Sei sulla pagina 1di 351
Obra publicada com a colaboração da UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor: Prof. Dr. Waldyr Muniz

Obra publicada com a colaboração da

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Reitor: Prof. Dr. Waldyr Muniz Oliva

EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Presidente: Prof. Dr. Mário Guimarães Ferri

Comissão Editorial:

Presidente: Prof. Dr. Mário Guimarães Ferri (Instituto de Biociências). Membros: Prof. Dr. Antonio Brito da Cunha (Instituto de Biociências), Prof. Dr. Carlos da Silva Lacaz (Faculdade de Medicina), Prof. Dr. Pérsio de Souza Santos (Escola Politécnica) e Prof. Dr. Roque Spencer Maciel de Barros (Faculdade de Educação).

A CRÍTICA E O DESENVOLVIMENTO DO

CONHECIMENTO

Imre Lakatos e Alan Musgrave (orgs.)

Dois livros, em particular, exerceram decisiva influência na Filosofia da Ciência contemporânea: A Lógica da Pesquisa Científica, de Karl R. Popper e A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas S. Kuhn. Ambos esses livros concordam quanto à importância das revoluções na Ciência, mas discordam quanto ao papel da crítica no seu desenvolvimento. Um dos colaboradores do presente volume alega que, para Kuhn, a mu- dança revolucionária é um problema de "psicologia da multidão”. Kuhn rejeita tal interpretação de seu pensamento, mas insiste em que "qualquer que seja o progresso cientifico, devemos expli- cá-lo examinando a natureza do grupo científico, descobrindo o que este valoriza, o que tolera e o que desdenha".

A CRÍTICA E O DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO nasceu de

um simpósio acerca da obra de Kuhn, presidido por Popper e realizado por ocasião de um colóquio internacional em Londres (1965). Não se trata de um simples registro das discussões então travadas, pois vários dos ensaios aqui reunidos foram reescritos e expandidos. O livro começa com um texto de Kuhn no qual ele enuncia a sua posição, seguindo-se sete textos de outros autores, de crítica e análise das formulações de Kuhn, e concluindo- se com a resposta deste. Eis, pois, um livro que se destina a estudantes e professores de Filosofia e História da Ciência, bem como a quantos se interessem por esse setor fundamentai do conhecimento humano.

EDITORA CULTRIX EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Título do original:

CRITICISM AND THE GROWTH OF KNOWLEDGE Copyrigth © 1970, Cambridge

University Press

Traduzido por OCTAVIO MENDES CAJADO

Revisão técnica de PABLO MARICONDA

(do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo)

MCMLXXIX

e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo) MCMLXXIX Direitos de tradução para a língua portuguesa

Direitos de tradução para a língua portuguesa adquiridos com exclusividade pela

EDITORA CULTR1X LTDA.

Rua Conselheiro Furtado, 648, fone 278-4811, 01511 São Paulo, SP que se

reserva a propriedade literária desta tradução

01511 São Paulo, SP que se reserva a propriedade literária desta tradução Impresso no Brasil Printed

Impresso

no

Brasil

Printed in Brazil

S U M Á R I O

Prefácio

 

1

Nota sobre a Terceira Impressão

 

2

T.

S. KUHN: Lógica da Descoberta ou Psicologia da Pesquisa?

5

Discussão:

 

J.

W. N. WATK1NS:

Contra a “Ciência Normal”

 

33

S.

E. TOULMIN: É Adequada a Distinção entre Ciência Normal e Ciência Revolucionária?

49

L.

PEARCE WILLIAMS: Ciência Normal, Revoluções Científicas e

 

a

História da Ciência

60

K.

R.

POPPER: A Ciência Normal

e seus Perigos

63

MARGARET MASTERMAN:

A Natureza de um

Paradigma

72

I. LAKATOS: O Falseamento e a Metodologia dos Programas de

 

Pesquisa Científica

 

109

P.

K.

FEYERABEND:

Consolando

o Especialista

244

T.

S.

KUHN: Reflexões sobre os meus Críticos

 

285

CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte Câmara Brasileira do Livro, SP

A crítica e o desenvolvimento do conhecimento:

C951

quarto

volume das atas do Colóquio Internacional sobre

Filosofia da Ciência, realizado em Londres em 1965 / organizado por Imre Lakatos e Alan Musgrave ; [traduzido por Octa- vio Mendes Cajado ;

revisão técnica de Pablo Mariconda]. São Paulo : Cultrix : Ed. da Universidade de São Paulo, 1979.

Bibliografia.

1. Ciência Filosofia I. Colóquio Internacional sobre Filosofia da

Ciência, Londres, 1965. II. Lakatos, Imre. III. Musgrave, Alan.

79-0113

CDD-501

índices para catálogo sistemático:

1. Ciência Filosofia 501

A CRÍTICA E O DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO

Quarto volume das atas do Colóquio Internacional sobre Filosofia da Ciência, realizado em Londres em 1965

Organizado por

IMRE LAKATOS Ex-professor de Lógica da Universidade de Londres

e

ALAN MUSGRAVE Professor de Filosofia da Universidade de Otago

E D I T O R A

C U L T R I X

São Paulo

EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Outras obras de interesse:

A LÓGICA DA PESQUISA CIENTÍFICA*

Karl Popper

AUTOBIOGRAFIA INTELECTUAL*

Karl Popper

AS IDÉIAS DE POPPER * Brian Magee

AS IDÉIAS DE BERTRAND RUSSEL *

A. J. Ayer

AS IDÉIAS DE EINSTEIN *

Jeremy Bernstein

AS IDÉIAS DE WITTGENSTEIN *

David Pears

FILOSOFIA DA CIÊNCIA*

Sidney Morgenbesser

INTRODUÇÃO A FILOSOFIA DA CIÊNCIA *

K. Lambert e G. G. Brittan, Jr.

DEFINIÇÕES: TERMOS TEÓRICOS E SIGNIFICADO *

Leottidas Hegettberg

ESCOLHA E ACASO: UMA INTRODUÇÃO X LÓGICA INDUTIVA *

Brian Skyrms

INICIAÇÃO A LÓGICA E A

METODOLOGIA DA CIÊNCIA

-----Diversos autores

LÓGICA E FILOSOFIA DA LINGUAGEM *

Gottlob Frege

(Cont. na outra dobra)

A CRÍTICA E O

DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO

P R E F A C I O

Este livro constitui o quarto volume das Atas do Seminário Internacional sobre Filosofia da Ciência de 1965 realizado no Bedford College, Regent's Park, Londres, de 11 a 17 de julho de 1965. O Seminário foi organizado conjuntamente pela British Society for the Philosophy of Science (Sociedade Britânica de Filosofia da Ciência) e pela London School of Economics and Political Science (Escola de Economia e Ciência Política de Londres), sob os auspícios da Divisão de Lógica, Metodologia e Filosofia da Ciência da União Internacional de História e Filosofia da Ciência.

O Seminário e as Atas foram generosamente subsidiados pelas instituições

patrocinadoras, assim como pela Leverhulme Foundation (Fundação Leverhulme) e

pela Alfred P. Sloan Foundation (Fundação Alfred P. Sloan). O Comitê Organizador foi formado por W.C. Knea- le (Presidente), I. Lakatos (Secretário Honorário), J. W. N. Watkins (Segundo Secretário Honorário), S. Köber, Sir Karl Popper, H. R. Post e J. O. Wisdom.

Os três primeiros volumes das Atas foram publicados pela North- Holland

Publishing Company, de Amsterdã, sob os seguintes títulos:

Lakatos (org.): Problems in the Philosophy of Mathematics (Problemas da Filosofia da Matemática), 1967. Lakatos (org.): The Problem of Inductive Logic (O Problema da Lógica Indutiva), 1968. Lakatos e Musgrave (orgs.): Problems in the Philosophy of Science (Problemas da Filosofia da Ciência), 1968. Todo o programa do Seminário está impresso no primeiro volume das Atas. Este quarto volume obedece à política editorial seguida nos três primeiros é mais uma reconstrução racional e uma ampliação dos debates do que propriamente um mero registro dos mesmos. Todo o volume se desenvolve a partir de um único simpósio, ocorrido no dia

13 de julho sobre A Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento. De acordo com os planos originais, o Professor Kuhn, o Professor Feyerabend e o Dr. Lakatos deveriam ser os principais oradores mas, por motivos diferentes (veja mais adiante, à p. 33), as colaborações do Professor Feyerabend e do Dr. Lakatos só chegaram depois do Seminário. O Professor Watkins concordou, em substituí- los. O Professor Sir Karl Popper assumiu a presidência do acirrado debate do qual participaram, entre outros, o Professor Stephen Toulmin, o Professor Pearce Williams, a Srt. a Margaret Masterman e o Presidente. Os textos dos trabalhos, tais como aqui se imprimiram, foram concluídos em diferentes ocasiões. O artigo do Professor Kuhn está impresso essencialmente na forma em que foi lido pela primeira vez. Os trabalhos dos Professores John Watkins, Stephen Toulmin, Pearce William e de Sir Karl Popper são versões ligeiramente modificadas das colaborações originais. Por outro lado, a contribuição da Srt. a Masterman só foi terminada em 1966, ao passo que as do Dr. Lakatos e do Professor Feyerabend, juntamente com a réplica final do Professor Kuhn, foram concluídas em 1969. Os Organizadores auxiliados por Peter Clark e John Worrall desejam agradecer a todos os colaboradores sua amável cooperação. Confessam-se igualmente gratos à Srt. a Christine Jones e à Srt. a Mary McCormick pelo trabalho consciencioso e cuidadoso no preparo dos manuscritos para a publicação.

Londres, agosto de 1969.

OS ORGANIZADORES

NOTA SOBRE A TERCEIRA IMPRESSÃO

A terceira impressão de A Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento só difere da primeira pela eliminação de uns poucos erros de impressão e pela introdução de correções menores, essencialmente bibliográficas e estilísticas. Desde que se publicou a primeira impressão, as idéias discutidas neste volume foram ainda mais desenvolvidas por alguns autores:

Thomas Kuhn publicou uma segunda edição de sua The Struc- ture of Scientific Revolutions (A Estrutura das Revoluções Científicas) com um posfácio, que aperfeiçoa sua teoria dos paradigmas (Chicago University Press, 1970).

Stephen Toulmin publicou o primeiro volume da sua Human Understanding (Compreensão Humana Princeton University Press e Clarendon Press, 1972). Paul Feyerabend expôs o seu anarquismo metodológico no livro Against Method (Contra o Método) (New Left Books, 1974). Imre Lakatos desenvolveu ainda mais sua teoria dos programas de pesquisa científica em History of Science and Its Rational Recons- truction (História da Ciência e Sua Reconstrução Racional) e em suas Replies to Critics (Respostas aos Críticos), ambas publicadas na obra organizada por R. C. Buck e R. S. Cohen PSA 1970, Boston Studies in the Philosophy of Science, 8 (PSA 1970, Estudos Bostonianos de Filosofia da Ciência, 8) (Reidel Publishing House, 1971) e em seu trabalho Popper on Demarcation and Induction (Popper [fala] sobre Demarcação e Indução) na obra organizada por P. A. Schilpp: The Philosophy of Karl R. Popper (A Filosofia de Karl R. Popper), Open Court, 1974. [Elie Zahar aperfeiçoou substancialmente a metodologia de Lakatos em seu Why did Einstein’s Programme Supersede Lo- rentz’s? (Por que o Programa de Einstein Suplantou o de Lorentz’s?), no n.° 24 do The Britsh Journal for the Philosophy of Science, pp. 95-123 e 223-62, aperfeiçoamento esse também aplicado à reinter- pretação da Revolução Coperniciana no trabalho de Lakatos e Zahar: Why did Copernicu’s Programme Supersede Ptolemy's? (Por que o Programa de Copérnico Suplantou o de Ptolomeu?) e no livro organizado por R. Westman: The Copernican Achievement (A Realização Coperniciana), (Califórnia University Press, 1975).]

Londres, janeiro de 1974.

OS ORGANIZADORES

LÓGICA DA DESCOBERTA OU PSICOLOGIA DA PESQUISA? 1

THOMAS S. KUHN

Princeton University

Meu objetivo nestas páginas é justapor o ponto de vista sobre o desenvolvimento científico esboçado em meu livro, The Structure of Scientific Revolutions (A Estrutura das Revoluções Científicas), aos pontos de vista mais conhecidos do nosso presidente, Sir Karl Popper. 2 Normalmente eu me negaria a um empreendimento dessa natureza, pois sou menos otimista que Sir Karl quanto à utilidade das confrontações. Por outro lado, admirei por tanto tempo a sua obra que, a esta altura, não me é fácil criticá-la. Apesar disso, estou persuadido de que, nesta ocasião, a tentativa há que ser feita. Antes mesmo de meu livro ser publicado há dois anos e meio, eu começara a descobrir características especiais e freqüentemente enigmáticas da relação entre minhas opiniões e as dele. Essa relação e as reações divergentes por ela provocadas dão a entender que uma comparação disciplinada entre as duas pode elucidar muita coisa. Permitam-me dizer por que isso me parece possível.

1. Este ensaio foi inicialmente preparado a convite de P. A. Schilpp para seu volume prestes a sair The Philosophy of Karl R. Popper (A Filosofia de Karl R. Popper), que será publicado por The Open Court Publishing Company, La Salle, 111., em The Library of Living Philosophers (A Biblioteca dos Filósofos Vivos). Confesso -me profundamente grato ao Professor Schilpp e aos editores pela autorização que me concederam para imprimi-lo como parte das atas deste simpósio antes de aparecer no volume para o qual foi primeiro solicitado.

2. Para preparar este trabalho, reli de Sir Karl Popper Logic of Scientific Discovery, Conjectures and Refutations e The Poverty of Hisloricism. Também fiz referências ocasionais à sua Logik der Forschung e a The Open Society and its Enemies. Minha The Structure of Scientific Revolutions proporciona um relato mais extenso de muitas questões adiante discutidas.

Em quase todas as ocasiões em que nos voltamos explicitamente para os mesmos problemas, nossas opiniões sobre ciência são quase idênticas. 3 Interessa-nos muito mais o processo dinâmico por meio do qual se adquire o conhecimento científico do que a estrutura lógica dos produtos da pesquisa científica. Em face desse interesse, ambos enfatizamos, como dados legítimos, os fatos e o espírito da vida científica real, e ambos nos voltamos com freqüência para a história no intuito de encontrá-los. Desse conjunto de dados partilhados, chegamos a muitas das mesmas conclusões. Ambos rejeitamos o parecer de que a ciência progride por acumulação; em lugar disso, enfatizamos o processo revolucionário pelo qual uma teoria mais antiga é rejeita - da e substituída por uma nova teoria, incompatível com a anterior; 4 e ambos sublinhamos enfaticamente o papel desempenhado nesse pro- cesso pelo fracasso ocasional da teoria mais antiga ao enfrentar desafios lançados pela lógica, experimentação ou observação. Finalmente, Sir Karl e eu estamos unidos na oposição a algumas das teses mais características do positivismo clássico. Ambos enfatizamos, por exemplo, o embricamento íntimo e inevitável da observação com a teoria científica; conseqüentemente, somos céticos quanto aos esforços para produzir qualquer linguagem observacional neutra; e ambos in- sistimos em que os cientistas podem, com toda propriedade, procurar inventar teorias que expliquem os fenômenos observados, e que façam isso em termos de objetos reais, seja qual for o significado da última expressão.

eu

concordamos, 5 essa lista já é suficientemente extensa para nos colocar

Conquanto

não

esgote

as

questões

a

cujo

respeito

Sir

Karl

e

não esgote as questões a cujo respeito Sir Karl e 3. Uma simples coincidência não pode

3. Uma simples coincidência não pode ser responsável por essa extensa superposição.

Conquanto eu não tivesse lido nenhuma obra de Sir Karl antes do aparecimento, em 1959, da sua Logik der Forschung (ocasião em que meu livro estava no rascunho), ouvi discutido repetidamente certo número de suas idéias principais. Ouvi-o, sobretudo, discutir algumas delas como "Conferencista William James'’ em Harvard na primavera de 1950. Tais circunstâncias não

me permitem especificar uma dívida intelectual para com Sir Karl, mas deve haver uma.

4. Utilizei alhures o termo “paradigma” em lugar de “teoria” para denotar o que é

rejeitado e substituído durante as revoluções científicas. Algumas razões para a mudança do termo surgirão mais adiante.

5. O realce dado a uma área adicional de concordância a cujo respeito tem havido muitos

mal-entendidos pode pôr ainda mais em foco o que, no meu entender, constitui as verdadeira s diferenças entre os pontos de vista de Sir Karl e os meus. Ambos insistimos em que a fidelidade a uma tradição desempenha papel essencial no desenvolvimento científico. Ele escreveu, por exemplo, "Quantitativa e qualitativamente a fonte mais importante do nosso

no mesmo grupo minoritário entre os filósofos da ciência contemporânea. Presumo que seja por isso que os seguidores de Sir Karl têm sido, com alguma regularidade, meu público filosófico mais compreensivo, ao qual continuo a sentir-me grato. Minha gratidão, contudo, não é sem reservas. A mesma concordância, que provoca a simpatia desse grupo, não raro lhe dirige mal o interesse. Ao que tudo indica, os adeptos de Sir Karl são capazes de ler grande parte do meu livro como capítulos de uma revisão tardia (e, para alguns, drástica) de sua obra clássica The Logic of Scientific Discovery (A Lógica da Descoberta Científica). Um deles pergunta se a visão da ciência esboçada na minha Scientific Revolutions não constituiu por muito tempo matéria de conhecimento comum. Um segundo, mais caritati- vo, limita minha originalidade à demonstração de que as descobertas de fato têm um ciclo vital muito semelhante ao das inovações-da- teoria. Outros, ainda, declaravam-se satisfeitos de uma maneira geral com a leitura do livro, mas discutem apenas as duas questões, comparativamente secundárias, a cujo respeito minha discordância com Sir Karl é mais explícita: a ênfase que dou à importância de um compromisso profundo com a tradição e meu descontentamento com as implicações do termo “falseamento”. Resumindo, todos esses homens leram meu livro com óculos muito especiais e há outra maneira de lê-lo. A visão que se tem através desses óculos não está errada minha concordância com Sir Karl é real e substancial. Entretanto, os leitores fora do círculo properiano quase invariavelmente deixam de notar até que a concordância existe, e são eles que com mais freqüência reconhecem (nem sempre com simpatia) as questões que me parecem mais importantes. Chego à conclusão de que uma mudança de gestalt divide os leitores do meu livro em dois ou mais grupos. O que um deles vê como notável paralelismo é virtualmente invisível para outros. O desejo de compreender tudo isso é o que motiva a presente comparação da minha visão com a de Sir Karl.

A comparação, todavia, não deve limitar-se a uma justaposição ponto por ponto. O que exige atenção é menos a área periférica em que se devem isolar nossas divergências secundárias ocasionais, do que a região central em que parecemos concordar. Sir Karl e eu apelamos para os mesmos dados; vemos, numa extensão incomum, as mesmas linhas no mesmo papel; indagados sobre essas linhas e esses

linhas no mesmo papel; indagados sobre essas linhas e esses conhecimento — tirando o conhecimento inato

conhecimento tirando o conhecimento inato é a tradição” (Popper, Conjectures and Refutaíions, p. 27). De maneira ainda mais pertinente, já em 1948, escrevia: “Não me parece que poderemos, algum dia, libertar-nos de todos os laços da tradição, A chamada libertação, na realidade, é apenas a mudança de uma tradição para outra” (Conjectures and Relutations, 1953, p. 122).

dados, damos, não raro, respostas virtualmente idênticas ou, pelo menos, respostas que inevitavelmente parecem idênticas na limitação imposta pelo processo de pergunta e resposta. Não obstante, experiências como as que já mencionei convencem-me de que nossas intenções são muitas vezes totalmente diversas quando dizemos as mesmas coisas. Se bem as linhas sejam análogas, as figuras que delas emergem não o são. Por isso chamo ao que nos separa mudança de gestalt e não discordância e por isso me sinto, ao mesmo tempo, perplexo e intrigado sobre a melhor maneira de examinar a separação. Como poderei persuadir Sir Karl, que sabe tudo o que sei acerca do desenvolvimento científico e que já o disse num ou noutro lugar, de que o que ele chama de pato pode ser visto como um coelho? Como poderei ensiná-lo a usar meus óculos quando ele já aprendeu a olhar através dos seus para tudo o que posso apontar? Nesta situação, impõe-se uma mudança de estratégia, e a seguinte se sugere. Relendo mais uma vez alguns dos principais livros e ensaios de Sir Karl, torno a encontrar uma série de expressões que se repetem e que, embora eu as compreenda e não as desaprove de todo, são expressões que nunca teria usado nos mesmos lugares. Sem dúvida, trata-se na maior parte das vezes, de metáforas retoricamente aplicadas a situações das quais Sir Karl forneceu alhures descrições inatacáveis. Contudo, para os propósitos correntes, tais metáforas que se me afiguram manifestamente inadequadas podem revelar-se mais úteis do que descrições diretas. Isto é, podem sintomatizar diferenças contextuais que uma expressão literal cuidadosa esconde. A ser assim, tais expressões funcionam, não como linhas-sobre-o-papel, mas como a orelha-de-coelho, o xale ou a fita-na-garganta que se isola quando se está ensinando um amigo a transformar seu modo de ver um diagrama de gestalt. Essa, ao menos, é minha esperança no que a elas se refere. Tenho em mente quatro diferenças de expressões e delas tratarei seriatim.

I

Uma das questões fundamentais a cujo respeito Sir Karl e eu concordamos é a insistência em que uma análise do desenvolvimento do conhecimento científico deve levar em consideração a maneira pela qual a ciência é realmente praticada. Assim sendo, algumas das suas repetidas generalizações me surpreendem. Uma delas aparece no início do primeiro capítulo de A Lógica da Descoberta Científica: “Um cientista”, diz Sir Karl, “seja teórico, seja experimentador, apresenta enunciados, ou sistemas de enunciados, e os testa pouco a pouco. No campo das ciências empíricas, mais particularmente, ele constrói hi

póteses, ou sistemas de teorias, e os põe à prova à luz da experiência, pela observação e pela experimentação”.'' O enunciado é virtualmente um clichê e, no entanto, apresenta três problemas em sua aplicação. É ambíguo porque não especifica qual das duas espécies de “enunciados" ou “teorias” está sendo testada. Não há dúvida de que essa ambigüidade pode ser eliminada por referência a outras passagens dos escritos de Sir Karl, mas a generalização que dela resulta e historicamente equivocada. De mais a mais, o equívoco revela-se importante, pois

a forma não ambígua da descrição omite exatamente a característica da prática

científica que, de certo modo, distingue as ciências de outras atividades criativas.

Há uma espécie de “enunciado” ou “hipótese” que os cientistas submetem repetidamente ao teste sistemático. Tenho em mente os enunciados das conjeturas de um indivíduo acerca da maneira apropriada de ligar seu problema de pesquisa ao corpo do conhecimento científico aceito. Ele pode conjeturar, por exemplo, que determinada incógnita química contém o sal de uma terra rara, que a obesidade dos seus ratos experimentais se deve a um componente específico da dieta deles, ou que um modelo espectral recém-descoberto deve ser compreendido como um efeito do spin nuclear. Em cada caso, os passos seguintes de sua pesquisa se destinarão a testar a conjetura ou hipótese. Se esta passar por uma quantidade suficiente ou suficientemente persuasiva de testes, o cientista fez uma descoberta ou, pelo menos, resolveu- o enigma em cuja solução estava empenhado. Caso contrário, terá de abandonar inteiramente o enigma ou tentar

resolvê-

lo com o auxílio de outra hipótese qualquer. Embora nem todos, muitos problemas de pesquisa assumem essa forma. Os testes desse tipo representam um componente comum do que denominei “ciência normal” ou “pesquisa normal”, responsável pela imensa maioria do trabalho realizado em ciência básica. Esses testes, porém não são dirigidos, em nenhum sentido usual, para a teoria corrente. Ao contrário, quando está às voltas, com um problema de pesquisa normal, o cientista deve postular a teoria corrente como a regra do seu jogo. Seu objetivo e resolver uma charada, de preferência uma charada em quê outros falharam, e a teoria corrente é indispensável para defini-la e para assegurar que, em havendo

talento suficiente, a charada poderá ser resolvida. 7 É evidente que quem se propõe

a um tal empreendi

7 É evidente que quem se propõe a um tal empreendi 6. Popper, Logic of Scientific

6. Popper, Logic of Scientific Discovery, 1959, p. 27.

7. Sobre uma extensa discussão da ciência normal, a ativida de para cujo exercício os profissionais

são treinados, veja minha The Struclure of Scientific Revolutions, pp. 23-24 e 135-42. É importante notar que, quando descrevo o cientista como um solucionador de enigmas e Sir Karl o

descreve como um

mento precisa testar com freqüência a solução conjetural do enigma que seu engenho lhe sugere, Mas só é testada a sua conjetura pessoal. Se ela não passar pelo teste, só se impugna a capacidade do cientista e não o corpo da ciência corrente. Em suma, conquanto ocorram com freqüência na ciência normal, esses testes são de um gênero peculiar pois na análise final, é o cientista e não a teoria vigente que se põe à prova. Não é essa, todavia, a espécie de teste que Sir Karl tem em men- te. Interessam-no, acima de tudo, os processos por cujo intermédio a ciência se desenvolve, e ele está convencido de que o “desenvolvimento” não ocorre principalmente por acumulação mas pela derru- bada revolucionária da teoria aceita e pela substituição por uma teoria melhor. 8 (Considerar que “crescimento” inclui “derrubada repe- tida” é uma singularidade lingüística cuja raison d'être poderá tornar-se visível à medida que prosseguirmos.) Segundo este ponto de vista, os testes enfatizados por Sir Karl são os que se realizam para ex- plorar as limitações da teoria aceita ou para submeter a teoria vigente a uma tensão máxima. Entre seus exemplos favoritos, todos .de resultados surpreendentes e destrutivos, estão as experiências de Lavoi- sier sobre oxidação, a expedição de 1919 para estudar o eclipse e as recentes experiências sobre a conservação da paridade. 9 Trata-se, naturalmente, de testes clássicos mas, ao utilizá-los para caracterizar a atividade científica, Sir Karl passa por alto um pormenor importan- tíssimo a respeito deles. Tais episódios são muito raros no desenvolvimento da ciência. Sobrevem, quase sempre, provocados pôr uma crise anterior no campo pertinente (as experiências de Lavoisier oú as de Lee e Yang 1 ") ou pela existência de uma teoria que compete

1 ") ou pela existência de uma teoria que compete solucionador de problemas (por exemplo em

solucionador de problemas (por exemplo em seu Conjectures and Refutations, pp. 67, 222), a similaridade de nossos termos disfarça uma divergência funda mental. Escreve Sir Karl (os grifos são meus), “Não há dúvida de que nossas expectativas e, portanto, nossas teorias, pode m até preceder, historicamente, nossos problemas. Entretanto a ciência só começa com problemas. Os problemas afloram sobretudo quando estamos decepcionados em nossas expectativas, ou quando nossas teorias nos envolvem em dificuldades, em contradições.” Emprego o termo "enigma” no intuito de enfatizar que as dificuldades que de ordinário são enfrentadas até pelos melhores cientistas são, como enigmas de palavras cruzadas ou charadas de xadrez, desafios apenas ao seu engenho. É ele quem está em dificuldade, não a teoria vigente. Meu ponto de vista é quase oposto ao de Sir Karl.

8. Cf. Popper, Conjectures and Refutations, pp. 129, 215 e 221, sobre enunciados

particularmente vigorosos dessa posição.

9. Por exemplo, Popper, Conjectures and Refutations, p. 220.

10. Sobre a obra acerca da oxidação, veja Guerlac, Lavoisier The Crucial Year, 1966.

Sobre os antecedentes das experiências relativas à paridade veja-se Hafner e Presswood.

“Strong Interjerence and Weak Interactions", 1965.

com os cânones existentes da pesquisa (relatividade geral de Eins- tein). Estes são, todavia, aspectos do que em outro lugar chamei de “pesquisa extraordinária” ou ocasiões para ela, atividade em que os cientistas exibem muitas das características enfatizadas por Sir Karl, mas que, pelo menos no passado, só surgiram com intermitências e em circunstâncias muito especiais em qualquer especialidade científica."

A meu ver, portanto, Sir Karl caracterizou toda a atividade científica em termos que só se aplicam a suas partes revolucionárias ocasionais. Sua ênfase é natural e comum; os feitos de um Copérnico ou de um Einstein constituem leitura mais aprazível que os de um Brahe ou de um Lorentz; Sir Karl não seria o primeiro se tomasse o que chamo de ciência normal por uma atividade intrinsecamente desinteressante. Apesar isso, nem a ciência nem o desenvolvimento do conhecimento têm probabilidades de ser compreendidos se a pesquisa foi vista apenas através das revoluções que produz de vez em quando. Por exemplo, embora os compromissos básicos só sejam testados na ciência extraordinária, é a ciência normal que revela, ao mesmo tempo, os pontos que devem ser testados e a maneira de testá- los. Ou ainda, é para a prática normal, e não para a prática extraordinária da ciência, que se treinam profissionais; se eles, entretanto, forem muitíssimo bem-sucedidos nas substituições das teorias de que depende a prática normal, esta singularidade terá de ser explicada. Finalmente, e tal é por enquanto o meu ponto principal, um olhar cuidadoso dirigido à atividade científica dá a entender que é a ciência ’ normal, onde não ocorre os tipos de testes de Sir Karl, e não a ciência extraordinária que quase sempre distingue a ciência de outras atividades. A existir um critério de demarcação (entendo que não devemos procurar um critério nítido nem decisivo), só pode estar na parte da ciência que Sir Karl ignora.

Num de seus ensaios mais sugestivos, Sir Karl remonta a origem “ da tradição da discussão crítica [que] representa o único modo praticável de expandir nosso conhecimento” até os filósofos gregos entre Tales e Platão, homens que, no seu entender, fomentaram a discussão crítica não só entre as escolas mas também dentro delas. 12 A descrição do discurso pré-socrático é muito bem feita, mas o que se descreve em nada se parece com ciência. É antes a tradição de

em nada se parece com ciência. É antes a tradição de 11. O argumento é desenvolvido

11. O argumento é desenvolvido de maneira circunstanciada em minha The Structure of

Scientific Revolutions, 1962, pp. 52-97.

12. Popper, Conjectures and Rejutations. capítulo 5, especialmente pp. 148-52.

razões, contra-razões e debates sobre questões fundamentais que, exceto talvez durante a Idade Média, caracterizassem a filosofia e boa parte da ciência social desde então. Já por volta do período helenís- tico a matemática, a astronomia, a estática e as partes geométricas da ótica haviam abandonado esse tipo de discurso em favor da solução de enigmas. Outras ciências, em quantidades cada vez maiores, sofreram depois disso a mesma transição. Em certo sentido, para virar do avesso o ponto de vista de Sir Karl, -é precisamente o abandono do discurso crítico que assinala a transição para uma ciência. Depois que um campo opera essa transição, o discurso crítico só se repete em momentos de crise, quando estão em jogo as bases desse campo. 13 Apenas quando precisam escolher entre teorias concorrentes os cientistas se comportam como filósofos. É por isso provavelmente que ã brilhante descrição de Sir Karl das razões da escolha entre sistemas metafísicos se parece tanto com minha descrição das razões da escolha entre teorias científicas. 14 Em nenhuma das escolhas, como logo tentarei demonstrar, o sistema dos testes desempenha papel decisivo.

Há, contudo, uma boa razão para que o teste pareça desempenhar esse papel e, ao estudá-lo, o pato de Sir Karl pode, afinal, conver- ter-se no meu coelho. Não existirá nenhuma atividade de solução de enigmas se os seus praticantes não partilharem de critérios que, para aquele grupo e aquele momento, determinam o instante em que certo enigma é solucionado. Os mesmos critérios determinam necessariamente o fracasso na obtenção de uma solução, e quem quer que escolha, pode ver esse fracasso como o fracasso de uma teoria em passar por um teste. Normalmente, porém, como já tenho dito, não se vê dessa maneira. Só se censura o praticante, não se lhe censuram os instrumentos. Mas em condições especiais, que provocam uma crise na profissão (como, por exemplo, um grande malogro, ou o malogro repetido dos profissionais mais brilhantes) a opinião do grupo pode mudar. Um fracasso visto antes como pessoal parece então o fracasso da teoria que está sendo testada. Dali por diante, por ter nascido de um enigma e ter critérios determinados de solução, o teste se revela, ao mesmo tempo, mais severo e mais difícil de eludir do que os que se encontram dentro de uma tradição ,cujo processo normal é muito mais o discurso crítico do que a solução de enigmas.

mais o discurso crítico do que a solução de enigmas. 13. Conquanto eu não estivesse então

13. Conquanto eu não estivesse então procurando um critério de demar cação, são

exatamente esses os pontos desenvolvidos em minha The Structure oj Scientific Revolutions, pp.

10-22 e 87-90.

14. Cf. Popper, Conjectures and Rejutations, pp. 192-200, com minha The Structure of

Scientijic Revolutions, pp. 143-58.

Num sentido, portanto, a severidade dos critérios-de-teste é tão- -só um lado da moeda cujo verso é a tradição de solução-de-enigmas. Daí que a linha de demarcação de Sir Karl e a minha coincidam com tanta freqüência. A coincidência, contudo, está apenas no resultado delas; o processo de aplicá-las, muito diferente, isola aspectos distintos da atividade a cujo respeito deverá ser tomada a decisão ciência ou não-ciência. Examinando, por exemplo, os casos mais debatidos, a psicanálise ou a historiografia marxista, para os quais, no dizer de Sir Karl, seu critério foi inicialmente destinado, 15 concordo em que eles não podem ser apropriadamente qualificados de “ciência”. Mas chego a essa conclusão por um caminho muito mais seguro e direto do que o dele. Um breve exemplo talvez mostre que, dos dois critérios, o dos testes e o da solução de enigmas, este último é o menos equívoco e o mais fundamental.

A fim de evitar controvérsias contemporâneas sem importância, prefiro focalizar a astrologia a focalizar, digamos, a psicanálise. A astrologia é o exemplo mais freqüentemente citado por Sir Karl de uma “pseudociência”. 16 Diz ele: “Fazendo suas interpretações e profecias suficientemente vagas, eles [os astrólogos] conseguiram explicar de modo plausível tudo o que poderia ter sido uma refutação da teoria se a teoria e as profecias tivessem sido mais precisas. No intuito de escapar ao falseamento eles destruíram a testabilidade da teoria”. 17 Tais generalizações captam algo do espírito da atividade astrológica. Tomadas, no entanto, literalmente, como o terão de ser para fornecer um critério de demarcação, são insustentáveis. A história da astrologia durante os séculos em que foi intelectualmente respeitável registra inúmeros vaticínios que falharam de forma categórica. l,s Nem mesmo os expoentes mais convencidos e veementes da astrologia duvidavam da repetição desses malogros. A astrologia não pode ser ex- cluída das ciências pela forma com que eram feitos seus prognósticos.

Tampouco pode ser excluída em virtude do modo com que seus praticantes explicavam o malogro. Assinalavam os astrólogos, por exemplo, que, quanto à diferença das predições gerais acerca das pro-

quanto à diferença das predições gerais acerca das pro- 15. Popper, Conjectures and Rejutations, p. 34.

15. Popper, Conjectures and Rejutations, p. 34.

16. O índice do livro de Popper Conjectures and Rejutations tem seis verbetes cujo título

é "a astrologia como pseudociência típica".

17. Popper, Conjectures and Rejutations, p. 37.

18. Sobre exemplos, veja Thorndike, A History of Magic and Experimental Science, 5,

pp. 225 e seguintes; 6, pp. 71, 101, 114.

pensões de um indivíduo ou de uma calamidade natural, o prenúncio do futuro de um indivíduo era uma tarefa imensamente complexa, que exigia a máxima habilidade e extrema sensibilidade aos menores erros em dados importantes. A configuração das estrelas e dos oito planetas mudava constantemente; as tabelas astronômicas utilizadas para computar a configuração po _ ocasião do nascimento de um indivíduo não primavam pela perfeição; poucos homens conheciam o instante do seu nascimento com a indispensável precisão. 1(1 Não era de se admirar, portanto, que as previsões falhassem com freqüência. Só depois que a própria astrologia se tornou implausível começaram esses argumentos a dar impressão de que consideravam certo precisamente o que estava em questão. 20 Hoje se empregam amiúde argumentos semelhantes para explicar, por exemplo, malogros na medicina ou na meteorologia. Em ocasiões de dificuldades eles também são apresentados pelas ciências exatas, em campos como a física, a química e a astronomia. 21 Não havia nada de não-científico na explicação do fracasso dada pelo astrólogo.

Não obstante, a astrologia não era uma ciência. Ao invés disso, era um ofício, uma das artes práticas, que apresentava íntimas semelhanças com a engenharia, a meteorologia e a medicina, pela maneira com que se exercitavam há pouco mais de um século. Os paralelos com uma medicina mais antiga e com

a psicanálise contemporânea são, a meu ver, particularmente rigorosos. Em cada

um desses campos a teoria partilhada só era adequada para estabelecer a plausibilidade da disciplina e fornecer uma base-racional às várias regras-de-

ofício que governavam a prática. Tais regras tinham demonstrado sua utilidade no passado, mas nenhum profissional as supunha suficientes para impedir a repetição do fracasso. Faziam-se mister uma teoria mais inteligível e regras mais poderosas, mas teria sido absurdo abandonar uma disciplina plausível e muito necessária, com uma tradição de êxito limitado, só porque ainda não se haviam alcançado tais desi- deratos. Na ausência deles, no entanto, nem o astrólogo nem

o médico poderiam fazer pesquisas. Conquanto tivessem regras para aplicar,

fazer pesquisas. Conquanto tivessem regras para aplicar, 19. Sobre reiteradas explicações de malogro, veja, ibid.,

19. Sobre reiteradas explicações de malogro, veja, ibid., I, pp. 11 e 514; 368; 5, 279.

4,

20. Um apanhado inteligente de algumas das razões por que a astrologia perdeu sua

plausibilidade está incluído no ensaio de Stahlman, “Astrology in Colonial America: An Extended Query”, (á no estudo de Thorndike, “The True Place of Astrology in the History of Science", o leitor encontrará uma explicação do fascínio exercido anteriormente pela astrologia.

21. Cf. minha The Struclure of Scientific Revolutions, pp. 66-76.

não tinham enigmas para resolver e, portanto, não tinham ciência para praticar. 22 Comparem-se as situações do astrônomo e do astrólogo. Se a pre- dição de um astrônomo falhasse e seus cálculos conferissem, ele poderia esperar corrigir a situação. Os dados podiam estar errados: velhas observações podiam ser reexaminadas e novas mensurações feitas, tarefas que criavam uma quantidade de quebra-cabeças de cálculo e instrumentação. Ou talvez a teoria necessitasse de ajustamento, quer pela manipulação de epiciclos, excêntricos, equantes, etc., quer por reformas mais fundamentais de técnica astronômica. Por mais de um milênio tais foram os enigmas teóricos e matemáticos em torno dos quais, juntamente com suas contrapartidas instrumentais, se constituiu a tradição da pesquisa astronômica. O astrólogo, em compensação, não tinha esses quebra-cabeças. A ocorrência de fracassos poderia ser explicadã, mas os fracassos particulares não deram origem a enigmas da pesquisa, pois nenhum homem, por mais habilitado que fosse, poderia utilizá-las na tentativa construtiva de revisar a dificuldade, em sua maioria fora do conhecimento, do controle ou da responsabilidade do astrólogo. Os fracassos individuais eram correspondentemente não-informativos, e não se refletiam na competência do prognosticador aos olhos de seus colegas profissionais. 23 .

aos olhos de seus colegas profissionais. 2 3 . 22. Essa formulação dá a entender que

22. Essa formulação dá a entender que o critério de demarcação de Sir Karl pode ser salvo

enunciando-o de uma forma ligeiramente diferente, inteiramente de acordo com sua intenção aparente. Para que um campo seja uma ciência suas conclusões precisam ser logicamente deriváveis de premissas partilhadas. Sob esse aspecto há que excluir a astrologia, não porque suas previsões não sejam testáveis, mas porque só as previsões mais gerais e menos testáveis podiam ser derivadas da teoria aceita. Visto que qualquer campo capaz de satisfazer a essa condição pode suportar uma tradição de soluciona- mento de enigmas, a sugestão é claramente proveitosa. Está bem próxima de fornecer uma condição suficiente para que um campo seja uma ciência. Mas nesta forma, pelo menos, não é sequer uma condição suficiente e por certo não é uma condição necessária. Ela admitiria, por exemplo, a agrimensura e a navegação como ciências e excluiria a taxonomia, a geologia histórica e a teoria da evolução. As conclusões de uma ciência podem ser precisas e cogentes ao mesmo tempo, sem ser plenamente deriváveis, pela lógica, de premissas aceitas. Cf. minha The Slructure of Scientific Revolutions, pp. 35-51, e também a discussão na Seção III, mais adiante.

23. Isto não quer dizer que os astrólogos não se criticavam uns aos outros. Ao contrário,

como praticantes de filosofia e de algumas ciências sociais, pertenciam a uma variedade de escolas diferentes, e a luta entre as escolas, às vezes, era acirrada. Mas esses debates, de ordinário, giravam em torno da Implausibilidade da teoria adotada por uma ou por outra escola. Òs rríalogros de

predições individuais desempenhavam um papel muito pequeno. Compare-se A Hislory of Magic and Experimental Science de Thorndike, 5, p. 233.

Embora a astronomia e a astrologia fossem quase sempre praticadas pelas mesmas pessoas, incluindo Ptolomeu, Kleper e Tycho Brahe, nunca existiu um equivalente astrológico da tradição astronômica de solução de charadas. E sem charadas, que pudessem primeiro desafiar e depois atestar o engenho do profissional, a astrologia não poderia ter-se tornado ciência, ainda que as estrelas controlassem, de fato, o destino humano.

Em suma, conquanto os astrólogos fizessem predições que poderiam ser testadas e reconhecessem que essas predições às vezes falhavam, não podiam empenhar-se, e não se empenhavam, nos tipos de atividades que normalmente caracterizam todas as ciências reconhecidas. Sir Karl está certo ao excluir a astrologia do rol das ciências, mas sua superconcentração nas revoluções ocasionais da ciência o impede de ver a razão mais segura para fazê-lo.

Esse fato, por seu turno, pode explicar outra singularidade da historiografia de Sir Karl. Embora sublinhe repetidamente o papel dos testes na substituição de teorias científicas, vê-se também obrigado a reconhecer que muitas teorias, como por exemplo a de Ptolomeu, foram substituídas antes de terem sido realmente testadas. 24 Em algumas ocasiões, pelo menos, os testes não são imprescindíveis às revoluções através das quais progride a ciência. Mas isso não é verdade em relação aos enigmas. Se bem que as teorias citadas por Sir Karl não tenham sido postas à prova antes da sua substituição, nenhuma delas foi substituída antes de haver deixado de sustentar convenientemente uma tradição de solução-de-enigmas. O estado da astronomia era um escândalo no início do século XVI. Não obstante, a maioria dos astrônomos acreditava que os ajustamentos normais de um modelo basicamente ptolemaico corrigiriam a situação. Nesse sentido a teoria não falhou ao ser testada. Mas alguns astrônomos, entre os quais Copérnico, entendiam que as dificuldades deviam estar no próprio enfoque ptolemaico e não nas versões particulares da teoria pto- lemaica até então desenvolvidas, e os resultados dessa convicção já foram registrados. A situação é típica. 25 Com ou sem testes, uma tradição de solução- de-enigmas pode preparar o caminho para a própria substituição. Confiar no teste como marca de uma ciência é passar por alto o que os cientistas mais fazem e, com isso, o traço mais característico da sua atividade.

e, com isso, o traço mais característico da sua atividade. 24. Cf. Conjectures and Refutations, de

24. Cf. Conjectures and Refutations, de Popper, p. 246.

25. Cf. minha The Structure of Scientific Revolutions, pp. 77-87.

II

Com o pano de fundo fornecido pelos reparos precedentes podemos descobrir logo a ocasião e as conseqüências de outra expressão favorita de Sir Karl. O prefácio escrito para Conjectures and Refuta- tions (Conjecturas e Refutações) inicia-se com esta sentença: “Os ensaios e conferências de que se compõe este livro são variações sobre um tema muito simples a tese segundo a qual podemos aprender com nossos erros.” O grifo é de Sir Karl; a mesma tese repete-se em seus escritos desde uma data bem anterior; 2,1 tomada isoladamente, ela obriga inevitavelmente ao assentimento. Todos podemos aprender, e aprendemos, com nossos erros; o processo de isolá-los e corrigi-los é uma técnica essencial no ensino das crianças. A retórica de Sir Karl tem raízes na experiência cotidiana. Apesar disso, nos contextos para os quais ele invoca esse imperativo familiar, suas aplicações parecem decididamente torcidas, pois não estou certo de que tenha sido cometido um erro, pelo menos um erro, com o qual se possa aprender.

Não há necessidade de confrontar os problemas filosóficos mais profundos apresentados pelos erros para ver o que está agora em debate. É um erro somar três mais três e obter cinco, ou concluir de ‘ Todos os homens são mortais” que “Todos os mortais são homens”. Por motivos diferentes, é um erro dizer “Ele é minha irmã” ou afirmar a presença de um campo elétrico forte quando as cargas experimentais não a indicam. Presume-se que haja ainda outras espécies de erros mas todos os erros normais tendem a possuir as seguintes características. Um erro é feito, ou cometido, num tempo e num lugar especificáveis, por determinado indivíduo. Esse indivíduo deixou de obedecer a alguma regra estabelecida de lógica, de linguagem, ou das relações entre uma delas e a experiência. Ou deixou de reconhecer as conseqüências de determinada escolha entre as alternativas que as regras lhe facultam. O indivíduo só pode aprender com o seu erro porque o grupo cuja prática incorpora essas regras pode limitar o fracasso individual na aplicação delas. Em suma, as espécies de erros

na aplicação delas. Em suma, as espécies de erros 26. A citação é do livro Conjectures

26.

A citação é do livro Conjectures and Rejutations, de Popper, p. vii, num prefácio

datado de 1962. Anteriormente, Sir Karl equiparara “aprender com nossos erros a "aprender por ensaio-e-erro” (Conjectures and Rejutations, p. 216), e a formulação de ensaio-e-erro data, pelo menos, de 1937 (Conjectures and Rejutations, p. 312) e é, em espírito, mais velho do que isso. Muita coisa dita mais adiante sobre a noção de “equívoco” de Sir Karl aplica-se igualmente ao seu conceito de “erro”.

a que se aplica o imperativo de Sir Karl de modo mais óbvio estão numa falha de compreensão ou deconhecimento do indivíduo dentro de uma atividade governada por regras preestabelecidas. Nas ciên- cias, tais erros ocorrem com maior freqüência, e talvez de forma exclusiva, na prática da pesquisa normal dê solução-de-enigmas.

Não é aí, todavia, que Sir Karl os procura, pois o seu conceito de ciência obscurece até a existência da pesquisa normal. Ele os procura nos episódios extraordinários ou revolucionários do desenvolvimento científico. Os erros. para os quais aponta geralmente não são atos, senão teorias científicas do passado: a astronomia ptólémai- ca, a teoria do flogisto ou a dinâmica newtoniana, e “aprender jcom nossos erros” é o que acontece, correspondentemente, quando uma comunidade científica rejeita uma dessas teorias e a substitui por outra. 27 Se isto não parece de imediato uma utilização estranha, a razão principal é porque apela para o resíduo indutivista que existe em todos nós. Acreditando que as teorias válidas são o produto de induções corretas a partir dos fatos, ,o indutivista também sustenta que uma teoria falsa resulta de um erro de indução. Em princípio, pelo menos, ele está preparado para responder a perguntas: que erro se perpetrou, que regra foi violada, quando e por quem, para se chegar, digamos, ao sistema ptolemaico? Ao homem para o qual essas perguntas são sensatas, e só a ele, a expressão de Sir Karl não apresenta problemas.

Mas nem Sir Karl nem eu somos indutivistas. Não acreditamos que existem regras para induzir teorias corretas a partir dos fatos, nem mesmo que as teorias, corretas ou incorretas, são induzidas. Ao invés disso, nós as encaramos como suposições imaginativas, que se

nós as encaramos como suposições imaginativas, que se 27. Conjectures and Refutations, de Popper, pp. 215

27. Conjectures and Refutations, de Popper, pp. 215 e 220. Nessas páginas Sir Karl

esboça e ilustra sua tese de que a ciência se desenvolve através de revoluções. Ao fazê-lo, nunca

justapõe o termo “erro” ao nome de uma teoria científica superada, presumivelmente porque o seu sólido instinto histórico não lhe permite incorrer num anacronismo tão grosseiro. Não obstante, o anacronismo é fundamental para a retórica de Sir Karl, que reiteradamente fornece pistas conducentes a diferenças mais substanciais entre nós. A menos que as teorias superadas

sejam erros, não há maneira de reconciliar, digamos, o parágrafo inicial do prefácio de Sir Karl para o livro Conjectures and Refutations, p. vii, "aprender com nossos erros”, “nossas tentativas freqüentemente equivocadas de resolver nossos problemas”, “testes que podem ajudar - nos na descoberta de nossos erros”, com a opinião (Conjectures and Refutations, p. 215) de que

[consiste na] repetida derrubada de teorias

científicas e sua substituição por teorias melhores e mais satisfatórias”.

“o crescimento do conhecimento científico

inventam em um só bloco para serem aplicadas à natureza. E se bem assinalemos que essas suposições podem encontrar, e geralmente acabam encontrando enigmas que não lhes é dado resolver, também reconhecemos que tais confrontações incômodas raro ocorrem durante algum tempo depois de inventada

e aceita a teoria. Em nossa opinião, portanto, não se perpetrou nenhum erro para

chegar ao sistema ptò- lemaico, e acho difícil compreender o que Sir Karl tem em mente quando chama de erro esse sistema, ou qualquer outra teoria superada. Poder-se-á querer dizer no máximo que uma teoria que não era um erro passou a sê-lo ou que um cientista errou ao aferrar-se a uma teoria por um tempo demasiado longo. E nem mesmo tais expressões, a primeira das quais pelo menos

é extremamente inábil, nos devolve o sentido de erro com o qual estamos mais

familiarizados. Esses erros são os erros normais que um astrônomo ptolemaico (ou coperniciano) faz dentro do seu sistema, talvez observando, calculando ou analisando dados. Isto é, pertencem ao tipo de erros que se podem isolar e logo depois corrigir, deixando intacto o sistema original. No sentido de Sir Karl, por outro lado, um erro contamina todo um sistèma e só pode ser corrigido substituindo-se todo o sistema. Não há expressões nem similaridades capazes de disfarçar essas diferenças fundamentais, nem se pode esconder o fato de que, antes de instalar-se a contaminação, o sistema tinha a plena integridade do que

ora denominamos conhecimento sólido.

É muito possível que o sentido de “erro” de Sir Karl possa ser recuperado, mas uma operação bem-sucedida de recuperação terá de privá-lo de certas implicações ainda correntes. Como o termo “teste”, o termo “erro” foi tomado da ciência normal, onde o seu uso é razoavelmente claro, e aplicado a episódios revolucionários, onde sua apli- çação, na melhor das hipóteses, é problemática. Essa transferência cria, ou pelo menos reforça, a impressão predominante de que teorias inteiras podem ser julgadas pela mesma espécie de critérios que se empregam para julgar as aplicações de pesquisa individual de uma teoria. A descoberta de critérios aplicáveis torna-se, então, um deái- derato fundamental para muitos. É estranho que Sir Karl se encontre entre eles, pois a pesquisa se opõe à mais original e frutuosa investida de sua filosofia da ciência. Mas não posso compreender de outra maneira seus escritos metodológicos desde a Logik der Forschung. Parece-me que ele, a despeito de repúdios explícitos, procurou sistematicamente processos de avaliação que se podem aplicar a teorias com a segurança apodítica característica das técnicas pelas quais se identificam os erros na aritmética, lógica ou mensuração. Receio que ele esteja perseguindo um fogo- fátuo nascido da mesma conjunção de

ciência normal e ciência extraordinária que fez que os testes parecessem um traço tão fundamental das ciências.

III

Em sua Logik der Forschung, Sir Karl sublinhou a assimetria entre uma generalização e sua negação na relação delas com a evidência empírica. Não se pode mostrar que uma teoria científica se aplica de maneira bem-sucedida a todos os casos possíveis, mas pode mos- trar-se que ela foi malsucedida em determinadas aplicações. A ênfase emprestada a esse truísmo lógico e às suas implicações afigura-se um passo à frente do qual não há que voltar atrás. A mesma assimetria desempenha um papel fundamental em minha Structure of Scientific Revolutions, onde a incapacidade de uma teoria de fornecer regras para identificar quebra- cabeças solúveis é encarada como a origem de crises profissionais que não raro resultam na substituição da teoria. Minha idéia está muito próxima da de Sir Karl, e bem posso tê-la tirado do que ouvi sobre a obra dele.

Mas Sir Karl descreve como “falseamento” ou “refutação” o que acontece quando uma teoria fálhá na tentativa de aplicação, e estas são as primeiras de uma série de expressões que me parecem sumamente estranhas. Tanto “falseamento” quanto “refutação”, antônimos de “prova”, são tiradas principalmente da lógica e da matemática formais; as cadeias de raciocínio a que elas se aplicam rematam-se com um “Q.E.D.”; a invocação desses termos supõe a capacidade de obrigar ao assentimento qualquer membro da comunidade profissional pertinente. Ninguém entre os aqui presentes, no entanto, precisa ainda que se lhe diga que os argumentos raros são tão apodíticos nos casos em que está em jogo toda uma teoria ou, com maior freqüência, até uma lei científica. Todas as experiências podem ser contesta- das, quer quanto à relevância, quer quanto à exatidão. Todas as teorias podem ser modificadas por uma variedade de ajustamentos ad hoc sem por isso deixar de ser, em suas linhas gerais, as mesmas teorias. De mais a mais, é importante que assim seja, pois é amiúde contestando observações ou ajustando teorias que se desenvolve o conhecimento científico. Contestações e ajustamentos são uma parte comum da pesquisa normal na ciência empírica, e os ajustamentos, pelo menos, representam também um papel dominante na matemática não-formal. A brilhante análise das contra-réplicas permissíveis às refutações matemáticas levadas a efeito pelo Dr. Lakatos fornece os

argumentos mais impressionantes que conheço contra a posição fal- seacionista ingênua. 28

Sir Karl não é, obviamente, um falseacionista ingênuo. Sabe tudo o que acaba de ser dito e enfatizou-o desde o princípio da sua carreira. Em sua Logic of Scientific Discovery (A Lógica da Descoberta Científica), por exemplo, escreve:

“Na verdade, nunca se poderá produzir a refutação concludente de uma teoria; pois é sempre possível dizer que os resultados experimentais não merecem confiança ou que as discrepâncias que se afirmam existir entre os resultados ex - perimentais e a teoria são apenas aparentes e desaparecerão com o processo de nosso entendimento.” 29 Enunçiados como esse mostram mais um paralelo entre a visão da ciência de Sir Karl e a minha, mas o que fazemos com eles dificilmente poderia ser mais diferente. Para a minha visão eles são fundamentais, não só como evidência mas também como fonte. Para a visão de Sir Karl, no entanto, são uma qualificação essencial que ameaça a integridade da sua posição básica. Tendo excluído a refutação, concludente, ele não providenciou um substituto para ela, e a relação que continua a empregar é a do falseamento lógico. Conquanto não seja um falseacionista ingênuo Sir Rarl, no meu entender, pode ser legitimamente tratado como tal.

Se ele só se interessasse pela demarcação, os problemas colocados peia falta de disponibilidade de refutações concludentes seriam menos severos e talvez elimináveis. Isto é, a demarcação poderia con- seguir-se mediante um critério exclusivamente sintático. 30 A posição de Sir Karl seria então, e talvez assim o seja, que uma teoria é científica se e somente se os enunciados de observação sobretudo as negações de enunciados existenciais singulares puderem ser logi- camente deduzidos dela, talvez em conjunção com o conhecimento básico expresso. As dificuldades (às quais logo voltarei) para decidir se o resultado de determinada operação de laboratório justifica a asserção de determinado enunciado de observação seriam então irrelevantes. Talvez se pudessem eliminar da mesma maneira as dificul

Talvez se pudessem eliminar da mesma maneira as dificul 28. “Proofs and Refutations”, de Lakatos. 29.

28. “Proofs and Refutations”, de Lakatos.

29. Logic of Scientific Discovery, de Popper, p. 50.

30. Se bem que o meu ponto seja um pouco diferente, devo meu reconhecimento da

necessidade de enfrentar essa questão às críticas dirigidas por C. G. Hempel aos que interpretam erroneamente Sir Karl atribuindo-lhe uma crença no falseamento absoluto em lugar de uma crença

no falseamento relativo. Veja os seus Aspects of Scientific Explanation, p. 45. Reconheço-me também devedor do Professor Hempel por sua crítica atenta e ' inteligente deste ensaio quando ainda não passava de um rascunho.

dades igualmente graves para decidir se um enunciado de observação deduzido de uma versão aproximada (por exemplo, matematicamente controlável) da teoria deva ser considerado conseqüência da própria teoria, embora a base para fazê -lo seja menos aparente. Problemas como esses não pertenceriam à sintaxe, mas à pragmática ou á semântica da linguagem em que a teoria foi moldada, e não desempenhariam, portanto, papel algum na determinação do seu status como ciência. Para ser científica, a teoria precisa ser falseável apenas por um enunciado de observação e não pela observação real. A relação entre enunciados, à diferença da que existe entre um enunciado e uma observação, poderia ser a refutação concludente familiar da lógica e da matemática.

Por motivos sugeridos acima (p. 15, nota de rodapé n.° 22) e desenvolvidos

logo depois, duvido que as teorias científicas possam ser moldadas, sem uma mudança decisiva, numa forma que permita os julgamentos puramente sintáticos exigidos por essa versão do critério de Sir Karl. Mas ainda que o pudessem ser, essas teorias reconstruídas só proporcionariam uma base para o seu critério de demarcação, è hão para a lógica do conhecimento tão intimamente associada a ele. Esta última, entretanto, tem constituído o interesse mais persistente de Sir Karl, e a noção que ele tem dela é bem precisa. “A lógica do conhecimento ” escreve ele, “consiste tão-só em investigar os métodos empregados nos testes sistemáticos a que toda idéia nova tem de ser submetida para ser tomada seriamente em consideração.” 31 Dessa investigação, continua ele, resultam regras ou convenções metodológicas como as seguintes: “Depois que uma hipótese tiver sido proposta e testada, e tiver demonstrado sua têmpera, não se deve permitir que seja posta de lado sem uma ‘boa razão’. Uma ‘boa razão’ pode

ser, por

Regras como essa e, com elas, toda a atividade lógica acima descrita, já não são simplesmente sintáticas em sua importância. Requerem que tanto o investigador epistemológico quanto o cientista pesquisador sejam capazes de relacionar sentenças derivadas de uma teoria não com outras sentenças mas com observações e experiências reais. Esse é o contexto em que precisa funcionar o termo “falseamento” de Sir Karl, e Sir Karl mantém absoluto silêncio sobre como isso pode ser feito. Que é o falseamento se não é a refutação conclu

o falseamento de uma das suas conseqüências.” 32

o falseamento de uma das suas conseqüências.” 3 2 31. Popper, Logic of Scientific Discovery, p.

31. Popper, Logic of Scientific Discovery, p. 31.

dente? Em que circunstâncias exige a lógica do conhecimento que o cientista abandone uma teoria previamente aceita quando se defronta, não com enunciados sobre experiências, mas com as próprias experiências? Até a elucidação dessas questões, não me parece muito claro que o que Sir Karl nos deu seja uma lógica do conhecimento. A meu ver, embora igualmente valiosa, trata-se de coisa muitíssimo diversa. Em lugar de uma lógica, Sir Karl nos ofereceu uma ideologia; em lugar de regras metodológicas, ele nos deu máximas de procedimento.

Cumpre, todavia, adiar essa conclusão até que se lance um derradeiro e mais profundo olhar à origem das dificuldades surgidas com a noção de falseamento de Sir Karl. Ela pressupõe, como já sugeri, que se pode moldar ou remoldar, sem distorção, uma teoria numa forma que permite aos cientistas classificar cada evento concebível como um caso que confirma a teoria, como um caso que a falseia ou como um caso que é irrelevante para a teoria. Para que uma lei geral seja falseável requer-se obviamente que, a fim de testar a generalização (x) Ø (x) aplicando-a à constante a, sejamos capazes de dizer se a se encontra ou não dentro do âmbito da variável x e se é o caso de que 0 (a) ou não. A mesma pressuposição é ainda mais aparente na medida de verossimilhança recém-elaborada por Sir Karl. Ela requer que se produza primeiro a classe de todas as conseqüências lógicas da teoria e depois se escolham entre essas conseqüências, com a ajuda do conhecimento básico, as classes de todas as conseqüências verdadeiras e de todas as falsas/* 3 Pelo menos será preciso fazê-lo se o critério de verossimilhança tiver de resultar num método de escolha de teorias. Entretanto, nenhuma dessas tarefas pode ser levada a cabo se a teoria não for totalmente articulada logicamente e se os termos através dos quais ela se liga à natureza não tiverem sido suficientemente definidos para determinar-lhes a aplicabilidade em cada caso possível. Na prática, todavia, nenhuma teoria científica satisfaz a essas exigências, e muita gente já sustentou que, se o fizesse, a teoria deixaria de ser útil à pesquisa. 34 Eu mesmo apresentei alhures o termo “paradigma” com o propósito de destacar a dependência da pesquisa

com o propósito de destacar a dependência da pesquisa 33. Popper, Conjectures and Rejutations, pp. 233-5.

33. Popper, Conjectures and Rejutations, pp. 233-5. Note-se também, no pé da última

dessas páginas, que a comparação de Sir Karl da relativa verossimilhança de duas (eorias

depende do fato de “não haver mudanças revolucioná rias em nosso conhecimento básico”, suposição que ele não desenvolve em parte alguma e que é difícil de harmonizar com a sua concepção da mudança científica mediante revoluções.

34. Braithwaite, Scientific Explanation, pp. 50-87, especialmente p. 76, e minha The

Structure of Scientific Revolutions, pp. 97-101.

científica para com exemplo s concretos, que lançam uma ponte sobre o que de outro modo seriam lacunas na especificação do conteúdo e na aplicação das teorias científicas. Não se podem repetir aqui os argumentos pertinentes. Mas um breve exemplo, embora altere temporariamente minha linha de discurso, talvez seja ainda mais útil.

Meu exemplo tem a forma de um resumo construído a partir de conhecimentos científicos elementares. Esse conhecimento refere- se aos cisnes e para isolar-lhe as características atualmente pertinentes farei três perguntas a respeito: (a) Quanto se pode saber a respeito de cisnes sem introduzir generalizações explícitas como esta: “Todos os cisnes são brancos?” (b) Em que circunstâncias e com que conseqüências convém acrescentar tais generalizações ao que era sabido sem elas? (c) Em que circunstâncias se rejeitam as generalizações depois de feitas? Ao formular essas perguntas meu objetivo é sugerir ”] que, embora a lógica seja um instrumento poderoso e essencial da investigação científica, é possível ter um conhecimento sólido em formas a que escassamente se pode aplicar a lógica. Sugiro outrossim que a articulação lógica não é um valor em si mesma, mas só deve; ser buscada quando as circunstâncias a exigem e na medida em que' a exigem.

Imagine, o leitor, que lhe foram mostrados, e você pode lembrar- se deles, dez pássaros peremptoriamente identificados como cisnes; imagine ainda que possui uma familiaridade semelhante com patos, gansos, pombos, rolinhas, gaivotas, etc., e que está informado de que cada um desses tipos constitui uma família natural. Você já sabe que uma família natural é um grupo observado de objetos semelhantes, suficientemente importantes e suficientemente discretos para exigir um nome genérico. Com maior precisão, embora eu aqui simplifique mais do que o requer o conceito, uma família natural é uma classe cujos membros são mais parecidos uns com os outros do que com os membros de outras famílias naturais. 35 A experiência das gerações tem confirmado até agora que todos os objetos observados cabem numa ou noutra família natural. Isto é, mostrou que toda a população do mundo pode ser dividida (embora não de uma vez por

do mundo pode ser dividida (embora não de uma vez por 35. Note-se que a semelhança

35. Note-se que a semelhança entre os membros de uma família natural é aqui uma

relação aprendida e uma relação que pode ser desaprendida. Pondere-se o antigo provérbio:

“Para um ocidental, todos os chineses são parecidos.” Esse exemplo também põe em destaque a mais drástica das simplificações introduzidas neste ponto. Uma discussão mais completa teria

de tomar em consideração hierarquias de famílias naturais com relações de semelhança entre famílias nos níveis mais elevados.

todas) em categorias perceptivamente descontínuas. Acredita-se que nos espaços perceptivos entre as categorias não existe objeto algum.

O que você aprendeu a respeito de cisnes pela exposição a paradigmas é muito parecido com o que as crianças aprendem primeiro acerca de cães e gatos, mesas e cadeiras, mães e pais. Claro está que é impossível especificar-lhes o âmbito e o conteúdo especí- fico mas, apesar de tudo, é conhecimento sólido. Derivado da obser- vação, pode ser invalidado por uma observação ulterior e, entremen- tes, proporciona uma base de ação racional. Ao ver um pássaro muito parecido com os cisnes que já conhece, você poderá com razão supor que ele come o que comem os outros e dar-lhe o mesmo alimento. Se os cisnes constituem uma família natural, nenhum pássaro que se pareça muito com eles à primeira vista exibirá características radicalmente diferentes a um exame mais atento. É claro que você talvez tenha sido mal informado acerca da integridade natural da família dos cisnes. Mas isso pode ser descoberto pela experiência, como por exemplo a descoberta de certo número de animais (observe-se que mais de um são necessários) cujas características estabeleçam uma ponte entre os cisnes e, digamos, os gansos por intervalos vagamente perceptíveis. 36 Até que isso ocorra, entretanto, você saberá muita coisa a respeito de cisnes, embora não esteja plenamente seguro do que sabe nem tem certeza do que é um cisne.

Suponha agora que todos os cisnes que você realmente observou são brancos. Deverá adotar a generalização “Todos os cisnes são brancos”? O fazê -lo mudará muito pouco o que você sabe; essa mudança só terá utilidade no caso pouco provável de você encontrar um pássaro não-branco que sob outros aspectos se pareça com um cisne; fazendo a mudança você aumenta o risco de que se prove que a família dos cisnes não é, apesar de tudo, uma família natural. Nessas circunstâncias você tenderá a abster-se de generalizar, a menos que haja razões especiais para fazê-lo. Talvez, por exemplo, você precise descrever cisnes a homens que não se podem expor diretamente a paradigmas. Sem uma cautela sobre-humana, tanto de sua parte quanto da parte dos seus leitores, sua descrição adquirirá

da parte dos seus leitores, sua descrição adquirirá 36. Essa experiência não exige o abandono da

36. Essa experiência não exige o abandono da categoria “cisnes” nem o abandono da categoria "gansos”, mas exige a introdução de um limite arbitrário entre elas. As famílias “cisnes” e “gansos” deixariam de ser famílias naturais, e não se poderia concluir coisa alguma acerca do caráter de um novo pássaro semelhante a um cisne que também não fosse verdadeiro em relação aos gansos. O espaço perceptual vazio é essencial para que a qualidade de membro da família tenha conteúdo cognitivo.

a força de uma generalização; tal é, muitas vezes, o problema do taxiólogo. Ou

você talvez tenha descoberto alguns pássaros cinzentos, que se parecem em outros sentidos com os cisnes, mas que comem comida diferente e têm uma conformação defeituosa. Você poderá então generalizar para evitar um equívoco de

comportamento. Ou poderá ter uma razão mais teórica para pensar que a generalização vale a pena. Talvez tenha observado, por exemplo, que os membros de outras famílias naturais possuem a mesma coloração. A especificação desse fato de modo que faculte a aplicação de técnicas lógicas poderosas, ao que você sabe, pode permitir-lhe aprender mais a respeito da cor animal em geral ou da reprodução animal.

Ora, tendo feito a generalização, que fará você se encontrar um pássaro preto que de outra forma se parece com um cisne? Quase as mesmas coisas, penso

eu, que faria se já não estivesse comprometido com a generalização. Examinará o pássaro com cuidado, externamente e talvez internamente também, a fim de encontrar outras características que distingam esse espécime dos seus paradigmas.

O exame será particularmente demorado e completo se você tiver razões teóri cas

para acreditar que a cor caracteriza as famílias naturais ou se o seu ego estiver profundamente envolvido na generalização. É muito provável que o exame revele outras diferenças, e você anunciará a descoberta de uma nova família natural. Ou, não encontrando tais diferenças, poderá anunciar o achado de um cisne preto. A observação, contudo, não pode forçá-lo a essa conclusão falseadorà, 5 você, de vez em quando sairia perdendo se isso acontecesse. Considerações teóricas podem sugerir que a cor basta para demarcar uma família naturail: o pássaro não é um cisne porque é preto. Ou você poderá simplesmente adiar a questão enquanto espera a descoberta e o exame de outros espécimes. Só se já se tiver comprometido com uma plena definição de “cisne”, uma definição que lhe especifique a aplicabilidade a todo objeto concebível, poderá você ser logicamente forçado a rescindir sua generalização. 37 . E por que teria oferecido tal definição?* Ela não teria nenhuma função cognitiva e o exporia a

Ela não teria nenhuma função cognitiva e o exporia a 37. Novas provas da desnaturalidade de

37. Novas provas da desnaturalidade de uma definição dessa natureza são fornecidas pela pergunta seguinte. Deve incluir-se a "brancura” entre as características que definem os cisnes? Em caso afirmativo, a generalização “Todos os cisnes são brancos” será imune à experiência. Mas se se excluir a “brancura” da definição, será preciso incluir outra característica qualquer capaz de substituir a “brancura”. As decisões a respeito das características que fazem parte de uma definição e estarão disponíveis para o enunciado de leis gerais são amiúde arbitrárias e, na prática, raramente se fazem. O conhecimento, em regra geral, não se articula dessa maneira.

tremendos riscos. 38 Está visto que, muitas vezes, vale a pena assumir riscos, mas dizer mais do que se sabe, só por amor ao risco, é temeridade.

Tenho para mim que o conhecimento científico, embora logicamente mais articulado e muito mais complexo, é desse tipo. Os livros e os mestres onde ele se adquire apresentam exemplos concretos a par de uma infinidade de generalizações teóricas. Ambos são veículos essenciais do conhecimento e é, pois, pickwickiano procurar um critério metodológico que suponha o cientista capaz de determinar

ante- cipadamente cada caso imaginável se ajustará à sua teoria ou a falseará. Os

critérios de- que eie dispõe, explícitos e implícitos, só são suficientes para responder a essa pergunta nos casos que se ajustam claramente ou que são claramente irrelevantes. Esses são os casos que eie espera, e para os quais o seu conhecimento foi planeja- do: Defrontando-se com o inesperado, ele deve sempre

fazer novas pesquisas a fim de articular melhor a sua teoria na área que acaba de tornar-se problemática. Poderá então rejeitá-la em favor de outra e pior uma boa razão. Mas critérios exclusivamente lógicos não podem ditar sozinhos a conclusão que ele deve obter.

IV

Quase tudo o que foi dito até agora são variações sobre um único tema. Os critérios com que os cientistas determinam a validade de uma articulação ou de uma aplicação da teoria existente não bastam por si mesmos a determinar a escolha entre teorias concor- rentes. Sir Karl errou transferindo características escolhidas de pesquisa cotidiana para os episódios revolucionários ocasionais em que o avanço científico é mais óbvio, ignorando, inteiramente a partir daí, a atividade de todos os dias. Ele procurou, em particular, resolver o problema da escolha da teoria durante revoluções pelos critérios lógicos só aplicáveis íntegra quando a teoria já pode ser pressuposta. Esta é a maior parte da minha tese neste trabalho e poderia ser toda ela se eu me contentasse em deixar completamente abertas as questões aventadas. Como é que os cientistas procedem à escolha

aventadas. Como é que os cientistas procedem à escolha 38. Essa incompletude das definições é muitas

38. Essa incompletude das definições é muitas vezes denominada "textura aberta” ou

“vagueza de significado”, mas tais expressões parecem decididamente enviesadas. As definições talvez sejam incompletas, mas não há nada de errado com os significados. Ê dessa maneira que se

comportam os significados!

entre teorias concorrentes? Como havemos nós de compreender o modo com que

a ciência progride?

Seja-me permitido esclarecer de pronto que, tendo aberto essa caixa de Pandora, não tardarei em fechá-la. Há muita coisa em relação a tais questões que eu não entendo, nem devo fingir que as compreendo. Mas acredito ver as direções em que as respostas devem ser buscadas, e concluirei com uma breve tentativa para mostrar o caminho. Perto do seu fim tornaremos a encontrar um conjunto de expressões características de Sir Karl.

Preciso perguntar primeiro que é o que ainda requer explicação. Não é que os cientistas descobrem a verdade a respeito da natureza, nem que eles se aproximam ainda mais da verdade. A não ser, como sugere um dos meus críticos, 39 que definamos simplesmente o enfoque da verdade como o resultado da atividade dos cientistas, não podemos reconhecer o progresso na direção dessa meta. Precisamos antes explicar por que a ciência nosso exemplo mais seguro de conhecimento sólido progride, e precisamos descobrir primeiro como de fato o faz.

Ainda se conhece surpreendentemente pouco sobre a resposta a essa questão descritiva. Ainda se faz necessária grande quantidade de cuidadosa investigação empírica. Com o passar do tempo, as teorias científicas tomadas em grupo tornam-se obviamente mais e mais articuladas. Nesse processo, equiparam- se à natureza em um número cada vez maior de pontos e com crescente precisão. Ou o número de temas a que se pode aplicar o enfoque da solução de enigmas cresce claramente com o tempo. Há uma contínua proliferação de especialidades científicas, em parte pela extensão dos limites da ciência e em parte pela subdivisão dos campos existentes.

Tais generalizações, no entanto, são apenas um princípio. Não sabemos, por exemplo, quase nada sobre o que um grupo de cientis- tas está disposto a sacrificar

a fim de lograr os ganhos que uma nova teoria invariavelmente oferece. Minha

impressão, embora não seja mais do que isso, é que uma comunidade científica raro ou nunca adotara uma nova teoria a não ser que esta resolva todos ou quase todos os enigmas quantitativos e numéricos que se deparavam à sua predecessora. 40 Por outro lado. eles sacrificarão o poder expla- natório, embora com relutância, deixando às vezes abertas questões

embora com relutância, deixando às vezes abertas questões 39. Hawkins, crítica da "The Structure of Scientific

39. Hawkins, crítica da "The Structure of Scientific Revolutions”, de Kuhn.

40. Cf. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, pp. 102-8.

anteriormente resolvidas e, às vezes, declarando-as inteiramente não- - científicas. 4r Voltando-nos para outra área, pouco sabemos acerca das mudanças históricas ocorridas na unidade das ciências. Apesar de êxitos espetaculares, a comunicação através das fronteiras entre especialidades científicas torna-se cada vez pior. Crescerá com o tempo o número de pontos de vista incompatíveis empregados pelo número sempre maior de comunidades de especialistas? A unidade das ciências representa sem dúvida um valor para os cientistas, mas em favor do que serão eles capazes de renunciar a ela? Ou ainda, conquanto o volume do conhecimento científico aumente claramente com o tempo, que diremos da ignorância? Os problemas resolvidos nos últimos trinta anos não existiam como questões abertas há um século. Em qualquer época, o saber científico já disponível esgota virtualmente o que há para saber, só deixando quebra-cabeças visíveis no horizonte do conhecimento existente. Não será possível, nem mesmo provável, que os cientistas contemporâneos saibam menos do que há para saber a respeito do seu mundo do que sabiam a respeito do seu os cientistas do século XVIII? Cumpre lembrar que as teorias científicas só se ligam à natureza aqui e ali. Serão agora talvez os interstícios entre os pontos de ligação maiores e mais numerosos do que no passado?

Enquanto não pudermos responder a mais perguntas como essas, não saberemos direito o que é o progresso científico e não poderemos, portanto, esperar explicá-lo. Por outro lado, pouco faltará para que as respostas a essas perguntas forneçam a explicação desejada. As duas vêm quase juntas. Já devia estar claro que a explicação, na análise final, precisa ser psicológica ou sociológica. Isto é, precisa ser a descrição de um sistema de valores, uma ideologia, juntamente com uma análise as instituições através das quais o sistema é transmitido e imposto. Sabendo a que os cientistas dão valor, podemos esperar compreender os problemas pelos quais se responsabilizarão e as escolhas que farão em determinadas circunstâncias de conflito. Duvido que se possa encontrar outra espécie de resposta.

A forma que a resposta assumirá, naturalmente, é outro assunto. Neste ponto termina também minha consciência do controle do meu tema. Mais uma vez, porém, algumas generalizações de amostras ilustrarão os tipos de respostas que se devem procurar. Para um cientista, a solução de um difícil enigma conceptual ou instrumental

a solução de um difícil enigma conceptual ou instrumental 41. Cf. Kuhn, “The Function of Measurement

41. Cf. Kuhn, “The Function of Measurement in Modern Phvsical Scien ce”.

representa uma meta principal. O seu êxito nessa tentativa é recom- pènsado pelo reconhecimento de outros membros do seu grupo profissional e só deles. O mérito prático da solução, na melhor das Hipóteses, é um valor secundário, e a aprovação de homens fora do grupo especialista é um valor negativo ou não é nenhum valor. Tais valores, que muito contribuem para ditar a forma da ciência normal, são também às vezes significativos quando é preciso escolher entre teorias. Um homem treinado para solucionar enigmas desejará preservar o maior número possível de soluções já obtidas pelo seu grupo, e desejará também maximizar o número de enigmas passíveis de solução. Mas até esses valores freqüentemente conflitam entre si e outros há que tornam o problema da escolha ainda mais difiçil. É exatamente nesse sentido que seria mais significativo um estudo daquilo a que os cientistas renunciarão. A simplicidade, a precisão e a compatibilidade com as teorias utilizadas em outras especialidades saõ valores expressivos para os cientistas, mas nem todas ditam a mesma escolha nem serão aplicadas da mesma maneira. Nessas circunstâncias, importa igualmente que a unanimidade do grupo seja um valor soberano, levando o grupo a minimizar as ocasiões de conflito e a congregar-se rapidamente em torno do mesmo conjunto de regras para a solução de enigmas, ainda que para isso lhe seja preciso subdi - vidir a especialidade ou excluir um membro anteriormente produtivo. 42

Não estou dizendo que estas são as respostas certas ao problema do progresso científico, mas apenas os tipos de respostas que devem ser procurados. Poderei esperar que Sir Karl me faça companhia nesta maneira de ver a tarefa que ainda está por ser feita? Durante algum tempo presumi que ele não o faria, visto que um conjunto de expressões que se repetem em sua obra parece impedi - lo de assumir essa posição. Ele rejeitou reiteradamente “a psicologia do conhecimento” ou o “subjetivo” e insistiu em que o seu interesse se resumia no “objetivo” ou na “lógica do conhecimento”. 43 O título de sua contribuição mais fundamental para o nosso campo é A Lógica da Descoberta Científica, e é ali que ele afirma da maneira mais positiva que o seu interesse diz muito mais respeito aos estímulos lógicos para conhecimento do que aos impulsos psicológicos dos indivíduos. Até há pouco tempo eu supunha que essa maneira de encarar o problema excluiria a solução que tenho advogado.

encarar o problema excluiria a solução que tenho advogado. 42. Cf. The Structure of Scientific Revolutions,

42. Cf. The Structure of Scientific Revolutions, de minha autoria, pp.

161-9.

43. Popper, Logic of Scientific Discovery, pp. 22 e 31 e seguintes, 46; e Conjectures and Refutations, p. 52.

Mas agora estou menos seguro, pois há outro aspecto da obra de Sir Karl não muito compatível com o que precede. Quando ele rejeita “a psicologia do conhecimento”, o seu interesse explícito é apenas negar a importância metodológica da fonte de inspiração do indivíduo ou da consciência de certeza do indivíduo. Disso não posso discordar. Vai, todavia, uma longa distância entre a rejeição das idiossincrasias do indivíduo e a rejeição dos elementos comuns induzidos pela criação e pela educação na composição psicológica da situação de membro licenciado de um grupo científico. A dispensa de um não impõe a do outro. E isso também Sir Karl parece reconhecer às vezes. Embora insista em que está escrevendo sobre a lógica do conhecimento, um papel essencial em sua metodologia é desempenhado por trechos que só posso interpretar como tentativas de inculcar imperativos morais aos membros do grupo científico.

“Presumamos”, escreve Sir Karl, “que nos impusemos deliberadamente a

tarefa de viver neste nosso mundo desconhecido; ajustar- nos a ele da melhor

e explicá-lo, se possível (não precisamos presumir que

maneira que

o seja) e até onde for possível, com a ajuda de leis e teorias explanatórias. Se nos impusermos essa tarefa, não existe processo mais racional que o método conjetura e da refutação: de ousadamente propor teorias; de envidar nossos melhores esforços para mostrar que estas são errôneas; e de aceitá-las como tentativas se nossos esforços críticos forem malsuce- didos.” 44 Entendo que não devemos compreender o êxito da ciência sem compreender toda a força de

imperativos como estes, reto- ricamente induzidos e profissionalmente partilhados. Ainda mais institucionalizados e articulados (e também um tanto diversamente) tais máximas e valores talvez expliquem o resultado de escolhas que não poderiam ter sido ditas só pela lógica e pela experiência. O fato de passagens como estas ocuparem um lugar proeminente nos escritos de Sir Karl é, portanto, mais uma prova da semelhança dos nossos pontos de vista. E o fato de continuar ele, no meu entender, sem os ver como os imperativos sociopsicológicos que são é mais uma prova da existência da mudança de gestalt que ainda nos divide profundamente.

da mudança de gestalt que ainda nos divide profundamente. 44. Popper, Conjecíures and Rejutaticms, p. 51.

44. Popper, Conjecíures and Rejutaticms, p. 51. O grifo está no original.

REFERÊNCIAS

Braithwaite [1953]: Scientific Explanation, 1953.

Guerlac [1961]: Lavoisier The Crucial Year, 1961.

Hafner e Presswood [1965]: “Strong Interference and Weak Interactions”, Science, 149, pp.

503-10.

Hawkins [1963]: Crítica da “Structure of Scientific Revolutions”, de Kuhn, American Journal of Physics, 31.

Hempel [1965]: Aspects of Scientific Explanation, 1965.

Lakatos [1963-4]: “Proofs and Refutations”, The British fournal for the Philosophy of Science, 14, pp. 1-25, 120-39, 221-43, 296-342.

Kuhn [1961]: “The Function of Measurement in Modern Physical Science”, /s/s, 52, pp. 161 -

93.

Kuhn [1962]: The Structure of Scientific Revolutions, 1962.

Popper [1935]: Logik der Forschung, 1935.

Popper [1945]: The Open Society and its Enemies, 2 vols, 1945.

Popper [1957]: The Poverty of Historicism, 1957.

Popper [1959]: Logic of Scientific Discovery, 1959.

Popper [1963]: Conjectures and Refutations, 1963.

Stahlman [1956]: "Astrology in Colonial America: An Extended Query”, William and Mary Quarterly, 13, pp. 551-63.

Thorndike [1923-58]: A History of Magic and Experimental Science, 8 vols, 1923-58.

Thorndike r 1955]: “The True Place of Astrology in the History of Science”, Isis, 46, pp. 273-

8.

CONTRA A "CIÊNCIA NORMAL”

JOHN WATKINS London School of

I

Economics

Há algumas semanas fui convocado para responder na tarde de hoje ao Professor Kuhn. Feyerabend e Lakatos forneceriam os outros ensaios; mas o primeiro não pôde vir e o segundo descobriu que, ao organizar este seminário, gerara um monstro de muitas cabeças e só para atender às suas exigências, que se multiplicavam, estaria ocupado aproximadamente vinte e quatro horas por dia.

O convite inesperado deixou-me muito feliz. Kuhn goza de uma posição única no mundo de fala inglesa como historiador com mentalidade filosófica e como filósofo da ciência com espírito histórico. Entendi que seria um privilégio e um prazer responder ao seu trabalho.

Para Kuhn, todavia, a mudança de programa foi menos agradável. Ele esperava que Feyerabend e Lakatos escrevessem ensaios independentes, de modo que o seu só precisaria estar pronto hoje à tarde. Soube, então, que ,eu responderia ao seu ensaio, o que significava que eu deveria vê-lo com alguma antecedência. Reagiu heroicamente, enviando pedaços do seu trabalho através do Atlântico à medida que lhe saíam da máquina de escrever. Durante grande parte da última semana senti-me como o leitor de um folhetim sensacional, aguardando ansioso, o capítulo seguinte. Dessa maneira, meu próprio ensaio foi escrito de um só fôlego; e receio que isto tenha agravado minha tendência para não levar em conta detalhes e sutilezas na tentativa de medir forças com as idéias de alguém.

No tumulto dos últimos dias tive um grande auxiliar. A obra de Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, é um livro famoso,

com o qual me acho razoavelmente familiarizado. Tive o privilégio de lê -lo quando ainda manuscrito em 1961 e de discuti-lo com o autor. Em 1963 foi ele tema de extensos debates no seminário de Sir Karl Popper, em que o Sr. Hattiangadi apresentou um estudo a seu respeito (e que, mais tarde, desenvolveu em interessantíssima dissertação). Mais adiante, citarei alguma coisa que Popper disse na ocasião; não me surpreenderá que meu ensaio contenha empréstimos feitos inconscientemente às nossas discussões durante o seminário.

De modo que o meu trabalho versará tanto sobre o livro de Kuhn quanto o ensaio que ele acaba de ler. O que não deixa de ser conveniente, visto que em seu estudo, Kuhn adotou uma política muito parecida com a política sukarniana de confrontação entre a visão da ciência proposta em seu livro e a visão popperiana da ciência. Alegra-me que o tenha feito. Lembro-me de haver-lhe sugerido em 1961 que desenvolvesse e discutisse em seu livro o choque entre sua visão da comunidade científica como sociedade essencialmente fechada, constantemente abalada por colapsos nervosos coletivos seguidos da restauração da harmonia mental, e a visão de Popper do que deve ser, e realmente é, em grau considerável a comunidade científica: uma sociedade aberta em que nenhuma teoria, por mais dominante e bem-sucedida que seja, nenhum “paradigma”, para usar o termo de Kuhn, é sagrado. Na ocasião Kuhn não seguiu a sugestão, mas hoje fez, sem dúvida, uma “amende honorable”.

Duas coisas, todavia, me deixaram um tanto insatisfeito com a maneira pelo qual ele organizou a confrontação. Em primeiro lugar, a forma como ele a apresenta não é tão séria quanto poderia ser. Logo no começo, diz: “Em quase todas as ocasiões em que nos voltamos explicitamente para os mesmos problemas, nossas opiniões sobre ciência são quase idênticas.” 1 Minha meta será apresentar os conflitos maiores entre os dois pontos de vista. A esta altura limi- tar-me-ei a citar uma observação incluída no ensaio de Kuhn que, por assim dizer, resume o conflito principal numa sentença: “é precisamente o abandono do discurso crítico que assinala a transição para uma ciência.” 2

A segunda causa da minha insatisfação é diferente. Uma confrontação ao estilo de Sukamo envolve não só um grande choque ideológico mas também grande quantidade de escaramuças locais. Espero que Kuhn me perdoe por limitar a maior parte das minhas

Espero que Kuhn me perdoe por limitar a maior parte das minhas 1. Neste volume, pp.

1. Neste volume, pp. 5-6.

2. Neste volume, p. 11,

contra-escaramuças a uma nota de pé de página. 3 Em meu texto con- centrar-me- ei na idéia dele idéia original e estimulante da Ciência Normal. Haverá certa injustiça inconsciente ou, pelo menos, certa parcialidade em minha discussão da idéia. Acredito que ela tenha considerável importância sociológica. Um sociólogo que investigasse a profissão científica como poderia investigar, digamos, a profissão médica, bem andaria se a utilizasse como seu tipo ideal. Mas eu a considerarei de um ponto de vista metodológico, e a metodologia, tal como a compreendo, diz mais respeito à ciência no que ela tem de melhor, ou à ciência como deveria ser dirigida, do que à ciência vulgar. Meu programa será o seguinte. Começarei, na seção II, confrontando o relato da Ciência Normal de Kuhn com a apreciação que Popper faria de uma situação científica em harmonia com a idéia da Ciência Normal de Kuhn. Depois, na seção IH, perguntarei por que Kuhn afirma que a Ciência Normal, tal como se opõe ao que ele denomina Ciência Extraordinária, constitui a essência da ciência. Por fim, na seção IV, perguntarei se a Ciência Normal pode ser como Kuhn a descreve e, sem embargo disso, dar origem à Ciência Extraordinária. Minha resposta será “Não”; e mostrarei que essa resposta refuta felizmente a visão de Kuhn da normalidade científica como sociedade fechada de mentes fechadas.

científica como sociedade fechada de mentes fechadas. 3. O método de Kuhn consiste em escolher certas

3. O método de Kuhn consiste em escolher certas “expressões características”, e erigir

sobre elas uma construção que ele possa censurar à vontade. Mas suas cons truções têm às vezes leve semelhança com o que foi dito nos livros onde se colheram as expressões. (O próprio Kuhn admite às vezes que suas construções nem sempre se ajustam perfeitamente. Assim, na p. 14, escreve: “Conquanto não seja um falseacionista ingênuo, Sir Karl, no meu entender, pode ser legitimamente tratado como tal.”) Kuhn, por exemplo, pondera com muitas sacudidelas de cabeça a “expressão” que “podemos aprender com nossos erros”. Ele parece incapaz de admitir que Popper usasse a palavra “erro” num sentido alegremente despojado de sentimento de culpa, sem ne nhuma sugestão de fracasso pessoal, de transgressão de regras, etc. O físico

I. E. Wheeler empregou a palavra num espírito popperiano quando escreveu: “Todo o nosso problema é cometer erros o mais depressa possível” (Wheeler, “A Septet of Sibyls, Aids in the Search for Truth”, p. 360). Como o alvo principal de Kuhn era o critério de demarcação de Popper, e como Popper o enunciou com suma nitidez, seria de esperar que aqui, ao menos, Kuhn fiz esse uma citaçlo precisa. Mas não, ele prefere mais uma vez apresentar uma construção sua: “A

demarcação poderia conseguir-se por um critério exclusivamente sintático. Sir Karl entenderia então, e talvez assim o entenda, que uma teoria só será científica se os enunciados de observação sobretudo as negações de enunciados existenciais singulares puderem ser logicamente

(p. 144). Se se consultar a Logik der Forschung de Popper, seção 21, ver-se-á

que isso está cheio de erros (no sentido de Kuhn).

deduzidos delas

II

Considerando a idéia de Ciência Normal de Kuhn de um ponto de vista popperiano, é natural que eu me concentre noque diz Kuhn acerca dos testes dentro da Ciência Normal. Realizam-se testes, diz ele, o tempo todo, mas “esses testes são de um gênero peculiar pois, na análise final, é o cientista e não a teoria vigente que se põe à prova”. 4 Sua idéia é essa. O chamado “teste” em Ciência Normal não é teste de teorias, e sim parte de uma atividade de solução-de-enig- mas. A Ciência Normal é governada por algum paradigma (ou teoria dominante). Confia-se implicitamente no paradigma; mas ele não se ajusta com perfeição aos achados experimentais. Sempre haverá dis- crepâncias ou anomalias aparentes. A Pesquisa Normal consiste, em grande parte, na solução dessas anomalias através de ajustamentos adequados, que deixam intacto o paradigma. Toma-se então o paradigma como garantia da existência de uma solução para cada enigma gerado pelas discrepâncias aparentes entre ele e as observações. Daí que, embora os “testes” realizados dentro da Ciência Normal pareçam testes da teoria predominante quando vistos através de óculos popperianos, são, na verdade, testes de outra coisa, a saber, da habilidade do experimentador em solucionar enigmas. Se for negativo, o resultado de um “teste” dessa natureza não atingirá a teoria, mas atingirá desfavoravelmente o experimentador, cujo prestígio poderá ser diminuído pelo malogro da sua tentativa de solucionar o enigma; mas o prestígio do paradigma dentro de cuja estrutura foi feita a tentativa é tão elevado que dificilmente será abalado por dificuldadezinhas locais dessa natureza.

Segundo Kuhn, é apenas num momento do que ele denomina Ciência Extraordinária, quando a própria teoria predominante está sendo atacada, que pode ocorrer alguma coisa como teste autêntico de teorias. Nesse caso, o resultado negativo de um teste pode ser considerado, não como o fracasso pessoal do experimentador, mas como o fracasso da teoria. Para usarmos as palavras de Kuhn, “Um fracasso visto antes como pessoal parece então o fracasso da teoria que está sendo testada”. 5

Para Kuhn, a Ciência Normal, como o próprio nome o sugere, é a condição normal da ciência; a Ciência Extraordinária é uma condição anormal; e, repetimos, dentro da Ciência Normal, o teste

anormal; e, repetimos, dentro da Ciência Normal, o teste 4. Neste volume, p. 10. 5. Neste

4. Neste volume, p. 10.

5. Neste volume, p. 11.

autêntico das teorias predominantes torna-se impossível de algum misterioso modo psicossociológico. Não admira que Kuhn se surpreenda com um reparo que ele considera “virtualmente um clichê”, 6 a saber, a observação de Popper de que os cientistas propõem enunciados e os testam passo a passo. Para Kuhn é virtualmente um clichê dizer que os cientistas empenham-se normalmente numa infinidade de testes: testam suas soluções com relação a enigmas gerados por anomalias; e para ele é surpreendentemente incorreto dizer que os cientistas costumam testar teorias.

Popper nunca negou a conveniência de se defender uma teoria com algum dogmatismo, de modo que ela não seja posta de lado com demasiada rapidez, antes que os seus recursos tenham sido cabalmente examinados; mas esse dogmatismo só será saudável enquanto houver outras pessoas por perto que não se inibam de criticar e pôr à prova uma teoria defendida com tenacidade. Se todos se achassem sob alguma compulsão misteriosa para preservar as teorias vigentes da ciência contra resultados incômodos, essas teorias, no entender de Popper, perderiam seu status científico e degenerariam em algo parecido com doutrinas metafísicas.

Temos assim o seguinte conflito: a condição da ciência que Kuhn considera normal e apropriada é uma condição que, se fosse realmente obtida, Popper consideraria não-científica, um estado de coisas em que a ciência crítica se teria convertido em metafísica defensiva. Popper sugeriu por divisa da ciência:

Revolução permanente! Para Kuhn, parece mais apropriada a máxima: Panacéias, não; normalidade, sim!

No seu trabalho de hoje Kuhn falou na ênfase dada por Popper à assimetria entre a falseabilidade e a não-verificabilidade das generalizações científicas, como “um passo à frente do qual não há voltar atrás”. 7 Acrescentou que a “mesma assimetria desempenha um papel fundamental em minha Structure of Scientific bem posso tê-lo tirado do que ouvi sobre a obra dele.” Mas a memória de Kuhn parece ter-lhe pregado uma peça neste ponto: em seu livro ele se referiu explicitamente à tese de Popper de que não há verificação e de que o falseamento é o que importa, 8 e o fez no intuito de dispensar essa tese por irrealística, sob a alegação de que na Ciência Normal não há falseamento de teorias, ao passo que na Ciência Extraordinária a prova que se aceita como falseadora do paradigma

a prova que se aceita como falseadora do paradigma 6. A leste volume, p. 11. 7.

6. Aleste volume, p. 11.

7. Neste volume, p. 11.

8. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, p. 145.

que se despede é também aceita como verificadora do novo paradigma que já se admite. 9 Em sua Structure of Scientific Revolutions Kuhn não apresentou nenhum critério de demarcação para a ciência; limitou-se a pôr de lado o critério de falseabilidade de Popper. Agora propõe um critério alternativo próprio:

Finalmente, e tal é por enquanto o meu ponto principal, um olhar cuidadoso dirigido à atividade científica dá a entender que é a Ciência Normal onde não ocorrem os tipos de testes de Sir Karl e não a Ciência Extraordinária que quase sempre distingue a ciência de outras atividades. A existir um critério de demarcação (entendo que não devemos procurar um critério nítido nem decisivo), só pode estar na parte da ciência que Sir Karl ignora. 10

Isso foi cautelosamente redigido. Mas na página seguinte, mais ousado, Kuhn afirmou: “dos dois critérios, o dos testes e o da solução de enigmas, este último é o menos equívoco e o mais fundamental”. 11 De minha parte, lançarei aos ventos a cautela de Kuhn e lhe reenunciarei a sugestão sem qualquer preocupação de prudência: a Ciência Normal (em que verdadeiramente não há teste algum de teorias) é ciência autêntica; a Ciência Extraordinária (em que ocorre teste autêntico de teorias) é tão anormal, tão diferente da ciência genuína, que mal se pode chamar de ciência. Kuhn explica que, por se confundir com tanta facilidade o solucionamento de enigmas com o teste, “a linha de demarcação de Sir Karl e a minha coincidem com tanta freqüência”. 12 Bem, as linhas podem coincidir; mas elas dividem o material de maneiras opostas. O que é genuinamente científico para Kuhn mal chega a ser ciência para Popper, e o que é genuinamente científico para Popper mal chega a ser ciência para Kuhn. Kuhn apresenta a seguinte consideração contra o critério de Popper e a favor do seu: tem acontecido freqüentemente na história da ciência de uma teoria ser substituída antes de haver fracassado num teste, mas nenhuma o foi “antes de haver deixado de sustentar convenientemente uma tradição de solução-de- enigmas”. 13 Daí que

tradição de solução-de- enigmas”. 1 3 Daí que também pode ser chamado de verificação, uma vez

também pode ser chamado de

verificação, uma vez que consiste no triunfo de urji novo paradigma sobre o antigo” (Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, p. 146).

9. “Mas o falseamento, embora ocorra seguramente

10. Neste

volume,

p. 11.

11. Neste

volume,

p. 12.

12. Neste

volume,

p. 12.

13. Neste

volume,

p. 17.

o teste não seja, afinal de contas, tão importante assim. “Confiar no teste como marca de uma ciência é passar por alto o que os cientistas mais fazem e, com isso, o traço mais característico de sua atividade.” 14 Em primeiro lugar, porém, Popper não confia, como marca de uma teoria científica, no fato de ter sido ela realmente testada mas no de ser testável, e

quanto mais testável melhor (mantendo-se iguais as outras coisas). Por isso está totalmente de acordo com a sua filosofia da ciência a substituição de uma teoria científica por uma teoria mais testável, mesmo que a anterior ainda não tenha falhado num teste. Em segundo lugar, contrastando com a idéia relativamente clara da testabilidade, a noção de deixar de “sustentar convenientemente uma tradição de solução-de-enigmas” é essencialmente vaga; pois visto que Kuhn insiste em que há sempre anomalias e enigmas não solucionados, 15 a diferença entre sustentar e deixar de sustentar uma tradição de solução-de-enigmas é uma simples diferença de grau: deve haver um nível crítico em que uma quantidade tolerável de anoma - lias se transforma numa quantidade intolerável. Como não sabemos qual é o nível crítico, esse é o tipo de critério que só pode ser usado retrospectivamente:

permite-nos declarar, depois de ocorrida uma mudança de paradigma, que a pressão empírica sobre o velho paradigma deve ter-se tornado intolerável. (Isto se ajusta bem à idéia de Kuhn de que um paradigma reinante exerce tamanha influência sobre o espírito dos homens que só uma vigorosa pressão empírica pode desalojá-lo.) Mas a história da ciência contém exemplos importantes de uma teoria dominante, empiricamente bem-sucedida, suplantada por uma teoria incompatível

e mais testável. Permitam-me citar um exemplo disso. Antes de Newton, as leis

de Kepler constituíam a teoria dominante do sistema solar. Parece-me que já não

é necessário demonstrar que a teoria newtoniana é rigorosamente incompatível

com as leis originais de Kepler se falarmos da incorporação das últimas nas primeiras da sua subordinação a elas, deveremos acrescentar que são versões significativamente modificadas dessas leis que provêm da teoria de Newton. 16 Se Kuhn admitir que a teoria de Kepler

de Newton. 1 6 Se Kuhn admitir que a teoria de Kepler 14. Neste volume, p.

14. Neste volume, p. 17.

15. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, p. 81.

16. Há mais de cinqüenta anos Pierre Duhem escreveu: “O princípio da gravidade

universal, muito longe de ser derivável por generalização e indução das leis observacionais de Kepler, as contradiz formalmente. Se a teoria de Newton for correta, as leis de Kepler são necessariamente falsas” (Duhem, La théorie Physique: son Objet et sa Structure, p. 193 da

tradução inglesa de

era um paradigma incompatível com o paradigma newtoniano, terá de admitir, creio eu, que este foi um caso de mudança de paradigma. De forma que surge a pergunta: é plausível afirmar que o paradigma kepleriano “deixou de sustentar convenientemente uma tradição de solução-de-enigmas”? Havia, antes de Newton, um enigma não-solucionado ligado às leis de Kepler. O próprio Newton menciona “uma perturbação da órbita de Saturno em

toda conjunção desse planeta com Júpiter, tão sensível, que os astrônomos estão perplexos com ela”. 17 Mas visto que, para Kuhn, há sempre enigmas não resolvidos, isto dificilmente equivalerá à incapacidade “de sustentar uma tradição de solução-de-enigmas”. Newton, de qualquer maneira, parece ter estado longe de considerar o sistema kepleriano como tendo fracassado. Na Proposição

a que está anexada a supracitada observação, ele enunciou as duas primeiras leis de Kepler de forma incorreta, 18 contribuindo com isso para a origem da lenda perpetuada por Halley, que, em sua crítica dos Principia, escreveu, “Aqui [no Livro III] está demonstrada a verdade da Hipótese de Kepler”. 19 Parece que uma teoria dominante é passível de ser substituída, não em virtude de uma crescente pressão empírica (que pode ser pequena), porém graças

a uma teoria nova e incomparável (inspirada talvez por uma diferente concepção

metafísica) livremente desenvolvida: uma crise científica talvez tenha causas mais teóricas do que empíricas. 20 Se isto for assim, há maior liberdade de

pensamento na

0 Se isto for assim, há maior liberdade de pensamento na 1954). Sobre uma análise mais

1954). Sobre uma análise mais circunstanciada das inconsistências entre a teoria newtoniana e as leis de Kepler inconsistências que significam que as últimas terão de ser corrigidas de maneiras importantes antes de poderem ser explicadas pela primeira — veja “The Aim of Science”, e Conjectures and Refutations, de Popper, p. 62 n.

17. Newton, Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, Livro III, Prop. xiii. O

Professor J. Agassi chamou-me a atenção para esse trecho. (Ele o discute em seu livro Towards an Historiography of Science, na nota de rodapé n.° 5 da p. 79.)

18. Newton, Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, Livro III, Prop. xiii.

Quanto à terceira lei de Kepler, veja Livro I, Prop. iv, cor. vi., e também The Correspondence of Isaac Newton.

19. Halley, Crítica dos Principia, Philosophical Transactions, de Newton, p. 410.

20. O ponto mais próximo disso a que chega Kuhn está em sua admissão de que pode

emergir um novo paradigma "pelo menos em embrião, antes que uma crise se tenha desenvolvido muito (Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, p. 86; o grifo é meu). A possibilidade de que o paradigma chegue a emergir antes que se tenha sequer desenvolvido a

crise, e de que ele possa gerar a crise, é excluída por sua idéia da predominância do paradigma dentro da Ciência Normal.

ciência do que presume Kuhn. Voltarei a esse problema na última seção.

III

Mais adiante, demonstrarei que, se for capaz de dar origem à Ciência Extraordinária (ou Revolucionária), a Ciência Normal não pode ter o caráter que Kuhn lhe atribui. Por ora, no entanto, suporei que a história da ciência exibe com efeito um padrão kuhniano; isto é, suporei que um ciclo típico consiste num período longo de Ciência Normal, que dá lugar a um período curto e agitado da Ciência Extraordinária, depois do qual sobrevém um novo período de Ciência Normal. A pergunta que faço é a seguinte: Por que se empenha Kuhn em superestimar a Ciência Normal e em subestimar a Ciência Extraordinária? Essa pergunta é provocada por diversas considerações. Primeiro, a Ciência Normal me parece maçante e não-heróica comparada com a Ciência Extraordinária. O próprio Kuhn considera um equívoco, mas um equívoco perfeitamente natural, encarar a Ciência Normal como “uma atividade intrinsecamente desinteressante”, 21 e admite que a Ciência Normal é relativamente estéril em matéria de novas idéias. Determinações mais exatas de constantes físicas eis o que realizam as “operações de limpeza do terreno” que constituem a Ciência Normal. 22 Segundo, Kuhn reiterou hoje à tarde que ele, como Popper, rejeita “o parecer de que a ciência progride por acumulação”; 2:i mas se lhe perguntassem de que maneira progride a Ciência normal, diria, presumivelmente, que ela progride de maneira ordenada, não-dramática, gradativa, isto é, por acumulação. Por que, e de outro livro, ainda mais famoso, sobre as revoluções científicas médio se adquire o conhecimento científico”, 21 chega Kuhn a identificar a ciência com seus períodos de estagnação teórica? Terceiro, por que o autor de um livro excelente sobre a revolução coperniciana e de outro livro, ainda mais famoso, sobre as revoluções científicas em geral, veio a ter uma espécie de aversão filosófica pelas revoluções científicas? Por que está tão enamorado da laboriosa e não-crítica Ciência Normal? Uma resposta, embora eu desconfie que não seja a principal, é que se deixou impressionar por considerações meramente quantitati

deixou impressionar por considerações meramente quantitati 21. 22. Kuhn, The Structure Neste volume, p. 11.

21.

22. Kuhn,The Structure

Neste volume,

p. 11.

ofScientific Revolutions, pp. 24 e 27.

Neste volume,

23. p. 5.

Neste volume,

24. p.5; o grifo

é

vas: há muito mais Ciência Normal, medida em horas de trabalho, do que Ciência Extraordinária. A Ciência Normal, diz Kuhn, “é responsável pela imensa maioria do trabalho realizado em ciência básica”. 25 Os desenvolvimentos científicos com que Popper se preocupa são “muito raros”. 28 De um ponto de vista sociológico pode ser correto não dar crédito a algo em função de sua raridade. Mas de um ponto de vista metodológico, algo raro em ciência uma nova idéia capaz de novos caminhos ou uma experiência crucial entre duas teorias importantes pode ter muito mais peso do que alguma coisa que acontece o tempo todo. Não creio, todavia, que essas considerações quantitativas fossem decisivas para Kuhn. Desconfio que estava funcionando uma espécie muito diferente de consideração. Como o assunto é um tanto pessoal e delicado, e minha prova foi toda tirada do livro de Kuhn, não exporei minhas conjeturas imediatamente, mas chegarei a elas passo a passo. Começarei considerando até que ponto o critério de demarcação de Kuhn consegue excluir certas disciplinas intelectuais que poucos dentre nós chamaríamos científicas. É interessante que o próprio Kuhn tenha dito, a esse respeito, que não “quer acompanhar Sir Karl quando este rotula a astrologia de metafísica em lugar de ciência”. 27 E não é difícil ver por quê: a cuidadosa elaboração de um horóscopo, ou de um calendário astrológico, ajusta-se perfeitamente à idéia de Kuhn sobre a Pesquisa Normal. O trabalho é feito sob a égide de um corpo estável de dou trina, não desacreditado, aos olhos dos astrólogos, por fracassos que se podem prever. Mais interessante, a propósito das possíveis razões de Kuhn para depreciar a ciência revolucionária, é outra espécie de caso que pa

a ciência revolucionária, é outra espécie de caso que pa 25. Neste volume, p. 9. 26.

25. Neste volume, p. 9.

26. Neste volume, p. 10.

27. Esta citação foi tirada do rascunho original do ensaio de Kuhn. Ele agora diz que

“Sir Karl está certo ao excluir a astrologia do rol das ciências” (p. 11, o grifo é meu) certo, mas pelos motivos errados: pois havia malogros pr.editivos na astrologia (se bem esses malogros sempre pudessem ser “explicados”); por outro lado, os astrólogos “não tinham enigmas para resolver e, portanto, não tinham ciência para praticar” (p. 9). Esta nova revelação da sutileza do conceito-de-enigma de Kuhn me deixa alarmado. Eu sabia que um malogro preditivo podia ser considerado como simples anomalia enigmática, e p oderia mais tarde, quando se modificasse a estrutura, vir a ser encarado como refutação. Eu não percebera que pode haver malogros prediti- vos que não são vistos como refutações nem como colocadores de enigmas.

rece ajustar-se com perfeição à sua idéia de Pesquisa Normal. Ima- gina-se um estudioso de teologia trabalhando numa inconsistência aparente entre duas passagens bíblicas. A doutrina teológica lhe assegura que a Bíblia, convenientemente compreendida, não contém inconsistência. Sua tarefa consiste em fornecer uma interpretação que ofereça uma reconciliação convincente entre as duas passagens. Esse trabalho parece essencialmente análogo à pesquisa científica “normal” descrita por Kuhn; e há elementos para supor que ele não repudiaria a analogia. Pois The Structure of Scientific Revolutions contém inú- meras sugestões, algumas explícitas, outras implícitas, na escolha da linguagem, de um paralelismo significativo entre a ciência, mormente a Ciência Normal, e a teologia. Kuhn discorre acerca de uma educação científica como um “processo de iniciação profissional” 28 que “prepara o estudante para a condição de membro de determinada comunidade científica”. 29 Diz ele que “é uma educação estreita e rí- gida, provavelmente mais estreita e mais rígida que qualquer outra, exceto talvez a da teologia ortodoxa”. 30 Diz também que a educação científica envolve a reescrita, em manuais, da história de trás para diante, o que indica “um dos aspectos do trabalho científico que mais claramente o distingue de qualquer out ra atividade criativa, exceto talvez a teologia": 31 Em outros lugares, a sugestão de um paralelismo entre a ciência e a teologia, embora menos explícita, não é menos óbvia. Diz ele, por exemplo, que a Ciência Normal “suprime freqüentemente novidades fundamentais por serem necessariamente subversivas dos seus compromissos básicos.” 32 E quando Kuhn discute o processo pessoal de repudiar um velho paradigma e abraçar um novo, descreve-o como uma “experiência de conversão”, 33 acrescentando que “uma decisão desse gênero só pode ser feita com base 1 1 a fé.” 34

Entendo, portanto, que, para Kuhn, há uma analogia entre a comunidade científica e a comunidade religiosa e a ciência é a religião do cientista. Assim sendo, talvez se possa perceber por que coloca ele a Ciência Normal acima da Ciência Extraordinária: esta última corresponde, do lado religioso, a um período de crise e cisma, confusão e desespero, a uma catástrofe espiritual.

cisma, confusão e desespero, a uma catástrofe espiritual. 28. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, p.

28. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, p. 47.

Op.

29. cit., p.

11.

30. Op.

cit.,

p.

165;

o

grifo

é meu.

31. Op.

cit.,

p.

135;

o

grifo

é meu.

32. Op.

cit., p.

5.

33. Op.

cit., p.

150.

34. Op.

cit., p.

157.

IV

Até aqui, andei considerando as avaliações comparativas de Kuhn da Ciência Normal e da Ciência Extraordinária na suposição de que a história da ciência apresenta, de fato, um ciclo Ciência Normal/ Ciência Extraordinária/Ciência Normal. Contestarei agora essa suposição.

Um modo de contestar seria apontar para exemplos históricos contrários, isto é, para longos períodos de história científica em que não emergiu nenhum paradigma claro e durante o qual estiveram ausentes os típicos sintomas da Ciência Normal. Lembro-me de Popper ter dito (no correr das nossas discussões durante o simpósio, sobre o livro de Kuhn) que, embora o newtonianismo se transformasse em algo parecido com um paradigma no sentido kuhniano, nenhum paradigma dessa natureza emergiu durante a longa história da teoria da matéria 35 :

aqui desde os pré-socráticos até os dias atuais tem havido debates infindáveis entre os conceitos contínuos e descontínuos da matéria, entre várias teorias atômicas de um lado, e teorias etéreas, ondulatórias e de campo, de outro.

Desejo colocar uma objeção diferente, que diz respeito à possibilidade da emergência de um novo paradigma no fim de um período de Ciência Normal. Não criticarei o relato epidemiológico que ele apresentou em seu livro, sobre como, depois de um novo paradigma haver contagiado uns poucos agentes transmissores, a epidemia pode espalhar-se pela comunidade científica. Nas linhas que se seguem concentrarei a atenção no primeiro cientista a aceitar o novo paradigma. Minha tese será que um novo paradigma nunca emergirá da Ciência Normal tal como esta foi caracterizada por Kuhn.

Começarei recapitulando algumas teses kuhnianas relativas à mudança do paradigma.

(1) É da natureza do paradigma gozar de um monopólio em sua influência sobre o pensamento do cientista. O paradigma não tolera rivais: está incluído no conceito de paradigma de Kuhn a noção de que o cientista, enquanto se acha sob a sua influência, não pode pensar seriamente num paradigma rival. Se começou a brincar com um paradigma rival, isso quer dizer que o velho paradigma já está morto para ele. Chamo-a de tese do Monopólio do Paradigma.

morto para ele. Chamo-a de tese do Monopólio do Paradigma. por Shapere: cf. o seu trabalho

por

Shapere: cf. o seu trabalho sobre ‘‘The Structure of Scientific Revolu tions”, p. 387.

35.

Um

argumento

semelhante

foi

apresentado

independentemente

Du-

dley

(2) É pequeno ou nulo o interregno entre o fim do reinado do velho paradigma sobre a mente do cientista e o começo do reinado do novo. O cientista não anda por aí durante um período substancial de tempo sem nenhum paradigma para guiá-lo. Só abandona um paradigma para abraçar outro. (Como se gritasse, O Paradigma morreu. Viva o Paradigma.) Eu chamo-lhe a tese do Nenhum In- terregno.

O novo paradigma será incompatível com o paradigma por ele

suplantado. 3fi (Kuhn, na verdade, vai mais longe ainda e afirma que o novo paradigma será incomensurável com o velho. 37 Discutirei mais adiante a relação entre incompatibilidade e incomensurabilida- de.) Chamo à tese de Kuhn sobre o choque entre o velho e o novo paradigma de tese da Incompatibilidade. (É evidente que ela reforça a tese do Monopólio do Paradigma.)

(4) Da conjunção das três teses acima segue-se que a conversão do cientista de um paradigma velho para um novo tem de ser rápida e decisiva. Kuhn endossa enfaticamente essa implicação. Já o vimos referir-se à mudança de paradigma como a uma “conversão”; e de outras passagens de seu livro se depreende que, no seu entender, tais conversões são aceleradas. Diz ele que uma mudança de paradigma é “um evento relativamente súbito e não-estruturado como

a mudança de gestalí”, 38 e que “não se pode fazer a transição entre paradigmas

Como a mudança de gestalí, ela tem de

concorrentes dando um passo por

ocorrer de uma vez (embora não necessariamente num instante)”. 39 Chamo a esta

a tese da Mudança de Gestalt. (5) Considerem-se agora as implicações das teses anteriores para a invenção de um novo paradigma. O ponto de vista de Kuhn admite que o paradigma, depois de inventado, pode levar muito tempo para conquistar a aceitação geral. A pergunta é esta: quanto tempo pode levar o inventor original para juntar os rudimentos do novo paradigma? Ou digamo-lo de outra maneira:

que espécie de pré-história pode ter o novo paradigma? A resposta implícita na tese da Mudança de Gestalt parece ser esta: nenhuma. Antes de mudar-se para ele, pensamento do cientista se exercitava ao longo de linhas irreconcilia- velmente diferentes (segundo as teses do Monopólio do Paradigma e da Incompatibilidade). Sua mudança para o novo paradigma tem de ser considerada idêntica à sua invenção do novo paradigma. (Estou

(3)

idêntica à sua invenção do novo paradigma. (Estou (3) 36. Kuhn, TheStructure of Scientific Revolutions, pp.

36. Kuhn, TheStructure of Scientific Revolutions, pp. 91 e 102.

37.

O p.cit.,

pp. 4,

102, 111 e

38. Op. cit.,

p.

121.

39. Op. cit.,

p.

149.

presumindo que ele foi inventado no interior da comunidade científica e não importado de fontes extracientíficas.) E visto que a mudança para ele foi “relativamente súbita”, sua invenção também deve ter sido relativamente súbita. Kuhn endossa a implicação. Em seu livro escreveu: “O novo paradigma, ou uma sugestão suficiente para permitir uma articulação posterior emerge de uma vez, às vezes no meio da noite, 110 espírito de um homem profundamente imerso na crise”. 10 E hoje à tarde ele repetiu que as teorias “se inventam em bloco”.' 11 Chamo a esta, maliciosamente, a tese do Paradigma Instantâneo. (O café instantâneo leva mais que um instante para ser feito; mas faz-se “de uma vez”, à diferença de uma torta de carne e de rins, da qual se pode dizer que “se faz dando um passo por vez”.) Precisamos lembrar-nos de que o novo paradigma é imediatamente tão poderoso que induz o nosso cientista a voltar-se contra o bem expresso e não- refutado paradigma que lhe dominou o pensamento científico até então. Isso quer dizer, creio eu, que o novo paradigma não pode começar como se fosse um mero conjunto de idéias fragmentárias mas, desde o princípio, precisa ser suficientemente grande e definido para que suas surpreendentes capacidades latentes sejam manifestas ao seu inventor. A ser assim, afigura-se-me que a tese do Paradigma Instantâneo é escassamente digna de fé do ponto de vista psicológico. Não sei quanto um gênio só é capaz de realizar no meio da noite, mas desconfio de que essa tese espera demasiado dele. Como quer que seja, no entanto, existem exemplos históricos contrários a ela. Para citar apenas um: a Lei do Inverso do Quadrado era um componente importante da teoria newtoniana (que Kuhn considera o paradigma dos paradigmas); e Pierre Duhem remontou a longa evolução da Lei do Inverso do Quadrado, passando por Hooke, Kepler e Copér- nico, até a idéia de Aristóteles de que os corpos procuram o centro da terra. 42 Concluo que se impõe a rejeição da tese do Paradigma Instantâneo.

se impõe a rejeição da tese do Paradigma Instantâneo. 40. Op. cit., p. 89. 41. Neste

40. Op. cit., p. 89.

41. Neste volume, p. 40.

42. Duhem, op. cit. capítulo vii, seção 2. O próprio Duhem propõe esse exemplo em

apoio da sua resposta enfaticamente negativa "Seguramente não” à pergunta: “A mente [de um homem] é suficientemente poderosa para criar uma teoria física de uma só vez?” (op. cit.,

capítulo vii, seção 2). Agassi rotulou a própria concepção de Duhem da evolução das idéias científicas de “a teoria da continuidade” (Agassi, Towards an Historiography of Science, pp. 31 e seguintes). Agassi ataca o método historiográfico patrocinado por essa concepção; ele, naturalmente, não propõe a contra-afirmação de que as teorias são inventadas de uma só vez.

A tese do Paradigma Instantâneo proveio da tese da Mudança de Gestalt quando esta última foi aplicada ao primeiro homem que mudou para o novo paradigma. E a tese da Mudança de Gestalt proveio da conjunção das teses do Monopólio do Paradigma, do Nenhum Interregno e da Incompatibilidade. Daí que, se se rejeitar a tese do Paradigma Instantâneo, terá de ser rejeitada uma dessas três. Considerarei primeiro a da Incompatibilidade. Parece haver certa incoerência interna na versão de Kuhn dessa tese. Ele afirma que o que “emerge de uma revolução científica não é só incompatível mas a miúdo realmente incomensurável com o que se passou antes”. 43 Mas poderiam duas teorias incomensuráveis ser logicamente incompatíveis? Se alguém sustentar, digamos, que os mitos bíblicos e as teorias científicas são incomensuráveis, pertencem a diferentes universos de discurso, estará presumivelmente querendo dizer que o relato da Criação que se lê no Gênese não deveria ser encarado como logicamente incompatível com a geologia, o darwinis- mo, etc.: eles são compatíveis e podem coexistir de modo pacífico exatamente por serem incomensuráveis. Mas se o sistema ptolemaico é logicamente incompatível com o coperniciano, ou a teoria newto- niana com a da Relatividade, a coexistência pacífica não é possível: elas eram alternativas rivais; e se houve possibilidade de se fazer uma escolha racional entre elas, isso se deveu, em parte, à possibilidade de planejar com elas experiências cruciais (paralaxe estelar, deslocamento de estrelas, etc.). Seja-nos, portanto, permitido desenredar a tese da Incompatibilidade de Kuhn da idéia contrária da incomensurabilidade. Assim purificada, a tese histórica de Kuhn se harmoniza felizmente com a tese metodológica de Popper. Pois para que a teoria seja altamente testá- vel, como o exige a metodologia de Popper, é mister que produza (não só algumas predições notáveis, que ultrapassem o âmbito profético das teorias existentes, mas também) algumas predições que con- flitem com as das teorias existentes, de preferência em áreas em que as teorias existentes foram bem testadas e, até o momento, não apre- sentaram falhas. Popper diz, com efeito, que os principais avanços teóricos da ciência devem ter caráter revolucionário; e Kuhn diz, com efeito, que eles têm caráter revolucionário. Muito bem. Concordemos, portanto, em que a tese da Incompatibilidade deve ficar. Nesse caso, a tese do Monopólio do Paradigma e/ou a tese do Nenhum Interregno devem ir embora. Mas estas realmente não se largam. Diz a segunda que o pensamento profissional do cientista é

Diz a segunda que o pensamento profissional do cientista é 43. Kuhn, The Structure oj Scientific

43. Kuhn, The Structure oj Scientific Revolutions, p. 102.

sempre dominado por paradigmas, e diz a primeira que ele, em todos os momentos, é dominado por um paradigma. Contra isso sustentei que leva tempo mais uma questão de anos que de horas para que um novo paradigma potencial se desenvolva até o ponto de poder desafiar um paradigma estabelecido, de sorte que o pensamento herético começa a funcionar muito antes que possa ocorrer a mudança de paradigma. Isso quer dizer que não é verdade que um paradigma reinante exerça uma influência tão monopolizadora sobre o espírito dos cientistas que os incapacite para considerá-lo com espírito crítico, ou para brincar com alternativas (sem necessariamente ado- tá-las). Isso quer dizer que a comunidade científica não é, afinal de contas, uma sociedade fechada que tem por característica principal “o abandono do discurso crítico”.

REFERENCIAS

Agassi [1963]: Towards an Historio gr aphy of Science, 1963. Duhem [1914]: La théorie Physique: son Objet et sa Structure, 1914. Halley [1687]: Crítica dos Principia, Philosophical Transactions, de Newton, 1687. Reimpressa no livro organizado por I. B. Cohen: Isaac Newton's Papers and Letters on Natural Philosophy, 1958, pp. 405-11. Kuhn [1962]: The Structure of Scientific Revolutions, 1962. Newton [1669]: Manuscrito, reimpresso no livro organizado por Tumbull: The Correspondence of Isaac Newton, 1, pp. 297-303. Newton [1687]: Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, 1687. Popper [1934]: Logik der Forschung, 1935. Popper [1957]: “The Aim of Science”, Ratio, 1, pp. 24-35. Popper [1963]: Conjectures and Refutations, 1963. Shapere [1964]: “The Structure. of Scientific Revolutions”, The Philosophical Review, 73, pp. 383-94. Wheeler [1956]: “A Septet of Sibyls: Aids in the Search for Truth”, The American Scientist, 44, pp. 360-77.

É ADEQUADA A DISTINÇÃO ENTRE CIÊNCIA NORMAL E CIÊNCIA REVOLUCIONÁRIA?

STEPHEN TOULMIN

University of Michigan

A contribuição do Professor T. S. Kuhn para este simpósio pode ser vista de dois ângulos: como crítica do enfoque de Sir Karl Popper da filosofia da ciência, à luz dos seus contrastes com as opiniões do Professor Kuhn ou, alternativamente, como parte adicional do desenvolvimento da análise de Kuhn do processo da mudança científica. O que aqui me interessa é o segundo desses dois aspectos. Chamare : a atenção para certas mudanças significativas na posição que Kuhn parece agora estar ocupando em relação às que adotou, primeiro em seu ensaio original sobre “A Função do Dogma na Pesquisa Científica” lido no Worcester College, Oxford, em 1961,* e depois em seu livro The Structure of Scientific Revolutions publicado em 1962. E à luz das mudanças, mostrarei como podemos enxergar nosso caminho além da teoria da “revolução científica” de Kuhn para uma teoria mais apropriada da mudança científica. O grande mérito da insistência do Professor Kuhn no caráter “revolucionário” de algumas mudanças na teoria científica foi ter ela obrigado muita gente a enfrentar pela primeira vez toda a profundidade das transformações conceptuais que assinalaram, em certas ocasiões, o desenvolvimento histórico das idéias científicas. Desde o princípio, no entanto, ficou claro para muitos espectadores que o enunciado original da posição de Kuhn, pelo menos em dois sentidos, era apenas provisório. Temos esperado com interesse para ver a direção a que o seu desenvolvimento intelectual o levou depois disso. Em primeiro lugar, embora a sua escolha da palavra “dogma”

primeiro lugar, embora a sua escolha da palavra “dogma” 1. Impresso no livro organizado por Crombie,

1. Impresso no livro organizado por Crombie, Scientific Change, de 1963, pp. 347-69.

servisse perfeitamente no título de um trabalho muito interessante na reunião do Worcester College, bastou um exame um pouco mais atento para revelar que sua própria efetividade provinha de certo exagero retórico implícito ou de um jogo de palavras. (Dizer que “toda- a ciência normal repousa numa base de dogma” eqüivalia a dizer “somos todos realmente loucos”; o que talvez

funcione numa ou noutra ocasião,

A natureza desse jogo de palavras tornar-se-á evidente se contrastarmos a aplicação da análise de Kuhn aos Principia de Newton, considerados como o documento fundamental da mecânica clássica, com sua aplicação à Opticks de Newton, que tanta influência exerceu sobre a física do século XVIII. Tomando primeiro os Principia, podemos enunciar da seguinte maneira um ponto filosófico proveitoso: a função intelectual de um esquema conceptual estabelecido é determinar os padrões da teoria, as questões significativas, as interpretações legítimas, etc., dentro das quais a especulação teórica estará presa enquanto esse determinado esquema conceptual exercer autoridade intelectual sobre a ciência natural a que se refere. Isso (repito) é um ponto filosófico, que indica alguma coisa do que se subentende quando se diz que os processos científicos, tanto na área teórica quanto na prática, são “metódicos” e marcados pelo simples bom senso. Esse determinado ponto, no entanto, nada faz para estabelecer que o dogma desempenha um papel qualquer na teoria científica. Ao contrário, era totalmente razoável e não-dogmático para os físicos entre 1700 e 1880 aceitar a dinâmica de Newton como ponto de partida provisório. E é sempre facultado aos cientistas contestar a autoridade intelectual do plano fundamental de conceitos dentro do qual estão trabalhando provisoriamente sendo o direito permanente à contestação dessa autoridade uma das coisas que assinala como “científico” (como Sir Karl Popper sempre insistiu) o processo intelectual. Por falar nisso, esse primeiro ponto filosófico foi enunciado com maior clareza e menor ambigüidade, há uns vinte e cinco anos, por R. G. Collingwood em seu Essay on Metaphysics (Ensaio sobre Metafísica) 2 . A função intelectual dos “paradigmas” de Kuhn é precisamente a das “pressuposições absolutas” de Collingwood.

Alternativamente, se tomarmos como nosso exemplo a Opticks de Newton, poderemos estabelecer um ponto sociológico da seguinte

.)

poderemos estabelecer um ponto sociológico da seguinte .) 2. Collingwood, An Essay on Metaphysics, 1940,

2. Collingwood, An Essay on Metaphysics, 1940, especialmente os capítulos iv-vi. O

argumento de Collingwood é discutido, em paralelo com o de Kuhn, em meu est udo de 1966, “Conceptual Revolutions in Science”.

maneira: os trabalhadores secundários da ciência tendem a ver apenas parte do quadro intelectual do assunto que lhes interessa, e a restringir a escolha das hipóteses por cujo intermédio interpretam seus dados, por deferência ao suposto exemplo que lhes deixou um trabalhador primário, por eles considerado seu mestre e diante de cuja autoridade magistral se inclinam. O ponto é mais

sociológico do que filosófico: nesse caso, pode falar-se com efeito no papel desempenhado pelo “dogma” no desenvolvimento das idéias científicas. Mas o verdadeiro princípio da sabedoria em qualquer tentativa para compreender a natureza do desenvolvimento intelectual da ciência há de ser, sem dúvida, distinguir entre a autoridade intelectual do esquema conceptual estabelecido e a autoridade magistral do indivíduo dominante. E só quando trabalhadores secundários insistem em reter, digamos, uma teoria corpuscular da luz por respeito à autoridade de Newton, mesmo depois de terem sido aventadas alterna- tivas legítimas com idêntico apoio experimental, é que a palavra “dogma” tem alguma pertinência para a ciência. Ao passar do seu ensaio de Oxford para o livro de 1962, Kuhn retirou sua insistência no termo “dogma”, mas tentou conservar uma distinção central entre “ciência normal” e “revoluções científicas”. Em todo o correr do livro considerou que a idéia das “revoluções” tinha algum poder de iluminar e explicar certas fases da mudança científica. Ncise sentido, sua análise, na melhor das hipóteses, também foi provisória. Como nos ensina a história política, a palavra “revolução” pode servir de rótulo descritivo útil, mas faz muito tempo que perdeu o valor como conceito explanatório. Tempo houve em que, diante das mudanças políticas de uma variedade peculiarmente drástica, os historiadores não titubeavam em

e então houve uma revolução”, e tudo ficava por isso mesmo; a

dizer,

implicação era que, no caso de mudanças drásticas dessa natureza, não se poderia dar nenhuma explicação racional como as que justificadamente exigimos no caso de desenvolvimentos políticos normais. No devido tempo, porém, eles foram obrigados a reconhecer que a mudança política nunca envolve, de fato, uma solução tão absoluta e tão completa de continuidade. Quer consideremos a Revolução Francesa, quer examinemos a Revolução Norte-americana ou a Revolução Russa, em qualquer um desses casos as continuidades da estrutura e da prática políticas e administrativas são tão importantes quanto as mudanças. (Considerem-se, por exemplo, o sistema legal norte-americano, a prática russa de escoltar turistas e o código francês da herança: o efeito da revolução política foi mudar cada uma delas apenas marginalmente, e o estado de coisas correspondente em cada país antes e depois da revolução em tela eram muito mais semelhantes

do que as condições pré-revolucionárias ou pós-revolucionárias nos diferentes países.) Dessa forma, na esfera política, os enunciados a respeito da ocorrência de “revoluções” são apenas preliminares de perguntas acerca dos mecanismos políticos envolvidos na mudança revolucionária. No nível explanatório, a diferença entre mudança normal e mudança revolucionária na esfera política revelou-se, afinal de contas, mera diferença de grau. A posição adotada pelo Professor Kuhn em seu livro sempre me pareceu exigir restrições similares. De acordo com esse argu mento, as diferenças entre as espécies de mudança que ocorrem durante as fases “normais” e “revolucionárias” do desenvolvimento científico são, no nível intelectual, absolutas. Em resultado disso, a sua exposição foi longe demais ao implicar a existência, na teoria científica, de descontinuidades muito mais

profundas e muito menos explicáveis do

seu novo trabalho, ele parece afastar-se um pouco dessa posição original, exposta, para uma posição menos extremada; entretanto, ao fazê -lo (como eu sustentarei) demole inteiramente sua distinção original entre as fases “normais” e as “revolucionárias”. Esta não é, evidentemente, a sua intenção, mas (no meu modo de ver) não se pode fugir à conseqüência. Seja-me permitido explicar, com a ajuda de uma analogia tirada da história da paleontologia durante os anos que medearam entre 1825 e 1860, por que digo isso. Durante esses anos, construiu-se um dos dois mais influentes sistemas paleontológicos em torno da teoria das “catástrofes”, exposta primeiro por George Cuvier na França e extensamente desenvolvida por Louis Agassiz em Harvard, que enfatizava as descontinuidades absolutas encontradas no registro geológico e paleontológico. Ela possuía o mérito considerável de contes tar a suposição (que formava um axioma metodológico básico para os seguidores de James Hutton, incluindo Charles Lyell em seus primeiros anos) de que todos os agentes envolvidos na mudança geológica e paleontológica tanto inorgânica como orgânica tinham sido exatamente da mesma espécie e tinham agido exatamente das mesmas maneiras em todas as fases da história da terra. Entretanto, partindo da sua observação original, autêntica, das descontinuidades geológicas e paleontológicas, Cuvier foi mais adiante, insistindo em que tais descontinuidades eram prova de acontecimentos “sobrenaturais” — isto é, mudanças tão súbitas e violentas que não podiam explicar-se em termos de processos naturais físicos e químicos. As descontinuidades, como ele disse, eram prova de “catástrofes”, e estas (como as “revoluções” originais dos historiadores políticos), algo

que

que se não podia ligar intelectualmente. Quando um geólogo dizia, . e então houve uma catástrofe”, estava dizendo que, para a mudança em questão, não havia nenhuma explicação racional, em termos de mecanismos geológicos naturais, como, por exemplo, os responsáveis pela formação de estratos sedimentares normais. Essa interpretação teórica das descontinuidades geológicas e paleontológi- cas foi longe demais. É verdade que, em alguns sentidos, as descontinuidades observadas na crosta da terra eram tão nítidas quanto afirmara Cuvier; mas, à proporção que prosseguia a investigação, verificou-se que elas não eram universais em sua extensão e tampouco se achavam além de toda e qualquer esperança de explicação razoável.

Como se resolveu a oposição entre a teoria uniformista e a teoria das catástrofes? Este é o ponto significativo para o nosso propósito aqui. Com o passar do tempo, aconteceram duas coisas. De um lado, geológos e paleontólogos da geração de Lyell viram-se obrigados, aos poucos, a reconhecer que algumas mudanças que constituíam o tema das suas indagações tinham sido de fato mais dramáticas do que eles haviam suposto. Charles Darwin, por exemplo, observou nas costas do Chile os efeitos de terremotos recentes que tinham alterado a localização relativa de vários estratos geológicos numa extensão de até seis metros, num único tremor de terra, e esse descobrimento convenceu Lyell de que terremotos passados, afinal de contas, poderiam tej sido mais severos do que ele supusera. Do lado uniformista, por conseguinte, as idéias foram-se tornando mais e mais “catastróficas”. Nesse meio tempo, no campo ca- tastrofista, as idéias se desenvolveram na direção oposta. Os estudos de Louis Agassiz, em particular, obrigaram-no a multiplicar o número de catástrofes invocadas para explicar a prova geológica real e para diminuir-lhes o tamanho. Em razão disso, as catástrofes originais, “drásticas e inexplicáveis”, finalmente se tornaram tantas, e tão insignificantes, que principiaram a revelar uniformidades, convertendo-se dessa forma em fenômenos geológicos e paleontológicos por si mesmas. Como tais, a afirmativa de que não estavam sujeitas a uma explicação mecanicista ou naturalista deixou de ser plausível, e a necessidade até no caso delas de apresentar um relato dos mecanismos envolvidos tornou-se irrespondível. Numa palavra, as “catástrofes” originais passaram a ser uniformes e governadas por leis exatamente como quaisquer outros fenômenos geológicos e palentoló- gicos. O que os paleontólogos catastrofistas não apreciaram de pronto foi que essa mudança aparentemente inocente, ocorrida dentro da estrutura da sua teoria, lhes destruiu o critério original para distin

guir entre as mudanças “normais” (ou naturais) e “catastróficas” (ou sobrenaturais) na crosta da terra, e que dessa maneira a própria distinção entre o “normal” e o “catastrófico” desmoronou. Seja-me agora permitido aplicar a analogia. Lendo o atual relato da sua posição, escrito pelo Professor Kuhn, verifico que ele se afastou da dicotomia original “normal”/“revolucionária” na mesma direção em que Agassiz se afastou da teoria original de Cuvier. Mais uma vez se tornava proveitoso e importante, no princípio, insistir em que o desenvolvimento de idéias científicas supõe, por vezes, mudanças tão drásticas que introduzem profundas incongruências concei- tuais entre as idéias aceitas por sucessivas gerações de cientistas. Nenhuma teoria de crescimento e desenvolvimento científico seria adequada se não reconhecesse tais descontinuidades intelectuais e lhes fizesse justiça. Nos seus primeiros relatos o livro de 1962, assim como o ensaio de 1961 Kuhn descreveu essas descontinuidades “revolucionárias” como absolutas. Elas criaram uma situação em que havia, inevitavelmente, completa incompreensão no nível teórico entre os adeptos do sistema mais velho e os do sistema mais novo de pensamento científico; como, por exemplo, entre um adepto da dinâmica newtoniana mais antiga e um adepto da nova dinâmica eins- teiniana. Era inevitável a incompreensão porque, chegado o momento de organizar sua experiência, os dois homens não compartilhavam de uma língua comum, ou de um ponto de vista comum, nem mesmo de uma gestalt comum. Em conseqüência disso, nem a linguagem newtoniana nem a linguagem einsteiniana bastariam para explicar o ponto de vista de cada um dos adeptos ao outro. A ocorrên- car o ponto de vista de cada um dos adeptos. A ocorrência de uma “revolução científica” (ao que parecia) deixou as tentativas de comunicação tão completamente fora dos eixos que assegurou a incompreensão. Havia sempre, contudo, um elemento de exagero retórico neste enunciado do assunto, assim como no emprego de Kuhn, a princípio, da palavra “dogma”. Afinal de contas, as carreiras profissionais de inúmeros físicos estenderam-se de 1890 a 1930, e esses homens assistiram à mudança do sistema de pensamento newtoniano para o eins- teiniano. Se o completo colapso da comunicação científica, considerado por Kuhn como característica essencial da revolução científica tivesse de fato ocorrido durante esse período, teria sido possível do- cumentá-lo com a experiência dos mesmos homens. Que descobrimos? Se a mudança conceptual envolvida na transição foi tão profunda quanto o afirma Kuhn, esses físicos pareceram curiosamente inconscientes do fato. Ao contrário, porém, muitos deles foram capa

zes de dizer após o evento, por que haviam alterado sua posição pessoal, passando de uma atitude clássica para uma atitude relativista

— e quando digo “por quê” quero dizer “por que

palavras de Kuhn, uma mudança de posição dessa natureza só poderia resultar de uma “conversão” — o tipo de mudança mental que um homem descreveria

dizendo: “Já não posso ver a Natureza como a via antes

mais como o resultado de “causas” que de “razões” — “Einstein foi tão persua-

”, ou “Isso valia tanto

quanto o meu

Pode-se admitir, por conseguinte, que o desenvolvimento do pensamento científico supõe importantes descontinuidades concep- tuais, e que os sistemas conceptuais que se substituem dentro de uma tradição científica podem basear-se freqüentemente em princípios e axiomas muito diferentes e até incongruentes; devemos, porém, acau- telar-nos para não acompanhar até o fim a hipótese “revolucionária” original de Kuhn. Pois a substituição de um sistema de conceitos por outro é algo que acontece em virtude de razões perfeitamente boas, ainda que essas “razões” não se possam formalizar em conceitos ainda mais latos ou em axiomas ainda mais gerais. Pois o que pressupõem ambas as partes num debate dessa ordem tanto os que se aferram à opinião mais antiga, quanto os que apresentam uma opinião nova não é um corpo comum de princípios e axiomas:

é antes um conjunto comum de “processos de seleção” e “regras de seleção”, que são menos “princípios científicos” do que “princípios constitutivos da ciência”. (Eles também podem mudar no curso da história, como o demonstrou Imre Lakatos no caso dos critérios da prova matemática; fazem-no, contudo, mais devagar do que as teorias em cujo julgamento são empregados.)

Suponhamos, então, que se conceda a Kuhn que “incompatibilidades conceptuais” entre as idéias de sucessivas gerações de cientistas introduzem efetivamente descontinuidades reais no desenvolvimento do pensamento científico. Se for esta a essência da sua visão do problema, teremos de acompanhá-lo até a fase seguinte do seu argumento, que corresponde ao “catastrofismo modificado” de Agassiz. Pois ao passo que na exposição original de Kuhn as revoluções científicas eram algo que tendia a acontecer em determinado ramo da ciência apenas uma vez em duzentos anos, ou coisa que o valha, as “incompatibilidades conceptuais” com que ele agora se preocupa es tão sujeitas a aparecer com muito mais freqüência. Numa escala suficientemente pequena, com efeito, são muito freqüentes; e talvez cada

ou alternativamente

No entanto, nas

sivo

”, ou “Surpreendi-me mudando sem saber por quê

.”.

nova geração de cientistas com idéias originais ou “opiniões” próprias se surpreenda, em certos pontos e em certos sentidos, ocupando uma posição oposta à da geração imediatamente anterior. Pode-se perguntar, de fato, se alguma ciência natural, possuidora de um sério componente teórico desenvolve-se alguma vez por um processo exclusivo de “acumulação”. Nesse caso, entretanto, a ocorrência de uma “revolução científica” já não eqüivale a uma dramática interrupção da consolidação contínua e “normal” da ciência; ao invés disso, toma-se uma simples “unidade de variação” dentro do próprio processo da mudança científica. Como na paleontologia, desaparece o aspecto hiper-racio- nal das descontinuidades, e no processo desmorona a própria base da distinção entre mudança “normal” e mudança “revolucioná ria” na ciência, fundamento e essência da teoria de Kuhn. Pois a “natureza absoluta” da transição envolvida na revolução científica fornecia o critério original para reconhecer a ocorrência de uma mudança. E, assim que reconhecemos que nenhuma mudança conceptual da ciência é absoluta, só nos resta uma seqüência de modificações conceptuais maiores e menores, que diferem uma da outra em grau. Destrói-se dessa maneira o elemento distintivo da teoria de Kuhn, e ficamos a olhar para além dela, à procura de uma nova teoria de mudança científica. Essa teoria terá de ultrapassar o conceito de “revoluções” de Kuhn e dos ingênuos pontos de vista uniformistas a que ele renunciou, assim como a reinterpretação evolucionária da paleontologia de Darwin ultrapassou o catastrofismo de Cuvier e o unifor- mismo de Lyell. Como o Professor Kuhn, acredito que a nova teoria quando a tivermos terá de basear-se, em parte, nos resultados de novos estudos empíricos do crescimento e desenvolvimento reais da ciência; que, como resultado, terá de trazer a lógica da ciência para mais perto da sua sociologia e da sua psicologia. Continuará, todavia, a ser importantíssimo (como enfatiza Sir Karl Popper) evitar identificar os critérios lógicos para apreciar novas hipóteses científicas com generalizações acerca da prática real dos cientistas, quer tomados in- dividualmente quer tomados coletivamente como grupos profissionais. Que forma deveria assumir uma teoria dessa natureza? Mais uma vez, a experiência de outras disciplinas históricas poderá dar- nos uma sugestão. Pois mais uma vez tem sido idêntica a proveitosa direção para escapar ao impasse entre os pontos de vista revolucionário e uniformista da mudança histórica:

investigar mais atentamente os mecanismos envolvidos e, em particular, os mecanismos da variação e da perpetuação. (Confrontem-se, por exemplo, a Origin of

Species, de Charles Darwin e a Anatomy of Revolution. de Crane Brinton.) Permitam-me estender um pouco mais a sugestão, ainda que assim antecipe uma exposição que será apresentada detalhadamente em outro lugar. 3

Suponha-se que deixemos de pensar nas “micro-revoluções” em pequena escala de Kuhn como unidades de mudança efetiva na teoria científica, e as encaremos, em vez disso, como unidades de variação. Ver-nos-emos então diante de um quadro da ciência em que as teorias comumente aceitas em cada fase servem de ponto de partida para grande número de variantes sugeridas; mas em que apenas reduzida fração dessas variantes de fato sobrevive e se estabelece no corpo de idéias transmitido à geração seguinte. Dessa maneira, a simples pergunta “como ocorrem as revoluções na ciência?” tem de ser reformulada e dá origem a dois grupos distintos de perguntas. De um lado precisamos inquirir:

“Que fatores determinam o número e a natureza das variantes teóricas apresentadas à consideração numa determinada ciência em determinado período?” — contrapartida, na evolução biológica, da pergunta genética sobre a origem das formas mutantes. De outro lado precisamos indagar: “Que fatores e considerações determinam as variantes intelectuais que logram aceitação, a fim de se estabelecer no corpo de idéias que serve de ponto de partida para o turno seguinte de variações?” — contrapartida das perguntas biológicas sobre seleção.

Como em outras disciplinas históricas, portanto, o problema da mudança histórica pode ser proveitosamente reenunciado como um problema de variação- e-perpetuação-seletiva. As vantagens desse reenunciado não se podem expor cabalmente aqui, mas uma coisa pelo menos vale a pena indicar. Ele não só nos ajuda a localizar a ambigüidade que leva o debate entre Kuhn e Popper ao desentendimento a ambigüidade entre a filosofia da ciência, empenhada em descobrir a consideração que deve determinar apropriadamente a seleção entre novas variantes, e a psicologia ou sociologia da ciência, empenhada em atinar com as considerações que de fato resolvem o assunto. Mas também acredito que possa ajudar-nos a resolver algumas velhas perplexidades tocantes à relação entre os fatores externos e internos do desenvolvimento de uma tradição intelectual. Se tratarmos a mudança científica como caso especial de um fenômeno mais

mudança científica como caso especial de um fenômeno mais 3. Meu ensaio de 1966, “Conceptual Revolutions

3. Meu ensaio de 1966, “Conceptual Revolutions in Science”, apresenta breve análise do argumento. Uma exposição cabal será dada a lume num livro que está para aparecer sobre a evolução conceptual e o problema do entendimento.

genérico de “evolução conceptual”, poderemos distinguir pelo me nos três aspectos diversos dessa evolução. O volume real, ou quantidade, de v inovação que se processa num dado campo em qualquer ocasião pode ser distinguida da direção para a qual tende de modo predominante a mesma inovação; e ambas podem ser diferenciadas, por sua vez, dos critérios de seleção que determinam as variantes perpetuadas no interior da tradição.

Uma vez que tais distinções sejam feitas com clareza é desejável considerar separadamente até que ponto cada aspecto da mudança científica responde a fatores internos ou externos e será ingênuo supor que haja necessidade de conflito entre as duas espécies de exposição. Aqui vai uma sugestão: o volume de inovação que se processa em qualquer ciência depende, presumivelmente, em grande parte, das oportunidades que se oferecem naquele contexto social para realizar um trabalho original na ciência em questão daí que o coeficiente de inovação responde substancialmente a fatores externos à ciência. Por outro lado, os critérios de seleção para apreciar as inovações conceptuais na ciência serão, em grande parte, assunto profissional e, portanto, interno: muitos cientistas, de fato, teriam a expectativa de que se trata de assuntos inteiramente internos, profissionais muito embora isso talvez não passe, na prática, de um ideal irrealizá- vel. Finalmente, a direção da inovação em determinada ciência depende de uma complexa mistura de fatores, internos e externos: as fontes de novas hipóteses são muito variadas e sujeitas a influências e analogias distantes dos problemas pormenorizados que estão à mão.

As ramificações mais completas de uma teoria “evolucionária” de mudança científica (que contraste com o “catastrofismo” de Kuhn) devem ser deixadas para outra ocasião. Por enquanto, seja-me permitido rematar este estudo formulando duas perguntas, que ajudarão a encontrar com absoluta precisão o caráter de transição da presente posição de Kuhn. (1) Quão extensas terão de ser as incompatibilidades conceptuais entre as idéias de uma geração científica e as da geração seguinte, a fim de que a transição entre elas constitua uma “revolução científica” segundo a atual exposição de Kuhn? (Pre- sumo que nenhuma foi jamais, na realidade, suficientemente extensa para satisfazer ao seu critério original; portanto, precisamos agora de um novo critério para substituí-la.) (2) Se alguma mudança conceptual entre as teorias de gerações sucessivas capazes de provar incompreensão entre elas tiver de ser aceita como “revolução”, não poderemos exigir uma exposição geral do papel de todas as mudan

ças conceptuais dessa natureza dentro do desenvolvimento do pensamento científico? Não estamos autorizados, numa palavra, a tratar essas “microrrevoluções” como contrapartidas das “microcatástrofes” de Agassiz e dos últimos geólogos catastrofistas? E, a ser esse o caso, não estaremos, de fato, deixando inteiramente para trás as implicações originais do termo “revolução"? Os estudiosos da história política, a esta altura, já abandonaram qualquer confiança ingênua na idéia das “revoluções”. Se eu tiver razão, e as “microrrevoluções” da atual posição de Kuhn forem as unidades de toda a inovação científica, a idéia da “revolução científica” terá de seguir a das “revoluções políticas”, abandonando a categoria de conceitos expla- natórios a fim de figurar na categoria dos rótulos meramente descritivos.

REFERÊNCIAS

Collingwood [1940]: An Essay on Metaphysics, 1940. Crombie (org.) [1963]: Scientific Change, 1963. Toulmin [1966]: “Conceptual Revolutions in Science”, no livro organizado por Cohen- Wartofsky: Boston Studies in the Philosophy oj Science, 3, 1967, pp. 331-47.

CIÊNCIA NORMAL, REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS E A HISTÓRIA DA CIÊNCIA

L. PEARCE WILLIAMS

Cornell University

Eu gostaria de fazer ura rapidíssimo comentário sobre a divergência entre Kuhn e Popper a respeito da natureza essencial da ciência e a gênese das revoluções científicas. Se bem entendi o pensamento de Sir Karl Popper, a ciência se acha, de um modo básico e constante, potencialmente à beira da revolução. Basta que uma refutação seja bastante grande para constituir uma revolução dessa ordem. Sustenta o Professor Kuhn, por outro lado, que a maior parte do tempo dedicado ao exercício da ciência é o que ele denomina ciência “normal” — isto é, solucionamento de problemas ou resolução de cadeias de argumentos implícitos em trabalhos anteriores. Nessas condições, uma revolução científica, para Kuhn, leva muito tempo para ser construída e só ocorre de tempos em tempos porque a maioria das pessoas não tenta refutar as teorias vigentes. Ambos os lados apresentaram suas posições com detalhes consideráveis, mas a mim me parece haver uma brecha muito importante nas duas teorias. É simplesmente esta: como sabemos de que trata a ciência? A per- gunta talvez soe surpreendentemente ingênua, mas tentarei justificá-la.

Há, essencialmente, duas maneiras respeitáveis de responder à pergunta. Uma é sociológica; a comunidade científica pode ser tratada como qualquer outra comunidade e está sujeita à análise sociológica. Note-se que isso “pode” ser feito, mas ainda não o foi. Para dizê-lo de outro modo, a maior parte da atividade científica pode ser dirigida para a refutação ou para a “solução do problema”, mas não sabemos se o é ou não. A propósito direi que não estou impressionado com a observação da Srta. Masterman segundo a qual o paradigma é ansiosamente apreendido pelos pesquisadores em campos

como a ciência dos computadores e as ciências sociais. Afinal de contas, a imagem do homem que se afoga e do pedacinho de palha é familiar. Não acredito que o Dr. Kuhn tencionasse restringir sua análise às ciências embrionárias e estou interessado em saber o que os praticantes das ciências naturais acreditam estar fazendo. Repetindo, acontece simplesmente que não temos essa informação. As dificuldades para compilá-la são enormes. Desejamos apenas uma amostra quantitativa? O que a maioria dos cientistas faz é de fato pertinente ao que constitui a ciência a longo prazo? Pesamos a opinião, digamos, de Peter Debye da mesma maneira que a de um homem que mede acuradamente amostragens nucleares? Não sou sociólogo, mas creio que enfocar o problema através da sociologia seria seguir um caminho espinhoso. Entretanto, deveria notar-se que tanto Kuhn quanto Popper baseiam seus sistemas (no caso de Kuhn) no que os cientistas fazem (sem nenhuma prova sólida de que fazem ciência dessa maneira) ou (no caso de Popper) no que deviam fazer (com pouquíssimos exemplos para persuadir-nos de que isso está certo). Tanto Kuhn quanto Popper realmente baseiam suas concepções da estrutura da ciência na sua história e o ponto principal de minhas observações é que a história da ciência não pode suportar essa carga por ora. Simplesmente não sabemos o suficiente para permitir que se erija uma estrutura filosófica sobre uma base histórica. Por exemplo, não pode haver melhor ilustração da “ciência normal” do que as pesquisas experimentais levadas a efeito por Michael Faraday no terreno da eletricidade na década de 1830. Começando com a descoberta “acidental” da indução eletromagnética em 1831, cada novo passo parecia provir claramente do anterior. Aqui estava a solução-de-problemas mais evidente possível. Esse é o ponto de vista tradicional de Faraday, mestre experimentador, que, a crermos em Tyndall, ou mesmo em Thompson, nunca teve uma idéia teórica em sua vida. Entretanto, assim que passamos dos escritos publicados para o Diário, as notas e as cartas manuscritas, vemos surgir um estranho Faraday. Desde 1821 ele estava testando hipóteses fundamentais sobre a natureza da matéria e da força. Quantos cientistas “normais” (tais como se definem pelos seus escritos publicados) são, no fundo, realmente revolucionários? Espera-se que, um dia, a história da ciência seja capaz de responder a isso mas, por enquanto, ninguém pode dizer. Antes que os seguidores de Popper, fiquem demasiadamente satisfeitos eu gostaria de erguer diante deles o espectro da história da espectroscopia entre os anos de 1870 e 1900. Creio que se pode com toda justiça descrever esse período como um período de levan

tamento cartográfico, em que os espectros dos elementos eram descritos com precisão cada vez maior. Aqui se processa uma pequena e precisa “refutação” e, não obstante, seria difícil negar a Angstrõm o título de cientista. Nem se deveria esquecer que um dos “soluciona- dores de problemas” mais bem-sucedidos da história da ciência foi Max Planck, que se distinguiu também como um dos revolucionários mais relutantes de todos os tempos.

Como historiador, portanto, cumpre-me ver tanto Popper quanto Kuhn com um olho mais ou menos deformado. Ambos ventilaram questões de importância fundamental; ambos forneceram visões profundas da natureza da ciência; mas nenhum reuniu provas sólidas bastantes para levar-me a crer que a essência da busca científica foi capturada. Continuarei a usar os dois como guias nas minhas pesquisas, tendo sempre em mente a observação de Lorde Boling- broke de que “a história é o ensino da filosofia pelo exemplo”. Precisamos de um número muito maior de exemplos.

A CIÊNCIA NORMAL E SEUS PERIGOS

KARL POPPER London School of Economics

A crítica do Professor Kuhn às minhas opiniões sobre ciência é a mais interessante que já encontrei até agora. Há, reconhecidamente, alguns pontos, mais ou menos importantes, em que ele não me entende ou me interpreta mal. Kuhn, por exemplo, cita com desaprovação um trecho do início do primeiro capítulo do meu livro, The Logic of Scientific Discovery (A Lógica da Descoberta Ceintífica). Pois eu gostaria de citar uma passagem que ele deixou passar, constante do Prefácio da Primeira Edição. (Na primeira edição a passagem em apreço vinha logo antes do trecho citado por Kuhn; mais tarde inseri o Prefácio da Edição Inglesa entre as duas passagens.) Ao passo que o breve trecho citado por Kuhn poderá soar, fora do contexto, como se eu não estivesse a par do fato, destacado por ele, de que os cientistas desenvolvem necessariamente suas idéias dentro de uma estrutura teórica definida, seu imediato predecessor de 1934 soa quase como uma antecipação desse ponto central da opinião de Kuhn.

Depois de duas epígrafes tiradas de Schlick e de Kant, meu livro começa com as seguintes palavras: “Um cientista empenhado numa pesquisa, digamos no campo da física, pode atacar diretamente o seu problema. Pode ir logo ao âmago do assunto: isto é, ao coração de uma estrutura organizada. Pois já existe uma estrutura de doutrinas científicas; e, com ela, uma situação problema geralmente aceito. É por isso que ele pode deixar para outros o ajuste de sua contribuição à estrutura do conhecimento científico.” E, a seguir, prossigo dizendo que o filósofo se encontra em posição diferente.

Agora parece muito claro que a passagem citada descreve a situação “normal” do cientista de modo muito semelhante a Kuhn: há um edifício, uma estrutura organizada da ciência que fornece ao cientista uma situação problema geralmente aceito a que o seu

próprio trabalho pode ajustar-se. Isso se parece muito com um dos pontos principais de Kuhn: a saber, que a ciência “normal", como ele a chama, ou o trabalho “normal” do cientista, pressupõe uma estrutura organizada de suposições, ou uma teoria, ou um programa de pesquisas, necessário à comunidade de cientistas a fim de poderem discutir racionalmente o seu trabalho. O fato de haver Kuhn passado por alto esse ponto de concordância e de haver-se aferrado ao que vinha imediatamente depois, e que ele supunha fosse um ponto de discordância me parece significativo. Mostra que só lemos e compreendemos um livro com expectativas definidas em nossa mente. Isso, de fato, pode ser considerado uma das conseqüências de minha tese de que abordamos tudo à luz de uma teoria preconcebida. Assim também um livro. Em conseqüência disso, estamos sujeitos a escolher as coisas de que gostamos ou desgostamos ou que desejamos, por outros motivos, encontrar no livro; e assim fez Kuhn ao ler o meu livro. Entretanto, apesar desses pontos secundários, Kuhn me compreende muito bem melhor, creio eu, do que a maioria dos críticos que conheço; e suas duas críticas principais são muito importantes. A primeira dessas críticas sustenta, em poucas palavras, que passei totalmente por alto o que ele denomina ciência “normal”, e me empenhei exclusivamente em descrever o que ele denomina “pesquisa extraordinária” ou “ciência extraordinária”. Creio que a distinção entre as duas espécies de atividades talvez não seja tão nítida quanto o quer Kuhn; entretanto, estou pronto para admitir que, na melhor das hipóteses, não tive mais que uma obscura consciência dessa distinção; e o que é mais, que a distinção aponta para algo de suma importância. Nessas circunstâncias, é relativamente secundário serem ou não os termos de Kuhn, ciência “normal” e ciência “extraordinária”, até certo ponto petições de princípio e (no sentido de Kuhn) “ideológicos”. Creio que são tudo isso; o que, porém, não diminui meus sentimentos de gratidão a Kuhn por haver assinalado a distinção e por haver assim aberto meus olhos para uma série de problemas que eu ainda não tinha visto com clareza. A ciência “normal”, no sentido de Kuhn, existe. É a atividade do profissional não-revolucionário, ou melhor, não muito crítico: do estudioso da ciência que aceita o dogma dominante do dia; que não deseja contestá -lo; e que só aceita uma nova teoria revolucionária quando,; quase toda a gente está pronta para aceitá-la quando

ela passa a estar na moda, como uma candidatura antecipadamente vitoriosa a que todos, ou quase todos, aderem. Resistir a uma nova moda exige talvez tanta coragem quanto criar uma. Vocês talvez digam que, ao descrever dessa maneira a ciência “normal” de Kuhn, eu o estou criticando implícita e sub-repticiamen- te. Afiançarei, portanto, mais uma vez, que o que Kuhn descreveu existe, e precisa ser levado em consideração pelos historiadores da ciência. O fato de tratar-se de um fenômeno de que não gosto (porque o considero perigoso para a ciência), ao passo que Kuhn, aparentemente, não desgosta dele (porque o considera “normal”) é outro assunto; assunto, aliás, muitíssimo importante. A meu ver, o cientista “normal”, tal como Kuhn o descreve, é uma pessoa da qual devemos ter pena. (Consoante as opiniões de Kuhn acerca da história da ciência, muitos grandes cientistas devem ter sido “normais”; ent retanto, como não tenho pena deles, não creio que as opiniões de Kuhn estejam muito certas.) O cientista “normal”, a meu juízo, foi mal ensinado. Acredito, e muita gente acredita como eu, que todo o ensino de nível universitário (e se pos sível de nível inferior) devia consistir em educar e estimular o aluno a utilizar o pensamento crítico. O cientista “normal”, descrito por Kuhn, foi ma) ensinado. Foi ensinado com espírito dogmático: é uma vítima da doutrinação. Aprendeu uma técnica que se pode aplicar sem que seja preciso perguntar a razão pela qual pode ser aplicada (sobretudo na mecânica quântica). Em conseqüência disso, tornou- se o que pode ser chamado cientista aplicado, em contraposição ao que eu chamaria cientista puro. Para usarmos a expressão de Kuhn, ele se contenta em resolver “enigmas”. 1 A escolha desse termo parece indicar que Kuhn deseja destacar que não é um problema realmente fundamental o que o cientista “normal” está preparado para enfrentar: é, antes, um problema de rotina, um problema de aplicação do que se aprendeu; Kuhn o descreve como um problema em que se aplica a teoria dominante (a que ele dá o nome de “paradigma”). O êxito do cientista “normal” consiste tão-só em mostrar que a teoria dominante pode ser apropriada e satisfatoriamente aplicada na obtenção de uma solução para o enigma em questão.

na obtenção de uma solução para o enigma em questão. 1. Não sei se o emprego

1. Não sei se o emprego do termo "enigma” por parte de Kuhn tem alguma coisa que

ver com o emprego de Wittgenstein. Wittgenstein, natural mente, empregou-o em conexão com sua tese de que não há problemas genuínos em filosofia apenas enigmas, isto é, pseudoproblemas ligados ao uso impróprio da linguagem. Seja como for, o emprego do termo “enigma" em lugar de “problema” indica, por certo, um desejo de mostrar que os problemas

assim descritos não são muito sérios nem muito profundos.

A descrição do cientista “normal” feita por Kuhn lembra-me claramente uma conversa que tive com meu falecido amigo, Philipp Frank, por volta de 1933. Nessa ocasião Frank se queixava amargamente do enfoque da ciência sem espírito crítico característico da maioria dos estudantes de engenharia. Eles queriam simplesmente “conhecer os fatos”. Rejeitavam as teorias ou hipóteses problemáticas, que não fossem “geralmente aceitas”: elas intranqüilizavam os

estudantes, que só queriam conhecer as coisas, os fatos, que pudessem aplicar em

sã consciência e sem análises introspectivas.

Admito que esse tipo de atitude existe; e existe não só entre engenheiros, mas também entre pessoas educadas como cientistas. Só posso dizer que vejo um grande perigo nisso e na possibilidade que tem de tornar-se normal (assim como vejo um grande perigo no aumento da especialização, outro fato histórico inegável): um perigo para a ciência e, na verdade, para nossa civilização. O que mostra por que considero tão importante a ênfase dada por Kuhn à existência desse tipo de ciência. Acredito, porém, que Kuhn se equivoca quando sugere que é normal o que ele chama de ciência “normal”. Claro está que eu nem sonharia brigar por causa de um termo. Mas gostaria de sugerir que poucos cientistas lembrados pela história da ciência foram “normais” no sentido de Kuhn, se é que houve algum que o fosse. Em outras

palavras, discordo de Kuhn não só no tocante a certos fatos históricos, mas também no tocante ao que é característico da ciência. Tome-se por exemplo Charles Darwin antes da publicação de The Origin of Species (A Origem das Espécies). Mesmo depois dessa publicação ele foi o que se poderia descrever como um “revolucionário relutante”, para usarmos a bela descrição de Max Planck feita pelo Professor Pearce Williams; antes dela, Darwin não tinha nada de revolucionário. Nada se assemelha a uma atitude

revolucionária consciente em sua descrição de The Voyage of the Beagle (A Viagem do Beagle). Mas ela está cheia de problemas; problemas autênticos, novos

e fundamentais, e engenhosas conjeturas conjeturas que competem

freqüentemente umas com as outras a respeito de possíveis soluções. Dificilmente haverá uma ciência menos revolucionária do que a botânica descritiva. Não obstante, o botânico descritivo enfrenta constantemente problemas autênticos e interessantes: problemas de distribuição, problemas de

localizações características, problemas de diferenciação de espécies ou subespécies, problemas como os da sim-

biose, inimigos característicos, doenças características, variedades re sistentes, variedades mais ou menos férteis, e assim por diante. Muitos problemas descritivos obrigam o botânico a empregar um enfoque experimental; e isso leva à fisiologia das plantas e, assim, a uma ciência teórica e experimental (em lugar de uma ciência puramente “descritiva”). As várias fases dessas transições fundem-se de modo quase imperceptível e surgem em cada fase problemas autênticos em lugar de “enigmas”.

Mas talvez Kuhn chame “enigma” ao que eu chamaria “problema”; e o fato é que não queremos brigar por causa de palavras. Seja- me, portanto, permitido dizer alguma coisa mais geral a respeito da tipologia dos cientistas de Kuhn.

Afirmo que entre o “cientista normal” de Kuhn e o seu “cientista extraordinário” há muitas gradações; e é preciso que haja. Tome-se Boltzmann, por exemplo; haverá poucos cientistas maiores do que ele. Dificilmente, porém, se poderá dizer que sua grandeza consiste em haver ele preparado uma revolução importante porque era, em extensão considerável, um seguidor de Maxwell. Mas estava tão longe de ser um “cientista normal” quanto se pode estar; lutador co - rajoso, resistiu à moda imperante em seu tempo moda que, a propósito, só imperou no continente e teve poucos seguidores, naquela época, na Inglaterra.

Acredito que a idéia de Kuhn de uma tipologia dos cientistas e dos períodos científicos é importante, mas necessita de restrições. O seu esquema de períodos “normais”, dominados por uma teoria imperante (um “paradigma”, segundo a terminologia de Kuhn) e seguidos de revoluções excepcionais, parece ajustar-se muito bem à astronomia. Mas não se ajusta, por exemplo, à evolução da teoria da matéria; nem à evolução da teoria das ciências biológicas desde, di- gamos, Darwin e Pasteur. Em relação ao problema da matéria, sobretudo, tivemos pelo menos três teorias dominantes que competiram desde a Antigüidade: as teorias da continuidade, as teorias atômicas e as teorias que tentavam combinar as duas primeiras. Além disso, tivemos por algum tempo a versão de Berkeley feita por Mach — a teoria de que a “matéria” era um conceito mais metafísico do que científico: de que não havia nada parecido com uma teoria física da estrutura da matéria; e de que a teoria fenomenológica do calor deveria tornar-se o paradigma por excelência de todas as teorias físicas. (Emprego aqui a palavra “paradigma” num sentido um pouco diferente do que lhe dá Kuhn: não para indicar uma teoria dominante, mas um programa de pesquisa um modo de explicação

considerado tão satisfatório por alguns cientistas que eles exigem a sua aceitação geral.) Conquanto eu considere importantíssimo o descobrimento de Kuhn do que ele chama de ciência “normal”, não concordo com a afirmativa de que a história da ciência lhe apóia a doutrina (essencial à sua teoria da comunicação racional) segundo a qual “normalmente” temos uma teoria dominante um paradigma em cada domínio científico, e ainda segundo a qual a história de uma ciência consiste numa seqüência de teorias dominantes, com períodos revolucionários intervenientes de ciência “extraordinária”; períodos que ele descreve como se a comunicação entre cientistas se houvesse interrompido mercê da ausência de uma teoria dominante. Essa imagem da história da ciência conflita com os fatos tais como os vejo. Pois sempre houve, desde a Antigüidade, constante e proveitosa discussão entre as teorias dominantes concorrentes da matéria. Agora, em seu atual ensaio, Kuhn parece propor a tese de que a lógica da ciência tem pouco interesse e nenhum poder explanatório para o historiador da ciência. Afigura-se-me que, vinda de Kuhn, essa tese é quase tão paradoxal quanto o foi a tese “Eu não uso hipóteses” exposta na Optics de Newton. Pois assim como Newton usava hipóteses, assim Kuhn usa a lógica não só para argumentar, mas também no mesmíssi- mo sentido em que me refiro à Lógica da Descoberta. Ele emprega, todavia, uma lógica da descoberta que, em certos pontos, difere radi - calmente da minha: a lógica de Kuhn é a lógica do relativismo histórico. Permitam-me mencionar primeiro alguns pontos de concordância. Acredito que a ciência é essencialmente crítica; que consiste em conjeturas audazes e, portanto, pode ser descrita como revolucionária. Sempre acentuei, todavia, a necessidade de algum dogmatismo: o cientista dogmático tem um papel importante para representar. Se nos sujeitarmos à crítica com demasiada facilidade, nunca descobriremos onde está a verdadeira força das nossas teorias. Mas Kuhn não quer saber desse dogmatismo. Acredita no domínio de um dogma imperante por períodos consideráveis; e não acredita que o método da ciência seja, normalmente, o método de conjeturas audazes e de crítica. Quais são os seus principais argumentos? Não são psicológicos nem históricos são lógicos: Kuhn sugere que a racionalidade da ciência pressupõe a aceitação de uma referencial comum. Sugere que

a racionalidade depende de algo como uma linguagem comum e um conjunto comum de suposições. Sugere que a discussão racional e a crítica racional só serão possíveis se estivermos de acordo sobre questões fundamentais. Essa é uma tese amplamente aceita e, com efeito, está na moda: a tese do

relativismo. E é uma tese lógica. Considero-a equivocada. Admito, naturalmente, que é muito mais fácil discutir enigmas dentro de um referencial comum aceito e ser levado pela maré de uma nova moda imperante a um novo referencial, do que discutir princípios fundamentais isto é, o próprio referencial de nossas suposições. Mas a tese relativista de que a estrutura não pode ser discutida criticamente pode ser discutida criticamente e não resiste à crítica. Dei-lhe o nome de O Mito do Referencial, e discuti-a em várias ocasiões. Considero-a um equívoco lógico e filosófico. (Lembro-me de que Kuhn não gosta do meu emprego da palavra “equívoco”; mas essa aversão é simplesmente parte do seu relativismo.) Eu gostaria de dizer em poucas palavras por que não sou relativista: 2 acredito na verdade “absoluta” ou “objetiva”, no sentido de Tarski (embora, naturalmetne, não seja um “absolutista”, pois não penso que eu, nem qualquer outra pessoa, temos a verdade no bolso). Não duvido de que este seja um dos pontos em que estamos mais profundamente divididos; e é um ponto lógico. Admito que a qualquer momento somos prisioneiros apanhados no referencial das nossas teorias; das nossas expectativas; das nossas experiências passadas; da nossa linguagem. Mas somos prisioneiros num sentido pickwickiano; se o tentarmos, poderemos sair de nosso referencial a qualquer momento. Ê verdade que tornaremos a encontrar-nos em outro referencial, mas este será melhor e mais espaçoso; e poderemos, a quaisquer momento, deixá-lo também. O ponto central é que é sempre possível uma discussão crítica e uma comparação dos vários referenciais. Não passa de um dogma

e um dogma perigoso o que estatui que os diversos referenciais são como

linguagens mutuamente intradutíveis. O fato é que nem línguas totalmente diferentes (como o inglês e o hopi, ou o chinês) são intraduzíveis, e que existem inúmeros índios ou chineses que aprenderam a dominar perfeitamente o inglês.

chineses que aprenderam a dominar perfeitamente o inglês. 2. Veja, por exemplo, o Capítulo 10 das

2. Veja, por exemplo, o Capítulo 10 das minhas Conjectures and Refu- tations, e o

primeiro Addendum à 4.* (1962) e à última edição do volume ii de minha Open Society.

O Mito do Referencial, em nosso tempo, é o baluarte central do irracionalismo. A tese que lhe oponho é que ele simplesmente exagera a dificuldade, transformando-a numa impossibilidade. Não se pode deixar de admitir a dificuldade da discussão entre pessoas educadas situadas em diferentes referências. Mas nada é mais proveitoso que uma discussão dessa natureza; do que o embate cultural que estimulou algumas das maiores revoluções intelectuais.

Admito que uma revolução intelectual se assemelha com freqüência a uma conversão religiosa. Uma nova visão das coisas pode apanhar-nos como o fuzilar de um raio. Mas isso não quer dizer que não podemos avaliar, crítica e racionalmente, nossos pontos de vista anteriores à luz dos novos.

Seria, desse modo, simplesmente falso dizer que a transição da teoria da gravidade de Newton para a de Einstein é um salto irracional e que as duas não são racionalmente comparáveis. Existem, ao contrário, inúmeros pontos de contato (tais como o papel da equação de Poisson) e pontos de comparação:

segue-se da teoria de Einstein que a teoria de Newton é uma excelente aproximação (a não ser no que concerne aos planetas e cometas que se movem em órbitas elípticas com excentricidades consideráveis).

Nessas condições, em ciência, à diferença do que acontece na teologia, é sempre possível o confronto crítico das teorias concorrentes, dos referenciais que competem entre si. E a negação dessa possibilidade representa um equívoco. Na ciência (e só na ciência) podemos dizer que fizemos progressos genuínos e que sabemos mais agora do que sabíamos antes.

Assim sendo, a diferença entre mim e Kuhn remonta, de manei ra fundamental, à lógica. E o mesmo acontece com toda a teoria de Kuhn. À sua proposta: “A Psicologia em lugar da Lógica da Descoberta” podemos responder:

todos os seus argumentos advêm da tese de que o cientista é logicamente obrigado a aceitar um referencial, visto que nenhuma discussão racional é possível entre referenciais. Eis aí uma tese lógica mesmo que seja uma tese equivocada.

De fato, como já expliquei alhures, o “conhecimento científico” pode ser considerado como destituído de objeto. 3 Pode ser encarado como um sistema de teorias do qual trabalhamos como trabalham

um sistema de teorias do qual trabalhamos como trabalham 3. Veja agora minha palestra intitulada “Epi

3. Veja agora minha palestra intitulada “Epistemology Without a Kno- wing Subject”

estampada nas Atas do Terceiro Congresso Internacional de Lógica, Metodologia e Filosofia da Ciência, que se realizou em Amsterdã, no ano de 1967.

os pedreiros numa catedral. A meta é descobrir teorias que, à luz da discussão crítica, cheguem mais perto da verdade. Desse modo, a meta é o aumento do conteúdo de verdade das nossas teorias (o que, como já demonstrei, 4 só pode ser conseguido pelo aumento do seu conteúdo).

Não posso concluir sem assinalar que, no meu entender, é surpreendente e decepcionante a idéia de recorrer à sociologia ou à psicologia (ou ainda, como Pearce Williams recomenda, à história da ciência) a fim de informar-se a respeito das metas da ciência e do seu progresso possível.

De fato, cotejadas com a física, a sociologia e a psicologia estão cheias de modas e dogmas não-controlados. A sugestão de que podemos encontrar aqui algo parecido com uma “descrição pura, objetiva” está claramente equivocada. Além disso, como pode o retrocesso a tais ciências, a miúdo espúrias, ajudar-nos

a resolver essa dificuldade? Não será sociológica (nem psicológica, ou histórica)

a ciência a que vocês desejam recorrer a fim de decidir quanto monta a pergunta “Que é ciênciaT’ ou “Que é, de fato, normal em ciência?” Pois vocês, evidentemente, não querem recorrer à orla lunática sociológica (ou psicológica ou histórica)? E a quem desejam consultar: ao sociólogo (ou psicólogo, ou historiador) “normal” ou ao “extraordinário”?

Por isso considero tão surpreendente a idéia de recorrer à sociologia ou à psicologia. E considero-a tão decepcionante porque ela mostra que foi baldado tudo o que eu disse até agora contra as tendências e processos sociologistas e psicologistas, especialmente na história.

Não, esta não é a maneira, como a simples lógica pode mostrar; e assim a resposta à pergunta de Kuhn “Lógica da Descoberta ou Psicologia da Pesquisa?”

é a seguinte: enquanto que a Lógica da Descoberta tem muito pouca coisa para

aprender com a Psicologia da Pesquisa, esta tem muito que aprender com aquela.

da Pesquisa, esta tem muito que aprender com aquela. Veja meu estudo intitulado ‘‘A Theorem on

Veja meu estudo intitulado ‘‘A Theorem on Truth-Content”, publicado na obra

Mind, Matter, and Method, de Feigl Festschrift, organizado por P. K. Feyerabend e Grover Maxwell, em 1966.

4.

A NATUREZA DO PARADIGMA 1

MARGARET MASTERMAN Cambridge

Language Research Unit

1. A dificuldade inicial: as múltiplas definições de paradigma dadas por Kuhn.

2. A originalidade da noção sociológica do paradigma de Kuhn: o paradigma é algo que pode funcionar quando não existe a teoria.

3. A conseqüência filosófica da insistência de Kuhn na centrálidade da ciência normal', filosoficamente falando, o paradigma é um artefato que pode ser utilizado como expediente na solução de enigmas; e não como visão metafísica do mundo.

4. O paradigma precisa ser uma “imagem concreta usada analogi- camente; porque precisa ser um "modo de ver’’.

5. Conclusão: visão prévia das características lógicas do paradigma.

O propósito deste estudo é elucidar a concepção de paradigma de T. S.

Kuhn; e foi escrito na suposição de que T. S. Kuhn é um dos mais notáveis filósofos da ciência do nosso tempo.

É curioso que, até agora, nenhuma tentativa tenha sido feita para elucidar

essa noção de paradigma, fundamental a toda con

elucidar essa noção de paradigma, fundamental a toda con 1. Este ensaio é uma versfio ulterior

1. Este ensaio é uma versfio ulterior de um trabalho que me pedira m para apresentar

quando fosse discutida a obra de T. S. Kuhn neste Simpósio; e que não pude escrever por ter sido acometida de severa hepatite infecciosa. Dedico, portanto, esta nova versão aos médicos, às enfermeiras e ao pessoal do Pavilhão n.° 8 do Nor wich Hospital, que permitiram fosse um

índice dos assuntos ventilados por Kuhn feito numa cama de hospital. Foi -lhe dada uma forma capaz de conformar-se da melhor maneira possível com a contribuição convalescente que acabei fazendo da platéia do Simpósio.

cepção da ciência de Kuhn tal como ele a expôs em sua The Structure of Scientific Revolutions? Isso talvez aconteça porque esse livro é, ao mesmo tempo, cientificamente claro e filosoficamente obscuro. Está sendo muito lido, e cada vez mais apreciado, pelos verdadeiros pesquisadores científicos, de modo que deve ser (até certo ponto) cientificamente bem expresso. Por outro lado, os filósofos lhe têm dado interpretações muito diversas, o que nos faz supô-lo filosoficamente obscuro. O motivo dessa dupla reação, a meu ver, deriva de haver Kuhn olhado realmente para a ciência, em diversos campos, em lugar de restringir a sua esfera de leitura ao campo da história e da filosofia da ciência, ou seja, a um só campo. Até agora, portanto, na medida em que o seu material é reconhecível e familiar aos cientistas verdadeiros, estes lhe consideram o pensamento fácil de compreender. Na medida em que o mesmo material é estranho e pouco familiar aos filósofos da ciência, estes consideram opaco qualquer pensamento que nele se baseie. Na realidade, porém, a forma de pensar de Kuhn não é opaca, senão complexa, já que reflete, filosoficamente falando, a complexidade do seu material. De um modo semelhante, em Proofs and Refutations 3 introduziu Lakatos nova complexidade e novo realismo em nossa concepção da matemática, porque examinou com atenção o que os matemáticos realmente fazem quando refinam e mudam os dispositivos e idéias uns dos outros. Como filósofos, por conseguinte, devemos progredir além do novo “ponto de realismo” relativo à ciência estabelecido por esses dois, e não regredir aquém dele. E, como cientistas, cabe- nos examinar com suma atenção a obra dos dois destacados pensadores, visto que, mesmo como um simples guia geral, podem ser de efetiva utilidade no interior da ciência.

O presente estudo é escrito mais de um ponto de vista científico do que de um ponto de vista filosófico; embora deva ser dito de início que não me ocupo de ciências físicas, mas das ciências do computador. Nessas condições, longe de expressar dúvidas a respeito da existência da “ciência normal” de Kuhn, aceito -a por verdadeira. Não há necessidade de continuar aqui invocando a história. Que existe ciência normal e que ela é exatamente como Kuhn a descreve é o fato notável, esmagadoramente óbvio, que se depara a qualquer filósofo da ciência que se dispõe, de um modo prático ou tecnoló

da ciência que se dispõe, de um modo prático ou tecnoló 2. A concepção apresentada neste

2. A concepção apresentada neste estudo baseia-se no livro de Kuhn The Structure of Scientific Revolutions, e não no resto da sua obra publicada. Todos os números de páginas incluídos no texto referem-se a esse trabalho de Kuhn.

3. Lakatos, “Proofs and Refutations”.

gico, a empreender alguma pesquisa científica real. Foi por haver Kuhn finalmente notado o fato central a propósito de toda ciência real (pesquisa básica, aplicada, tecnológica, são todas iguais aqui), de que se trata normalmente de uma atividade governada por hábitos, de solução-de-enigmas, e não uma atividade fundamentalmente perturbadora ou falseadora, (isto é, de que não se trata de uma atividade filosófica), que os verdadeiros cientistas estão agora, cada vez mais, lendo Kuhn em vez de ler Popper: tanto que, sobretudo nos novos campos científicos, a “palavra correta” passou a ser “paradigma” e deixou de ser “hipótese”. É pois cientificamente urgente e filosoficamente importante tentar descobrir o que é o paradigma kuhniano.

Sendo científico o meu ponto de vista global, o presente estudo também aceita por verdadeiro que a ciência como é realmente exercida a saber, a ciência mais ou menos como Kuhn a descreve é também a ciência como deve ser exercida. Pois se não houver algum mecanismo autocorretor que opere no interior da própria ciência, não haverá esperança de que, cientificamente falando, as coisas venham a emendar-se depois de desandar. Pois a única coisa que os cientistas que trabalham não farão é modificar sua maneira de pensar, no exercício da ciência, ex more philosophico, porque Popper e Feyera- bend pontificam para eles como se fossem teólogos do século XVIII; principalmente porque tanto Popper quanto Feyerabend costumam pontificar ainda mais que os teólogos do século XVIII. 4

Receio que o prefácio me tenha saído um tanto agressivo; a necessidade de comprimir o material e a indignação que me causou o que chamarei no estudo o “eterismo-da-filosofia-da-ciência” foram a razão disso. Em todo caso, sobretudo em vista de algumas expressões menos moderadas de Watkins, 5 um pouco de agressividade em favor de Kuhn injetada neste simpósio não fará mal a ninguém.

de Kuhn injetada neste simpósio não fará mal a ninguém. 4. Feyerabend, “Explanation, Reduction and Empiricism”,

4. Feyerabend, “Explanation, Reduction and Empiricism”, p. 60. (Essa explosão mais

do que profética inclui dentro em si mesma uma metaexplosão contra a filosofia lingüística contemporânea de Oxford.) Veja também, mais sucintamente, Watkins no presente simpósio.

5. Por exemplo, na comparação entre a concepção de Kuhn da “comuni dade científica

como sociedade essencialmente fechada, intermitentemente sa cudida por colapsos nervosos coletivos seguidos de um uníssono mental restaurado”, e a (nobre) concepção de Popper da mesma sociedade como sociedade aberta; veja Watkins, neste volume, p. 34, nota de pé de página 2 e pp. 29-30. Esta última contém uma deformação realmente muito grosseira da verdadeira concepção de Kuhn deformação repetida nas pp. 31-32, e em todo o tom do trecho, em que acusa Kuhn de “ver a ciência como a religião do cientista”; e no trecho em que discute o que ele denomina “A

1 . A DIFICULDADE INICIAL: AS MÚLTIPLAS DEFINIÇÕES DE PARADIGMA DADAS POR KUHN.

Duas dificuldades vitais se apresentam aos que levam a sério a “nova imagem da ciência” de Kuhn/’ Na primeira, que é a sua concepção de verificação da experiência (ou a ausência dela), não concordo com ele e nisso me parece que o mundo filosófico empirista tem argumentos contra ele. Mas no segundo, que é a sua concepção do paradigma, sobejam-lhe argumentes contra esse mundo. Pois não somente o paradigma de Kuhn, a meu ver, é uma idéia fundamental e nova na filosofia da ciência e, portanto, uma idéia que merece ser examinada, mas também, conquanto dependa dela toda a concepção geral de Kuhn da natureza das revoluções científicas, os que o atacam nunca se deram ao trabalho de descobrir do que se trata. Ao invés disso, presumem sem discutir que o paradigma é uma “teoria básica” ou um “ponto de vista metafísico geral”; ao passo que, a meu juízo, é muito fácil mostrar que, em seu sentido primário, ele não pode ser uma coisa nem outra.

Kuhn, naturalmente, com o seu estilo quase poético, torna a elucidação do paradigma autenticamente difícil para o leitor superficial. De acordo com a minha contagem, ele emprega a palavra “paradigma” em pelo menos vinte e um sentidos diferentes em sua The Structure of Scientific Revolutions. Assim descreve um paradigma:

(1) Como uma realização científica universalmente reconhecida (p. x): “ [Paradigmas] são, no meu entender, realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum

tempo, fornecem modelos de problemas e soluções para uma comunidade de profissionais.”

(2)

Como mito (p. 2):

“Os historiadores defrontam-se com dificuldades

crescentes no distinguir o componente “científico” da observação e da crença passadas daquilo que os seus predecessores rotularam de "erro” e "superstição”. Quanto mais cuidadosamente estudam, digamos, a dinâmica aristotélica, a quí mica flogística, a termodinâmica calórica, mais seguros se sentem de que essas concepções outrora vigentes da natureza não eram, no seu todo, menos científicas nem mais recorrentes da idiossincrasia humana do que as concepções hoje dominantes. Se tais crenças antiquadas podem ser denominadas mitos, os mitos

crenças antiquadas podem ser denominadas mitos, os mitos Tese do Paradigma Instantâneo’’. Diga -se a bem

Tese do Paradigma Instantâneo’’. Diga-se a bem da justiça que Watkins se desculpa duas vezes pela desnecessária violência do estilo; de uma feita, quando se acusa corretamente de “certa injustiça inconsciente”; e, de outra, quando confessa estar falando “um tanto maldosamente". Mas que um filósofo sério do seu calibre se considere justificado em ser, ao mesmo tempo,

superficial e inexato na crítica e violento no estilo não é apenas motivo de comentários, mas também de surpresa.

6. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, pp. 1 e 3.

podem ser produzidos pelos mesmos tipos de métodos e mantidos pelos mesmos tipos de razões que hoje conduzem ao conhecimento científico. Se, por outro lado, elas tiverem de ser chamadas ciência, então a ciência incluiu corpos de crenças totalmente incompatíveis com as que sustentamos hoje.”

(3)

Como “filosofia” ou constelação de perguntas (pp. 4-5):

“[Nenhuml

grupo científico pode exercer seu ofício sem um conjunto qualquer de crenças recebidas. Nem

isso torna menos importante a constelação a que o grupo, em dado momento, está de fato ligado. A pesquisa eficaz dificilmente começará antes que a comunidade científica pense ter adquirido respostas firmes a perguntas como estas: De que entidades fundamentais se compõe o universo? Como interagem elas entre si e com os sentidos? Que perguntas podem ser legitimamente formuladas a respeito dessas entidades e que técnicas se podem empregar na busca de soluções?”

(4)

Como manual, ou obra clássica (p. 10):

“‘Ciência Normal’ significa

pesquisa firmemente baseada em realizações científicas passadas, realizações que alguma comunidade científica reconhece por algum tempo como propiciadoras da base da sua prática subseqüente. Hoje tais realizações são relatadas, se bem que raramente na forma original, pelos manuais científicos, elementares e avançados. Esses manuais expõem o corpo da teoria aceita, ilustram muitas ou todas as suas aplicações bem-sucedidas, e comparam tais aplicações com observações e experiências exemplares. Antes que esses livros se tornassem populares no princípio do século XIX (e até mais tarde nas ciências recém -desenvolvidas), muitos dos famosos clássicos da ciência desempenharam função semelhante. A Física de Aristóteles, o Almageslo de Ptolomeu, os Princípios e a Ótica de Newton, a Eletricidade de Franklin, a Química de Lavoisier e a Geologia de Lyell estas e muitas outras obras serviram, durante algum tempo, implicitamente, para definir os problemas e métodos legítimos de um camp o de pesquisa para sucessivas gerações de profissionais. Elas puderam fazê -lo porque partilhavam de duas características essenciais. Sua realização era tão sem precedentes que atraía um grupo duradouro de adeptos, desviando-os de tipos concorrentes de atividade científica. Ao mesmo tempo, era tão aberta que deixava a solução de todas as espécies de problemas para o grupo redefinido de profissionais. Às realizações que partilharem dessas duas características chamarei, daqui por diante, ‘paradigmas’. ”

(5)

Cómo toda uma tradição e, em certo sentido, como modelo (pp. 10 -11):

alguns exemplos aceitos da prática científica verdadeira exemplos que incluem ao mesmo tempo a lei, a teoria, a aplicação e a instrumentação fornecem modelos dos quais emanam tradições coerentes de pesquisa científica. São as tradições que, para o historiador, pertencem a rubricas como “astronomia ptolemaica” (ou “coperniciana”), “dinâmica aristotélica” (ou “newtoniana”), "ótica corpuscular” (ou "ondulatória”), e assim por diante. O estudo de para- digmas, incluindo inúmeros outros muito mais especializados do que os acima mencionados, prepara o aluno para fazer parte de determinada comunidade cien tífica com a qual praticará mais tarde.”

(6)

Como realização científica (p. 11):

“Visto

que

neste ensaio o con

ceito de paradigma substituirá uma variedade de noções familiares, urge dizer mais alguma coisa acerca das razões da sua introdução. Por que a realização científica concreta, como local

de compromisso profissional, é anterior aos vários conceitos, leis, teorias e pontos de vista que podem ser abstraídos dela? Em que sentido é o paradigma partilhado numa unidade fundamental para o estudioso do desenvolvimento científico, unidade que não se pode reduzir

ple-

namente a componentes logicamente atômicos, capazes de funcionar em seu lugar?”

(7)

Como analogia (p. 14):

"Um grupo primitivo de teorias, que se

seguiram à prática do século XVII, considerava a atração e a geração produzidas pelo atrito como os fenômenos elétricos fundamentais. Esse grupo tendia a tratar a repulsão como efeito secundário, que se devia a uma espécie de rebote mecânico e também a adiar para o mais tarde possível a discussão e a pesquisa sistemática do recém-descoberto efeito de Gray, a condução elétrica. Outros “eletricistas” (o termo é deles mesmos) consideravam a atração e a repulsão manifestações igualmente elementares da eletricidade e modificaram, nessa con formidade, suas teorias e sua pesquisa. (Na verdade, esse grupo é notavelmente pequeno a própria teoria de Franklin nunca explicou cabalmente a mútua repulsão de dois corpos com carga negativa.) Mas ele encontrou tanta dificuldade quanto o primeiro grupo para explicar simultaneamente qualquer um dos efeitos menos simples de condução. Esses efeitos, no enta nto, forneceram o ponto de partida para um terceiro grupo, que tendia a falar em eletricidade como um “fluido” capaz de correr através de condutores em lugar de um “eflúvio" que emanava de não - condutores.”

. fases iniciais do desenvolvimento de qualquer ciência, homens diferentes que enfrentam a

mesma série de fenômenos, mas nem sempre os mesmos fenômenos, descrevem-nos e interpretam-nos de maneiras diferentes. O que surpreende e talvez seja único em seu grau para os campos a que chamamos ciência, é que essas divergências iniciais sempre desaparecem Para ser aceita como paradigma, uma teoria precisa parecer melhor do que suas concorrentes, mas não precisa explicar, como de fato nunca explica, t odos os fatos com que se pode defrontar.”

(8)

Como especulação metafísica bem-sucedida (pp. 17-18):

" .

.

nas

(9)

Como dispositivo aceito na lei comum (p. 23):

“Em seu uso esta

belecido, o paradigma é um modelo ou padrão aceito, e esse aspecto do seu significado me facultou, por falta de palavra melhor, apropriar-me aqui da palavra “paradigma”. Logo, porém, se tornará claro que o sentido de “modelo" e “padrão” que permite a apropriação não é exatamente o sentido habitual da definição de “paradigma". Em gramática, por exemplo, “amo, amas, amai" é um paradigma porque mostra o modelo que se deve usar na conjugação de grande número de outros verbos latinos como, por exemplo, na produção de "laudo, laudas, laudat”. Nessa aplicação normal, o paradigma funciona permitindo a reprodução de exemplos que poderiam, em princípio, servir para substituí-lo. Numa ciência, por outro lado, o paradigma raro é objeto de reprodução. Ao invés disso, como decisão judicial aceita na lei comum, é objeto de articulação e especulação subseqüentes sob novas e mais rigorosas

condições.”

(10)

Como fonte de instrumentos (p. 37):

" .

.

.

os instrumentos con-

ceptuais e instrumentais fornecidos pelo paradigma.”

 

(11)

Como ilustração normal (p. 43):

"Atenta

investigação histórica de

determinada especialidade em dado momento revela uma série de ilustrações recorrentes e quase normais de várias teorias em suas aplicações conceptuais, observacionais e instrumentais. Tais são os paradigmas da comunidade, reve lados em seus manuais, conferências e exercícios de laboratório. Estudando-os e praticando com eles, os membros da comunidade correspondente aprendem o seu ofício. O historiador, é claro, descobrirá, além disso, uma área de penumbra ocupada por consecuções cujo status ainda se acha em dúvida, mas a essência

dos problemas resolvidos e das técnicas será geralmente claro. A despeito de ambigüidades ocasionais, os paradigmas de uma comunidade científica desenvolvida podem ser determinados com relativa facilidade.”

. negaram antecipadamente a tipos paradigmáticos de instrumentação o seu direito a esse título. Em suma, conscientemente ou não, a decisão de empregar de terminada parte do aparato e usá- la de certo modo traz consigo a suposição de que só surgirão determinadas circunstâncias. Há expectativas tanto instrumentais quanto teóricas, e elas têm desempenhado com freqüência um papel decisivo no desenvolvimento científico. Uma expectativa dessa natureza, por exemplo, faz parte da história do descobrimento do oxigênio. Utilizando um teste comum destinado a avaliar “a qualidade do ar”, tanto Priestley quanto Lavoisier mis turaram dois volumes do seu gás com um volume de óxido nítrico, sacudiram a mistura sobre a água e mediram o volume do resíduo gasoso. A experiência precedente, da qual surgira esse processo comum, assegurava- lhes que, em se tratando do ar atmosférico, o resíduo seria de um volume e que, em se tratando de qualquer outro gás (ou de ar poluído), o resíduo seria maior. Nas experiên cias que fizeram com o oxigênio, os dois cientistas encontraram um resíd uo de aproximadamente um volume, e assim identificaram o gás. Só muito mais tarde e graças, em parte, a um acidente, renunciou Priestley ao processo comum e tentou misturar óxido nítrico com o seu gás em outras proporções. Descobriu então que, com o quádruplo do volume de óxido nítrico, quase não havia resíduo. Seu compromisso com o procedimento original do teste procedimento sancionado por muitas experiências anteriores havia sido igualmente um compromisso com a não-existência de gases capazes de comportar-se como se comportava o oxigênio. Poderíamos multiplicar as ilustrações desse tipo reportando-nos, por exemplo, à identificação da fissão do urânio. Um dos motivos por que essa reação nuclear se revelou especialmente difícil de reconhecer foi que os homens que sabiam o que deviam esperar ao bombardear o urânio esco- lhiam testes químicos que visavam sobretudo a elementos da extremidade superior da tabela periódica. Deveremos, acaso, concluir da freqüência com que tais ligações instrumentais se revelam falazes que a ciência deve abandonar os testes e os instrumentos comuns? Isso resultaria num método inconcebível de pesquisa. Os processos e aplicações do paradigma são

tão necessários à ciência quanto as leis e as teorias do

(12)

Como expediente, ou tipo de instrumentação (pp. 59-60):

" .

.

eles

.”

(13)

Como um baralho de cartas anômalo? 7

(14)

Como fábrica de máquinas-ferramentas (p. 76):

“Enquanto os ins

trumentos fornecidos por um paradigma continuarem a revelar-se capazes de resolver os problemas que ele define, a ciência caminhará mais depressa e penetrará mais fund o através do emprego confiante desses instrumentos. A razão é clara. Assim como acontece na manufatura assim acontece na ciência a renovação do equipamento é uma extravagância que deve ser reservada para a ocasião oportuna.”

as

marcas no papel vistas primeiro como um pássaro são vistas agora como um antílope, ou vice - versa. Esse paralelo pode ser ilusório. Os cientistas não vêem alguma coisa como outra; simplesmente a vêem. Já examinamos alguns

(15)

Como figura de gestalt que pode ser vista de duas maneiras (p. 85): "

gestalt que pode ser vista de duas maneiras (p. 85): " 7. Cf. a discussão de

7. Cf. a discussão de Kuhn da experiência de Bruner-Postman, op. cit., pp. 62-3.

problemas criados dizendo que Priestley viu oxigênio como ar deflogisticado. Além disso, o cientista não preserva a liberdade do sujeito da gestalt a fim de brandi-la de um lado para outro, entre maneiras de ver. Não obstante, a mudança de gestalt, principalmente por ser hoje tão familiar, é um protótipo elementar útil para o que ocorre numa mudança de paradigma em escala normal.”

. atenua o papel das instituições políticas, como já a vimos atenuar o papel dos paradigmas." (17) Como “modelo” aplicado à quase-metafísica (p. 102): “E assim como o problema muda, assim muda, com freqüência, o modelo que dis tingue a verdadeira solução científica de uma simples especulação metafísica, de um jogo de palavras ou de um jogo matemático." (18) Como princípio organizador capaz de governar a própria percepção (p. 112):

“Examinando a rica literatura experimental da qual foram tirados esses exemplos somos levados a suspeitar que algo semelhante a um paradigma é um pré - requisito da própria percepção."

. digma filosófico iniciado por Descartes e desenvolvido ao mesmo tempo como a dinâmica newtoniana.”

(16) Como conjunto de instituições políticas (p. 92):

" .

.

só a crise

(19)

Como ponto de vista epistemológico geral (p. 120):

" .

.

o para

(20)

Como um novo modo de ver (p. 121):

“Os cientistas

falam

conseqüentemente em “véus que caem dos olhos” ou no “relâmpago luminoso” que “inunda”

um enigma até então obscuro, permitindo que seus componentes sejam vistos de um novo modo

“Os

paradigmas determinam grandes áreas de experiência ao mesmo tempo.”

(21)

Como algo que define ampla extensão de realidade (p. 128):

É evidente que nem todos esses sentidos de “paradigma” são incompatíveis entre si: alguns podem ser elucidações de outros. Sem embargo, dada a diversidade, é obviamente razoável perguntar: “Haverá alguma coisa em comum entre todos? Haverá, filosoficamente falando, alguma coisa definida ou geral acerca da noção de paradigma que Kuhn está tentando esclarecer? Ou ele não passa de um poeta-historiador que descreve sucessos diferentes ocorridos no decurso da história da ciência e a eles se refere empregando a mesma palavra paradigma?”

Tentativas preliminares de responder a essa pergunta pela crítica textual deixam claro que os vinte e um sentidos de “paradigma” de Kuhn pertencem a três grupos principais. Pois quando equipara o “paradigma” a um conjunto de crenças (p. 4), a um mito (p. 2), a uma especulação metafísica bem-sucedida (p. 17), a um modelo (p. 102), a um novo modo de ver (pp. 117-21), a um princípio organizador que governa a própria percepção, (p. 120), a um mapa (p. 108), e a alguma coisa que determina uma grande área de realidade (p. 128), é evidente que ele tem muito mais em mente uma noção

ou entidade metafísica do que uma noção ou entidade científica. Chamarei, portanto, aos paradigmas desse tipo filosófico paradigmas metafísicos ou meiaparadigmas', e estes representam a única espécie de paradigma a que, pelo que sei, se referiram os críticos filosóficos de Kuhn. O segundo sentido principal de “paradigma” de Kuhn, no entanto, dado por outro grupo de empregos, é sociológico. Assim, ele define “paradigma” como realização científica universalmente reconhecida (p. x), como realização científica concreta (pp. 10- 11), como conjunto de instituições políticas (p. 91), e também como de cisão judicial aceita (p. 23). Chamarei a esses paradigmas de natureza sociológica de paradigmas sociológicos. Finalmente, Kuhn emprega a palavra “paradigma” de modo ainda mais concreto, como verdadeiro manual ou obra clássica (p. 10), como fornecedor de instrumentos (pp. 37 e 76), como instrumentação real (pp. 59 e 60); lingüisticamente, como paradigma gramatical (p. 23), ilustrati- vamente, como analogia (v.g. à p. 14); e psicologicamente, como figura de gestalt e como um baralho de cartas anômalo (pp. 63 e 85). Chamarei aos paradigmas dessa espécie paradigmas de artefato ou paradigmas de construção.

A partir deste momento presumirei (embora peça algumas desculpas aos estudiosos) que a crítica textual de Kuhn só nos dá, no fim, paradigmas metafísicos, sociológicos e de construção; e discutirei primeiro o sentido sociológico de “paradigma”.

2. A ORIGINALIDADE DA NOÇÃO SOCIOLÓGICA DO PARADIGMA DE KUHN: O PARADIGMA É ALGO QUE PODE FUNCIONAR QUANDO NÃO EXISTE A TEORIA.

Visto sociologicamente (em contraposição à sua concepção filosófica) o paradigma é um conjunto de hábitos científicos. Seguindo esses hábitos a solução bem-sucedida de problemas pode continuar; eles tanto são intelectuais, verbais, comportamentais, quanto mecânicos e tecnológicos, pertencendo a qualquer um desses gêneros ou a todos ao mesmo tempo; tudo depende do tipo de problema que está sendo resolvido. A única definição explícita de paradigma, com efeito, que Kuhn apresenta é em função desses hábitos, conquanto os reúna a todos sob o nome de realização científica concreta. “Ciência normal”, diz ele (p. 10), significa “pesquisa baseada numa ou em mais de uma realização científica passada, que alguma

comunidade reconhece durante algum tempo como fornecedora dos fundamentos da sua prática ulterior”. Tais realizações (i) “suficientemente sem precedentes para atrair um grupo duradouro de adeptos, desviando-os de modos concorrentes de atividade científica’’, e (ii) “suficientemente abertas para deixar todas as espécies de problemas ao grupo redefinido de profissionais a fim de que os resolvam. Às realizações que partilharem das duas características chamarei, da qui por diante, paradigmas". Assim, atribuindo o lugar central, na ciência real, a uma realização concreta em lugar de atribuí-lo a uma teoria abstrata, Kuhn, único entre os filósofos da ciência, coloca-se em condições de dissipar a preocupação que tanto aturde o cientista que trabalha ao defrontar-se pela primeira vez com a filosofia da ciência profissional: “Como poderei utilizar uma teoria que não existe?”

Além disso, o próprio Kuhn não tem dúvida de que os seus paradigmas, assim sociologicamente definidos, são anteriores à teoria. (Essa é parte da razão por que ele deseja uma nova palavra, que não seja “teoria” para descrevê -los.) Pois “por que”, pergunta a si mesmo (p. 11), é o paradigma, ou realização científica, “como um local de compromisso profissional, anterior aos vários conceitos, leis, teorias e pontos de vista que dele se podem abstrair?” Infeliz- mente (e tipicamente) tendo formulado essa pergunta tão pertinente, Kuhn não dá

a si mesmo resposta alguma, e ao leitor cabe encontrar a resposta, se puder. Mas,

pelo menos, torna-se claro que, para Kuhn, algo sociologicamente descritível e, acima de tudo, concreto, já existe na fases iniciais da ciência real, quando a teoria não existe.

Também merece ser observado que, sejam quais forem os padrões sinonímicos que Kuhn tenha sido levado a estabelecer no auge de sua argumentação, ele, na realidade, jamais equipara “paradigma” — em nenhum dos seus principais sentidos — a “teoria científica”. Pois o seu metaparadigma é algo muito mais amplo do que a teoria e ideologicamente anterior a ela: isto é, toda uma Weltanschauung. Seu paradigma sociológico, como vimos, também é anterior

à teoria, e diferente dela, por ser algo concreto e observável: a saber, um conjunto de hábitos. E o seu paradigma de construção é menos que uma teoria, visto que pode ser algo tão pouco teórico quanto uma simples parte de um aparato: isto é, qualquer coisa capaz de provocar a ocorrência real de uma solução de enigma.

Assim sendo, as tão difundidas opiniões de que Khun, na realidade, não está dizendo nada de novo; ou de que, na medida em que é um filósofo, suas opiniões são essencialmente idênticas às de Feyerabend; ou ainda de que ele deve estar tentando dizer as mesmas coisas que Popper (visto que Popper disse primeiro tudo o que há de verdadeiro na filosofia da ciência), mas de que ele não as diz com muita eficiência nem com o tipo certo de ênfase; todas essas opiniões, depois de um exame verdadeiro do texto de Khun, se revelam falsas. 8 São, com efeito, as diferenças entre a “nova imagem” da ciência segundo Khun (ou, como lhe chamarei a partir de agora, a “concepção paradigmática” da ciência) e todas as outras filosofias da ciência de que tenho conhecimento, que fazem com que o livro de Khun seja tão extensamente lido e que eu me prepare para escrever este ensaio.

Tentarei dizer, portanto, na próxima seção, o que me parece encontrar-se na concepção paradigmática que, estabelecendo com êxito o cientificismo característico da ciência, combate vitoriosamente o filosofismo etéreo da “metafísica falsável”, que caracteriza a concepção popperiana. Depois disso tentarei dizer alguma coisa sobre o efeito que a concepção paradigmática de Kuhn tem sobre a “concepção hipotético-dedutiva” mais antiga e mais fechada; pois a concepção paradigmática, surpreendentemente, me parece muito mai s próxima da segunda dessas concepções que a primeira. Em conclusão, aludirei ao que, na minha opinião, serão as características lógicas distintivas e revolucionárias do paradigma de Kuhn, depois de despojado do seu meio sociológico e depois de encarado de um modo geral e filosófico. Derivarei todas essas características lógicas da propriedade básica do paradigma, à qual darei o nome de con- cretismo ou “crueza”.

Antes de começar tudo isso, e para rematar convenientemente esta seção, tentarei esboçar, de maneira impressionista, as diferenças que observei entre a concepção de ciência de Kuhn e a concepção de Feyerabend, visto que este, além de ser o filósofo da ciência que, até agora, mais se aproxima de Khun, é também o que maiores estudos dedicou à sua obra. 9 A principal diferença, ao meu juízo, é que, mercê do seu preconceito sociológico geral, os interesses de