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PLANTÃO PSICOLÓGICO:

NOVOS HORIZONTES

Miguel Mahfoud (org) Daniel Marinho Drummond Juliana Mendanha Brandão John Keith Wood Raquel Wrona Rosenthal Roberta Oliveira e Silva Vera Engler Cury Walter Cautella Junior

2ª edição revista e ampliada

Roberta Oliveira e Silva Vera Engler Cury Walter Cautella Junior 2ª edição revista e ampliada São

São Paulo

2012

Plantão Psicológico: novos horizontes © 1999 by Miguel Mahfoud

1ª edição: outubro de 1999 2ª edição: setembro de 2012

Revisão

Capa e Diagramação Na capa

Edição do CD-ROM Apoio técnico

Miguel Mahfoud Daniel Marinho Drummond

Juliana de Souza Vaz Silêncio e presença, foto de Miguel Mahfoud, 2012

Daniel Marinho Drummond LAPS – Laboratório de Análise de Processos em Subjetividade/UFMG

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Plantão Psicológico: novos horizontes / Miguel Mahfoud (org.) – 2ª edição, revista e ampliada – São Paulo: Companhia Ilimitada, 2012.

156 p.

ISBN 978-85-88607-22-4

Vários autores.

Inclui CD.

Bibliografia.

1. Aconselhamento. 2. Auto-realização (Psicologia). 3. Consulta psicológica. 4. Psicologia aplicada. 5. Psicologia humanista. 6. Psicólogos - Entrevistas. I. Mahfoud, Miguel.

99-4235

CDD-158.3

ÍndicesÍndicesÍndicesÍndicesÍndices paraparaparaparapara catálogocatálogocatálogocatálogocatálogo sistemático:sistemático:sistemático:sistemático:sistemático:

1. Plantão psicológico : Aconselhamento :

Psicologia aplicada

158.3

Direitos desta edição reservados à

C.C.C.C.C. I.I.I.I.I. EditoraEditoraEditoraEditoraEditora eeeee LivrariaLivrariaLivrariaLivrariaLivraria Ltda.Ltda.Ltda.Ltda.Ltda. Rua Florinéia, 38 - Água Fria 02334-050 São Paulo (SP) Tel. (11) 2950-4683 / (11) 2574-8539 livrariaciailimitada@gmail.com www.companhiailimitada.com.br

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SUMÁRIO

Autores

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Nota à segunda edição

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Prefácio John Keith Wood

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Introdução Frutos Maduros do Plantão Psicológico Miguel Mahfoud

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A vivência de um desafio: Plantão Psicológico Miguel Mahfoud

17

Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae:

uma proposta de atendimento aberto à comunidade Raquel Wrona Rosenthal

31

Plantão Psicológico na escola: uma experiência Miguel Mahfoud

45

Plantão Psicológico: novos horizontes

Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza Miguel Mahfoud, Daniel Marinho Drummond, Juliana Mendanha Brandão, Roberta Oliveira e Silva

65

Pesquisar processos para apreender experiências:

Plantão Psicológico à prova Miguel Mahfoud, Daniel Marinho Drummond, Juliana Mendanha Brandão, Roberta Oliveira e Silva

97

Plantão Psicológico em Hospital Psiquiátrico:

Novas Considerações e desenvolvimento Walter Cautella Junior

113

Plantão Psicológico em Clínica-Escola Vera Engler Cury

131

Psicólogos de plantão Vera Engler Cury

151

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AUTORES

Daniel Marinho Drummond é psicólogo, Mestre em

Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais, Professor Assistente na Universi- dade Estadual do Sudeste da Bahia.

John Keith Wood (1934 – 2004) Ph.D. em Psicologia pelo The Union Institute (E.U.A.), foi professor na California State University em San Diego (E.U.A.) onde também fez plantão psicológico no Hos- pital e no Centro de Aconselhamento, e, no Brasil, foi professor no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Foi amigo íntimo e, por quinze anos, colaborador direto de Carl Rogers. Desenvolveu uma Psicologia de grandes grupos e vários projetos internacionais.

Juliana Mendanha Brandão é psicóloga, Mestre em

Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Plantão Psicológico: novos horizontes

Miguel Mahfoud é psicólogo, Doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo, Professor Associado no Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais.

Raquel Wrona Rosenthal (atualmente Raquel Wrona) é psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com Especialização em Aconse- lhamento Psicológico pela Universidade de São Paulo e Curso de Estudos Avançados da Abor- dagem Centrada na Pessoa (Rosenberg/Wood). Psicoterapeuta e facilitadora de grupos.

Roberta Oliveira e Silva é psicóloga pela Universidade Federal de Minas Gerais, especialista em Saúde Mental, Família e Comunidade pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, especialista em Psicologia Clínica Existencial pela FEAD, professora na Faculdade Pitágoras Campus Vale do Aço e psicoterapeuta.

Vera Engler Cury é psicóloga clínica, Doutora em Saúde Mental pela Universidade Estadual de Campinas, Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Walter Cautella Junior é psicólogo, Doutor em

Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo, Supervisor de prática psicológica e Assistente de Coordenação de Projetos de Pesquisa no Laboratório de Estudos e Práticas em Psicologia Fenomenológica Existencial do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

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NOTA À SEGUNDA EDIÇÃO

Esta segunda edição do livro “Plantão psicológico: novos horizontes” nasce para fazer memória. No melhor sentido do termo: Nasce como ajuda a darmo-nos conta de algo que, iniciado no passado, continua presente. Continuam presentes força e atualidade de seus artigos. Gerados na fonte viva da experiência real, amadurecidos no amor ao desafio, continuam a trazer ao presente sabedoria instigante. Este volume nasce ampliado: a inclusão do texto “A vivência de um desafio: plantão psicológico” ajuda a manter presente entre nós o primeiro artigo a sistematizar a proposta de plantão psicológico. Artigo este que continua a ser citado em diversas publicações e utilizado em diversos cursos de formação universitária, a despeito de seus já muitos anos de presença desafiadora. De fato, neste ano de 2012 fazemos memória viva de 25 anos de publicação daquela proposta original na obra organizada por Rachel Lea Rosenberg .

1 ROSENBERG,

Rachel Lea (Org.).

Aconselhamento

PsicológicoCentrado do Cliente. São Paulo:

1

EPU, 1987.

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Plantão Psicológico: novos horizontes

Ano em que fazemos memória igualmente viva dos também 25 anos de seu falecimento. Ela permanece mestra de todos os que, com plantão psicológico, querem dar uma contribuição à incansável tarefa de construir e reconstruir uma psicologia da pessoa, do sujeito atuante em seu mundo de modo livre, responsável por seu destino. Para todos estes, sem dúvida, Rachel continua a ser presença geradora.

Esta segunda edição nasce, assim, para fazer memória. E a Rachel Lea Rosenberg é dedicada.

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Miguel Mahfoud

PREFÁCIO

John Keith Wood

Este livro traz boas novas.

Primeiramente, apresenta evidências de que o Plantão Psicológico é um serviço viável para atender adolescentes, estudantes universitários e outros membros da comunidade, abastados ou não.

O contato com esse serviço ajuda as pessoas a

lidarem efetivamente com os predicamentos da vida, não os tratando como problemas que requerem tra- tamento psiquiátrico. Por exemplo, uma pessoa em uma

“crise espiritual” não está confrontando um problema. Não está tendo um comportamento normal ou anormal. É um predicamento envolvendo questões filosóficas, buscando significados, identidade.

O psicólogo Prof. Dr. Miguel Mahfoud ilustra

este ponto de vista em um relato sobre experiências em um colégio. Plantão seria “um espaço onde o aluno pudesse buscar ajuda para rever, repensar e refletir suas questões”. Naturalmente, tal atividade não é apenas uma conversa entre amigos. Em situações onde uma forma

Plantão Psicológico: novos horizontes

diferente de psicoterapia é mais apropriada, a pessoa recebe a indicação de um(a) profissional competente. Uma outra boa nova é que plantão psicológico pode promover uma experiência de aprendizagem eficaz para estagiários(as). Confrontando a pessoa inteira no contexto completo da sua existência, o estagiário(a) necessariamente deve ampliar sua visão do papel da psicoterapia. O filósofo e matemático inglês Alfred North Whitehead observou que, “O conhecimento de segunda-mão do mundo instruído é o segredo da sua mediocridade”. O tipo de problemas que as pessoas enfrentam são, em geral, de primeira-mão. A ajuda que necessitam é de ordem prática. Esta forma de aprendi- zagem é prática. Assim, ambos os participantes – o plantonista e o indagador(a) – participam e se beneficiam de uma educação intuitiva cujo objetivo é a auto-realização. Em um encontro de pessoa a pessoa como este, onde se procura dirigir a melhor parte de si mesmo à melhor parte do outro com o propósito de curar a mente, o corpo e a natureza, a essência da psicoterapia está, de fato, sendo redefinida. O mesmo observa Walter Cautella Junior, des- crevendo seu trabalho em um hospital psiquiátrico:

“A experiência do plantão psicológico leva a instituição a reformar sua visão do indivíduo institucionalizado”. Há promessas de mais boas novas. A palavra “plantão” vem do francês planton, quando era aplicado em linguagem militar para designar a pessoa que ocupa uma posição fixa, alerta dia e noite. Seu uso moderno refere-se ao suporte, fora do horário normal, oferecido por médicos em hospitais ou, como aqui, por um psicó- logo. Além disso, sua relevância está no fato de que a origem da palavra planton vem do latin: plantare, plantar. Um significado dessa palavra refere-se a “planta do pé”. Assim, o plantão psicológico pode ser visto co- mo tendo seus pés no chão. Sendo prático. Respondendo

10

Prefácio

às necessidades imediatas dos clientes (que poderão ser

psicológicas ou de qualquer outra ordem).

O segundo sentido de “plantar,” é “meter um

organismo vegetal na terra para enraizar”. Essa é outra característica do Plantão Psicológico descrito neste livro:

estar plantado na cultura brasileira com suas deficiências

e

seus nutrientes. Principalmente, é um organismo vivo

e

crescendo. Assim, como lembram as palavras de

Prof.a. Dr.a Vera E. Cury, “Uma ética das relações in-

terpessoais, sutil mas poderosa, feita de pequenos gestos

e acenos suaves, simples e ainda assim determinada,

parece conduzir os projetos do Plantão Psicológico”.

Se for possível ficar imune e não se deixar res-

tringir por dogmas e modismos filosóficos poderá continuar a se desenvolver efetivamente de acordo com as necessidades da população desse tempo e lugar.

John Keith Wood

Jaguariúna, Agosto 1999

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Plantão Psicológico: novos horizontes

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INTRODUÇÃO

Frutos Maduros do Plantão Psicológico

Miguel Mahfoud

Desde a primeira sistematização – nos idos de 1987 1 – da inicial experiência de Plantão

Psicológico no Brasil, que se apresentava como desafio a ser vivenciado, como semente que muda de cor e se alastra no terreno de sempre com brotos frágeis mas injetando a verde esperança que tudo transforma, desde então a proposta de um Aconse- lhamento Psicológico aberto às mudanças de nosso tempo, de nossa cultura e de nossa realidade social foi brotando e formando raízes. Que solo seria o mais propício ao desenvolvimento de algo que prometia vitalidade senão o nosso próprio, nossa terra, nossos desafios sociais, institucionais? Apren- der da experiência a partir de um empenho com a reali- dade assim como ela é para de dentro transformá-la. Assim, em nosso solo brasileiro a experiência de Plantão Psicológico tomou corpo de maneira original. O presente livro quer comunicar a sistematização de um exercício de aprendizagem a partir da experiência

1 MAHFOUD, Miguel. A vivência de um desafio: plantão psicológico. In: ROSENBERG, Rachel Lea (Org.).

1 MAHFOUD, Miguel. A vivência de um desafio: plantão psicológico. In:

ROSENBERG, Rachel

Lea (Org.). Aconse- lhamentopsicológico

centrado na pessoa. São Paulo: EPU, 1987, p. 75-83. (Série Temas Básicos de Psicologia, Vol. 21). O texto está publi- cado no presente vo- lume. Cf. p. 17-30.

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Plantão Psicológico: novos horizontes

de empenho em diferentes contextos institucionais. Diversas experiências de Plantão Psicológico que dão vida a uma modalidade de Aconselhamento Psicológico que aceitou romper os limites estabelecidos pelo descompromisso teorizado de tantas psicologias, pelo reducionismo sentimental de algumas propostas de

psicologia que se querem humanistas. Veremos aqui os desafios serem enfrentados em novos horizontes. Tantos desafios permanecem os mesmos para a psicologia desde muito: desafios sociais como as dificuldades econômicas e de trabalho, desafios educacionais, desafios de uma psicologia

humanista atuante dentro das instituições

vem da vitalidade da experiência mesma de um atendimento que aceita outros parâmetros para orientar seu desenvolvimento. Os novos horizontes são indi- cados pela própria aprendizagem significativa siste- matizada com rigor para acolher a vitalidade que com surpresa emerge. Queremos que o leitor possa entrar em contato com a vitalidade da experiência, e com a força provo- cadora que algo acontecido de fato pode nos comunicar:

a força do possível. Mais do que modelos, encontramos aqui provocações. Uma das provocações significativas é a integração de trabalhos de base humanista inserido em instituições. Tantas vezes ouvimos o refrão quase automaticamente repetido de que as instituições têm objetivos diversos daqueles que movem a Psicologia Humanista já que esta quer acentuar a centralidade da pessoa e seus pro- cessos autênticos. As experiências aqui comunicadas indicam uma possibilidade de trabalhos claramente de base humanista que aceitam – com nossos próprios sujeitos – o desafio de continuamente buscar, no con- texto assim como se apresenta, a afirmação dos inte- resses propriamente humanos. Se realmente fosse im- possível para nós, de que maneira poderíamos esperar

A novidade

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Introduçâo

que fosse possível para nossos clientes? Se não fosse possível para nós, só nos restaria propor o atendimento

psicológico como espaço alternativo, e por isso inevitavelmente alienante. Encontramos aqui experiências que podem abrir novos horizontes neste sentido. Em se tratando de uma novidade que estava apenas brotando, por muitos anos a comunidade psi acolheu a proposta de Plantão Psicológico como algo “alternativo”. No sentido que seria algo outro em re- lação ao estabelecido como campo seguro e próprio do saber e da técnica psicológica. Desconfianças, dúvi-

cultivadas em compasso de espera,

até que os frutos amadurecessem e se pudesse conhecer

de fato esse Plantão. O próprio Conselho Federal de

das, reticências

Psicologia chegou a se pronunciar em documento ofi- cial, classificando Plantão Psicológico dentre as técnicas alternativas emergentes. Alternativa de maneira distinta daquelas de origem confusa ou esotérica, mas entendida como proposta inovadora, que em certa medida rom- pe parâmetros estabelecidos por técnicas tradicionais

e que ainda estava aguardando uma avaliação mais rigo-

rosa de sua eficácia pelas instituições de ensino superior

e de pesquisa. Pois bem, os frutos amadureceram e são aqui oferecidos. Amadureceram no trabalho sistemático, na observação atenta, na sistematização com rigor

metodológico com base em pesquisas de base feno- menológica. São esses frutos que agora, aqui, são ofe- recidos à comunidade para que possamos promover

a experiência de Plantão Psicológico com uma concep-

ção clara, de maneira tal a possibilitar sua correspon- dente avaliação. Neste sentido este livro dá um passo histórico. Já não podemos falar em Plantão Psicológico como técnica alternativa. O atual e crescente interesse do- cumentado pela presença de mesas redondas e/ou de comunicação de pesquisa sobre Plantão Psicológico

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Plantão Psicológico: novos horizontes

em diversos congressos nacionais e regionais já era um indício dessa mudança. A apresentação dessas experiências sistematizadas e pesquisadas colocam um ponto final. É claro que trata-se de um ponto final só no caráter de alternativo. Sabemos bem que estamos no início. Plantão tem ainda muito em que crescer para exprimir toda sua potencialidade. Os primeiros frutos maduros apresentam o Plantão; e sabemos, agora mais do que nunca, que vale a pena cultivá-lo, que há terreno propício, que há horizonte amplo onde mirar. Bom terreno, boas sementes, bons frutos bom proveito!

:

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A vivência de um desafio:

Plantão Psicológico

Miguel Mahfoud

A expressão “plantão” está associada a certo tipo de serviço, exercido por profissionais que se mantêm à disposição de quaisquer pessoas que deles necessitem, em períodos de tempo previamente determinados e ininterruptos. Do ponto de vista da instituição, o atendimento de plantão pede uma sistematicidade do serviço ofere- cido. Do profissional, esse sistema pede uma dispo- nibilidade para se defrontar com o não-planejado e com a possibilidade (nem um pouco remota) de que o encontro com o cliente seja único. E, ainda, da pers- pectiva do cliente significa um ponto de referência, para algum momento de necessidade. Pelo conjunto destas três características, “plantão psicológico” parece um desafio. E é! Com os poucos recursos de saúde mental atual- mente disponíveis à população brasileira, somados à pouca informação a respeito da especificidade e diver- sidade de cada área profissional envolvida, a tendência tem sido a de que os serviços oferecidos se fixem em algumas prioridades definidas pelos casos mais graves. Uma consequência é a especialização em demandas bastante restritas.

Plantão Psicológico: novos horizontes

Como atender à demanda de Paula, que estando apaixonada por um rapaz é pressionada pelo marido a resolver-se com quem fica, num prazo de

15 dias, sob pena de ser expulsa de casa, e não se sente

em condições de resolver isso? Ou de Sérgio, preo- cupado com sua esposa por ela estar ouvindo vozes e

acordar à noite imaginando que ele tenha morrido,

pede atendimento para ela? Que tipo de atendimento seria adequado a Miriam, que, tornando-se viúva aos

30 anos, defronta-se com fortes mudanças em suas

relações pessoais com seu filho de três anos, com sua

família e a do marido, e com amigos, e pede ajuda no sentido de localizar-se melhor? Ou ainda a Caetano, que quer saber como convencer seu irmão alcoólatra

de que ele e seus filhos precisam de ajuda psicológica?

Se a “resposta-padrão” do psicólogo é psico-

terapia – como tem sido sua especialização no consul- tório e outras instituições de saúde mental – parece

não haver como responder à demanda que lhe é feita

naquele preciso momento e por aquela pessoa específica. Assim, quem vive uma ansiedade ante a alguma dificuldade circunstancial ou ante a necessidade de se localizar quanto às possibilidades de recursos de saúde mental, normalmente permanecem à margem, sem um espaço adequado onde ser acolhido e ajudado a lidar melhor com seus recursos e limites.

O enfoque assumido pelo profissional em

Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa é uma contribuição ao enfrentamento dessa problemá- tica, na medida em que se coloca disponível a acolher a experiência do cliente em determinada situação, ao invés de enfocar o seu problema. Na prática, essa atitude significa disponibilidade para atender uma gama bastante ampla de demandas, já que o foco se define pelo próprio referencial do cliente e não pela especiali- zação do profissional (como seria, por exemplo, para um psiquiatra ou psicanalista ortodoxos, entre outros).

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A vivência de um desafio: Plantão Psicológico

Essa característica de enfocar a experiência do cliente por seu próprio referencial está ligada a uma outra, que se refere à possibilidade de responder à pessoa que coloca sua demanda, já no momento presente, no aqui e agora da situação do encontro. O conjunto destas características possibilita, então, realizar um plantão psicológico, onde o trabalho do conselheiro-psicólogo é no sentido de facilitar ao cliente uma visão mais clara de si mesmo e de sua pers- pectiva ante a problemática que vive e gera um pedido de ajuda. Nisso, a forma de enfrentar a problemática se definirá no próprio processo de plantão e com par- ticipação efetiva de ambos, cliente e conselheiro. Em relação aos exemplos de demandas ante- riormente levantados, o plantão psicológico possibilita atender a Sérgio, ele próprio ali presente e preocupado com sua esposa, além de esclarecer os recursos dispo- níveis para o tratamento dela. O mesmo acontece nos casos de Paula ante seu marido, ou Caetano ante seu irmão alcoólatra e sua família. E possibilita a Miriam se localizar ante sua problemática de viúva, clareando ainda mais seu pedido de aconselhamento psicológico ou terapia, tornando aquele encontro muito mais signi- ficativo do que uma inscrição como coleta de dados sobre a cliente ou sobre sua problemática (como é a forma clássica de triagem ou inscrição para atendimento psicoterápico). Trata-se, então, de enfrentar a problemática que é apresentada, via a própria pessoa que está presente. Tomemos aqueles exemplos um a um:

1) Paula procura o plantão psicológico bastante tensa, preocupada, cabeça baixa. Diz que é a primeira vez que procura ajuda psicológica e que nunca con- versou com ninguém sobre seu problema atual. Conta que se sente encurralada: estando casada há dois anos, apaixonou-se por outro rapaz com quem trabalha, e

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Plantão Psicológico: novos horizontes

depois de declarar-se a ele, e confirmar que seus sen- timentos eram correspondidos, contou ao marido o que estava acontecendo. Este lhe deu um prazo de 15 dias para que se decidisse, sob pena de ser expulsa de casa e perder o filho de um ano. Paula não se sentia em condições de resolver nada, mas a situação era

limite (via a possibilidade de ocorrer agressão física).

O conselheiro procura ouvir com atenção, estar

junto a ela naquele momento marcado por emoções

ante sentimentos de fra-

casso e abandono e ante interesses incertos. Isso facilita

a Paula expor-se, ouvir-se, sentir-se. Sintonizadas, as

perguntas do conselheiro ajudam-na a olhar a situação

e a si mesma.

Durante a sessão dá-se conta da raiva que tem do marido (inicialmente falava de indiferença) e do quanto tem sentido falta de sua atenção.

A sessão dura uma hora e marca-se um retorno

ao plantão para três dias depois.

No retorno conta que naqueles dias pôde explicitar sua raiva pelo marido de forma direta: houve discussões difíceis e mesmo nesse clima ela pôde perceber que ele gostava muito dela e não queria que ela se afastasse. Isso mudou a percepção que vinha tendo do marido e possibilitou que conversassem de forma mais clara, como nunca antes, dizendo um ao outro o que estavam sentindo, o que esperavam um

do outro, o que fazia falta

Diz que combinaram uma

forma diferente de organizar o tempo para que cui- dassem mais do espaço deles como casal, ao intuírem

fortes (amor, medo, raiva

)

a possibilidade de um relacionamento mais vivo. Na sessão considera o relacionamento com o marido mais globalmente, desde o tempo de namoro,

e examina sua própria história constituída também por

esse relacionamento. Relativiza seus sentimentos pelo

“outro”, dá-se conta da idealização que tem feito da pessoa do outro, de quem na verdade é distante.

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A vivência de um desafio: Plantão Psicológico

Enfim, vê a possibilidade de verificar no próprio

relacionamento com o marido a viabilidade de continuarem juntos ou de ligar-se a outra pessoa. Agradece o atendimento e despede-se.

O desfecho do problema talvez nunca che-

guemos a conhecer. Estivemos com Paula, que agora

caminha.

2) Sérgio procura o Serviço de Aconselhamento Psicológico buscando atendimento para sua esposa. Conta com detalhes os comportamentos dela que o preocupam, como, por exemplo: não dar mais conta de atividades rotineiras como cozinhar, estar comple- tamente desatenta às necessidades dos filhos, dormir

muito, ouvir vozes e acordar assustada durante a noite imaginando que ele esteja morto.

O conselheiro, atento também à ansiedade de

Sérgio, comenta que percebe estar sendo difícil para ele ficar nessa situação, assumindo tarefas que seriam dela, preocupando-se com os filhos que passam o dia com ela e assustando-se ao ser apalpado no meio da noite quando ela quer verificar se está vivo ou morto. Sérgio passa a falar mais de si mesmo, na sua situação com a esposa, e a comentar suas dificuldades no traba- lho onde se sente “abusado”, ampliando a percepção de seu momento atual. No final o conselheiro lhe oferece a possibili- dade de encontros regulares como aquele, caso esti- vesse interessado em um processo de aconselhamento para si mesmo que está vivendo um período difícil. “Eu não, moço! Quem precisa de tratamento é minha mulher!” – responde prontamente. Ele pôde aproveitar aquele momento de plantão também para si mesmo, ocupando um espaço que lhe foi possibilitado durante a sessão. Agora ele não vê a necessidade de um espaço mais sistemático neste senti- do. Sabe, porém, que há essa possibilidade.

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Plantão Psicológico: novos horizontes

O conselheiro lhe ofereceu indicações de ser-

viços psiquiátricos em que sua esposa poderia ser atendida, e Sérgio disse que voltaria a procurar o plantão caso houvesse problemas para o encaminhamento de sua esposa. Aquele momento não se desenrolou alheio à pessoa dele. E o conselheiro esteve com Sérgio, no horizonte dele, independentemente de continuidade que pudesse haver.

3) Caetano vai ao Serviço de Aconselhamento pedindo ajuda para convencer seu irmão alcoólatra de que ele precisa de tratamento psicológico. Já aposentado por motivos de saúde, não tem se cuidado, está sempre muito deprimido, e seus filhos de cinco e sete anos vêm apresentando comportamentos agressi- vos e destrutivos. Comenta que fica muito preocupado com a situação, que se agrava cada vez mais, e ao mesmo

tempo não pode fazer nada. Conta que já falou com a esposa de seu irmão, mas ela não o ouve. Sugere, então, que o conselheiro, como especialista nesses assuntos, escreva uma carta dizendo que realmente eles precisam de tratamento psicológico.

O conselheiro aponta os sentimentos de frus-

tação e impotência ante a situação e ante o seu desejo de intervir. Caetano, então, fala de como seria impor- tante fazer alguma coisa, pois não confia na educação que sua cunhada dá aos filhos porque ela trabalha em um bar. Perguntado como é o relacionamento entre ele e sua cunhada, fala de desconfiança da integridade moral e chega a concluir que tem se relacionado com ela em tom de acusação, e isso mantém um distan- ciamento e a não-aceitação de suas opiniões. Assim, Caetano reconhece seus próprios limites em poder aju- dar, já que ele próprio não acredita muito nas

22

A vivência de um desafio: Plantão Psicológico

condições pessoais de sua cunhada para que ela pudesse dar conta do recado. Comenta nunca ter pensado nisto.

O conselheiro explica que embora não possa

lhe fornecer a carta sugerida, compreende que essa

ideia tenha surgido como possibilidade de intervenção ante o distanciamento e as dificuldades de confiança e comunicação entre eles. Um tanto surpreso, Caetano diz que talvez procure conversar com sua cunhada, mas já não sente

a mesma urgência e o mesmo ímpeto que o levou a

procurar o plantão. Pergunta sobre os recursos de saúde mental aos quais poderia recorrer. O conselheiro lhe dá as infor-

mações e Caetano indaga se poderia voltar para con-

versar, caso sinta a necessidade. A resposta é afirmativa,

e ele segue sua história.

4) Miriam procura o Serviço de Aconselha- mento pedindo atendimento psicológico porque tem estado intranquila e confusa desde que seu marido faleceu, há seis meses, em acidente automobilístico. Diz-se muito só e abandona, e que suas relações de amizade e parentesco têm se deteriorado. Comenta

que todos a veem de modo diferente agora – viúva jovem (30 anos) –, tendo surgido preocupações e inte- resses novos em relação a ela.

O conselheiro percebe que Miriam está falando

de uma experiência muito forte para ela; pode ter algu-

ma noção do que ela está sentindo, e para compreendê-la melhor faz perguntas sobre alguns aspectos aos quais

havia se referido vagamente. Miriam então fala mais sobre sua solidão, sobre

o

sentimento de abandono e apesar de saber racio-

nalmente que seu marido não a abandonou, esse senti- mento a confunde. Comenta em seguida que o con- vívio com a família (a dela e a do marido) não tem sido algo que a ajude porque ambas têm a preocupação

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Plantão Psicológico: novos horizontes

de que ela “imponha respeito”, tome cuidado com as amizades, não se aproxime de outros homens para respeitar a memória de seu marido, o que a faz sentir- se envolvida por uma atmosfera de controle. Por outro lado, vê-se como jovem, não quer fechar novas possibilidades para si e para seu filho de três anos, na vida que têm pela frente. Por outro lado, tem sido cortejada por homens que há pouco eram apenas seus amigos e vive essa mudança repentina com dificuldades. Não estando mais segura dessas amizades, nem pode avaliar com clareza as intenções das pessoas que se oferecem para apoiá-la. Comenta que o resultado tem sido o recuo, e percebe claramente que isso só tem agravado ainda mais seu mal-estar. Fica um pouco em silêncio, chora discreta- Em seguida fala que é bom poder falar com liberdade sobre tudo isso. O conselheiro comenta que pôde perceber que está sendo importante para ela fazer tais comentários, e que procurar atendimento estava sendo a tentativa de abrir uma nova porta, alternativa à postura de recuo que vem tomando. Pela própria relação que se estabeleceu ali, na- quele momento, e pela forma como ela olha a si e a sua situação, o conselheiro pôde avaliar que os senti- mentos de abandono, deterioração e a percepção de ser o centro dos interesses não estão ligados a um comprometimento psicopatológico a nível psiquiátrico; ela está atenta a sentimentos e movimentos distintos dentro de si mesma. Assim, diz a Miriam da possibi- lidade de ser atendida em processo de aconselhamento psicológico no próprio Serviço de Aconselhamento. Ela demonstra interesse, e o conselheiro explica-lhe as condições de atendimento naquela instituição; então preenchem uma ficha com os dados da cliente (nome, endereço, telefone, horário disponível para ser atendida etc.), efetivando assim a inscrição.

mente

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A vivência de um desafio: Plantão Psicológico

Sendo que há uma fila de espera e tendo-se esti- mado o início do atendimento para pouco mais de um mês, o conselheiro informa que durante o período de espera ela poderá procurar o plantão caso sinta uma necessidade mais premente de conversar. O anún- cio da possibilidade é recebido com alívio por Miriam. Despedem-se, ficando a instituição responsável por chamá-la quando o atendimento puder se iniciar.

Enfrentar a problemática apresentada a partir da experiência da pessoa ali presente permite acolher a demanda já naquele momento, no momento de sua expressão: e isso é apenas uma primeira característica importante de um atendimento em sistema de plantão psicológico. A consequência é que além de se poder estar disponível a uma gama muito grande de deman- das, as formas de continuidade são também muito diversificadas. Assim, nos exemplos dados, o conselhei- ro pôde atender ao pedido de informação e à ansie- dade de Sérgio ante sua esposa psicótica; ao pedido de Caetano que se propunha a ajudar seu irmão alcóo- latra; pôde atender ao pedido de clarificação de Paula que se sentia encurralada nas dificuldades com o ma- rido; e ao pedido de aconselhamento psicológico de Miriam que se viu numa nova condição social a partir da viuvez. E ao acolher a demanda já no momento presente, o referencial do próprio cliente conduz o processo de atendimento para uma direção ou para outra: Sérgio mantém o foco da problemática sobre sua esposa, mesmo clarificando sua própria experiência na situação-problema; Caetano voltou o foco mais para si mesmo, para suas possibilidades e limites de intervenção; Paula, voltando o foco para si e seus sentimentos, pôde se colocar de forma mais clara com

o marido e não viu mais a necessidade do acompanha-

mento; Miriam, ao examinar sua experiência, confirma

o desejo de um processo de atendimento psicológico.

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Plantão Psicológico: novos horizontes

Que seja o referencial do próprio cliente a definir

a direção do processo não significa ausência ou passi-

vidade do conselheiro, ao contrário, é a sua presença clara e atenta que permite ao cliente uma clarificação maior de seu referencial. Ao mesmo tempo que o con- selheiro sabe que está facilitando um processo infi-

nitamente mais amplo do que lhe é possível apreender só naquele momento, sabe estar facilitando também o processo de crescimento da pessoa, do qual aquele breve encontro participa (de forma significativa, espera-se!) – assim como aquele encontro permitiu a Paula desenrolar um novo processo com seu marido, que segue em frente independentemente do acompanhamento do conselheiro. Uma outra contribuição que cabe ao psicólogo- conselheiro no momento do plantão é estar atento à forma de relação que se estabelece e à forma como o cliente percebe sua problemática, para bem ajudá-lo também nas diversas possibilidades de continuidade e/ou encaminhamento. Por exemplo, se Miriam colo- casse como globalidade a sua percepção de deterio- ração das relações e de sua identidade, ou com rigidez

a sua percepção de que todos passaram a controlá-la

ou seduzi-la, a proposta de atendimento em Acon- selhamento Psicológico poderia ser acompanhada de um encaminhamento para um exame e/ou um acom- panhamento psiquiátrico. O sistema de plantão psi- cológico contém um caráter de triagem não-clássica, sendo que esta não é o centro do encontro, não o delimita nem o conduz, mas nem por isso está ausente para o conselheiro quando avalia as possibilidades de continuidade dentro da perspectiva do cliente. A flexibilidade do conselheiro quanto à direção da continuidade do processo é também o que lhe permite continuar disponível à pessoa que lhe pro- curou, mantendo o plantão como referência, como mais um dentre os recursos de saúde mental possíveis

26

A vivência de um desafio: Plantão Psicológico

de serem utilizados. Dessa forma, Sérgio pode procurar novamente o plantão para novas informações ou para um atendimento pessoal, e Caetano pode pedir um atendimento no prosseguimento de seu processo. Esta disponibilidade do conselheiro pode se manter mesmo que já se tenha definido a forma de encaminhamento, como no caso de Miriam, que seguirá um processo de Aconselhamento Psicológico. A experiência de plantão como momento significativo da pessoa ante

sua problemática tende a se tornar referência-existencial:

portas abertas que podem significar facilitação para um novo pedido de ajuda ou facilitação para suportar

a espera do início de um outro processo. Para que possa se tornar referência estável é

importante que a instituição assegure a presença de conselheiros disponíveis em certos horários em lugares fixos, além de manter informações e contatos com outros recursos de saúde e educação. É claro que os exemplos de demandas até aqui apresentados foram escolhidos em função de explicitar

o potencial, a amplitude e a viabilidade do sistema de plantão psicológico com a contribuição da Abordagem Centrada na Pessoa. Demandas muito mais simples são também comuns, e mesmo nestes casos o plantão pode ser de grande contribuição. Por exemplo:

Lúcia é estudante de arquitetura, trabalha já na sua área, gosta do que faz, mora com a família. Procura

o Serviço de Aconselhamento Psicológico e pede aten-

dimento dizendo que não ocorreu nada de anormal nos últimos tempos, mas está querendo se conhecer melhor, e quer ter um tempo e um espaço específicos para se dedicar a isso. O conselheiro se interessa por saber o que tem feito, como tem se sentido em sua vida quotidiana, e Lúcia fala de algumas dificuldades de relacionamento com os pais por alguns choques de valores, de como gostaria de ser mais independente

27

Plantão Psicológico: novos horizontes

desses atritos, mais firme, e de como seu namorado tem sido importante para ela neste sentido. Assim, fica melhor delimitado, para a própria Lúcia também, o seu campo de interesse para iniciar um processo de atendimento psicológico. Preenchem a ficha de inscri- ção e o conselheiro lhe explica as condições de atendi- mento naquela instituição. A sessão durou meia hora.

O plantão permite um sistema de inscrição, por

si, terapêutico – já no momento de pedido de atendi- mento. Isto porque propicia ao cliente configurar com

mais clareza seu pedido de ajuda – ainda que isso não mude sua perspectiva. Trata-se de facilitação à clarifi- cação de sua demanda; o que equivale a dizer, clari- ficação de seu eu que está em um certo movimento de busca. Essa forma de inscrição de um Serviço de Aconselhamento Psicológico não dispensa uma certa organização burocrática, mas não se pauta por ela.

Se tal sistema de plantão psicológico descortina

um horizonte amplo para atendimentos psicológicos, não se pode dizer, porém, que suas possibilidades sejam

ilimitadas. Sua viabilidade se insere nos próprios limites da relação de ajuda. Por isso uma pessoa que vai buscar

o “conselho” para a resolução de seu problema – sem

disponibilidade interna de um contato maior consigo

mesma – pode ficar decepcionada e o conselheiro, por sua vez, pode ficar sem poder contribuir, mesmo que queira. Ou uma pessoa que em surto psicótico é levada por amigos, mas não consegue manter contato

a ponto de se efetivar um encontro com o conselheiro,

pode sair como entrou. Também uma relação de ajuda permanece circunscrita a limites institucionais e pessoais do conselheiro e do próprio cliente. Aceitar manter-se no momento presente, cen- trado na vivência da problemática que emerge com sua ansiedade e força particulares no próprio momento de pedido de ajuda, acompanhando a variação da

28

A vivência de um desafio: Plantão Psicológico

percepção de si e das circunstâncias pela direção que a clarificação a levar – eis a disponibilidade do psi- cólogo-conselheiro, que possibilita o atendimento em plantão psicológico. Assim, num horizonte novo, reto- mo as palavras do início deste capítulo: “Pelo conjunto destas características, plantão psicológico parece um desafio. E é!”.

29

O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae: uma proposta de atendimento aberto à comunidade

Raquel Wrona Rosenthal

No final da década de 70, parte do grupo de profissionais que antes se reunia como “Grupo de Psicologia Humanista”, decide constituir no Instituto Sedes Sapientiae, o Centro de Desenvolvimento da Pessoa, CDP. Estimulado pelo entusiasmo de Rachel Lea Rosenberg, o CDP desenvolvia programas de estudos teóricos, grupos de supervisão e reflexão sobre a prática clínica, promovia workshops abertos ao público, ciclos de encontros de profissionais paulistas e também encontros nacionais, constituindo-se em importante referência para os interessados em discutir e aprofundar o conhecimento da ACP, Abordagem Centrada na Pessoa. Sempre atenta ao potencial transformador da ACP, considerando tanto a dimensão individual quanto a social / comunitária, Dra. Rosenberg propõe a criação de um serviço de Plantão de Psicólogos, inspirado nas experiências das walk-in clinics, surgidas nos Estados

Plantão Psicológico: novos horizontes

Unidos para prestar atendimento imediato à comunidade. Até então o Serviço de Aconselhamento Psicológico, no Instituto de Psicologia da USP, sob sua coordenação, já vinha oferecendo o que chamava “plantão”, e que consistia, naquele caso, em uma

disponibilidade mais atenciosa de recepção aos clientes que procuravam inscrição para atendimento regular em aconselhamento psicológico. Daí surgiram as primeiras reflexões sobre as potencialidades de um serviço de “Plantão Psicológico”: o poder transfor- mador da escuta atenciosa, não diretiva, centrada no cliente, confiante na tendência ao desenvolvimento das potencialidades inerentes à pessoa (tendência atualizante), e na possibilidade dessa tendência ser estimulada, mesmo através de um único encontro com o profissional, desde que este último possa oferecer sua presença inteira, através de sua própria congruência, capacidade de empatia e aceitação incondicional do outro, atitudes pilares da ACP.

É de Carl Rogers, o criador da Abordagem Centrada na Pessoa, a ponderação:

1 ROGERS, Carl

Ramson. As condi- ções necessárias e

suficientes para a mudança terapêu- tica da personali-

dade. In: WOOD, John Keith et alii (Org.s). Abordagem centrada na pessoa, Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida / Universi- dade Federal do Espírito Santo, 1995, p. 157-179.

1

“Se atendermos à complexidade da vida humana com olhar justo, temos que reconhecer que é altamente improvável que possamos reorganizar a estrutura da

vida de um indivíduo. Se pudermos reconhecer este limite e nos abstivermos de desempenhar o papel de Deus, poderemos oferecer um tipo muito precioso de ajuda, de esclarecimento, mesmo num curto espaço de tempo. Podemos permitir ao cliente que exprima seus problemas e sentimentos de forma livre, e deixá-lo com o reconhecimento das questões que enfrenta.” 2

2 ROGERS, Carl

Ramson. Psicotera- pia e consulta psico-

lógica. 1ª ed. São Paulo: Martins Fon- tes, 1987 (Coleção Psicologia e Peda- gogia), p. 207-208.

tes, 1987 (Coleção Psicologia e Peda- gogia), p. 207-208. Muitas pessoas, em determinada circunstância de suas

Muitas pessoas, em determinada circunstância de suas vidas, poderiam se beneficiar ao encontrar essa interlocução diferenciada, que lhes propiciasse uma oportunidade também de escutar a si mesmos,

32

O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae

identificando e reconhecendo seus próprios sentimentos e possibilidades de auto direção, no momento em que enfrentam a dificuldade, sem que necessariamente tenham que se submeter a atendimento sistemático, prolongado, como tradicionalmente oferecem as psicoterapias.

Coube a mim a coordenação e supervisão do Plantão de Psicólogos do CDP, oferecido pela primeira vez em agosto de 1980, como um dos chamados “cursos de expansão”do Instituto Sedes Sapientiae. O curso tinha duração semestral, e prestava, através de seus alunos, atendimento psicológico aberto à população. O Instituto Sedes Sapientiae ou Sedes, como hoje o chamamos, fundado em São Paulo em 1975, é um importante centro de prestação de serviços, ensino e pesquisa ligados às áreas da Psicologia e da Educação, tendo como compromisso

“assumir sua parcela de responsabilidade na transformação qualitativa da realidade social, estimulando todos os valores que acelerem o processo histórico no sentido de justiça social, democracia, respeito aos direitos da pessoa humana”. 3

3

INSTITUTO SEDES SAPIENTIAE::::: Carta de Princípios, s/d (mineo.).

Feliz associação de ideais, nosso Plantão tinha lugar certo para acontecer!

As atividades iniciaram-se pela seleção dos plantonistas. Os critérios adotados pediam que fossem psicólogos, que conhecessem os fundamentos da ACP, que tivessem experiência mínima de um ano em atendimento clínico e estivessem especialmente sensibilizados pela natureza do serviço proposto. Contávamos com um grupo de doze planto- nistas e uma supervisora e estabelecemos o horário das 20 às 22 horas, às segundas e quintas-feiras

33

Plantão Psicológico: novos horizontes

para os atendimentos e nossas reuniões. Dedicamos aproximadamente um mês e meio ao planejamento e à divulgação do novo serviço, período em que pudemos compartilhar nossas expectativas e fantasias, aplacando nossa ansiedade, acentuada pela ausência de bibliografia específica sobre plantão psicológico. Não havia qualquer menção, nas diversas bibliotecas especializadas que consultamos, às walk-in clinics das quais Rachel Rosenberg nos falara.

Sabíamos que a possibilidade de psicoterapias de curta duração vinha sendo considerada por autores que adotavam diferentes abordagens, como por

de orientação

psicanalítica. As Psicoterapias Breves vinham tendo, desde a década de 70, grande implemento e pesquisa, mas nada de sistemático havia sobre outras experiências de curta duração ou mesmo de sessões únicas de atendimento. Dra. Rosenberg, ao refletir sobre variações no tempo de atendimento, apontava o caráter preventivo de uma intervenção no momento oportuno:

exemplo, os trabalhos de Bellak e Small,

4

4 BELLAK, Leopold & SMALL, Leonard. Psicoterapia de Emergência e Psico- terapia Breve . Porto

4 BELLAK, Leopold & SMALL, Leonard.

Psicoterapia de Emergência e Psico-

terapia Breve. Porto Alegre: Artes Médi- cas, 1980.

34

“A duração prevista para um atendimento possivelmente eficaz em terapia tem sofrido modi- ficações de várias espécies. Comprovações empíricas de resultados satisfatórios justificam o uso de aten- dimentos com um número pré-determinado ou má- ximo de horas. Cria-se uma metodologia específica para este tipo de atendimento em linhas teóricas

o atendimento de curta duração se insere

variadas [

como aplicação natural, bem sucedida e cada vez mais utilizada. Mesmo no caso de problemas graves ou difi- culdades antigas, conclui-se que o princípio de tudo- ou-nada – ou seja, terapia profunda e prolongada ou nenhuma assistência psicoterápica – não tem real validade. Especialmente em pontos críticos do

],

O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae

desenvolvimento ou da vivência, uma intervenção adequada tem, além de efeitos terapêuticos, caráter preventivo de conflitos maiores posteriores”.

5

caráter preventivo de conflitos maiores posteriores”. 5 5 ROSENBERG, Rachel Lea. Terapia para Agora. In: ROGERS,

5 ROSENBERG, Rachel Lea. Terapia para Agora. In:

ROGERS, Carl Ramson & ROSENBERG, Rachel Lea. A Pessoa como Centro. São Paulo:

E.P.U., 1977, p. 52.

Alguns alunos supunham que, devido ao caráter imediato do atendimento, certamente receberíamos muitos clientes em crise emocional aguda e insistiam na necessidade de contarmos com um psiquiatra plantonista. Precisamos esclarecer que nossa proposta não era criar um serviço para emergências psiquiátricas e sim oferecer escuta imediata, recebendo a pessoa no momento da dificuldade, sem que necessariamente a intensidade dessa dificuldade tivesse atingido um ponto crítico que representasse ameaça iminente à sua integridade ou à de outros; não era destinado ao suicida em potencial, como sugeria a divulgação recente do CVV, Centro de Valorização da Vida, cuja equipe de plantonistas era constituída por leigos em psicologia e prestava atendimento inicial por telefone. Por precau- ção, tratamos de pesquisar e organizar uma relação de instituições e serviços particulares de psiquiatria, caso viéssemos a necessitar. A preocupação de Madre Cristina 6 era de que

o novo serviço não viesse aumentar as já enormes filas de espera para psicoterapia naquela clínica, tão solicitada devido à tradicional qualidade dos serviços prestados. Insistíamos em esclarecer que a intenção não era fazer triagem, embora pudéssemos, eventualmente, realizar encaminhamentos. O Plantão Psicológico não foi concebido como uma alternativa “tampão” para acabar com filas de espera em serviços de assistência psicoterapêutica, já que não pretende substituir a psico- terapia. Não acreditamos que uma única sessão seja capaz de resolver sérios problemas emocionais ou pro- mover resultados reconstrutivos da personalidade. So- mente mais tarde é que viemos a descobrir as possi- bilidades terapêuticas do plantão.

a descobrir as possi- bilidades terapêuticas do plantão. 6 Madre Cristina, nascida Célia Sodré Dória, cônega

6 Madre Cristina, nascida Célia Sodré Dória, cônega de Santo Agostinho, educadora, psicó- loga e fundadora do Instituto Sedes Sapientiae, persona- lidade inesquecível para a Psicologia e para a História bra- sileiras.

35

Plantão Psicológico: novos horizontes

Fizemos várias reuniões em torno de aspectos éticos das formas de divulgação: tratava-se de uma nova proposta e aberta à comunidade em geral. Como divulgá-la, transmitindo sua originalidade e acessibilidade, sem banalizá-la? Optamos pela impressão de cartazes 7 , que foram afixados em diversas

escolas, igrejas, hospitais, bibliotecas públicas e faculdades com o destaque: “Psicólogos de Plantão” e o texto:

com o destaque: “Psicólogos de Plantão” e o texto: 7 um destes cartazes encontra-se digita- lizado

7 um destes cartazes encontra-se digita- lizado no CD-ROM anexo ao livro.

“Somos um grupo de psicólogos prontos para ouvir, trocar idéias, esclarecer dúvidas. Enfim, estar com você no momento em que sentir que um psicólogo pode ajudar.”

Seguia-se o nome da psicóloga responsável e seu número de inscrição no CRP, o endereço e horários do atendimento.

Os plantonistas visitaram as salas de aula do Sedes onde se desenvolviam outros cursos, para anunciar o atendimento e esclarecer dúvidas a respeito. Os primeiros a nos procurar foram justamente alguns alunos desses cursos, uns motivados por questões pessoais, outros, pelo interesse profissional em conhecer melhor o Plantão. Houve uma divulgação num programa da TV Cultura, uma reportagem extensa que entrevistou plantonistas e supervisora, e que, infelizmente, só foi ao ar às vésperas da interrupção do serviço devido às férias. Este fator diminuiu o impacto de sua reper- cussão, pois os clientes que nos procuraram em segui- da à edição do programa da TV não puderam ser atendidos. O jornal Folha de São Paulo publicou reportagem do jornalista Paulo Sérgio Scarpa sobre o Plantão Psicológico, destacando sua utilidade pública. Inte- ressante assinalar que a seção onde se inseriu a matéria

36

O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae

intitulava-se “A Folha e as respostas da sociedade à crise”(07/11/81). Outras menções ao serviço já ha- viam sido feitas por esse mesmo jornal, em edição de 16/01/81 e em seu caderno “Folhetim”, cuja edição, em 20/09/81, era dedicada ao tema “Desemprego e Insegurança” 8 . Hoje, passados 19 anos, podemos

reconhecer, com tristeza, a atualidade desses temas.

O primeiro grupo de doze plantonistas traba-

lhou de agosto a dezembro de 1980, dividido em sub-grupos de seis que se alternavam entre atendimento

e supervisão: enquanto metade prestava plantão às

segundas-feiras, a outra parte reunia-se para supervisão;

às quintas-feiras, invertiam-se as funções. A supervisão

também era acessível ao plantonista durante o trans- correr de um atendimento, caso precisasse dela. A du- ração de uma sessão de atendimento poderia variar de uma a duas horas, dependendo de haver ou não outros clientes à espera. Dispúnhamos de sete salas, sendo seis destinadas ao atendimento e uma para as reuniões de supervisão.

8 Estas matérias se encontram digita- lizadas no CD-ROM anexo ao livro.

Madre Cristina, confiante na importância da iniciativa, ofereceu-se para recepcionar os clientes. Assim, quem procurava o Plantão Psicológico, mesmo nas noites mais frias do inverno, encontrava-a logo à entrada do Sedes, sentada atrás de uma pequena mesa, apoiada num travesseiro para respaldar suas costas, que tão vigorosamente suportaram, com coragem e dignidade, as pressões da luta por justiça social em nosso país. Cabia a ela indicar ao cliente o andar e a sala de atendimento, o que fazia com calor e firmeza, já despertando nele uma disposição receptiva ao encontro com o profissional. No primeiro semestre de 1981 foi feita nova seleção de plantonistas e alguns dos ex-alunos, entu- siasmados que estavam, se re-inscreveram.

37

Plantão Psicológico: novos horizontes

Novamente, para o terceiro curso, no segundo semestre de 1981, tivemos re-inscrições. Em 1982 não foi renovada a proposta. A su- pervisora, preparando-se para sua terceira gravidez, embevecida que estava pelo novo, decidiu-se pela dedicação mais intensa às suas filhas, enquanto se afas- tava do Sedes, levando muito para refletir a respeito de seus plantões e suas “plantinhas”. Mais tarde, é convidada a oferecer Plantão Psicológico aos fun- cionários do mesmo instituto, atividade que desen- volveu até dezembro de 97. Esse convite atesta o reconhecimento da importância da proposta e a re- percussão que o Plantão Psicológico alcançou dentro daquela instituição. Trataremos aqui de apresentar como foi desenvolvido o Plantão Psicológico aberto à co- munidade.

OS CLIENTES

Nos três semestres do Plantão de Psicólogos, realizamos 145 atendimentos, sendo 28 retornos.

Tínhamos estabelecido três retornos como possibilidade máxima para cada cliente no mesmo semestre. Enten- díamos que, cas o nos procurasse com maior freqüência, isto indicaria a conveniência de encaminhá-lo à psicoterapia. Tínhamos uma relação de instituições que prestavam atendimento gratuito, como era nosso caso,

e também uma relação de psicoterapeutas dispostos a

trabalhar por honorários simbólicos. Das 117 pessoas que nos procuraram, 52% eram mulheres e 48% homens. Predominaram os solteiros;

o nível de escolaridade dos clientes variou de semi-

alfabetizados a curso superior completo; 17% eram profissionais liberais (advogado, economista, psicólogo, fisioterapeuta), e o restante composto por outras

ocupações (escriturário, comerciário, comerciante, motorista, vendedor, feirante, office-boy, técnicos em

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O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae

serviços diversos). Procurou-nos também uma pessoa que declarou como ocupação, ser “pedinte”. Meses depois, a plantonista que o atendeu o encontraria num dos ônibus urbanos, recolhendo esmolas entre os passageiros.

Após cada atendimento, era solicitado ao cliente que depositasse numa urna um comentário escrito, sem necessidade de se identificar. Dos 68 depoimentos recolhidos, destacamos alguns, para ilustrar a reper- cussão imediata ao encontro:

“Eu nunca havia participado de uma entrevista com psicólogos. Fiquei até com receio pois não sabia como iria iniciar a conversa. Entretanto, foi mais fácil do que imaginava. O ‘à vontade’ com que a psicóloga conduziu o bate-papo propiciou-me externar praticamente tudo o que vinha me inquietando, chegando mesmo a tirar conclusões ou elucidar dúvidas com o simples desabafo de minhas preocupações. Senti-me pois tão satisfeita como se tivesse recebido um presente de Natal ”.

“Não acho que o atendimento recebido tenha resolvido o meu problema, mas tenho plena convicção de que abriu- me algumas portas, deu-me algumas luzes e fez-me refletir. Creio que agora estou mais apto a resolvê-lo e muito otimista por saber que posso”.

“Acho que existem muitas pessoas que deveriam fazer esta ‘pré-análise’ antes de se definir pelo terapeuta”.

“Não fez minha cabeça”.

“Como é bom ter e sentir que podemos sentar e conversar com uma pessoa. Falar de nossos problemas sem pensar que vamos ser censurados”.

39

Plantão Psicológico: novos horizontes

“Achei ótima a idéia desse Plantão. Psicólogos ouvindo pessoas em casos de emergência ‘emocional’. Deve continuar e se expandir em vários locais e ser divulgado e ‘ensinado’, dado como curso nas escolas de Psicologia”.

“Acho essa iniciativa muito válida e isso, acredito eu, vem a ressaltar ainda mais o papel, ainda que às vezes reprimido do psicólogo na sociedade. Acredito que mesmo sendo um só encontro, estes 50 ou 60 minutos que sejam, nossas 23 horas restantes e dias posteriores serão melhores”.

De maneira geral, os comentários aludiam à importância de ser ouvido, faziam referências ao alívio pelo desabafo, sugeriam que o atendimento deveria ser pago, apontavam a necessidade de maior divul- gação do serviço e a ampliação dos horários de aten- dimento e alguns revelaram frustração da expectativa de que pudessem receber atendimento prolongado.

OS PLANTONISTAS

Os plantonistas se referiam com freqüência à sua experiência como estagiários durante o tempo da faculdade, declarando o quanto “sofreram” ao se des- ligar do cliente por ocasião da conclusão do curso de graduação. Agora, a questão do vínculo, a separação do cliente, a ansiedade em função desse único encontro, a imprevisibilidade quanto a outra oportunidade (sessão seguinte) para eventual “reparação” de sua atuação, tudo era discutido sistematicamente nas supervisões. Suponho que uma das conseqüências dessas dificuldades dos alunos foi o número de enca- minhamentos realizados e a quantidade de interven- ções de natureza diretiva, com tendência a oferecer respostas e sugestões. Outra questão diz respeito à superação do estereótipo de que uma relação de ajuda psicológica

40

O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae

deva se estender no tempo, de que profundidade e intensidade sejam diretamente proporcionais à duração do atendimento. A possibilidade de que uma inter- venção de natureza breve pudesse ser suficiente para o cliente não era claramente percebida pelos alunos, limitação que podemos atribuir à formação que re- ceberam nos cursos de Psicologia, onde a habilitação do psicólogo estava mais voltada para a atividade clí- nica da psicoterapia ou do psicodiagnóstico através de testes. Também em relação às intervenções diretivas observamos, muitas vezes, que o sentimento de impo- tência do plantonista diante de clientes de menor poder aquisitivo, levou-os a adotar atitudes paternalistas e, de certa forma, desvalorizantes para o cliente; houve casos em que o aluno procurava encontrar soluções imediatas, dar conselhos e sugestões ou mesmo insistir em encaminhamentos muitas vezes não percebidos como necessários pelo próprio cliente. Liesel Lioret, psicóloga que pouco tempo de- pois iniciaria também como supervisora o atendimento psicológico do tipo plantão em postos de saúde através da Clínica das Faculdades São Marcos, fez a seguinte reflexão sobre sua experiência:

“A questão dos valores do psicólogo é importante em qualquer processo psicoterapêutico, mas quando se trata de sua ‘vontade de ajudar’ pessoas com problemas de subsistência, a visão que ele tem da ‘pobreza’ e de seu

próprio lugar na sociedade modela seus objetivos explícitos

e implícitos e suas atitudes. O psicólogo tem a tendência

a se preocupar mais com o ‘como’ de sua atuação do que com o ‘porquê”, ou seja, com as implicações pessoais e

ideológicas de suas intervenções. Por exemplo, não terá

a mesma postura se acredita que uma tomada de

consciência individual possa ser um fator de mudança,

ou se acredita que somente uma mudança social e política possa trazer

41

Plantão Psicológico: novos horizontes

soluções para as situações individuais.[

do que nunca, estar atento às incongruências de seus sentimentos com os pressupostos intelectuais: até que ponto ele realmente confia nos recursos da pessoa para enfrentar suas dificuldades e modificar seu mundo?” 9

] Ele deve, mais

dificuldades e modificar seu mundo?” 9 ] Ele deve, mais 9 Extraído de rela- tório pessoal

9 Extraído de rela- tório pessoal não publicado (1982). Parágrafo aqui re- produzido sob per- missão da autora.

O SERVIÇO E O CURSO

Quanto à estruturação do serviço, que acom- panhava o calendário dos cursos do Instituto Sedes Sapientiae, percebemos que a proposta semestral, com constantes interrupções devido às férias, além de trun- car o afluxo de clientes, tornava muito curto o período de preparação do plantonista, preparação que nos parece requerer bastante empenho, especialmente no que diz respeito às bases conceituais da Abordagem Centrada na Pessoa e aos valores pessoais do profis- sional. Isto pôde ser confirmado pelo número de re- inscrições dos alunos para os semestres seguintes, evi- denciando que não só reconheciam a relevância e efetividade do Plantão Psicológico, como também a consciência que tinham da necessidade de aperfei- çoamento. O tempo breve da relação com o cliente talvez torne mais perceptível, tanto para o supervisor como para o próprio aluno, o grau de consistência na adoção da ACP como referencial para sua atuação. A ausência de solidez na “atitude centrada na pessoa” prejudicará a qualidade da relação de ajuda, gerando no plantonista comportamentos incongruentes e condutas diretivas.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O PLANTÃO

Nossas próprias “descobertas” antecipam o que diria mais tarde o rabino e escritor Nilton Bonder:

“A grande descoberta deste século para as Ciências Humanas é a descoberta terapêutica da escuta. Não há melhor entendimento que alguém possa nos prestar do

42

O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae

que servir-nos de ouvido para as falas baixas e quase imperceptíveis de nossa existência” 10 .

e quase imperceptíveis de nossa existência” 1 0 . 1 0 BONDER, Nilton. Elul, O mês

10 BONDER, Nilton. Elul, O mês da escu-

ta. Kol: Boletim In- formativo da Comu- nidade Judaica do

Brasil, Rio de Ja- neiro, Ano III, n. 7,

agosto 1998, p. 1.

Ouvir pode sugerir uma atitude passiva, mas não

é. Ouvir implica acompanhar, estar atento, estar presente. Presença inteira. Que quer dizer “presença inteira”? Todos sabemos o que significa presença “parcial”. Quantas vezes duvidamos que nosso interlocutor esteja realmente nos ouvindo? Mesmo que alguém, ao ser questionado “Você está ‘mesmo’ me ouvindo?” seja capaz de repetir literalmente aquilo que acaba de ouvir,

a repetição soará vazia, oca de sentido, se sua presença

estiver cindida. Ser capaz de repetir neste caso não significa ser bom ouvinte. É sutil, mas às vezes podemos até perceber, sem mesmo ter consciência de que percebemos – pela própria “densidade” de olhar do outro, pelo tipo de brilho desse olhar – a denúncia da “parcialidade” da presença. Um olhar nosso ao olhar do interlocutor poderá revelá-la. A repetição, mesmo quando se torne uma reprodução, isto é, quando procure

“re-produzir”, sintetizando o conteúdo daquilo que foi

ouvido, eventualmente em outras palavras, torna-se oca,

é apenas e simplesmente um eco. Eco, a ninfa da mitologia grega, evitava a com- panhia dos homens e dos deuses e não se importava com o Amor. Pã, apaixonado por ela e irritado com sua indiferença, fez que os pastores da região a despeda- çassem, espalhando os despojos pelas campinas. Eco, dispersada por muitos lugares, limita-se a repetir os sons que se produzem por perto. Ouvir realmente, e não apenas “ecoar”, requer concentração do plantonista (terapeuta, ouvinte etc.). Não é possível ouvir estando disperso como Eco. E não estou me referindo a concentração apenas como capacidade de focalizar a atenção (no cliente ou na fala do cliente), mas quero ressaltar a concentração do terapeuta em si mesmo.

43

Plantão Psicológico: novos horizontes

Proponho refletirmos sobre “concentração” como “congruência”. Parece estranho? Congruência pode ser entendida como o alinhamento de várias esferas sobre um mesmo eixo. Psicologicamente falan- do, significaria ter as dimensões do pensar, sentir e agir, alinhadas em torno do mesmo eixo, ter “todos os centros num mesmo centro”. Congruência é por- tanto concentração, tomar dentro de si como único centro, o mesmo eixo de alinhamento. É alinhamento interno, concentração, presença inteira. A Abordagem Centrada na Pessoa, enfatizando as qualidades da relação (aceitação incondicional, empatia e congruência) como fator mobilizador do crescimento (tendência atualizante) se confirma como perfeito referencial para o “Plantão Psicológico”, modalidade de atendimento que vem abrir também novas perspectivas de contribuição social para o psicólogo. Relembrando a expressão tão rica de sentidos do Prof. Miguel Mahfoud, podemos confirmar o Plantão Psicológico como presença que mobiliza.

44

Plantão Psicológico na escola:

uma experiência

Miguel Mahfoud

1 O presente texto foi originalmente apresentado no VIII Encuentro Latino- americano del Enfo- que Centrado en la Persona, promovido pela Universidade Iberoamericana da Cidade do México e pela Universidade Autônoma de Aguas- calientes, em Aguasca- lientes, México, em 1996, com apoio da

O desempenho profissional é fruto possível de raízes filosóficas, e é verdade que se conhece a árvore pelos frutos. Mas se o fruto-desempenho profissional não morrer, ficará só; se morrer um pouco, para uma reflexão mais profunda e para se misturar com o que dá vida, produzirá cem por um. Por isso quero agradecer a possibilidade de compartilhar experiências , a oportunidade de pensar

1

FAPEMIG.

um pouco mais no que faço; oportunidade de me enriquecer pela consciência de que também eu fui plantado e que também eu sou árvore com raiz e fruto, e oportunidade de comunicar. O sentido mais profundo do fruto não é semear de novo?

A Educação tem pedido técnicas à Psicologia. Mas o risco é o de não se clarear a finalidade geral da educação, respondendo segundo objetivos precisos mas inadequados a essa finalidade. Ou seja, o risco é o de não explicitarmos (nem a nós mesmos) que a

45

Plantão Psicológico: novos horizontes

finalidade da educação é a formação da pessoa, e querermos responder a tantas demandas com diversos

objetivos definidos (aumento do rendimento escolar, auxílio na expressão verbal e escrita, aplacamento de

que podem nos ocupar

muito, podemos até obter resultados, mas poderíamos

ainda assim não estar respondendo à verdadeira finalidade da educação. Se a explicitarmos, daremo- nos a oportunidade de que ela ilumine objetivos,

métodos e técnicas. E, ainda mais importante, daremos

a nós mesmos a oportunidade de sermos educadores,

isto é, testemunhas de uma consciência ampla possível, que já começa a ser uma rota de orientação dentro da desorientação cultural em que vivemos, e que as nossas crianças e adolescentes não têm como evitar.

comportamentos anti-sociais

)

É nesse sentido que um pouco ousadamente evitei assumir uma função psico-pedagógica na escola em que trabalhei. É preciso salientar que ali tínhamos uma condição de trabalho incomum, não sendo cha- mados a desempenhar as funções de orientação educa-

cional, ou coordenação pedagógica ou disciplinar – funções estas exercidas por outros profissionais. Pude então me preocupar com uma contribuição propria- mente psicológica no âmbito escolar. Devido à minha formação marcada pela Aborda- gem Centrada na Pessoa logo quis que também na escola

a psicologia pudesse contribuir primeiramente consti-

tuindo um espaço para o aluno como pessoa. Um espaço onde se retomasse a finalidade da educação através da formação da pessoa naquele contexto, assim como é,

com todos os seus recursos e limites, já. Em um contexto institucional cristalizado e tantas vezes inevitavelmente partícipe da desorientação cultural que todos vivemos, eu quis ser psicólogo e educador ao testemunhar o valor

e a potência inovadora e criadora da pessoa que cresce com consciência de si e da realidade.

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Plantão Psicológico na escola: uma experiência

Assumindo isso como finalidade, a técnica de atendimento breve que tem sido chamada de “Plantão Psicológico” 2 serviu como método de presença entre

2 Cf. MAHFOUD, Miguel. A Vivência de um Desafio: Plantão Psicológico . In: ROSENBERG, R.

2 Cf. MAHFOUD, Miguel. A Vivência de um Desafio:

Plantão Psicológico. In: ROSENBERG, R. L. (Org.). Aconse- lhamento Psicoló- gico Centrado na

Pessoa, São Paulo:

EPU, 1987, p. 75-83. (Série Temas Bási- cos de Psicologia, Vol. 21)

os alunos e professores. Sabemos bem que a imagem de um Serviço de psicologia dentro da escola é visto por todos como algo muito diferente disso que propomos, e assim quisemos afirmar essa nova ótica para todos, mas prin- cipalmente – e a partir – dos alunos, a quem aquele Serviço de psicologia queria servir. Preparamos, então, folhetos de divulgação da proposta, que penso possam ajudar a explicar a vocês também um pouco do que vem a ser um Plantão Psicológico na escola. Aos alunos de nível colegial foi entregue um folheto com trechos da música “Quase sem querer” do grupo Legião Urbana, e alguns comentários apre- sentando o Plantão Psicológico. Trazia os seguintes dizeres:

“Tenho andado distraído, Impaciente e indeciso

E ainda estou confuso.

Quantas chances desperdicei Quando o que eu mais queria Era provar pra todo mundo Que eu não precisava Provar nada pra ninguém

Como um anjo caído Fiz questão de esquecer

Que mentir pra si mesmo

É sempre a pior mentira.

Mas não sou mais Tão criança a ponto de saber Tudo.

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Plantão Psicológico: novos horizontes

Sei que às vezes uso Palavras repetidas Mas quais são as palavras Que nunca são ditas?”

de “Quase Sem Querer” (Dado Villa-Lobos/ Legião Urbana)

PLANTÃO PSICOLÓGICO NO COLÉGIO

– Uma ajuda para quem não quer viver desperdiçando chances (com os amigos, com a família, no colégio

– Um espaço para procurar ouvir em si as palavras mais profundas e verdadeiras.

– Uma possibilidade para todo aluno que não quer viver “quase sem querer”.

Os pedidos de encontro com o psicó- logo podem ser feitos pessoalmente todas as 3 as e 6 as feiras nos intervalos da manhã na sala 45 (próximo à biblioteca e à informática).

Ou por escrito, todos os dias deixando na portaria do Colégio um bilhete destinado ao psicólogo Miguel Mahfoud contendo seu nome, número e classe, data e assinatura.

– Querendo, apareça!

Já o folheto preparado e entregue aos alunos de nível ginasial foi o seguinte 3 :

3 As ilustrações dos panfletos apresen- tados neste capítulo são de Durval Cor- das, a quem agrade- cemos a autorização para publicação.

apresen- tados neste capítulo são de Durval Cor- das, a quem agrade- cemos a autorização para

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A resposta dos alunos foi bastante positiva. No

início a curiosidade sobre minha pessoa e sobre o tipo de atendimento era o mais marcante, e vagarosamente foi se instalando como um espaço para as pessoas, mais do que para os problemas. Isso fez com que mesmo quando precisávamos chamar alguém para conversar por pedidos da coordenação pedagógica ou disciplinar, ou por pedido de algum professor, a disponibilidade de tratar dos problemas era já diferente, porque o inte- resse era por ele, e não por suas notas ou comporta- mentos. Então até suas notas e comportamentos eram discutidos; suas queixas intermináveis, ouvidas; mas sua pessoa continuava a ser o centro, e a resposta à situação assim como é ainda cabe a ele, que pode agora ter alguém a quem se referir, com quem se avaliar, em quem se apoiar. A consciência ampla do educador ali frente ao aluno se traduz também em disponibilidade e cumplicidade para que o aluno viva com realismo e com cuidado consigo mesmo. De modo geral isso é mobilizado rapidamente e o psicólogo permanece como referência para o aluno na escola, também para outras ocasiões mais tarde, e a experiência permanece como referência dentro do aluno – espero para sempre.

A consciência de si e da realidade pede, antes

de mais nada, discriminação. Quem é quem na escola? Com quem você pode contar? Quais são os recursos disponíveis na rede de relacionamentos? Mas se provoco os alunos a estarem atentos à realidade e ao cuidado consigo mesmos e à sua presença na escola, é porque procuro fazer o mesmo ali. Também eu preciso discriminar bem, e aprender a reconhecer as diferentes contribuições dos vários professores e coordenadores que convivem muito mais diretamente com os alunos do que eu, e por isso podem ser um contato importante para o meu trabalho e para diferentes formas de ajuda a alunos em dificuldade. Eles podem

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me dar feed-back de minhas intervenções, podem cooperar quando também eles se abrem a um tipo de compreensão dos acontecimentos que considere o lado dos alunos e as outras dimensões normalmente deixadas à margem da sala de aula.

Na verdade a manutenção desse tipo de pro- posta pede um empenho constante, e disponibilidade a manter um diálogo continuamente retomado – com os professores, com os alunos e com o conjunto da instituição – para se esclarecer a linha do trabalho, e para que se tenha atenção com o sentido que o trabalho vai tomando para a instituição:

COM OS PROFESSORES

Quanto aos professores, é fácil que em um primeiro momento eles sintam que somos “defensores” dos alunos, e quase nos vejam como inimigos. Sentem- se incompreendidos. Chamá-los a colaborar conosco na atenção com os alunos nem sempre é potente para romper aquela impressão. Às vezes é preciso que eles vejam alguns passos que estão sendo dados pelo aluno e que se liguem diretamente a seu trabalho. Dedicar-se a explicitá-los nem sempre é fácil, mas é sempre importante.

COM OS ALUNOS

Quanto aos próprios alunos, é importante retomar a proposta de que eles próprios podem nos procurar, e estar atentos às tensões que nossa presença suscita entre eles, para poder lidar com elas também enquanto escola no seu conjunto, além do âmbito de atendimento individual ou de pequenos grupos. Como exemplo, apresento a vocês um folheto 4

4 Este folheto en- contra-se digita- lizado no CD-ROM que acompanha o livro.

contra-se digita- lizado no CD-ROM que acompanha o livro. que lançamos quando uma outra psicóloga foi

que lançamos quando uma outra psicóloga foi trabalhar comigo no Colégio, e aproveitamos para lidar também com a tensão existente entre os alunos, ligada ao fato de que alguns deles se encontravam conosco.

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Assim, brincamos um pouco com a tensão, e o projeto foi re-proposto.

COM A INSTITUIÇÃO

Quanto à necessidade de recolocar continuamente a proposta, a nível institucional a questão também não é simples. Às vezes nos sentimos um pouco “marcianos”. Mas o trabalho vai sempre no sentido de responder às demandas da instituição retomando sempre o ponto de partida da centralidade da pessoa. De fato, isso é muito desafiador e criativo. Criamos métodos e instru- mentos novos ao procurar responder aos pedidos e necessidades da instituição retomando a finalidade da educação e as contribuições da Psicologia. Gostaria de citar dois exemplos:

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1) O primeiro se refere a um pedido que a direção da escola nos fez de nos ocuparmos de

Orientação Profissional, sugerindo a aplicação de testes. Na nossa visão, para aqueles alunos, o problema se localizava no tema da escolha. Sendo alunos de classe sócio-econômica “A”, poderiam escolher o que qui- sessem – mas na verdade não podem escolher porque não sabem o que querem, ou porque o caminho pro- fissional já está traçado por herança familiar (a empresa

da família, o consultório do pai

aplicar testes, porque não os ajudaria em nada a enfrentar o problema de não se conhecerem, e o de assumirem conscientemente um caminho para si na vida e na sociedade. Não queríamos substituí-los nessa tarefa de escolha que é tão importante, e assinala uma passagem para o mundo adulto. A atenção a isso nos deu criatividade para utilizar, dentro de nossa abordagem, instrumentos criados a partir de outros parâmetro teóricos. Uti- lizamos textos da cultura brasileira, por exemplo o da música “Caçador de Mim” (Sérgio Magro/Luís

Não queríamos

).

Plantão Psicológico na escola: uma experiência

Carlos Sá) como imagem da busca de si que aquele momento de escolha envolve; ou o poema “Que é o Homem?” de Carlos Drummond de Andrade para abrir espaço a uma pergunta sobre si e sobre o mundo num horizonte amplo. Mas desenvolvemos um novo método de

Orientação Vocacional adaptando o Método de História de Vida apresentado por Julius Huizinga no IV Fórum Internacional da Abordagem Centrada na Pessoa, no Rio de Janeiro em 1989. Pedimos aos alunos para desenharem o gráfico de sua história de vida, assinalando as experiências mais significativas desde o nascimento até o momento presente, avaliando-as como positivas ou negativas em diferentes graus. Depois pedimos que redijam um texto apresentando um dia comum no futuro, cerca de 15 anos mais a frente. Desse trabalho é possível extrair o critério pessoal com o qual cada um deles olha, avalia e se engaja na própria vida. Então se propõe enfrentar a questão da escolha profissional com aqueles critérios pessoais, tendo em vista as profissões que mais favoreceriam a expressão e o desenvolvimento de suas características; ao invés de perseguir a questão de onde ele deveria se encaixar para poder ser feliz – questão esta que parte de uma posição alienada e alienante. Só depois de explicitados esses critérios e mobilizado esse processo de busca é que utilizamos, eventualmente, testes de personalidade (como o de

5 Cf. MARTINS, C.R. Psicologia do Com- portamento Voca- cional. São Paulo:

Pfister) e o Modelo de Holland

5

de grupos profissionais

EPU/EDUSP, 1978.

associados a características de personalidade. A proposta é a de enriquecer e ampliar a reflexão sobre si como ser-no-mundo, único e irrepetível, 6 ao invés de esperar

daqueles instrumentos uma resposta.

2) Outro exemplo, para nós muito significativo, foi quanto à dificuldade da instituição em trabalhar explicitamente a questão das drogas, que preocupa muito a todos – direção, professores, pais e alunos.

6 FRANKL, V. E. Psicoterapia e sen- tido da vida: funda- mentos da logote- rapia e análise exis- tencial. São Paulo:

Quadrante, 1973.

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Plantão Psicológico: novos horizontes

Frente à necessidade de um trabalho de prevenção ao uso de drogas e frente às dificuldades institucionais de tratar do tema, nos pareceu mais adequado procurar utilizar o método que vem sendo chamado de Educação Afetiva 7 , que procura modificar

7 Cf. CARLINI, E.A.; CARLINI-COTRIN, B. & SILVA FILHO, A.R. Sugestões pa- ra programas de prevenção ao abuso de drogas no Brasil. São Paulo: CEBRID,

 

fatores pessoais considerados disponentes à utilização de drogas (como auto-estima, identidade, resistência a pressão de grupo etc.) sem necessariamente enfocar o tema drogas.

1990.

o

Assim, Sílvia Regina Brandão e eu elaboramos

primeiro material brasileiro de Educação Afetiva 8 ,

 

sempre retomando a questão da centralidade da pessoa,

 

8 MAHFOUD, Miguel & BRANDÃO, Sílvia Regina. Educação Afetiva. In: I Con- gresso Interno do Instituto de Psico-

e

abordando principalmente o tema da identidade a

partir da existência, do ser-no-mundo e o tema da conjugação entre desejo e limite.

logia da USP. São Paulo, 1991, p. Z6.

SITUAÇÃO DESAFIADORA

 

Para terminar, eu não seria verdadeiro comigo mesmo se não citasse uma situação que para mim tem sido muito difícil e desafiadora: trata-se da situação de morte de alunos, em particular quando há suspeita de suicídio. Por um lado retomo com muita força a questão da finalidade da educação no que se refere à formação da pessoa e à formação de uma consciência ampla de si e da realidade. Uma morte assim nos coloca em xeque, tolhe a possibilidade de lutar e de construir com aquela pessoa, significa que ela não aceitou a referência que quisemos propor e evidencia o mistério da liberdade do homem. Mas também nesse momento a nossa contri- buição de adultos, educadores e psicólogos passa pela consciência ampla que podemos testemunhar. E consciência ampla nesse momento significa poder ficar frente ao mistério da vida e da morte, perplexos, ao lado dos adolescentes desorientados. E isso só é possível para nós adultos se com eles retomamos a última frase do caderno Educação Afetiva: “retomar

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Plantão Psicológico na escola: uma experiência

sempre o que é importante para mim, me ajuda a fazer escolhas, me ajuda a verificar as pessoas e os grupos que mais podem me ajudar a nunca deixar de desejar e batalhar para ser feliz”. Isso não é dado por nenhuma identidade social, por nenhuma formação universitária e por poder algum. Isso só pode ser dado por uma companhia viva, de horizonte de vida amplo, à qual cada um de nós pode ou não aceitar pertencer. Passa por aí o sentido do nosso trabalho, que não será dado pela instituição em que trabalhamos, mas ao contrário, será a instituição que crescerá com sentido se o carregarmos conosco ao vivermos ali. Parafraseando a introdução do caderno Educa- ção Afetiva, quero desejar a cada um de vocês o mesmo que desejo àqueles com quem trabalho: que também o seu trabalho “ajude a encontrarmos caminhos sempre novos – para cada um e para a convivência entre nós – na constante batalha para ser feliz!”.

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Plantão Psicológico: novos horizontes

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Plantão Psicológico na escola:

presença que mobiliza

Miguel Mahfoud Daniel Marinho Drummond Juliana Mendanha Brandão Roberta Oliveira e Silva

Comunicar uma experiência 1 , explicitar seu método, ressaltar a potencialidade de uma proposta, dar visibilidade a um processo real: são objetivos do presente capítulo. Impactar-se com a força do possível que emerge de uma experiência: eis a motivação destas páginas. Experiência, é claro, se dá em tempo, espaço e contexto social determinados; e da compreensão de seus elementos fundamentais depende a continuidade de sua presença mobilizadora ao longo do tempo. Na verdade, se assim não fosse, nem ao menos poderíamos chamá-la de experiência. Procuramos, então, aqui, explicitar o palmilhar de um percurso feito. Compartilhado o caminho com o leitor, a continuidade da experiência já será objeto de atenção de todos nós, cada qual em seu tempo, espaço e contexto social.

nós, cada qual em seu tempo, espaço e contexto social. 1 Expressamos o reconhecimento dos plantonistas

1 Expressamos o reconhecimento dos plantonistas que colaboraram em uma primeira siste- matização desta ex- periência: Matilde Agero Batista, Ivana Carla B. C. Santos, Lilian Rocha da Silva, Romina Magalhães, Ronnara Kelles Ri- beiro e Tânia Coelho de Alcântara.

TEMPO, ESPAÇO E CONTEXTO SOCIAL

Relatamos aqui a implantação de um Serviço de Plantão Psicológico em uma escola pública de segundo

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Plantão Psicológico: novos horizontes

grau num bairro operário na periferia de Belo Horizonte (MG) 2 , estabelecendo um campo de estágio

Horizonte (MG) 2 , estabelecendo um campo de estágio 2 A experiência aqui relatada se deu

2 A experiência aqui relatada se deu em

3

da disciplina “Aconselhamento Escolar: Plantão Psicológico” no curso de Psicologia da Universidade

1997. Federal de Minas Gerais, a partir da proposta de Plantão Psicológico no contexto escolar elaborada pelo

professor

.

Trata-se de uma aplicação original – cunhada em comum entre professor e estagiários – iniciada e levada a cabo com atenção a potencializar os recursos pessoais e materiais que aquele grupo e aquela instituição apresentavam. Trata-se, então, não de aplicação mecâ- nica de um novo modelo, mas de atualização de uma atenção viva às pessoas que compunham a equipe, de maneira tal que atentas à própria experiência se colo- cassem no contexto escolar mobilizando a mesma atenção; de maneira tal que disponíveis ao encontro com o novo se inserissem na escola despertando o desejo de encontro e de crescimento que constitui todo homem; de maneira tal que atentos aos movimentos de transformação e crescimento se desenrolando entre nós da equipe, se dispusessem a observar, acolher e facilitar, com curiosa e discreta abertura, cada movimento promovido no contexto institucional. Aquela escola específica foi escolhida por estar inserida em uma comunidade muito ativa em termos de movimentos sociais, comunitários e culturais. A própria escola foi idealizada e construída pela comu- nidade local (construída enquanto instituição mas também enquanto espaço físico). Poder contar com esse perfil dinâmico e mobilizador da comunidade para o desenvolvimento do nosso trabalho foi uma das intenções, de maneira tal que as relações entre o atendimento individual, a instituição e a comunidade em que estão inseridos fossem objeto de atenção; de maneira tal que o atendimento aos alunos dentro daquela escola pudesse concretamente contribuir –

dentro daquela escola pudesse concretamente contribuir – 3 Confira o capítulo “ Plantão Psicoló- gico na

3 Confira o capítulo Plantão Psicoló- gico na escola: uma experiência, de Miguel Mahfoud, neste mesmo livro.

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

ainda que de maneira simples – com um movimento social mais amplo que, por posicionamento político e cultural, valorizamos. Estabelecemos um contrato com a escola, através de sua diretora, oferecendo um Serviço de atendimento em Plantão Psicológico nas dependências da escola, nos horários normais de aulas, para receber alunos que solicitassem ajuda psicológica. Em contra- partida, a escola garantiria alguns aspectos fundamen- tais para o andamento do trabalho: espaço físico ade- quado para acomodação dos estagiários onde pudes- sem ser feitos os atendimentos; autorização aos alunos para saírem de sala de aula para procurar o Serviço; o não encaminhamento dos alunos ao Plantão Psico- lógico por parte de professores e direção. Uma vez que para atingir nossos objetivos de mobilizar os alunos era fundamental abrir para eles um espaço em que a busca por ajuda pudesse ser livre de qualquer imposição ou limitação de horários por parte da escola, era fundamental que eles tivessem a liberdade de procurar-nos no momento que fizesse mais sentido para eles, do modo que achassem melhor, para falar sobre o que desejassem. A diretoria da escola recebera de bom grado a proposta e sentia-se honrada em ser o público número um de um projeto piloto em Belo Horizonte, em conjunto com a nossa universidade.

PREPARAR: DA APREENSÃO À ATITUDE DE ESCUTA PROFUNDA

Habitualmente, ao se pensar em presença de psicólogos no contexto escolar emergem duas con- cepções: a da intervenção psico-sociológica tradicio- nalmente considerada – com planejamento a partir de uma leitura diagnóstica da instituição – e a da inter- venção de base clínica, voltada a favorecer a superação de dificuldades localizadas no aluno, em seu de- senvolvimento e/ou saúde mental. Essas concepções

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Plantão Psicológico: novos horizontes

se apresentam insistentemente a quem se dispõe a adentrar aquele contexto, e a proposta de um modelo

outro, baseado em acolher as demandas dos alunos enquanto pessoas – normalmente desconhecidas antes que se inicie o trabalho – e que procura acompanhar

as ressonâncias institucionais de mobilizações pessoais

– que se verificarão só a partir da intervenção – não pode deixar de provocar apreensão.

A proposta de Plantão Psicológico em si mesma

já requer uma abertura ao não-planejado; quando se

acrescenta a vinculação institucional a ser delineada no

decorrer do processo, a exigência de disponibilidade

a acompanhar um processo sem um planejamento

prévio é ainda maior. Frente à inevitável apreensão,

uma sugestão: observar atentamente para conhecer; ouvir profundamente para facilitar a expressão do que de mais significativo será trazido a nós; estar realmente presente, disponível, e atentar à mobilização que pode nascer daí. Contato com literatura especializada e relatos de experiências de intervenções nessa modalidade de Aconselhamento Psicológico (cf. Mahfoud, 1987, 1989, 1992; Mahfoud, Morato & Eisenlohr, 1993), ajudaram que se estabelecesse uma posição de ativo empenho com a proposta – que é mesmo um tanto descon- certante –, respaldados também na literatura fun- damental acerca da Abordagem Centrada na Pessoa elaborada por Rogers.

A proposta era disponibilizar-se em termos de

tempo e de escuta. Ou seja, os estagiários comporiam uma equipe sempre presente na escola: estariam literalmente de plantão ali à disposição dos alunos, cobrindo todos os horários de funcionamento daquela instituição, disponíveis ao atendimento à pessoa do aluno no momento em que ele estivesse precisando de ajuda, não sendo assim necessário marcar horário com antecedência e não estaria implicada necessariamente

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

uma continuidade de atendimento. O que dirige o percurso é a necessidade da pessoa, garantida a

permanência da disponibilidade da equipe de plantonistas

e contando com a iniciativa dos próprios alunos

buscarem atendimento quando fizer sentido para eles. Mas afinal o que estaríamos oferecendo neste

serviço? Um espaço onde o aluno pudesse buscar ajuda para rever, repensar e refletir suas questões. O objetivo era possibilitar aos alunos a oportunidade de se cuidar, de estarem atentos ao que é realmente importante para eles naquele momento, e então de se posicionarem diante disso. O psicólogo neste tipo de serviço não está ali atento a solucionar algum problema mas procura estar presente acolhendo a pessoa e escutando- a ativamente, possibilitando com isso que ela se mobi- lize frente à sua situação; procura estar centrado na pessoa mais do que no problema. Esse momento de preparação fora funda- mental do ponto de vista do método, pois pôde ficar claro que ouvir – escuta ativa, profunda – é uma inter- venção, e que aquilo que verbalizamos para a pessoa, aquilo que pontuamos ou refletimos devol-vendo para ela é uma intervenção complementar à escuta, vem como que acoplada. A escuta, enquanto postura básica,

é saber ouvir o outro, estar preparado e disponível

para receber a vivência que estiver tra-zendo, tomando-

a em sua complexidade original, em seus múltiplos

horizontes, de maneira tal a facilitar que a pessoa examine com cuidado as diversas facetas de sua ex- periência. Essa escuta solicita de nós uma atenção a uma multiplicidade de perspectivas, mas sobretudo requer uma atenção à perspectiva que aquela pessoa escolhe – ou pode – no momento examinar para adentrar sempre mais profundamente na própria expe- riência; e isso requer mais respeito ao caminho empre- endido pela própria pessoa do que qualquer habilidade preditiva por parte do plantonista. Abertura ao novo

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Plantão Psicológico: novos horizontes

incansavelmente emergente em cada pessoa que examina sua vivência; abertura maravilhada diante do mistério da liberdade de cada ser humano, e daquele ali em particular: é o primeiro passo para entrar em contato com a realidade das pessoas. Nos permitimos entrar em contato com o

ouvir não só do ponto de vista teórico (cf. Rogers, 1983; Amatuzzi, 1990) mas reconhecendo nossa ex- periência, sabendo que está em nós o recurso funda- mental para facilitar que o outro se escute a si próprio. Reconhecemos, então, o fundamento do Plantão Psicológico naquela atitude que propicia a facilitação de um processo que é do cliente, e portanto a função do psicólogo não é conduzir esse processo mas acompanhá-lo. Mas, na prática, o que seria ouvir? O que representaria esse tipo de atenção para com o outro ali diante de mim? Preocupação primária e fonte de ansiedade para os iniciantes em atendimento psico- lógico, mas preocupação e ansiedade em outra medida sempre presente também para quem, por anos a fio, busca se colocar diante do outro com a abertura con- fiante necessária para que se dê um processo na direção do crescimento e da mobilização, para que se dê um processo de mudança em função do sentido tão próprio àquele que pede ajuda. E na supervisão não poderia ser diferente:

atentar para os recursos ali presentes, enquanto pessoa,

e acolhê-los, sobretudo para que cada estagiário pudesse descobrir-se como terapeuta no decorrer do contato com o outro, mobilizando seus próprios recursos

afetivos e intelectuais. Todos nós, diante desse tipo de escuta, livres de interpretações, generalizações e pré- concepções, estaríamos mais propícios a nos perceber

e perceber o outro. O grande segredo é o aprendizado

com a própria experiência. E esse segredo se revela efetivamente só com o decorrer do próprio trabalho.

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

CONTATOS INICIAIS

Nos primeiros contatos de toda a equipe do Plantão Psicológico com a escola confirmamos, da parte deles, o interesse e a disponibilidade em colabo- rar. Porém, já de início eram perceptíveis as expecta- tivas da instituição quanto ao trabalho: a de que res- ponderíamos a demandas pré-definidas por eles, ligadas ao que consideravam ser os problemas mais graves, recorrentes e emergenciais como, por exemplo, abuso de álcool e gravidez na adolescência. Parecia-nos natural que frente à novidade da proposta, surgisse na escola – juntamente à dispo- nibilidade e abertura – alguma dificuldade em colocar- se numa perspectiva diferente, centrada no aluno e a partir de um posicionamento diverso por parte da Psicologia. Demo-nos conta de que não era preciso que a escola entendesse, imediatamente, tudo o que iríamos fazer ali: o fundamental naquele momento é que aceitasse o desafio e possibilitasse nossa atuação. Afinal, quem de nós sabia o que estava por vir? Era o início de nossa presença ali; e sabíamos que clarificar, continuamente, nossa proposta era mesmo parte de nosso trabalho. No vivo da interação com a instituição íamos repropondo e reafirmando os princípios e os fundamentos. Era imprescindível que fôssemos firmes em nossa proposta assim como nas exigências necessárias para colocá-la em prática. E então, melhor do que argumentar seria mostrar a que viemos.

APRESENTANDO A PROPOSTA

Organizamos uma apresentação da equipe de plantonistas e de nossa proposta para os alunos – que sabíamos ser útil a todo o quadro da escola. Evitamos passar de sala em sala, ou reunir a todos para explicar o que é Plantão Psicológico. A apresentação da proposta ao público interessado precisava ter impacto para marcar nossa presença e nosso trabalho entre eles, sem deixar

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Plantão Psicológico: novos horizontes

também de explicitar com clareza nosso objetivo. Além do quê, era preciso desmistificar a Psicologia, aproximá- la da realidade daqueles adolescentes, mostrando a eles que psicólogo não é “pra doido”, como muitas pessoas costumam pensar, mas para todos que tenham interesse em se conhecer melhor, olhar para si e se reconhecer em suas vivências, cuidar para vivê-las de um modo mais saudável e consciente; era preciso afirmar que estaríamos ali disponíveis para acompanhá-los em sua experiência. Para alcançar tal objetivo elaboramos uma apre- sentação que fosse clara e próxima dos alunos, procu- rando utilizar uma linguagem própria da idade deles e que pudesse abarcar ao máximo a realidade em que vivem. Utilizamos recursos musicais e teatrais pois, além de provocar certo impacto, era uma maneira em que nos sentíamos muito à vontade. Estávamos lançando mão de nossos próprios recursos, oferecendo nossa disponibilidade, cada um podendo se colocar com o que tem para oferecer tornando o grupo uma equipe coesa e disponível, cada um com suas diferenças, facilitando assim que as diversidades se aproximassem. Essa forma de se apresentar aconteceu nos três turnos, aproveitando o horário do recreio, por conside- rarmos ser o momento em que poderíamos estar mais próximos dos alunos e para passar a mensagem que estávamos propondo um espaço realmente voltado a eles na escola. Preparamo-nos sem que os alunos sou- bessem; apenas a diretoria estava ciente do que iríamos fazer. Quando tocou o sinal para o recreio e os alunos começaram a sair das salas e se dirigirem para o pátio nós começamos a tocar uma música e iniciamos a apresentação, distribuímos panfletos com a letra de uma música composta por nós e no verso uma explicação do que seria o Plantão Psicológico. Utilizamos algumas músicas já conhecidas, com temática bem jovem e atual, que traziam questões em direção a se cuidar, como por exemplo as de Legião Urbana, Kid Abelha,

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

Lulu Santos, Ultraje a Rigor. Criamos também algumas músicas-paródia e até compusemos “O Rap do Plantão”. Seguem alguns exemplos:

Rap do Plantão

Cheguei em casa da escola tô cansado de estudar Meu pai não me entende não adianta conversar Minha mãe me repreende não tenho com quem falar Liguei pra namorada e ela não estava lá Procurei por meus amigos Me disseram: Sai pra lá!

Ninguém

Quer me entender

Ninguém

Quer me responder

Em minha cabeça tudo roda e eu não sei o que fazer Quem sou? De onde vim? Pra onde vou?

O que fazer, o que fazer?

Não consigo esclarecer tá difícil de entender Não consigo me acalmar tá difícil de aguentar Mil problemas me esquentam Mil questões me atormentam

E os outros no meu pé

Cada um com seu palpite Minha cabeça dá um nó

E

não há quem acredite

E

eu?

O

que que eu faço desta vida?

E

eu?

Qual vai ser a minha história?

E eu?

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Plantão Psicológico: novos horizontes

Reggae do Plantão (Paródia de “Pensamento”, do grupo Cidade Negra)

Eu preciso falar do que se passa aqui dentro

Vou procurar o plantão Preciso de alguém que me escute e me entenda Prá eu também me entender

É este mundo

É minha vida

Quero mudar

Quero aproveitar

Quem não se cuida Não curte a vida Fica parado sem sair do lugar

Exibem poesia as palavras de um rei Faça sua parte Que eu te ajudarei

Twist do Plantão (Paródia de “Twist and Shout”)

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Vou conversar no Plantão (no Plantão) Não sei se tem solução (solução)

É um espaço pra mim (para mim)

É disto que eu tô afim.

Ah

Ah

Ah

Ah

Ah

Melô do Plantão

No plantão falar é “bão” Muito “bão” Muito “bão”. No plantão falar é “bão”.

(Repete 3x)

Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

Pretendíamos criar um momento de apre- sentação em que eles se reconhecessem e pudessem estar mais atentos à explicação que iríamos dar poste- riormente sobre o Serviço. Elaboramos uma dramatização que pudesse representar bem a vivência de um adolescente incompreendido em sua própria casa e que por fim resolve buscar ajuda no Plantão Psicológico como meio de pensar e refletir sobre suas questões. De início os alunos pareciam espantados e aos poucos foram se ambientando, começaram a interagir conosco cantando as músicas e batendo palmas, e até mesmo dançando. Nos entremeios de uma música e outra e o teatro íamos falando de forma espontânea quem éramos nós e o que estávamos fazendo ali. Procuramos tocá-los no que diz respeito à vivên- cia de ser adolescente cheio de questões, dúvidas, inquie- tações e à dificuldade de contar com alguém que possa estar junto com ele acompanhando-o nessa experiência. Estávamos propondo a eles que uma maneira “legal” de se cuidar, de manter-se bem em meio aos problemas e dificuldades, é dar-se a oportunidade de falar dessas coisas, pensando sobre elas e sobre como eles podem estar vivendo de forma consciente cada situação, poden- do até passar a vê-la de modo diferente. Divulgamos assim o Serviço de forma descontraída sem perder a seriedade do nosso compromisso com a proposta.

4 Uma breve edição em vídeo de filma- gens feitas durante estas apresenta- ções está incluída no CD-ROM anexo ao livro. As músicas também podem ser ouvidas já integradas ao vídeo ou através de um CD-player

convencional (faixas

4

2, 3, 4, e 5).

OS ATENDIMENTOS E AS DEMANDAS

No dia seguinte à apresentação da proposta aos alunos, os estagiários começaram a ficar de plantão, na sala disponibilizada pela escola, e imediatamente os aten- dimentos começaram. Os estagiários se dividiam pelos três turnos de aulas, de segunda a sexta-feira, e também no sábado de manhã, o que fazia com que sempre houvesse um ou dois estagiários na sala do Plantão, disponíveis para os alunos.

75

Plantão Psicológico: novos horizontes

Nos atendimentos procurávamos acompanhar

a organização própria dos alunos, pois era centrando

na experiência destes que descobríamos como proceder. Esta atenção ao movimento que os alunos faziam ao buscar o Plantão Psicológico nos indicava como responder a este movimento. Sendo assim, o número

de alunos que participava de uma sessão, a duração desta,

a marcação de uma nova, e o próprio andamento de

cada sessão acompanhavam a necessidade do momento

e não uma regra pré-estabelecida. O que mantínhamos

firme sempre era nossa disponibilidade para ouvi-los, ajudá-los a examinar sua experiência, e a proposta de que o Plantão Psicológico era para qualquer aluno que quisesse ‘se cuidar’. Atendemos então indivíduos e grupos, em uma ou mais de uma sessão, que duraram de quinze minutos a uma hora e meia. Nos casos em que os alunos voltavam, sendo atendidos diversas vezes, e se percebia uma necessidade de ajuda que ia além da proposta de atendimento em Plantão Psicológico (ver abaixo a categoria “Incômodo com a maneira de ser e de reagir à situações”), nós os encaminhávamos para Serviços ou clínicas sociais que oferecessem psicoterapia a um baixo custo ou gratui- tamente. Foram poucos os casos encaminhados, já que na maioria não houve esta necessidade. Ao final do primeiro semestre, realizados aten- dimentos no período de abril a junho, havíamos atendido 11,9% do total de alunos da escola (124 de um total de 1035), em 134 sessões (ver tabela I na próxima página). Note que o número de alunos atendidos e de sessões é diferente, já que um aluno pode ter sido atendido em mais de uma sessão e vários alunos, em grupo, podem ter sido atendidos em uma única sessão. Para chegarmos a este total de alunos atendidos contabilizamos as sessões efetivas, (ou seja, aquelas em que os alunos haviam se movimentado frente à alguma questão) deixando de lado, para efeito

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

ATENDIMENTOS(SESSÕES)

% de atendimentos no turno em relação ao total de atendimentos na escola

   

62,7

 

Número de

atendimentos

no turno

26,97,3%

36

10,436,5%

 

124

 

% de pessoas atendidas no turno em re- lação ao total de pessoas atendidos na escola

25

37,1

   

ALUNOSATENDIDOS

% de pessoas atendidas no turno em rela-ção ao total de alunos ma- triculados no mesmo turno

 

14126Tarde

8447

37,946,9%486

9,7%

100%134Total

100%100%

100%

Número de

pessoas

atendidas no

turno

 

46

   

ALUNOSMATRICULADOS

% de alunos matriculados em relação ao número total de alunos da escola

40,9% 31423

12,2%

   

Número de

alunos

matriculados

em cada

turno

     

1035

TABELAI Dados quantitativos sobre cada turno

Manhã

 

Noite

 

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Plantão Psicológico: novos horizontes

de contagem, as situações em que os alunos passavam rapidamente pela sala do Plantão Psicológico para dizer olá, espiar, ou fazer um comentário, e aquelas em que os alunos permaneciam conosco por algum tempo conversando “fiado” ou querendo saber mais sobre nossa proposta, fazendo perguntas do tipo “O que é mesmo o Plantão?”. Vale dizer que algumas situações como estas serviram como via de acesso à ajuda, ou seja, o aluno chegava como quem não quer nada para logo em seguida, já ambientado, conseguir falar de si, transformando a “visita” em um atendimento, que era então contabilizado. Durante todo o semestre os atendimentos eram discutidos nos encontros semanais de supervisão. Para cada sessão ou atendimento era feito um relatório escrito. Nestes encontros, além dos atendimentos, conversávamos também sobre a instituição em seus diferentes âmbitos, ou seja, falávamos dos professores, da diretoria, dos turnos, do que observávamos enquanto estávamos na escola. Queríamos estar atentos para as repercussões que nossa presença estava tendo na escola. Isto também era parte de nossa proposta de Plantão Psicológico. Ao escutar os alunos, estávamos intervindo também na instituição, ajudando estes a se dar conta de suas necessidades frente à escola, o que poderia mobilizá- los a atuar nesta para transformá-la. Ao escutar a instituição em cada um de seus âmbitos estávamos também intervindo, pois surgiam então respostas que poderiam ser dadas ao grupo. Um exemplo disto foi nossa atuação diferen- ciada em relação à características singulares que o turno da tarde tinha em relação aos outros turnos:

No turno da tarde funcionavam três turmas, todas do primeiro ano do segundo grau, totalizan- do cento e vinte e seis alunos. No início do trabalho, os alunos deste turno não procuraram o Plantão

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

Psicológico, diferenciando-se dos outros turnos onde a procura foi imediata, acontecendo já no primeiro dia de funcionamento do Serviço. Através de observações que os estagiários haviam feito enquanto aguardavam atendimento e de conversas informais com os alunos, principalmente no horário do recreio, levantamos algumas características específicas deste turno que poderiam explicar a não-procura pelos atendimentos naquele turno. Concluímos que a procura poderia estar sendo dificultada por:

- um maior controle sobre os alunos, por parte de quem ocupava a direção da escola naquele período, no sentido de evitar que os alunos ficassem fora de sala de aula no horário letivo; - um maior controle dos alunos sobre os próprios alunos. Neste turno haviam poucas turmas, o que fazia cada aluno estar mais exposto. Todos eles eram novatos na escola – já que eram turmas de 1ª série do científico – e estavam provavelmente tentando se ‘enturmar’, fazer amigos, e a busca por um Serviço de atendimento psicológico poderia atuar negativamente neste sentido, pela imagem tradicional do psicólogo como alguém que atende ‘loucos’. De fato os alunos que falavam em procurar o Plantão Psicológico eram caçoados pelos colegas. Entendemos que precisávamos intervir dife- renciadamente neste turno para facilitar o acesso à ajuda. Criamos para isto uma estória em quadrinhos que foi colocada em um cartaz bem visível aos alunos deste turno. Essa estória retratava a situação de um aluno que queria ir ao Plantão Psicológico mas se inti- midava pois os colegas caçoavam quando expressava esta vontade. Ele conversa então com um outro colega que havia ido mas que se recusa a explicar o que havia acontecido lá, dizendo que ‘No plantão falar é bão’,

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Plantão Psicológico: novos horizontes

com uma expressão muito satisfeita, indicando que este deveria descobrir por si mesmo. O aluno decide então ir ao Plantão Psicológico. Com este cartaz estávamos espelhando a situação dos alunos para eles mesmos. Era já uma escuta. Uma outra intervenção desse gênero foi a de uma estagiária, que envolveu um grupinho de alunos, convidando-os para a ajudarem a confeccionar um cartaz onde foi escrito ‘Plantão Psicológico’ para ser colocado na porta de nossa sala. Buscava com isso aproximar mais os alunos do nosso espaço de aten- dimento, desmistificando também o psicólogo como distante e como ‘coisa para doido’. A resposta a estas intervenções foi imediata. No dia seguinte à fixação da estória em quadrinhos num corredor da escola, um grupo de alunos apareceu para conversar. Os atendimentos começaram então a acontecer também no turno da tarde, no qual foram atendidos 46 alunos, ou seja, 37,1% do total de alunos atendidos na escola. O número de atendimentos neste turno foi de 14, que corresponde a 10,4% dos aten- dimentos realizados na escola. A diferença entre o número de atendimentos e o de alunos atendidos é grande pois houveram vários atendimentos em grupo neste turno. Esta ‘preferência’ dos alunos pelos grupos, e o fato dos atendimentos terem acontecido geralmente no horário do recreio ou quando algum professor não comparecia para dar aula, pode ser entendida: se é o grupo que comparece, diminui o controle individual que as características de contexto descritas mais acima exerciam sobre os alunos. Os turnos da manhã e da noite tinham um número bem próximo de alunos matriculados, sendo 423 no da manhã e 486 no da noite. Nestes dois turnos os alunos procuravam o Plantão Psicológico em qualquer horário, ou seja, no recreio ou durante as aulas, quando queriam ser atendidos. No turno da manhã,

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

foram atendidos 31 alunos (7,3% do total de alunos atendidos na escola), em 36 atendimentos (26,9% do total de atendimentos realizados na escola). Houve atendimentos em grupo, embora não tantos quanto no turno da tarde. O turno da noite se diferencia neste aspecto pois quase não houve atendimentos em grupo. Neste turno ocorreram a maior parte dos atendi- mentos realizados na escola (62,7% do total), sendo atendidos 47 alunos (37,9% do total). Quanto à por- centagem de pessoas atendidas em cada turno em relação ao total de alunos naquele mesmo turno, os turnos da manhã e da tarde se assemelham, com respectivamente 7,3% e 9,7% de seus alunos atendidos. Já o turno da tarde se destaca pois teve 36,5% dos seus alunos atendidos, geralmente em grupos, como já foi dito. Após passarmos pela experiência de um pri- meiro semestre atendendo em Plantão Psicológico, surgiu a necessidade de organizar essa experiência, buscando entender com clareza as necessidades daqueles sujeitos que nos procuravam. Essa organi- zação nos daria, através de uma leitura mais siste- matizada das demandas dos alunos, um maior co- nhecimento sobre os sujeitos que atendíamos e, conseqüentemente, uma ajuda para o entendimento da dinâmica da instituição escolar e até para nossas intervenções ali. Além disso, seria importante para o retorno que daríamos à escola sobre nosso trabalho e, de forma mais geral, sobre as questões mais discutidas pelos alunos. Esse retorno, por sua vez, poderia levar a escola a rever sua visão e sua posição frente aos alunos. Deste modo, passamos um semestre atendendo em Plantão Psicológico, ouvindo cada pessoa enquanto pessoas únicas, com demandas próprias, que iam, à medida em que eram escutadas e se escutavam, fazendo seu movimento em direção à mudança (cf. Mahfoud, 1989). Mas a singularidade do movimento de cada

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Plantão Psicológico: novos horizontes

um não ocultava que muitos alunos ali atendidos vinham falar de coisas que às vezes eram comuns a outros. E foi em busca do que fosse comum que fizemos uma categorização das demandas que os alunos da escola traziam, a partir dos relatórios dos atendimentos que eram escritos pelos plantonistas. É importante frisar que as categorias de de- mandas não foram criadas antes de examinarmos atentamente os relatórios, para que tentássemos encaixar nelas os “problemas já-categorizados” dos alunos, pois se fizéssemos assim, correríamos o risco certeiro de distorcer a experiência do aluno enqua- drando-o em “pré-suposições” nossas. Ao contrário, optando por uma metodologia fenomenológica, deixamos que as categorias “emergissem”, fossem “des-cobertas”, após discussões concentradas sobre os diversos casos. Assim, discutimos qual o tema central de cada atendimento, qual a principal demanda que ali se sobressaía como uma questão importante para o aluno, na perspectiva dele. Não tentamos ver o que estava “por trás” do que ele dizia e nem nos guiar em direção daquilo que mais se chocava aos nossos olhos – mais que aos deles – como a violência, que por vezes per- meava suas realidades. Algumas vezes, a questão principal de um sujeito só aparecia ao final de um atendimento, após serem discutidos outros assuntos ou mesmo problemas. Mas o momento em que o tema central aparecia era aquele em que a demanda tornava-se nítida, através de indícios como uma maior emoção, atenção, entusiasmo, constrangimento, “brilhos no olhar” ou até a revelação da própria pessoa dizendo que aquela era sua demanda principal, era o principal motivo pelo qual estava ali. As diversas questões principais “descobertas” eram comparadas entre si a fim de se descobrir se- melhanças entre elas. Questões que envolviam um

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

mesmo tipo de dificuldade, incômodo ou mesmo busca foram, então, agrupadas sob uma mesma expressão que as abarcasse todas. Desta forma, elaboramos 15 categorias 5 , além de

uma chamada “demanda indeterminada”. Quando uma pessoa vinha ao Plantão Psicológico e durante o aten- dimento várias questões apareciam como igualmente importantes para ela, o atendimento era considerado “demanda indeterminada”. Também dentro desta categoria foram incluídos os casos em que não foi identificada nenhuma demanda claramente ou aqueles em grupo em que cada pessoa trazia uma diferente questão, aparecendo então uma multiplicidade de demandas principais na mesma sessão. Essa impossi- bilidade de se identificar a demanda se deveu em alguns casos a relatórios mais interpretativos do que descritivos que, dando mais ênfase na visão do plantonista do que na fala do aluno atendido, nos impossibilitou de identificar sua demanda principal. Perceber essa falha nos relatórios foi uma indicação valiosa para futuros relatos de atendimentos e até para atendimentos em si, nos quais se corre o risco de abandonar a atenção cen- trada na pessoa que busca o Plantão Psicológico para voltá-la para elocubrações que a ultrapassam. A escola tinha expectativas quanto às questões que mais seriam abordadas pelos seus alunos. Espe- ravam, por exemplo, que os alunos falassem de gravidez na adolescência, de seus professores e dire- toras e ainda de abuso de álcool. Nós mesmos espe- rávamos que o tema “violência” aparecesse enquanto uma categoria isolada, já que essa questão foi muito abordada nos atendimentos. Notamos, no entanto, que esses temas eram na maior parte das vezes, “apenas” subjacentes àquilo que mais os incomodava. Como se fosse um cenário às particulares histórias dos vários sujeitos que procuravam atendimento ou mesmo mais uma contingência difícil de suas vidas.

ou mesmo mais uma contingência difícil de suas vidas. 5 A lista das catego- rias com

5 A lista das catego- rias com sua nume- ração pode ser con- sultada na tabela I nas páginas 106 e 107 deste livro.

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Plantão Psicológico: novos horizontes

Foi muito importante entender que, muitas ve- zes, o que era atordoante para os plantonistas – como

a violência sexual, familiar e de rua – e que talvez por isso esperávamos que fosse o mais importante e ator- doante também para a pessoa que nos procurava, às vezes, podia não se apresentar assim. Desse modo, percebemos que, atendendo pessoas que vivem uma realidade diferente da nossa e categorizando esses atendimentos segundo suas demandas, devíamos cuidar para que nossa atenção centrada na pessoa e em sua perspectiva não fosse abandonada em função de nossos próprios valores. Entre as categorias de cujo aparecimento havia alguma expectativa de nossa parte, apenas a demanda “dificuldade com drogas”(4) foi realmente categori- zada. No entanto, surgiu apenas um caso em que essa demanda, enquanto principal, foi apresentada. De um modo geral, em nossa categorização, a

questão da “violência” apareceu associada a outras, incluídas na categoria “insatisfação com as atribuições

e contingências” (11). As pessoas cujos atendimentos

foram aí categorizados queixavam-se de insatisfação com as condições externas a elas, o que as incomo- davam, mas que independiam de suas ações. O que se poderia fazer, então, era quase que suportar tal realidade e se colocar em relação a ela de maneira diferente. Um exemplo de um caso incluído nesta categoria seria aquele em que o aluno queixa-se de sua mãe que é alcoólatra, de seu pai violento e foi “atribuído” a ele, cuidar dos irmãos mais novos. Tudo isso, são contin- gências de sua vida que o incomodam com as quais tem que lidar e que lhe foram impostas por outros, no caso, o pai e a mãe. Na categoria “preocupação com conseqüên- cias de ações ou decisões passadas” (14), foram agru- pados os casos em que havia uma ansiedade acerca de decisões ou atos já realizados, como o da aluna com

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

medo de estar grávida ou do rapaz preocupado com as implicações de ter montado um trailler e como

conciliaria isto com seus estudos. Uma outra categoria, “dificuldade em fazer escolhas”(6), foi criada para aqueles casos em que uma pessoa tinha diante de si opções entre as quais deveria escolher uma, a qual poderia mudar o rumo de sua vida. Incluímos, nessa categoria, as demandas de orientação profissional e também demandas relacionadas a outras decisões a serem tomadas na vida pessoal. Os casos em que sujeitos tinham que aprender

a lidar com alguma perda que haviam sofrido configuraram a categoria “elaboração de perdas”(7) que incluiu perdas por morte ou por separação, como término de relacionamento amoroso. Já a categoria “arrependimento e culpa” (1) abarcou os casos em que as repercussões de atos e decisões já efetuados levavam a estes sofrimentos es- pecificados. Havia um questionamento relacionado à adequação de tais ações e decisões já tomadas, fazendo com que sentimentos de culpa ligados a valores pes- soais e sociais emergissem. Um exemplo dessa cate- goria seria o da aluna que se sentia arrenpendida e culpada por ter feito um aborto. Esta categoria se diferencia da categoria “preocupação com as conse- qüências de ações passadas” pelo fato de que nesta, havia uma ansiedade (uma pré-ocupação) em torno das ações já realizadas, como que um medo de sofrer pelas conseqüências, e na categoria “arrependimento

e culpa”, a conseqüência de um ato já está causando

sofrimento. As demandas ligadas à categoria “sexualidade” eram, em sua maioria, associadas a uma necessidade de discussão, por parte de alunas, a respeito de vir- gindade, valores da sociedade sobre a sexualidade, a posição e idéias de cada aluna frente ao assunto. To- dos os atendimentos dessa categoria foram feitos

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Plantão Psicológico: novos horizontes

em grupo e no turno da tarde, no qual, talvez pela idade dos alunos (eram mais novos que os dos outros turnos), tais assuntos despertassem maior interesse. Uma outra categoria: “dificuldades com a escola”(5) englobou os assuntos relacionados à vida escolar dos alunos, desde dificuldades com um determinado professor até problemas de atenção, notas

e aprendizagem. Na categoria “busca de reconhecimento”, agru- pamos os casos em que os alunos nos procuravam para nos contar como estavam lidando bem com os desafios que lhes eram colocados pela vida. Eles já haviam tomado uma decisão, gostavam da própria maneira de ser e precisavam apenas de alguém que, de certa forma, po-

deria os deixar mais seguros sobre o que estavam fazendo ou sobre seu próprio jeito de ser. Ao nosso ver, o aparecimento da demanda “busca de reconhecimento” em nossa categorização é um sinal do diferencial que uma proposta como o Plantão Psicológico em Escola representa, em relação

a outras propostas de atendimentos psicológicos em

instituições de ensino. Isso porque, ao situar o psicólogo em um espaço também para o que é saudável, para o “se cuidar” e não apenas para o “se tratar”, o Plantão Psicológico abre um caminho para o sujeito que está bem se expressar de maneira total, obtendo uma escuta aberta ao seu modo de viver sua própria vida. Uma outra categoria – “incômodo com a maneira de ser e de reagir às situações”(10) – abarcou justamente os casos opostos à última categoria explicada. As pessoas que entraram nessa categoria queixavam-se de não estarem felizes com algo no seu jeito de ser, como nervosismo, timidez, solidão, ou com a forma como sempre reagiam a situações específicas. Um exemplo deste caso, seria o da mulher que sempre chorava quando o marido se atrasava. Ela não gostava desta sua própria reação ao marido, já que não a ajudava em

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

nada. Este tipo de sofrimento, um sofrimento que só dependia do próprio sujeito para que pudesse ser alterado, foi o que mais demandou atendimentos (totalizaram 24 sessões) e sobre o qual mais pessoas se queixaram (14 pessoas com essa demanda). Através da relação entre o número de pessoas nessa categoria e o número de sessões, podemos ver que, para este tipo de demanda é necessário, na maior parte das vezes, que uma mesma pessoa seja atendida mais de uma vez. Por causa das características desta demanda, cujos atendimentos visam a uma mudança estrutural na maneira de ser de uma pessoa, e do tempo maior necessário para que isso aconteça, começamos a pensar na possibilidade de encaminhar os sujeitos com essa demanda para uma psicoterapia, o que fizemos em alguns casos. Isso não quer dizer que o espaço do Plantão Psicológico não seja suficiente para que uma mudança estrutural aconteça, pois vimos que ela ocorreu em alguns atendimentos. Porém, é uma proposta de atendimento por Aconselhamento Psicológico, especialmente adequado a mobilizar mudanças situacionais, ligadas a questões que os su- jeitos trazem em um determinado momento, causa- das por algo que os aflige ou acontece agora. Essas questões situacionais se adaptam muito bem ao espa- ço dinâmico do Plantão Psicológico. As mudanças estruturais podem ser trabalhadas mais calmamente através da psicoterapia com atendimentos mais re- gulares, mais “garantidos” (porque haverá menos chance de outra pessoa estar com o psicólogo no momento da procura) e dentro de um processo que pode ser mais longo e contínuo (bem maior que o período letivo ao qual o Plantão Psicológico na esco- la está atrelado). O encaminhamento de pessoas com essas demandas para uma psicoterapia ainda possi- bilita que mais pessoas com as outras demandas sejam atendidas no Plantão Psicológico.

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Plantão Psicológico: novos horizontes

Quatro categorias de demandas dizem respeito a relacionamentos, sendo a primeira delas – “descon- fiança no relacionamentos”(3) – relacionada a relacio- namentos em geral: amorosos, de amizade, familiares etc. Compreende os casos em que o aluno tem uma pessoa de quem gosta e por quem se empenha, essa pessoa parece também agir dessa forma, mas o aluno desconfia da legitimidade dos sentimentos dos outro para com ele. Essa desconfiança vem muitas vezes acompanhada de insegurança. Já a categoria “insatisfação nos relacionamen- tos com a família” (12) envolve as dificuldades que o aluno pode ter com qualquer membro de sua família, exceto o cônjuge, que podem se modificar depen- dendo de como se coloca frente a elas. Isso é, basi- camente, o que difere essa categoria da “insatisfação com atribuições e contingências”, na qual as difi- culdades existem independentemente do aluno, como algo realmente externo a ele. Um exemplo para essa categoria 12, seria o do filho que não consegue conver- sar e ser mais próximo do pai, embora este se mostre bastante disponível. As outras categorias que envolvem relacio- namentos – “falta de correspondência nos relaciona- mentos amorosos”(8) e “falta de reciprocidade nos relacionamentos já estabelecidos”(9) – têm uma dife- rença básica que é justamente o já-estabelecimento ou não do relacionamento amoroso. A primeira categoria citada é aquela na qual os relacionamentos ainda não estão estabelecidos e uma frase que a explicaria seria:

“eu gosto de alguém que não gosta de mim”. Já no segundo caso, já há um compromisso “firmado”, de namoro, casamento, noivado etc, pressupondo-se que duas pessoas pelo menos se gostam. No entanto, ocorre que o empenho das duas neste relacionamento não é recíproco. Um se empenha mais que o outro e essa falta do outro é que traz o sofrimento. É interessante

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

colocar aqui que todas as pessoas aí categorizadas foram mulheres que se queixam dos relacionamentos com os companheiros. Por fim, resta falar da categoria “obter opinião profissional”(13) que abarca os casos em que a pessoa

procura o Plantão Psicológico realmente para obter opinião profissional sobre assuntos diversos, como educação de filhos, escolha de nomes para eles, psico- patologias de membros da família etc. O assunto de tais atendimentos não vai se tornando mais pessoal

ou profundo, embora os atendimentos possam durar

mais de 40 minutos. Nestes atendimentos, às vezes,

temos a impressão, que estas pessoas têm uma outra questão ou incômodo embutidos no que expressam.

A sessão poderia ter um desenvolvimento baseado

nisso, porém, em todos aqueles casos isso não acon- teceu, talvez porque a demanda principal dos sujeitos fosse realmente obter informação. Era claro que as pessoas que nos procuravam com esta demanda queriam de nós uma resposta às suas indagações. Nesses momentos, nos firmávamos em nossa posição de escuta aberta, empática e centrada na pessoa, mas sem nos esquecer de que seria ela própria quem deveria encontrar seus próprios recursos para lidar com suas dúvidas e angústias. Tentávamos sempre remetê-las a si mesmas, aos seus sentimentos em relação ao seu “dilema” e à sua capacidade de resolvê-lo, o que às vezes era bem difícil de se fazer e caíamos na tentação de dar respostas. A maior parte das pessoas que procurou o Plantão Psicológico com essa demanda obteve a informação que buscava. Algu- mas voltaram para outros atendimentos já com outras demandas.

ACEITAÇÃO DA PROPOSTA E MOBILIZAÇÕES

Partindo da consideração de que nosso trabalho é uma proposta inovadora, ou pelo menos desconhecida,

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Plantão Psicológico: novos horizontes

tivemos um retorno positivo; as pessoas mostraram ter entendido a proposta e mais do que isso a aceitaram, colocando-se à disposição para que ela funcionasse, e apostaram nisso. Não foi necessário esperar o término do trabalho para constatar essas evidências: a resposta à nossa presença apareceu durante o decorrer deste. Algumas mudanças perceptíveis mostraram isso. Um fato muito interessante aconteceu: a vice- diretora nos procurou pedindo ajuda psicológica, disse que gostaria de conversar com um dos estagiários sobre as questões que a incomodavam naquele momento de sua vida e que influenciavam seu trabalho na escola. Comentou que ao ver ao alunos se mobilizando para buscar atendimento deu-se conta de que ela também tinha aquela necessidade mas não estava podendo reconhecê-la até então. Diante desse pedido nos mantivemos firmes à proposta de prestar atendimento apenas aos alunos. Mas não deixamos de pontuar – também consonantes à proposta – que era muito importante que ela estivesse procurando ajuda nesse momento que ela julgava crucial, e que a iniciativa de se cuidar era valorizada e reconhecida por nós. A vice- diretora pediu licença na escola e iniciou psicoterapia. Trata-se da mesma pessoa que tínhamos identificado como um fator determinante quanto ao controle sobre os alunos tão diferenciado no turno da tarde. Ao retornar no segundo semestre estava sensivelmente diferente, em seu modo de agir e inclusive na aparência, estava mais cuidadosa e flexível no relacionamento com os alunos e consigo mesma. Vimos esse fato como resultante da nossa presença propícia à mobilização em direção à mudança. Nossa escuta em relação à não -procura dos alunos do turno da tarde por atendimento, levando-nos a intervir com os cartazes, e a ter como resposta a estes a procura pelo Serviço, é indício de que podemos mobilizar também o grupo com uma ação pontual e eficaz.

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

No final do primeiro semestre fizemos um momento musical para anunciar o encerramento de

nosso trabalho na escola, para um período de férias. Alguns alunos, do turno da manhã ao nos verem tocando e cantando, se aproximaram e pediram para tocar e cantar ao microfone. A princípio ficamos surpre- sos, mas acolhemos essa iniciativa e o resultado foi uma grande integração entre nossa equipe e os alunos. Nos turnos da tarde e noite, devido ao resultado da manhã, resolvemos convidar os alunos para ocupar também aquele espaço de expressão. Alguns alunos timidamente foram se apresentando e expondo seus dotes artísticos.

A participação dos alunos dos três turnos nos fez ficar

atentos para como o Plantão Psicológico vinha susci-

tando neles a iniciativa de se expressarem, de se mostrarem sujeitos, além do espaço da “salinha” Plantão. Foi surpreendente ver a repercussão que esse momento teve entre os professores. Um aluno que era margina- lizado pelos colegas e desqualificado pelos professores, por não ter um bom desempenho escolar, e que dizia tocar vários instrumentos musicais – o que alguns não acreditavam – teve sua imagem mudada, a partir desse dia, ao se aproximar de nossa equipe, no “palco” improvisado, e tocar algumas músicas ao teclado. Todos

se

impressionaram com seu dote artístico e o aplaudiram

e

elogiaram muito. A partir de então, pelo menos os

professores, passaram a vê-lo como uma pessoa, dotada

de

outras capacidades, além de ser mais um aluno dentre

os

outros. Em uma reunião do corpo docente, no início

do segundo semestre, foi discutida e muito valorizada essa forma de expressão dos alunos, o que inclusive deu margem à iniciativa de criar um momento musical, em periodicidade regular, em que a participação dos alunos se tornasse efetiva, podendo vir no futuro a ser assumida por eles próprios. Percebemos nesses profes- sores um movimento de reconhecimento da pessoa do aluno, com quem eles interagiam no dia-a-dia em sala

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Plantão Psicológico: novos horizontes

de aula, e da importância de se permitir que esse aluno se expresse enquanto tal. Essa mudança de atitude, também dos professores, documenta o quanto a nossa presença na escola é mobilizadora. Ainda no primeiro semestre, no encerramento, resolvemos colher informações com os alunos sobre o Plantão Psicológico. Distribuímos folhetos com a seguinte pergunta: “O que você achou do Plantão Psi- cológico? Dê sua opinião mesmo que você não tenha ido.”, e pedimos que eles respondessem e colocassem em uma urna no pátio. Queríamos saber como os alunos estavam entendendo nosso trabalho, nossa pro- posta e ter uma idéia de como estávamos sendo vistos por eles. Após a leitura de cada resposta acabamos por criar categorias que facilitassem o levantamento de um perfil do que seriam o reconhecimento, a acei- tação e a adesão à proposta do Plantão Psicológico. Algumas respostas continham o que eles reconheciam como características do Plantão, como por exemplo disponibilidade dos atendentes a qualquer hora que eles precisassem; a possibilidade de expressar-se na- quele espaço, falando de si e de suas questões; a eficácia do serviço que possibilita um resultado efetivo; o Plantão Psicológico como transformador, proporcio- nando mudanças de atitude etc. Além dessa percepção do Plantão Psicológico, falaram do uso que fizeram dele, revelando processos pessoais, ou seja, a tomada de consciência de sua postura diante do problema, e reconhecendo a repercussão do Serviço no âmbito coletivo, citando mudanças e transformações entre grupos de colegas e até na relação com a instituição. Até mesmo os alunos que não foram atendidos se expressaram com uma avaliação positiva elogiando o Plantão Psicológico. Alguns destes disseram pretender procurar o serviço no segundo semestre. Dentre esses alunos apareceram também algumas categorias que foram citadas pelos alunos atendidos.

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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

De um modo geral, vários indícios nos mos- traram a efetividade dessa proposta, tanto no decorrer do trabalho quanto no encerramento do primeiro se- mestre. Pudemos perceber nas opiniões que os alunos deixaram escritas: nos folhetos de avaliação final; no próprio retorno que eles nos davam do atendimento quando vinham nos contar como haviam resolvido sua questão, ou como lidavam com ela agora; na fala dos professores e da diretora em uma reunião com eles no fim do primeiro semestre, em que disseram ter notado mudanças em alguns alunos no decorrer do tempo em que o Plantão Psicológico funcionou; na nossa percepção subjetiva no momento do aten- dimento, em que estávamos acompanhando o movi- mento do aluno durante o percurso da sessão. Nossa presença de escuta atenta nos permitiu distinguir que há tanto pessoas que apoiam quanto aque- las que não vão se dispor a colaborar, podendo inclusive boicotar, prejudicando o trabalho. A experiência nos ensinou que é fundamental identificar as pessoas com quem podemos contar. Apostar no contato com essas pessoas é mais favorável para manter a proposta, bem como efetivá-la. Estar consciente de que é possível haver resistências faz parte do trabalho, estar atento para iden- tificá-las e atuar de modo a mostrar-lhes o benefício dos resultados é mais eficaz do que lutar contra elas. Por isso é necessário repropor continuamente a proposta. Mesmo que algumas pessoas dêem indícios de que já entenderam, outras podem continuar insistindo numa compreensão errada da mesma, como por exemplo alunos pedindo nossa interferência direta quanto a pro- blemas com professores ou direção, e professores ou diretoria pedindo nossa ajuda para aqueles que julgam ser alunos-problema. Ter firme uma postura que confir- me e reafirme a proposta inicial é elemento fundamental para mantê-la, além de intervir diretamente, quando necessário, para explicitá-la de modo claro e eficiente.

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Plantão Psicológico: novos horizontes

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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MAHFOUD, Miguel. Plantão Psicológico: por uma contribuição propriamente psicológica à educação. Resumos de comunicações científicas – XXII Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia. Ribeirão Preto: SBP/Legis Summa, 1992, p. 282.

MAHFOUD, Miguel; MORATO, Henriette T.P. & EISENLOHR, Maria Gertrudes V. O Adolescente em Movimento: plantão psicológico. Caderno de Resumos do II Congresso Interno do Instituto de Psicologia da USP. São Paulo:

IPUSP, 1993, p. P11.

MAHFOUD, Miguel, ALCÂNTARA, Tânia Coelho de, ALVARENGA, Alessandra R., BATISTA,

94

Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza

Matilde Agero, BRANDÃO, Juliana Mendanha, DRUMMOND, Daniel Marinho, MAGA- LHÃES, Romina, RIBEIRO, Ronnara Kelles, SANTOS, Ivana Carla B. C., SILVA, Lilian Rocha da, SILVA, Roberta Oliveira e. Plantão Psicológico na escola: a psicologia em campo e as respostas da comunidade. 1º Encontro das Escolas de Psicologia de Belo Horizonte. Programa e resumos de comunicações. Belo Horizonte, 1997, p. 41-42.

MAHFOUD, Miguel, ALCÂNTARA, Tânia Coelho de, ALVARENGA, Alessandra R., BATISTA, Matilde Agero, BRANDÃO, Juliana Mendanha, DRUMMOND, Daniel Marinho, MAGA- LHÃES, Romina, RIBEIRO, Ronnara Kelles, SANTOS, Ivana Carla B. C., SILVA, Lilian Rocha da, SILVA, Roberta Oliveira e. Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza. V Encontro Estadual de Clínicas-Escola. Caderno de Resumos. São Paulo:

Universidade São Judas, 1997, p. 68.

MAHFOUD, Miguel, BRANDÃO, Juliana Mendanha, DRUMMOND, Daniel Marinho, SILVA, Roberta Oliveira e. Plantão Psicológico na Escola:

facilitando o acesso a ajuda e o surgimento de demandas. VII Semana de Iniciação Científica – Caderno de Resumos. Belo Horizonte:

UFMG, 1998, p. 371.

MAHFOUD, Miguel & DRUMMOND, Daniel Marinho. Site Plantão Psicológico: mensagens recebidas, necessidades explicitadas. VII Semana de Iniciação Científica – Caderno de Resumos. Belo Horizonte: UFMG, 1998, p. 371.

ROGERS, Carl R. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.

95

Plantão Psicológico: novos horizontes

96

Pesquisar processos para apreender experiências:

Plantão Psicológico à prova

Miguel Mahfoud Daniel Marinho Drummond Juliana Mendanha Brandão Roberta Oliveira e Silva

1 Agradecimento aos que trabalha- ram na elaboração dos dados que deram origem ao presente texto:

Alessandra R. Alva- renga, Ivana Carla B. C. Santos, Lilian Rocha da Silva, Matilde Ageri Ba- tista, Romina Ma- galhães, Ronnara Kelles Ribeiro e Tânia Coelho de Alcântera.

No capítulo anterior relatamos nossa experiência em Plantão Psicológico em uma escola de Belo Horizonte, Minas Gerais, onde apresen- tamos evidências da eficácia da proposta de Plantão em contexto escolar e identificamos nossa presença como mobilizadora. Buscando uma leitura abrangente, consideramos não apenas os resultados no âmbito individual, entre os alunos que atendemos, como também no âmbito coletivo, ou seja, como a instituição recebeu e respondeu à nossa

presença. Estávamos 1 , no entanto, interessados em

presença. Estávamos 1 , no entanto, interessados em compreender melhor como ocorriam os atendi- mentos, em

compreender melhor como ocorriam os atendi- mentos, em cada sessão, com cada pessoa que nos procurou. Queríamos entender o processo em si de cada atendimento, apreender o movimento do que acontecia no momento em que a pessoa estava diante de nós (cf. Mahfoud, 1989). Buscamos identificar no atendimento clínico, propriamente dito, quais as suas

97

Plantão Psicológico: novos horizontes

fases, as mudanças de rumo e o movimento que a pessoa realizava durante a sessão. Sabíamos que nossa presença era mobilizadora no sentido de fazer a pessoa entrar em contato consigo mesma e pensar mais claramente acerca da questão tra- zida, explorando mais amplamente seu problema e assumindo uma posição diante dele. Segundo a Abor- dagem Centrada na Pessoa o nosso papel era o de um ouvinte ativo, a pessoa era quem conduzia o próprio processo e nós “apenas” a acompanhávamos, o que não quer dizer que seja pouco. Um olhar minucioso sobre o processo poderia nos informar quais movimen- tos a pessoa fazia no decorrer do atendimento, permi- tindo-nos visualizar passo a passo o que existia nesse tipo de atendimento. Partimos, então, para uma investi- gação mais detalhada do processo de atendimento.

DESCRIÇÃO INICIAL

Como nosso material de pesquisa utilizamos relatórios escritos pelos estagiários que haviam realizado os atendimentos, que descreviam como tinham transcorrido as sessões. À medida em que líamos os relatórios, buscá- vamos identificar fases que emergiam destes, corres- pondentes ao movimento do cliente em relação à sua demanda. Se por exemplo, o aluno contasse porque estava procurando nossa ajuda e em seguida começasse a falar sobre formas como já tinha agido frente à sua questão, identificaríamos duas fases. Os relatórios que não nos permitiam ter uma visão do processo do atendimento, desta movimentação do aluno, foram excluídos da análise, para que tivéssemos um maior rigor na pesquisa. Ficamos então com 56 relatórios de sessões, que descreviam 37 casos de alunos atendidos. Destes 37 casos, 27 consistiram de uma única sessão e 10 de mais de uma (entre 2 e 6 sessões).

98

Pesquisar processos para apreender experiências

DE DESCRIÇÃO DE CASOS A APREENSÃO DE FASES DO PROCESSO

Inicialmente, as fases que íamos identificando, eram descritas como no exemplo seguinte:

1) lança dúvida: deixar ou não a escola devido às dificuldades com matemática.

2) diz que já havia conversado com a professora sobre a dificuldade e esta deu sugestões que ele não seguiu. 3) diz que trabalha e da dificuldade de organizar seu tempo (não estuda em casa).

4)

etc

Este tipo de descrição parecia-nos um resumo do atendimento, apresentando demasiadamente o conteúdo específico da questão trazida por aquele aluno em particular. Para atingirmos nosso objetivo, era-nos interessante encontrar uma mesma expressão que fosse capaz de descrever fases similares em atendimentos diferentes, mesmo que o conteúdo específico fosse outro. O aluno podia ter procurado o Plantão Psico- lógico por estar triste com a morte de alguém ou porque não sabia se deveria sair da casa dos pais ou não; em qualquer destes casos ele estava falando do motivo que o havia levado a buscar ajuda. Para este momento buscamos encontrar uma expressão. Assim colocamos lado a lado as fases que havíamos encon- trado em cada relatório, buscando expressões que fossem capazes de abarcar momentos similares com conteúdos diversos. Assim, a expressão 1 do exemplo acima foi classificada como “AQ – Apresenta a Questão”. As expressões 2 e 3 foram classificadas em conjunto como “EQ – Explora a Questão”. Reunimos um conjunto destas expressões, que à medida em que eram criadas substituíam as frases que havíamos separado em cada relatório.

99

Plantão Psicológico: novos horizontes

A primeira fase, na maioria dos atendimentos, foi a que chamamos “AQ – apresenta a questão” na qual

o aluno diz porque veio, qual é o seu problema ou

dificuldade e às vezes diz o que espera dos plantonistas.

Um exemplo: Raquel chegou dizendo que queria mostrar algumas coisas aos plantonistas. Queria saber

se podiam dar uma opinião. Tirou vários documentos

da bolsa, enquanto explicava o caso de seu irmão que havia desaparecido. Após apresentar a questão, o sujeito geralmente “apresenta a história (da questão) – AH”ou “explora a questão

– ExQ”. Na apresentação da história, o sujeito conta os precedentes de sua questão até o momento atual, temporalmente e, na exploração, ele mostra vários

âmbitos atuais da questão, explorando-os, explicando- os. No exemplo de Raquel, esta, após o AQ, passou a explorar o assunto do desaparecimento do irmão, dizendo que apesar de provas policiais de que ele estaria morto e da família acreditar nisto, ela não acreditava e tentava provar para a polícia que ele estava vivo. Se ao invés de explorar a questão, apresentasse a história da questão, ela poderia contar vários acontecimento desde

o desaparecimento até o momento presente. Alguns clientes não apresentaram uma única questão. Quando o aluno apresentou mais de uma, quase que simultaneamente, utilizamos a expressão “AV – apresenta várias questões”. Se este então passou a se debruçar mais sobre uma questão específica dentre as que havia trazido, categorizamos como “ElQ – elege questão”. Em outros casos, alunos que já haviam apresentado uma questão (AQ) apresentavam uma nova, seja após explorar a questão inicial (ExQ) ou mudar de perspectiva (MP – ver abaixo) em relação a esta. Para estes casos a expressão “OQ – outra questão” foi atribuída. Uma outra possibilidade encontrada refere-se aos casos em que após apresentar uma questão (AQ) o aluno a ampliou, ou seja, manteve a

100

Pesquisar processos para apreender experiências

mesma questão mas englobava novos aspectos de sua realidade nesta: chamamos de “AmQ – amplia a questão”. Outras expressões que utilizamos, para nomear fases foram:

“PI – pede informação” – a questão do aluno era um pedido de informação do tipo “Se eu der para o meu filho o nome do meu marido faz mal?”. Estes pedidos de informação terminaram sempre com

a “obtenção da informação – OI”.

“RA – reafirma atitude” – quando o aluno reafirma a atitude que tinha frente ao problema, ou à nova ati- tude que havia assumido em uma sessão anterior.

“NC – não comparece” – o aluno marca uma sessão, falta

e retorna para uma nova sessão. É diferente do caso

em que o aluno marca, falta e não retorna mais, o que encerraria o processo, pois nos casos aqui incluí- dos entendemos o não-comparecimento como parte do processo.

“RQR – relata como a questão se resolveu” – se aplica aos casos em que entre uma sessão e outra ocorre uma mudança na situação do aluno, mudança esta que resolve para este a questão que ele tinha. Um exemplo é o caso do aluno que namorava uma garota mas estava “ficando” com outra e se preo- cupava pois havia uma possibilidade da namorada “oficial” estar grávida. Ele retorna ao Plantão Psicológico para uma nova sessão dizendo que a namorada não estava grávida, ou seja, esta questão estava resolvida e não havia por que se preocupar. Mas este fato não eliminou sua questão em relação

a estar com as duas pessoas, o que o faz retomar

esta questão, já discutida em um atendimento ante- rior. Este tipo de retomada foi chamado “RQ – retoma questão”. “RQ – retoma questão” (explicação dada no exemplo acima). “RCA – relata como agiu” – após o aluno ter compareci- do a uma sessão ele retorna para contar como agiu

Plantão Psicológico: novos horizontes

frente à questão colocada. Estes casos aconteceram após um “DA – decide agir”, uma “MP – mudança de perspectiva” ou após um “PR – propõe-se a refletir”. “PR – propõe-se a refletir” – esta categoria foi usada na situação que ocorre ao término de uma sessão quan- do o aluno disse que ia pensar sobre o que havia conversado com o plantonista. Em todos estes casos os alunos retornaram para uma nova sessão. “AP – apresenta possibilidades” – quando os alunos apre- sentavam uma ou várias maneiras possíveis para lidar com sua situação ou resolver seu problema, utiliza-mos esta expressão.

FASES DE ENCERRAMENTO DO PROCESSO

Quanto aos encerramentos de atendimentos, identificamos uma tríade de fases bastante indicativa do desfecho do movimento percorrido pelo sujeito ao longo do processo. São elas:

“MP – mudança de perspectiva”: diz respeito a uma mudança na forma de enxergar a questão apre- sentada que passa a ser vista sob outro prisma, outra perspectiva; muda a idéia que o sujeito tem sobre sua questão. Nesta fase, a ênfase está na questão, que passa a ser vista de outra forma. No exemplo de Raquel apresentado anteriormente, ocorreu a MP após uma “I – intervenção” decisiva do plantonista (note-se que isto não é uma regra, embora aconteça em alguns casos). A aluna dis- cutia se o irmão estava vivo ou morto mas tam- bém falava de como ele era importante na vida dela. O plantonista interviu dizendo que inde- pendente do fato do irmão estar vivo ou morto, pelo que falava ele fazia uma falta muito grande na vida dela, já que não estava mais com ela. Neste momento a conversa mudou de rumo e a questão não era mais se ele estava vivo ou não. Como todo o processo de atendimento pode

102

Pesquisar processos para apreender experiências

ser considerado uma intervenção, apenas denomi- namos com a letra I aquelas intervenções que haviam sido bem marcantes, já que após estas a sessão mu- dou de rumo. As outras intervenções que não tinham esta característica específica também podem ter feito parte do processo e ajudado. “ANA – assume nova atitude”: acarreta lidar com a questão de forma diferente, assumir uma atitude diferente diante do problema. A ênfase está no sujeito diante de sua questão. A aluna Raquel, nessa fase, logo após a MP, disse que se o irmão estivesse vivo, um dia iria aparecer pois “quem tá vivo sempre aparece” o que nos leva a pensar que ela está considerando que, no momento, ela deveria aceitar sua ausência e que ela poderia chegar a saber se ele estava vivo se ele voltasse algum dia. “DA – decide agir”: é observada quando o sujeito ex- pressa sua intenção de agir em relação àquela questão de modo a tentar resolvê-la. A ênfase está na ação que o sujeito expressa. “DA” é comum em demandas que exijam ação para serem resolvidas como “difi- culdades em fazer escolhas/decisão” ou dificuldade nos relacionamentos e mais raras em demandas de “elaboração de perdas” nas quais, às vezes, “assumir nova atitude” já é suficiente para a elaboração de uma questão. Nosso exemplo, apesar de ser da de- manda “elaboração de perdas”, mostra essa fase quando a cliente disse que não iria mais ficar procu- rando a polícia e questionando-a sobre o desapare- cimento do irmão, como fazia antes.

UM PROCESSO: UMA SEQÜÊNCIA DE FASES

A seguir apresentamos um caso ilustrativo da seqüência de fases AH-AQ-ExQ-MP-ANA-DA. 2 :

Uma aluna chega apresentando a história de sua questão (AH). Conta que namorava um primo quando morava em São Paulo e que a mãe não gostava dele.

2 É importante assinalar que só porque este caso estava suficiente- mente detalhado e bem descrito em um relatório de atendi- mentos, de acordo com a ordem crono- lógica em que os fatos foram sendo relatados, é que essa análise por fases pôde ser feita.

com a ordem crono- lógica em que os fatos foram sendo relatados, é que essa análise

103

Plantão Psicológico: novos horizontes

Veio para Belo Horizonte pensando que iria ficar mais fácil o namoro à distância. Namoraram du- rante três anos dessa forma e diz não saber como conseguiu. Logo conclui que foi porque eles termi- naram muitas vezes neste período. Sofreu muito por sua causa (“ele pisou muito”). Um vez ele esteve em

sua cidade num final de semana e só ligou para falar que estava ali: não quis se encontrar com ela, não ligou novamente e foi embora. Após todo esse relato a aluna apresenta sua questão (AQ): no início da semana (em que foi feito o atendimento) ele havia ligado dizendo que estava pre- cisando da ajuda dela e que queria vir à Belo Hori- zonte para falar-lhe. Pediu que ela pensasse e telefo- nasse para dar a resposta. Não sabia o que fazer. Essa

é uma demanda classificada como “dificuldade em fazer escolhas/decisão” 2 .

A

2 Confira classifica- ção de demandas no capítulo Plantão Psicológico na es- cola: presença que mobiliza, dos mes- mos autores do presente capítulo, neste livro.

seguir, a aluna passa a explorar a questão

(ExQ): Fala que contou o caso para muitas pessoas e

só uma sugeriu que ela o deixasse vir. A princípio, ela diz que não sabe se quer que ele venha; está há um mês namorando um outro rapaz que estuda em sua escola

e está percebendo o quanto é bom ter um namorado

por perto. Antes não ia a festas, pois todos iam acompa- nhados e ela ficaria sozinha. Quando perguntavam se ela tinha namorado, dizia que sim e que ele morava em São Paulo. Durante o atendimento, ela passou a dizer que quer “dar um tempo” naquele relaciona- mento e que em São Paulo, existe muita gente a quem ele pode pedir ajuda, e que se ele estiver com um problema pessoal ela não quer saber. Além disso, disse temer que a vinda dele atrapalhasse o namoro com o atual namorado.

A partir dessa exploração da questão, a aluna

consegue mudar a perspectiva (MP): diz que não sabe

o que fazer, mas sabe que não quer encontrar o ex-

namorado agora. Acha que o que ele está querendo é

104

Pesquisar processos para apreender experiências

voltar pra ela, o que ela não deseja porque não “tem nada para dar certo” e porque ela está com outro namorado. Com essa nova perspectiva, a aluna consegue assumir nova atitude diante da questão (ANA), a atitude de quem não quer encontrar o ex-namorado por três motivos que ela consegue explicitar: a possibilidade de atrapalhar o novo namoro, no qual ela quer investir; se o ploblema do ex-namorado for pessoal e não tiver relação com ela, que ele procure outra pessoa para ajudá-lo; ela quer interromper o relacionamento deles. Neste exemplo, as fases MP e ANA são muito ligadas e, na verdade, elas quase coincidem já que, a atitude da aluna foi imediatamente transformada quando ela mudou a perspectiva de sua questão. Lembramos que a maneira de se distinguir as duas fases está no foco central do movimento do sujeito: na fase MP, o foco é a questão, vista sob outra perspectiva, e em ANA, o foco é o sujeito com uma nova atitude frente à questão. A última fase desse atendimento é a do “decide agir” na qual a aluna expressa que iria ligar para o ex- namorado dizendo que iria viajar no final de semana (como sua madrinha havia sugerido) e que, na segunda- feira, ligaria novamente dizendo que não queria que ele viesse procurá-la e diria os três motivos.

BUSCANDO UM PADRÃO

Após categorizarmos todas as fases dos processos passamos a buscar algum padrão na se- qüência em que essas fases apareciam. Ao se examinar o conjunto dos casos que tínhamos com as fases ca- tegorizadas, vimos que existem algumas que apare- cem com a primeira dos atendimentos que se repetem para a grande parte de casos, como as fases AQ, AH ou AV. Vimos também que, ao final dos atendimentos cujas questões estavam sendo mais bem

Plantão Psicológico: novos horizontes

TABELAI

   

Sessões

 
 

Demanda

Pessoas

Atendidas

Analisa-

das

 

Processo de Cada Pessoa

1.

Arrependimen-

   

1. AQ - ExQ

to e culpa

2

2

2. AH - AQ - ExQ - DA

2.

Busca de

     

1. RA

reconhecimento

2

3

2. RCA - ExQ - RQ RQ - ExQ

3.

Desconfiança

     

nos relaciona-

00

 

-

mentos

 

4.

Dificuldade

   

1.

AQ - AH - ExQ RCA - ExQ RA

com drogas

1

4

- ExQ MP RCA

5.

Dificuldade

     

com escola

00

 

-

     

1.

AH - AQ - I - AmQ - ExQ - PR

RCA - MP - OQ RQR - RQ - AP RCA - ExQ OQ - ExQ RQ - I -

6.

Dificuldade em

MP - DA

escolhas /decisão

4

11

2. AQ - AH - ExQ

3. AQ - AH - ExQ - MP - ANA - DA

4. AQ - AH - ExQ - MP - PR AP -

MP - DA

     

1. AQ - I - AP - OQ - I - AP - OQ - AP

7.

Elaboração de

4

4

2. AQ - ExQ - I - RQ - MP - IQ - ANA

perdas

3. AQ - ExQ - I - MP - ANA - DA

   

4. AQ - AH - I - MP - ANA

8.

Falta de

     

correspondência

nos relaciona-

1

1

1. AQ - AH - OQ - RQ - MP - I

mentos amorosos

     

1. AH - AP - RQ - ExQ - MP RA

2. AQ - AH - ExQ - ANA

9.

reciprocidade nos

relacionamentos

amorosos já

estabelecidos

Falta de

6

9

3. AQ

4. AQ - AH - ExQ - AP - I - DA

RCA - MP - ExQ - ANA - DA RA

5.

na demanda 12, caso 3

AV - ElQ - I - MP - DA continua

6.

AV - I - ElQ - ExQ - MP