Sei sulla pagina 1di 18

CIP-Brasil . Catalogação-na - fonte

S ind ica t o N acional dos Editore s de Livro s , RJ .

Um a questão de gênero / Albertina

de Oli v eira Costa, Cri s tina B r us c hini,

Q 5 4

- Ri o de Janeiro : Ro s a dos Tempo s ;

S ão Paulo: Fundação Carlos Cha g a s ,

199 2.

Bibliografia.

I S BN 8 5-85363-42 -8

I

. Mulheres - Condições sociais.

2

. Feminismo. 3 . Mulheres -

Estudos. I . Costa, Albertina de Oliveira. 11. Bruschi n i, Cristina .

 

CDD -

305 . 42

9

1-0 9 12

CDU -

3-055 . 2

.

Cop y right © 1 9 92 b y Al b e r t ina G. d e Oli v e i ra Co s ta e Mari a C r istin a A r a nha Br u s chini

Copidesque: Tina Amado

Capa : Pa t r í cia Li ma Diagramaç ão: Sônia Regina Duarte de Paula

R e v i são: C ris tin a Po ss idente , João Henrique de Assis Machado,

R

osan i Santos Ro s a M oreira, Antonio dos Prazeres, Fabiano Antônio Coutinho de Lacerda

 

Di

r ei t o s e x clu s i v os de publicação adquiridos pela ED I TORA ROSA DOS TEMPOS

Rua da

Candelária , 9 - gr . 407 -

Rio de Janeiro, RJ -

20091

Te! . : (021) 233 - 8492

Distribuição exclusiva da

DI S T RIBUIDORA RECOR D DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S . A.

Impresso no Brasil pelo Sistema Cameron da Divisão Gráfica da

D IS TR IBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.

Rua A rgentina 1 7 1 -

209 21 R i o d e Janeiro, RJ -

Tel . : 580 - 3668

P ED ID OS PE L O REE M BOLSO POSTAL

Cai xa P o stal 23 .05 2 -

R i o de Ja n e i ro , R J -

2 09 22

S UM Á RIO

6

II

II

I N I ,' M N A E N C RUZ ILHADA DA M ODERNIDADE

I

1 '( , M O D ' RN I DA D E

15

1111

rj

II M I N I . ' M ,A A D EM IA E INTERDlSCIPLlNARIDADE

l . l u a not t a Machado

24

II () I I A b M É TOD O DOS ESTUDOS FEMINISTAS : PERSPECTIVA

1 1 1", r R I C A E HERMENÊUTIC A DO COTIDIANO

39

M a r i a Odila Leite da Silv a Dias

V

(I , I l S T UDOS S OBRE MULHER E LITER A TURA NO BRASIL: UMA

! ' I U M ' IRA AVALIAÇÃO

54

He loís a Buarque de Hollanda

h \ Z N DO G Ê NERO? A ANTROPOLOGI A D A MULHER NO BRASIL

Ma ria Luíza Heilborn

I

93

I

M V I ME NTOS SOCIAIS: ESPAÇOS PRIVIL E GI A DOS DA MULHER

N Q U A NTO S UJ E ITO POLÍTI CO

1 27

Cé li R e g i n a Ja rd im P into

:

D U C AÇÃ O FORMAL E M U LHER: U M BALANÇO PARCIAL

 

DA BIBLIOGR AF I A

151

Fúl v ia Ro s emberg

R

E A RTI C UL A NDO GÊNERO E CL A SS E S OCI A L

183

/

Heleieth I . B_ Saffioti

 

D

O F E M ININO AO G Ê NERO : A CON S TRU ÇÃ O DE U M OBJETO

216

Mary G. Castro Lena La v inas

O TR A B A LHO C O M O LING UA GEM: O G Ê N E R O DO T RA B AL HO

Elisabeth Souza Lobo

LUGAR E IM A G E M D A MULHER ' N A INDÚ S TR IA

Arakcy Mart in s Rodrigues

2 66

v

252

o USO DE ABORD A GENS QUANTIT A TIV AS E M P ESQUISAS SOBRE RELAÇÕES DE GÊNERO 289

Cristina Bruschini

/

HONRA, HUMOR E RE LA ÇÕ E S D E GÊ N E R O: UM E S T UDO DE c f s o 310

Claudia F o nse c a

AS A UT ORAS 334

PENIN, Sonia T. de S. Cotidiano e escola: a obra em constru ção . S ão P 1111 11 Cortez, 1989.

PEREIRA, Luís. A escola numa área metropolitana: crise e r a cio n a l i z ar ( \ " uma empresa pública de serviço. S ã o Paulo: Pioneira, 196 7 .

o O magistério primário numa sociedade de classes. São P a ul o : P lo lI ll ra, 1969 .

PINTO, Regina P. O livro didático e a democratização da e scola. S ão P 1 1!l II , 1981. Dissert. (mestr.) FFLCH/USP.

o A imagem da mulher através dos livros didáticos. Bol e tim B i b t to w ul! co Bibliot e ca Mário de Andrade , São Paulo, vA3 , n.3 / 4 , p . 1 2 5 - 3I , jul. / t I ' I

1982.

REVISTA ANDE. São Paulo, v . 1, nA , 1982.

RIBEIRO, Maria Luiza S . A formação politica do professor no ex e r cíci o 1 " fi fiss i onal, anos 70. São Paulo, 19 8 3. Te s e (dout.) PUC-SP.

o Movimento de profe s sores: as greves de 78 e 79 no Estado d e S ã o 1 ' 1 111 10. Revista ANDE, São Paulo, v . 1, nA, p.26-34, 1982.

ROSEMBERG , Fúlvia. As diferenças sexuais e a escola. Ciência e C ultur a ( I t l sumos SBPC)" , São Paulo, v.27, n.7 supl. , p. 698, jul. 1975.

ROSE M BERG , F ú lvia, NEGRÃO, Esmeralda V . , PINTO, Re g in a P . IIt't!/I cação da mul m r no Bra s il . São Paulo: Global, 1982.

ROSE M BERG , Fúl v ia , P IN TO, R e gin a P. A e ducação d a m u l h er . SUo 1 ' 1 \11

1

0 : N ob e l; CEC F, 19 85 .

R O S E M B E RG, Fúl v i a, P I Z A, E dith P., M O N TE NEGRO, Th er e za . /\fl/lh,'1 e Edu c a çã o formal no Bra s il: e st ado d a arte e bibliografia . B ra s í l i a REDUC ; INPE, 19 9 0 .

SAFFIOTI , Heleieth LB . P rofissionali z ação feminina: profe s s o r a s pr Í lII I ' 1I 1 1 1 e oper á rias. Ara ra qu a r a, 1 969. mim e o. Faculdade de F iloso fia, C i\, ; I I \ , 1 1I\ Le t r a s de Araraquar a .

SILVA, Tereza R. (Rose ) d a . Influência s teóri c as do ensino e cur r í cu l o n o 1 1111\I Cadernos de Pesquisa , S ã o Paulo, n . 70 , p . 5-19 , ago. 198 9.

W

A LKERDINE, V. Se x, power , and p e da g o g y. Scre e n Edu ca t i on , L o mlu , n.30 , 1981.

W

E I LER, Kathleen. W om e n teachin g for change: gender , c lass , and p 11 W1 1

. Mas s a c husetts: Bergin and Gar v ey,

1988 .

WEIS , Loi s (ed.) Class , race and gend e r in American education . N ov a 1 1\111 /11 Stat e University o f New York Press, 1988.

ZIBAS, Dagmar M . L. Rela ç ão professor aluno no ensino de I? Gr au . U"I'/I/I/, ANDE, São Paulo, v.l, nA, p.57-9 , 1982.

1

8 2

REARTICULANDO GÊNERO E CLASSE SOCIAL

Heleieth I. B. Saffioti

Há aproximadamente uma década e meia, feministas de fala in- glesa têm utilizado o conceito de gênero. Embora tal conceito se situe na esfera social, diferentemente do conceito de sexo, posicionado no plano biológico , não há propriamente consenso no que tange à sua ar -

mação. Esta consti tuirá uma questão central ne s t e trabalho, já que é necessário fixar um uni v er s o comum de discurso quando se trab a lha

c om conceitos não-unív ocos.

Antes, porém, s eria interessante remeter o leitor a outra postura, qual seja, a da recusa da utilização do referido conceito. Michele Fer- rand (1989) procedeu a um levantamento bastante extenso da literatu- ra feminista francesa , tendo verificado o amplo uso do conceito de

r ~ sociais de se x o, Esta expressão figura no próprio título das

A ctes de Ia Table-Ronde Internationale des 24 - 25-26 Novembre 1987:

Les rapports sociaux de sexe : problématiques, m é thodologies, champs

d'analyse (1988).

.

A esse respeito , s eria interessante sublinhar que, para muitas fran- cesas, o próprio se x o não se inscreve puramente no terreno biológico, mas sofre uma elaboração social, que se pode negligenciar sob pena de naturalizar processos de caráte r histórico. Eis porque cabe atentar para o processo de naturalização do significativo elemento da dominação-exploração exercida pelos homens sobre as mulheres, cuja intensidade varia de sociedade para sociedade e de época para época.

Não se deseja levantar aqui uma di s cussão que se considera inútil,

ou s eja , sob r e a hi pótes e de terem e x i s tido sociedades com dominância

f e min i na. Toda s a s s ociedades realmente conhecidas re v elam dominân-

1

83

'i~<

( ~

'\

\ ' , , ~ ~ ia masculina, ainda que esta dominância varie de grau. Engana - s e Ba -

. ~ ~ . ~ dinter (1986";2? parte, sobretudo I? capítulo) quando revela a c r ed i t ar

1 'i:/-.y ~ num "patriarcado absoluto", no qual os homens deteriam, por " co n -

tfiSCO ", todos os poderes. A relação de dominação-exploração n ão pr c -

':Y ~ sume o total esmagamento da personagem que figura no pól o d e

dominada - explorada. Ao contrário, integra esta relação de m a n eira constitutiva a necessidade de preservação da figura subalterna. Su a s u - _ !'.aiternidade, contudo, não significa ausência absoluta de pode r . CO I 1l .réfeito, nos dois pólos da relação existe poder, ainda que em do s es t r c .~ mendamente desiguais. Que esta desigualdade não induza o leitor a pcu - ,'&ili- numa relação de hieranuIi: ÇqUãnC J õSeTrã ta, como Se verá adi a n t e.

.

j

~

V ' úY~: uma relação contraditória, Em toda S - ã s To cied à des conhecid as, a s

m ú lheres detêm parcelas de poder, que Ihes permitem meter cunh a s 1111

)1 supremacia masculina e, assim, cavar - gerar espaços nos interstíci os du

?, falocracia. As mulheres, portanto, não sobrevivem graças ex c lu s i va mente aos poderes reconhecidamente femininos, mas também m cr c da luta que travam com os homens pela ampliação - modificação d a c s trutura do campo do poder tout-court, Como na dialética entr e o c s cravo e seu senhor, homem e mulher jogam, cada um com seus p od er e s .

o primeiro para preservar sua supremacia, a segunda para torn ar m e nos incompleta sua cidadania.

Já que as reJ r d çõesentre homens e mulheres estão permead as p e l o

poder, seria interessante buscar um conceito adequado dest e fenôrnc no, a fim de não se utilizar um conceito multívoco sem um a r ig o r o sa definição. É grande a tentação de se fazer uso do conceito w eb e r ia u o de poder: "Poder significa a probabilidade de impor a pró pri a vo n t n de, no interior de uma relação social, mesmo contra toda a resistência

e qualquer que seja o fundamento desta probabilidade" (W eber , 1 9M .

p . 43) . Não fora a impossibilidade de se retirar um conceito típ i co - id en l é, portanto, genético , de seu contexto teórico (Franco, 197 2 ), o CO I I ceito weberiano de poder seria extremamente útil, posto qu e : 1. C O II

trariamente ao conceito de dominação , contém a não-anuência

dominados, podendo contar inclusive com sua resistência ; 2. n ã o Í111

porta a existência ou não de legitimidade da referida prob abili d a d e ,

também contrariamente ao conceito de dominação, que press up õ e

diência a um mandato legítimo, seja do ponto de vista da tr ad iç ão , d i l razão ou do carisma.

O conceito de poder em Marx (1952, 1963) está intimam e n t e vi u culado à classe social e ao exercício de sua missão histórica . É b em VCI dade que Marx e Engels (1953) e sobretudo Engels (1954) t rat ar a m t i l ' atribuir às relações de gênero o mesmo estatuto teórico co nf erid o I'lo~ classes sociais. Com efeito, afirma Engels: "Em um velho manuscriro inédito [L 'Idéologie Allemande] escrito por Marx e eu mesm o em I H/I(t. eu encontro estas linhas: 'A primeira divisão do trabalho é aqu e l a cx i s tente entre o homem e a mulher para a procriação . ' E ago ra eu p o s s o

doo~

o h c

<J84

C /l l t 00 f ? ) A ,' P~YD 1if J - ,

"

\)1 ) \ li

t

I I' Ir.

( ; . v '

Vl l ll ;

t i '

/ ' r , 1 " h

' 'L A VI :

- I J

dr

o., / ,

P I k " ~ ! * I y'/

o,

,/1 • . o

/

I

.',

"

V _

'-.

'_, ,I

••

y'l

~ w M7 C

"

'."

\

ac rescentar: a prim ~ ira oposição de classe que se manifesta na história

c oincide com o desenvolvimento do antagonismo [notar o caráter con-

tr a ditório atribuído às relações de gênero] entre o homem e a mulher

no casamento conjugal e a primeira opressão de classe, com a opres-

s ão do sexo feminino pelo sexo masculino" (Engels, 1954, p.64-5).

Obviamente, não se pode pretender que há quase século e meio se tivesse a compreensão que hoje se alcançou da problemática de gê- nero, O importante a sublinhar consiste na atribuição do mesmo esta-

tuto teórico ao conceito de classe social e ao conceito de "opressão do sexo feminino pelo sexo masculino" ou, em linguagem moderna, rela- ções sociais de sexo ou relações de gênero, segundo a orientação meto-
dológica,

Não é, contudo, fácil lidar com o conceito de poder em Marx e Engels, já que não são explicitadas as dimensões dominação e explora- ção, nem é precisado o conceito de opressão. Conteria este as dimen- sões referidas ou teria um significado distinto? Desta sorte, ainda que incorporando o importante fato da atribuição do mesmo estatuto teó- rico ao conceito de classe social e ao conceito de relações de gênero

~ e considerando-o de extrema relevância, descarta-se a hipótese de tra-

~

balhar com o impreciso conceito de poder em Marx e Engels.

---

_-

Parece útil o conceito de poder formulado por Foucault (1976), qual seja, o de constelações dispersas de relações desiguais, discursivamente l constituídas em campos sociais de força . Esta concepção de poder per- '

mite a análi s e do fenômeno em p a uta quer a nível macro, quer a nível ,' micro. Eis porque sua utilização é vantajosa . É discutível a possibilida- de de uso do conceito de poder em Marx e Engels nos níveis menciona ' :

dos, já que não se estabelecem fronteiras entre grupamentos verticais e horizontais. Como os espaços de poder da mulher se inscrevem muito

mais no PlilllO J n 1crS:l

gerado s através da introducão de cunhas 110poder macho, o conc é i f õ' f õ r >

Q 1 I

ê ho i : i lmácranõ õ , i i 1 C 1 iIS i v e bs e spaços. cavados

mntallÜpõ r Foucaul _--_ t adequa-se mais aos prop Ó sitos deste trã õ a llTo : - -

- - - - - i sto posto, deve - se explicitar, para o caso de não haver ficado cla- ro, que as relações sociais de sexo ou as relações de gênero travam-se também no terreno do poder, onde têm lugar a exploração dos subor- dinados e a dominação dos explorados, dominação e exploração sen- do faces de um mesmo fenômeno (Saffioti, 1988).

Acredita-se estar agora em condições de tratar de uma questão nu . clear deste ensaio, ou seja, da definição do conceito de gênero. Opta- se por operar com o conceito de relações de gênero, ao invés de rela- ções sociais de sexo, porque o termo gênero está lingüis~ ente im-

--

.

--

-

,

"p [ egnado do §

.

.ociaL, _ eQq®ntoé ne ç~ sári~ ~ R ! i ~

~ eza

sociaL

' ahor . ação

sariamente as relaç õ eS entre as categorias de sexo.

do sexo. Eis porque o termo " sociais' qualifica neces-

185

~

sla ~ on sid e f ações ceit o d ~ gênero .

A respei t o da determinação social do gênero, não se conhec e qu a l - quer conte s t a ção . Todav ia, este social nem sempre é concebido da m e s - ma mane i ra. Ao in v és de s e cotejarem concepções muito dí s pa res d e s t e

social, prefere- s e l i dar com definições bem próximas no s entido d a ~ c e i -

ta ç ão que po s sam encontrar .

b astante conhecido e que continua a merecer a aceitação de muit as f e -

ministas: "

no sent i do social nem no s e ntido biológico do termo . Um sistema d e

_ ~

permitem que se passe à ~ ificação

do con -

_

\

Remete - se o leitor para um texto an tig o,

não podemos limitar o sistema de sexo à reprodução n e m

s

do de produ ç ão ' . A f orma ç ão da identidade de . gênero é um e x e ~pl o

de produ ç ão

e

e x o / g ê ne r o

não é simplesmente o . momento

reprodutiv o de um 'm o -

no reino do s i s tema se x ual. E um sis tema de se x o/ g ê n ero

reprodução no s enti d o

n v ol ve m a i s do que as 'relações de procriação,

Dado o caráter dualista desta concepção , torna-se impossível pensar

o

gênero como rela c ional, o que tem sérias conseqüências ontológica s

e

epistemológicas.

fazer

c o ntra ela) muitas pe s soas no Ocidente contemporâneo

sexo/biologia/natureza / gênero e opõem estes termos a cultura/so-

cial/humano.

plexas para ambivalência sobre a ação humana, em , sobre e como

parte do mundo natural"

minha - se a discussão para a formulação

gênero . Como o gênero é relacional,

ca ID!e- L en q uanto processo social , o concei t o de relações de gênero deve ser capaz de captar a trama de relações sociai s , bem como as trans-

forma õ e s . h t s t õ t í camente

enca-

Conceitos de gênero, então, tornam - se metáforas com -

"Para

'sal v ar '

a natureza

(do que nós próprio s podemos

equacionam

(Fla x , 1987, p.635) . Nestes termos ,

do conceito

de relações de

quer enquanto categoria anal í ti- Y/

c

. atra v és do s mais d is tintos ' c

por ela s ofridas

.

.

biológico '. (

) O si s tem a de s e x o / g ê ne r o não é imutavelm en t e op r es -

 

P r ocessos

sociais , trama esta na qual as relações de gênero têm lugar

s

ivo e tem perdido

mu it o de sua função tradicional .

Ent r etan to ,

e l e

A

} relações - d ~ gênero n ã o resultam da _ existência de dois sexos , macho

não será a bolido na au sência de opo s ição. Ele ainda carrega o fard o

e

fêmea , como fi c a explícito . no conceito de ' sistema de se x o / g ê nero . ,

social de s e x o e gênero, de soci alizaç ã o dos imaturos e de forne cim e n -

de Rub i n. O v etor direciona-se, ao contrári o,

do social para os indiví-

to de asser ç ões defin it iva s sobre a natureza d o s próprios seres h u ma-

duo s que nascem. Tais indivíduo s - são transformados, através das re-

nos . E ele serve a outros f i n s e conômicos e políticos, diferentes d aqu e l e s

lações de gênero, em homen s ou mulheres, cada uma destas catego-

que original m ente ele d ev eria satisf a zer . O sist e ma de se x o / gê ner o d e -

ve s er reorganiza ~

n ero n ã o são e m a n ações a - his t ó r icas da mente hum ana; ele s são

a tr a vés d a a ç ão po l í t i c a. (

) S istema s de se xo / g ê

pr odu t o s da a t ividade humana histór i ca"

(R ub i n , 1 97 5,p . 167 , 20 4 -5).

Como se pode facilmen t e perceber , esta c o ncepção l abora contra

q ual quer essenc i a l ismo, insistind o no car á ter hi stóric o e, po rtant o , m u

táve l, d as atri bu iç õ es

s i ste m a d e r e p res e ntações

um e x empl ar f êmea da espéci e h u mana , t orn a -se um se r sub m iss o I )

é o c ?n juI~ t o

de arr an jo s pelo qual a sociedade

e m p r od ut o s da atividade humana

tra n sf or ma da s s ão satisf ei ta s " (R u bin, 197 5, p.1 59 ).

ju nto a "g ê n e

ro" r eflete u ma g r a nde pr e o c up açã o

n ão c o m o a l g o ape n a s dife r e nte da s e x uali dade

t o , m a s c omo um pa d rã o opost o a esta . A conceituação

se asse n t a somen te n esta o p os i ção ,

seja , a de d oi s tipos h umano s

t ando juntar a s duas polaridades

ma r que ta nto

s e x ual i d a de " n a tura l",

q u e não v a r i am, p o is são asso c ia i s , Esta dico to~ i zaçã o entr e a n ~ l url' za e a c u ltura const i tui a b ase do c on ce i t o d e sis tema d o sexo /g ê n er o

n a qual e s t ã o i nsc r itos imp ul so s e nec es s i d ade s

da sociedade às cate gorias

e de atri b u i ç õ es,

de s e x o . Gr aça s a este

a mulh e r , a o nasce r a p e n a s

biológi :1I

suprem a c ia masculina; "

um ' s istema de sexo /g êne ro '

tran s f o rma a s e xuah ~ ade

e n o q u al e sta s nece ss idade s sexuuis

A n e cessid ad e

d e R ubin d e us a r o term o " se x o "

com o e x e rc í c io d a sexu alid a d e ,

e xi s t en te no na s c i m ' li

como t amb é m

o home~

d e gê ner o não

num a ou t r a ,

qu al

e a mulh e ~ . T :.11

a 111

d i ferent es:

opostas de Rubin, pod er - s e - I a

a mulhe r / são portado res

o hom e m

quanto

d ~ UII I I I

1

86

rias-i ê le r i tid ã des excluindo a outra. O b v iamente , o sexo anatornica-

mente configurado (não se pode ainda

termos estatísticos , a tr ansfo r ma çã od e cer t o s indi v íduo s em mul h e-

re s e de outro s em hom e n s. O t orna r - s e

Tant o i s to é ve rd à -

por é m , c o ns ti tue m

falar de fi s iologia) sugere , em

mu l he r e o t orna r - se h omem ,

ob r a da s r e laç õ es d e gêner o .

. deiro que beb ê s de genitália

masculina podem t o m a r - s e

mulh er es ,

assim como bebê s de genitália feminina podem to r nar-se homens. Eis porque se insiste na direção do vetor: das relações de gêne r o para ,

o sexo anatomicamente conformado . " D a perspectiva das relações so-

cla Í s , homens e mulheres são ambos prisioneiros

de maneiras altamente diferenciadas ,

de gênero, embora

"

mas inter-relacionadas" -

(Fla x, .

1987

, p. 6 29)

-

-

-

Felizmente, as críticas às concepções binária s e a colocação do ve- tor no sent i do do biológico ao social não tardaram . " A base biológic a da se x ualidade é sempre culturalmente e x perienciada, atra v é s de uma

tradução.

prio s ; eles devem ser e x pressos socialmente.

dividu a l ou, pelo menos , pri v ado , mas este s sentimentos sempre

Sente- s e o se x o como in-

Os fatos biológicos nus da se x ualidade não fálam por s i pró-

incorporam papéis , definições , símbolos e significados dos mundos nos quais eles são construídos. 'Pode-se dizer que a mente é nossa zona mai s erógena ' , como afirmou um comentador (Gagnon e Henderson,

1977) , e fissuras no aconselhamento

ção sexual encon tra sua melhor soas a f a n ta sia r , o u s e ja, uma bio l ó gic o (Masters e J o hns o n,

s e x ual têm re v elado que a disfun-

cu ra n a atitude de

re s po s ta s ocial ao invé s d e um r e pa r o

n a aus ê ncia

1 96 6, 19 70 ) . A o c on trár io ,

se en s inarem a s pes-

1

87

de um contexto social para defini-Ias como legítimas, as experiên cia s sexuais de gerações de mulheres norte-americanas foram confusas e di s - torcidas; adequadamente socializadas, as mulheres da era vitorian a fo - ram ensinadas que elas nunca precisariam ser molestadas por paixõe s sexuais, enquanto suas mais 'liberadas' filhas aprenderam que or gas - mos eram seu dest i no anatômico (Henslin, 1971)" (Ross e Rapp , 19 83 , p.51-2) .

Esta longa citação reforça a convicção de que, embora haja um

bem-sucedido esforço da sociedade para naturalizar processos de ca -

ráter social, a criação de seres heterossexuais

d e g ê -

e

e com identidade

nero deve-se

social extremamente

comple x o

,'1profundamente não-natural (Chodorow, 197~). ~oncebend.o o sexo co -

a um

processo

mo uma

relação vivida e mutável , esse ensaio situa-se muito longe d a

idéia do

sexo enquanto essência. Quando se insiste na natureza r ela -

a postura essen cia -

liS t a como també mS e revela adesão à crença de que é mais fá ~ c Q! r er a p rõ ce dimentos cirúrgicos e fazer as mudanças desejadas na genitáli a

d

um a P e ssoa e , s i n i ü ltanea m ente,

cional do sexo, não apenas se nega enfaticamente

o que i n t er vi m o

impos to a -

Parafraseando Engels (1951), nós próprios escolhemos no sso g ê -

sentido de alterar o gênero, socialmente

por ela conquistado .

nero, mas, antes de mais nada, com premissas e em condições m~ it. o determinada s . Em 1 ! b utras palavra s, cada ser humano escolhe s eu g en c -

ro lan ç a n do

estar em

do por out r os, já que t odo s os s er es humano s s ão pe r mane n t emen t e constituídos po r outros ( Bu t ler , 1 988 , p . 139-40).

Embora utilizando a expr essão diádica " sistema de sexo-gê ner o " ,

Benhabid ( 1 988 ) co nc ebe t a l f enômeno construção/recon s t r u ç ã o de c a t egor i as

ço das teorias so c iais con s truídas a partir da perspectiva femin i s ta, t êm sido importantes no v os tipo s de l e itu r as que i nduzem à form ul a çã o d e conceitos mais depu r ados. É o caso de Benhabid (1988, p.80) , qu an d o afirma : "para a teoria feminista , o sistema de sexo-gênero não é um a maneira contingente , ma s essencial, pela qua l a realidade é orga ni zad a

m ão do s t erm o s s ocia is di s pon ív eis ,

g ênero este que pod e

uma cômi ca ou tr á gi c a op o s i ç ão àquele a ele ou a ela atr i bu í -

de modo a permiti r-lhe a " d e s - do pensamento ". Para o a van -

simbolicamente dividida e vi v ida na e x periência. Por sistema d e s ex o gênero eu entendo a constituição sócio-histórica, simbólica e a in t cr

pretação das diferenças anatômicas dos sexos. O sistema ~e se x ? -gê n ~ro

constitui a grelha através da qual o self desenvolve uma iden t id ad e

corporada, uma cer t a forma de ser no seu corpo. O self torna-se uni eu na medida em que realiza a apropriação, a partir do que lhe of er e ce

a comunidade humana, de um modo de vivenciar sua identi dad e co r

poral física, social e simbolicamente. O sistema de sexo-gênero ~ ~ gr e

l ha através da qual as sociedades

c orpo rif icado s" .

1 0

e culturas reprod u zem

indivídu o s

188

Embora se entenda aqui a necessidade de combater o raciocínio binário incorporado na linguagem "sistema de sexo-gênero" , reconhece -

s e que Benhabid não cai na armadilha do pensamento dicotômico,

que l he permite avançar na concepção de gênero. Está presente e res-

s alta a idéia de que o sexo é socialmente

percebe-se claramente a presença da opção, quando o selfrealiza um

ato de apropriação para individualizar-se, para construir sua identida -

de . Reside nesta idéia um forte ponto de conexão entre Benhabib (1988)

o

modelado. Por outro lado,

e

Butler (1988).

A

famosa e tão utilizada afirmação de Simone de Beauvoir (1962)

d

e que (uma pessoa) "não na s ce, mas se torna mulher " passa por ri -

g oroso escrutínio nas mãos de Butler. Não obstante se reconheça o gran - de mérito da aludida obra de Beauvoir e os enormes e benéficos efeitos de sua frase acima transcrita, dispõe-se hoje de um verdadeiro arsenal

de recurso s conceituais,

chave e rele -

razão dualista e a não-dua l ista.

vante em sua frase era o verbo tornar-se, a fim de se poderem comba-

te r as teorias segundo as quais a anatomia era o destino, atualmente

é e xatamente o tornar-se que passou a constituir o ponto de discórdia. ç

à luz dos quais fica patente a tensão entre a

Se o que era considerado

" " '

T ornar-se significa passar de um estado a outro, o que pressupõe a tran- ÇG

s i çã o do sexo (biológico) para o gênero (social). Por outro lado, é pre -

c

po r a l deste tornar-se não segue uma progressão linear. A origem do

g ê ne ro não é temporalmen te di s c r eta pr ec i s amente porqu e o gênero não é s ubitamente originado num c e rto momen t o no tempo , depoi s do qual

e l e a dquire um a forma fixa. Em um importante s entido, n ã o se pode tr a ç ar o gênero até uma origem definível, porque ele próprio é uma

a tiv idade criadora ocorrendo incessantemente. Não mais compreendi -

do c omo um produto de relações culturais e psíquicas transcorridas há

tempo, º - gênero é uma maneira contemoor â nea

. u l t urais passadas e futuras, um modo de.a pessoa sítuar-se.em e atr A -

r

'

i s o reconhecer,

com Butler (1988, p.130 - 1), que "o movimento

tem - n ~"

de organizar normas

,.)

To r nar-se um g ê rrero é um impulsivo e ainda assim atento processo de

i nt e rpretação da realidade cultural carregada de sanções, tabus e pre s -

.ricões. A escolha de assumir uma certa espécie de corpo, de viver e

vés d ,

as normas,

um e sti ~ tivo

de viver 2 corpo no mundo.

u s a r o corpo de uma certa maneira implica um mundo de estilos cor-

po rais já estabelecidos . Escolher um gênero consiste em interpretar re-

e organizá-Ias de

n o vo . O gênero é mais um tácito projeto de renovar a história cultural I . a co rdo com os termos corporais próprios de cada pessoa do que

que deve-

IIIOS n o s esforçar para fazer, mas uma tarefa na qual nós temos nos

I I I l I a t o radical de criação . Esta não é uma tarefa prescritiva

b id as normas de gênero de forma a reproduzi-Ias

» u pe nh a do todo o tempo".

A f ormulação de Beauvoir é ambígua na medida em que não dei-

11 i l a ro se o g ê n er o prec i sa es tar , de alguma maneira ,

v i n c ula d o a o

189

sexo ou se a necessidade desta l igação constitui uma manifestação cul- tural . Apoiando - se no conce i to de situação , formulado por Beauvoir,

pode - s e diz e r que tanto o gênero quanto o se x o são in t eiramente

rai s , já

um a s itua ç ão, ou seja, um c ampo d e po s sibilidades culturais recebida s

e reinterpretadas .

por ex e mplo, é essen c ial para

do , é in s ufici e nte para defini - Ia como uma mulher . E s ta definição s ó

se pro c e ssa a tra v é s d a ati v idade de s ta mulher na s oc i edade .

va le a diz e r, p a ra enf a tizar,

d a s rel aç ões sociais.

a Beau v oir t odos o s tributo s a qu e

fa z ju s p e la e x celen t e qu a lidade

n ã o conseguiu s e livrar integralmente

Nã o ob s tante incorpore elementos importa ntes do materialismo histó -

r ico , ac eita ar g um e nto s

ac r esc e ntar , a dem a i s, que s ua análi s e s uper v aloriza

t ural e id e oló g i c a (Barret,

nucio sas incursõe s na esfera dos produtos qu a i s e p a ra o s qu a i s têm lugar proce s sos

c i a i s que p e rmit e m ao s hom e n s dominar-e x plorar as mulh e r es .

O t o r na r - s e m u : t b er , po r tanto , p a ra Beau v oir, situa-se no t e r r eno

s em a mençã o

que o gê n e ro é uma m a neira de e x i s tir do co r po e o corpo é

cultu-

Nesta linha de racio c ínio,

o corpo de uma mulher,

definir sua situaç ã o no mundo. Contu-

que o g ê n e ro se con strói- expressa

I s to e qu i - atra v é s

Sem jama is e s que c er de pre s tar

de s ua obra, é preciso admitir que e l a

do s vício s da razão carte s i an a.

H á qu e

da biologia , às v ezes v ia psicanális e.

as dimen s õ es c u l-

1980). Com ef eito, s ua análi s e carece d e mi-

materiai s

nos quais, p e lo s

sociai s, ist o é , r e l a çõ es so-

d o s pro cessos s ó cio - cultura i s

exp l íc i ta aos produtos da mesma natur e za,

(o qu e não se conte s ta),

q u e fa ze m po s s í v e is os p ri-

n ã o

:: - m eiros. Levar em conta a existência de prod u tos s ó cio- c ul tu r ais

;S retira do padrão prevalecente das relaç õ es d e gêne ro , ne m das relaçõ es

d e g ê ne r o nas quais e l e se exp r essa,

men t e i n fl ux, em um processo cons t ante de "c o ns er vaç ão - d iss olu ção "

(Bettelhei m , 1966 , p . 322) . Não s e p o de ign or ar

situava muito bem a questão do gênero , l i vrando - se d o s ra c i o cíni os di á-

dicos. Com efeito , afirmava (p.65): "Para resu mir de m a n e i ra mu ito

esq u emá t ica nosso tra b alho,

a s po si-

seu c a rá t e r d e e s t ar permanente -

q u e j á em 1981 Delp h y

q ue o gêne r o -

n

ó s pens amo s

ao . t0ngo ~o ' pr~~esso de desen v ol v imento, no i nterior d a estru t u ra psí -

quica feminina

?ero afeta, por conseguinte ,

mcon_sclente s . E preCISO, toda v ia , lembrar

de mao dupla: os mesmo s proces s os a tra vés do s qu ais a mat e rn agem

de relações de gên e r o

s e reproduz,

(Chodorow, 1978 , p.39). A organização s oci a l d e g ê -

os proce s sos

e as e s trutura s

p sí qu icas

que s e trata de um pro ce s s o

por efeito do padrão dominante

g eram t ensões capazes de minar, ao se reproduzirem s ocial de gênero.

'

a organiz aç ão

que separam os g ê neros , é ne ~ e i;sá r ia

muita cautela, a fim de não se contribuir para incrementar

de c la s -

s e, e s tabelecendo fis s ura s polític o-id e oló g ica s neste s grup a m e nto s

ve rticais e, portanto ,

ta mpouco se de v em acentuar as se m e lhança s entre homen s e mulh er e s

pa ra não se diluírem

n a a s classes agregado s humanos internamente dif ere nci a do s (Combe s

e Ha i c ault, 1987). Teoricamente , não se pod e ir além di s to , m as an á li -

s e s concreta s de fato s reai s poderão mo s tr a r c omo as v i vê n c i as hum a - nas apresentam um colorido de classe e um colorido d e g ê nero.

(1981 ) ,

la n ç a- s e mao aqui de s eu concei t o de e x per iê n c i a ( p .1 1 2) : "

a e x pe-

c i a. O aumento das diferenças pode obscurecer a s identidade s

. Ao lidar com as diferenças

e s ta di s t â n-

introduzir c unha s em s ua s lu tas . Por outro l a do,

os efeitos da organiz a ção soci a l de gênero que to r -

Ainda _ que reconhecendo

a parci a lid a d e

de Thomps on

ri ê nc i a é um termo médio ne c e s sário

s oc i a l; é a e x p er i ê nc ia

e ntr e o se r s o c i a l e a c on sc i ên c ia

c o r

( mui ta s ve zes a e x peri ê ncia d e cl asse) qu e d á

à

c u ltura , ao s va lor es e a o pen same nto ; é p o r me io da expe r iênc i a que

o

mo do de pr odu çã o exe rc e u ma p r essã o determinante

s ob re o u tras

a tivid a d e s ; e é p e l a p rát i ca que a produ çã o é man t ida". S e o o lh a r d e

T h o mpson t i ve s se sido s ensibiliz a do p e las relaçõe s d e g ê nero, pelo m e -

nos quando analis ou concretamente a formação d a cla sse op e r á ria in -

l e sa ( 1987) , em s eu parênte s e c a beria a ex p e riê n c ia de gê n e r o, já qu e

home n s e mulhere s viv en c i a m di fe ren c ialm e nt e, inclus iv e qu a ndo p er -

t e nce m à mesma cla ss e social , o s f a t o s de s eu co t idi a no.

Cabe aduzir , ainda, a maneir a pela qual s e entend e " produção " .

ç

õ es soci ais

respectivas

de mulher e s e h omen s -

n ão é c on s truí do

T

o

ma -se empre s tada de En g el s (1951 , p.12 8 ) uma import a nte f ra se co n-

bre a categ o ria (aparenteme n te)

natu ral

do sex o ; mas,

s o - ao c on trário ,

t id a e m carta end e reçada a Jo s eph Blo c h , n a qual f icam c l a ra s as du as

o sexo torn o u - se u m fat o pe r t in e nt e, e, p o rta nto ,

cepç ã o , a p a r t ir d a c ri açã o d a ca t e go r ia

da hu m a nida de em doi s g rupos an tago n i s tas ,

out r o ,

um a categ o r i a da p e r -

de gênero , isto é, d a div i s ã o

dos quais um op rim e o

o s h o mens e a s mulhere s."

Gr aças

às re l ações de g ê n e ro , a s dife re n ças e ntre homen s e mulh e -

qu e eu d es c revi ( d e

ela s

nã o são a qui s i ç õ es c om p o rtamentais . As ca pa cid a d es d as m u l h ere s p ar a

res s ão p ro fu nd as.

ma ter nage m ) d e ve m s e r c o n s t r uí da s no interior da per s on a l idad e ;

"As c a pacidad es e or i enta çõe s

f a c es do proc e s s o produtiv o .

his tó r i a, o fato r determinante

d u çã o e a reprodução

rada a dimensão g era c ional da p r odu ç ão

as pe ct o imediato da re sta u raçã o (abrigo , alim en to , repou s o etc .) da f o r-

ça . de trabalho do produtor.

d a a pr o-

" Se g undo a c on ce p çã o m a t er i a li s t a

na história é, em última inst â nci a ,

real . " Con vé m res sa lt a r q u e foi e x pli c i-

da vida

da v id a re a l e n ã o ape n as o

Por ora , é is to qu e se de s e ja s ubl i nh ar,

l c ix a ndo-se para mais tard e , neste artigo , a re tom a da

. r a ra me n t e c onh e cid a afirm aç ão

d e En ge l s .

d ess a r e l ev ant e

mate r nar e suas hab ilid a de s

para r etirar di sto g r ati ficação

são fort e -

Gayle Rub in (1 97 5) nã o se cont e nta

em

asp i rar a uma revo l ução

mente inte r na l izadas e psi c olo g i ca m ente r eforçadas, e são constr uíd a s ,

r m in i sta cujo pro p ós i to

sej a a l i b eração

da

m ulh er .

Ela deseja mai s

190

19 1

d e ex pressão se x ual e da

personalidade humana d a camisa-d e- força do gê nero" (p.200), o que

é al t amente que s tioná v el . S ã o exat a mente e s tas pot e ncia lidades

go mais qu e Cornell e ThurschweU chamam de real (1988, p . 158-9):

do que isto , ou seja, a l ib er ação de "f ormas

do al-

não

mai s se concebe que o Simbó l ico deva ser, ou mes mo po ss a s er, radi-

c almente separ a do do Real . Ao contrário , de de que nós nunca s omo s inteiramente

de gênero , quanto o potencial

do que se pod e pensar que s omos em qualquer s i s t e ma de g ê ne r o."

rece reflex ão a idéia de sse s autore s ,

lh

identidade e, como He g el nos lembr a, é a 's a lv açã o da sin g ul a ridade "

(p.159). !> lógica da identidade é, e f e tiv ame n te, anti-relacion a l . O r a, o e sforç( } a quí S ê C fê S e i 1 V o l v e

o

o Re a l indica t a n t o a verd a -

" Uma vez que as rígidas categor i a s d e gênero sã o d e scon s truíd a s ,

capturado s pela s ca tego r ias

n

es t e e x ce ss o

M e-

da seme-

qu e pode s er en c ontrado

de que " e s t a dinâm ica

a n ç a e dif e r e nça na con s tituição

do EU min a a lógica exc lu s i v a d a

monoló g ica, ou s ~, no s e ntido de exp o r

s v ício s d a r concep ções n ' ão ~ ' r ê lacio ti, ais ' d a ô r gã nizl!Ç , ã ô: ::" s . çlciaLd egê-

fm'Õ(V-iãOe r eg r a , con ce p ç ões dico tô micas d e din â mica pobre) na ten -

af í v ã ~ de ava nçar , senão n a con s tru ç ão

de um a t e oria, p e lo meno s na

n ã o se a dmit e o ar g u-

N ão

formula ç ão d e conc e ito s h e urístico s. A demai s ,

mento d e qu e a semelh a n ça

é a s emelhan ça ,

constitui um r e quisito da i g u a ld a de .

mas a dif e renç a qu e c onstitui a ba se para a co n s tru ção

r do poder. E i s por ~e este s ó pod e se r de sa fia d o a p a rtir do terr eno

( Sc ott , 1988) . Is to ag r ega mai s dú v ida sob re a po ss ib i li-

d a diferen ça

dade, ad mitida por Rubin, da e l imi naç ão

do gê n e r o.

A postura assumida

neste ensaio discorda

da qu ela

que s i t u a na

famíl i a a origem da opressão da mulher (Barret, 1980). O sig ni ficado

e " op ressão" é ambíguo, ora i nd i cand o s ó o fen ôm eno da domina- ção, or a sinal izando também o fenôme no da explo r ação . Po r co nse -

g uinte, n ão concebe a sexualidade como model ada n o seio da f amí l ia,

da i de nt i da- t odas as e s fe ras

v id a social . Não se trata, p o is, de reta l har a realida d e socia l , s i t u ando

em ca d a fatia um tipo de pr o cesso social o u relaç õ es s o c i a i s. A o . con -

t

da

~ m as co mo resultante do processo de co n qu i sta - imp o s i ção , d e de gênero, daí derivando relações que impreg n am

r ár io,

trata - se de estar sem p r e alerta p ar a poder d etec t ar

a p resença

das d i f é r ên Çãs; ; seme lh anças de gê n e r o nas re l ações de pr od u çã o . ,.- ª . S _ sjm

eóm o a s d i fere1lç ás-se m e l ha n ças

o ~~

re!!tes, im pre gnando tênc ia d est as cli va ge n s

sociai s, todav i a , se in scr eve m no pl a no e ntre p essoa s . Eis porqu e não se pod e a bri r m ão de um a po s tu ra t eór ica q u e pe rmita o liv r e trâ n sito

e nt r e o p la n o macr o e o n í ve l mic ro . E s t e i r e v ir con s t i tui req uisito

de c l asse n as r elaç õ es d e gê nero . Em

esses do i s ti Q o - s de r e lações sã o a bso l u tam~ n te: : i é C o ~ -

t o d o o Jec ido _ s o ' : . i!! L A razã o última p ar a a exis -

p ode s er e n c ontrad a a n ível m acr o.

As r e l ações

fun dam ental p a r a a percepção ,

e p o ste rior aná l ise, d a d i nâ mica so c ial .

Isto pos to , as relações de gê n ero co n s tituem u ma t otalidade dialé-

tica, na q u al suas distintas partes in t eragem

192

de fo r ma orgânica.

Est a

maneira de conceber as relações de gên e ro . guarda não apenas uma enor- me distância da lógica da complementar idade (Badinter, 1986), como

também apre se nta , em

tivamente, a lógica que preside à operação das re l ações de gên e ro é dia-

lética, ou se ja, contraditória (Saffioti , 1988) . As relações de gênero ,

e VR t en temen t e , ref l etem concepções de gênero internalizadas por ho- mens e mulheres . Eis porque o machismo não constitui privilégio de homens, sendo a maior i a das mulheres também suas portadoras. Não basta que um dos gênero s conheça e pratique as atribuições que lhe são conferida s pela sociedade; é imprescindível que cada gênero co- nheça as respon s abilidade s -direitos do outro gênero. Não se trata, no

e ntanto,

derivam de características inerentes ao macho e à fêmea, que se com- \

plementam na cópula procriadora. Concepções de gênero, organica-

dialeti c amente, dando , assim , :',~ )

mente construídas, inter-relacionam-se

relação a e s ta, uma diferença de natureza . Efe-

da lógi c a da complementaridade. As relações de gênero não

e

nsejo

à supera ç ão das cont r adiçõe s

n e las contidas , através da

prática

.

política. Esta constitui uma razão nuclear para não se fugir do

concei- ~ t ' )

t

o de poder, quando

se ' analis am rela ç ões de

gên e ro. Quando

não s e

c

oncebe o gênero CQ I DO j elaç ã o so ~!ill . Jl ! le é ~ s ~ Ql1osiç . õ . es _ Q e .: :

c

o r rente s de traços inerente s aos di st i ntos

s ~ es , õ ao se é ca p az de per-

ce ber _Q.S d í fere nt e spooe re - s - d eriô os- s of f iO Q L Qo r homens e mulheres . •

E i s porque Badinter( 1 9 - S 6 ), ãf r á vé s

c h e ga a conceber um patri a rcado absoluto.

da lógica da complementaridade,

E mbora

o c onceito de p at ria rca do s e ja muito c riticado em v i r tu de

d e s u as orig e n s w e berian as

e de s e u ala rd e ado a -hi st oric is mo (Ba rret,

198 0 ), não se not a m g r and e s difere nç a s en tre e le e qualquer concepção

n ã o - relacional de gênero. Os conc e ito s weberianos são historicamente

r e fe ridos, datados , embora sofram um relativo esvaziamento de con -

te údos históricos ao ser e m modelados enquanto típ i co - ideais (Weber,

1

9 49) . Um dos grandes problemas contidos no conceito weberiano re-

s

id e no fato de que ele se refere a um esquema puramente de domina-

ç

ã o e não a um esquema de dominação-exploração, com todas as

c

ons eqüências que a visão holística acarreta. Ad e mais, tr a ta-se de um

e

s q u e ma de dominação b as tante cent r ado na família . Dando a palavra

ao p róprio

Weber (1964 , 1 . 1, p.184),

" chama - s e

patriarcalismo à s i -

tuaçã o na qual , dentro d e uma associação, na maioria das vezes fun -

\\

da m e ntalrnente econômica

e familiar , a dominação é exercida (normal - v,

me nt e ) por uma s ó p e s s oa , de acordo com determi nadas

regras heredi - '

lá ri as fixas " .

Como

se s abe , a realidade

não é una para Webe r ,

 

t

r ipa r t indo-se

nas e s fer as econômic a,

política e s o c ial . Ora , o patria r -

c ado, enqua n to e s quema de dominaç ã o , inscreve - se na esfera políti ca,

: mb or a sua origem r es id a na autorid a de

de um dominus, ex e rcida no

seio de uma comunidad e domé s tica. " No caso d a autoridade domés ti -

ca, as a nti qü í ssi m as situações naturais (grifo me u ) co n st i tu em a fo nte ,

d

u c rença na aut o ridade

f u ndada

na p ie d a de.

P a r a t odo s os que est ã o

\ . ' -

193

pessoal, per-

submetidos a u~~ autond~d~

manentee esp~clflcamente mnm lher é ~ superioridade normal (grifo

) Os filhos de todas escravas, são admiti-

tino externa e ~nte~~a. Para . a.mu I d 'homem.

aamd~~~~e com sua comunidade de des-

f

T

' a convivência

P

(

Muito antes que as feministas marxistas lançassem mão do referi- do termo, as feministas radicais já o faziam largamente. Comentando

o uso deste termo, afirma Delphy

da transformação deste termo em conceito principal de uma teoria da

s ituação da mulher é a percepção

res" . Isto equivale a dizer que o conceito de patriarcado

do, não se restringindo ao p e ssoal, nem - sn t l - ellTrftcan C lo com o n t t r ral. Na opinião da autora em pauta : as feministas socialistas - utilizam - se I }

.

(1981, p.61): "

a razão profunda

meu) da energIa fl . slca e espmtua

as mulheres que vivem no l~r, co~ de p endentemente da paternidade

dos em seu círculo (do

física, porquant<? o dono os consi a~i~~~~nascidos dos r~banhos que sentido que conSIdera seu gado O; 753-4). Como se pode facilmente

lhe pertencem" (Weber, ld perce er, ~Qeso e,

o es osas ou

do caráter da opressão das mulhe-

foi politiza-

patnarca),·:t

964

o 'seus' filhos

no mesmo

do termo patriarcado de um modo que claramente revela a recusa do patriarcado enquanto sistema. A postura aqui assumida não concorda

inteiramente com esta idéia, retirando pelo menos Eisenstein deste jul-

, tf' ,Pd'ome ' stica no conceito típico-ideal .

ao

b

aes era ã o economlca _ tem a marca fJt ~

s

. Rigorosamente, tambem a dlme~

p ois o poder patriarcal .

. conomia de oikos Isto consn- 'b'lidad~ de se trans-

I

g amento.

se orgamza ouvesse na e a Impossl

. lpna razao s';lflclent~, . se n f

_

As várias acepções de patriarcado

foram objeto de três grandes

hados para outro campo teórico, par.a

.

ão j e incrusta~em c~~celtos we er~~ceito de patriarcado tout court.

arque não seria legItImo usar o c

os numa ' análise totalizante . Eis

polêmicas, desenvolvidas nas revistas Signs, New Left Review e Femi- ni s / Review. Também suas relações com a estrutura de classes têm sido

a lvo de muitas análises . Via de regra, dependendo da tendência femi-

a ~ ar conceItos genetlc~s e ec b

 

.

,

'

_

.

'ue

se use o termo

patnarcado,

ni

s ta à qual está filiado a autora,

prioriza-se

um dos esquemas

de

Isto

nao

impede,

porem,

q atriarcado pode, por

exemplo, ser

d

minação-exploração. É tão raro encontrar-se alguém capaz de con-

redefinindo-se seu slgmflcado. °d~ dominação-exploração

pensado co~o u~ dos esquemas ici am também o modo de produção

tes de uma slmbH~se .da qual part

e o racismo (SafflOtl, 1987, ~98:~~inação_exploração exclui qualquer

- possibilidade de s i.mi~itude desta c<:mcep~~~t~~s fechados, que não ad- wcberiana é con s . tltUl.da por concelt~~ ~s O termo patriarcado, contu-

mitem nem mu~tl ~ oCld a d~, nem m~ \Zeo~ia weberiana ou de filiação

t

triarcado como u ~ esquema e

componen-

o pa-

~ mero fato de se conceber

m a weberiana. A teoria

do, não consntui propnedad~

beri

pode

we ena~a.

concepçao de . relaçoes capitalismo), dIferente

d

r utilizado para designar outra

' _

por consegum ênero e , se (simbiose patriarc~do - raclsmo- .

d

d

e g ltantes das posturas

as resu

duahstas (Weber,

1964; Rubin , 1975).

. d

.

hamado femmlsmo radi-

.

.

, Embora não se aceitem as p~stu.r~s

d

os es u

o u~ as feministas desta ten- relações de gênero. Esta

cal, ' reconhece-se a enorme contr~b~~sa~~

dência deram ao. a~anço

contribuição consí suu. f~dame~tal:

lacões de g ê ner? atraves

de que não existe a menor umVOCI

ente em colocar em pauta as re- do ~ermo patriarcado. É verda-

As

' uando se passa de uma ten-

diferentes acepções ficam ~a~tan~e.cla~a~~ filiação marxista ou só ad-

dência feminista a outra.

rnite o patnarca?o enquanto p~ra

ou define o patnarcado

anização social de gênero relati-

o ampi o u~ dade no uso deste conceito.

emm~~nte ideologia (Sarmiento, 1988~ ,

bordl'nada com "a es-

enquan o org

. endo

~

de maneira . su

,

vamente autonoma, ~O?VIV

trutura de classes s.oc~a\~ (~~~~~or~e~ta Óltima acepção são intercam-

Haicault,

, 969' Eisenstein, 1979; Combes e

da mulher", não obstan - d

pelo segun o.

1987; Mitc e. ,

d ,; e "opressão o

~.

biáveis os termos " patnarca

te pareça haver uma nítida preferencla

c ber o patriarcado e o capitalismo

como um único sistema, que vale

.

I p e na citar os Armstrong (1983): "As mulheres são simultaneamente

sujeitas ao capitalismo,

t de forma alternativa

us c ondições materiais que estruturam a subordinação das mulheres . Elas s ão inseparáveis. Elã s - agern juntas. Patriarcado e capitalismo não Se s istemas - autônomos. r nern mesmo interconectados, mas o mesmo

à dominância e a seus corpos. Colocar a ques-

é o mesmo que perguntar

se são as idéias ou

s i s t e ma. Como formas integradas, eles devem ser examinados juntos."

L!l l a postura vem reforçar a idéia de simbiose patriarcado-racismo-

c ap italismo, que se tem defendido . h á anos (Saffioti, 1985). Simples-

111 nt e a título de enfatizar

a idéia, expl í cita-se

o que está contido

no

, J

i r t i g o dos Armstrong e de Saffioti : classe e gênero são constwídos - s:

m

ult a neajnen t e . ao

lQ!lgo da histór~wn,

1983). Também do ponto

I • vi ' S f " a da história pessoal de cada um existe esta simultaneidade.

Eis

\Y

I r que é impossível separar, mesmo para fins exclusivamente analíti -

'

O S , discriminações

de que são alvo as mulheres,

segundo sua "filia-

~

- " ao

patriarcado

ou ao capitalismo

(Saffioti,

1988). Mais recente -

~

111 n te, estudando o Estado do bem-estar social em relação com

gêne-

10

c lasse, Shaver (1989, p . 94-106) concluiu que "capitalismo

e pa-

I rlarcado são formas mutuamente constitutivas de dominação,

um

I mensão do outro: gênero e relações sociais de gênero são integrantes

ti I rganização social de classe e, similarmente, a classe é constitutiva ti ênero, Isto é verdadeiro para as instituições 'públicas' do Estado

10 bem-estar social, para as estruturas 'privadas' da economia social

IIIS q u a is este Estado intervém e para as relações construídas entre elas.

, 1-, t u do do bem-estar social e são definidos por este Estado. Eis porque

(

) o rno gênero e classe definem-se mutuamente, ambos definem o

194

195

o Estado não pode ser entendido como simplesmente patriarcal (Mac-

Kinnon 1983) ou diretamente capitalista (Gough, 1979): como suas fun- ções e formas políticas concretas englobam as interações mútuas do capitalismo patriarcal, é deste modo que se deve desenvolver nossa com- preensão conceitual".

Não há dúvida sobre o alcance do artigo de Shaver e do avanço que esta concepção representa para analisar sistemas . de ~egu~idade s?cial . Todavia, podem-se detectar dois problemas. ? pnmeiro dIZ resp_eIto ao fato de ela não fazer nenhuma menção ao fenomeno da exploraçao. Ca- pitalismo e patriarcado, mesmo concebidos de maneira fun~ida, sim- biotizada, não incluem, para ela, a dimensão exploração, pois se trata de "formas de dominação". Se a exploração é concebida como e~bu- tida na dominação, isto não fica claro em nenhum momento do artigo, Defende-se aqui a idéia de que o fenômeno exploração deve ~:r e.xphcI- tado ao lado de dominação. Considerando-se o acervo das Ciências So- ciais e nele a multivocidade dos conceitos, acredita-se que quando se diz

dominação não se torna evidente a exploração e vice-versa. Fosse outra

a história da Ciência, poder-se - ia abrir mão de tanto detalhe.

O segundo ponto

refere-se à expressão capitalismo patriarca~. Co-

mo já se discutiu em outros trabalhos

tein (1979) e Combes e Haicault (1987) .tam~ém comet:ram es~e equívoco. Referir-se a um esquema de d?~maç~o-expl?raçao atraves do substantivo e a outro usando-se o adjetivo hierarquiza-os necess~-

riamente. Isto para ~ xar de lado o fato mesmo de a aut.ora, ao quali- ficar o capitalismo de patriarcal, esquecer-se de que foi d.ela propna

a afirmação de que gênero e classe são mutuament: constItutJV~S ~m

do outro. Ora, tomada rigorosamente, esta expressao anula a existen-

cia autônoma (ainda que relativa) de relações de gênero, de um lado ,

a

sociedade capitalista permeada por mais de um esquema de domina - ção defendem a tese da não-priorização de luta contra uI?~ estru!ura em detrimento da luta contra li outra (Segal, 1989). A posiçao aqui as-

sumida é contrária a toda e qualquer hierarquização. hierarquia há de haver, que se legitime , então, a postura que acreditam ser a subordinação da mulher resultan!e

plexa interação entre relações capitalistas de produça~ e ínstítuíções

de poder masculino (Weir e Wilson, 1984). Embora . n!i0 se pretenda

adentrar este problema, lembra-se o leitor de que femml~tas soclah~tas têm buscado na divisão sexual do trabalho a base matenal do patr í ar - cado (Burnham e Louie, 1985). Reconhece-se a ext~ema _validade d!i análise minuciosa da divisão sexual do trabalho; porem, nao se acredi-

ta que a tentativa

se

e relações de classe, de outro. E até mesmo autoras que concebe~

(Saffioti,

1985, 1988), Eisens-

Entretant'!,

das marxistas de. u~a ~o!" -

acima aludida tenha tido êxito.

Sem nunca

perder de vista que gênero diz respeito. a relações e,

por conseguinte,

a estruturas

de poder, a tarefa de precisar conceit o s

196

pode ser altamente beneficiada pela incorporação da sugestiv a an á li se

de - SeeH - ; - Pcn ; a - e - sta - lristuriador1 qT988,p . 42),

g

ro é um elemento constitutivo

d e

s ignificar relações de poder". Embora aparentemente as diferenças a n a -

tômicas entre homens e mulheres readquiram relevância na postura sob

e não so- o anatômi - medida em

de

o núcleo da defini ç ã o

êner õ " •

réside

em uma conexão integral entre duas proposiçõe s : g ê n e -

das relações sociais, baseado em di f e -

renças percebidas entre os sexos, e gênero é a maneira primordial

e nfoque, na verdade, a ênfase é posta sobre o "percebidas"

bre as "diferenças". Desta sorte, o vetor vai do social para

co e não o inverso. Ou melhor, o social engloba tudo, na

que o anatômico só existe enquanto percepção socialmente modelada.

Quanto à segunda proposição,

não poderia

ser mais feliz. Com

e feito, relações de poder exprimem - se primordialmente através das re -

lações de gênero. Tal fato é primordial

mevo, porquanto antecedeu, e de muito, a emergência das sociedade s

mais de um sentido . É pri-

em

c

e ntradas na propriedade privada dos meios de produção. (Estão pen-

s

a das aqui não apenas as sociedades

de classes, mas também as socie-

dades de escravismo antigo e as feudais, pois castas e estamentos podem

s e r tomados como embriões de classes sociais.) É primordial, ainda,

p e lo fato de permear absolutamente todas as relações sociais, sejam

I a s de classe social ou étnicas. Este ponto é de fundamental

relevân-

' ia, pois se trata de profunda articulação na trama de relações de poder .

entre gênero e classe social

Frise-se que essa análise exige a desconstrução de muitos significa - dos vinculados à biologia, ao sexo, à natureza, ao gênero . Mas isto não tudo . A desconstrução impõe-se também quando fenômenos enraíza-

I nas estruturas de poder por cujos caminhos correm as relações de cnero s ão tomados puramente como ideologia. O "puramente" refere -

se a o fato de que a ideologia é concebida,

via de regra, pelo marxismo

L

I gmático

e por divulgadores do marxismo, como superestrutural , sem

 

'

o pa cidade de determinação sobre a infra-estrutura . Excetuem-se, dentre

o

utro s, os próprios fundadores do materialismo histórico enquanto mé-

l

o do de trabalho intelectual (Marx, 1957; Marx e Engels, 1951). Em que

p 's e a inadequação das expressões infra e supra-estrutura, há que se re- f ' rir a elas, porquanto desempenharam e ainda desempenham um enor- IIIC papel na vida intelectual do Ocidente e do Oriente.

outra ideologia, tem pro-

tunda s raízes na subjetividade dos agentes sociais, bem como no terre-

110 o bjetivo. "Como a ideologia de gênero se torna identidade de gênero ,

A ideologia de gênero, como qualquer

l t I ex iste no nível de nossa própria subjetividade.

d g ê nero e a ideologia da família estão incrustadas

-

(

) A identidade

em nossa própria

ubj e tividade e em nossos desejos num nível muito mai s profundo

do

q u e o da 'falsa consciência'. A sugestão é que a ideologia de g ênero

s uficie ntemente poderosa ' para resistir ou contrapor- se ao bombar-

deio das tendências 'sexualmente cegas' da lei da acumulação do capi- tal" (Brenner e Ramas, 1984, p.39). Simultaneamente, a ideologia de gênero, como de resto toda ideologia, é modelada pelas experiências

e práticas da vida cotidiana e nelas está enraizada. Neste sentido, a ideo- logia é material. A ideologia de gênero tem-se oposto à realização da tendência à equalização sexual do modo de produção capitalista, mui- to bem detectada por Marx (1959). Cabe ressaltar este ponto como de crucial importância para as interconexões entre gênero e classe social, tendo sempre presente no espírito que igualdade sexual não tem o mes- mo significado que liberação da mulher e que o capitalismo é um mo- do de produção dinâmico, cuja permanente mutação permite novas e insuspeitadas formas de consciência e de luta (Sader, 1988).

A exposição dos quatro elementos inter-relacionados

envolvidos

po primordial dentro do qual ou por meio do qual o poder é articula-

~o". Esta interrr.et~ção encontra apoio em Bourdieu (1980, p.246-7):

Produto

da divisão do trabalho

sexual tal qual ela é transfigurada

em uma forma particular de divisão sexual do trabalho a di-visão do

mundo é a mais bem fundada das ilusões coletivas e, por isto, objetivas:

fund~da ,na~ ~i~erenças biológicas, e notadamente naquelas que dizem respeito a divisão do trabalho de procriação e reprodução, ela é tam- bém funda~a _nas diferenças econômicas, sobretudo naquelas que to-

c

que pertencem aos fundamentos da divisão do trabalho entre os sexos."

O importante aqui é notar que a organização social de gênero cons- trói duas visões de mundo, donde se pode concluir que a perspectiva

da mulher e, portanto,

seus interesses divergem do ponto de vista do

am a oposiçao

entre o tempo de trabalho

e o tempo de produção

e

no gênero, concebidos por Scott, pode auxiliar o atingimento de uma

h

. ~m~m e, por conseguinte? dos interesses deste. Uma vez que as expe-

compreensão mais profunda deste fenômeno. O primeiro diz respeito

nencias adquirem um colondo de gênero, como aliás ocorre com a classe

a

símbolos culturais colocados à disposição das pessoas, símbolos es-

e a etnia também, a vida não é vivida da mesma forma por homens

te

~ e e v oc a m múltiplas representações. Com muita freqüência, tais

e

mulheres. Esta interpretação permite incorporar a idéia de que o fe-

representações não são apenas diferentes, mas contraditórias. No que tange à mulher, seria interessante lembrar que as imagens de "santa "

minismo, por definição, expressa a experiência de um sexo. É necessa- riamente parcial (Rowbotham, 1981). Obviamente, este fenômeno não

t

e "puta" são contraditórias, mas não mutuamente excludentes. Ou seja , as duas representações podem servir para a mesma mulher (Saffioti ,

1980). Isto, todavia, é raramente percebido , porquanto

as re resenta-

entre as cate-

. orias _de gênero nem é a única, nem opera autonomamente. A ligeira

é t ã o simples quanto pode parecer, porque a contradição

m c ursao realizada atrás para mostrar como o gênero impede a realiza-

. ões se apresentam sob a forma d ~ dicotomias. Em segun o lugar , h á

çã

o de uma lei da acumulação do capital (o capital tenta equalizar as

c

g Qceitos' normat ivos < & e expressam interpretações dos significados do s

fo

rças de trabalho) revela uma das numerosas intersec ç ões entre os an-

símbol o s , o q u e li m ita suas possibilidades

ed U c ã Ç ã o , a ciência, a política expressam estes conceitos na forma típi-

ca de oposições dualistas, categorizando o masculino e o feminino ~ O r - ganizações e institui ões sociais constituem o terceiro elemento da s relações e gênero. Há cientistas s ociais, espe c i ã mente antropólogo s , que restringem o uso do gênero ao sistema de parentesco . Não se pod e concordar com esta tese, pois o gênero não é construído merament e nesta instância, de significado minimizado nas sociedades complexas , mas também na economia e na organização política. Finalmente, Scot t

sub -

para um a "os histo -

importante teoria da produção do gênero, Scott afirma que

riadores precisam examinar os modos pelos quais identidades de gêne- ro são substantivamente construídas e relacionar seus achados com um a gama de atividade, organizações sociais e representações culturais hi s -

toricamente específicas". Assim, impõe-se estudar as relações entre este s quatro elementos integrantes do gênero. A historiadora em pauta.acr e-

para a análise d a s

classes sociais , raça e etnicidade, em suma, qualquer processo socia l .

dita que este guia de investigação

(1988, p . 44) aponta como quarto elemento do gênero jetiva. Embora admitindo que a Psicanálise oferece

metafóri c a s . - A~ l i g ' lao ,

a

a identiQade

a base

servirá também

Volta-se a insistir que o poder ocupa posições de destaque no co n -

é um ca m-

ceito de gênero formulado

por Scott (1988, p.45): "gênero

1 98

t

a g onismos

de gênero e de classe.

Feministas socialistas têm mostrado um grande desejo de se jun-

t

c

pre sume alianças entre seres socialmente desiguais, ou seja, homens e mu~heres . Combes e Haicault (1987) cunharam a expressão "aliança

a r aos homens na luta pela superação das contradições básicas da so-

i e dade capitalista, especialmente

a de classes (Wilson ,

1980). Isto

d

e s igual dos sexos na luta de classes".

Cabe

aqui a pergunta

sobre a

p

o s sibilidade da aliança desigual das classes

na luta de gênero.

Mais

do que uma especulação, isto significa pensar em distintas estratégias d ~ luta. Como mostram certos movimentos sociais realizados predo- mmantemente por mulheres, mas com diversos tipos de colaboração

d e homens -

como foi o caso da luta por creches em São Paulo _

t a i s alianças são possíveis entre distintas

frações da mesma classe so-

i a l e mesmo entre diferentes

s quema marxista simplificado. A qualificação "simplificado"

e à concepção

'

classes, se o analista

não se limitar ao

refere-

categorias

s

o b j e tivas de análise, ao invés de uma identidade historicamente cons- t ru ída. Marx, além de incluir em seu esquema a classe média ou pe-

q

na

s c i e dade capitalista contemporânea),

de apenas duas classes tomadas

(Marx,

enquanto

u e na burguesia

1963b) (classe com novos contornos

não se contentava em diferen-

. i a r a s classes a partir da propriedade

ou não dos meios de produção.

19 9

E s te constitui, sem dúvida, um importante elemento de seu esquema

te ó ric o . Isoladame n te, contud o , a f o rça deste fator fi c a extremamen~e

atenuada . Parafraseando Marx (1963a), pode-se afirmar que costurei-

r a s a domicí l io ou externas de fábrica, permanecendo isoladas umas

das

se ou um f r agmento d e uma c l asse. Uma classe COnSt I tUl - s~his to rica -

mente quando seus membros não apenas se conhecem e c o nvivem, como também i d entificam, uns nos out r os, Interesses comun s . Des~a sor~e , concretamente, uma classe não se constitui sem sua inerente d i mensão

p o lític a , que consiste, basicamente, na identificação d~ interesse~ co- muns de seus mem b ros e da p r ofunda distância - mais do que ISto , do antagonismo - que a separa de o utras classes. Esta parece ser uma

p o stura preliminar para se e v itar:m os "~rimes"

tra esta realidade concreta e que sao mencionados por Thomp~on (1981,

p . 5 7 ): "Ne nh uma categoria h i stóri c a foi mais i ncompr~en dI da, ator- mentada, transfixada e des- his to rizada do que a categona de classe so- cial ' uma formação histó r ica autodefinidora, que homen~ e mul?ere s elaboram a partir de sua própria experiência de luta, fOI red . uzIda a

uma categ o ria estática, ou a um efe i to de uma estrutur~ ulterior, ~a s

q u a i s (sic) os homens não são os autor~ s ? I as os

outr a s, desconhecendo - se mutuamente , não const , itu . em u~a c~as-

que se cometem con-

Nesta crítíca

a Althusser, Thompson não apenas rejeita o neOpOSI ! lVlSmO,com pre-

tensões a mar x ismo, como também mo s tra uma maneira flexível e cna- tiva de usar o materialismo histórico. Em outros termos, r~ v ela u m modo de desenvo l ve r e s te método de tr abalho e, po r consegumte, s uas

p r emi s sa s bási c a s . N e st a l in ha de ra c iocínio , v a l e a p e n a lem? ~ a: q u e

ele se p r o p õe a analisar os fat o s hist ó ~ic ~ s em te r ~ ? s da e sp ecifici d ade que carac ter iza as r e l a ç õe s e ntre as mai s di v er s as at~ v Ida~e ~(pode r, co ns - ciência, se x o, c u l tur a, normatização), a descobnr a lógica deste pro -

cesso e a racio n a lida de de sua causaç ã o.

Ne s te con t e xt o , n ão se pode f ugir da di s cussão , ainda que ligeir a , da determina ç ão. R ecorre- s e mais uma v ez a Th~mpson (1981 . ' p:17? ) , que define ' ''d eter mi nar ' em seu s sentidos de estabelecer limite s e 'exercer p r essõe s' e de definir 'lei s de movimento' como 'lógica do pro - cesso"'. Isto posto , c a be r etoma r a "determinação " em Mar x e ~ n- gels, tal como fo i e x posta po r este último em cart a a Joseph Bloch aClI~ a transcrita. Seria muito pobre afirmar que o fator determI~ant~ na hI ~- tória é em última instân c ia o econômico . Rigorosamente, e muito mai s que isto, ou seja a " prod~ção e a reprodução . ~a vida real". Faz - se mister, portanto , e x aminar , mesmo que superfIcIa~mente , <:s mome n- tos da produção lato s~nsu~ e x po s tos por Mar x ?~ Intro~uçao?~ 18 57 (ou posfácio) à Contribution a Ia crttique de I economte poltfl?Ue .

São momentos constituti v os da produção lato sensu a pr~duç ã? stricto sensu, a distribuição, a troca e o consumo. Co~o s e : s ta hab i-

tuado

a pensar o proce s so produ ti vo somen t e e ~ . s ua dim e nsão d~ ~ ro -

du ç ão

de bens e ser v iços para a r e stau r ação cotidiana das f orça s f ísi c as

2 00

c p s íquicas despendidas no p r ocesso de t r abalho, não será fácil pensar

u e a dimensão reprod u ção geracional também apre s enta os mesmos

mo mento s : reprodução stricto sensu , distribuição, troca e consumo.

A reprodução stricto sensu pode, a b strata e pro v isoriamente, ser pe n s ada nos limites da institu i ção fami l iar. Isto equivale a dizer que

q

n

ã o se trata somente da repro dução biológica, mas também da soc i al,

a inda que este seja parcial, pois outras instituições participam da re-

social das cla s ses. Note-se que não se está lidando com a re -

pro dução restrita de força de trabalho . Numa sociedade di v idida em

c l a sses soc i ais, são estas que precisam ser reproduz i das, ainda que con-

I m h a rn , e é este o caso, membros ociosos . Diferentemente da produ-

( , : o s tricto sensu , a reprodução stricto sensu oferece uma distribuição 11 o e m termos de remuneração, mas de gratificação - punição, na me-

pro dução

d i da em que ampl i a as re l ações sociais. Na verdade, esta distri buição 11 c urto, médio e longo prazos são relações sociais que a prole pode

d se nvolver não apenas no s eio da família , mas nas relações que ela

c a p a z de gerar para o grupo familiar, colocando-o em c o ntato com

o u t ras instituições como a escola, a igre j a , a previdência social .

A troca e o consumo do "produto" reproduzido são, aparente -

m nte, muito s imple s para merecerem considerações. Contudo, cabe

I n n brar que o s sere s humanos não são exc l u s i v amente força de traba -

lh o, mas seres que amam , odeiam, desprezam, invejam etc . Através

das re lações sociais sã o trocado s não a pen a s m e rcadorias , c omo po r

\

mp lo a força d e trab a lho , c o m o t ambém se ntimentos de toda o r -

d

'111: t anto a s olidar iedad e quan t o a ho stilid a d e , tan to o amo r quanto

o

ra nc or, tanto a liberdade quan t o a opre ss ão. Já que o ser humano

' o n s t itui uma permanente fonte de energia vital, e s tá tão apto a

n n p r e g á -Ia na atividade traba l ho , como no gozo da vida. Também nas

t ul v idade s não - obrigatórias , prazerosa s o ser humano se consome . O

, n s umo de homen s e de mulheres, portanto , tem lugar em todas as

I I iv id a des, embora estas não s ejam igualmente desgastantes desta [on- I ' pr odutora de energia vital . Nem mes mo todas as atividades traba- lho a p r esentam igual potencial de consumo da referida energia vital . N o s e trata , como algun s poderiam pre s umir, de atentar e x clusiva- 111 n t e para as condições de trabalho, mas também e , às vezes, sobre-

tu do para a disposição interna da pessoa para a prática de tal ou qual

u l v i da de. Sua maior identificação com uma ati vidade pode significar

u m a lív io de tensõe s e, por conseguinte , um menor dispêndio de ener-

lu vi t a l . Eis porque os hobbies de s empenham função tão importante

IIU ag itada v ida urbana contemporânea. Embora não se pretenda apro- Iu nd a r e s ta análise, seria i nteressante reter que os seres humanos não

d i s p õ e m tão-somente de forç a de trabalho , mas de uma energia vital

em qualquer a t ividade: no trabalho par a garan-

111' a s o b r e viv ência tan t o quanto n a vingan ç a para sa ti s faze r ao ódio .

l i t a lvez o as pe c t o m ais re lev an te s e ja a indiferenciação des t a en e rg ia

' upaz d e se empenhar

201

vital , que s e empenha em múltipla s ati v idade s s imultaneamente , consum i ndo- s e . Con v ém s a li e ntar que, embora uma g rande parte des- ta energia vit a l p e rm a neça indiferen ci ada , parcelas ponderávei s d e la

e

s

pe c i a lizam- s e de ac o r do c om o tr ei namen t o formal ou informal das

p

ess o as e m d ist in t a s ati v idad es. Lam e n t a v elmen t e , Marx e En g el s, a ssim como a qua s e tot a lidade

de seu s s e g uidor es , inve s tiram muito no e s tudo do s er humano enquanto força d e trab a lho , de sc urando-o enquan t o protagonista de outros pa-

is s o c i a i s. Em bor a E n g el s te nh a a tent a do par a a importância da re- produ ç ã o, n ã o se apro f undou em s u a an á li s e . Para que a produção

d os hom e n s se j a s itu a d a no m esmo ní v el d a p rodu çã o da s mercadori as

p r e ciso qu e se a dot e uma es t ra té g ia polí t i c a " d escon s truti v a " (Scott, 1988) , a bolindo - se do hori z on t e do p e nsam e nto a dicotomização entre

o ra c ion a l e o e moc i on a l . O homem e nqu a nto for ç a de trabalho não

é

p

é

utíli z a s om e n te a razão, o qu e equi va l e a d i z e r qu e a dimen são emocio-

n

r

e produ çã o b i ol óg i ca n ã o é, exc lu siva m e n t e, um a to de a mor; é t am-

a l imp reg na a p r odu çã o de mer c ad or ia s . D a me s ma forma , o ato da

B~rtaux (1977 , p . 48) pensa a .distribuição an t roponômica como a

u

tr u t ura de classes. Não ~~trata, pois, da alocação de pessoas parti cu -

~ r e s .e f!!empre g os e s p~c~flco s ,mas da distribuição de membros de um a

l etl V lda?e pelas posiçoes de cla s se disponí v eis na estru t ura re s pecti-

va . Ca ?ena perguntar de que maneir a elemento s humanos de um gru-

I

l oca çao dos seres humanos nas diferente s posiçõ e s oferecidas pela es -

I

,

s oc ial acabam por s e situar ne s te ou naquele lu g ar social . O autor

m

exa me refuta a tese de a escola atuar enquanto "aparelho ideoló i ,

.

de E stado dominante" (Althu s ser, 1970) , assim como a hipótese ~e

~

u e o aparato _ escolar desempenhe a fun ç ão fundamental na reprodu-

,

d as rela ç oe s de produ çã o (Bourdieu e Pa s seron 1971' Baudelo t

;

. tablet, 197!). Na per s p ec tiv a de Bertau x (1977, p . '50), a ~ s cola não

,

pr e~ e nta senao u~ papel. s :cundário no proce ss o de reprodução da s

1

" l a çoe ~ de produção e foi ta?valori~ada por outros autores porque

s t e s nao se de~lveram na an a lis e da Institui ç ão da her a n ç a, " direta-

111 nte responsa v el pela reprodução da relação c apital-t rabalho " .

Os mes mo s autore s que confe r em à e s cola um papel que ela não

b

é

m um ato r ac ion a l , na m e d i d a e m qu e s e planeja ter um filho . A

I

,'

1 ~ 1r,ec orrem também à ~a~ília, a f i I? de mostrar a cadeia de in s titui-

e

x

i s tên cia de va r i ada s práti ca s cont ra cep t i v as e de av ançad a s técnica s

\

s e process os re~ponsave l s pela distribuição a ntroponômica. Ber -

m

é di cas p a r a re p ar a r a es t er ilid a de fe minin a ou m asculin a demon s tr a

I

I~IX ( 1?77, p . 50) dl ~c ord a da e x pre s são genéric a " a f amília confere

c

omo a ra z ã o p res id e a m ui t o s ato s d e con ce p çã o. T amb é m a reprodu -

I , s ~ s f ilho s um caplt~l . cult u r al", p r eferindo e x aminar a importância

çã o s o c i al e nvo l ve di fe r e n tes di m e n sõ e s d a p s iqu e . Por v ia de c on s e -

I , l a tl~a ~o grup~ ~ a mllIar e ~ ~ ada tipo e s pe c ífico de s t e grupame nto :

q

ü

ênc i a, n ão faz sentido afirmar q u e a p r o d ução d e me rc ado rias

é

I

,n~ íh~nca , fam í li a

d ,e pro f i ssion a i s, fa mília de ca mpo ne s es e f a m í lia

esidida p e l a razão e a produ ç ão dos seres hum anos, pela e mo ção. Ambas estão presentes em qualquer ação humana. A d ema i s, v olt a - se

p

r

o

I

p

, r á na . De s t a m a n e ira, a tes e g e ral s of r e p a lp áve i s a l ter a ç õe s : as fa-

II, f , l l ad~~s pe s s oas, co mo fo r m a s de elas vivere m se u s mei o s so c i ais d e

a lembra r , produção e reprodução são faces de um mesmo p r ocesso de produzir a vida .

Com o esta é a primeira vez que se faz este t i p o de a n á li s e d a r e-

011 c I? ' m a r ca m - n as pr ofundame n te, m as nã o as marc am d a mes m a 111 m e i r a" .

Mes~o quando s e agre ga ao objeto de análi s e o mer cado de t r a-

p

rodu ção em seus quatro mom e n t os -

p r od u ção, di s t r ibui ç ão , tro ca

h

n l ho , nao se chega a . cOI?P , re:nder a di s tribuição antroponômica se

e

c on s u mo - ela talvez careça bastan te d e a pro f unda me nto. N a im-

11

e a t:ntar para a msntuíção

d a heran ç a, na opinião do autor em

p o ssi b i li dade de realizar esta tarefa agora, la n ça - s e m ão da in te re ssa n- te a b or d agem antroponômica, d esenvo l vida p o r Bert au x ( 1977 ). E ste

a uto r p r o põe-se a ut i lizar o esq u ema m etod ol óg i c o de sen v ol v ido p o r Ma r x no posfácio (1957). Todav i a, além d e i g n o r ar a t ro c a , n ã o t o- ma a dis t r ib u i çã o n a mesm a a ce pçã o d e M ar x . E fetivamente, lid an- do com a p rod u çã o , Marx pensa a d ist r ibui çã o e m termos da s m od a -

l i da d es d e apr opri ação do pro du to por parte do s q u e se s i t uam contr a-

dito r iamen t e na estr u t ura d e c la sses: s a lári o e lu cr o . Em outr as p ala- vr a s, tra t a-se do m om e nto e m qu e o p rod u t o v olta ao s parti c ip a n te s do p ro cess o p rodu tivo. Po r est a ra z ã o, pe nso u - s e n a g ratific ação-

p uni ção c om o o ret o rn o do " produ t o " do p r oce sso produtivo d as h o-

me ns àq u e l es q u e n este se e n ga jar a m . Não é este, por é m , o ente ndi-

mento de Be r ta u x q u e, em s u a a n á li se, se afas t a d e M ar x n e st e pa r t i cular. Como se trata de um a proposta r i ca, passa - se a examin á - Ia, a i nda que l i geiramente .

202

l i l ul a. A enfa s e que ele c olo ca na h e rança n ã o permi t e perder de v ista tllI O p roce ss o de r e produ çã o não é s enão uma f ace da produ ç ão tou t

r o u r t , ~ uJa ~utra fa c e é a produç ã o

de mer cado r i as . Em outro s ter -

111 )S, na o A ser. Iapossível e x i s tir a produção econômica s em a produ ç ão

""1 r o po normca e vice-vers a .

Ho ~ e n s e mulher es par t icip a m de s sa s dua s dimen s ões da produ-

, ~ d a v ida. A s ~u~h e re s, t oda v ia, predomi nam amplamente na pr o-

d

ti ' P ' nde~ do do país , de c onquist a r eqüid a d e n a produç ã o e c on ô mic ~

I . nhec ida como tal . Conqu a nto n ã o se d ese je ade ntrar e s ta qu e stão 11 tl) b r ~ - s e qu e as mulh e r es c on stitu e m g rand es e fetivo s do ch a m a do m er-

l ' "l ~ Infor m a l . de ~ r a b a lho e que s ão , s i s t e m a tic ame nt e , s ub e num er a-

u s , T a nto assim e que estatís t icas de n e nhu m p aís c o i n cid e m com os

d

d u l os l e va ntados pela ONU, ' quando da avaliação do meio da Década

u c o antroponõrmca,

ao p a s so que es t ã o m a i s ou m e no s longe

203

da Mulher, em 1980, quais sejam: as mulheres realizavam dois terços do trabalho mundial, embora se apropriassem de apenas 10070da ren- da e detivessem tão-somente 1 % da propriedade. Donde se conclui que, dentre os deserdados, as mulheres são , proporcionalmente, mais nu- merosas, além de serem as mais miseráveis dentre os pobres. Esta pers- pectiva de gênero, lamentavelmente, não está presente na abordagem de Bertaux.

É correto afirmar,

com ele, que "a existência da relação de pro-

priedade capitalista pressupõe a existência massiva da relação de não- propriedade e a reprodução da primeira contém, de facto, a reprodu-

ção da segunda (Bertaux, 1977, p.59) . Ora, estas relações de distribui-

ção dos meios de produção fazem parte, não das

relações de distribui-

ção, mas das relações de produção: são as relações que articulam o eco-

nômico e o antroponômico. (

"distribuição antroponômica" permanece superficial e tende a masca-

rar seu segundo sentido, de outro ângulo, mais essencial: o da distri-

) Este primeiro sentido da expressão

buição

inicial das "pessoas", ou melhor, das fam ü i as, nos lugares de

classe,

a começar pelos lugares de proprietário

dos meios de produ-

ção. Neste segundo sentido, as relações de distribuição fazem parte das relações de produção (e não das relações de distribuição). A herança de capital, que em sentido estrito é a principal relação de reprodução

das relações de produção, faz parte das relações de produção .

Os momento s da produção stricto sensu e da reprodução são ar ti- culados por Bertau x nos mesmos termos em que Marx o fez no men-

cionado

faces do processo de produção da vida. Ainda que considerando legít i -

mo este procedimento , vê- s e nece s sidade de vincular, de alguma m a - neira, as dua s formas de pensar a distribuição antroponômica. N a

origem , sem dúvida , tratava-se da distribuição das "famílias"

posições na e s trutura de classes , o que equivale

da distribuição dos meios de produção. Obviamente, a reprodução des te processo tem de ser garantida para que o capitalismo possa operar. T o -

davia, não se podem desprezar aspectos da reprodução biológica e so -

na produção d e tão-somente e n -

cial, que apenas aparentemente não estão presentes mercadorias, para que o ser humano não seja tratado

posfác i o , o que lhe permite uma amarração perfeita das du a s

pelas

a dizer que se tratav a

quanto força de trabalho.

A distribuição antroponômica

enquanto

gratificação-punição

para os produtores

de seres humanos

reforça a

abordagem do ser humano enquanto totalidade do pensar-sentir-agi r.

Já que se optou por colocar à disposição do leitor uma síntese d o pensamento de Bertaux, torna-se imprescindível examinar, ainda q u e

sucintamente, a questão

produção lato sensu em seu s momentos constitutivos mostrou que, em-

bo r a cada um

dução stricto sen s u era o mai s determin a nte, o que não é , de f orma

da determinação .

Quando Marx examino u a

exerce s se poder de determinação s obre os demais , a p r o -

204

ul g uma~ cC:>ntestado pelo autor em pauta. No que tange à produção an-

I ~ . P?nO~ICa, todavia, .ele procede a uma inversão do processo de

de-

I

rmma5ao

C?m. :felto,

afirma

(1979, p.66):

"no processo

de

prod . uçao/dlstnbUlçao/consumo

antroponômico,

o momento que de-

I , rrruna os outros é

0 mon:ento

do consumo.

(

)

não é a produ-

das coisas, é a produção dos seres humanos; e ela ten-

d a ~et~rmm~-la como produção específica de agentes de produção

os dois processos que no

UUS coisas que ~ ) determina a produção

t,:

d~s homens que dete~mma a produção

( " nôrnica). E por causa desta relação entre ) l i ' ce sso de produção / distribuição / consumo

tu nto correspondente ao momento da produção econômica, qual se-

que domina ou tende a

d o m mar o conjunto do processo antroponômico".

antroponômico,

é o mo-

I , . momento.do consumo antroponômico,

determina a produ-

~ , O ~onsumo de alimentos, por exemplo, condiciona sua produção,

ri I ' : l e dlda em que deve haver, simultaneamente à produção de comes-

I Iv ' I , uma produç~o de pratos, travessas, talheres etc. Mas, por outro

, Também na produção econômica o consumo

l

u ~ ,o consumo

nao

estana se~do determinado pela produção, mo-

111 nto este com poder

de determinar não apenas o consumo, mas tam -

I! , 111s ua, forma? D~st~ sorte, parece mais do que óbvio que a produção

vutcto sensu constitui o momento determinante por excelência da to-

I 1I l d a de produção lato sensu. No que tange à produção antroponômi-

' l i , pass ar-se-la

o mesmo ou teria

razão Bertaux em considerar o con-

III I lO.C O~O o momento determinante?

A posição deste autor parece

I l 1 d u c l o lllsta, na medida em que o s er humano (que o autor reconhece

' ti 11I portador de " energia humana")

I ,~ )a lho Ef,etivame~te,

não conta senão como força de

I

t llI ~

se o consumo dos homens determina sua pro-

que está sendo con-

aí incluí-

,nao e a energia humana em sua totalidade

11i ra da, mas apenas aquela capaz de produzir mercadorias

ti I NLI d e produzir a mercadoria

I 1 1 1 l e nha adotado

1 II II I ur o s er humano na sua Integridade e não apenas enquanto traba-

1I1 / t ~ 1r . Defend~-se, nest 7 . ensaio, a tese de que a produção antroponô-

I II 11: da

t i I 1'1 duçao da VIda), nao pode se radicar numa situação de determi-

II I I ~ ' O à s avessas. Ao contrário ,

d

111 1 1 1I1nto~m~Is de!er~mante.

1 I 111 1 0p? nom~ca nao sao senão duas faces de um mesmo processo de

o

É estranho que Ber-

força de trabalho.

esta po~ição, .uma vez que seu enfoque pretende

sua ms.eparab~hdade da produção econômica (são duas faces

tanto do ponto de vista lógico quanto

para a produção'como

o

11 ulo hi~tórico, a~ evidências apontam

Se a produção econômica e a produção

11 () lu z ir a VI?a, não há por~ue inverter o processo de determinação.

l u i s ?O que I~tO, se s~ ~dm~te tratar-se do mesmo processo,

em suas

d \l l l , ~ l aces , se na no mirnmo madequado pensar em diferentes determi-

III I ~ ' \C~ . P or que um único processo teria tipos distintos

1 1 1v r s o de determinação? Não seria ilógico pensar desta ~aneira? A s ~

um enorme mérito na análise de Bertau x ,

ou melhor

1

1 11 mbo r a se reconheça

2 05

I

cuja contribuição - cabe ressaltar - foi e x t~emame , ?te. importante para mo s trar a indissolubilidade entre a produçao econom~ca e_a produçao

a ntroponômica, não se pode concordar com a determm~çao pelo con-

s umo nesta última. Concebe-se a produção como d. e termmante e.m am-

bo s o s tipos de produ ç ã o. Há evidências a este respeito. O Estado investe

n a pr~du çã o antroponômica quando as derl!~ndas da forç a de trab.a-

na guerra ~ara satis -

lho são alta s ou quando homens são nec essanos

a z er a pr e t e nsões e x pan s ionistas.

f

ouando estas nece ss idades

s . e c heg~~do a d~ s estI -

r estrin ge m, o E s tado se retir a desta empreIta~a,

mular e s te tipo d e produção , atra v és da adoçao de po~ItI~as . antma ~ a - listas. A int e rvenção do Est a do preserva semp r eo ~xer:Ito mdustna l

de r e serva , a fim de permitir

à produção a max lmlzaçao dos lucros.

De a c ordo com Comb e s e Haicault (1987, p . 33) , a abordagem

a n-

tr oponômi ca " re s tabele c e a unida de da

res hum a no s, tent a ndo fund a m e nt a r

reprodu çã o nas r e la ç ões s o c iais de produç a o ,

dos bens e a ?~ S se-

a an _ áli s e da s forma s S OCiaI Sd a

a s ua e. v ol~ - do capitalis-

produ çã o

e ap:e ender

ç ão, em s u a articul a ç ã o com f orma s d e d es en v ol v lme~to

mo".

Em outro s termo s,

as re~ações ~e classe estao presentes _ n a

'< . reprodução, a ssim como as r elaçoes de genero penetram na produçao.

Ri g oro s am e nte, não e x i s tem fron t eira s par a as relações hu~a~ as ,

s

umas d as o u tras, fundi n do - se n u m a sir nbio se de lo g~~ a . : ontradl ~ o na.

Esta idéia de fusão foi traba lh ada por Sega l (198 7 ):

buscar a primazia do sex o, da c lasse o~ da ra 7 a, ~em Iso l a -Ia s c o m ?

estru t uras sepa r ada s , já que e l as se fund i ra m hlsto nc~m ente .

nistas socia li s t as na I ng l a t e rra p r ec i sa m p arti r da r ealid a d e contem po -

rânea de uma socie d ade de c l asses cap italista r a ~ ial e se ~ ~al~e nt e

d iv idi da . " Disto se pode co n c lu ir ser d esp r op o s i tada

leve em conta apenas a c o nt \ ad i çã o entre as . c l asses S O C I ~ I S,de ixando

d e lado o antagonismo

rece frutífera a adoção do enfoque antr o p onômico .

ej am e l as d e gê n er o ou d e c l asse, um a v~ z qu e el~s. s ão con s tIt~t . l ~as

N~ o ~eve n amo s

A s femi-

u~ ~ c len ~ l a qu e

entre os gêneros o u v í ce-vers a - E I S p<?rqu e p a -

~es mo ?I s cord a~- analise, pOIS esta n ao

d o- s e d e Ber t a u x, re conh ece - se

a u til i dad e de s u a

separa pr odução e re produ çã o.

N esta linh a d e raci o cí n i o ,

vale a p en a re toma r a que s tão das alian-

ças en t re h omen s e mulh eres. Se a alian ç a é es t a b e lec . id _ a entre ser~s.s? -

c

ca - s . e x u a l d es t~ grupamento so -

c i a l. Para a ci ê nci a androc ê ntric a , que Ignora mais da metade d a

pe rm e i am os ac o rd o s.

i a l mente

desi g u a i s, é ób v io qu e a s re l aç õe s d e opo s içao contradIto n a

Lo g o , a con sc i ê n c ia

d e classe a s sume outro

rá t er qu a ndo se pen s a a het er o g eneidade

humani da de , a

con sciênci a de clas se é atingida quando os. memb ro s

d

est a c l asse s e tor na m

c ap a z es de d e f e nd e r

se u s ~ropnos

interesse s .

Tra ta -se,

co m o se sabe , d a p as sa ge m da class e e~ SI pa r a

a c~a ~ se pa r a

si . Este ti po d e ci ência

tra di tó r ias v i v i das n o sei o da m es m a classe so cial . A ex í stenc i a das a l i a n -

n

ão se per g u nta

a respe i t o d~s ? p~ s l ç o es

c . o n-

206

ca desi guais revela que os interesses de gênero tornam fr ag ment a d a

seja um t e rmo muito de g ê n e ro promo ve

fraturas no edifício da consciência de c lasse, exatamente por s e r igno-

l ido. p~la ciêncja falocêntrica. Quando levadas em consideração , as con-

de clas se, já

I c o n s ciencia de classe . Tal v ez " fragmentada "

r te . O importante

a reter é que a organiza ç ão

I radições de genero pod e m elevar o nível de con sc iência

qu

e

as frat~ras desta não significam poro s v azios, mas fi s sura s re c hea-

( - (, V -

da

s

de de s igualdades entre homens e mulheres .

.p:;.

O acima exposto exige um comentário sobre o cará t er teleoló g i c o GY

. ~

)11 n ~ o - te~e?lÇ>gico ~a ~istória : Quando se admite a con s ciênc i a de cl a s - {vI . •

"

fica dlfIC~, senao Impo~slvel , conceber

a história sem telas, pois 9} ' ( V-

I i i c l ass es terao como objetivo,

em suas lutas, realizar seu s interesses.

60'

,

P

I ar-se-á o mesmo com os gêneros se se admitir a consciência

de gê-

,-)

' :

11

r

? Procurarão

os gêneros lutar pela r e aliza ç ão de seu s intere ss e s?

l r /

, ' ' r á s uficiente a identidade

de

g ênero para que os g ênero s lut e m p e la '

n e c ução de seus interes s es? Classes sociais permeadas por antago-

n i s mos de gênero se r ão capazes de , efetiva mente , r ealizar seus in t eres-

' 8 ? Respostas a estas perguntas exigem uma política desconstruti v a

dlls cat egorias sócio-culturalmente

t i i lc n tí ficas".

ti • tu d o que realmente

da dupla

dadas, ass i m como das categorias

"Essa separação arbitrária de um 'modo de produ ç ão'

ocorre na h i stória (tão c a ract e rística

 

I

a li s t a/economista) acaba não nos dizendo nada e descul pa ndo tudo

(

) E p or muito t empo es s a dis s ocia ç ão es púri a d a ' produ çã o ' /' c o n s -

I ' n c ia' -

n

1111, n a tra dição mar xis ta ,

(lH, q u e insistiram para que id é ias, no r mas e regras f ossem recolocadas

110 m o d o de produção , sem o que este não poderia sob r evive r n e m me s-

111( p o r um dia ; e de outro ,

I 1111 e m que a noção

u c o rpo/ a l ma , reapa re cendo s o b a fo r m a mar xis t a - f o i q u est ion a -

q u e é ela me s m a a ve lha di c o t omia

e n tr e m a t éria / espíri to

e a ntro p ó lo-

de um l a do , p e lo s hi s t or i a dore s

pelo s mat e riali s ta s

de ' superestrutura'

c ulturais , que in s i s t i - nunca foi materialista "

( ' 1 ' 11 m p s on, 1981, p. 177-8). " A tare f a n ã o é , pois , fácil; consiste em

e imp e dir que s eu

" I áter in v a~ivo, enraizado

venha pe-

I o n s t ruir a razão cartesiana

em sua to ta lidade

ao longo de s éculos de prát i c a ,

11

(r a r t e ntativas de focalizar antroponômica e dialeticamente os f e nô-

111

I

' n os so ciais . Eis porque é necessário fa zer uma re vi são d a ontologia bas es epistemológicas da Ciência.

ti

I

nq uanto as contradições f undamen t ai s da so c i e d a de não fo re m

11( . r a das, haverá distinta s pe r specti v as

de cla ss e , de r a ç a e de gên e ro .

N O s e trat a de uma esco l ha do s agregado s sociai s s ubalt e rno s e domi-

unnrcs. A pa r tir do ponto de ob s ervação destes dois tipo s diferentes

I t l l - \ r upam entos sociais, torna-se disponível uma determinada perspe c -

I

v

I s o bre a realid a de.

O ponto

de v ista do s oprimidos (dominado s-

I

I I ~ a dos) re v ela-se meno s parcial , ainda que o s ej a, e, por tan to ,

m ai s

I

ti d i g no, p o r s e r mai s a bran g ente. A i st o J a gg a r (1 9 8 9 ) c h ama de pri - I i o e p istem o l ó g i c o . Se isto for verdade i r o , as m ul heres têm possi-

207

bilid a de, e e s ta t em sido demonstra da, de fazer ciência de uma es péc ie

diferente daque la realizada pelos homens, o que seri a vá lido t a mb ém para g rupos étni c o s e cla s se s sociai s oprimido s ( dominado s -e x plora dos ) .

ou de id éia s e de

pro c essos atrav é s dos quais essa s idéias são g eradas e c ompr ee ndidas,

são

mada g lobalmen t e , ne s te sentido , dizemo s que a ciê n c i a tem g ê n e ro " (F ar g a nis, 1989 , p.20 8 ).

a que s tão da etnia d e lado , pode- s e a firmar que o g ê-

nero e a cla sse tornam di s ponív e l uma per s pectiva que pode ou n ã o ser ass umid a pe l o gên e ro e pela c lasse s ub a l t e rn o s . Co m o a i deologia

dominante

id e ologi a ), e s ta apresent a contr a diçõ e s

e d is-

pon í v e l forn e ce a p e rsp e ctiva realm e nte as s umid a pelas ca tegorias s ocia is

subalternas. Se houve s se a determin aç ão

ria mulhere s m a chistas , n e m oper á rio s com e s pírito de p a trão , n e m "ne- gro d e alma b ra nca " . A disponibilidade de uma e pi s temolo gi a d os

oprimidos é g e r ada p e la s condi ç õe s con cre tas. Tod av ia, não

de uma dispo ni bilidad e;

pria hi s tóri a, trilhar o s ca minho s d a misti f ica ç ão ord e m , n a def e s a d e seu s i n t er esse s .

Uma epistemo lo gia femin i sta não d espreza a emoção enq u anto vi a de conhe c imento (Jaggar, 1989), mesmo porque a emoção pode muit o bem fecundar a r azão. A comunicação humana constitui um process o

d e r egistrar e estruturar a exper i ênc i a e a emoção particip a a tivament e

de ste p rocesso. "Tal atividade é limita d a pela (fr e q üentem e nte fluida )

n a tu reza do equipamento

t

espécies de sentido que podem ser, de forma respons á v e l, a tri bu í do s à experiência; e eu tomo a noção de responsab i l i da d e ep i stê mica par a apo iar u m feixe de c o nsideraç õ es q u e atuam pa r a consti t uir tai s i mpe- ra t iv o s" (Code, 1989, p.1 6 0).

f or mas d e

imperativos são requeridos pa r a l imitar a s

cognitivo humano e pela (tam b ém f l u i da) na -

da

ra . Ei s porqu e nem s empre o ponto de ob se r v a ç ão priv ilegi a do

"

T anto

o conteúdo quanto a f orma de pen s amento ,

af etado s por fatores s ociais concreto s,

um dos qu a i s o gênero. T o-

Dei x ando- s e

p e n e tra larg a m e nte

n a i deolo g i a domin a da

mai s p ro f und as

(ou contra- que a p r ime i -

do â ngulo d e v isão n ã o ha ve -

se t rata

c a be ao s agente s so cia is, qu e fa zem s ua pró-

ou d a s ub ve r sã o

u r eza da realidade ;

(

)

Nã o s e pretende,

aq u i, fec h ar ques t ão s o bre d i fere ntes

~

9 Q f con h ecer p ar a h o m ens e m u lh e res. Entretanto,

i ns i s t e-se em deixar e & -

0

1 r . p ~ . J ~ . o s~b i l idac!~" j l b st a,já

g u ~ a § . ~ Re riênc i as

de mu lli e re s e ho men s

& ão m ui t o dist i nt as em u ma socieda d e n a q u ã l não h a i g uald a d e

:

)

)"

s

(!)

o cia l

<v v ) ê i ftreo s gê neros . E m bo ra n ã o s e preten d a en tra r n e ste ter r eno , r e m ete-s e

s

o ' l e i t ~ C õ ae

car as d ist int a s ex p eriê n c i as

e n saio , e nfa tiz ar o aspect o s o cia l d o co nhecimento. Q conhe cimen to

e, porta n t o , a ciên c ia é um pr o cesso so cia l . A c om p r ee nsão destF f ãto

intelec -

con s tit U I um ' ' P ' iT - r~m I isito nece ss ário , tanto p o Iít k a qu _ a!ll o

tua l me ' õfe , pa rãâ construção de uma teoria feminlsta na ciência" ( Kel -

( ' 19 89 ), qu e de sce ao nív el da B iolo g i a, a f im d e expli-

de h o men s e m ulheres.

P re fere- se.

nes t e

208

l e r, J989, p. 178). Para ap r ofundar

ainda mais a crít i ca à ciência falo-

: C nt ri c a, pode - se desconstru í r-reconstruír

o conceito de . obje t ivídade

e, neg ando

/ t s r e lações dialéticas entre ambas permitem discernir entre o i nvesti- mente objetivo e a ilusão objetiva .

a oposição entre objetividade e subjetividade, a f i r mar que

feministas deveriam ser tomadas não como

'nproximações da verdade' , que podem ser entrelaçadas em um tecido

' lá fora', mas como instiga -

do mundo

dor e s parciais permanentes de ruptura e de deslindamentos dos esque-

IIIUS d ominantes de representação. Desta perspectiva , se há 'um' ponto

d

à

l

"

As pretensões

m c ostura de representação

e obse rvação feminista ,

ele só pode se r aquele que emerge das lutas

- de oposição precisamente

! o l !t i ca s da 'consciência oposicional'

tsplração de 'uma história verdadeira ' , que tem sido o motor psíquico

UII c i ê n c ia ocidental"

(Harding , 1989 , p . 198-9) .

~

rlvitre definir o que se entende por ele. Chamar-se-á representação aQU i f ,;,

J

á que se está usando o conceito de representação ,

será de bom

1 0 rcc QD h eci~

do eu e do outro e, sobretudo ,

e s t e s s er - a a s ses

à relação entre o " ',~

, )

11 C o o utro , podendo

sociais, grupos étnicos ou cate-

 

orlas de gênero (Oliveira,

1987). A natureza

da rela ç ão é, pois, con _ !

I

m ditória. A representação

não se confunde

com a vivência ,

com a

periência. A representação é o pensar-sent i r a vivência. Tem luga r

t l j . \ undo uma base mater ial,

q ue nutr e o n í v e l simbólico e por ele é al i -

montada. Na r ealidade c o n c r e ta,

l i shnbónco: u m é c o n s t it utiv o

I ' I' de des l i za r pa ra u ma op o s ição ide al ist a , p o de - se a firm a r

e

d o outro . De s ta so rte, se m correr o ris -

q ue as re-

nã o s e p o dem sep ar a r

o ma teri a l

nrcscntações que os hom e ns e a s mulhere s f azem da realidade socia l nporam c omo força s propul s oras de novas ações. Por conseguinte, t rata - (je fo rças propulsora s da própria história que, uma vez integradas

II I l l. l x peri ência, constituem verdadeiras for ç as materiais . Mais uma vez,

uuua-se patente a necessidade da adoção de uma política desconstruti - I , que não apenas ataque no fron L dé. t ~! ência , como também no das uocõcs f ornecidas pela cul t ura, p ois estas são formadoras do gênero , IHN c l a sses e das segregações raciais.

Pe nsa ndo a c iência mais enqu a nto prá t ica que enquanto conteú -

do, m a is e nquanto proces s o que e nquan t o produto , pode - se sugerir

IjIW, em ve z de lutar por

um a c i ência f eminista ,

se l u te por uma for -

IIIH f e mi nista de s e fazer ciência (Longino,

111 explicitar que uma prá t ica cientí f ica feminista ad m i t e a interferên-

Dest e modo, a pol í -

11\'/1 ucaba in terfe rindo

I It l u l s tu. Ma i s uma v ez, torna - se imperati v a

11\,,111 p o lítica des c o nstru t i v a , 1111 c e sp í r ito não é pe r manen te ,

IItt ; j tem s ido constante. Efet i v a men t e, quaisquer que sejam as q ual í-

po r quan t o

1 1 1 1 uo po l ít ica no r aciocínio e na int e rp r e t a ç ão.

1989) . Tal vez v alha a pe -

da p r á ti ca científica

a ado ç ã o

fe-

de uma estra- entr e ma t é-

entre o h o mem e a mu-

no próprio conteúdo

se a sep araç ão

a pol arização

2 0 9

dades atr i buídas como e s sen c iais a um dos gêneros s ão imediatamen te neg a da s .ao outro .

A ampliação das fronte i ras do materialismo histórico, neste e n-

as r e lações socia is nu -

saio , a fim de se poderem trata r holisticamente

ma s ociedad e di vi dida em cla s ses s ociais e em gênero, encontra m

amparo nos próprios fundadores d esta conc e p ç ão de história. Portan-

t o não c usta l e mbra r

uma pa ss a g e m

de M ar x e E nge l s (195 1, p.6 1)

a

propó s ito do objetivo e do subjetivo, tão tipifica~o~es do masculin o

e

do f e mini n o . "O p r incipal d e feito de todo materialismo passado -

aí compr e endido

o d e F euerbach -

é que o objeto , a reali?ade,

o !llu ~-

do s e nsív e l não

são apreendido s

senão sob a forma d e objeto ou mtu i -

ção , ma s n ã o enquanto ati v idade humana concreta , enq~anto ~rática , de m a neira subjetiva. E isto que e x plica porque o lado at.l v o ~Ol d:se n-