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Marilena Chaui Convite & Filosofia LIVRO DO. PROFESSOR ceditora attea "VENDA PROIDA Joli Guiza Coordenagao da edicao Samir Thomaz Revisio Dire; o-gerol: Hélia de esus Gonsaga Cooraenagdo: Eliana Antonio Sheila Fabre Consultoria para a elaboragio das respostas do Manual do Professor Marcelo Krokocse2 Editor de arte jorge Okura Projeto gréfico Jorge Okura e Vater Nakao Editoracdo eletronica Wander Camargo Marco Antonio Fernandes Pesquisa Iconogrética Etoile Shaw « Homom de Melo & T6ia Design [Imagem da capa: Soi negro, gravura de Heloise Pires Fertera, de 1978, exemplo visual de silgismo na ética da artista. Foto da gt capa: juan Esteves/Folha imagem IMPRESSAO E ACARAMENTO 19" edigao 3 impressao ISBN 85-08-08936-8 2005 dos 0s dieitos reservados pela EditoraAtica ua Bardo de Iguape, 110 ~CEP01507-500, io Paulo - SP © 800 115152 ~ Fax: 0008)11 3277-4146 ot: wwatica.com.br ricaeducacional.com.br ra@atica.comabr (26 ‘critica kantiana & pretensio da metafisica de ser cién. ciadirige-se Filosofia quandoestapretende explicararea- lidade em side alguns seres, tomando a forma deumateo- logia racional (demonstragao racional da esséncia existéncia de Deus), uma psicologia racional (demonstra (0 daexisténcia e daimortalidade da alma) e uma cosmo logia racional (demonstragao da origem, essénciae final dade do mundo ou danatureza). Vimos, ao estudararazao ea verdade, que a distingao entre fendmeno e néurmeno permite a Kant imitaro conhecimento te6rico ao campoe. noménico eimpedir a pretensdo darazao deteorizar sobre o-campo das coisas em si Ametafisica nao conhecimento da esséncia em side Deus, da alma e do mundo; estes 540 néumenos (realida de emi) inacessiveis a0 nosso entendimento. A religiao, por sua vez, nio é teologia, nao é teoria sobre Deus, alma e mundo, mas resposta a uma pergunta que a razdo nao pode responder teoricamente: “O que podemos esperar?” Quai o papel da religido? Oferecer principios para a ago moral fortalecer a esperanca num destino superior da.alma humana, Sema crencaem Deuse numa alma livre 1do haveria humanidade, mas apenas animalidade natu- ral; Sem acrenga na imortalidade da alma, o cumprimento do dever nao seria o sinal de nossa destinacao futura nu- rma vida superior. Hegelsegue numa direcao diversada deKant.Paracle, a realidade no é sendo a histéria do Espirito em busca da identidade consigo mesmo. Deus nao é uma substancia cuja esséncia teria sido fixada antes e fora do tempo, mas Eo sujeito espiritual que se efetua como sujeito temporal, cuja a¢do 6 ele mesmo se manifestando para si mesmo. A mais baixa manifestagao do espirito é a natureza; a mais alta, acuttura. Na cultura, oespirito realiza-se primeiro como arte, a seguir como religido, depois como estado, finalmente, como filosofia, numa sequiéncia que efetua o aperfeigoa ‘mento do espirito que vai cum ao término do tempo. Isso significa que Deus se manifesta, primeito, como arte nas artes, depois como regio nas rligides, comoestado nos estados e finalmente como filosofia nas flosofias. Em lu- gar de oporreligiagefilosofia, Hegel faz dareligiao ummo- mento da historia do Espirito ou de Deus e uma etapa pre paratérie da filosofia, na qual Deus se reconhece a si ‘mesmo como Deus. A fenomenologia, como vimos, descreve esséncias constituidas pela intencionalidade da consciéncia, que é doadora de sentido 3 realidade. Aconsciéncia constitui as significacdes, assumindo atitudes diferentes, cada qual com seu campo especfico, sua estruturae finalidades pré- prias. Assim como haaatitude natural (acren¢arealistain- génua na existéncia das coisas) ea atitude floséfica (a re © mundo da pratica flex), hd também aatitude religiosa, como uma das pos sibilidades da vida da consciéncia. Quando esta se relacio- ‘na com © mundo por meio das nogdes e das praticas liga das ao sagrado, constitui aatitude religiosa, Assim, a consciéncia pode relacionar-se com o mundo de maneiras variadas — senso comum, ciéncia, filosofia, artes, religido —, de sorte que n3o ha oposicao nem exclu: sao entre elas, mas ciferenga. Isso significa que a oposicao 6 surgiré quando a consciéncia, estando numa atitude, pretender relacionar-se com o mundo utilizando significa Ges e praticas de uma outra atitude. Foi isso que engen drow a oposigao ¢ 0 conflito entre filosofiae religido, pois, sendo altitudes diferentes da cansciéncia, cada uma delas ‘do pode usurpar os modos de conhecer ¢ agir nem as sig nificagdes da outra, Capiruo 3 O universo das artes Artista e obra de arte Geuse Comyn Se perguntarmos a alguém o que é um artista, é qua se certo que a pessoa responder que é 0 ator (de teatro, cinema, televiss0), 0 compositor musical e ocantor e, em alguns casos, incluird os bailarinos. Esse resposta é inte ressante tanto pelo que afirma como pelo que silencia, De ato, osiléncio consiste em nao incluirna categoria, “artista”, porexempio, 0s poetas eromancistas, isto, ai teratura — “sio escritores e ndo artistas”. dria a pessoa, Também estio exclutios os diretores de pegas teatrais fi mese novelas de televisdo ~ “dirigem os atistas, mas no sao artistas", diria essa mesma pessoa. Ao silenciar sobre 0s escritores e diretores e a0 escolher alguns artistas co: mo definidores do artista, essa pessoa esta afirmando, mesmo que nao 0 saiba, que um artista é aquele que rea liza uma performance num espetaculo. Artista seria, portanto, aquele que desempenia um papal num espetaculo (0 ator eo ballarino)e aquele que apresentaao pablcouma composicao sua nterpretacd0 (@compositormusicaleo canto). Curiosamente,porém, se pecimos aessamesma pes soa que nos dé exemplos de obras de arte, € praticamente © universo das artes certo que nosfalard dos quadros de Leonardo da Vinci, das esculturas de Michelangelo, de Rodin oud Alejadinho, das ‘sonatas de Beethoven ou dos preltidios de Chopin, das 6pe- ras de Verdi e Puccini, dos Lusiadas, de Camées, de algum balé, como 0 Quebra-Nozes. De modo geral, essa pessoa identiics obradearte com objetoscriados no passado,con- ‘servades respeitosamente emimuseus ou apresentados em Aresposta é interessante por dois motivos: em prime rolugar, porque a enumeragao das obras de artendo coin- cide exatamente com o que a pessoa entende por artista, pois agora também aparecem pintores, escultores, poetas; ‘emsegundo, porque essa pessoatende.a considerara obra de arte como algo a que poucos tem acesso, seja porque silo poucos 05 que a compreendem, Seja porque sio p0u- cos 05 que dispdem de recursos financeitos para frutlae, “Teste caso, a obra de arte @ diferente do que se supde ser Oartista, uma vez que este 6 perfeitamente acessivel para {quemassiste aum filme, uma novela ou um show. Na verdade, essa curiosa discrepancia entre o que se entende por artista e por obra de arte indica que, ao dize quem é um artista, a pessoa esta exprimindo o ponto de vista da chamada altradTe nessa cr allure deo yet culo; € que, a0 explicar o que entende por obra de arte, es: ‘5a pessoa esta exprimindo 0 ponto de vista da chamada cultura erudita ou cultura de elite, portanto, de um espec- tador que vivenuma sociedade dvididaem classes sociais, na qual somente alguns podem entendere fuir a arte. Neste capitulo trataremos apenas da obra de arte em ‘seu sentido mais amplo. No préximo capitulo, estudare- ‘mos a cultura de massa ou a indiistria cultural, de maneira acompreendermos como e por que, em nossa sociedade, as pessoas tendem a separar artista e obra de arte, aiden- tificar 0 primeiro com o desempenho num espetaculo ea segunda com objetos distantes e misteriosos que somen te alguns podem fruire compreender. Relacao com a obra de arte Se perguntarmos a essa mesma pessoa o que ela ex- perimenta diante de uma obra de arte, é quase certo que nos dita que sente respeito, que se sente emocionada com a beleza da obra e que tem admiracao pelo artista que a criou. Essa pessoa, agora, esta exprimindo o ponto de vis- tadeumespectador que vive numa sociedade industrial ou pds-industrial, isto é, numa sociedade em que as objetos de uso e de consumo sio produzides em série, so andni ‘mos (pois a marca registrada do fabricante ndo indica uma pessoa real ouconcreta que tenha feitoo produto), descar- tiveis, efémeros. Ou seja, 0s objetos deusoe consumo did ris ndo provocam respeito, ndo causam emocSes por sua beleza nem provocam admirasao por seus produtores, Temo dato, co slemao Jose! Bouys, 1986, ara quem o artista 6 uma espscie da xa caper {de assimiar aenerga de um objero.comum, Cconferndo-the now sgnicad Se, porfim, perguntarmosa essa pessoa se ela possui ‘obras de arte, ela padera nos dizer que sim (sua familia & rica e pode comprar objetos de arte) ou nos dira que nao, ‘mas podéra completar a resposta dizendo que possui ob: jetos de artesanato, algumas antiguidades, algurnlivio de arte e algum CD de um compositor célebre. Essa resposta 6 muito interessante porque nela percebemos: 1. a aproximagao e a distingao entre arte e artesanato: 2. a proximidade entre arte e antiguidad 3. aexisténcia de suportes fisicos (livro, CO) para obras de mleque erst mesrias sdoonsertis ieee es areal mas ds quas se pode fer algum acesso grayasaum ob- jeto industrial que as reproduz. Examinemos esses trés aspectos presentes no ponto de vista doespectador. |. Ao aproximar arte e artesanato, o espectador tem em mente o fato de que tanto a obra de art astesanal sfo trahalhos feitos por uma Gnica pessoa — diferentemente de um operario, que trabalha com cen- omo.o objeto tenas de outros numa linha de montagem, 9 artista eo artesdo realizam sozinhos um trabalho completo, $40, autores de suas produces, Além disso, enquanto.o pro: juto industrial, feito em série, éimpessoal, a obra de ar- tee ade artesanato sdo individualizadas ou pessoais, exprimindoaintencao,a habilidade eo talento de quem as realiza. No entanto, ao distinguir entre arte e artesa- rato, o espectador tem em mente a maior complexida- dee variedade de procedimentos e materiais emprega- dos pelo artista quando comparado como artesao.Além disso, adistingao também leva em conta 0 fato de queg artesao costuma fabricar varios exemplares do mesmo objeto enquanto o artista tende a Fea odu apenas um, ou Seja, a obra de arte tende a ser pe Gae como raridade enguanto o objeto artesanal no pos: sui essa caracteristica, 2. Ao aproximar obra de arte e antiguidade, o espectador simplesmente esta mantendo aidéia de queas grandes cobras de arte foram realizadias no passado e conserva: das pela humanidade como um bem coletive (mesmo ue poucos tenhamacesso direto aelas). Masao s6is- 50.0 mercado de antiguidades consiste em apanharum objeto de usoe de consumo para retird-lo do circuito do ‘uso e do.consumo, fazendo-0 valer como uma pega de- corativa ou umenfeite, ou comoiuma peca de estimagao "est hé muitos anos na familia”; “foi de meu bisav6" ‘minha av6 usou no dia de seu casamento”). Ora, é exa- mente © mesmo que acontece com a obra de arte quando é conservada no museu ou na biblioteca, ou se- ‘a, ela também 6 retirada do crcuito do uso edo consu: mo, passando a valer em sie por si mesma como uma 12ca tinica.Eis por que, espontaneamente, o especta- dor aproxima obra de arte ¢ antiguidade. Apessoa com quem estamos conversando talvez nunca passa ira Atenas ver o Partenon, ou a Roma vera Cape- ‘a Sistina pintada por Michelangelo durante a Renascen- ca, ou 3 Alemanha para o festival de Bayreuth, quando as obras de Richard Wagner sao executadas, ou a Paris para ver,no Museu do Louvre, a Mona Lisa pintada por Leonardo da Vinci, ou a Gramado para assistir ao Festi val Nacional de Cinema, ou a Campos do Jordao para 0 Oo mu » pritica Festival Nacional de Msica Erudita. Mas essa pessoa sabe que a imprensa, 0 radio, 0 cinema, 0 disco, a tele- visio, 0 video podem reproduzir ou transmitir essas obras, langando-as no mercado de consumo e permitin do um acesso indireto a elas. Em outras palavras, 350- ciedade industrial desenvolveu recursos técnicos para ‘multiplicar aquilo que € considerado o trago mais mar- ante da obra de arte: ser tinea. Oquefalvezoespecta- dor ndo saiba é que a transmissao e reproducao das obras de arte possui duas caras: numa delas, cemiocra tiza oacesso aarte; na outra, submete asartesaum mer cado novo, criado pela chamada indistria cultural. O ponto de vista do artista Alberto Caeito, um dos heterdnimos dopoeta Fernan: do Pessoa, leva-nos ao dmago da arte quando escreve: O mew olbare nitido como um giraso Teno o costume de andar peas estradas Otharido para a dircta e para w esquenla, F de ver em quando olhando para tr. Eo quetejo a cada momemo E aguilo que nunca antes eu tina vst, F eu sei due por sso muito hem Set ter o pasmnescencial Reparasse yue nascera deveras Sintomame mascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo. Aeterna navidade do mundo. O poeta une duas palavras que, normalmente, esto separadas e mesmo em oposic¢ao ~ eterna. novidade —, pais 9 etemo é auséncia de tem- o, aquilo que, fora do tempo, permanece sempre inti ‘Coasimesiro, enquanto 0 novo é pura temporalidade, pu- ro movimento temporal em que surge o que nao havia antes. Como se realiza essa unidade do eterno e do novo, aparentemente impossivel? Ela se realiza pelos e para os humanos: ela se realiza por meio da arte. Merleau-Ponty dizia que a arte é advento — um vir a ser do que nunca antes existiu —, como promessainfinita de acontecimentos — as obras dos artistas. No ensaio A inguagem indireta e as vozes do siléncio; ele escreve: princieo desenho na parades das cavernas furdans uma tnaligio porque revolhia uma outra: ada pereepsio. qua se crermidade de ane confiande-se com a quave erernidads da exsténcia humana encamada ¢ porto temos, no wer- ido de nosso compo ede nossos sentido, com qu compreen der nossa gestculagdo cultura, que nos insere no tempo. © universo das artes Que dizem os desenhos nas paredes da caverna? Que os seres humanos sao dotados de olhos e mos, que por isso para os humanos 0 mundo é visivel e para ser visto, € ques olhos eas maos do artista daoa vero mundo, 0 ar- tista éaquele que recolhe de maneiranova einusitada aqui _ ioque esta na percepcao de tod nto nin: {gum parece perceber. Ao faz@-lo, nos o sentimento da “quase eternidade da obra de arte, pois ela é a expressao “perene da capacidade perceptiva de nosso corpo. ‘Que mundo é trazido pelo artista? Aquele eternamen- tenovo, Eternamente, porque t5o antigo e perene quanto apercepcao humana. Novo, porque oartistao percebe co: ‘mo nunca fora percebido antes pelos demais homens. Eas- sim, por exemplo, que o pintor Monet pintou varias vezes a mesma catedral medieval que existia e perdura ha mui: tos séculos, mas, em cada tela, nasceu uma nova catedral. Referindo-se a essas telas de Monet, 0 filésofo Gaston Ba- chelard escreve, num ensaio denominado 0 pintor sotici: tado petoselementos: Umdis, Cade Monet quis que citadel fose veslade romente ares — aérea em sua substancla, agnes no pri prio coragdodaspedrss. Ea catedral tomou da broma act Jada toda a matéria azul que u pripsia brane romana do Gu azul... Num outro dia, outro sonbo elementarseopo- dera da vomtade de pintar, Claude Monet quer que a eate- dra se tore uma esponja de i, que ubsorwa em todas sts filers de pedras een todos os seus ornamentos ote cde um sol poente. Entdo, neous nova tea, o catedral é uni astm doce, um astro miro, um ser adormecide no calor dia, As tores brincasare mais alto no fu, quando reee- iain o ele 1ento agro, Ficlas agora mais pero da Tera nas terest, arden apenas tim pore, com fago yaar dado nas pedras de uma lareira Os elementos, como vimos ao estudar @ cosmologia ‘grege, S80 0 ar, 0 fogo, a terra e a agua. Bachelard nos diz que Monet pintou as pedras da catedral como se fossem de ar (bruma azulada como 0 céu) e depois as pintou como se fossem de fogo (0 octe do sol poente, tum astro ruivo). A seguir, ele pintou uma catedral aqua- tica, esverdeada e submarina; e, finalmente, a pintou terrestre, marrom e cinza, fincada poderosamente no chao, Tomando a eternidade dos elementos e a pereni dade da cotedral medieval, Monet criou a catedral como obra de arte, como se a cada vez ela estivesse sendo vista pela primeira vez, cada tela fazendo-a inteiramen- te nova. Que procura o artista? Responde o poeta Caciro/Pes- “o pasmo essencial/ que tem uma rianga se, a0 nas- soa cer,/ reparasse que nascera deveras”, O artista busca 0 es- ‘dopela primeira vez, de uma crianga que soubesse de ver- que nds existissemos para percebé-lo. Eesse mundo origi- tor Cézanne, cujo trabalho é assim comentado por Merleau- Ron adie nC Viremos em meio aos objetosconstraidas pelos homens, en trcutensilios, casa, rus, cidadese na maior paredo tri os 08 veraos através das ayées htumanas de que podem serospontos de aplicago(..).A pina de anne sus pend ses hbitose revela ofiunde de Nutureza inumana sobre 0 qual se instala 9 homens )a paisqyem aparece sem vento, a dguna do lago som movimento, os objetos tran sidos hesitonulo como na origem de Terra. Um mundo sm famiaridade (..). 6 um huemuno, comude,€justamen- te capac dessa visdo que wa até raizes, aguém dt hua nile constnuida (,..). O-arasta &agule gte na acessivel_ aos demais humanos o espeniculo de participa vom penser Aobrade arte “fixaetorne acessivel” omundoemaue vviveinos € que percebemos sem nos darmos conta dele e denésmesmos nele. Aobrade arlenos daaver oquesem- pre vimos sem ver, a ouvir que sempre ouvimos sem ou vir, aSentIF que sempre Sentimos sem sentir, a pensar o. ‘que Senipre pensamos Sem pensar, a dizer o que sempre gvemossem dizer, Porisso, neta epor ela, arealidade se tevela como se jamais ativéssemos visto, ouvido, dito, sen: tido ou pensado. Eis por que o artista 60 que passa pela cexperiéncia de nascer todo dia para “eterna novidade do mundo” Oque éessaexperiéncia? Ainvencdo de mundos ou tectiagdo do mundo. Como escreve o poeta Ferreira Gulla, ‘num iv intitulade Sobre a arte: 7 tae é mus vias. Un das wins gue sap aRTSETETTTmrindo ouro — mais bonito ou mas Ina da realtdade imediaus (J. Naturaliente, se mun Tv outro que artisia cra ou mventa nasce de sua cule de sua experitncia de vida, das idéias que ele tem na cabe~ ga enfin, de sua visto de amanda (..) 233 Ei ae Podemos ver essa recriagao do mundo ou sua trans- formagao simbdlica se acompanharmos 0 poema de Jorge de Lima, “Poema do nadador”: A ga fas, cgua é boa Nad, nadador? A dgua é manso, a digua é doi, agua & fa, alt morna, aig € fim Natl, nadador? A gua sobe,u dgua desce, sadigta é mans a dg é dod, Nuss, nadador! A dg te an be, dgua te abrage, ‘a igua te leva, a dgita te mata Nada, nadador! que rstaré dei, nadador? Nada, nadador Rigorosamente, nfo ha nadanesse poema que desco- nhegamos. Nenhuma das palavras empregadas pelo poe- ianosé desconhecida.€, no entanto, tudo aié inteiramen- te novo. 0 poema diz 0 que, antes dele, jamais havia sido dito e que, sem ele, nunca seriadito. O poea se constr6i pelo jogo de sentidos da palavra nade, 0 nada & 0 imperative do verbo nadar (0 poeta orde- na ao nadador que nade: “Nada, nadador!”), mas é tam- bém o pronome indefinido negativo (se nao nadar, diz 0 poeta, nada restard ao nadador: "Nada, nadador”). 0 pon: tode exclamagao""em "Nada, nadador! indica ousover- bal de nada; a auséncia do ponto de exclamagao em “Na da, nadador.” indica o uso pronominal de nada. O mesmo jogo éfeitocom a palavra nadador:ela se refere Aquele que realiza aacdo denadarmastambémindica onde ou no que essa aco se realiza — na dor. Agua 6 descrta por meio de oposigées: ela & boa e falsa, mansa e doida, fia e morna, sobe e desce, abracae mata. O que ela é? £ instavel, mudando sem cessar, opon: do-se a si mesma, contradit6ria, Por isso @ uma forca que arrasta tudo para vazio, A égua simboliza a fugacidade e a instabilidadedo mundo, sua acothida (“te lambe, te abra- 2") esuavioléncia (“te leva, te mata"). Oque sente aque- lequenada? Dor. Mas por que ele precisa nadare continuar nadando? Porque somente assim enfrentaré a forgaeova- zo das coisas, nao se deixara seduzir pela acolhida delas nem se deixard destruit pelaviolénciadelas. Adordequem nada @ 0 que resta a0 nada-dor, impedindo-o de transfor: mare, ele também, em puro nada, Opoeta nos fazver, sob a aparéncia calma e costume: ra das coisas de todo dia, a verdade profunda de um mur do contraditério que sera tudo, se puder teduziro homem anada, mas que sera um nada diante daquele que possui a forca para suportar e enfrentar a dor de estar no mundo. ‘Ao jogar com a duplicidade de sentido de nada e com acomposigao da palavranadador, o poetatransfigura alin. guagem cotidiana para fazé-la dizer algo novo. Esse algo, isto é, 0 sentido novo, nao existe antes nem depois, néo existe aquém nem além do poema, mas é 0 préprio poema como reinvengao ou rectiacao da linguagem. Allinguagem que falamos cotidianamente é a lingua geminstitulda, uma “fala falada”, em que reproduzimosas significages das palavres sem pensar nelas. Alinguagem do poeta, do romancista, do contistaé uma linguagem ins: tituinte, criadora, inventora de significagdes novas, uma fala falante” Que é escrever? Para 0 poeta e o romancista, diz of \6sofo e escritor francés Jean-Paul Sartre, é distanciarse éalinguagem-instrumentoe entrarnaatitude postica tra- ‘Tando as palavras como entes reais e no como meros sig “Tos gu Sinaisestabelecidos, Fapanharalinguagememes: tado selvagem (como Jorge de Lima faz com a palavra nada), como se as palavras fossem seres como a terra, a relva, a montanha ou a dgua (exatamente como no poema de Jorge de Limaa palavra nadae a palavradguasdoomun- ‘d0.@aagio do homem). 0 poeta quer que as palavrassig- nifiquem, em sie porsi, 2lguma coisa que sao elas proprias soba forma de poema. 0 prosador deseja,além disso, que clas designemo mundo, ainds que paratantoele tenha de inventar novamente o mundo por meio das palavras. O que Ea literatura? €a criagdo de um mundo que existe como palavre e somente pela e na palavra. ‘O que ha de espantoso nas artes é que elas desven- dam ou descobrem o mundo recriando-o de outra maneira € em outra dimensio, Justamente porque recriam o mur docompalavras, sons, tracos, cores, estos, movimentos, formas, massas, volumes a tealidade criada nao esta aquém nem além da obra, assim como nao esté na obra, mas éa propria obra de arte. Talver a melhor comprovacio disso esteja na iisica ena danga. Feita de sons,amUsica serd destruidasettentarmosou- vircada som separadamente ou reproduzi-os como no to: que de um corpo de cristal ou de metal. Pela harmonia, pe- {a proporgao, pela combinagaa de sons, pelo ritmo e pela percussdo, a misica cria um mundo sonoro que s6 existe por ela, nela e que é ela propria. Ela recolhe a sonoridade do mundo e de nossa percepsao auditiva, mas reinventa 0 som ea audicao como se estes jamais houvessem existido. Feita de mavimentos, gestos e ritmos, a danca sera destruida se tentarmos isoli+los ou reuni-los mecanica- mente como em bonecos. Ela s6 existe na movimentagio '. § O universo das artes © gesticulacao ritmadas do dangarino e da dancarina que recriam 0 corpo humano assim como recriam 0 movimen- t0 € 0 ritmo do proprio mundo cujo sentido e cuja realida- de nao é senaoo ato de dangar, A literatura, como a pintura, a mdsica, a escultura e qualquer das artes €a passage doinstituido aoinstituin- te, ou seja, uma trensfiguragao do existente numa outra ‘ealidade que o faz renaster © ser de manelra Inteiramen- teniova. A transformacao ou transfiguracdo da realidade numa outa, nova e existente apenas no trabalho realizado pele artista, chama-se obra. Arte e religio Vimos que, a parti da capacidade para relacionarse como ausente, os homens criaram alinguagem, inst ‘amo trabalho ea religido, Essas primeiras manifestagBes Cultures deramorigem as primeiras formas da sociabilida de ~ a vida comunitaria — e da autoridade — o poder re- ligioso. Linguagem, trabalho e religiao instituiram os sim- bolos da organiza¢ao humana do espaco e do tempo, do corpo. do espirito. As artes, isto é, as técnicas ou artes me- cAnicas, nasceram inseparaveis dessa humanizacao do mundo natural. € essa humaniza¢ao, como vimos, cond ziu sacralizagao do mundo natural. De ato, ao estudarmos a religio, vimos que arelacao com 0 sagrado, ao organizar 0 espaco e o tempo eo sent mento da comunhao ou separagao entre os humanos ea natureza e deles com o divine, sactalizou todo da real dade. A sacralizagdo implicou que todas as atividades hu. manas assumissem a forma de rituals: a guerra, a semea- dura ea colheita, a culindtia, as tracas, o nascimento ea morte, a doenga e acura eram realizadasrtualistcamen te; a mudanca das estagdes, a passagem do dia & noite © da noite ao dia, a presenga ou auséncia de ventos e chu- ‘a5, 0 movimento dosastrs, em suma, todos os aconteci mentos naturais eram cercados humanamente por cultos teligiosos, dedicados as forcas divinas que os causavam. A sacralizagao ea ritualizacao da ida fizeram com que ‘medicina, agricultura, culinéria, edificagdes, producao de tutensilios, miisica, danga se realizassem coma ritos ouse- guindo rtuais, e que certos utensils (facas, punhais, ad 1525, clices, tagas, piras, etc.) e instrumentos (sobretudo ‘05 musicais), assim como certos vestudrios (mantos, tii: as, colfas, etc) e adornos (tiaras, coroas, colares, pulsei- ras, anéis, pinturas faciais e corporais) se tomassem ele- ‘mentos dos cultos. Semear e colher, cagar e pescar, cozet alimentos, fiar etecer, assim como pintar, esculpir, dancar, cantar e tocar instrumentos sonoros surgiram, portanto, como atividades técnico-religiosas. | | | 273) O que hoje chamamos de belas-artes (pintua, escul tura, danga, mdsica) nasceu he milénios no interior dos cul tos religinsos e para serv-ls. De fato, os primeitos obje: tos artisticos — estatuetas, pinturas nas paredes de ‘avemas, ons obtidos por percussio —eramobjetosmé- gi¢0s. ou seja, nao eram uma representag3o nem uma in- vocagio aos deuses, mas a encarnado deles, pois acredi~ tava-se que as forgas divinas estavam neles. Esses primeiros objetos eramos fetiches eos artistas ouartesios ramos feitceiros. Pouco.a pouco, & medida que as religides foram se or ganizando no interior das sociedades, embora viriosfet- ches fossem conservados, passou:seaidéia de que lugares coisas destinados 8 sacralidade ou vide eligiosa haviam sido escothidas pelos proprios deuses © que locais e obje tosassimescolhicios deveriam fcar separados detodo ores to, reservados exclusivamente para honrar e adorar os dev: ses de maneiras determinadas pelos préprios deuses, ito & emcultos. Os objetos fabricados com essa inalidade pe: los artistas-artesdos passarama ter valorde culto. Ao surgir, nas primeiras sociedades e culturas, o artis ta era um mago — como 0 médico e 0 astrélogo —, umar. tesdo ~ como 0 oleiro, 0 marceneiro, 0 arquiteto, 0 pintor e oescultor — e uminiciado num oficio sagrado ~ como ‘miisico €o dancarino. Era um mago porque conhecta os mis- \érios sagrados; era um artesao ou artifice porque fabrica- va 0s objetos e instrumentos dos cultos; era um oficiante porque realizavao ritual por meio de palavras, gestos, sons, ‘e dangas fixados pela tradigao e pela autoridade religiosa Era, na qualidade de mago, artifice e detentor de um oficio que realizavasuaarte — ouseja, nac.eraaque hoje chama- ‘mos de “artista” e sim um servidorreligioso. Sua arte, por ‘ser parte inseparavel do culto e do ritual, nao se efetuava ‘segundo a vontade individual do artista, isto é, nao provi= nha da liberdade criadora do técnico-artesdo, mas exigia que ele respeitasse e conservasse as mesmas regrase nor mas os mesmos procedimentos para. fabricagdo dos ob- jetos dos cultose paraarealizagao dos gestos elinguagens, nos rtuais, pois tanto os objetos como os gestos éas pala vras haviam sido ensinados ou indicados pelos deuses, O artifice iniciava-se nos segredos das artes ou técni: casrecebendo uma educacao especial, tornando-se um ini ciado em mistérios. Aprendia a conhecer a matéria-prima preestabelecida para o exercicio de sua arte, a usar uten- silios ¢ instrumentos preestabelecidos para a sua ago, a realizar gestos, pronunciar palavras, utilizar cores, mani- ular ervas segundo um receitudrio fixo e secreto, conhe- cido apenas petos iniciados. O artista era, portant, ofcian- te de cultos e fabricador dos objetas e gestos dos cultos. Seu trabalho nascia de um dom dos deuses (que deram aos humanos o conhecimento do fogo, dosmetals, das semen 27 tes, dos animais, das Aguas e dos ventos, etc.) e era um dom humano para os deuses. Mesmo quando, historicamente, varias sociedades (comoa grega,a romana, a crista) operam uma divisdo so- cial em que os detentores da autoridade religiosa realizam 0 cultos, mas é nao fabricam os instrumentos, os abjetos © 05 locais dos cultos, é mantida a relagao entre a ativida de dos artistas ou artestos e a religido. £ na qualidade de servidores da auloridade religiosa que so encarregados de tecer os vestuarios, fabricar as jéias, produzir 0s abje- tos € os instrumentos, construir os lugares dos cultos, er- suer altares, escul ar as figuras dos deuses ede Seus representantes, produzir as misicas, os cantos e os instrumentos musicais, realizar as dangas. As grandes obras de arte das sociedades antigas e da sociedade cris- ta medieval, assim como da cultura judaicae da culturais- \amica, so religiosas — templos, catedrais, palacios, cali ces, tagas, mantos, tGnicas, chapéus, colares, pulseiras, anéis, estétuas, quadros, masicas e instrumentos musi- cais, gravuras eilustragées de manuscritos, etc.,tudo isso eraencomendado pela autoridade religiosae pelos ofician- tes dos cultos, que estabeleciam as regras de fabricacao, determinavam os materiais e as formas, as cores, as rtmos, ‘05 movimentos, os sons, etc. Essa relagao profunda coma religido, que determina- va toda a atividade artistico-artesanal, indica a auséncia CCipula do Domo da Rocha, em Jorusaiim, sae, (© mundo da pratica dealgo que se tornara decisivo séculos mais tarde: a auto- nomia das artes. Sem dtivida, na sociedade grega ena romanaa uma parte da producao artistico-artesanal escapava do po: der da autoridade religiosa, mas para ficar sob o poder da autoridade politica, que encomendava dos artifices edi ios, objetos, vestuérios, mobiliérios, jas, adornos, esté> tuas e pinturas, impondo aos artistas a escotha que fizera, dos materiais, das formas, das dimensbes, etc. Para que a autonomia das artes viesse a acontecer foi preciso que omodode producdo capitalista dessacralizas- ‘se o mundo e laicizasse toda a cultura, langando todas as atividades humanas no mercado. Isso significou, porém, ‘que livres do poder religioso e do poder politica, os artis \ tas se viram a bracos com o poder econdmico. Ao se livra | rem do valor de culto, as obras de arte foram aprisionadas pelo valorde mercado. Arte e técnica 0, quea maioriadas pes. 'Soas aproxima espontaneamente arte e artesanato, Essa aproximacao, como dissemos, decorredo fato de que oar- tista eo artesio produzem sozinhos e porinteiro uma obra, ‘eque esta exprime seus talentos e habilidades. Masha ain- (© universo das artes da outro motivo para essa aproximacao: 0 fato de que, his- toricamente,arte eartesanatoeramamesmacoisa,e, por tanto, oartesdo e o artista eramo mesmo. Apalavraarte vem do latim arse cortesponde a0 ter mmo greg téthne, “técnica”, signiticando “toda ativdade fnumana submetida aregras em vista dafabricagdo deal: uma coisa", Emlatim, artesd9, artifice ou artista sedi tifer,“0 que faz com arte”, e também opfcs,“o que exer- Ce Um oficio”; e o resultado de sua a¢ao se diz opus (no singular) e opera (no plural), iso €, em portugues, “obra”. Aarte ou tecnica era, portanto, uma atvidade regrada em vista da produgao de uma obra, Em sentido amplo, ars ou tékhne significava habilidade e agilidade parainventar meios paravencerumadificuldade ‘uum obsticulo postospelanatureza, Em sentidoestrito, significava o aprendizado ea pratica de um offcio que pos: suiregras, procedimentos e instrumentos pr6prios. sou tékhne era um saber pritico. Por ser uma habilidade dirigida por regras e procedi mentas com vista produgao de um artefato oucoma fina lidade de vencer uma dificuldade imposta pela natureza,a arte ou técnica se definia por oposi¢ao ao que acontece por ‘as0, bem como 20 que ésimplesmente esponténeo ou nao deliberado, e ao que é natural, isto é, que existe ou acontece sem a intervencdo humana. Por isso, em seu sen- tido mais geral, arte era um conjunto de regras e procedi- ‘mentoscomatungao debemdirigir uma atvidade humana qualquer para que esta realizasse oma que se prop6s. Nessa perspectiva, falava-se em arte médica, arte po- ica, arte militar, arte retérica, arte poética, arte dietética, arte da navegagio,arteda cag, artede pinta, esculpir,dan- ‘atte, Plato no distnguta arte das ciéncias nem adis- tinguia da flosoia, uma vez que todas elas sao atividades hhumanas ordenadas e regradas. A istingao platGnica era feitaentredoistiposdeartes outécicas:asjucicatvas i to€, dedicadasapenasao conhecimento, eas dispositivas ‘ou imperativas, voltadas para uma acdo pratica. Aristételes, porém, estabeleceu duas distingdes que perduraram por séculosna cultura ocidetal.Aprimeiradis tingue déncia de arte ou tecnica: a ciéacia é um saber te6- rico que se refere ao necessdrio (isto é, ao que ndo pode ser diferente do que é por serefelto de causas naturas ne cessérias) enquantoa arte au téenica é um saber pratico que operano campo do contingente ou do possivel (isto é, do que pode ser diferente do que é por serefeito de uma deliberagdo ou decisao humana). A segunda distingao 6 estabelecida no campo da pré- priaprtica comadiferengaentre ardoefabricaséo.AaGio, ‘em gregopraxis, €aquelaatividade humana emqueoagen- te, ato que ele realiza ea finalidade buscada por ele sio idénticos — apraxis define aaco ética ea aco politica (as EE 275, ‘sim, por exemplo, o homem que age virtuosamente & tuoso ea virtude é a acdo que ele realiza, de maneira que nao se pode separar o agente virtuoso, 0 ato virtuoso e a virtude ou finalidade daagao).A fabricacao, emgrego pote: sis, @aquelaatividade humana na qual o agente (0 arteszo ou artista), a agdo que ele realiza (as regras e os pracedi: mentos seguidos por ele) e a finalidade buscada (a obra) sio diferentes e distintos — apoiesis define asartesoutée ricas como atividades de fabricagao (assim, por exemplo, ‘omédico, a ago de curar ea saiide reconquistada néo sao idénticos; da mesma maneira, o escultor, o cinzel e 0 mar more, as regras daescultura e aestdtuando sioidénticos).. Posteriormente, os filésofos neoplaténicos completa: rams distingdes aristotélicas distinguindo as técnicasou artes cujafinalidade é auxiliar a natureza ~ como a medi Cina, aagricultura — daquelas cuja finalidade é fabricar um ‘objeto com os materiais oferecidos pela natureza — oar: tesanato propriamente dito. Distinguiram também um ou: ‘wo conjuntode artes e técnicas quendoserelacionam com anatureza, mas apenas como proprio homem, para torné: lomelhor ou pior: masica, danga, poesia e retdrica. Aclassiticagio dasartes ou técnicas seguiu um padrao que foi determinado pela estrutura da sociedade antiga e, portanto, pela organizacao social fundada na escravidio, Adivisio social entre homens livres e escravos, impondo a estes todas as ocupagses ¢ todos 0s trabalhios manuals ¢ reservando aqueles as atividades ndo-manuals, levava a uma cultura que desprezavao trabalho manual. Uma obra, As niipcias de Merctrio eFilologia, escrita pelo historiador romano Varrdo, oferece a classificagao que perdurard do séculolld.C. a0 séculoXY, dividindo asartes em artes live’ rais (ou dignas do homem live) e artes servis ou mecéini cas (pr6prias do trabalhador manua). Eramartes liberais: gramética, retérica,lgica aritme tica, geometria, astronomiae mésica, compondo ocurticu lo escolar dos homens livres. Eram artes mecénicas todas asoutrasatividades técnicas: agricultura,caga, pesca, me- dicina, engenharia, arquitetura, navegacao, pintura, escul tura, olaria, carpintaria, marcenaria, fiagao e tecelagem, etc, Essa classificagtio serdjustiicada por Santo Tomés de ‘Aquino durante a idade Média como diferenga entre as 2 tes que dirigem o trabatho da razéo (ow as artes liberais)€ as que dirigem o trabalho das maos (ou as artes mecani- cas). Visto que, numa perspectiva religiosa crista, somen- tea almaé livre eo corpo 6 paraela uma prisdo, conclui-se que as artes liberais sao superiores asartes mecanicas. Porqueasartes manuais sao chamadasde artes"me cAnicas"? As palavras gregas mechaniké (mecSnica}e me: chané (maquina) significam “invengao engentosa, este tagema astucioso”. Inicialmente, etam empregadas para se referr a estratagemas de guerra e na montagem de ce nrios de teatro. Pouco a pouco passaram a signiticar tam bém todo expediente habilidoso para resolver uma ifcul dade corporalou para superarum obstaculo. aga do cor po humano. Qual éoestratagema astucioso ou ainvencao habitidosa? Fazer com que alguém fraco realize uma tare- faacima de suas forcas, giagas a um instrumento que am plia suas Forgas. € assim, por exemplo, que uma alavanca © um martelo s80 méquinas ou objetos mecanicos, pois a alavanca permite desiocarum peso que uma pessoa, soz nia, jamais destocaria, eo martelo permite quebrarou unit objetos que as mos sozinhas nao conseguiriam quebrar ou unit. A técnica ou arte inventa instrumentos engenho- sos eastutos para ausiliaro corpo realizar uma atividade penosa, dura, diffi que, nas sociedades antigas, era rea- lizada por escravos ou servos e por homens lives pobres. A partir da Renascenga, porém, trava-se uma luta pe- la valorizagao das artes mecdinicas por duas razées princi pais: em primeiro lugar, porque comega a surgiro ideal da vide ativa, que valoriza a aplicagao pratica ou técnica dos conhecimentos te6ricos (como se vé em Leonardo da Vin- cicom suas invengBes de maquinas de todo tipoe como se \vé também na importancia dos objetos téenicos que per- imititam a realizagao das Grandes Navegagbes e os desco brimentos maritimos); em segundo, porque o Humanismo renascentista dignifica o corpo humano e essa dignidade se traduz na chamada “batalha pela dignidade das artes ‘mecanicas” para thes dar a mesma condicéo das artes li- berais. Além disso, estamos agoranoiniciodocapitalismo medida que este se desenvolve, o trabalho passa.a ser considerado fonte e causa das riquezas, sendo porissova- lorizado. A valorizacao do trabatho acarreta a valorizagzio dasartes mecanicas. primeira dignidade obtida pelas artes mecdnicas foi sta elevacao 8 condiglo de conhecimento, como as artes liberais. Em ovtras palavras, nelas nao havia apenasa apli-