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RUI BARBOSA (1849­1923)

Machado de Assis – o adeus da Academia 1

(1849­1923) Machado de Assis – o adeus da Academia 1 Enterro de Machado de Assis (1908)

Enterro de Machado de Assis (1908)

Designou­me a Academia Brasileira de Letras para vir trazer ao amigo que de n ó s aqui se despede, para lhe vir trazer, nas suas pr ó prias palavras, num gemido da sua lira, para lhe vir trazer o nosso "cora çã o de companheiros".

Eu quase n ã o sei dizer mais, nem sei que mais se possa dizer, quando as m ã os que se apertavam no derradeiro encontro, se separam desta para a outra parte da eternidade. Nunca ergui a voz sobre um tú mulo, parecendo­me sempre que o sil ê ncio era a linguagem de nos entendermos com o mist é rio dos mortos. S ó o irresist í vel de uma voca çã o como a dos que me chamaram para órg ão desses adeuses me abriria a boca ao p é deste jazigo, em torno do qual, ao movimento das emo çõ es reprimidas se sobrep õ e o murm ú rio do indiz í vel, a sensa çã o de uma exist ência cuja corrente se ouvisse cair de uma em outra bacia, no insond á vel do tempo, onde se formam do veio das á guas sem manchas, as rochas de cristal exploradas pela posteridade.

Do que ela se reserva em surpresas, em maravilhas de transpar ê ncias e sonoridade e beleza na obra de Machado de Assis, di­lo­

1 Discurso de Rui Barbosa pronunciado na Academia Brasileira, junto do ata ú de de Machado de Assis, aos 29 de setembro de 1908, minutos antes de partir o f é retro para o cemit é rio de S. Jo ã o Batista. In: Obras Completas de Rui Barbosa, Discursos Parlamentares. Volume XXXV (1908), Tomo 1.

ã o outros, h ã o de dizer os seus confrades, j á o est á dizendo a imprensa, e

de esperar é que o diga, dias sem conta, derredor do seu nome, da l á pide que vai tombar sobre o seu corpo, mas abrir a porta ao ingresso da sua imagem na sagra ção dos incontestados, a admiraçã o, a reminisc ê ncia, a

m ágoa sem cura dos que lhe sobrevivem. Eu, de mim, por é m, n ã o quisera falar sen ã o do seu coração e de sua alma.

Daqui, deste abismar­se de ilus õ es e esperan ç as que so ç obram ao cerrar de cada sepulcro, deixemos passar a gl ó ria na sua resplandescê ncia, na sua fascina çã o, na impetuosidade de seu v ôo. Muito ressumbra sempre da nossa debilidade, na altivez do seu surto e na confian ç a das suas asas. As arrancadas mais altas do g ê nio mal se libram nos longes da nossa atmosfera, de todas as partes envolvida e distanciada pelo infinito. Para se n ã o perder no incomensur á vel deste, para avizinhar a terra do firmamento, n ão h á nada como a bondade. Quando ela, como aqui, se debru ç a, fora de uma campa ainda aberta, j á se n ã o cuida que lhe esteja à beira, de guarda, o mais malquisto dos numes, no sentimento grego, e os bra ç os de si mesmos se levantam, se estendem, se abrem para tomar entre si a vis ã o querida que se aparta.

N ã o é o clá ssico da l í ngua; n ão é o mestre da frase; n ão é o á rbitro

das letras; n ão é o filó sofo do romance; n ã o é o m ágico do conto; n ã o é o joalheiro do verso, o exemplar sem rival entre os contempor â neos da elegâ ncia e da gra ç a, do aticismo e da singeleza no conceber, e no dizer; é

o que soube viver intensamente da arte, sem deixar de ser bom. Nascido

com uma dessas predestina çõ es sem rem é dio ao sofrimento, a amargura

do seu quinh ã o nas expia ções da nossa heran ç a o n ã o mergulhou no pessimismo dos sombrios, dos mordazes, dos invejosos, dos revoltados. A

dor lhe aflorava ligeiramente aos l á bios, lhe roç ava de leve a pena, lhe ressumava sem azedume das obras, num ceticismo entremeio de timidez

e desconfian ç a, de indulg ência e receio, com os seus toques de mal í cia a sorrirem, de quando em quando, sem maldade, por entre as d ú vidas e tristezas do artista. A ironia mesma se desponta, se embebe de suavidade

no í ntimo desse temperamento, cuja compleiçã o, sem desigualdades, sem espinhos, sem asperezas, refrat á ria aos antagonismos e aos conflitos, dir­ se­ia emersa das m ã os da pr ó pria Harmonia, tal qual essas cria çõ es da

H é lade, que se lavraram para a imortalidade num m á rmore cujas linhas

parecem relevos do ambiente e proje çõ es do c é u no meio do cen á rio que as circunda.

Deste lado moral de sua entidade, quem me dera saber exprimir, neste momento, o que eu desejaria. Das riquezas da sua inspiraçã o na

l í rica, da sua mestria no estilo, da sua sagacidade na psicologia, do seu

mimo na inven ção, da sua bonomia no humorismo, do seu nacionalismo na originalidade, da sua lhaneza, tato e gosto liter á rio, dar ã o testemunho perpetuamente, os seus escritos, galeria de obras­primas, que n ã o atesta menos da nossa cultura, da independê ncia, da vitalidade e das energias civilizadoras da nossa ra ç a do que uma exposiçã o inteira de tesouros do solo e produtos mecâ nicos do trabalho. Mas, nesta hora de entrada ao ignoto, a este contato quase direto, quase sens í vel com a inc ó gnita do problema supremo, renovado com interroga çõ es de nossa ansiedade cada vez que um de n ó s desaparece na torrente de gera çõ es, n ã o é a ocasiã o dos c â nticos de entusiasmo, dos hinos de vit ó ria nas porfias do talento. A este n ã o faltar ã o comemora çõ es, cujo c í rculo se alargar á com os anos, à medida que o rastro de luz penetrar, pelo futuro al é m, cada vez mais longe ao seu foco.

O que se apagaria talvez se o n ã o colhessemos logo na mem ó ria dos presentes, dos que lhe cultivaram o afeto, dos que lhe seguiram os dias, dos que lhe escutaram o peito, dos que lhe fecharam os olhos, é o sopro de sua vida moral. Quando ele se lhe exalou pela ú ltima vez, os amigos que lho receberam com o derradeiro an é lito, contra í ram a obriga çã o de o reter, como se reteria na m á xima intensidade de aspiraçõ es dos nosso pulm õ es o aroma de uma flor cuja esp é cie se extinguisse, para o dar a sentir aos sobreviventes, e dele impregnar a tradiçã o, que n ã o perece.

Eu nã o fui dos que o respiraram de perto. Mas, homem do meu tempo, nã o sou estranho à s influ ê ncias do mal e do bem, que lhe perpassam no ar. Numa é poca de lassid ã o e viol ê ncia, de hostilidade e fraqueza, de agressã o e anarquia nas coisas e nas id é ias, a sociedade necessita justamente, por se recobrar, de mansid ã o e energia, de resist ência e conciliação. S ã o as virtudes da vontade e as do cora çã o as que salvam nesses transes. Ora, dessas tend ê ncias que atraem para a estabilidade, a pacifica ção e a disciplina, sobram exemplos no tipo desta vida, mal extinta e ainda quente.

Modelo foi de pureza e corre çã o, temperanç a e do ç ura; na fam í lia, que a unidade e devo ção do seu amor converteu em santu á rio; na carreira p ú blica, onde se extremou pela fidelidade e pela honra; no

sentimento da l í ngua p átria, em que prosava como Luí s de Sousa, e cantava como Lu í s de Cam õ es; na conviv ê ncia dos seus colegas, dos seus amigos, em que nunca deslisou da mod éstia, do recato, da toler â ncia, da gentileza. Era sua alma uma vaso de amenidade e melancolia. Mas a miss ã o da sua exist ê ncia, repartida entre o ideal e a rotina, n ã o se lhe cumpriu sem rudeza e sem fel. Contudo, o mesmo c álice da morte, carregado de amargura, lhe n ão alterou a brandura da t êmpera e a serenidade da atitude.

Poder í amos gravar­lhe aqui, na laje da sepultura, aquilo de um grande livro crist ã o: "Escreve, l ê , canta, suspira, ora, sofre os contratempos virilmente", se eu n ão temesse claudicar, aventurando que as suas atribula ções conheceram o lenitivo da prece. O instinto, n ã o obstante, no­lo adivinha nas trevas do seu naufr á gio, quando, na orfandade do lar despeda ç ado, cessou de encontrar provid ê ncia das suas alegrias e das suas penas, entre as car í cias da que tinha sido a meeira da sua lida e do seu pensamento.

Mestre e companheiro, disse eu que nos í amos despedir. Mas disse mal. A morte n ã o extingue: transforma; n ão aniquila: renova; n ã o divorcia: aproxima. Um dia supuseste "morta e separada" a consorte de teus sonhos e de tuas agonias, que te soubera "p ô r um mundo inteiro no recanto" do teu ninho; e, todavia, nunca ela te esteve mais presente, no

í ntimo de ti mesmo e na express ã o do teu canto, no fundo do teu ser e na

face de tuas a ções. Esses quatorze versos inimit á veis, em que o enlevo dos teus discí pulos resume o valor de toda uma literatura, eram a alian ç a de ouro do teu segundo noivado, um anel de outras n úpcias, para a vida nova do teu renascimento e da tua glorifica çã o, com a s ó cia sem nó doa dos teus anos de mocidade e madureza, da floresc ê ncia e frutifica çã o de tua alma. Para os eleitos do mundo das id é ias a mis é ria est á na decadê ncia e n ã o na morte. A nobreza de uma nos preserva das ru ínas da outra. Quando eles atravessam essa passagem do invis í vel, ent ã o é que entramos a sentir o com êç o do seu reino, o reino dos mortos sobre os vivos.

Ainda quando a vida mais nã o fosse que a urna da saudade, sacr á rio da mem ó ria dos bons, isso bastava para a reputarmos um benef í cio celeste, e cobrirmos de reconhecimento a generosidade que no­ la doou. Quando ela nos prodigaliza d á divas como a de teu esp í rito e a de tua poesia, n ã o é que lhe deveremos duvidar da grandeza, a que te

acercaste primeiro do que n ó s, mestre e companheiro. Ao chegar da nossa hora, em vindo a de te seguirmos um a um no caminho de todos, levando­te a seguran ç a da justi ça da posteridade, teremos o consolo de haver cultivado, nas verdadeiras belezas da tua obra, na obra dos teus livros e da tua vida, sua idealidade, sua sensibilidade, sua castidade, sua humanidade, um argumento mais da exist ê ncia e da intimidade dessa origem de todas as gra ç as à onipot ê ncia de quem devemos a cria çã o do universo e a tua, companheiro e mestre, sobre cuja transfigura çã o na eternidade e na gl ó ria caiam as suas ben çã os, com as da P á tria, que te reclina ao seu seio.