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SAMIZDAT www.revistasamizdat.com 40 abril 2014 ano VII ficina

SAMIZDAT

www.revistasamizdat.com
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SAMIZDAT www.revistasamizdat.com 40 abril 2014 ano VII ficina
40 abril 2014 ano VII ficina
40
abril
2014
ano VII
ficina

SAMIZDAT 40

abril de 2014

Edição, Capa e Diagramação Henry Alfred Bugalho

Editor de poesia Volmar Camargo Junior

Autores André Foltran Cecília Maria de Luca Cinthia Kriemler Daniel Moreira Fernando Domith Henry Alfred Bugalho Hernany Tafuri Igor Melo de Sousa Joaquim Bispo José Guilherme Vereza Julia Mendes Luis F. Sprotte Marcelo Costa Balotto Maria Amélia de Elói Maria de Fátima Santos Mario Filipe Cavalcanti Marlon Vilhena Priscilla Matsumoto Rafael F. Carvalho Rodrigo Domit Rodrigo Zafra Toffolo Suellen Rubira Tainá Rei Tatiana Alves Vander Vieira Vanessa Regina Zulmar Lopes

Textos de:

Ernest Hemingway

www.revistasamizdat.com

Imagem da Capa: Ernest

Hemingway,

ISSN 2281-0668

Editorial

Um dos maiores narradores da América Latina se foi.

Gabriel García Márquez foi um dos grandes nomes da Literatura na segunda metade do século XX. A sua prosa engenhosa e rica, resgatando as tradições orais dos povos hispano-americanos, renovou o gênero romanesco e revelou ao mundo toda uma geração de autores, como Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Julio Cortázar, Alejo Carpentier, Miguel Ángel Asturias e, depois, Isabel Allende e Laura Esquivel. Despedimo-nos deste mestre com imenso pesar, que atra- vés de sua pena introduziu estes tristes trópicos no cenário mundial. Segundo o próprio García Márquez: “assim somos, e nada

nos poderá redimir (

do mundo inteiro sem um instante de amor: filhos de raptos, de violações, de tratamento infame, de trapaças, de inimigos com inimigos.”

Como órfãos, agora retornamos às suas obras, em busca pela chave para prosseguirmos nos reinventando. Adiós, Gabo.

).

Um continente concebido pelas fezes

Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.

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As ideias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores da revista.

Sumário

Sumário Por quE Samizdat? Henry Alfred Bugalho 6 CoNto uma noiva para o João do Campo
Sumário Por quE Samizdat? Henry Alfred Bugalho 6 CoNto uma noiva para o João do Campo
Sumário Por quE Samizdat? Henry Alfred Bugalho 6 CoNto uma noiva para o João do Campo

Por quE Samizdat? Henry Alfred Bugalho

6

CoNto

uma noiva para o João do Campo Joaquim Bispo

9

Pelo tempo que durar Rodrigo Zafra Toffolo

12

alice através de si Suellen Rubira

14

Hora de abrir a caixa José Guilherme Vereza

16

o

ilusionista Mario Filipe Cavalcanti

19

Eles haviam mentido Fernando Domith

22

A Professora de Caligrafia Zulmar Lopes

24

a

revolução Luis F. Sprotte

28

Não posso Cinthia Kriemler

30

É

assim que eu desapareço

32

 

Priscilla Matsumoto

Cotidiano

35

 

Tatiana Alves

Caixinha de Pregos Maria de Fátima Santos

36

muito tempo depois Rafael F. Carvalho

39

Para onde tinha de descer Marlon Vilhena

40

o morto que eu sepultei Maria Amélia de Elói 42 traduÇÃo os matadores Ernest Hemingway
o morto que eu sepultei Maria Amélia de Elói 42 traduÇÃo os matadores Ernest Hemingway
o morto que eu sepultei Maria Amélia de Elói 42 traduÇÃo os matadores Ernest Hemingway

o morto que eu sepultei Maria Amélia de Elói

42

traduÇÃo os matadores Ernest Hemingway

44

tEoria LitErÁria Hemingway, o caminho da vida para a Literatura Henry Alfred Bugalho

52

abre-te, cérebro! o tudo que cabe nas palavras de arnaldo antunes Hernany Tafuri

56

CrÔNiCa Este mundo não foi feito para a gente, meu amor Henry Alfred Bugalho

64

meu companheiro medo Cecília Maria de Luca

66

PoESia onde cantam as cotovias André Foltran

68

Há quem dia que não era aquela música Vanessa Regina

70

morro do Chapéu Julia Mendes

71

Pretérito imperfeito Igor Melo de Sousa

72

Parece-te mais uma faca cravada em meu crânio Vander Vieira

73

movimentos rápidos de retina Marcelo Costa Balotto

74

Félix da Cunha Daniel Moreira

76

Sitiada Rodrigo Domit

77

Brad Pitt ao meio-dia Tainá Rei

78

Siga-nos no Facebook e twitter e acompanhe as novidades da revista Samizdat

   
     
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Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo
e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho

revistasamizdat@hotmail.com

inclusão e Exclusão

Nas relações humanas, sempre há uma dinâ- mica de inclusão e exclusão.

O grupo dominante, pela própria natureza

restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios.

Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostraci- zado.

As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigo- so, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprimir, esconder, banir.

A União Soviética não foi muito diferente

de demais regimes autocráticos. Origina-se

como uma forma de governo humanitária,

Foto: exemplo de um samizdat. Cortesia do Gulag Museum em

Perm-36.

igualitária, mas logo se converte em uma dita- dura como qualquer outra. É a microfísica do poder.

Em reação, aqueles que se acreditavam como livres-pensadores, que não queriam, ou não conseguiam, fazer parte da máquina administrativa – que estipulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo –, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão.

Datilografando, mimeografando, ou sim- plesmente manuscrevendo, tais autores rus- sos disseminavam suas ideias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as passando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que nada mais significa em russo do que "auto- publicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

E por que Samizdat? A indústria cultural – e o mercado literário faz parte dela

E por que Samizdat?

A indústria cultural – e o mercado literário

faz parte dela – também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor de mercado. Inexplicavelmente, estabele- ceu-se que contos, poemas, autores desconhe- cidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro.

A indústria deseja o produto pronto e com

consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absor- vido pelo mercado.

E a autopublicação, como em qualquer regi- me excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público.

Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos – como TV, revistas, jornais – onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor.

Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua pala- vra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos.

E, com a internet, os autores possuem acesso

direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escrevem (quando há) surge em questão de minutos.

A serem obrigados a burlar a indústria cul-

tural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há grandes tiragens que substituam o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos.

Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pós-modernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores interessados em trocar experiências e sofistica- rem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneida- de.

Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica gratuita, escrita, editada e publicada pela novíssima geração de autores lusófonos. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

www.revistasamizdat.com

Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais. www.revist asamizdat.com www.revistasamizdat .com 7 7
Conto
Conto

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Conto
uma noiva para o João do Campo Joaquim Bispo Era uma vez um rapaz que

uma noiva para

uma noiva para o João do Campo Joaquim Bispo Era uma vez um rapaz que vivia
uma noiva para o João do Campo Joaquim Bispo Era uma vez um rapaz que vivia

o João

do Campo

Joaquim Bispo

Era uma vez um rapaz que vivia sozinho no campo e raras vezes ia à cidade. Falava apenas com as cabras, os pássaros e as árvo-

res, a não ser na festa dos rebanhos. Chegado

à idade de casar, não conhecia ninguém que

quisesse viver com ele, e pensava que todas as raparigas preferiam ficar na cidade, em vez de ir viver para o campo, onde, às vezes, faz muito calor e muito frio, e não há luz

à noite. Então o João – assim se chamava o rapaz – foi falar com o rei, dizendo:

– Meu rei, já tenho vinte anos e ainda

sou solteiro. Não sei de ninguém que queira

casar comigo. Peço-te que me arranjes uma noiva para viver, dia e noite, lá no campo onde moro.

O rei ficou muito admirado por alguém do seu reino não ter com quem casar e disse:

– Daqui a três dias, volta aqui, mas traze

a coisa mais bonita que o campo tem, como

prenda para a tua noiva.

João assim fez. Daí a três dias, voltou ao palácio com um braçado de malmequeres. Ao lado do rei estavam três pretendentes, que ele tinha arranjado, entre as solteiras da cidade. Uma disse:

– Não gosto de malmequeres, que me fazem espirrar!

A segunda disse:

– Tenho muitos, lá em casa, mais bonitos que esses!

A terceira disse:

– Os malmequeres são as minhas flores preferidas. Caso contigo.

No dia seguinte, fez-se uma grande festa e casaram-se os noivos que, por fim, partiram para o campo. Durante uma semana, vive- ram os dois muito alegres. Corriam, rebo- lavam nos prados, jogavam às escondidas e riam-se a valer. Depois, o casal começou a ficar triste, porque esperava que o casamento fosse diferente. A rapariga dizia que o João não gostava dela, o que era um pouco verda- de. Achava-a muito delicada, muito “menina da cidade”. Começou a desejar que a sua noi- va fosse mais robusta e gostasse de jogar à bilharda, à pedrada e a outros jogos de rapa- zes do campo. Resolveram pedir ao rei que os descasasse e lhes arranjasse outros noivos. Assim fizeram. Contaram ao rei o que tinha acontecido e ele ficou muito pensativo. Disse ao João:

– Volta daqui a três dias, mas traze a coisa mais saborosa que o campo tem, como presente para a tua noiva.

João assim fez. Daí a três dias voltou com uma saca de peras, muito cheirosas e sucu- lentas. Ao pé do rei, estavam três pretenden- tes. A primeira disse:

– As frutas doces fazem-me engordar.

A segunda disse:

– Para comer peras, fico em minha casa!

A terceira disse:

– As peras são a minha fruta preferida. Caso contigo.

Assim se fez e, depois da festa, os noivos partiram para o campo. Durante uma sema- na correram, saltaram, riram e brincaram

muito. Depois começaram a ficar tristes. A rapariga dizia que o João já não gostava dela,

e era verdade. Achava-a demasiado suave e

frágil. Parecia-lhe que havia de preferir uma que fosse mais vigorosa e gostasse de jogar às quedas e ao jogo do pau. Contaram tudo ao rei, que os descasou e que, depois de pen- sar um bocado, disse ao João:

– Volta cá daqui a três dias, mas traze a

coisa mais divertida que há no campo, como lembrança para a tua noiva.

João voltou no dia combinado, com um par de cajados. A primeira das novas preten- dentes disse:

– Que jogo tão rústico! Eu só gosto de jogos de tabuleiro.

A segunda disse:

– Que bruto; ainda alguém se magoa!

A terceira disse:

– O jogo do pau é o meu favorito. Caso contigo.

O rei, então, disse:

– Ide para o campo e voltai só daqui a um

mês. Se então me disserdes que continuais a querer casar-vos, assim farei, mas só se gos- tardes de viver um com o outro.

Os noivos assim fizeram. Durante a primeira semana, não fizeram outra coisa senão jogar ao jogo do pau. Depois jogaram

à pedrada, ao braço-de-ferro e ao salto a pés

juntos, zonzos de alegria. João estava feliz. Fi- nalmente encontrara alguém com os mesmos gostos. E também gostava do seu corpo, que era musculado e rijo, à maneira do campo. Passaram a dar muitos beijinhos e decidiram dizer ao rei que, agora sim, estavam bem um para o outro e queriam casar. Mas, antes, a

noiva confessou:

– João, eu, na verdade, não sou uma rapa- riga; sou o filho do rei. O meu pai, avisado por um mágico, fez que eu sempre me tenha vestido de princesa e ninguém no reino sabe que eu sou, na verdade, um príncipe. Quando te vi, gostei do teu ar campestre, e quando soube das tuas dificuldades com as

outras raparigas, percebi que talvez fosse eu

a pessoa que te pudesse contentar. E realizar- me contigo. Eu próprio, também me queria casar. Então, pedi ao meu pai para me deixar vir para o campo contigo.

João, apesar de surpreendido, aceitou e beijou apaixonadamente o amor da sua vida. Estavam ambos felizes e isso era o que na verdade interessava.

Quando se completou um mês, voltaram

ao palácio e contaram ao rei que estavam decididos a casar. Houve uma grande festa

e o rei, em pessoa, casou a princesa com o

João, perante todo o povo. Todos se diverti-

ram e um dos mais animados era o rei, que, finalmente, via o seu filho feliz.

––––––– ––––––– –––––––

A perceção tradicional sobre a homosse- xualidade considerava que esta orientação se devia a erros de educação e outras in- fluências do meio e que, portanto, evitando esses erros e essas influências se obtinham

Joaquim Bispo

indivíduos heterossexuais, ou que, reeducan- do os já afetados, seria possível a “cura”. A reflexão sobre esta problemática, no entan- to, tem vindo, aos poucos, a considerar que a tendência para se ter atração sexual por pessoas do mesmo sexo tem origem genética, sobretudo. Estudos neste sentido vão sendo divulgados e o crescimento desta conceção na mentalidade geral da sociedade vai fazen- do compreender o sofrimento de quem nasce homossexual e se vê discriminado em mui- tos dos direitos de cidadão comum. Algumas sociedades levam a tentativa de melhorar este estado de coisas às leis.

Há quatro anos, o parlamento português instituiu o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. A lei foi aprovada na espe- cialidade no dia 11 de fevereiro de 2010 e entrou em vigor a 5 de Junho. Deste modo, Portugal passou a ser o oitavo país do mun- do a realizar, em todo o território nacional, casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo, juntando-se aos Países Baixos (2001), Bélgica (2003), Espanha (2005), Canadá (2005), África do Sul (2006), Noruega (2009) e Suécia (2009). Posteriormente também Islân- dia (2010), Argentina (2010), Uruguai (2013), França (2013), Nova Zelândia (2013) e Brasil (2013) optaram por semelhante consagração legislativa.

Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta

a escrita de ficção desde 2007. Integra várias coletâneas resultantes de concursos lite- rários dos dois lados do Atlântico e publica regularmente na revista Samizdat desde

2008.

Contacto: episcopum@hotmail.com

Conto Pelo tempo que durar Rodrigo Zafra Toffolo https://www.flickr.com/photos/imuttoo/2096121383/
Conto
Pelo tempo que durar
Rodrigo Zafra Toffolo
https://www.flickr.com/photos/imuttoo/2096121383/

Antes de encerrar a frase, os aplausos to- mam a acústica de assalto, e as últimas pala-

vras são abafadas. Claro que sempre quis isso:

as palmas, o reconhecimento, o sucesso

disser o contrário estarei me enganando. O problema está no tempo do verbo.

O que eu quero, agora, é outra coisa. Uma

coisa que não tem nome, e que nem mesmo sei classificar. Uma coisa que não tem forma, cor, cheiro nem tamanho. Uma coisa que está lá, todas as manhãs quando acordo, que não sei como é ou seu significado, mas certamen- te quando a entender ou descobrir serei mais feliz.

Os flashes espocam em minhas retinas. O brilho inebria os sentidos e me faz, por alguns segundos, ficar distante de toda a algazarra de repórteres, público e bajuladores e oportunistas que me adulam. Mesmo sabendo a resposta, me pergunto se todas essas pessoas vieram prestigiar minha arte ou assistir a Cidinha da novela das nove.

A madrugada passa lenta, angustiante. Ar-

tista dorme tarde e acorda pela tarde, dizem por aí, mas o caso aqui é a insônia que se faz presente todas as noites após o espetáculo. E só piora quando vejo, em meu e-mail, o texto de um crítico ou outro jornalista qualquer exal- tando superficialmente minha atuação.

se

Do camarim ouço o público, histriônico, e

isso me enjoa. A vontade é de abandonar tudo

e nunca mais voltar. Mas não posso; não devo.

Saio do teatro mais tarde a cada dia por causa das fotos e dos autógrafos intermináveis. Os só- cios da casa, meu diretor e os técnicos de cena

comemoram as sucessivas lotações – só eu vejo

a plateia vazia?

rodrigo zafra toffolo

Obtenho a pior reação da minha agente quando informo a decisão de dar um tempo em minha carreira, mas eu já havia previsto isso. Ela tenta argumentar, aos gritos, sobre os contratos a cumprir e as multas por rescisão. É o preço a se pagar. A novela já terminou, a temporada no teatro entra na última semana, as filmagens do longa-metragem interrompidas por falta de verba

Nunca guardo cartas de fãs, mas essas pare- cem especiais. Não falam de mim como atriz, objeto televisivo, nem capa de revista. Suas palavras desnudam meu íntimo, e não posso ignorá-las. Quem me vê como realmente sou? Ao final de cada missiva, uma frase solta no canto do papel. Quando as reúno, entendo que são versos de um poema.

Meus últimos monólogos ganham uma mo- tivação. Tento achar, por toda a plateia, aquele – sim, acredito ser “ele” – quem me decifra. Mas ele não se expõe, e não consigo encontrá-lo.

Antes de partir, volto ao teatro – meu lar, minha vida. As luzes do palco, todas acesas, refletidas para um único ponto, e esse local é onde estou. Só assim posso, com toda clareza, enfim, concluir a frase que os aplausos nunca deixavam:

Pelo tempo que durar.

Um vulto se afasta por entre as cadeiras e some ao cruzar a cortina da saída. Ainda corro na direção avistada, inutilmente.

A carta em cima de um assento. A última. O que sinto ganha nome – vou em busca do meu eu.

Nasceu em Santos (SP) em 1984. Formado em jornalismo pela UniSantos, é escritor e roteirista.

Autor do livro de contos Um dia na vida (2013). Contista na revista literária digi- tal A Capitolina.

Blog: rodrigozafratoffolo.blogspot.com.br

Twitter: @RodrigoZToffolo

Conto a lice através de si Suellen Rubira https://www.flickr.com/photos/koke/2598440196/
Conto
a
lice através de si
Suellen Rubira
https://www.flickr.com/photos/koke/2598440196/

Era manhã de domingo, rodovia calma. Lá do alto de um viaduto, Alice olhava para os pés descalços, cambaleantes, brincando de equilibrar-se.

Num minuto Alice vivia, no outro, Alice no chão. Era estranho olhar-se daquela for- ma. Imaginava que as pessoas, quando caem de altas distâncias, teriam apenas um crânio rachado e muito sangue em volta de si.

Enfim, esperou um tempo até que encon- trassem seu corpo, estranhamente todo retor- cido. As pernas formavam um ‘v’. Os olhos estavam abertos, vidrados.

Mas era domingo, havia de demorar. Queria chamar o motorista do ônibus que trafegava por uma via distinta. Decerto, se a visse ali naquele estado, poderia chamar uma ambulância e avisar a família e amigos, para que pudessem todos chorar a perda. Nin- guém viu.

Por sorte, Alice viu aproximar-se um carro. Uma família! Ótimo! Pessoas que vivem em famílias unidas (parecia ser o caso daquela gente em questão) possuem um coração grandioso. Iriam chamar médicos, polícia, a mãe, o pai e o irmão de Alice e

iriam dizer palavras de pesar: “era tão boni-

ta!”, “como era jovem isso com ela?”

O sangue que tomava conta de seu cor- po – pois certo tempo já havia se passado – estava viscoso, grudento no asfalto. O carro parou.

Alice deliciou-se com o estardalhaço feito pela matriarca. Agia como se estivesse vendo um dos próprios filhos estirado no chão. Sim! Se a moça desconhecida protestava daquela maneira, certamente os seus pais e amigos também sentiriam o vazio profun- damente, talvez até mais. Quem sabe até

”,

“quem será que fez

Suellen rodrigues rubira

quisessem ir para o outro lado apenas para não suportar a vida sem ela.

Não demorou muito para que a multidão

se

chegasse. Agora, passava das nove e meia.

O

domingo começava a tomar forma. O sol

ficara mais forte, os mais dispostos saíam para a rua. Havia um dia inteiro para apro- veitar.

Algumas pessoas diziam “burra! garanto que fez isso por causa de homem!” ou então simplesmente Alice ouvia as palavras “covar- de!” ou “e a família agora é que sofre! pobre mãe!”

Era tão injusto pensar daquela forma. Mais um tempo se passou e a mãe de Ali-

ce chegou até o local. Desmaiou. O pai e

o irmão tiraram forças das profundezas de

um lugar desconhecido dentro de si mesmos

para conciliar a tragédia da morte de Alice e

o estado emocional partido da mãe.

No entanto, Alice sorria. Sorria olhando aquela cena. Ela importava. Independente- mente do que pudesse um dia ter pensado, ela era alguém.

– Alice?

– Ahn?

– Então, como eu estava te dizendo, você

precisa assinar essas duas vias para que pos- samos começar a quimio, semana que vem. Você entendeu todos os passos? Tem alguma

dúvida?

– Não, claro que não. Começamos semana que vem.

Alice sorriu com dentes aguados.

E saiu do consultório satisfeita com o trágico fim de si mesma desenhado em sua mente.

Mestre em Letras – História da Literatura – FURG, Licenciada em Letras Português/ Inglês Blog pessoal: http://freakinthesky.wordpress.com/

 

Conto

 
   

Hora dE aBrir a CaiXa

 

José Guilherme Vereza

 

Ela chegou perguntando tudo. Quem tinha

decorado o apartamento, quem tinha preparado

a

mesa, quem tinha acendido as velas. Repa-

Ela me perguntou só porque disse na noite anterior no Baixo Gávea que tinha me formado em biologia.

rou nas gravuras de Gerchman, nos livros mal

Ela sorriu curiosa.

Mexe com bichos?

arrumados na prateleira, na altura do rodapé. Varreu com os olhos o quarto, sorriu com a cama king size, pendurou a mochilinha no

cabideiro torto e largou as sandálias no tapete. Não bisbilhotou o banheiro, mas voltou direto para a cozinha, onde abriu a geladeira, elogiou

o

os dedos bem cuidados. Eu só observando seu jeito despachado. Passou por mim, ensaiou um beijo na trave da boca, “delícia de lugar”, senti, enfim, o contato de sua língua úmida e rija no meu ouvido. Antes que virasse o rosto em sua direção, ela se intrigou com a rede da varanda.

Bordeaux rosé pegou um aipo da salada com

– Criança em casa?

Perereca – dissimulei com semblante sutil. – Estudo seus comportamentos noturnos.

Ela me olhou com cara de burra e eu me excitei com sua reação desentendida encarnada no corpinho tudo no lugar, peitinhos supos- tamente naturais, bunda arrebitada, lábios carnudos, pés perfeitos para um fetichista, e um sorriso dengoso de quem disfarça que sabe tudo de cama. Gosto assim, fazer o quê? En-

grenamos conversa boa entre risadas e caipi- vodcas. Seus olhos tinham estilingues, miravam

 

– Não, macacos.

 

minha alma, enquanto eu deitava falação. De burra não tinha nada. Sonegou um beijo, mas insinuou aceitar conhecer meu apartamento noite seguinte, alegou que ficaria mais à von- tade, havia uma esquadrilha de ex-ficantes revoando no Baixo. Melhor assim. Fui para casa

Ela arregalou os olhos.

Macacos Pregos. Imensos e peludos.

Ela mordeu os lábios, destemida.

Ui.

Expliquei que, por ser contíguo à mata, meu

sozinho. Excitação romântica, plantação perfei- ta para colheita na noite seguinte. Gosto disso. Do risco incalculado.

apartamento de primeiro andar era dado a visi- tas da fauna brasileira, especialmente de símios

Entrei no salão de peito estufado. As mani- cures perceberam meu astral diferente.

esfomeados. Entram sem cerimônia pela varan-

Acho que encontrei – cochichei para a

da. Um dia peguei um em cima da geladeira degustando uma banana. Digo degustando, porque descascou a dita como mandam as boas maneiras e estava de olhos fechados saborean- do a iguaria, quando soltei um grito primal e

depiladora. – Um gato para ser saboreado devagar.

Fiquei orgulhosa de mim. Resisti a dar-lhe um beijo de esvaziar testosteronas.

o

bicho se escafedeu por onde entrou, por uma

 

fresta da porta que dá para a varanda. Quando percebi, outros três haviam se assustado com a minha reação e fugiram pelo mesmo buraco. Um deles levou meu headphone.

Devagar, menina, devagar. A última vez

que você apareceu aqui derretida desse jeito, disse que o cara era seu príncipe, imaginou o buquê e escolheu o nome das crianças.

 

Os macacos curtem música?

Depois se desiludiu e deixou o mato crescer entre as pernas.

– Dessa vez é diferente: ele é biólogo, disse- cou minha alma fêmea, não avançou o sinal.

Combinamos encontrar no apê dele. Capri- cha, Moniquete.

– Radical?

– Embaixo e atrás, sim. Mas deixa o triângu- lo bem contornado na frente.

Um Triângulo das Bermudas. Ele vai perder a bússola.

O Bordeaux rosé fez um efeito imediato e

devastador. Servido gelado na mesma taça, foi a senha para duas línguas se embolarem. Pou- co se falou, pouco se perguntou a partir dali, quando o vestido justo feito para despir cum-

priu seu destino: foi para o espaço, descerran- do uma geografia de delícias. A recíproca foi verdadeira. Ao som de Miles Davis no chiado da vitrola, estávamos os dois nus, procurando pouso seguro pela sala, quando esbarramos na beira do sofá, onde desabamos e por ali nos banqueteamos. Acho que fui rápido demais, mas a moça entrou em preocupante delírio. Gemeu alto, elogiou meus dotes e gritou um assustador “homem da minha vida!” repetida- mente, a cada estocada viril que recebia.

Senti que queria mais, pela chave de pélvis que levei, pela respiração incessante e pelas unhas cravadas nas minhas costas. Aos poucos, foi desfalecendo sob meu corpo, afrouxando as coxas que me enclausuravam e desacelerando os suspiros, sem deixar de repetir baixinho “ho- mem da minha vida! homem da minha vida!”.

Quando percebi o prenúncio do desvenci- lhar do golpe, dei um pulo do sofá.

– A salada! Hora da salada!

Moniquete, querida, você é ótima depilado- ra e péssima pitonisa. O gato é um assombro. Que homem é esse, meu deus, que me invadiu gostoso, me deixou troncha e fraca sobre um sofá e ainda me oferece um bowl de salada light? Bem dotado até na culinária, Moniquete, me belisca, que rara delicadeza é essa que a vida me oferece? Ele me corteja, me fala coisas

inteligentes, tem bom humor, me acolhe no colo nu e me embala com LPs formidáveis na

vitrola. Trata-se de um cavalheiro especial: dá alfaces amendoadas na minha boquinha, divide mais uma taça afrodisíaca e agora resolve com

a língua passear pelos meus relevos. Nunca

na história desse território me mordiscaram mamilos com tanta vontade de dizer alguma

coisa. Entendi, gato, foi amor à primeira vista, eu sinto o amor correspondido pela sua língua muda, que busca refúgio nos meus recôncavos, até encontrar o triângulo da perdição, onde, ai, ai, ai, perdemos os rumos, os astrolábios,

o caminho das estrelas, e nos metemos num

buraco negro de esplendores e êxtase, sim eu te amo, você me ama, e por isso eu me entrego toda nua toda sua para os infinitos de nossas existências.

Diz um ditado siciliano que quando il vigo- re mingua, avanti con la lingua. Obedeço os caprichos de meu cérebro da cabeça inferior, mas não menos cioso, inteligente e perspicaz. A moça bonitinha não é lá essas coisas. Tem um perfume enjoativo, que, miscigenado aos odores naturais e a uma ansiedade exacerbada, produz

o que se chamaria de asco súbito, expressão

rude para um cavalheiro de bons modos, mas sincera diante da armadilha de barra forçada que essas excitações pseudoromânticas nos im- põem. Só me resta, como gentil amante, encer-

rar a lenga-lenga passeando a língua sobre sua geografia de atlas bem impresso e retribuir-lhe com gozo o gozo que apressadamente me foi acometido. Que seja rápida, menina, já sugo seus âmagos, com a infantaria de dedos cer- cando os arredores de seus lábios, invadindo

a fenda encharcada, ousando enveredar pela

brecha pregueada, com um olho contemplando

o triângulo bem esculpido e o outro no relógio

na última prateleira da estante da sala.

Falta pouco para meia-noite. Encontrei o que me custou séculos de procura: um homem cordial, capaz de respeitar o timing de uma mulher desejosa. Estamos abraçados num eloquente silêncio. Amanhã amanheço mais plena. Meu homem ressona sobre meus seios

de bicos ainda rijos, com a coxa direita encai- xada no meu sexo melado. Passo a mão pela sua cabeça, tenho vontade de dizer “meu anjo, vamos para a nossa cama”. Como se entendesse meus pensamentos – até nisso o destino nos presenteou – levanta-se, perambula entorpe- cido e nu pela sala, entra e sai dos cômodos, fora do alcance da minha vigília e tranca-se no banheiro. A eternidade é o tempo em que sai de lá, faceiro, e parte para nossos aposentos. Vou atrás do meu príncipe. Abro a mochilinha, retiro a camisola, um par de havaianas e uma nécessaire. Não acredito que estou vivendo. Onde está você, Moniquete? Me apareça com uma câmera celular para aplacar suas descon- fianças. Meu homem está jogado na cama de braços e pernas abertos, receptivo à presença, enfim, de uma mulher complementar. Vestida de seda, nada por baixo, e escova de dentes na mão, me enrosco no corpo que já é meu e nos embrulhamos nos lençóis, até que me deixo acolher em conchinha. Adormeço sob seu abri- go carnal, sinto seu volume saciado se encaixar entre minhas nádegas. E sonho sem escovar os dentes.

Odeio dividir cama. Conchinha, nem pen- sar. Essa doida ronca, sofre de adenoide, fala dormindo, me aperta e me chama de meu amor. Seus lábios desenham um sorriso, sonha em círculos, a infeliz, repetindo em gemidos o mantra da transa: “homem da minha vida, ho- mem da minha vida!” O tempo não passa, essa mulher nem tem vontade de fazer xixi. Que diabo! Quem é vencido pelo sono sou eu.

– AAAAAAAAAAA! AAAAAAAAAAAAA- AA! AAAAAAAAAAAAAAA!

José Guilherme Vereza

Sou acordado por um discurso histérico onde apenas uma letra do alfabeto diz tudo.

– AAAAAAAAAAA! AAAAAAAAAAAAA- AA! AAAAAAAAAAAAAAA!

Ela em chilique veste o vestido fácil de des- pir pelo avesso.

– AAAAAAAAAAA! AAAAAAAAAAAAA- AA! AAAAAAAAAAAAAAA!

Seu olhar de estilingue me acerta. Entendo suas palavras de uma letra só.

– AAAAAAAAAAA! AAAAAAAAAAAAA- AA! AAAAAAAAAAAAAAA!

Segue surtada e esbaforida porta afora, dei- xando pra trás a calcinha, mochila, a escova de dentes, as havaianas.

– AAAAAAAAAAA! AAAAAAAAAAAAA-

AA! AAAAAAAAAAAAAAA! AAAaaaaaaaa-

aa

Ouço o grito sumir pela escada, ganhar a rua de paralelepípedos e desaparecer entre grilos da mata.

Levanto vitorioso e vou até o banheiro.

aaaaa

aa

a a

a

a

a

– Vem, Phidias, vem com o papai.

E retiro minha de Boa Constrictor, vulgo ji- boia, enroscada no sopé do vaso sanitário entre o bidê e o suporte do papel higiênico. Cúmpli- ce, ela envolve meus braços e a devolvo para a caixa onde habita na área de serviço.

– Obrigado por mais essa, filhota. Mais tarde trago camundongos e pererecas pro seu jantar.

É carioca, publicitário, professor, roteirista, escritor, diretor de criação. Mais de mil comerciais para TV e cinema. Uma peça de teatro: “Uma carta de adeus”. Um conto premiado: “Relações Postais”. Dois livros publicados: “30 segundos – Contos Expressos” e “A Primeira Noite de Melissa”. Escreve há mais de 5 anos na Samizdat. Sempre à espreita da vida, consegue modesta e pretensiosamente transformar em ficção tudo que vê. Ou acha que vê. Ou que gostaria de ver. Ou que imagina que vê. Ou que nem vê. Passou pelos seus radares – conta, distorce, maldiz, faz e acontece. Palavras são para isso. Para se fingir viver de tudo e de verdade.

Conto Mario Filipe Cavalcanti o i LuS ioN iS ta A MÚSICA IRROMPIA ainda em
Conto
Mario Filipe Cavalcanti
o i
LuS
ioN
iS
ta
A MÚSICA IRROMPIA ainda em sua ca-
beça quando pela primeira vez fitou aqueles
conseguido furtar ao grande Cirque Du
Soleil, mas até que eles se apresentavam bem
olhos enormes e castanhos. O acordeão, o
trombone, o clarinete, o violino e o violon-
celo, as papagaiagens dos palhaços ao fundo,
e todo aquele povo rodando lá trás, andando
em monociclos cromáticos, vestidos de idio-
melhor
Claro que é perigoso dizer isso,
afinal, nenhum circo no mundo tem toda a
maravilhosa graça do Soleil, não mais
mas
tas, enquanto nele, as mãos
,
abertas e circulantes, com todos os dedos
dançantes, tocavam o intangível, puro ar, e
seus olhos abertos fitando-a intensamente
apenas as mãos,
Jeux d’Enfants era a música que tinham
ali mesmo, no bairro, estava ele mexendo
as mãos para a plateia enquanto dela saíam
luzes que rodavam por todo o circo e o pú-
blico gritava “Bravo!!” “Bravíssimo!!”, enquanto
os olhos eram todos dela. Grandes, abertos,
arregalados como a lua cheia em noite de
verão. Olhos cobertos de mel e de um quê
incompreensível
https://www.flickr.com/photos/mastrobiggo/2341517672/

De repente, das próprias mãos dele, dez pombas saem voando, pombas brancas em nome da paz mundial, esvoaçam como que

saídas das linhas das palmas de suas mãos,

o público vai à loucura, aplaude de pé, um

carinha lá em baixo perto do picadeiro exibe uma placa onde consta a ordem: “APLAU- SOS”. Um alvoroço único e contínuo, enquan- to fitas picotadas de seda vermelha e amarela caem do teto em toda a plateia ensandecida.

Num átimo de instante a orquestra toca com mais força, ele some, os palhaços to-

mam a cena, pulando, saltitando, o acordeão repuxa intenso e ele reaparece ao lado dela.

O público urra, ele está na plateia! As pes-

soas pulam de alegria e exultação quase demente. Ele lhe tira um ramalhete inteiro de rosas purpúreas como que de trás de sua

orelha. Ela duvida, põe a mão atrás, nada,

a não ser sua nuca pedinte. Arrepia-se, o

público aplaude. Lá em baixo, a placa ainda é

a mesma.

Os gritos, assobios, a música estontean-

te, ela sente-se tonta, tem um malestar, o

corpo todo treme, soa frio, e aqueles olhos

tão grandes, tão castanhos, tão penetrantes, tão verdadeiros, ela sente a alma do circo, ela sente-se nele, ela o deseja, um malestar

Aqueles olhos

Ele, de pé, ante a ela, beija-lhe a mão e de- saparece como que do nada, as pessoas riem tanto de tamanha sublimidade que a loucura daquela alegria a atinge em último grau, ela

se ri, não sabe o que faz, o irmão a espera à

porta – detesta circos – mas poderá esperar mais um pouco, afinal, ela veio para ser feliz

e felicidade é que não espera. Felicidade urge de urgência urgentíssima!

Do centro do palco ele reaparece agarra- do a uma árvore que brota do chão repenti- namente, e enquanto o público a vê crescer rapidamente, desafiando todas as leis da

Tão verdadeiros

natureza, as bocas entreabrem-se, os olhos esbugalham-se, ante a tão formidável magia, tudo tão natural, a árvore cresce, e cresce, as pessoas não conseguem evitar soltar um “vixe Maria!”, mas é tão rápido, tão formida- velmente impecável, quem diria ser ilusão? Todos, extasiados, sentem lá no fundo que ele de tão perfeito faria melhor que o próprio Deus se estivesse naquela época de vácuo, no princípio

O coração dela bate ainda mais forte, vê

em seus olhos um quê de heroico, de viril em altíssimo grau, e as rosas cheiram mais que o próprio amor, ela aperta as flores con-

tra o peito e repara se seu decote está sufi- cientemente chamativo – não sabe ao certo porque faz aquilo, age quase como a cobaia de Schopenhauer pro seu ensaio da meta-

física do amor

, ainda a envolve e que os olhos dele conti- nuam fincados nela. E, o que é ainda mais interessante, ele não perde a cena.

sabe apenas que a música

A plateia aplaude de pé, ele acaba de

comer, juntamente com os palhaços saltitan-

tes, todos os frutos da árvore. Que, de tão grandes, parecem peras, causando em todos a sensação inevitável de água na boca. De re- pente, em um movimento dele com as mãos, peras aparecem ao lado de todos na plateia. As pessoas vibram, comem e se deliciam das frutas de tão divina árvore. Quem sabe se não a do conhecimento do bem e do mal? Lá em baixo muda-se a placa e com ela a ordem: “NHAC!”.

Ele fita-a de longe com o olhar penetran- te, faz um gesto de cortesia antigo, o braço direito para frente com a mão abanando, a perna direita pra frente e o braço esquerdo para trás; parece-lhe um lorde, um gentle- man, e foi tão intensa essa visão que teve dele, que só depois é que reparou que a seu lado estão a pera e uma rosa branca.

A rosa parece ter o perfume adocicado que tinha sentido quando ele tirara-lhe da orelha o ramalhete de rosas vermelhas. O co-

ração dela dispara – o irmão terá de esperar, afinal de contas o circo só aparece uma vez ao ano e um bom desses, no Recife, uma vez em dois milênios! Pelo que ela sabe, o cama- rim dos artistas deve ficar por ali mesmo, na parte de fora da grande lona azul e amarela. Ao fim do espetáculo deixará seu coração

guiar seus pés

em sua mente alguém expusesse de perto do picadeiro a placa: “COMA!”. Enrubesce com esse pensamento sórdido.

O acordeão anuncia o fim da música e do espetáculo do prestidigitador, o público vai

Está tudo acertado, como se

à

loucura, pede bis, aclama-o com “Bravos!”

e

“Bravíssimos!”, ela sente-se extasiada, terá

a chance de sua vida

música, o ilusionista, aqueles olhos, aquelas mãos, pensa até mesmo em casamento, tudo isso num só instante, ergue-se esbaforida. As mãos enormes lhe acariciando o corpo nu Contempla sua salvação. As mãos dela suam. Um malestar

A alegria do circo, a

Do alto da arquibancada repara que no aceno do ilusionista, no centro do palco, em uma de suas mãos, que giram no ar, com os dedos dançantes como no início, reluz imen- sa aliança de matrimônio na mão esquerda

Ele fita-a, repara seu olhar direcionado à aliança, e faz cara de menino amarelo cria- do por avó em prédio. Num átimo, some do palco como se ali nunca tivesse estado. Os palhaços caem de susto, uma ilusão seguida de umas palhaçadas

A música, a alegria, a alma do circo pe- netra em sua mente desajustadamente, ela sente-se inerte, ao mesmo tempo era como se tivesse levado um baque, todos aqueles planos alegres, alma de circo, tão rapidamen- te arquitetados, tão naturais: ilusionismo. Um malestar

mario FiLiPE CaVaLCaNti (dE Souza SaNtoS)

É pernambucano de Recife, nascido em 15 janeiro de 1992, escritor: contista e poe- ta. Acadêmico quartanista da centenária Faculdade de Direito do Recife, da Universi- dade Federal de Pernambuco. Estudou piano clássico na Escola de Artes do Recife. Foi vencedor de vários concursos literários nacionais, como os de contos da Associação Nacional de Escritores (Brasília/DF, 2012), de contos “Cidade das Asas” da Secretaria de Cultura do Município de Gavião Peixoto (São Paulo, 2013) e de poesia “8º Varal de poesia” da Faculdade Metropolitana de Maringá e Academia de Letras de Maringá (Paraná, 2013). É participante de Antologias poéticas no Brasil (IHGM, UFMA, 2013 – “Mil poemas para Gonçalves Dias”) e Europa (Chiado Editora, Porto, Portugal, 2013 – “IV Antologia de Poesia Contemporânea “Entre o sono e o sonho”). É colunista da Re- vista SAMIZDAT. Autor dos livros “Comédia de enganos” (Editora Penalux, 2013), semi- finalista no Prêmio SESC de Literatura 2014 e “Morte e vida e outros contos” (EDUFPE, prelo). Publicou contos em edições impressas das Revistas de Literatura SAMIZDAT e Varal do Brasil, assim como em versões eletrônicas da Revista de poesia “7 faces”.

Conto Fernando Domith Eles haviam mentido http://abeautifulbook.files.wordpress.com/2013/02/101.jpeg
Conto
Fernando Domith
Eles haviam
mentido
http://abeautifulbook.files.wordpress.com/2013/02/101.jpeg

22 SAMIZDAT abril de 2014

Seus socos não tinham potência. A clare- za era total. As luzes da arena, o rugido da multidão, os flashes das câmeras espalhados por todo o lugar. Todos os olhos em dois animais tentando destruir-se até a morte, mas apenas um par de olhos importava. Ele estava perto do ringue e lacrimejava de apre- ensão. Pertencia a uma linda mulher, Anna, filha de meu treinador, e o batom vermelho que acompanhava seus lábios brilhava tanto quanto o sangue que enfeitava meu adversá- rio.

Seus socos não tinham potência. Eu nunca cairia. Meus joelhos nunca se dobrariam e tocariam a lona. As cordas me encontrariam apenas se assim eu quisesse. Seus movimen- tos eram tão fáceis de se ler quanto um livro para crianças. A vitória era minha, mas os olhos na multidão continuavam brilhantes enquanto olhava para os dois homens no centro do ringue. Meus socos tinham potên- cia, mas a cada gota de sangue que deixava meu adversário, uma lágrima deixava Anna. Ela o amava. Eu a amava.

Não havia sangue em meu rosto quan- do sentei no banquinho ao fim do round e o gelo encontrou minha nuca. Não havia mais por que se importar. Meu treinador não compreendia por que aquela luta ainda continuava. Eu o tranquilizava. No próximo minuto tudo estaria acabado.

O gongo soou. O animal cansado e en- sanguentado levantou e caminhou por puro instinto. Mal sabia para onde ir. O esforço para manter os braços erguidos era claro. Eu via tudo, todas as aberturas, eu via o fim. Algo veio, então, em minha direção. Fui ao

Fernando domith

encontro daquele punho fraco e fechado. Seu

soco não tinha potência, mas caí como se nunca fosse levantar. E foi o que fiz até ouvir

o juiz gritar o último número da contagem.

O silêncio de surpresa havia caído sobre

o público, mas um grito de alegria veio de

onde eu esperava que viesse. Uma voz tão familiar, tão desejada.

Enfim estava tudo decidido. Levantei-me

e sentei novamente no banquinho enquanto

era checado pelo médico. Não importava. Meu treinador não disse uma palavra, talvez agora ele entendesse. Não importava.

Algumas coisas precisam morrer.

Por fim fiz o caminho de volta ao vestiá- rio. O chão meu espelho. O labirinto final- mente terminando em liberdade.

Parti fustigado pelo frio vento daque- la noite em abril e finalmente cheguei ao meu apartamento. Olhei ao redor por um instante, um instante para compreender a

escuridão daquele lugar e o que realmente procurava. Estava junto ao meu scotch prefe- rido em uma das gavetas da cozinha. Tomei

a metade que restava na garrafa sentado na

poltrona, vendo a luz vermelha da placa do prostíbulo invadir minha casa pela janela da frente. Um carro buzinou e uma mulher gritou. Eles haviam mentido.

Nada terminava com um sussurro.

24 anos, nascido em Barbacena – MG, estudante de Psicologia na Universidade Federal de São João del-Rei. Vencedor do 2º Concurso de Contos da Fumec, possui dois e-book publi- cados atualmente e procura uma editora para publicação de sua novela já finalizada. Almeja um dia dedicar sua vida apenas à literatura.

Conto A Professora de Caligrafia Zulmar Lopes As letras saíam desenhadas em nanquim, faceiras, estilisticamente
Conto
A Professora de Caligrafia
Zulmar Lopes
As letras saíam desenhadas em nanquim,
faceiras, estilisticamente formosas, espalhadas
com elegância pelo envelope. Cada convite
de casamento seria endereçado à mão, graças
ao artesanal trabalho de Gertrudes. “Caligra-
fia é a arte não da boa escrita, mas da bela
escrita!” — costumava exclamar em relação
ao seu ofício enquanto manejava com perícia
o bico de pena.
juventude em escrever direito. Era do tempo
da “letra de moça”, uma qualidade bem vista
na sociedade.
“Sou uma peça de museu
— pensou
Finalizou mais um envelope da encomen-
da de trezentos. Um sorriso de indisfarçável
orgulho com a própria obra escapou dos
lábios. Quando não estava ocupada em dar
forma aos anúncios das bodas de gente, em
sua maioria desconhecida, Gertrudes mi-
nistrava aulas de caligrafia, tentando tornar
legíveis os garranchos produzidos por jovens
imberbes, donos de uma escrita estragada
pelas intermináveis horas em frente à tela
de um computador. Ensinando, a professo-
ra lamentava a quase nula preocupação da
enquanto finalizava mais um envelope. Fe-
chou o rosto. “Preocupo-me com coisas sem
a menor importância hoje em dia”. Já não
era mais um pensamento e sim um murmú-
rio a serpentear pelos cômodos do pequeno
apartamento em um conjunto residencial
financiado pelo BNH e comprado à custa de
inúmeras noites em claro, desenhando letras
nas mais diversas encomendas. E não eram
só convites. Cardápios, certificados, diplomas,
logomarcas e monogramas. O computador
quase extinguira sua profissão. Tudo já saía
pronto daquele cérebro eletrônico. Gertrudes
nutria asco por computadores.
A campainha soou, trazendo-a de vol-
ta à realidade. Sobressaltou-se numa ânsia
https://www.flickr.com/photos/wangxu94/6774384905/

freada. Gertrudes era uma mulher contida, não convinha extrapolar sentimentos, ainda mais na sua idade. Atrás da porta certamente estaria o Teixeira. Familiarizara-se com os três toques breves da campainha, inconfun- díveis, sua “impressão digital” pré-anunciada. Estranhou que ele não houvesse ligado antes, sempre telefonava. “Quisera lhe fazer uma surpresa? Teria vindo terminar o relaciona- mento?”. Suspirou.

Gertrudes abriu a porta e sorriu de modo incerto para o amante. Ele beijou-a na testa como fazia há cinco anos. Entrementes, colo- cou a maleta na mesinha de centro. A mes- ma maleta de cinco anos atrás, depositada na mesma mesinha, mesmo beijo na testa, tudo sempre igual. Teixeira sentou-se no sofá. “Agora ele vai bufar, dizer que está ficando velho e pedir um copo d’água.” — pensou a professora munida de desconsolo no olhar.

— Filha, pegue um copo d’água para mim. Estou ficando velho para suportar este calor — disse o amante entre bufos.

Ela voltou da cozinha com o aguarda- do copo de água nas mãos, ofertando-o ao amante que o sorveu em um único gole, estalando os dentes em resposta prazerosa. Gertrudes odiava aquele comportamento. Às vezes se perguntava por qual motivo ainda estava atada a um homem sem modos e, pior das heresias, casado. Inventou uma desculpa qualquer e foi ao quarto onde, sentada em frente à penteadeira, desfez o coque. Alguns fios de cabelos brancos teimavam em desfi- lar nas pontas das raízes. Andava desleixada ultimamente. Por quanto tempo Teixeira ainda a desejaria? Dois, três anos antes que o seu corpo já sem atrativos murchasse de vez? Tentou maquiar-se da melhor maneira pos- sível, no intuito de se tornar atraente para o amante em visita não programada.

Teixeira penetrou no aposento sem pedir licença. Através do espelho da penteadei- ra, Gertrudes observou a audácia daquele homem, senhor de um castelo que não lhe pertencia, crente em possuir prerrogativas de mando em razão de aplacar, vez por outra, os desejos de uma anacrônica professora de caligrafia passada dos sessenta. Ele a abraçou pelas costas. Um cheiro de cigarro e gel de cabelo agrediu-lhe as narinas, mas o contato do amante em seu corpo, a troca de calores, o desejo em ter-se nos seus braços peludos para um outono de amores que já se anun- ciava fez Gertrudes ceder. Deixou-se levar para a cama.

Após terem apagado a mútua chama dos prazeres, Teixeira disse estar com vontade de comer bolo de laranja. Tal pretensão era novidade para Gertrudes. Em geral, ele virava de lado e, no aconchego dos lençóis que ela zelava em manter alvos para recebê-lo, desmaiava em sono profundo feito guerreiro repousando depois de feroz batalha.

— Sabe fazer? — Perguntou Teixeira, mãos acariciando as costas nuas da professora cujas sardas brotavam, dia após dia, marcan- do a pele, anunciado o seu envelhecer.

Em resposta, ela levantou da cama e vestiu um roupão. Leve arfar indignado emanando das narinas. “Teixeira quer bolo de laranja. Que pedisse à maldita esposa!” — ruminou enquanto lavava as mãos contaminadas pelos fluidos do ato consumado que ainda os unia.

Na cozinha, Gertrudes catou os ingredien- tes. Faltava a essência de laranja. Descobriu uma de baunilha, com prazo de validade próximo do vencimento. “Serve.” — con- cluiu. Gastou poucos minutos descascando as laranjas e outros tantos batendo a mis- tura no liquidificador, preocupada com os convites que dormitavam à sua espera na

escrivaninha. Da sala, os rosnados de Teixei- ra e o cheiro do tabaco delatavam a quase nula presença do amante. Ouvia-se ainda o burburinho de vozes que o televisor regur- gitava. Ela suspirou e procurou dedicar-se ao preparo do bolo. À medida que a mas- sa ganhava forma, Gertrudes foi tomada por um sentimento de entusiasmo por sua criação culinária. Até que não era de todo ruim poder cozinhar para o seu homem. Ali mesmo, nas redondezas, havia várias mu- lheres à sua semelhança, mas carentes até mesmo de um Teixeira cheirando a sarro de cigarro e gomalina. Ao menos nisso era uma sortuda: tinha alguém, ainda que pela meta- de. Com tais pensamentos girando na mente,

o primeiro sorriso honesto germinou dos

lábios da professora de caligrafia desde que

o amante tocara a campainha naquela tarde.

Deixou de lado as inquietações acerca do

trabalho acumulado na escrivaninha.

Em três quartos de hora o bolo estava

pronto. Substituídos pela fragrância de la- ranja que a iguaria emanava, já não eram os cheiros de cigarro e gel que impregnavam o apartamento. Gertrudes se permitiu até uma centelha de felicidade enquanto contemplava

o Teixeira a mastigar com entusiasmo a fatia

por ela servida. Comia diante de TV, prato pousado na mesinha de centro e, entre um e outro intervalo comercial, pedia novo peda- ço, não se esquecendo de elogiar o talento da professora para os assados.

E assim o fim de tarde se espreitou pela janela da sala do apartamento de Gertrudes, trazendo consigo os primeiros sinais da noi- te. Teixeira, alegando ter que partir, levantou- se e foi ao banheiro. Urinou ruidosamente. Ela detestava aquele barulho de urina em contato com a água do vaso sanitário. O amante gemeu, bufou mais uma vez e deixou o banheiro abotoando as calças, afivelando o

cinto.

Foi então, no momento em ela ainda cogitava se o amante lavara ao menos as

mãos, que a diminuta esperança de num futuro tê-lo por inteiro ganhou um fim, pois Teixeira, saciado em luxúrias e vontades gastronômicas, ordenou-lhe, enquanto vestia

o paletó:

— Filha, embrulha o que sobrou do bolo. Carmela adora bolo de laranja.

Nem mesmo uma bofetada magoando sua face teria causado maior humilhação à

professora. Ela, mulher lutadora, que gastara

a juventude rabiscando letrinhas em con-

vites, diplomas e envelopes para conquistar um apartamento popular num subúrbio da cidade, fora relegada a quituteira da esposa do amante. Lágrimas ameaçaram rolar de seus olhos, mas Gertrudes as estancou. Ela era uma rocha. Não demonstraria fraqueza diante do responsável pelo seu desgosto. Fun- gou para que a voz não saísse modulada pelo choro abortado e perguntou:

— Carmela não vai desconfiar se você

aparecer em casa com um bolo pela metade?

Teixeira desdenhou:

— Que nada! Eu digo que foi um resto de

lanche que o pessoal do escritório comprou na padaria ao lado. Embrulha logo, ô Gertru- des, que eu já estou atrasado!

A professora espartanamente recolheu o prato de bolo e carregou-o para a cozinha. Do interior de um armário sacou um rolo de papel laminado para fazer o embrulho. Nunca o mundo lhe pareceu tão injusto. “Quituteira da esposa do amante! Quituteira da esposa do Teixeira!”. Tais palavras davam piruetas dentro do seu cérebro, envenena- do seus sentimentos. Encarou o bolo, quase pela metade, sobre o papel laminado. Cus- piu em cima da cobertura cristalizada. Uma

cusparada onde estava depositado todo o seu ressentimento, todo o seu rancor. Termi- nou o pacote e, em seguida, levou-o de volta para a sala entregando-o ao Teixeira que, já de pé e maleta na mão direita, beijou-a na testa como sempre fazia e arrastou seu corpo através do umbral da porta. Gertrudes ainda observou-o entrando no elevador que o suga- ria de volta para a esposa.

Novamente só, ela sentou-se diante da encomenda de envelopes. Tomou na destra

o bico de pena. Desta feita, as letras saíram

trêmulas, imprestáveis, lembrando a grafia de um recém-alfabetizado. Chorou copiosamen- te. “Vou comprar um computador.” — decidiu entre lágrimas e narinas assoadas. Aos pou- cos, retomou o controle dos nervos e a grafia voltou a ser aquela elogiada pelos clientes.

Trabalhou com dedicação até às nove ho- ras da noite quando lembrou que precisava fazer as compras da semana. Há duas qua- dras do apartamento existia um supermerca- do que fechava às dez. Rabiscou no verso de um dos envelopes alguns mantimentos, en- fiou no corpo um vestido, no ombro direito sua bolsa, limpou os resquícios de lágrimas do rosto e foi enfrentar a rua.

O contato com o ar noturno pareceu limpar seu ranço de mulher mal-amada

e enfurnada em casa. No caminho para o

mercado chegou até a desconfiar que certos gracejos emitidos do interior de um boteco das redondezas foram a ela dirigidos. Che- gando ao estabelecimento, espantou-se com a

zulmar Lopes

quantidade de clientes àquela hora da noite. Lembrou-se então da véspera de feriado. “Que cabeça a minha!” — lamentou o esque- cimento. Percebeu que sua vida resumia-se a letras de copista, alunos desinteressados e a esperar pelo Teixeira.

Fazia suas compras pesquisando com cui- dado preços, datas de validade, composição dos produtos. Gertrudes era atenta a detalhes e não se deixaria iludir pelas multicolori- das gôndolas de supermercado confundindo clientes. Na sessão de produtos para festas, avistou um pequeno vidro de essência de laranja. Seus olhos umedeceram. Colocou o produto dentro do carrinho de compras.

Empurrando o carrinho entre corredores abarrotados de gente, a professora notou, meio escondido no setor de inseticidas, um frasco de raticida. No rótulo, o desenho tosco de um rato com duas cruzes na altura dos olhos. Tomou em mãos o frasco e leu com atenção o rótulo. “Veneno em pó”. Pareceu refletir por instantes sobre a necessidade da compra. “Serve!” — decidiu. “Há um rato im- portunando meu lar. Come da minha comi- da e leva as sobras para sua toca. Da próxi- ma vez, preparo uma armadilha em forma de bolo de laranja ”

Carioca, jornalista por profissão e escritor por insistência, Zulmar Lopes tem um punhado de prêmios literários, sendo alguns motivo de orgulho e outros, nem tanto. Membro corres- pondente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL) e roteirista do curta de animação “Cha- peuzinho Adolescente”. Em 2011 lançou o livro de contos “O Cheiro da Carne Queimada”. Ultimamente anda flertando com o gênero romance. Escreve somente pelo vício em contar histórias.

https://www.flickr.com/photos/elhamalawy/5413729237/

Conto Luís F. Sprotte a r EVo LuÇÃo Horas antes ele havia conversado sobre as
Conto
Luís F. Sprotte
a r
EVo
LuÇÃo
Horas antes ele havia conversado sobre as
revoluções em sua cidade, e que, pelo fato de
elas acontecerem a cada século, a qualquer
momento poderia estourar uma nova. Ele
tinha passado a noite falando sobre a histó-
ria da sua cidade, e sobre sua mulher, que
tinha ido passear no Lago de Veneza sozinha.
Acordou com gritos de revolução ecoando
quarto adentro. Em dias incomuns não é
considerado elegante ficar em silêncio. As
pessoas gritam, livres de algo que às vezes
Ao sair do prédio virou rapidamente em
direção à praça Zsigmond Móricz. Escolha
errada. Era o epicentro da revolução em
Buda. Idiota, por que não seguir pela direção
contrária? Dessa forma iria cair quilôme-
tros depois na Estação do Sul, e lá tomaria o
trem certo até sua mulher. Fingiu participar
do movimento. No meio da praça, perto da
estátua, viu um grupo de homens com as ca-
beças abaixadas. Reconheceu um amigo. Foi
até ele e perguntou por que estavam ali.
nem sabem o que é; querem arranhar as pa-
redes, tirar as fotos, ser vistas, depois delatar
ou ser delatadas.
– Eles vão escolher um de nós para matar.
– E se for você?
Saiu correndo, tentou atravessar a rua. Em
As pontes caíram ao mesmo tempo. A
das Correntes, a Elizabeth, a da Liberdade.
Como iriam os de Peste a Buda, e os de Buda
dias de chuva era um suplício passar ali. Mas
o que ele não daria por um dia normal. Per-
to
novamente de seu apartamento, um grupo
a
Peste? E sair do prédio? Só se ouvia gritos
em polonês, marche, marche Dąbrowski! E
os escravos que juraram em húngaro nunca
mais ser escravos, onde estarão? Por que há
tantas cores em dia de revolução? Dizem que
em alguns bairros de Peste estão os tchecos.
Perto do aeroporto há sul-americanos. Uns
espalharam um boato que no bairro de Józ-
sefváros uma mulher pegou seus ex-amantes
de matronas polonesas viu-o e correram com
seus seios de fora atrás dele, gritando queri-
do, querido. Elas cercaram-no e afogaram seu
rosto em seus robustos seios. Ele empurrou
duas delas e saiu correndo até o bonde, que
estava pronto para sair dali. (Como um bon-
de mantinha-se alheio à revolução nem ele
poderia responder). Mas até dentro do bonde
tudo estava escrito em polonês. Certamente
e
amarrou-os nas grades do parque ao lado
nos outros cantos das cidades as placas esta-
da igreja de São Roque para convertê-los a
ela própria.
riam na língua dos líderes dessas pequenas
revoluções em Budapeste.
Ele sentiu vontade de ir até o lago atrás
Ele ficou no bonde até descer na estação.
de sua mulher. Nem trancou a porta de seu
O
pandemônio ali ao menos era húngaro.
apartamento. Na certa arrombariam. Pensou
em algum nome polonês para se chamar. No
corredor viu sua vizinha, uma moça boniti-
nha, sentada cantando árias. Não identificou
em qual idioma.
Não há mais passagens, gritavam. E mesmo
assim as pessoas, cheias de bagagens, subiam
nos trens como se uma hecatombe fosse
acontecer. Ele entrou num vagão lotado. E
então dormiu em pé.
– Essa não língua não existe, sua louca.

Sua esposa estava deitada, molhada por causa do banho, e tremendo de frio. O dia

anterior estava tão quente, e hoje ventava tan- to. Outra mulher aproximou-se dela. Tinha uma menina ao seu lado. As duas começa- ram a conversar. A menina brincava no lago,

o raso Lago de Veneza, sempre dando pé. As

mulheres sorriam ao verem-na se divertir tanto no lago lamacento. Ventava tanto que poucas pessoas tinham vontade de entrar no

lago para depois tremerem de frio. Você sabe

o que se passa em Budapeste? Não! Não? Há

muitas coisas lá hoje. Revoluções de todos os tipos. É engraçado ver que a maioria das pessoas aqui não tem nem ideia de que em seus bairros pessoas se amotinam nas ruas. Por que você teve de me contar tudo isso? Eu estava tão tranquila hoje. Lembrou-se do marido! Ela teve medo por ele.

– Vou até a estação esperá-lo.

A estação de Velencefürdą ficava a algu- mas centenas de metros do balneário onde ela estava. Juntou suas coisas, colocou-as na mala e correu pela estrada que levava à estação. Como encanto, o vento parou e o ar ficou quente. Havia muita gente embaixo da parte coberta, ela teve de ficar no sol. Sentou- se no chão. Muito se dizia de Budapeste ali. Famílias esperavam parentes que vinham fugindo. A algazarra em torno da espera dei- xava-a aflita e irritada. Como adivinhar que ele chegaria com aquele trem? Achou melhor perguntar na estação quantos trens viriam ainda de Budapeste. Disseram-lhe que por problemas na cidade aquele seria o último.

O apito se fez ouvir. Ela e todos em torno daquela parte do lago correram em massa

à plataforma. O trem gritava cada vez mais

Luís F. Sprotte

alto. Ela não conseguia achar um lugar onde fosse cômodo. O trem vinha tão rápido que por um minuto temeu que não fosse parar. De longe se podia ver que estava lotado, havia gente em cada canto do trem. Milhares de cabecinhas saíam e saudavam o lago. Mi- lhares de mãos comemoravam a chegada. O trem foi diminuindo a velocidade, até parar na estação. Ela subiu num banco para ver melhor. Poucas pessoas saíam. O trem iria seguir adiante com a maioria dos passagei- ros. E ele não descia. Não havia como tentar entrar em um vagão por que certamente não mais conseguiria sair dali.

Por fim sentou-se perto dos trilhos. Meia hora depois ela reconheceu um trem que era gente, um homem, seu marido. Ele tinha descido uma estação antes.

– O que há em Budapeste?

– Revolução.

***

Os dois, que nem tinham dormido, levan- taram com frio em Budapeste, e logo saíram do apartamento porque estavam com fome. Não havia ninguém na cidade. Eram cinco horas da manhã. Eles atravessaram a praça e entraram numa doceria.

Enquanto ele pagava pelos folhados e pelo café, ela olhou para fora e viu que amava Budapeste. Ali, naquela cidade, um casal faz revolução, uma pessoa faz revolução.

Ele foi ao banheiro, e ela saiu sozinha do lugar. Na porta da doceria colocou as mãos dentro do casaco para ver se tinha dinheiro e correu rápido para pegar o bonde que saía naquele momento.

FIM

Nasceu em 1984 em Mafra, Santa Catarina. Morou dois anos em Budapeste, como es- tudante de Húngaro no Instituto Balassi Bálint. Com muitos amores e desamores, voltou ao Brasil, terminou a faculdade de Cinema e começou a estudar Letras Português-Alemão. Atualmente, depois de terminar uma coletânea de contos que se passam em Budapeste, tem se dedicado a ouvir e escrever fado.

Conto Não posso Cinthia Kriemler https://www.flickr.com/photos/bluedoor29/8564837127/
Conto
Não posso
Cinthia Kriemler
https://www.flickr.com/photos/bluedoor29/8564837127/

Como é difícil retornar a este quarto. A cada noite, mais dez minutos no relógio me afastam da cama impregnada com o seu cheiro proibido. E é só quando os olhos já não se aguentam mais abertos que eu volto para cá. Aprendi a ser madrugada. Eu que antes era toda manhãs. Nada mais de ca- minhar no parque, de nadar sob o sol, de escolher no jardim uma flor para o vaso da mesinha. Eu durmo quando o dia me oferece luz. E a sua ausência. As horas que me so- bram, gasto criando escalas de desencontros. Eu saio; você chega. Eu almoço; você toma banho. Eu vagueio pela casa inventando o que desarrumar para arrumar de novo; você dorme outra vez. Sem ressonar, sem quase se mexer. Um corpo sobre os lençóis de cente- nas de fios egípcios. E dorme tão bem que posso encostar os dedos sobre as suas costas nuas, e caminhar com a ponta das unhas por estradas que já foram divertidas. Faz tempo que não tem brincadeira por aqui.

Eu queria conseguir falar. Despejar o pensamento boca afora. Mas não posso. Tem hora que a gente emudece porque as palavras

são feias. Sujas. Queria poder me sentar com você lá fora, na espreguiçadeira da piscina,

e lhe contar quando foi que eu morri assim, inteira. Mas não consigo.

Ontem eu pensei que você tinha ido em- bora. A mala no closet mudou de lugar. Eu sei. Depois que a gente só tem os detalhes,

aprende a perceber as sutilezas. Então, você desistiu de mim. Agora é só uma questão de desapego e horas. Um dia desses, eu ponho a mesa de jantar e você nem chega, nem senta.

E eu afasto o prato e me levanto e vejo que a

Cinthia Kriemler

mala não está mais no lugar e que as roupas sumiram e que a cama não tem mais rugas no lençol. E me lembro de como é chorar.

Eu queria contar. Do meu jeito. Arrancar da cabeça este cenário maldito que se repe- te e se repete e se repete. E entregar a você cada pedaço. Em silêncio. Mostrar a você o bicho acuado que fizeram de mim. Deixar você saber da tarde que parecia sem sobres- saltos; da campainha da porta em dois to- ques rápidos e um longo, como só os meni- nos fazem quando esquecem a chave; da faca encostada na minha garganta me impedindo de gritar; da empregada recém-saída para de- morar nas compras de mercado e padaria; da buzina dos carros na rua, abafando os meus ruídos; do meu corpo retesado pelo medo, pelo nojo, pela raiva, pela impotência.

Queria você vendo tudo de dentro de mim. Sentindo o que eu não consigo con- tar. O corpo jogado como um fardo sobre a cama do nosso quarto. As carnes invadidas por um pênis furioso. As náuseas causadas pelo cheiro podre, repugnante do sexo im- posto. O fedor de urina e sêmen escorrendo pelas coxas apertadas na resistência inútil do não. Os seios mordidos pela boca malcheiro- sa de uma besta imunda.

Eu queria falar tudo isso. Em jorro, em de- sespero, em prantos, aos gritos. Para impedir que a mala seja posta no carro esta noite ou na outra. Que a porta se feche sem barulho depois de três ou quatro frases magoadas. Que os seus olhos me acusem do que eles acham que eu fiz, e eu não fiz.

Mas eu não digo nada. Não posso. Eu tenho medo de você morrer também.

Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de con- tos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — RE- BRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.

Conto Priscilla Matsumoto É ASSIM QUE EU DESAPAREÇO Não chamavam o louco de louco por

Conto

Conto Priscilla Matsumoto É ASSIM QUE EU DESAPAREÇO Não chamavam o louco de louco por acaso.
Priscilla Matsumoto É ASSIM QUE EU DESAPAREÇO Não chamavam o louco de louco por acaso.
Priscilla Matsumoto
É ASSIM QUE EU DESAPAREÇO
Não chamavam o louco de louco por
acaso. Além de louco, era cego. E diziam que
ouvia vozes e tinha alucinações, essas coisas
que os loucos fazem normalmente. Vagava
pelas ruelas da favelinha à noite, portando
sua potente lanterna que não servia de coisa
alguma exceto incomodar os outros. Isso era
o que diziam os outros.
mas sim uma mistura de profeta, oráculo
e sacerdote. Iluminava, com sua lanterna, o
caminho para as criaturas do futuro. Ele as
guiava. O futuro nasceria ali, naquela fave-
linha, porque é nos lugares mais humildes
que brotam os messias. Todas as vezes que
ele acendia a lanterna, ela aparecia. Não era
uma deusa, nem uma fada. Muito mais que
isso. Era a perfeição encarnada.
As crianças fugiam quando ele vinha.
Significava que era hora de terminarem a
brincadeira e voltarem às suas casas. Nin-
guém sabia em que barraco o louco mora-
va e isso era um mistério e tanto, já que a
favelinha ocupava uma área pequena e tinha
poucos moradores. Era quase como uma vila
no subúrbio, só que extremamente pobre e
sem saneamento. Não havia tráfico na faveli-
nha, porque os bandidos não teriam espaço
suficiente para se esconderem da polícia. Em
suma, um lugar que não significava coisa
alguma para o resto do mundo.
– É aqui que começa o futuro – sus-
surrava ela em seu ouvido. – Ou, como os
humanos chamam, o fim do mundo.
Nas vistas cegas do louco, as únicas
que a viam, ela mudava de forma.
O louco, na verdade, não era louco,
Num dia podia ser um tigre, no outro
uma cobra de três cabeças. Às vezes, era
uma mulher de pele esverdeada. Um alce de
galhada dourada. Um garotinho sem rosto.
Uma moça de olhos leitosos e desproporcio-
nais. Ela era a força superior que o impul-
sionava e o guiava. Ela o pegava pela mão,
mesmo quando não tinha mão.

– Você não pode sair daqui – ela sempre lhe repetia. – Aqui é onde tudo deve começar. Faça o que fizer, jamais pise para fora.

Provavelmente, referia-se àquele es- paço escondido e renegado que os humanos chamavam de favelinha.

O louco não se lembrava de como ti- nha sido sua vida antes de ser louco. Do que brincava quando era garoto, onde morava, em que escola estudara, quais empregos tive-

ra

nitidez era de quando ficara cego. Num dia qualquer, há alguns anos, ele acordou numa das ruelas da favelinha. Não fazia ideia de

onde estava. Abriu os olhos, mas a única coi- sa que sentiu foi o movimento das pálpebras,

a escuridão era a mesma de quando estavam

fechados. Estranhando a falta das imagens do

ambiente que acompanham o despertar, bem

como o vazio completo dentro de sua cabe- ça, ele permaneceu deitado no solo, ouvindo quieto os sons do chão. Então o louco per- cebeu que o chão respira. Ele pulsa. Como

o centro da terra tremendo numa ebulição

iminente. E foi assim que, para ele, começou o fim do mundo: a partir dos sons do chão.

Em seguida, houve o baque de um objeto provavelmente plástico batendo no cimento. Automaticamente, ele sentiu o calor de uma luz artificial sobre sua face. Tudo se iluminou e ele a viu, a Perfeição Encarnada, apontando a lanterna em sua direção. Na- quela ocasião, ela possuía a forma de uma menina de uns 13 anos, magricela e de pele escura. Sua tez marrom tinha aparência ace- tinada e macia, mas ele não ousava tocá-la. Era como se ela brilhasse. Ao fundo, a escuri- dão negra de sua cegueira. A figura ilumina- da da menina saltava em seus olhos inúteis, recortada da inexistente paisagem, como algo que de fato era em meio ao nada.

Ela fez com que ele se levantasse e se recompusesse. Teve paciência, pois ele estava tonto e incapaz de enxergar qualquer coisa

A única coisa de que se recordava com

que não fosse ela. Ela o ajudou, oferecendo seu ombro de aparência quebradiça para que

ele se apoiasse. E, só quando ele se ergueu completamente firme em seu eixo, ela passou

a lanterna para suas mãos.

– Isso é para que você veja – disse ela.

– Mas tudo que eu vejo é você – ele respondeu.

– É o que basta.

Contudo, ela lhe mostrou o futuro e os seres que habitavam nele. Se ele conse-

guisse se lembrar de qualquer conhecimento relativo à sua vida anterior, poderia afirmar que o futuro que ela lhe apresentou nada tinha a ver com o conceito comum ao nosso status quo. Se ele pudesse fazer esta compa-

ração, ele saberia

chocado com o que via.

Mesmo assim, ele estava

– Por isso eu precisava que sua mente

estivesse completamente limpa – ela murmu- rou em seu ouvido. – Para que você pudesse contemplar esta paisagem sem enlouquecer.

“Mas eu já não enlouqueci?”, ele se perguntou.

E esse foi o primeiro dia.

Nos seguintes, ele repetia a mesma rotina. Acendia a lanterna para ela e cami- nhava lentamente pelas ruelas, abrindo o caminho, retirando o lacre de todas as almas pelas quais passava, preparando-as para a chegada do futuro. Ele sussurrava os códi- gos secretos que aprendia com ela, os quais tinham o poder de dissolver o manto da hu- manidade que cobria todas as coisas. Assim, o mundo ia se purificando.

Mas um dia, por um descuido que ele julgava impossível, o louco pôs o pé para fora da favelinha.

Foi o suficiente.

Eles o pegaram. Arrastaram-no à

força para dentro de um veículo grande e

o trancaram lá. Ele se debatia nas paredes

escaldantes de metal. Gritava. Tentaram lhe

arrancar a lanterna da mão. Ele não cedeu, usou-a para golpear a criatura que tentava subjugá-lo. Houve um momento de silêncio, parecia que eles o haviam deixado em paz, e ele rezou para a Perfeição Encarnada, supli- cando para que ela o perdoasse por seu erro. Implorando para ser ainda digno da missão que lhe fora confiada. Rogando para que ainda merecesse o amor dela.

Então, ele sentiu que estava em movi- mento. Minutos depois, aquilo que o carre- gava parou. Um baque: portas sendo abertas. Quatro mãos fortes, duas em cada braço seu, puxaram-no para fora com urgência. Blam! Novo som semelhante ao anterior, dessa vez mais alto.

Os dois homens que o carregavam caminharam com ele em silêncio. Ele já não ouvia mais nada, nem o som da própria

respiração. Era possível que tivesse perdido

a audição dessa vez. A lanterna ainda estava presa em seus dedos, como que colada, ma- chucando até os ossos dentro da carne.

Depois de mais de uma centena de passos

e alguns degraus, pararam. Mas não o sol-

taram. Houve uma pausa infinita para uma conversa que ele não era capaz de ouvir. Foi quando a voz dela veio de dentro do seu

ouvido:

– Sem você, eu desapareço.

Jogaram-no numa cama. Num col- chão, algo assim. Era baixo e desconfortável. Úmido. Fedido. Ele não sabia mais se a luz da lanterna permanecia acesa. Desejava vê-la

Priscilla matsumoto

com toda a força do seu coração lunático. Uma imagem fraca começou a se delinear na sua consciência. O rosto dela, do jeito que apareceu para ele pela primeira vez, surgiu reticente em seu plano de fundo invisual. O coração dele se encheu de felicidade.

Enfiaram uma agulha em seu braço direito, o da lanterna.

Em segundos, ele perdeu a força e afrou- xou os dedos. Sua coragem também lhe fora arrancada das tripas. Sua audição, contudo, retornou. Ele ouvia as conversas, os ecos e os passos. Ainda não sabia onde estava, mas suspeitava. Aos poucos, os olhos clareavam e o ambiente começava a se fazer nítido. O rosto dela, porém, havia sumido completa- mente.

Ele sentiu o medicamento correndo em suas veias, alimentando-as de sanidade. Enxergou onde estava. Viu os contornos do mundo que há muito deixara para trás. E, enquanto a substância o entorpecia, seus de- dos se abriam lentamente. Ouviu a lanterna batendo no chão.

O fim do mundo jamais viria.

O futuro estava perdido para sempre.

Não havia mais volta: ela tinha acaba- do de desaparecer.

é formada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e em Roteiro Cinematográfico pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. É dramaturga e figu- rinista da companhia teatral que fundou com os amigos no Rio de Janeiro, há dez anos. Atualmente, faz faculdade de Design de Moda. Divide o (pouco) tempo livre que tem entre a costura e a escrita. Suas inspirações vão de Albert Camus ao grupo CLAMP, passando por Haruki Murakami e Anne Rice. Seu romance “Conto Noturno da Princesa Borboleta” ficou entre os cinco finalistas do Prêmio SESC de Literatura, Edição 2011/2012.

https://www.flickr.com/photos/24733637@N02/5010725758/

Conto Tatiana Alves Cotidiano Preciso podar a planta da vizinha do andar de baixo, que
Conto
Tatiana Alves
Cotidiano
Preciso podar a planta da vizinha do
andar de baixo, que se alastra pela tela de
proteção e invade minha janela. Seus galhos
parecem tentáculos, que tentam, como um
polvo com espinhos, barrar a minha visão lá
de fora.
abril que marcaram o outono. As águas de
março eram mais pacíficas, apesar do pau e
da pedra no fim do caminho. As árvores que
restaram em volta da clareira aberta pelo
deslizamento parecem agora nuas e desola-
das. A terra assemelha-se a um ferimento,
como o ralado na perna da criança.
Agora conversam lá embaixo sobre duas
pessoas em vias de se separar, especulando
sobre a divisão dos bens adquiridos pelo
então casal. Do fim do amor ninguém fala,
apenas sobre quem fica com qual móvel ou
bem.
A planta dança, no vento. Ao menos pensa
ser livre, ainda que se tenha embrenhado
na treliça. A cada dia fundem-se mais. No
dia das escolhas, quem dança é a planta. E a
treliça ganha pintura nova.
A
planta alastra-se. Não conheço plan-
tas carnívoras senão de filmes de terror de
qualidade duvidosa. Será que existem e nos
abocanham, sorridentes, enquanto balbuciam
sons ininteligíveis?
O
morro que pegou no fogo no sábado
Tenho que descer e fazer a aposta dessa
semana. Quando ficar milionária, não preci-
sarei mais ficar cobrando pensão de ex nem
fingir que engulo arbitrariedades no traba-
lho. Até lá, sorrio, pacífica. Louca mansa. O
jogo é barato, e me permite mudar de vida
até conferir o resultado.
fica atrás deste que vejo da minha janela.
Este está intacto, a não ser pelos vestígios
do deslizamento decorrente das chuvas de
Ainda preciso podar a planta da vizinha.
tatiana alves
é poeta, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo ob-
tido vários prêmios. É colaboradora da Revista Samizdat e do site Escritoras Suici-
das, já tendo escrito para os sites Anjos de Prata, Cronópios e Germina Literatura. É
filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e à AEILIJ. Possui quinze livros
publicados. É Doutora em Letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET /
RJ.
Conto Caixinha de pregos Maria de Fátima Santos https://www.flickr.com/photos/mekong_virus/382646846/
Conto
Caixinha de pregos
Maria de Fátima Santos
https://www.flickr.com/photos/mekong_virus/382646846/

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SAMIZDAT abril de 2014

SAMIZDAT abril de 2014

Ela queria tão apenas descer numa esta- çãozinha e chamar-se Maria da Graça ou Constança, ou outro nome, nem que fosse Vanessa ou Tânia. Um nome que não o que lhe tinha sido aposto por batismo e lhe acor- daria em cada instante ardores de feridas dilaceradas por pedras de caminhos conhe- cidos.

Queria ficar num apeadeiro, alugar um quartinho numa pensão barata, e andar rumando ruazinhas, espreitada por mulhe- res assomadas, de esguelha, em janelas com cortinazinhas de rendas tricotadas em noites de sonhos, à luz de luas cheias. Mulheres paradas no destino, como ela.

Ajeitou o saco onde trazia a caixinha dos pregos. Tinha-os conseguido no tamanho certo, e sabia que seria um em cada dedo,

e se espichasse sangue ela o lamberia antes

que espetasse o segundo, devagarinho, apenas um nadinha através da pele e ainda assim atingiria um vasito ou outro.

Sabia. Tinha-se documentado.

Sentou-se direita no banco da automoto- ra e a paisagem deslizou como fazia antes, como fazia desde os dias em que ela descia numa estação e comia uma bucha, nada mais que um pãozinho lambuzado com manteiga e um copo de leite morno aquecido em cafeteiras com ar duvidoso.

E seguia viagem na próxima automotora.

Mais uns dias, sonhava ela no embalo dos carris, e estaria onde ninguém lhe ouviria contar de poiais caiados de branco e uma pedra e os tamancos a subirem já cansados

na hora de ainda nem ser dia, e voltavam já

o sol descido, que em dias de inverno o sol

nem esperava para que fosse ocaso, ia-se por dentro das nuvens e ficava aquele dia pesado

e quando o pé poisava na pedra do degrau era noite desde há muito.

Ninguém a ouviria contar ou, ouvindo, nem a entenderia, e ela explicaria com aque- le distender de rugas entre os olhos, como se fora sinal de estar fazendo esforço, e no en- tanto era ela contando num monólogo nunca

satisfeito, ainda que soubesse que nunca mais teria ouvinte, ela que andara quilómetros uns atrás de outros para poder ter a certeza que ninguém seria capaz de entender o que dissesse.

Que talvez assim um dia esquecesse, à força de nem ter quem a escutasse.

O que ela desejava era o silêncio.

A sua voz a ser engolida, a descair-se para

o

fundo de onde lhe vinham as lembranças

e

lhe espichavam rodilhos de palavras que

um dia haviam de arredondar-se no tamanho certo para atravessarem esófago e estôma- go e intestinos, e serem finalmente expulsas pelo circular do esfíncter, e nunca mais ela a pensar em mares de sul, ou navios, ou terras onde tinha vivido.

Esqueceria finalmente a dor de ter regres- sado, e a dor de um dia ter ido e nunca ter sido como tinha desejado. Que ela imaginava como seria ir, imaginava muito antes, ainda no tempo em que mal se habituara a equi- librar no nariz os óculos que lhe receitara o doutor.

A menina tem miopia congénita, dissera o

homem barrigudo a cheirar a pasta dentífri- ca da Couto, e a mãe comprara-lhe as lentes receitadas e enfiara-lhas nuns aros negros que lhe desfeavam o rostinho bochechudo com laivos de ser pouco inteligente, ou ao menos não ser nada dado às matemáticas.

Foi num dia em que vinham de terem ido ver montras, ou de terem ido à modista, ela teria menos de catorze e já usava um pedaço de pano informe a amparar-lhe as mamas, que cresceram cedo até serem assim desme- suradas, a direita mais descaída do que a ou- tra. Vá que não tinha barriga, que, gorda, ela era apenas naquela cara de anjo com uma covinha no queixo. No resto era magra e até seria elegante não fora aquele peito enorme.

Ou teria sido no dia em que tinham ido

consultar o médico dos olhos, que era como

a mãe dizia: hoje tens consulta dos olhos.

Num dia em que vinham sabe lá ela de onde, mas recorda-se que disse: mãe, preciso

de um caderno quadriculado, e a mãe, es- cusadamente, assim como quem tem aquilo entalado e lhe dá em náuseas de calar-se, como se lhe desse até em insónias por falta de um desabafo, a mãe dela dada a enormes discursos nos jantares de Páscoa e consoada, ou por uns anos em que fizesse um lanche com amigas.

A mãe despejou sem perder o tom de voz

doce e sereno que era o mesmo com que

orava na igreja.

Disse com estas mesmíssimas palavras:

gastas papel demais para tão pouco talento.

A mãe dela adorava dizer coisas que

entendia serem desafios. Fazia isso, assim,

inesperada.

Foi desse modo que soube que a sua apetência pelos números nunca se compara- ria a nada que fosse sequer suficiente, e esse caderno quadriculado durou até terminar o liceu, um número cabalístico de serem sete, até concorrer a um lugar num banco, ou a um escritório de advogado, ou fazer admis- são a uma faculdade e ir para o puto, o que nem pensar, que o pai dela achava que ter o sétimo do liceu era suficiente e com esta pe- cha de nem ser boa a matemática, letras nem pensar, que para uma menina ser escritora era fora de questão e nem advogada.

Talvez tivesse sido melhor se tivesse en- trado no magistério, remocaria o pai quando estavam sentados à mesa, mas morreu muito antes até de ela ter dito que não queria nun- ca ser professora, que se fosse alguma coisa seria médica ou enfermeira, ou seria escrito- ra, atreveu-se, e o pai acentuaria aquele: isso nunca! e calaria o resto da refeição até ser servida a sobremesa e só depois diria, levan-

tando-se, e nunca ninguém sabia o que o pai dela fazia depois que saía a porta do quintal:

falamos melhor no que farás se acabares este ano o liceu.

Eles colocaram sempre uma dúvida naqui- lo que ela seria capaz.

Mas nem o pai dela disse, nem ela repro- vou, nem sequer no sexto em que teve ne- gativas a desenho e a filosofia e numa outra que nem se lembra do nome dessa disciplina. Mas a matemática teve um quinze, e a mãe nem disse que bom que eu estava enganada, não disse mais nada que não fosse: olha que

ainda perdes a essas disciplinas, Carla Teresa. Era Natal e ela detestava que lhe dissessem os dois nomes, e nessas férias a mãe obrigou-

a a preparar os pequenos-almoços lá em

casa. Todas as manhãs ovos mexidos e restos de carne assada, se sobrasse do jantar, e quei- jo, e o diabo a quatro, e nem a loiça podia

ser lavada pelo mainato, lavava-a ela, obriga- da por ter tido aquelas negativas.

O pai morreu no mês seguinte.

A mãe vestiu-se de negro, mas não deve

ter tirado a cinta que usava por debaixo das saias travadas, e não deixou de usar saltos altos, que nem em casa punha umas chinelas rasas, umas sabrinas, e nunca andava des-

calça, apenas na areia da praia onde posava quase nua num biquíni encarnado que trou- xera numa viagem rara à capital. Esse, sim, abandonou-o desde que ficou viúva. Trocou-

o por um em cores de luto cerrado.

Havia de encontrar, sim, uma aldeia pe- quenina onde ficasse até varrer a vida com- pletamente da memória.

maria de Fátima marques Correia Santos

portuguesa, natural de Lagos, aposentada de professora de Física e Química Um conto seu foi premiado nos novos talentos FNAC Outros receberam menções honrosas em diversos concursos Alguns contos e poemas seus estão publicados em diversas antologias

Conto Rafael F. Carvalho Muito tempo depois, eu a reencontrei. Eu não a reconheci. O
Conto
Rafael F. Carvalho
Muito tempo depois,
eu a reencontrei. Eu não
a
reconheci. O cabelo era
outro, as roupas eu não
conhecia, os sapatos eram
novos e a tinta das unhas
não era a mesma. Somente
a
voz e os olhos permane-
ciam os mesmos. Mas ela
não era mais a mesma, era
outra pessoa. As rugas e
os vincos em seu rosto eu
desconheci, não as vi apa-
recer. Essas roupas, sapatos,
eu não estava junto quando
comprou. Eu também esta-
va vestindo outras roupas,
tenho outro corte de cabe-
lo, rugas e vincos aparece-
ram. Sou um estranho, um
desconhecido, exceto para
as pessoas que continuam
comigo. Minha literatura
tem isso.
r
afael F. Carvalho
Autor dos livros A Cor do Sal (Patuá, 2013) e A Estante Deslocada (Patuá,
2011) Rafael F. Carvalho é paulistano, nascido em 27 de Fevereiro de 1978. Foi
publicado em antologias de novos escritores e em jornais universitários, e é
formado em Letras pela Universidade de São Paulo.
https://www.flickr.com/photos/onkel_wart/232018871/

www.revistasamizdat.com

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https://www.flickr.com/photos/leoeloy/5751461322/

Conto

https://www.flickr.com/photos/leoeloy/5751461322/ Conto Para oNd E tiNHa d E d ESCE r Marlon Vilhena Foi na

Para oNd

E tiNHa d

E

d ESCE

r

Marlon Vilhena

Foi na curva do diabo, ela suspirou bai- xinho, e eu não sei o que se passava pela sua cabeça, a minha estava caindo dos meus ombros, quase arrancada a dentadas pelo conhaque falsificado. Tive certeza de que essa merda era falsificada, mas paguei dois reais pelo trago, não recuso bebidas às duas da manhã no meio de uma tragicomédia particular.

Ouviu o que eu disse, seu puto?, Marta quis saber com aqueles olhos grandes e cho- rosos enquanto limpava as lentes de óculos de míope na barra da blusa. Eu tentava con- tar o número de ratos que se amontoavam nas outras mesas, mas sempre empacava a

aritmética numa ruiva que não era gostosa, a cara um pouco ossuda demais, mas pelo modo como obrava as pernas magras, devia ser boa de sofá, não de cama.

“Do que é que tu tá falando, saco?”

“A história da minha vida terminou na curva do diabo.”

“Dá licença.”

Cuspi um filete seco na sarjeta, mexi minhas costas na cadeira e olhei para cima. A lua desenhava um estranho e belo halo no escuro do céu. Ou então eu já havia passado da minha cota de alucinações naquele dia bêbado.

“E o que tu quer dizer com isso, curva do diabo?”

“Porque na curva é onde ele sempre te espera, é onde ele passa a perna e tu cai de cara no chão, depois ele te enraba bonito e não tem ninguém pra pedir ajuda, depois tu até começa a gostar daquela merda, porque tu não vê saída, então tu percebe que a vida terminou ali.”

“Quem te comeu?”

“Presta atenção, porra.”

Um rato enorme e sujo balançava a cauda para a ruiva, que fingia não gostar e arriscou um olhar para cá. Mantive o contato, mas eu não estava no meu melhor momento, cara de pano encardido em álcool barato não é um atrativo para coisas boas. Talvez para levar porrada, mais nada. Indiquei a lua com o dedo e rabisquei seu círculo de luz o melhor que pude, não sei se ela entendeu o que eu quis dizer, pois levantou os olhos e uma ruga surgiu entre as sobrancelhas.

“É que eu não tenho mais opções, por isso bebo esse conhaque imundo contigo.”

“Pede outra coisa e para de reclamar.”

“Não tenho mais grana.”

“Pede que eu pago.”

Fiz um sinal para o garçom, um moleque de bermuda rasgada com jeito de quem não dormiu bem nos últimos dezoito anos, e Marta pediu uma cerveja, que chegou meio quente à mesa. Ela disse para trocar a garra- fa, ele disse que tá tudo assim, moça, o cami- nhão do distribuidor chegou tarde hoje, não

marlon Vilhena

teve tempo de gelar direito, ela respondeu que puta merda, ainda mais essa, e mandou o garoto embora. Ajeitou o cabelo para parecer mais digna, porém sua sombra denunciava estilhaços no peito.

“Onde foi que te comeram, mesmo?”

O asfalto conhece todas as nossas desgra-

ças, os nossos porres de cachorros sarnentos,

as perdições no boquete frio de uma puta de esquina, até o peso das palavras num beco repleto de lixo e cheirando a mijo de almas podres.

“Vai tomar no cu.”

O asfalto é peremptório na solidão de

um viciado, nos comprimidos para insônia, na beleza de uma camisinha usada no chão de um quarto vagabundo. A ruiva voltou a mirar o céu, então escancarou os olhos sur- presa e acenou a cabeça para mim. Levantei o copo em sua direção e o conhaque desceu para onde tinha de descer. Os ratos começa- ram a dançar um rock surdo e uma fotogra- fia tomou forma na paisagem.

“Tu vai encontrar o diabo também nessa curva um dia, escuta o que te digo.”

Chacoalhei ao som de uma guitarra e minha cabeça rolou pela calçada. Ainda vi uma vez mais o halo, mais uma e mais uma antes de parar ao lado do bueiro, onde uma barata me fitou com ar de filosofia pura. Ou- tras três se juntaram e ficaram confabulando sobre o meu destino. Marta fez cara feia para engolir a cerveja e arrumou os óculos num gesto tímido. Eu ri, mas ninguém escutou.

é natural de Macapá-AP e escreve há muito tempo, inclusive criando literatura em blogues priva- dos ou em conjunto com outros parceiros de letras. Em 2013 lançou, através da Editora All Print, a co- letânea As Horas Todas da Carne, que reúne 28 contos sobre a tragédia urbana, o absurdo, a solidão, o sexo, a sordidez, a vida, a morte e alguma esperança. O texto Para Onde Tinha de Descer faz parte desta obra. O autor, depois de viver em Minas Gerais e São Paulo, formou-se como químico, além de ter trabalhado como garçom e professor, e de ter feito bicos como segurança e músico. Atualmente mora em Belém-PA.

Conto o morto que eu sepultei Maria Amélia de Elói O cemitério que mora em
Conto
o
morto que eu sepultei
Maria Amélia de Elói
O cemitério que mora em meu peito tem
se ampliado. Na última década, os morado-
res aumentaram sobremaneira. Meus avós,
meu pai, três tios, quatro primos e muitos
amigos passaram cá para dentro. Mas devo
reconhecer: nenhuma chegada me doeu mais
que a do meu marido. Eu imaginava chegar à
velhice ao lado daquele a quem me entreguei
em matrimônio; por isso, seu passamento
significou mágoa severa demais, praticamen-
terras onde o cônjuge está plantado para lhe
pedir explicações. Depois de melhor refletir,
percebi que nada disso era de bom senso.
Viúva traída que se preze não sai por aí
agredindo cadáver ou acertando contas com
a
amásia do presunto. Achei por bem abran-
dar a pena dos meliantes e sair do precário
estado autocomiserativo. Preferi despir-me
do luto fechado e começar as buscas por um
novo amor.
te um desespero de solidão que latejava dia
e
noite.
Meu luto durou forte até ser substituí-
do por algo muito pior: o remorso por ter
sentido tanto amor equivocado, o pesar por
haver crido ingenuamente, o arrependimento
por haver cumprido fidelidade. Descobri a
traição bem depois que o meu esposo mor-
Quando Leôncio se foi, muitos colegas e
familiares demonstraram carinho e prin-
cipalmente pena por esta mulher que de
súbito se assozinhara. Nas entrelinhas do que
me diziam, aparecia o seguinte discurso: “É
muito difícil uma mulher de quarenta arru-
mar outro homem bom para casar”.
reu e vi nisso uma grande injustiça, porque
a
situação me negou a chance de matar o
judas. Não pude dar ao crápula uma vingan-
ça apropriada.
Por algum tempo, as pessoas me viram
lacrada. Todo o viço calara em mim. Uma
mulher realmente cerrada eu me tornei.
Cabisbaixa e melancólica, esqueci qual sexo
eu tinha. Meu sangue mensal até cessou,
Diante de provas irrefutáveis da transgres-
são cometida por meu amado marido — e
depois que Leôncio sofreu aquele acidente de
carro fatal. O melhor marido, o melhor pai,
certamente só freada por conta de ele haver
defuntado —, pensei em também dar fim à
vida. Quem sabe assim resolveríamos tudo
no inferno? As opções que me apareceram
foram: 1) matar a namoradinha; 2) matar
o
melhor amante
aquele homem não existia
a
cornuda, isto é, suicidar-me; 3) cometer
homicídio seguido de suicídio; 4) revolver as
mais no mundo dos vivos. E eu recordava
cada detalhe de nossa história e até a manei-
ra como Leôncio me olhava e me amava. Um
segredo: sobre o colchão, durante as delícias,
ele não gaguejava! Doce marido que a morte
ceifara tão cedo
https://www.flickr.com/photos/nikodem_nijaki/8865055013/

Foram três anos sob um véu espesso de dor, até que veio à tona o caso de Leôncio

com sua bela amante, Jéssica. Descobri os tais fatos dolosos: sempre nas nossas visitas

à Vó Leila, durante as férias em Petrópolis,

ele fazia segundo turno com a minha pri- ma. Durante quinze anos de casamento, todo janeiro e todo julho, fui traída pelas duas criaturas. Os delatores, dois primos meus, esperaram a vovó morrer para me contar os sebosos pormenores. O casal se deitava num quartinho dos fundos, sem o menor cons- trangimento.

Pontofinalizei o luto assim que decidi por não me matar nem à Jéssica. Ergui a postu-

ra, ajustei as roupas, voltei a tingir os lábios, virei mulher de novo. Foi uma ressurreição sensacional, aplaudida por muita gente. Rapi- dinho, passei a receber cantadas no trabalho

e nas saídas de happy hour. Ganhei flores,

cartões, convites para festas, joias

beijar demorado e a me agarrar com o Regi- naldo, um homem bonito, inteligente, dicção

perfeita. Experiência redentora, que apagou

o gosto e o cheiro daquele tartamudo duma

figa. Meus filhos, já adolescentes, até se pron- tificaram a sair de casa vez ou outra para deixar a mãe namorar com privacidade.

Tornei a

Não aceitei me atarraxar por completo, se

é que você me entende. Quando Reginaldo

propôs uma aproximação tipo boas entradas, não aceitei assim de primeira. Apresentei-lhe

a condição única: “Tem de ser em cima do

túmulo do Leôncio”. Ele tentou me dissuadir com palavras lambidas, mas não cedi. Foi embora todo sentido, afirmando que nem todo o desejo do mundo o faria passar por isso.

maria amélia de Elói

Depois de Reginaldo, busquei envolvi- mento com um rapaz mais jovem, curtidor radical da vida: surfista, alpinista, lutador de jiu-jítsu. Pensei que aquela adrenalina toda se canalizaria bem para desembocar no meu almejado encontro amoroso no cemitério. Quando lhe propus uma primeira noite deliciosamente sepulcral, ele topou de pronto, num ânimo aventureiro. Mas foi só chegar à porta do campo-santo, que o homem mur- chou.

Heitor e Mário também não aceitaram me amar sobre o túmulo. Saíram em defesa da memória do defunto, argumentando que era desrespeito com aquele lá. O jeito, então, foi estancar precocemente o romance; por- que comigo só ficaria quem me satisfizesse de prazer e vingança, quem me permitisse o mais perfeito gozo-desforra.

Foi Alfredo que me brindou como eu merecia. Preparamos a noite ideal: lua cheia, clima agradável, quinta-feira doze, espuman- te, taças, morangos, leite condensado, casta- nhas, queijo suíço, música de sussurro rouco, espuma maleável e roupa de cama em seda. Salpicamos pétalas de rosas vermelhas sobre a cama que se sobrepunha ao jazigo e espe- ramos a meia-noite, quando mais nenhum vivo transitasse por ali.

Experiência sublime! O céu se abriu nova- mente. Voltei às atividades em grande estilo, após haver padecido de viuvez e despeito mórbido.

Depois de amar Alfredo, as velas se apa- garam de repente. Ouvi um soluço baixinho, que parecia vir de dentro da cova. Tatibitate. Era o lamento de Leôncio.

39 anos, é brasiliense. Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela Universi- dade de Brasília, ela foi premiada em 2009 no III Concurso Literatura para Todos, do Ministério da Educação, com a obra Poesia Torta, no prelo. Em 2001, ganhou o Prêmio Nestlé/MEC pelo ensaio Idéias a Mais!: a crítica literária no JB e na Folha de S.Paulo no ano 2000. Seu livro de crônicas Um milagre para cada corcova deverá ser lançado no início de 2014. Há nove anos, é servidora da Câmara dos Deputados.

tradução

Ernest Hemingway trad.: Henry Alfred Bugalho os matadores
Ernest Hemingway
trad.: Henry Alfred Bugalho
os matadores

A porta do restaurante Henry’s se abriu e dois homens entraram. Eles se sentaram ao balcão.

— O que mandam? Perguntou-lhes George.

— Não sei, disse um dos homens. O que quer comer, Al?

— Não sei, disse Al. Não sei o que quero comer.

Lá fora começava a escurecer. A luz da rua entrava pela janela. Os dois homens no balcão leram o cardápio. Do outro lado do balcão, Nick Adams observava-os. Ele estava conversando com George quando eles entra- ram.

— Para mim, lombo de porco assado com

molho de maçã e purê de batatas, disse o

primeiro homem.

— Não está pronto ainda.

— Por que diabos você põe isto no cardá-

pio?

— É para o jantar, explicou George. Você pode pedir às seis da tarde.

George olhou para o relógio na parede atrás do balcão.

— São cinco horas.

— O relógio indica cinco e vinte, disse o segundo homem.

— Está adiantado vinte minutos.

— Ah, pro inferno com o relógio, o pri-

meiro homem disse. O que tem para comer?

— Posso preparar-lhes qualquer tipo de

sanduíches, disse George. Você pode pedir presunto e ovos, bacon e ovos, fígado e ba- con ou um bife.

— Dê-me croquetes de frango com ervi-

lhas e molho de natas e purê de batata.

— Isso é o jantar.

— Tudo o que queremos é jantar, é isto?

— É por aí.

— Posso preparar para vocês presunto e

ovos, bacon e ovos, fígado.

— Quero presunto e ovos, disse o homem

chamado Al. Ele usava um chapéu-coco e um sobretudo preto abotoado no peito. Seu rosto era pequeno e branco e ele tinha os lábios crispados. Ele vestia um cachecol de seda e luvas.

— Quero bacon e ovos, disse o outro

homem. Ele era mais ou menos do mesmo tamanho de Al. Seus rostos eram diferentes, mas eles estavam vestidos como se fossem gêmeos. Ambos vestiam casacos muito justos para eles. Eles estavam sentados inclinados para a frente, com os cotovelos no balcão.

— Algo para beber? Al perguntou.

— Cerveja sem álcool, refrigerante de gen- gibre e outros refrescos, disse George.

— Quis dizer se você tinha algo para beber.

— Apenas aquilo que disse.

— Esta é uma cidade quente, disse o outro. Qual é o nome dela?

— Summit.

— Já ouviu falar dela? Perguntou Al a seu amigo.

— Não, disse o amigo.

— O que tem para fazer aqui à noite? Al perguntou.

— Comer o jantar, seu amigo disse. Todos

eles vêm aqui e comem o grande jantar.

— É verdade, disse George.

— Então você acha que isso é verdade? Perguntou Al a George.

— Com certeza.

— Você é um garoto muito esperto, não é?

— Com certeza, disse George.

— Bem, você não é, disse o outro homen- zinho. Ele é esperto, Al?

— Ele é burro, disse Al. Ele se virou para Nick. Qual é seu nome?

— Adams.

— Outro garoto esperto, disse Al. Não é um garoto esperto, Max?

— A cidade está cheia de garotos espertos, disse Max.

George pôs dois pratos, um de presunto e ovos, o outro de bacon e ovos, no balcão. Ele

colocou dois pratos de batatas fritas e fechou

a janela para a cozinha.

— Qual é o seu? Ele perguntou a Al.

— Não se lembra?

— Presunto e ovos.

— Apenas um garoto esperto, disse Max.

Ele se inclinou e pegou o presunto e os ovos. Os dois homens comeram com as luvas ves- tidas. George observou-os comendo.

— Está olhando o quê? Max olhou para George.

Nada.

Estava sim. Você estava olhando para

mim.

— Talvez o menino estivesse com graça, Max, disse Al.

George riu.

— Você não tem de rir, disse-lhe Max. Você não tem de rir, entendeu?

— Tudo bem, disse George.

— Então ele pensa que está tudo bem,

Max se virou para todos. Ele pensa que está tudo bem. Essa é boa.

— Ah, ele é um pensador, disse Al. Eles continuaram comendo.

— Qual é o nome do garoto esperto no balcão? Perguntou Al a Max.

— Ei, garoto esperto, disse Max a Nick. Dê

a volta para o outro lado do balcão junto com seu amigo.

— Para quê? Perguntou Nick.

— É melhor você dar a volta, garoto esper-

to, disse Al. Nick deu a volta ao balcão.

— Para quê? Perguntou George.

— Não é da sua conta, disse Al. Quem está na cozinha?

— O preto.

— O que quer dizer com o preto?

— O preto que cozinha.

— Diga a ele para vir aqui.

— Para quê?

— Diga a ele para vir aqui.

— Onde você pensa que está?

— Sabemos muito bem onde diabos esta-

mos, disse o homem chamado Max. Parece- mos bobos?

— Você fala bobeiras, disse Al para ele.

Por que diabos discutir com esta criança? Ouça, disse ele a George, diga para o preto vir aqui.

— O que você vai fazer com ele?

— Nada. Use sua cabeça, garoto esperto. O que faríamos a um preto?

George abriu a portinhola que dava para a cozinha.

— Sam, ele chamou, venha aqui por um minuto.

A porta da cozinha se abriu e o preto saiu.

— O que foi? Ele perguntou. Os dois ho- mens no balcão deram uma olhada nele.

— Tudo bem, preto. Fique parado bem aí, disse Al.

Sam, o preto, de pé com seu avental, olhou para os dois homens sentados ao balcão.

— Sim, senhor, ele disse. Al desceu de sua banqueta.

— Vou voltar para a cozinha com o preto

e com o garoto esperto, ele disse. Volte pra cozinha, preto. Você vai com ele, garoto esperto. O homenzinho caminhou atrás de Nick e Sam, o cozinheiro, de volta para a cozinha. A porta se fechou atrás deles. O homem chamado Max sentou-se ao balcão

de frente para George. Ele não olhava para

George, mas olhava para um espelho que ocupava a parte de trás do balcão. Henry’s havia sido convertido de um saloon para um restaurante.

— Bem, garoto esperto, Max disse, olhando

para o espelho, por que você não diz algo?

— O que está acontecendo?

— Ei, Al, gritou Max, o garoto esperto que saber o que está acontecendo.

— Por que você não diz para ele? A voz de

Al veio da cozinha.

— O que você pensa que está acontecen-

do?

— Não sei.

— O que você pensa?

Max olhava para o espelho todo o tempo enquanto falava.

— Não saberia dizer.

— Ei, Al, o garoto esperto disse que não

saberia dizer o que ele pensa estar aconte- cendo.

— Posso escutar vocês bem, disse Al da

cozinha. Ele havia aberto, com um frasco de ketchup, a janelinha por onde os pratos eram passados desde a cozinha. Escute, garoto es- perto, ele disse da cozinha para George, fique de pé um pouco mais para lá no balcão. Você se mova um pouco para a esquerda, Max. Era como se um fotógrafo organizasse uma fotografia de grupo.

— Fale comigo, garoto esperto, disse Max.

O que você pensa que vai acontecer?

George nada disse.

— Vou contar pra você, disse Max. Nós

vamos matar um sueco. Você conhece um

sueco grande chamado Ole Anderson?

— Sim.

— Ele vem aqui para comer todas as noi- tes, não é?

— Às vezes, ele vem aqui.

— Ele vem aqui às seis da tarde, não é?

— Quando vem.

— Sabemos de tudo, garoto esperto, disse

Max. Vamos falar sobre outra coisa. Costuma

ir ao cinema?

— De vez em quando.

— Você devia ir mais ao cinema. Os filmes

são bons para garotos espertos como você.

— Por que vocês vão matar Ole Anderson?

O que ele fez para vocês?

— Ele nunca teve a oportunidade de fazer

nada para a gente. Ele nunca nos viu antes.

— E ele vai matá-lo por quê, então? Per- guntou George.

— Vamos matá-lo por um amigo. Para

fazer um favor a um amigo, garoto esperto.

— Cale a boca, disse Al da cozinha. Você fala demais, porra.

— Bem, tenho de manter o garoto esperto entretido. Não é, garoto esperto?

— Você fala pra caralho, disse Al. O preto

e o garoto esperto podem se entreter entre si. Eu os amarrei como um casal de namora- das em um convento.

— Suponho que você esteve em um con- vento.

— Nunca se sabe.

— Você esteve num convento kosher. Foi

aí que você esteve.

George olhou para o relógio.

— Se alguém entrar, você diz que o cozi-

nheiro não está, e se ele ficar depois disto, diga-lhe que você irá lá trás e cozinhará.

Entendeu isto, garoto esperto?

— Tudo bem, disse George. O que você vai fazer com a gente depois?

— Isto vai depender, disse Max. Esta é uma

daquelas coisas que você nunca sabe na hora.

George olhou para o relógio. Era seis e quinze. A porta para a rua se abriu. Um mo- torneiro entrou.

— Oi, George, disse ele. Posso jantar?

— Sam saiu, disse George. Ele voltará em mais ou menos meia hora.

— Melhor eu ir a outro lugar, disse o mo-

torneiro. George olhou para o relógio. Eram seis e vinte.

— Muito bem, garoto esperto, disse Max.

Você é um perfeito pequeno cavalheiro.

— Ele sabia que eu estouraria os miolos dele, disse Al da cozinha.

— Não, disse Max. Não foi isto. O garoto

esperto é legal. Ele é um garoto legal. Gosto dele.

Às seis e cinquenta e cinco, George disse:

— Ele não virá.

Duas outras pessoas tinham estado no res- taurante. Uma vez George foi para a cozinha

e preparou um sanduíche de presunto e ovo para "viagem" que um homem queria levar consigo.

Dentro da cozinha, ele viu Al, seu cha- péu-coco inclinado para trás, sentando em uma banqueta ao lado do postigo, com a coronha de uma escopeta serrada recostada na borda. Nick e o cozinheiro estavam um de costas para o outro no canto, com uma toalha amarrada na boca de cada um. Geor- ge preparou o sanduíche, embrulhou-o em

papel manteiga, pô-lo em um saco, trouxe-o,

o homem pagou e foi embora.

— O garoto esperto pode fazer qualquer

coisa, disse Max. Ele pode cozinhar e tudo o mais. Você fará de alguma garota uma espo- sa feliz, garoto esperto.

— Sim? Disse George. Seu amigo, Ole An- derson, não virá.

— Vamos dar-lhe dez minutos, disse Max.

Max olhava para o espelho e para o reló- gio. Os ponteiros do relógio marcavam sete da noite, então sete e dez.

— Vamos lá, Al, disse Max. Melhor irmos. Ele não virá.

— Melhor darmos mais cinco minutos,

disse Al da cozinha.

Nestes cinco minutos, um homem entrou

e George explicou que o cozinheiro estava doente.

— Por que diabos vocês não arranjam

outro cozinheiro? Perguntou o homem. Vocês não estão tocando um restaurante? Ele saiu.

— Vamos lá, Al, disse Max.

— E quanto aos dois garotos espertos e ao

preto?

— Eles estão bem.

— Acha que sim?

— Com certeza. Terminamos aqui.

— Não gosto disto, disse Al. É descuidado. Você fala demais.

— Mas que diabos, disse Max. Tínhamos de mantê-los entretidos, não é?

— Você fala demais, mesmo assim, disse

Al. Ele saiu da cozinha. Os canos da escope- ta serrada criavam um pequeno volume na cintura de seu sobretudo justo demais. Ele ajeitou o casaco com suas mãos com luvas.

— Até logo, garoto esperto, ele disse para George. Você é muito sortudo.

— Isto é verdade, disse Max. Você deveria

apostar nas corridas de cavalo, garoto esper- to.

Os dois saíram pela porta. George os observava pela janela; passaram sob a luz do poste e atravessaram a rua. Com seus sobre- tudos e chapéus-cocos eles pareciam uma

trupe de vaudeville. George foi para a cozi- nha pela porta deslizante e desamarrou Nick

e

o cozinheiro.

Não quero mais saber disto, disse Sam,

o

cozinheiro. Não quero mais saber disto.

Nick se levantou. Ele nunca havia tido uma toalha na boca antes.

— Diga, disse ele. Que diabos? Ele estava tentando extravasar.

— Ele iam matar Ole Anderson, dis-

se George. Ele iam atirar nele quando ele

entrasse para comer.

Ole Anderson?

Com certeza.

O

cozinheiro tocava os cantos da boca

com seus polegares.

— Eles se foram? Ele perguntou.

— Sim, disse George. Eles se foram agora.

— Não gosto disto, disse o cozinheiro. Não gosto nem um pouco disto.

— Escute, disse George para Nick. É me- lhor você ir procurar Ole Anderson.

— Tudo bem.

— É melhor não se envolver nisto, disse

Sam, o cozinheiro. É melhor ficar fora do ca- minho, disse Sam, o cozinheiro. Melhor ficar fora do caminho.

— Não vá, se não quiser, disse George.

— Meter-se nisso não vai levá-lo a lugar

algum, disse o cozinheiro. Fique fora disto.

— Vou procurá-lo, disse Nick para George. Onde ele mora?

O cozinheiro se virou para outro lado.

— Garotinhos sempre sabem o que eles querem fazer, ele disse.

— Ele mora na pensão da Hirsch, George ajudou Nick.

Irei lá.

fora, o poste reluzia através dos galhos

secos de uma árvore. Nick caminhou pela rua pelos trilhos do bonde e virou depois do poste seguinte por uma rua secundária. A

pensão de Hirsch era a terceira casa subindo

a rua. Nick cruzou os dois degraus e apertou a campainha. Uma mulher atendeu a porta.

— Ole Anderson está aí?

— Você quer vê-lo?

— Sim, se ele estiver.

Nick seguiu a mulher até o andar de cima

e até o final do corredor. Ele bateu na porta.

— Quem é?

— Nick Adams.

— Entre.

Nick abriu a porta e entrou no quarto. Ole Anderson estava deitado vestido na cama. Ele havia sido um boxeador campeão

dos pesos-pesados e era grande demais para

a cama. Ele estava deitado com a cabeça

sobre dois travesseiros. Ele não olhou para Nick.

— O que foi?

— Eu estava no Henry’s, disse Nick, e dois

sujeitos apareceram e amarraram a mim e ao cozinheiro, e eles disseram que iam matar você.

Soava estúpido ao dizer isto. Ole Ander- son não disse nada.

— Eles nos puseram na cozinha, prosse-

guiu Nick. Eles iam atirar em você, quando

você fosse jantar.

Ole Anderson olhava para a parede e não disse nada.

— George pensou que seria melhor eu vir

e contar para você.

— Não há nada que eu possa fazer quanto

a isto, disse Ole Anderson.

— Vou lhe dizer como eles eram.

— Não quero saber como eles eram, disse

Ole Anderson. Ele olhava para a parede. Obrigado por vir me contar sobre isto.

— Está tudo bem.

Nick olhava para o homenzarrão deitado na cama.

— Não quer que eu vá e procure a polí-

cia?

— Não, disse Ole Anderson. Isto não adiantaria nada.

— Não há nada que eu possa fazer?

— Não. Não há nada a fazer.

— Talvez fosse apenas um blefe.

— Não, não era apenas um blefe.

Ole Anderson girou o corpo em direção à

parede.

— A única coisa é que, ele disse, falando

para a parede, eu não consigo me convencer

a sair. Fiquei aqui o dia inteiro.

— Não poderia deixar a cidade?

— Não, disse Ole Anderson, estou cansado de ficar fugindo.

Ele olhava para a parede.

— Não há nada que se possa fazer agora.

— Você não poderia resolver isto de al- gum jeito?

— Não. Estou numa enrascada. Ele falava

com a mesma voz monótona. Não há nada

a ser feito. Depois de um tempo, vou me convencer a sair.

— É melhor voltar e procurar George, disse Nick.

— Adeus, disse Ole Anderson. Ele não

olhou para Nick. Obrigado por vir aqui.

Nick saiu. Ao fechar a porta, ele viu Ole Anderson vestido, deitado na cama olhando a parede.

— Ele passou o dia inteiro no quarto, disse

a senhoria lá embaixo. Acho que ele não

está se sentindo bem. Eu disse para ele: “Sr. Anderson, você precisa sair e dar um passeio num dia bonito de outono como este”, mas ele não quis.

— Ele não quer sair.

— Sinto muito por ele não estar se sen-

tindo bem, disse a mulher. Ele é um homem terrivelmente bom. Ele era boxeador, sabe.

— Eu sei.

— Você nunca esperaria isto pelo jeito

como é a cara dele, disse a mulher. Eles con-

versavam logo na entrada da porta da rua. Ele é muito gentil.

— Bem, boa noite, Sra. Hirsch, disse Nick.

— Não sou a Sra. Hirsch, disse a mulher.

Ela é a dona do lugar. Só cuido dele para ela, sou a Sra. Bell.

— Bem, boa noite, Sra. Bell, disse Nick.

— Boa noite, disse a mulher.

Nick caminhou pela rua escura até a esquina sob o poste, então pelos trilhos do bonde até o restaurante Henry's. George esta- va lá dentro, atrás do balcão.

— Você viu Ole?

— Sim, disse Nick. Ele está no quarto dele e não quer sair.

O cozinheiro abriu a porta da cozinha ao ouvir a voz de Nick.

— Não quero nem ouvir isto, ele disse e fechou a porta.

— Você contou sobre isto para ele? Per- guntou George.

— Com certeza. Eu contei pra ele, mas ele sabe tudo sobre isto.

— O que ele vai fazer?

— Nada.

— Eles vão matá-lo.

— Acho que vão.

— Ele deve ter se metido em alguma coisa em Chicago.

— Acho que sim, disse Nick.

— Que diabos.

— É horrível, disse Nick.

Eles não disseram nada. George apanhou uma toalha e esfregou o balcão.

— Fico pensando no que ele deve ter feito, disse Nick.

— Atraiçoou alguém. É por isto que que- rem matá-lo.

Vou sair desta cidade, disse Nick.

Sim, disse George. É uma boa coisa a se

fazer.

Não suporto pensar nele esperando no

quarto e sabendo que vai ser pego. É terrível demais.

— Bem, disse George, é melhor você não pensar sobre isto.

Ernest Hemingway (18991961)

Hemingway era parte da comunidade de escri- tores expatriados em Paris, conhecida como "ge- ração perdida", nome inventado e popularizado por Gertrude Stein. Levando uma vida turbulenta, Hemingway casou-se quatro vezes, além de vários relacionamentos românticos. Em 1952 publicou "O Velho e o Mar", com o qual ganhou o prêmio Pulitzer (1953). Foi laureado com o Nobel de Literatura de 1954.

A vida e a obra de Hemingway têm inten-

sa relação com a Espanha, país onde viveu por

quatro anos. Uma breve passagem, mas marcante para um escritor americano que estabeleceu uma relação emotiva e ideológica com os espanhóis.

Em Pamplona, meados do século XX, fascinado pelas touradas, a ponto de tornar-se um toureiro amador, transporta essa experiência para o livro

O Sol Também Se Levanta (1926). Ao cobrir a

Guerra Civil Espanhola (1936), como jornalista do North American Newspaper Alliance, não hesitou em se aliar às forças republicanas contra o fas- cismo, tema do livro Por Quem os Sinos Dobram (1940), considerado sua obra-prima.

Ainda muito jovem, decidiu ir à Europa pela

primeira vez, quando a Grande Guerra assombra-

va o mundo (1918). Hemingway havia terminado

o segundo grau em Oak Park e trabalhado como

jornalista no Kansas City Star. Tentou alistar-se, mas foi preterido por ter um problema na visão. Decidido a ir à guerra, conseguiu uma vaga de motorista de ambulância na Cruz Vermelha. Na Itália, apaixonou-se pela enfermeira Agnes Von Kurowsky, sua inspiração na criação da heroína

de

Barkley. Atingido por uma bomba, retornou para

Oak Park que, depois do que viu na Itália, tornou-

se monótona demais.

Adeus às Armas (1929) – a inglesa Catherine

Casamentos

Volta à Europa (Paris), em 1921, recém-casado com Elizabeth Hadley Richardson, seu primeiro casamento, com quem teve um filho. Na ocasião, trabalhava para o Toronto Star Weekly e, em início de carreira, se aproximou de outros princi- piantes: Ezra Pound (1885–1972), Scott Fitzgerald (1896–1940) e Gertrude Stein (1874–1940).

O seu segundo casamento (1927) foi com a

jornalista de moda Pauline Pfeiffer. Com ela teve dois filhos. Em 1928, o casal decidiu morar em Key West, na Flórida. O escritor sentiu falta da

vida de jornalista e correspondente internacional.

O

ca

casamento com Pauline era instável. Nessa épo-

conhece Joe Russell, dono do Sloppy Joe’s Bar

e companheiro de farra. Já na década de 1930,

resolveu partir com o amigo para uma pesca- ria. Dois dias em alto-mar que terminaram em Havana, capital cubana, para onde voltava anual- mente na época da corrida do agulhão (entre os meses de maio e julho). Hospedava-se no hotel Ambos Mundos, em plena Habana Vieja, bairro mais antigo da cidade que se tornava o lar do es-

critor, e os cenários que comporiam sua história e

a da própria ilha pelos próximos 23 anos.

Em Cuba, o escritor se apaixonou por Jane Mason, casada com o diretor de operações da Pan American Airways e se tornaram amantes. Em 1936, novamente se apaixona, desta feita pela destemida jornalista Martha Gellhorn, motivo do segundo divórcio, confirmando o que predisse seu amigo, Scott Fitzgerald, quando eles se conhece- ram em Paris: “Você vai precisar de uma mulher a cada livro.“ Assim, Hemingway partiu para a Espanha, onde Martha já estava e, em meio à guerra, os dois viveram um romance que resultou no seu terceiro casamento. Quando a república caiu e a Europa vivia o prenúncio de um conflito generalizado, Hemingway retornou para Cuba com Martha.

Em 1946, o escritor casa-se pela quarta e últi- ma vez com Mary Welsh, também jornalista, mas tímida e disposta a viver ao lado de um Hemin- gway cada vez mais instável emocionalmente.

Suicídio

Ao longo da vida do escritor, o tema suicídio aparece em escritos, cartas e conversas com mui- ta frequência. Seu pai suicidou-se em 1929 por problemas de saúde e financeiros. Sua mãe, Grace, dona de casa e professora de canto e ópera, o atormentava com a sua personalidade domina- dora. Ela enviou-lhe pelo correio a pistola com a qual o seu pai havia se matado . O escritor, atôni- to, não sabia se ela queria que ele repetisse o ato do pai ou que guardasse a arma como lembrança.

Aos 61 anos e enfrentando problemas de hi- pertensão, diabetes, depressão e perda de memó- ria, Hemingway decidiu-se pela primeira alterna- tiva.

Todas as personagens deste escritor se defron- taram com o problema da "evidência trágica" do fim. Hemingway não pôde aceitá-la. A vida in- teira jogou com a morte, até que, na manhã de 2 de julho de 1961, em Ketchum, Idaho, tomou um fuzil de caça e disparou contra si mesmo.

Encontra-se sepultado em Ketchum Cemetery, Ketchum, Condado de Blaine, Idaho nos Estados Unidos.

teoria Literária Hemingway o caminho da vida para a Literatura Henry Alfred Bugalho
teoria Literária
Hemingway
o caminho da vida para a Literatura
Henry Alfred Bugalho

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SAMIZDAT abril de 2014

SAMIZDAT abril de 2014

Praticamente qualquer escritor concor- daria que a Literatura é um ofício solitário, realizado no silêncio de um escritório, desta- cado da realidade de uma maneira inevitável, pois o escritor, enquanto criador, volta-se para si, para as criaturas que habitam em sua imaginação, ou para as lembranças pro- fundamente arraigadas em suas memórias.

A escrita é um ofício cerebral, intelectual

e introspectivo.

Como fazer coincidir o apelo da vida, que exige extroversão, com o chamado da escrita, que exige reflexão?

A chave para este mistério parece residir

em Ernest Hemingway, possivelmente o mais importante e influente escritor norte-ame- ricano do século XX, e um dos grandes da Literatura Universal.

Jamais poderíamos dizer que a biografia de Hemingway, o modo como ele conduziu sua vida, foi monótona. Dirigiu ambulância no front italiano durante a Primeira Guer- ra Mundial, onde foi ferido gravemente. Mudou-se com a esposa para Paris nos anos 20, convivendo com alguns dos maiores expoentes artísticos da época, como Picas- so, Gertrude Stein, Scott Fitzgerald, T.S. Eliot, James Joyce, Ezra Pound e Miró. Foi nesta cidade que ele escreveu e publicou seus primeiros livros, através da mítica livraria americana Shakespeare & Co, um ponto de encontro dos expatriados em Paris. Também viajou para a Áustria, Espanha, Alemanha

e Suíça. Cobriu, como repórter, a Guerra

Greco-Turca. Mudou-se para o Canadá, porém rapidamente retornou a Paris. Viveu em Key West, em Kansas City e Wyoming. Visitava Cuba frequentemente. Foi em safaris na África. Navegou o Caribe com seu barco Pilar. Cobriu a Guerra Civil Espanhola. Vi- veu em Havana e em Idaho. Viajou à China. Durante a Segunda Guerra Mundial, acom- panhou o desembarque das tropas aliadas na Normandia, tornou-se o líder de uma milícia de resistência e esteve presente na liberação de Paris. Quase morreu em dois acidentes

aéreos na África. Casou-se, separou-se, teve várias amantes e três filhos, casou-se nova- mente. Suicidou-se com um tiro de escopeta na cabeça.

Quem vê de fora esta vida repleta de viagens, aventuras, catástrofes e glórias, talvez se indague quando Hemingway tinha tempo para escrever.

Mesmo assim, o autor foi mundialmente reconhecido por suas obras, autor de dez romances, outro tanto de obras de não-ficção e de várias antologias de contos. Recebeu o Prêmio Pulitzer e, posteriormente, o Nobel de Literatura pela a obra “O Velho e o Mar”.

Ao morrer em 1961, ele era um dos escritores mais admirados e imitados, con- siderado o criador de uma nova linguagem literária, direta, sem rodeios, sem adjetivos e advérbios desnecessários, com uma potência que parecia brotar do mesmo amor que ele tinha pela vida.

Uma das frases célebres do autor, e que parecia ser também o lema pelo qual ele conduziu sua existência, é “para poder escre- ver sobre a vida, primeiro você deve vivê-la”.

Mas todos nós teríamos de mergulhar de cara na vida, enfrentando, com uma cora- gem espartana, tudo que se depara em nosso caminho, para podermos escrever?

Certamente que nem todos são talhados com a mesma disposição de Hemingway, e também a regra de “viver para falar da vida” pode ser bastante abrangente.

O que é viver plenamente, afinal?

É viajar, estar em guerras, viver grandes paixões, ou há também lirismo e profundida- de na vida cotidiana, nas pequenas conquis- tas e perdas diárias, nos encontros e desen- contros da pacata vida mediana?

Pois extrair grandes histórias do nosso dia a dia, como eventos fortuitos numa fila de mercado, ou relacionamentos conturbados da classe média também é um desafio tremen- do. Não temos opção senão viver a vida que nos foi dada, porém o grande esforço é o de

 

geração de autores, como os do new journa- lism, ou jornalismo literário, com Truman Capote, Norman Mailer e Tom Wolfe entre

seus expoentes. Esta aproximação entre vida real e ficção, entre pessoas reais e persona- gens, entre o que se diz de fato e como isto deve ser representado na escrita foi o que erigiu Hemingway como um dos grandes escritores de seu tempo, pois ele não tinha

a

intenção de criar personagens (ou estere-

ótipos), mas sim de engendrar pessoas reais, maiores do que o enredo, que viveriam para além das páginas de um livro, que seriam recordadas e das quais sentiríamos saudades como se fossem pessoas de verdade.

Para Hemingway, um grande escritor é aquele que sabe omitir as informações des- necessárias, pois “a dignidade do movimento de um iceberg deve-se porque apenas um

décimo dele está para fora da água”, ou seja,

a

boa literatura é aquela que, para além da

superfície das letras, palavras e páginas, tem uma profundidade que o autor soube res- guardar e que o leitor pode, com o devido esforço e comprometimento, resgatar.

Um dos grandes exemplos desta escrita concisa e minimalista é o conto “Os Mata-

dores” de 1927. O enredo é mínimo: dois assassinos entram em um restaurante à pro- cura por um boxeador. Praticamente todo o enredo ocorre neste espaço reduzido, através de diálogos entre os assassinos e os funcio- nários do restaurante. Há pouca informação sobre os motivos dos assassinos, tampouco temos uma resposta sobre o que ocorrerá com o boxeador depois. Talvez seja morto, talvez não. Todavia, o conto está entranhado no contexto dos anos 20 nos EUA, com as máfias italiana e irlandesa no controle do contrabando de bebidas alcoólicas, no perío- do da notória “Lei Seca”. De fato, o conto foi inspirado em uma história real, mas He- mingway ocultou deliberadamente qualquer informação que fosse irrelevante para seu conto, seguindo, talvez mais do que em qual- quer outra obra, sua imagem do iceberg, que revela apenas uma pequena parcela de si.

resgatar nestas nossas experiências o que há de essencial para ser compartilhado através da Literatura.

Hemingway se destacou por sua maestria através de uma escrita direta, com frases cur- tas e poderosas. O autor expressa sua inten- ção da seguinte maneira: “meu objetivo é pôr no papel o que vejo e sinto do melhor e mais simples modo.”

Ao buscar esta linguagem simples, vital, o escritor bateu de frente com uma concepção que ainda vigora nas Letras, que um bom livro é complexo e intrincado, repleto de longas frases e parágrafos, às vezes, em fluxos de consciência intermináveis. Hemingway aproximou a linguagem jornalística à escrita literária, abrindo caminho para toda uma

Neste conto, temos um fragmento de vida, uma cena que revela a dura realidade ame- ricana de seu tempo. De um modo quase despretensioso, através de diálogos triviais e aparentemente sem propósito, Hemingway estabelece um microuniverso de referên- cias, que estão veladas para aqueles que não empreendem um esforço de mergulhar em busca das chaves para os enigmas propostos.

Talvez o “viver a vida”, no sentido que Hemingway enuncia, não dependa tanto das grandes aventuras e feitos, mas desta missão de desvendar os mistérios da vida humana e, mais do que isto, apresentar tais respostas da maneira mais clara e eficiente possível, ao mesmo tempo em que, nas entrelinhas, preservam-se as sutilezas deste mistério.

Em seu discurso de premiação do Nobel de Literatura, o autor define a sua compre- ensão sobre o ofício: “para um verdadeiro es- critor, cada livro deve ser um novo começo, onde ele tenta de novo algo que está além de ser alcançado. Ele deve sempre almejar algo que nunca tenha sido feito ou aquilo que ou- tros tentaram e fracassaram. Então, às vezes, com grande sorte, ele será bem-sucedido.”

De certo modo, descobrimos uma rota da vida para a Literatura, através deste embate esmagador e desesperador para expressar- mos o impossível.

A vida não cabe na Arte, assim como a Arte geralmente transcende a vida.

Henry alfred Bugalho

Curitibano, formado em Filosofia, com ênfase em Estética. Especialista em Litera- tura e História. Autor dos romances “O Canto do Peregrino”, “O Covil dos Inocentes”, “O Rei dos Judeus”, da novela “O Homem Pós-Histórico”, e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca” e do “Nova York, Bairro a Bairro”, cidade na qual morou por 4 anos, e do “Curso de Introdução à Fotografia do Cala a Boca e Clica!”. Após viver em Buenos Aires, Itália e Portugal, está baseado, atualmente, em Madri, com sua esposa Denise, o bebê Phillipe e Bia, sua cachorrinha.

teoria Literária

abre-te, cérebro! o tudo que cabe nas palavras de arnaldo antunes

RESUMO: Pretende-se, neste texto, apre- sentar as intersecções, influências e en- tremeios aos quais a produção poética de Arnaldo Antunes está sujeita, passando por movimentos de Vanguarda e Pós-vanguarda como Antropofagia, Concretismo e Tropicá- lia, tomando como base para análise poemas presentes em seus três primeiros livros – Psia, Tudos e As Coisas.

Palavras-chave: Poesia brasileira. Arnaldo Antunes. Interdisciplinaridade. Antropofagia.

Arnaldo Antunes, surfista canibal

“Qual a graça de surfar o caminho mais curto entre dois pontos?” (GESSINGER, 2012, p. 59).

Neste texto, serão abordadas, tomando como base para análise de seus três pri- meiros livros – Psia; Tudos e As coisas –, algumas produções poéticas de Arnaldo Antunes em suas inúmeras afetações, influ- ências, suas vozes cruzadas entre música e poesia – poeta/músico ou músico/poeta? Pergunta que não cabe, sem valor, tampouco uma resposta conclusiva há, o que só serviria para rotular suas construções ou armazená- las em prateleiras separadas – disco/livro; livro/disco. Antunes envolve sua poesia em características de movimentos de Vanguarda e Pós-vanguarda, “sua obra representa uma reinterpretação da antropofagia precisamen- te porque converge a literatura em relação às outras artes por meio de uma interseção de gêneros e meios” (SANTOS, 2012, p. 16), além de ser fortemente marcada pela estética

Hernany Tafuri

Concretista, Antunes surfa ondas distintas na mesma onda, equilibra-se em junções opor- tunas e proveitosas – cultura pop, cinema, artes plásticas, tal qual um tropicalista –, desliza, domina os movimentos através e a partir de cada traço que o leva da crista da onda à areia da poesia.

Arnaldo compromete-se, a partir da re- cepção do leitor, com a retomada dos sen- tidos, dialogando com vários meios de per- cepção, valendo-se das páginas de seus livros como espaços a serem explorados, esgotados, seja com poemas que tomam toda a dimen- são do papel, seja com os “espaços vazios” maiores que o texto – Antunes formata seus poemas em busca de uma estética que possa ser lida junto às suas palavras-coisas: seus

poemas são objetos construídos pela lingua- gem; faz do meio, mensagem.

Pode-se afirmar que a poética de Arnaldo Antunes destaca-se no contexto do final do século XX de uma maneira muito singular por ser desenvolvida conciliando poesia visual, música, minimalismos e arquitetadas transgressões sobre a linguagem, cujo tom, por vezes infantil, transcende o óbvio em inusitado. É explorando o potencial do signo linguístico que Antunes alcança o lugar exato entre som e silêncio, palavra e imagem, elevando ao status de “coisa” a palavra em- pregada. Como nos diz Décio Pignatari:

O signo verbal forma um sistema domi- nante de comunicação. Quer dizer: todo

mundo transa, todo mundo usa, todo mundo

trabalha com o signo verbal. [

está: o poeta não trabalha com o signo, o poeta trabalha o signo verbal. (PIGNATARI,

]

E aí é que

1987, p. 8)

Para ilustrar o processo de coisificação ao qual Antunes impõe suas palavras, destaca- se o poema Nuvem/Lua (figura 1), o qual se encontra no livro Psia, de 1986. Nele, ob- servamos o conceito de signo presente nos estudos de Semiótica, o qual nos diz que signo é toda e qualquer coisa que substitua ou represente outra, que se organize ou ten- da a organizar-se sob a forma de linguagem. Para Arnaldo, não basta a representação

simbólica: as palavras passam a ser as coisas;

o a da palavra lua toma forma de uma lua

cheia coberta pela nuvem que passou a ser

o m de nuvem. O autor oferta às palavras a

possibilidade de se reapegarem às coisas que representam, elevando sua forma visual e sua carga semântica. Linguagem carregada de sentido à enésima potência.

Linguagem carregada de sentido à enésima potência. Fig. 1 Poema Lua/Nuvem (ANTUNES, 2001, p. 20) Surfando,

Fig. 1 Poema Lua/Nuvem (ANTUNES, 2001, p. 20)

Surfando, ainda, outra onda de Psia, chega- se ao poema “O que” (Figura 2). Em 1986, ano

de publicação da primeira edição desse livro,

a banda de rock paulistana Titãs, da qual

Antunes foi um dos vocalistas e composito-

res por dez anos, entre 1982 e 1992, lança

o clássico disco “Cabeça Dinossauro” tendo

como faixa final “O que”. Poema ou letra de música? Poema e letra de música! Tratando- se de Arnaldo Antunes, poemúsica.

de música! Tratando- se de Arnaldo Antunes, poemúsica. Fig. 2 Poema O que (ANTUNES, 2001, p.

Fig. 2 Poema O que (ANTUNES, 2001, p.

32)

O que[2]

Que não é o que não pode ser que

não é o que não pode

ser que não é

O que não pode ser que não

É o que não

Pode ser

Que não

É!

O

que não pode ser que

Não é o que não pode ser

Que não é o que

O

que?

O

que?

O

que?

Que não é o que não pode ser

Que não é o que não pode ser

Que não é o que não pode ser que não é

(2x)

“Mas o que pode acontecer a alguém que, propondo-se a escrever um poema, e no curso mesmo de sua escrita, de algum modo, é tocado pelo ambiente de uma tourada?” (MONTEIRO, 2012, p. 2). A essa pergunta, encontra-se a resposta no texto É preciso aprender a ficar (in)disciplinado, de André Monteiro.

Emprestando-a como ponto de partida, tentarei mergulhar no processo de compo- sição de Arnaldo Antunes com relação ao poema e à música “O que”, como já dito, ambos aparecidos em 1986, no livro de poesias “Psia” e no disco “Cabeça dinossauro” dos Titãs. Por que Arnaldo poeta diferir-se-ia de Antunes músico? Em quê? Seu trabalho criativo é autofágico, antropofágico, devora- dor titânico dos vazios entre música e poesia, autoafetado, performaticamente preciso. Nas diferenças, há vida em movimento, comu- nhão em exercício de viver. A vida sempre mesma é vida mansa que não passa, cansa, mofa, dá pança, não cria, chia, geme sem gozar. Manca. “E a vida não é sempre outra?” (MONTEIRO, 2012, p. 2). Viver é dar via à “potência; o desejo de expandir, o poder de criar, de crescer, de vencer as resistências é que impulsiona o movimento da vida.” (DIAS, 2011, pp. 37–38). Movimento sugerido ao lei- tor para uma efetiva participação e entrada no poema: girar o livro 360 graus; escolher o ponto de partida e o ponto de término da leitura; eleger os versos que comporão o po- ema; libertar as múltiplas almas/versos que coabitam o corpo/edifício/poesia, já que “O mesmo texto permite inúmeras exegeses: não há nenhuma exegese correta”. (NIETZSCHE, 2002, p. 155).

Já a letra é fluidamente condicionada à estrutura rítmica da música – rock/funk/re- ggae/punk? – compasso passo a passo tendo

como ponto de partida seu título (O que), que não aparece no livro. Arnaldo titânico parte de um que inicial e nele termina para

dar a primeira volta ao círculo poético – cír- culo sem luz (PUCHEU in MONTEIRO, 2012, p. 6) a se iluminar; depois, prossegue, arre- bentando-o, produzindo fissuras, entremeios

e ocos entre o silêncio da fala e a batida da

bateria e solos de guitarra. O poeta canta seu texto que não é obra, antes, é um dentro/fora de si em si aos/nos outros, no livro lendo o leitor, no palco, cantando-se catado pelo rom- pimento e sobreposicionamento de suas pos- sibilidades. Antunes é um poeta outro den- tro do poeta mesmo, deglute-se auto(antro) pofagicamente rumina-se músico/poeta ator de disciplinas indisciplinadas, fortemente marcadas por suas peculiaridades, entretanto, frutos de forças que co-agem, ao agir com e para a criação. “Só me interessa o que não é meu” (ANDRADE in TELES, 1976, p. 3) é digerido, gestado, gerando um interessa-me

o meu tanto quanto à medida que Antunes

age não apenas como um canibal antropo- fágico, também autofagicamente, a devorar- se, nutrindo-se de sua própria produção. “O que” é poema musicado e música (letra) estanque no papel, a espera do movimento que o leitor a ela dará. Dilui-se o dilema do começo deste artigo. Não há rótulos capazes de aprisionar seu texto, pois em construção infinita, onda dentro da onda dentro da onda (etc.) – no concreto a inventá-las como um esqueitista – como se segurasse um espe- lho em frente a outro espelho e as imagens jamais findassem. Reflexo no/do reflexo.

Silêncio que se lê

Toma-se, agora, o livro “Tudos”, publica- do em sua primeira edição em 1990, como exemplo de transformação, ou releitura, tro- picalista, numa recuperação antropofágica.

Destaca-se que o livro não possui numeração de página e os poemas que o compõem são desprovidos de título. O texto escolhido para

a ilustração proposta diz:

Eu apresento a página branca.

Contra:

Burocratas travestidos de poetas

Sem-graças travestidos de sérios

Anões travestidos de crianças

Complacentes travestidos de justos

Jingles travestidos de rock

Estórias travestidas de cinema

Chatos travestidos de coitados

Passivos travestidos de pacatos

Medo travestido de senso

Censores travestidos de sensores

Palavras travestidas de sentido

Palavras caladas travestidas de silêncio

Obscuros travestidos de complexos

Bois travestidos de touros

Fraquezas travestidas de virtudes

Bagaços travestidos de polpa

Bagos travestidos de cérebros

Celas travestidas de lares

Paisanas travestidos de drogados

Lobos travestidos de cordeiros

Pedantes travestidos de cultos

Egos travestidos de eros

Lerdos travestidos de zen

Burrice travestida de citações

água travestida de chuva

aquário travestido de tevê

água travestida de vinho

água solta apagando o afago do fogo

água mole sem pedra dura

água parada onde estagnam os impulsos

água que turva as lentes e enferruja as lâminas

água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções

insípida, amorfa, inodora, incolor

água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky

água onde não há seca

água onde não há sede

água em abundância

água em excesso

água em palavras.

Eu apresento a página branca.

A

O

árvore sem sementes.

vidro sem nada na frente.

Contra a água. (ANTUNES, 2007)

O

primeiro verso do poema (Eu apresen-

to a página branca.) remete-nos ao Abismo/ branco d’“Um Lance de dados”, texto de Mallarmé cuja proposta estética constitui-se um alicerce para a poesia concreta em sua espacialização visual; seus quarenta versos seguintes constituem-se uma releitura de dois poemas canônicos da literatura brasi- leira: “Profissão de Fé”, de Olavo Bilac, o qual

representa uma espécie de plataforma teó- rica do Parnasianismo no Brasil, embora o movimento já estivesse implantado quando de sua publicação, e da “Poética” de Manuel Bandeira, ainda que publicado apenas em 1930 (portanto oito anos após a Semana de Arte Moderna), constitui-se uma representa- ção tardia da poesia modernista brasileira; nele, Bandeira, ao mesmo tempo em que propõe uma nova poética, critica a poesia tradicional, ainda vigente, numa relação de

deglutição do poema de Bilac. Influenciado pelo movimento Tropicalista, cujos traços marcantes “incluem uma atitude carnavali- zante; a paródia oswaldiana; o kitsch; uma crítica aos valores ético-morais e estéticos da cultura brasileira; uma apropriação da arte pop norte-americana, assim como das vanguardas brasileiras; e traços da cultura marginal e underground.” (SANTOS, 2012, p. 60), Antunes transporta para seu tempo, sua poética, suas palavras, o que fora abordado em outro momento. Na sequência, os qua- tro versos que fecham o poema apresentam silêncios a serem lidos, como o branco da página que interage com as letras/palavras que a preenchem, meio como mensagem, árvore sem sementes, o vidro sem nada na frente contra a água: aquário em que água e peixe têm o mesmo valor.

abre-te, cérebro!

Chegando ao terceiro livro de Antunes, “As coisas”, cuja primeira edição data de 1992, une-se a estética concretista, como vimos anteriormente, com o uso do espaço gráfico, do espaço em branco, e acrescenta-se o uso, como recurso, do posicionamento das linhas tipográficas, a já comentada apro- priação da arte pop norte-americana, pois a “produção cultural da Tropicália valorizava elementos populares e marginais da cultura brasileira e a valorização intensa pela produ- ção estrangeira, especialmente a produção e disseminação dos meios de comunicação de massa.” (SANTOS, 2012, pp. 64–65).

Nos textos presentes naquele livro, existe uma proposital variação tipológica a fim de preenchimento da página em que o poema está inserido. Os menores textos são apre- sentados em letras maiores, assim ocupando todo o espaço da página; os maiores, numa ordem inversa, são apresentados em fonte menor. Destaca-se que todos os 42 poemas possuem fluência (de leitura) prosaica e

estrutura estética que reproduzem versos,

gerando uma interseção entre prosa e poesia, “uma estruturação ótico-sonora irreversível

e funcional e, por assim dizer, geradora da

ideia, criando uma entidade todo-dinâmica, ‘verbivocovisual’ – é o termo de Joyce – de

palavras dúcteis

Outra característica marcante desse com-

pêndio: cada poema é precedido por uma ilustração de Rosa Moreau Antunes, filha de Arnaldo, as quais – 42, como os poemas

–, funcionam como seus títulos, aos quais

se tem acesso somente através do índice do livro. Antunes compõe seus textos a partir das ilustrações de sua filha, numa vinculação nítida e direta entre imagem e poesia.

O primeiro poema, intitulado Abertura

(Figura 3), consiste em uma narrativa curta, porém, carregada de referências ao universo pop, cinema e literatura universal. Quan- to à sua disposição na página, conforme apontado anteriormente, o texto transborda ao ocupar todo o espaço branco, inclusi- ve predominando sua forma em prosa aos termos de separação silábica em palavras que não cabem numa linha e se quebram a outra. Há um empréstimo/roubo, já que dos nove versos que compõem o poema, os oito primeiros são uma interseção com o conto Ali Babá e os quarenta ladrões presente no livro As mil e uma noites. O último verso

– Abre-te, cérebro! – remete à célebre frase/

password “Abre-te, sésamo!”, usada pelo líder dos ladrões para acessarem a caverna onde escondiam seus tesouros. No poema, funcio- na em ausência no comparativo das palavras sésamo e cérebro. O Desenho de Rosa Mo- reau Antunes apresenta um homenzinho de olhos arregalados, olhando para o alto, como que representando o susto de Ali Babá ao ver a rocha que separava os ladrões de seus tesouros se mover após a ordem de seu líder.

(SANTOS, 2012, p. 51).

Fig. 3: Poema Abertura (ANTUNES, 1998, p. 10) Ao contrário da pedra drummondiana presente em

Fig. 3: Poema Abertura (ANTUNES, 1998, p. 10)

Ao contrário da pedra drummondiana presente em “No meio do caminho”, as pe-

dras que formam as portas que separam Ali Babá do interior da caverna são um convite

a um tesouro sem tamanho, ao passo que,

a pedra do poeta itabirano trava a leitura

propositalmente, impedindo que o leitor avance no caminho/poema. Abre-te, cérebro! também funciona como um convite, porém, com uma advertência que leio da seguinte forma: “Caro leitor, agora que pronunciadas essas palavras encantadas, tire seu cérebro do piloto automático e entregue-se a uma leitu- ra potente!” A chave ao “tesouro” é entregue logo de abertura, a anunciar as possibilida- des de uma leitura participativa, à mercê das vontades de seus leitores.

tudos

Para finalizar essa breve análise de algu- mas produções do artista multimidiático Arnaldo Antunes e seus entrecruzamentos, parte-se do terceiro livro – As coisas –, cujo título por si só já nos dá a dimensão que pretendíamos explicitar: coisas nascidas de palavras. Traçando um paralelo entre esse livro e o apresentado no item 2 deste texto, toma-se como exemplo o poema intitulado tudo (Figura 4), referência direta ao título Tudos, o qual sintetiza bem a poética de An- tunes e o objeto proposto, e desejado, como central deste trabalho de pesquisa: a palavra em constante mutação