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Folha de S.

Paulo - Editoriais: Vítima farsesca - 07/03/2010 Página 1 de 2

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São Paulo, domingo, 07 de março de 2010

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Editoriais
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Vítima farsesca
Com tese de que a "mídia" o persegue, PT mantém
figurino autoritário e se faz de injustiçado para encobrir
falência moral

O TRUQUE é velho, e sua repetição só indica o hábito


petista de afetar ares de pureza em meio ao pragmatismo
mais inescrupuloso. Em documento oficial, a Executiva
Nacional do PT reeditou, quinta-feira, a tese de que há uma
"guerra de extermínio" contra o partido. Posteriormente,
amenizou os termos. A promover tal "guerra" estariam
"amplos setores do empresariado, particularmente a mídia".
Mídia, no jargão corrente, significa todo jornal ou empresa
de comunicação que não defenda figuras notórias do partido.
Como, por exemplo, o ex-ministro José Dirceu, beneficiário
de uma contribuição de R$ 620 mil pela assessoria prestada a
um grupo com interesse na reativação da Telebrás. Ou como
os mensaleiros denunciados por quem era então aliado do
governo, o deputado Roberto Jefferson; ou ainda os
"aloprados" -termo que o presidente Lula foi o primeiro,
aliás, a empregar- da campanha eleitoral de 2006. Como,
também, aquele assessor de um deputado petista, que foi
preso ao tentar embarcar num avião com cerca de U$ 100
mil dólares na cueca.
Aliás, se noticiar esse sistema de transportar dinheiro
sonante fosse sinal de "guerra de extermínio", seria agora o
DEM, e não o PT, a principal vítima de uma suposta
conspiração.
Mas nem mesmo os sequazes do governador Arruda
arriscaram-se a ir tão longe no cinismo. É que a capacidade
petista para a mentira tem origens diferentes, e mais antigas,
do que a simples charamela lacrimosa dos espertalhões de
voo curto.
Pois o PT, no clássico figurino stalinista, sempre pode dar
uma interpretação "de classe" às críticas que venha a

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0703201001.htm 08/03/2010
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merecer. Como o partido se julga o representante místico dos


"trabalhadores", o financiamento escuso que receba de
empreiteiras, as alterações legais casuísticas que promova
em favor de uma empresa de telecomunicação, não
representarão escândalo jamais.
Ao contrário: aliar-se financeiramente a "setores do
empresariado" que vivem à sombra das benesses do governo,
e aliar-se politicamente à escória do Legislativo brasileiro,
torna-se um sinal de esperteza política na linha dos fins
justificam os meios.
Autoabsolvido pelo venerável espírito hegeliano-marxista da
História, o petismo pode fazer tudo o que condenava em seus
adversários, e apresentar-se ainda assim como detentor das
virtudes mais cristalinas.
Quem apontar a farsa será tachado de inimigo dos
trabalhadores -e, na tese de uma imaginária "guerra de
extermínio", o PT mostra apenas a sua própria tentação
totalitária.
Nessa lógica, que não admite críticas, faz-se de perseguido
aquele que se apronta para perseguir; faz-se de vítima quem
pretende ser algoz; faz-se de democrata o censor, de honesto
o corrupto, de inocente o bandido. O PT perdeu a moral que
tantas vezes ostentava quando na oposição. Perdeu a moral,
mas não perde o autoritarismo, a mendacidade e a
arrogância.

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