos, os caricaturiza/E, em suma e final- mente, uma forma de rigor que, ao afirmar a per- sonalidade do cientista, destréi a personalidade da naturezal Nestes termos, 0 conhecimento ga- nha em rigor 0 que perde em riqueza e a retum- bancia dos éxitos da intervencio tecnolégica es- conde os limites da nossa compreensio do mun- do e reprime a pergunta pelo valor humano do afa cientifico assim concebido. Esta pergunta esta, no entanto, inscrita na prdpria relagao sujeito/ objecto que preside a ciéncia moderna, uma rela- 40 que interioriza o sujeito a custa da exteriori- zacao do objecto, tornando-os estanques e inco- municéveis. Os limites deste tipo de conhecimento sao, assii, qualitativos, nao so superdveis com maio- res quantidades de investigacao ou maior preci- so dos instrumentos| Alids, a prépria preciso ‘UM DSCURSO SORE AS CENCAS 8 quantitativa do conhecimento é estruturalmente limitada. Por exemplo, no dominio das teorias da informagio 0 teorema de Brillouin demonstra que a informagio nao é gratuita®*. Qualquer observa- 40 efectuada sobre um sistema fisico aumenta a ‘\ entropia do sistema no laboratério. O rendimen- to de uma dada experiéncia deve assim ser defi- nido pela relagio entre a informacio obtida e 0 aumento concomitante da entropia. Ora, segun- do Brillouin, esse rendimento é sempre inferior 4 unidade e sé em casos raros é prdximo dela. Nes- tes termos, a experiéncia rigorosa ¢ irrealizével pois que exigiria um dispéndio infinito de actividades humanas. Por tiltimo, a precisao é li- mitada porque, se é verdade que 0 conhecimen- to 86 sabe avancar pela via da progressiva parcelizacao do objecto, bem representada nas crescentes especializacées da ciéncia, é exacta- mente por essa via que melhor se confirma a irredutibilidade das totalidades organicas ou inorganicas as partes que as constituem e, por- tanto, o carécter distorcivo do conhecimento centrado na observagiio destas tltimas. Os factos 38, L. Brillouin, La Sefence et la Théorie de Wnformation. Pais, Masson, 1959. Ci. também, Parain-Vial, ob cit, p. (22 e ss. “6 oavENTURA DE SOUSA SANTOS observados tém vindo a escapar ao regime de iso- Iamento prisional a que a ciéncia os sujeita. Os objectos tém fronteiras cada vez menos defini- das; so constituidos por angis que se entrecru- zam em teias.complexas com os dos restantes objectos, a tal ponto que os objectos em si so me- nos reais que as relacdes entre eles. Ficou dito no inicio desta parte que a crise do paradigma da ciéncia moderna se explica por condigdes tedricas, que acabei ilustrativamente de apontar, e por condigdes sociais. Estas tiltimas nao podem ter aqui tratamento detalhado®. Re- ferirei to-s6 que, quaisquer que sejam os limites estruturais de rigor cientifico, nao restam dtivi- das que @ que a ciéncia ganhou em rigor nos tlti- mos quarenta ou cinquenta anos perdeu em ca- pacidade de auto-regulagio.| As ideias da auto- nomia da ciéncia e do desinteresse do conheci- mento cientifico, que durante muito tempo cons- tituiram a ideologia espontanea dos cientistas, colapsaram perante o fenémeno global da indus- trializago da cigncia a partir sobretudo das dé- 39, Sobre este tema cf. Boaventura de Sousa Santos, “Da Sociolo- sia da Ciéncia & Politica Cientifica”, Revista Critic de Cigncias Socials, 1.978), p. 11 ess. ‘UH DISCUS SOPRE AS CENCAS 9 cadas de trinta e quarenta\Tanto nas sociedades capitalistas como nas sociedades socialistas de Bs- tado do leste europeu, a industrializacio da cién- cia acarretou o compromisso desta com os cen- tros de poder econémico, social e politico, os quais passaram a ter um papel decisivo na definigio das prioridades cientificas. ] A industrializagéo da ciéncia manifestou-se tanto a0 nivel das aplicagées da ciéncia como a0 nivel da organizacio da investigacso cientifica. Quanto as aplicagses, as bombas de Hiroshima e Nagasaki foram um sinal trégico, a prinefpio vis- to como acidental e fortuito, mas hoje, perante a catésirofe ecolégica e o perigo do holocausto nu clear, cada vez mais visto como manifestagdo de ummodo de produgéo da ciéncia inclinado a trans- formar acidentes em ocorréncias sistematicas. “A ciéncia e a tecnologia tém vindo a reve- lar-se as duas faces de um processo hist6rico em que os interesses militares e os interesses econd- micos vdo convergindo até quase indistingo”®. (Xe dominio da organizagao do trabalho cientifi- co, a industrializagao da ciéncia produziu dois efeitos principais:/Por um lado, a comunidade 40, Boaventura de Sousa Santos, ob. cit, p. 26. OAVENTURA DE SOUSA SANTOS cientifica estratificou-se, fas relagSes de poder entre cientistas tornaram-se mais autoritdrias e desiguais e a.esmagadora maioria dos cientistas foi submetida a um processo de proletarizacao no interior dos laboratérios e dos centros de in- vestigacac\\Por outro lado, a investigacio capi- tal-intensiva (assente em instrumentos caros e raros) tornou impossivel o livre acesso ao equi- pamento, que contribuiu para o aprofundamen- todo », em termos de desenvolvimento cien- tifico e tecnolégico, entre os paises centrais e os paises periféricos. Pautada pelas condigdes tedricas e sociais que acabei de referir, a crise do paradigma da ciéncia moderna no constitui um pantano cin- zento de cepticismo ou de irracionalismo. E an- tes o retrato de uma familia intelectual numero- sa e instdvel, mas também criativa e fascinante, nomomento de se despedir, com alguma dor, dos lugares conceituais, tedricos e epistemoldgicos, ancestrais e fntimos, mas ndo mais convincentes esecurizantes, uma despedida em busca de uma vida melhor a caminho doutras paragens onde o optimismo seja mais fundado e a racionalidade mais plural e onde finalmente 0 conhecimento volte a ser uma aventura encantada..A caracteri- zagao da crise do paradigma dominante traz con- sigo o perfil do paradigma emergente. I esse 0 perfil que procurarei desenhar a seguir.. O PARADIGMA EMERGENTE A configurago do paradigma que se anun- ciano horizonte s6 pode obter-se por via especula- tiva, Uma especulagao fundada nos sinais que a crise do paradigma actual emite mas nunca por eles determinada. Alids, como diz René Poirier ¢ antes dele disseram Hegel e Heidegger, “a coe- réncia global das nossas verdades fisicas e meta- fisicas s6 se conhece retrospectivamente’", Por isso, ao falarmos do futuro, mesmo que seja de um futuro que jé nos sentimos a percorrer, o que dele dissermos ¢ sempre 0 produto de uma sin- tese pessoal embebida na imaginacdo, no meu caso na imaginacao sociolégica. Nao espanta, pois, que ainda que com alguns poatos de con- vergéncia, sejam diferentes as sinteses até agora apresentadas. Ilya Prigogine, por exemplo, fala da “nova alianca” e da metamorfose da cincia®. 41. R, Poiser, preficio a Parsin-Vial, ob ct, p 10. 42.1. Prigogine, obs. its. « HOAVENTURA De SOUSA SANTOS Fritjof Capra fala da “nova fisica” e do Taoismo da fisica*®, Eugene Wigner de “mudangas do se- gundo tipo”, Erich Jantsch do paradigma da auto-organizacao*, Daniel Bell da sociedade pés-industrial®, Habermas da sociedade comu- nicativa®. Eu falarei, por agora, do paradigma de um conhecimento prudente para uma vida de- cente. Com esta designacao quero significar que a natureza da revolugdo cientifica que atravessa- mos € estruturalmente diferente da que ocorreu no século XVI. Sendo uma revolucio cientifica que ocorre numa sociedade ela prépria revolu- cionada pela ciéncia, o paradigma a emergir dela nao pode ser apenas um paradigma cientifico (0 paradigma de um conhecimento prudente), tem de ser também um paradigma social (0 paradig- ma de uma vida decente). Apresentarei o para- digma emergente através de um conjunto de te- ses seguidas de justificacao. 49. F.Capra, The Tao of Physics. Nova Torque, Bantam Books, (1976), 11984; F. Capra, The Turning Point. Nova Torque, Bantam Books, 1983. 44, B, Wigner, ob. cit, p. 215 es. 45. Janisch, obs. cits. 46. D. Bel, The Coming Crisis of Pst-Industriel Society. Nova lorque, Basic Books, 1976. 47. J, Habermas, Theorie des Kommunikativen Handelns, 2 vols. Frankfurt, Suhrkamp, 1982. UMC DSCURSO SORE As CCS a 1, Todo o conhecimento cientifico-natural é cientifico-social A distincdo dicotémica entre ciéncias natu: rais e ciéncias sociais deixou de ter sentido e uti- lidade, Esta distingdo assenta numa concepgao mecanicista da matéria e da natureza a que con- trapde, com pressuposta evidéncia, os conceitos de ser humano, cultura e sociedade, Os avancos ecentes da fisica e da biologia poem em causa a distingao entre 0 organico e 0 inorganico, entre seres vivos e matéria inerte e mesmo entre o hu- mano e 0 néo humano. As caracteristicas da auto- organizacao, do metabolismo e da auto-reprodu- do, antes consideradas especificas dos seres vi- vos, so hoje atribuidas aos sistemas pré-celula- res de moléculas. E quer num quer noutros reco- nhecem-se propriedades e comportamentos an- tes considerados especificos dos seres humanos e das relacées sociais. A teoria das estruturas dis- sipativas de Prigogine, ou a teoria sinerg¢tica de Haken jé citadas, mas também a teoria da “ordem implicada” de David Bohm, a teoria da matriz-S de Geoffrey Chew ea filosofia do “bootstrap” que Ihe subjaz e ainda a teoria do encontro entre a fisica contemporanea e 0 misticismo oriental de Fritjof Capra, todas elas de vocagao holistica e a oAvENTURA DE SOUSA SANTOS algumas especificamente orientadas para supe- rar as inconsisténcias entre a mecdnica quantica ea teoria da relatividade de Einstein, todas estas teorias introduzem na matéria os conceitos de his- toricidade e de proceso, de liberdade, de auto- determinacao e até de consciéncia que antes oho- meme a mulher tinham reservado para si. Ecomo se o homem e a mulher se tivessem lancado na aventura de conhecer os objectos mais distantes e diferentes de si préprios, para, uma vez ai che- gados, se descobrirem reflectidos como num es- pelho. Jé no princfpio da década de sessenta e extrapolando a partir da mecanica quantica, Eugene Wigner considerava que o inanimado nao era uma qualidade diferente mas apenas um caso limite, que a disting3o corpo/alma deixara de ter sentido e que a fisicae a psicologia acabariam por se fundir numa tinica ciéncia'®. Hoje é possivel ir muito além da mecanica quantica. Enquanto esta introduziu a consciéncia no acto do conhecimen- to, nés temos hoje de a introduzir no proprio objecto do conhecimento, sabendo que, com isso, a distingao sujeito / objecto sofreré uma transfor- magio radical. Num certo regresso ao pan-psi- quismo leibniziano, comega hoje a reconhecer-se 48.6. igner, ob. ct, p. 271 ‘OM iscuns some As cates ° uma _dimensao psiquica na natureza, “a mente mais ampla” de que fala Bateson, da qual a men- te humana é apenas uma parte, uma mente imanente ao sistema social global e 4 ecologia planetaria que alguns chamam Deus®. Geoffrey ‘Chew postula a existéncia de consciéncia na na- tureza como um elemento necessdrio 4 autocon- sisténcia desta ultima e, se assim for, as futuras teorias da matéria terdo de incluir 0 estudo da consciéncia humana. Convergentemente, assiste- se a um renovado interesse pelo “inconsciente colectivo”, imanente 4 humanidade no seu todo, de Jung. Alids, Capra pretende ver as ideias de Jung — sobretudo a ideia da sincronicidade para explicar a relagao entre a realidade exterior e a realidade interior — confirmadas pelos recentes conceitos de interac¢6es locais e nao locais na fi- sica das particulas®. Tal como na sincronia jungiana, as interacqdes no locais sio instanta- neas e nao podem ser previstas em termos mate- méticos precisos. Nao so, pois, produzidas por causas locais e, quando muito, poder-se-4 falar da causalidade estatistica. Capra vé em Jung uma 49.G. Bateson, Mind and Nature, Londres, Fontana, 1985. 50, Cfr. também M. Bowen, “The Ecology of Knowledge: Linking ‘the Natural and Social Sciences”, Geaforum, 16 (1965) p. 213 e ss. “ BoAvENTURA DE SOUR SATOS das alternativas tedricas as concepcdes mecani- cistas de Freud e Bateson afirma que enquanto Freud ampliou o conceito de mente para dentro (permitindo-nos abranger 0 subconsciente e 0 inconsciente) 6 necessdrio agora amplié-lo para fora (reconhecendo a existéncia de fenémenos mentais para além dos individuais e humanos). Semelhantemente, a teoria da “ordem implica- da”, que, segundo o seu autor, David Bohm, pode constituir uma base comum tanto 4 teoria quantica como 8 teoria da relatividade, concebe a consciéncia e a matéria como interdependentes sem, no entanto, estarem ligadas por nexo de cau- salidade. Sao antes duas projecgdes, rnutuamen- te envolventes, de uma realidade mais alta que nao é nem matéria nem consciéncia. O conheci- mento do paradigma emergente tende assim a ser um conhecimento nao dualista, um conheci- mento que se funda na superagao das distingdes to familiares e dbvias que até hd pouco conside- raévamos insubstitufveis, tais como natureza/cul- tura, natural / artificial, vivo/inanimado, mente/ matéria, observador/observado, subjectivo/ objectivo, colectivo/ individual, animal / pessoa. Este relativo colapso das distingdes dicotémicas repercute-se nas disciplinas cientificas que sobre elas se fundaram. Alids, sempre houve ciéncias ‘a iscuns Sonu as cubs 6 que se reconheceram mal nestas distingGes e tan- to que se tiveram de fracturar internamente para se Thes adequarem minimamente. Refiro-me & antropologia, & geografia e também a psicologia. Condensaram-se nelas privilegiadamente as con- tradicdes da separagio ciéncias naturais /ciéncias sociais. Daf que, num perfodo de transigio entre paradigmas, seja particularmente importante, do ponto de vista epistemolégico, observar o que se passa nessas ciéncias, Nao basta, porém, apontar a tendéncia para a superacao da distingao entre ciéncias naturais e ciéncias sociais, é preciso conhecer o sentido e con- tetido dessa superacao. Recorrendo de novo 4 fi- sica, trata-se de saber qual seré 0 “parametro de ordem”, segundo Haken, ou o “atractor”, segun- do Prigogine, dessa superagio, se as ciéncias na- turais, se as ciéncias sociais. Precisamente porque vivemos um estado de turbuléncia, as vibragdes do novo paradigma repercutem-se desigualmen- te nas varias regides do paradigma vigente e por isso os sinais do futuro sao ambiguos. Alguns Iéem neles a emergéncia de um novo naturalismo centrado no privilegiamento dos pressupostos bio- l6gicos do comportamento humano. Assim Konrad Lorenz ou a sociobiologia. Para estes, a « AVENTURA De BUSA SANTOS superagao da dicotomia ciéncias naturais /ciéncias sociais ocorre sob a égide das ciéncias naturais. Contra esta posigao pode objectar-se que ela tem do futuro a mesma concepgao com que as ciéncias naturais autojustificam, no seio do paradigma do- minante, 0 seu prestigio cientifico, social e politi- co ¢, por isso, s6 vé do futuro aquilo em que ele repete o presente. Se, pelo contrério, numa refle- xGo mais aprofundada, atentarmos no contetido teGrico das ciéncias que mais tém progredido no conhecimento da matéria, verificamos que a emer- gente inteligibilidade da natureza é presidida por conceitos, teorias, metéforas e analogias das cién- cias sociais, Para nao irmos mais longe, quer a teo- ria das estruturas dissipativas de Prigogine quer a teoria sinergética de Haken explicam 0 comporta- mento das particulas através dos conceitos de re- volugao social, violéncia, escravatura, dominagéo, democracia nuclear, todos eles origindrios das iéncias sociais (da sociologia, da ciéncia politica, da histéria, etc.). O mesmo sucede, ainda no cam- po da fisica te6rica, com as teorias de Capra sobre a relagio entre fisica e psicandlise, os padrées da matéria e os padres da mente concebidos como reflexos uns dos outros. Apesar de estas teorias dilufrem as fronteiras entre os objectos da fisica e ‘A DISCUS SOBRE AS BNCAS o 08 objectos da biologia, foi sem diivida no domi- nio desta tiltima que os modelos explicativos das ciéncias sociais mais se enraizaram nas décadas recentes. Os conceitos de teleomorfismo, autopoiesis, auto-organizacio, potencialidade or- ganizada, originalidade, individualidade, histori- cidade atribuem & natureza um comportamento humano. Lovelock, em livro recente sobre as cién- ias da vida, afirma que 0s nossos corpos sao cons- tituidos por cooperativas de células*. Que os modelos explicativos das ciéncias so- ciais vém subjazendo ao desenvolvimento das ciéncias naturais nas tltimas décadas prova-se, além do mais, pela facilidade com que as teo- rias fisico-naturais, uma vez formuladas no seu dominio especifico, se aplicam ou aspiram apli- cai-se no dominio social. Assim, por exemplo, Peter Allen, um dos mais estreitos colaboradores de Prigogine, tem vindo a aplicar a teoria das es- truturas dissipativas aos processos econémicos e & evolugao das cidades e das regides®, E Haken salienta as potencialidades da sinergética para ex- 51... Lovelock, Gaia: a New Look a Lie on Eerth. Oxford, Oxford University Press, 1987. ‘52 P. Allen, “The Evolutionary Paradigm of Dissipative tructres’, in E. Jantsch (org), The Boolutionary Vision, ct, p. 25 ess o DOAVERTURA DE SOUS ANTON plicar situagées revoluciondrias na sociedade®. E como se o dito de Durkheim se tivesse inverti- do e em vez de serem os fenémenos sociais a ser estudados como se fossem fenémenos naturais, serem os fenémenos naturais estudados como se fossem fenémenos sociais. O facto de a superagéo da dicotomia cién- cias naturais / ciéncias sociais ocorrer sob a égide das ciéncias sociais nao 6, contudo, suficiente para caracterizar 0 modelo de conhecimento no para- digma emergente. E que, como disse atrds, as préprias ciéncias sociais constitufram-se no sé culo XIX segundo os modelos de racionalidade das ciéncias naturais classicas e, assim, a égide das ciéncias sociais, afirmada sem mais, pode re- velar-se iluséria. Referi contudo que a constitui- ao das ciéncias sociais teve lugar segundo duas vertentes: uma mais directamente vinculada a epistemologia e A metodologia positivistas das ciéncias naturais, e outra, de vocagao anti-positi- vista, caldeada numa tradicdo filoséfica comple- xa, fenomenolégica, interaccionista, mito-simbé- lica, hermenéutica, existencialista, pragmética, 53. H. Haken, “Synergetics ~ An Interdisciplinary Approach to Phenomena of Self-organization”, cit, p. 205 « ss. | 7 {x DISCURSO SRR ASCIENCAS ° reivindicando a especificidade do estudo da so- ciedade mas tendo de, para isso, pressupor uma concepgio mecanicista da natureza. A pujanca desta segunda vertente nas duas tiltimas déca- das é indicativa de ser ela o modelo de ciéncias sociais que, numa época de revolucao cientifica, transporta a marca pés-moderna do paradigma emergente. Trata-se, como referi também, de um modelo de transicao, uma vez que define a espe- Cificidade do humano por contraposicéo a uma concepcao da natureza que as ciéncias naturais, hoje consideram ultrapassada, mas é um mode- Jo em que aquilo que o prende ao passado é me- nos forte do que aquilo que o prende ao futuro. Em resumo, & medida que as ciéncias naturais se aproximam das ciéncias sociais estas aproxi- mam-se das humanidades. O sujeito, que a cién- cia moderna langarana diaspora do conhecimen- to irracional, regressa investido da tarefa de fa- zer erguer sobre si uma nova ordem cientifica. Que este 6 0 sentido global da revolucao cien- tifica que vivemos, é também sugerido pela reconceptualizacao em curso das condigdes epis- temoldgicas e metodolégicas do conhecimento cientifico social. Referi acima alguns dos obsté- culos a cientificidade das ciéncias sociais, os quais, » Bouvevruna DE SoU sutrus segundo o paradigma ainda dominante, seriam responsaveis pelo atraso das ciéncias sociais em telacdo as ciéncias naturais. Sucede contudo que, também como referi, 0 avango do conhecimento das ciéncias naturais e a reflexao epistemoldgica que ele tem suscitado tém vindo a mostrar que 0s obstdculos ao conhecimento cientifico da so- ciedade e da cultura séo de facto condigées do co- nhecimento em geral, tanto cientifico-social como cientifico-natural. Ou seja, o que antes era a causa do maior atraso das ciéncias sociais é hoje o resul- tado do maior avanco das ciéncias naturais. Dai também que a concep¢ao de Thomas Kuhn sobre ocardcter pré-paradigmatico (isto é, menos desen- volvido) das ciéncias sociais®, que eu, aliés, subs- crevi e reformulei noutros escritos®, tenha de ser abandonada ou profundamente revista. Asuperagio da dicotomia ciéncias naturais/ ciéncias sociais tende assim a revalorizar os estu- dos humanisticos. Mas esta revalorizacao nao ocorrerd sem que as humanidades sejam, elas também, profundamente transformadas. O que 54. T. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions. Chicago, Uni- versity of Chicago Press, 1962, passim. 55, Boaventura de Sousa Santos, ob. cit, p. 29. 65. ‘UC DISCUS SORRE AS ANCA ” ha nelas de futuro é o terem resistido 4 separa- So sujeito/objecto e 0 terem preferido a com- preensao do mundo a manipulagao do mundo. Este muicleo genuino foi, no entanto, envolvido num anel de preocupacdes mistificatérias (0 eso- terismo nefelibata e a erudicao balofa). O ghetto a que as humanidades se remeteram foi em parte uma estratégia defensiva contra 0 assédio das ciéncias sociais, armadas do viés cientista triun- falmente brandido. Mas foi também o produto do esvaziamento que sofreram em face da ocupa- s40 do seu espaco pelo modelo cientista. Foi as- sim nos estudos hist6ricos com a histéria quanti- tativa, nos estudos juridicos com a ciéncia pura do direito e a dogmatica juridica, nos estudos filolégicos, literdrios e lingufsticos com o estru- turalismo. Hé que recuperar esse nticleo genu- no e pé-lo ao servigo de uma reflexio global so- bre o mundo. O texto sobre que sempre se de- brucou a filologia é uma das analogias matriciais, com que se construird no paradigma emergente o conhecimento sobre a sociedade e a natureza. Aconcepgao humanistica das ciéncias sociais enquanto agente catalisador da progressiva fu- sao das ciéncias naturais e ciéncias sociais coloca a pessoa, enquanto autor e sujeito do mundo, no 2 onvaeTum os sous sasros centro do conhecimento, mas, ao contrario das humanidades tradicionais, coloca o que hoje de- signamos por natureza no centro da pessoa. Nao hé natureza humana porque toda a natureza é humana. E pois necessério descobrir categorias de inteligibilidade globais, conceitos quentes que der- retam as fronteiras em que a ciéncia moderna di- vidiu e encerrou a realidade. A ciéncia pés-mo- derna é uma ciéncia assumidamente analdgica que conhece o que conhece pior através do que conhece melhor. J4 mencionei a analogia textual e julgo que tanto a analogia ltidica como a analo- gia dramatica, como ainda a analogia biografica, figurarao entre as categorias matriciais do para- digma emergente: o mundo, que hoje é natural ou social e amanha ser4 ambos, visto como um. texto, como um jogo, como um palco ou ainda como uma autobiografia. Clifford Geertz refere algumas destas analogias humanisticas e restrin- ge 0 seu uso as ciéncias sociais, enquanto eu as concebo como categorias de inteligibilidade uni- -versais®’, Nao vird longe o dia em que a fisica das particulas nos fale do jogo entre as particulas, ou a biologia nos fale do teatro molecular ou a as- 56. C. Geertz, Local Knowledge. Further Essays in Interpretative Anthropology. Nova lorque, Basic Books, 1983, p. 19 e ss, aC DSCURSO SOBRE AS ENC ” trofisica do texto celestial, ou ainda a quimica da biografia das reacgdes quimicas. Cada uma des- tas analogias desvela uma ponta do mundo. A nudez total, que seré sempre a de quem se vé no que vé, resultaré das configuragdes de analogias que soubermos imaginar: afinal, 0 jogo pressupde um palco, o palco exercita-se com um texto e 0 texto é a autobiografia do seu autor. Jogo, palco, texto ou biografia, o mundo € comunicagao e por isso a légica existencial da ciéncia pds-moderna é promover a “situacdo comunicativa” tal como Habermas a concebe. Nessa situasao confluem sentidos e constelagdes de sentido vindos, tal qual rios, das nascentes das nossas priticas locais e ar- rastando consigo as areias dos nossos percursos moleculares, individuais, comunitérios, sociais e planetérios. Nao se trata de uma amélgama de sentido (que nao seria sentido mas ruido), mas antes de interacgdes e de intertextualidades orga- nizadas em torno de projectos locais de conheci- mento indiviso. Daqui decorre a segunda caracte- ristica do conhecimento cientifico pés-modero. 2. Todo 0 conhecimento é local e total Na ciéncia moderna o conhecimento ‘avanga pela especializagéo. O conhecimento ¢ tanto mais ” onvayTURADESOUMA SANTOS rigoroso quanto mais restrito é 0 objecto sobre que incide. Nisso reside, alids, o que hoje se reconhece ser 0 dilema basico da ciéncia moderna: o seu ri- gor aumenta na proporcao directa da arbitrarie- dade com que espartilha o real. Sendo um conhe- cimento disciplinar, tende a ser um conhecimento disciplinado, isto é, segrega uma organizacao do saber orientada para policiar as fronteiras entre as, disciplinas e reprimir os que as quiserem trans- por. E hoje reconhecido que a excessiva parce- lizagio e disciplinarizacao do saber cientifico faz. do cientista um ignorante especializado e que isso acarreta efeitos negativos. Esses efeitos sio sobre- tudo visiveis no dominio das ciéncias aplicadas. As tecnologias preocupam-se hoje com o seu im- pacto destrutivo nos ecossistemas; a medicina ve- rifica que a hiperespecializago do saber médico transformou o doente numa quadricula sem sen- tido quando, de facto, nunca estamos doentes se- nao em geral; a farmécia descobre o lado destruti- vo dos medicamentos, tanto mais destrutivos quanto mais especificos, e procura uma nova 16- gica de combinagao quimica atenta aos equilibrios, organicos; o direito, que reduziu a complexidade da vida juridica a secura da dogmética, redescobre ‘0 mundo filoséfico e sociolégico em busca da pru- déncia perdida; a economia, que legitimara o re- La oscuRso sone as cENCLAS 6 ducionismo quantitativo e tecnocrético com o pre- tendido éxito das previsdes econémicas, é forca- da a reconhecer, perante a pobreza dos resulta- dos, que a qualidade humana e sociolégica dos agentes e processos econdmicos entra pela janela depois de ter sido expulsa pela porta; para grangear o reconhecimento dos utentes (que, pu- blicos ou privados, institucionais ou individuais, sempre estiveram numa posicao de poder em re- lac&o aos analisados) a psicologia aplicada privi- legiou instrumentos expeditos e facilmente manuseaveis, como sejam os testes, que reduzi- ram a riqueza da personalidade as exigéncias fun- cionais de instituigées unidimensionais. Os males desta parcelizacaio do conhecimen- to e do reducionismo arbitrario que transporta consigo sao hoje reconhecidos, mas as medidas piopostas para os corrigir acabam em geral por 0s reproduzir sob outra forma. Criam-se novas disciplinas para resolver os problemas produzi- dos pelas antigas e por essa via reproduz-se 0 mesmo modelo de cientificidade. Apenas para dar um exemplo, 0 médico generalista, cuja res- surreigdo visou compensar a hiperespecializacao médica, corre 0 risco de ser convertido num es- pecialista ao lado dos demais. Este efcito perver- so revela que nao ha solucgdo para este problema 6 BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS no seio do paradigma dominante e precisamente porque este tiltimo é que constitui o verdadeiro problema de que decorrem todos os outros. No paradigma emergente o conhecimento é total, tem como horizonte a totalidade universal de que fala Wigner ou a totalidade indivisa de que fala Bohm. Mas sendo total, é também local. Constitui-se em redor de temas que em dado momento sao adoptados por grupos sociais con- cretos como projectos de vida locais, sejam eles reconstituir a histéria de um lugar, manter um espaco verde, construir um computador adequa- do as necessidades locais, fazer baixar a taxa de mortalidade infantil, inventar um novo instru- mento musical, erradicar uma doenga, etc., etc. A fragmentacao pés-moderna nao é disciplinar e sim temética. Os temas sao galerias por onde os conhecimentos progridem ao encontro uns dos outros. Ao contrério do que sucede no paradig- ma actual, o conhecimento avanca 4 medida que © seu objecto se amplia, ampliacao que, como a da arvore, procede pela diferenciacao e pelo alas- tramento das rafzes em busca de novas e mais variadas interfaces. Mas sendo local, o conhecimento pés-moder- no é também total porque reconstitui os projectos ‘SOILS SoaRS as CNS 7 cognitivos locais, salientando-lhes asua exempla- ridade, e por essa via transforma-os em pensa- mento total ilustrado. A ciéncia do paradigma emergente, sendo, como deixei dito acima, assu- midamente analdgica, é também assumidamen- te tradutora, ou seja, incentiva os conceitos e as teorias desenvolvidos localmente a emigrarem para outros lugares cognitivos, de modo a pode- rem ser utilizados fora do seu contexto de ori- gem. Este procedimento, que é reprimido por uma forma de conhecimento que concebe atra- vés da operacionalizagao e generaliza através da quantidade e da uniformizacao, serd normal numa forma de conhecimento que concebe atra- vés da imaginacao e generaliza através da quali- dade e da exemplaridade. © conhecimento pés-moderne, sendo total, nao € deterministico, sendo local, nao é descriti- vista. F um conhecimento sobre as condicées de possibilidade. As condigées de possibilidade da acco humana projectada no mundo a partir de um espago-tempo local. Um conhecimento deste tipo é relativamente imetédico, constitui-se a partir de uma pluralidade metodolégica. Cada método é uma linguagem e a realidade respon- dena lingua em que é perguntada. $6 uma cons- ” VENTURA DE SOUSA SANTOS telag&o de métodos pode captar o siléncio que persiste entre cada lingua que pergunta. Numa fase de revolugao cientifica como a que atraves- samos, essa pluralidade de métodos 86 é possi- vel mediante transgresstio metodolégica”. Sen- do certo que cada método s6 esclarece o que Ihe convém e quando esclarece fé-lo sem surpresas de maior, a inovacdo cientifica consiste em inven- tar contextos persuasivos que conduzam a apli- cago dos métodos fora do seu habitat natural. Dado que a aproximagio entre ciéncias naturais © ciéncias sociais se fard no sentido destas ulti- mas, caberé especular se é possivel, por exem- plo, fazer a anilise filoldgica de um tragado ur- bano, entrevistar um passaro ou fazer observa~ 40 participante entre computadores. A transgressio metodolégica repercute-se nos estilos e géneros literdrios que presidem A escrita cientifica. A ciéncia pés-modera nao se- gue um estilo unidimensional, facilmente identi- ficdvel; o seu estilo € uma configuracao de estilos 57, Sobre 0 conceito de transgressio metodolégica cfr. Boaventu- ra de Sousa Santos, “Science and Polities: Doing Research in Rio's Squatter Settlements", in R. Luckham (org.). Law and Social Enguiry Case Studies of Research. Uppsala, Scandinavian Institute of African Studies, 1981, p.275 e ss ‘0 DISCUS SORE As CaENEAS » construida segundo o critério ea imaginacao pes- soal do cientista. A tolerancia discursiva é 0 ou- tro lado da pluralidade metodoldgica. Na fase de transicgo em que nos encontramos sao jé visiveis fortes sinais deste processo de fusdo de estilos, de interpenetragées entre cdnones de escrita. Clifford Geertz estuda o fenémeno nas ciéncias sociais e apresenta alguns exemplos: investiga- co filoséfica parecendo critica literdria no estu- do de Sartre sobre Flaubert; fantasias barrocas sob a forma de observagées empiricas (a obra de Jor- ge Luis Borges); pardbolas apresentadas como in- vestigacSes etnograficas (Carlos Castafieda); estu- dos epistemolégicos sob a forma de textos politi- cos (a obra Against Method de Paul Feyerabend)®. E como Geertz, podemos perguntar se Foucault éhistoriador, filésofo, socidlogo ou cientista po- Iitico. A composicao transdisciplinar e individua- lizada para que estes exemplos apontam sugere um movimento no sentido da maior personali- zagio do trabalho cientifico. Isto conduz a tercei- ra caracteristica do conhecimento dentifico no pa- radigma emergente. 58. C. Geertz, ob. cit, p. 20 a AVENTURA DESOUSA SANTOS 3. Todo o conhecimento é autoconhecimento A ciéncia moderna consagrou o homem en- quanto sujeito epistémico mas expulsou-o, tal como a Deus, enquanto sujeito empirico. Um co- nhecimento objectivo, factual e rigoroso nfo to- lerava a interferéncia dos valores humanos ou religiosos. Foi nesta base que se construiu a dis- tingao dicotémica sujeito/objecto. No entanto, a distingao sujeito / objecto nunca foi to pacifi- ca nas ciéncias sociais quanto nas ciéncias natu- rais e a isso mesmo se atribuiu, como disse, 0 maior atraso das primeiras em relagio as segun- das. Afinal, os objectos de estudo eram homens e mulheres como aqueles que os estudavam. A distingao epistemolégica entre sujeito e objecto teve de se articular metodologicamente com a distancia empirica entre sujeito e objecto. Isto mesmo se torna evidente se compararmos as es- tratégias metodoldgicas da antropologia cultu- ral e social, por um lado, e da sociologia, por outro. Na antropologia, a distancia empirica entre 0 sujeito e 0 objecto era enorme. O sujeito era 0 antropélogo, o europeu civilizado, 0 objecto era o povo primitivo ou selvagem. Nes- te caso, a distinc&o sujeito/objecto aceitou ou mesmo exigiu que a distancia fosse relativamen- ‘UA DISCURSO SOBRE AS INCAS teencurtada através do uso de metodologias que obrigavam a uma maior intimidade com o objecto, ou seja, 0 trabalho de campe etnografico, a observacio participante, Na sociologia, a0 con- trério, era pequena ou mesmo nula a disténcia empirica entre o sujeito e objecto: eram cientistas europeus a estudar os seus concidadiios. Neste caso, a distingdo epistemolégica obrigou a que esta distancia fosse aumentada através do uso de metodologias de distanciamento: por exemplo, © inquérito sociolégico, a andlise documental e a entrevista estruturada. A antropologia, entre a desco!onizagao do pés-guerra e a guerra do Vietname, e a sociolo- gia, a partir do final dos anos sessenta, foram le- vadas a questionar este status quo metodolégico e as nogoes de distancia social em que ele assen- tava. De repente, os selvagens foram vistos den- tro de nés, nas nossas sociedades, e a sociologia passou a utilizar com mais intensidade métodos anteriormente quase monopolizados pela antro- pologia (a observacao participante), ao mesmo, tempo que nesta tiltima os objectos passavam a ser concidadaos, membros de pleno direito da Organizagio das Nacdes Unidas, e tinham de ser estudados segundo métodos sociolégicos. As vi- a DOuvENTURA DE sous Tos bragGes destes movimentos na distingSo sujeito/ objecto nas ciéncias sociais vieram a explodir no periodo pés-estruturalista. No dominio das ciéncias fisico-naturais, 0 regresso do sujeito fora j4 anunciado pela me- canica quantica ao demonstrar que 0 acto de co- nhecimento e o produto do conhecimento eram. insepardveis. Os avancos da microfisica, da as- trofisica e da biologia das tiltimas décadas resti- tuiram a natureza as propriedades de que a cién- cia moderna a expropriara. O aprofundamento do conhecimento conduzido segundo a matriz materialista veio a desembocar num conheci- mento idealista. A nova dignidade da natureza mais se consolidou quando se verificou que 0 desenvolvimento tecnolégico desordenado nos tinha separado da natureza em vez de nos unir a ela e que a exploracao da natureza tinha sido © veiculo da exploracao do homem. O des- conforto que a distincao sujeito/objecto sempre tinha provocado nas ciéncias sociais propaga- va-se assim as ciéncias naturais. O sujeito regres- sava na veste do objecto. Alids, os conceitos de “mente imanente”, “mente mais ampla” e “men- te colectiva” de Bateson e outros constituem no- ticias dispersas de que o outro foragido da cién- — WC DISCURSO SOBRE AS CIENCIAS 8 cia moderna, Deus, pode estar em vias de re- gressar. Regressaré transfigurado, sem nada de divino sendo 0 nosso desejo’ de harmonia e co- munhio com tudo 0 que nos rodeia e que, ve- mos agora, é 0 mais intimo de nés. Uma nova gnose est4 em gestacdo. Parafraseando Clausewitz, podemos afirmar hoje que 0 objecto é a continuacao do sujeito por outros meios. Por isso, todo o conhecimento cien- tifico é autoconhecimento. A ciéncia nao desco- bre, cria, e 0 acto criativo protagonizado por cada cientista e pela comunidade cientifica no seu con- junto tem de se conhecer intimamente antes que conhegao que com ele se conhece do real. Os pres- supostos metafisicos, os sistemas de crencas, os juizos de valor nao estao antes nem depois da explicacdo cientifica da natureza ou da socieda- de. Sao parte integrante dessa mesraa explicaco. A ciéncia moderna nao é a tinica explicagio pos- sivel da realidade e nao ha sequer qualquer ra- zo cientifica para a considerar melhor que as explicagdes alternativas da metafisica, da astro- logia, da religitio, da arte ou da poesia. A razdo por que privilegiamos hoje uma forma de conhe- cimento assente na previsdo e no controlo dos fenémenos nada tem de cientifico. E um juizo de “ AVENTURA Dg SOUSA SANTOS valor. A explicacao cientifica dos fenémenos é a autojustificacdo da ciéncia enquanto fenémeno central da nossa contemporaneidade. A ciéncia 6 assim, autobiografica. A consagragio da ciéncia moderna nestes til- timos quatrocentos anos naturalizou a explica- Go do real, a ponto de nao o podermos conceber sendo nos termos por ela propostos. Sem as cate- gorias de espaco, tempo, matéria e ntimero — as metéforas cardeais da fisica moderna, segundo Roger Jones — sentimo-nos incapazes de pensar, mesmo sendo ja hoje capazes de as pensarmos como categorias convencionais, arbitrérias, me- tafOricas. Este processo de naturalizagio foi len- toe, no inicio, os protagonistas da revolugao cien- tifica tiveram a nogio clara que a prova intima das suas convicgdes pessoais precedia e dava coe- réncia as provas externas que desenvolviam. Des- cartes mostra melhor que ninguém o cardcter au- tobiografico da ciéncia. Diz, no Discurso do Méto- do: “Gostaria de mostrar, neste Discurso, que ca- minhos segui; e de nele representar a minha vida como num quadro, para que cada qual a possa julgar, e para que, sabedor das opinides que so- bre ele foram expendidas, um novo meio de me instruir se venha juntar aqueles de que costumo Ua DSCURGO S08RE AS CENA 8 servir-me”®. Hoje sabemos ou suspeitamos que as nossas trajectérias de vida pessoais e colecti vas (enquanto comunidades cientiticas) e os va- lores, as crengas e os prejuizos que transportam so a prova intima do nosso conhecimento, sem © qual as nossas investigagées laboratoriais ou de arquivo, os nossos célculos ou os nossos tra- balhos de campo constituiriam um emaranhado de diligéncias absurdas sem fio nem pavio. No entanto, este saber, suspeitado ou insuspeitado, corre hoje subterraneamente, clandestinamente, nos nao-ditos dos nossos trabalhos cientificos. No paradigma emergente, o cardcter auto- biogréfico e auto-referencidvel da ciéncia é ple- namente assumido. A ciéncia moderna legou-nos um conhecimento funcional do mundo que alar- gou extraordinariamente as nossas perspectivas de sobrevivéncia. Hoje nao se trata tanto de so- breviver como de saber viver. Para isso é neces- séria uma outra forma de conhecimento, um co- nhecimento compreensivo e intimo que nao nos separe e antes nos una pessoalmente ao que es- tudamos. A incerteza do conhecimento, que a ciéncia moderna sempre viu como limitagio téc- 159. Descartes, ob city p. 6. “ ‘AVENTURA De sous meT05 nica destinada a sucessivas superagées, transfor- ma-se na chave do entendimento de um mundo que mais do que controlado tem de ser contem- plado. Nao se trata do espanto medieval perante uma realidade hostil possufda do sopro da di- vindade, mas antes da prudéncia perante um mundo que, apesar de domesticado, nos mostra cada dia a precariedade do sentido da nossa vida por mais segura que esteja ao nivel da sobrevi- véncia. A ciéncia do paradigma emergente é mais contemplativa do que activa. A qualidade do co- nhecimento afere-se menos pelo que ele controla ou faz funcionar no mundo exterior do que pela satisfacdo pessoal que dé a quem a ele acede e 0 partilha. A dimensiao estética da ciéncia tem sido re- conhecida por cientistas e fildsofos da ciéncia, de Poincaré a Kuhn, de Polanyi a Popper. Roger Jones considera que o sistema de Newton é tanto uma obra de arte como uma obra de ciéncia®. A criagao cientifica no paradigma emergente assu- me-se como proxima da criacio literdria ou artis tica, porque a semelhanca destas pretende que a dimensao activa da transformagio do real (0 es- 60. R. Jones, ob. cit, p. 41, {a USC Som AS CHENCS o cultor a trabalhar a pedra) seja subordinada a contemplagéo do resultado (a obra de arte). Por sua vez, 0 discurso cientifico aproximar-se-é cada vez mais do discurso da critica literéria. De al- gum modo, a critica literdria anuncia a subver- so da relac&o sujeito/objecto que o paradigma emergente pretende operar. Na critica literdria, 0 objecto do estudo, como se diria em termos cien- tificos, sempre foi, de facto, um super-sujeito (um poeta, um romancista, um dramaturgo) face ao qual 0 critico nao passa de um sujeito ou au- tor secundério. E certo que, em tempos recen- es, 0 critico tem tentado sobressair no confron- to com 0 escritor estudado a ponto de se poder falar de uma batalha pela supremacia travada entre ambos. Mas porque se trata de uma bata- Tha, a relacao é entre dois sujeitos e nao entre ‘um sujeito e um objecto. Cada um é a tradugdo do outro, ambos criadores de textos, escritos em Uinguas distintas ambas conhecidas e necessa- rias para aprender a gostar das palavras e do mundo. Assim ressubjectivado, o conhecimento cien- tifico ensina a viver e traduz-se num saber prati- co. Dai a quarta e ultima caracteristica da ciéncia ‘pés-moderna. " oavarTURADESOUSA SANTO 4. Todo o conhecimento cientifico visa constituir-se em senso comum JA tive ocasiao de referir que o fundamento do estatuto privilegiado da racionalidade cienti- fica nao é em si mesmo cientifico. Sabemos hoje que a ciéncia moderna nos ensina pouco sobre a nossa maneira de estar no mundo e que esse pou- co, por mais que se amplie, seré sempre exiguo porque a exiguidade esté inscrita na forma de conhecimento que ele constitui. A ciéncia moder- na produz conhecimentos e desconhecimentos. Se faz do cientista um ignorante especializado faz do cidadao comum um ignorante generalizado. Ao contrario, a ciéncia pés-moderna sabe que nenhuma forma de conhecimento é, em si mes- ma, racional; s6 a configuragao de todas elas é racional. Tenta, pois, dialogar com outras formas de conhecimento deixando-se penetrar por elas. A mais importante de todas é 0 conhecimento do senso comum, 0 conhecimento vulgar e pratico com que no quotidiano orientamos as nossas acces e damos sentido a nossa vida. A ciéncia moderna construiu-se contra 0 senso comum que considerou superficial, ilusério e falso. A ciéncia pés-moderna procura reabilitar 0 senso comum La IcuRSo SRRe as NCS ° por reconhecer nesta forma de conhecimento al- gumas virtualidades para enriquecer a nossa re- lago com 0 mundo. E certo que 0 conhecimento do senso comum tende a ser um conhecimento mistificado e mistificador mas, apesar disso e apesar de ser conservador, tem uma dimensio ut6pica e libertadora que pode ser ampliada atra- vés do didlogo com o conhecimento cientifico. Essa dimensao aflora em algumas das caracteris- ticas do conhecimento do senso comum. O senso comum faz. coincidir causa ¢ inten- ‘¢40; subjaz-Ihe uma visio do mundo assente na acgo e no principio da criatividade e da respon- sabilidade individuais. O senso comum é pratico e pragmético; reproduz-se colado as trajectérias eas experiéncias de vida de um dado grupo so- cial e nessa correspondéncia se afirma fidvel e securizante. O senso comum é transparente e evidente; desconfia da opacidade dos objectivos tecnol6gicos e do esoterismo do conhecimento em nome do principio da igualdade do acesso ao discurso, a competéncia cognitiva e competén- cia linguistica. O senso comum stperficial por- que desdenha das estruturas que estio para além da consciéncia, mas, por isso mesmo, é eximio em captar a profundidade horizontal das relagoes » euvRTURA DE SOUSA STS conscientes entre pessoas e entre pessoas e coi- sas. O senso comum é indisciplinar e imetédico; nao resulta de uma pratica especificamente orien- tada para o produzir; reproduz-se espontanea- mente no suceder quotidiano da vida. O senso comum aceita o que existe tal como existe; privi- legia a acc&io que nao produza rupturas signifi- cativas no real. Por ultimo, 0 senso comum é retérico e metaférico; nao ensina, persuade. A luz do que ficou dito atrés sobre o paradig- ma emergente, estas caracteristicas do senso co- mum tém uma virtude antecipatéria. Deixado a si mesmo, o senso comum é conservador e pode le- gitimar prepoténcias, mas interpenetrado pelo co- nhecimento cientifico pode estar na origemdeuma nova racionalidade. Uma racionalidade feita de ra- cionalidades. Para que esta configuracdo de conhe- cimentos ocorra é necessério inverter a ruptura epistemol6gica. Na ciéncia moderna a ruptura epistemolégica simboliza o salto qualitativo do co- nhecimento do senso comum para o conhecimen- to cientifico; na ciéncia pés-moderna o salto mais importante 6 o que é dado do conhecimento cien- tifico para o conhecimento do senso comum. O conhecimento cientifico pés-moderno sé se reali za enquanto tal na medida em que se converte em | { Uc oScURSO SRE AS GENCAS * senso comtum. $é assim ser uma ciéncia clara que cumpre a sentenca de Wittgenstein, “tudo 0 que se deixa dizer deixa-se dizer claramente”®. S6 as- sim sera uma ciéncia transparente que faz justiga ao desejo de Nietzsche ao dizer que “todo 0 co- mércio entre os homens visa que cada um possa er na alma do outro, e a lingua comum € a ex- presséo sonora dessa alma comum’®, A ciéncia pés-moderna, ao sensocomuni- zar-se, ndo despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhe- cimento se deve traduzir em autoconhecimento, 0 desenvolvimento tecnolégico deve traduzir-se em sabedoria de vida. E esta que assinala os mar- cos da prudéncia a nossa aventura cientifica. A prudéncia é a inseguranca assumida e controla- da. Tal como Descartes, no limiar da ciéncia mo- derna, exerceu a dtivida em vez dea sofrer, nds, no limiar da ciéncia pés-moderna, devemos exer- cer a inseguranga em vez de a sofrer. Na fase de transigao e de revolugio cientifi- ca, esta inseguranga resulta ainda do facto de a 61. L. Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosephicus. Frankfurt, Suhrkamp, 1973, 4.116 2 Nietzsche, “Rhetorique et Langage”, Potiqu, 5 (181), p. 198. 2 BOQMENTURA De SOUSA SANTOS nossa reflexo epistemoldgica ser muito mais avangada e sofisticada que a nossa pratica cienti- fica. Nenhum de nés pode neste momento visua- lizar projectos concretos de investigacao que cor- respondam inteiramente ao paradigma emergen- te que aqui delineei. E isso é assim precisamente por estarmos numa fase de transicao. Duvidamos suficientemente do passado para imaginarmos 0 futuro, mas vivemos demasiadamente o presen- te para podermos realizar nele o futuro. Esta~ mos divididos, fragmentados. Sabemo-nos a ca- minho mas nao exactamente onde estamos na jornada. A condicdo epistemoldgica da ciéncia repercute-se na codigo existencial dos cientis- tas. Afinal, se todo o conhecimento é autoconhe- cimento, também todo o desconhecimento é auto- desconhecimento.