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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabal no assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacao.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabal no, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
2 SUMARIO

(4
111 O Tempo Oportuno
O
A RenovacSo Carismática: Que é?
iu Silenciar a Verdade para Preservar a Paz?
a "Paraíso Terrestre: Saudade ou Esperanca?"
-- Pecado Original: Como Entender?
V)

S
Ul
_J
CQ
O
oc
a.

ANO XXVII FEVEREIRO - 1986 285


PERGUNTE E RESPONDEREMOS FEVEREIRO-1986
PublicBCüo mental N9 285

Diretor-Rssponsável:
SUMARIO
Estévao Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia
publicada neste periódico
Mais urna vez:
Diretor-Administrador
ARENOVACÁOCARISMÁTICA:QUEé .. 2
0. Hildebrando P. Martins OSB

Nao seria melhor...


Administracáb e distribuicáb:
SILENCIAR A VERDADE PARA
Edicoes Lumen Christi
Dom Gerardo, 40 - 5o andar. S/501 PRESERVAR A PAZ? 11
Tel: (021) 291-7122
Caixa postal 2666
20001 - Rio de Janeiro - RJ Que houve? Que nao houve?

"PARAÍSO TERRESTRE: SAUDADE

OU ESPERANCA?" 18
Assinatura de 1986: Cr$ 100.000

Para pagamento da assinatura de Freqüente hesitacao:


1986, queira depositar a importan
PECADO ORIGINAL: COMO ENTENDER? 31
cia no Banco do Brasil para crédito
na Conta Córrante n? 0031 304-1
em nome do Mosteiro de Sao Bento Mais um documento da Santa Sé:
do Rio de Janeiro, pagável na Agen
O RECURSO AO EXORCISMO ! 43
cia da Praca Mauá (n? 0435) ou en
viar VALE POSTAL pagável na LIVROS EM ESTANTE 46
Agencia Central dos Correios do
Rio de Janeiro.

NO PRÓXIMO NÚMERO
RENOVÉ QUANTO ANTES
286 - Marco - 1986
A SUA ASSINATURA
. "Fidel o a ReligiSo. Conversas com Freí
Betto" — "Cuidado com o» Incubot". — "Filoso
fía do Relacionamento entre Homem e Mulher"
COMUNIQUE-NOS QUALQUER (D. Hildebrandl. — Oireitos do Homem e Digni-
MUDANCADE ENDERECO dade Humana. — O Direito ao Foro Intimo.

Composicáb e Impressao: COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA


"Marques Saraiva"
Santos Rodrigues, 240
Rio de Janeiro
O Tempo Oportuno
Aos 12 de fevereiro tem inicio o tempo da Quaresma, que irá até
o domingo de Páscoa (30/03) em 1986. É este o perfodo mais santo do ano
ou, como dizem os mestres de espiritualidade, o período-padrao da vida cris
ta. Com efeito; esta consiste em viver o Batismo e a Eucaristía, ou seja, em
participar da morte de Cristo para o pecado e da ressurreicao do Senhor para
urna vida nova: o cristáb se transiere diariamente da vetustez para a novida-
de ou do velho homem para o homem novo (cf. Ef 4,22-24; 2Cor 5,17) até
estar plenamente configurado a Cristo no dia em que seu corpo for ressusci-
tado a semelhanca do corpo de Jesús (cf. Fl 3,20s). Ora o tempo da Quares
ma poe ante os olhos do cristSo éste programa de modo muito enfático, con-
vidando-o a associar a sua cruz cotidiana á Cruz gloriosa do Senhor Jesús.

Quaresma assim entendida é "tempo oportuno" (2Cor 6,2), é grapa es


pecial de Deus, que espera dos seus fiéis urna conversSo cada vez maiscoe-
rente. Alias, as Escrituras se referem nao raro á paciencia de Deus, que con
cede aos homens novos e novos prazos para que realizem mais radicalmente
a sua conversSo tantas vezes adiada ou superficialmente praticada: "Despre-
zas a riqueza da sua bondade, paciencia e longanimidade, desconhecendo
que a benignidade de Deus te convida .a conversado?" (Rm 2,4; cf. 3,26; 2Pd
3,9). Considerando isto, o escritor cristSo Tertuliano (t 220 aproximada
mente)- dizia que Deus ó o Modelo da paciencia; é o Pai que mais sabe pa-
dentar em relacio a seus filhos.

0 chamado á convenio ressoa em 1986 num mundo agitado e insegu


ro.. Que remedio Ihe poderSo lavar os cristlos? - Sem dúvida, os recursos
de ciencia e técnica que possuem. .. Mas muito mais ainda: mais do que de
qualquer outra coisa, o mundo precisa de santidade e de santos (cf. 2Pd
3,11s); este é o grande tesouro da humanidade, tesouro que é remedio para
os males mais profundos. "Urna alma que se eleva, eleva o mundo inteiro",
dizia sabiamente Elizabeth Leseur. Dez justos teriam obtido a salvacao de
Sodoma e Gomorra, conforme Gn 18,22-33. Ora Deus também hoje procura
"dez justos" no mundo, que ele quer salvar.

Os fiéis católicos nao podem deixar de perceber este apelo. .. Apelo


a que reflitam sobre a sua responsabilidade e assumam generosamente a sua
vocacao á santidade... Santidade que nao é outra coisa senSo a arte de saber
dizer um Sim pronto e magnánimo a todos os sinais da vontade de Deus. "Se
fizeres isto, serás salvo.;. e terás a alegria de, por graca de Cristo, salvar mui-
tosirmSos!"

E.a

49
«PERCUHTE E RESPONDEREMOS»
ANO XXVII - n?285 - Fevereiro de 1986

Mais urna vez:

A Renovado (arismática: que é?

Em símese: A Renovacáb Carismática Católica tem procurado voltar-


se para a acáo do Espirito Santo, que vem renovando diversas regio» da
térra mediante grupos de oracáo. Estes se dedicam ao louvorde Deus, á pe-
ticao, á leitura da Biblia, e tim reconduzido muitos fiéis ao ámago da pieda-
de católica. Os Papas nao se tém furtado a exprimir o seu apota ¿ inspiracffo
fundamental da Renovacao Carismética Católica e ao sadio exercfcio da
mesma.

* * *

Em PR 282/1985, pp. 372-384, publicamos um artigo sobre a Renova-


cSo Carismática Católica (RCC), que apontava desvíos existentes dentro do
Movimento. principalmente em países estrangeiros. No Brasil, há noticias fi
dedignas de que nao ocorrem tais fainas graves, mas, ao contrario, a RCC
tem produzido copiosos frutos, levando muitos fiéis a descobrir a vida de
oracáb, a leitura da Biblia e a uniao com Deus. Como em todo Movimento
humano, pode haver na RCC falhas, devidas especialmente a pessoas que dáo
mais valor ao extraordinario do que ao ordinario.

Visando, pois, a urna imagem positiva da RCC, transcrevemos aqui


parte (ou seja. as pp. 4-9) do folheto oficial do Movimento Carismático,
apresentado por D. Silvestre Scandian, Arcebispo de Vitoria (ES) e Assessor
da RCC designado pela Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil. O título
do folheto soa: "RenovacSó Carismática Católica: O QUE É?", edicá*o da
Comissao Nacional de Servico da Renovacao Carismática Católica Brasilia
DF.

SO
RENOVADO CAR1SMÁTICA

O QUE É A RENOVADO
CARISMÁTICA CATÓUCA

a) É um sopro do Espirito Santo que impele os cristSos a terem urna


experiencia pessoal e viva da presenca e da acao de Deus. É urna luz do Espi
rito Santo que os faz reconhecer que Jesús Cristo é o Senhor de suas vidas,
da Igreja e da Historia. É o Cristo crescendo neles, confirmando-lhes a Fé,
fotalecendo-os na Esperta, convertendo-Ihes os coracOes para o perdJo
completo e o amor de Caridade, tornándoos abertos aos dons e carismas
que Ele quiser dar-lhes para servirem aos irmaos.

b) A RCC caracteriza-se pela valorizaf5o da oracao individual e comu


nitaria, a partir da Vida e da Palavra de Deus, silientando-se a oracao de
louvoi ñas formas mais variadas.

c) A RCC leya a urna vida nova, a UM NOVO PENTECOSTÉS!

Sob a acao do Espirito Santo, as pessoas experimentam libertado, ale


gría, seguran9a, crescem no amor ao próximo, na vivencia comunitaria,
aprendem a discernir a vontade de Deus e a permanecer em comunhSo com
a Hierarquia.

d) A RCC realiza urna forma de evangelizado e de aprofundamento


doutrinal, através da medita99o e do estudo pessoal da Sagrada Escritura e
de outras leituras de orientac.ao católica, através do ensino dado ñas reuniOes
semanais, bem como em Seminarios de Vida do Espirito, Retiros e Cursos.

e) A RCC visa contribuir para a renovado espiritual da Igreja. Diríge


se, portanto, a Bispos, Sacerdotes, Religiosos e Leigos (sobretudo pratican-
tes e engajados), levando-os a alean?ar aquela renovacao interior, no Espiri
to, exigida pelo Concilio Vaticano II, de modo que os ñlhos de Deus, espe-
lhando-se em Cristo Jesús e guiados pelo Espirito Santifícador, possam cami-
nhar com seguran; a rumo á santidade, meta comum e definitiva de todos. A
isto se dispoem os servos da RCC e os membros mais conscientes.

O Embora nSo tenham como primeiro objetivo urna inten$3o missio-


nária, isto é, de conquistar pessoas nJo-cristás ou afastadas da Igreja, os Gru
pos de OracSo da RCC sao abertos a todos: SAO, PORTANTO, GRUPOS
DE FRONTEIRAS. Neles aparecem elementos nSo-engajados e mesmo nao-
praticantes, muitos dos quais ficam tocados pela Graca de Deus e se conver-

51
"PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

tem. Aparecem, também, curiosos e mesmo pessoas doentcs e desequlibra-


das, á procura de atenc,fo ou de cura, atraídos pela caridade do Grupo.

g) Os membros da RCC na*o devem constituir-se em estrutura de Igre


ja, mas engajar-se nessas estruturas (CEB's, Paróquias, Diocese), levando para
elas a luz nova e a forc,a recebidas para servir na Igreja e no mundo.

DONS E CARISMAS

A Igreja é essencialmente carismática e o Espirito Santo é a alma da


Igreja que impulsiona aqueles que nela estío inseridos, ácontinuafJo da obra
de Jesús na realizado do Reino do Pai no mundo. Porque para cada um sSo
distribuidos dons e servaos (Ef 4,11-13) e o Espirito Santo nos indica e nos
leva á ediñcacao pessoal e da comunidade, somos testemunhas da presen$a
do Reino através de um compromisso de amor para com Deus e para com o
mundo.

O Espirito Santo se dá aos homens para santifícá-los e derrama seus


dons, concedidos pela superabundancia da economía do Senhor para fazer a
Igreja crescer, para afirma-la e sustentá-la.

"Para exercerem tal apostolado, o Espirito Santo - que opera a santi-


ficagáo do povo de Deus através do ministerio e dos sacramentos - confere
aínda dons peculiares aos fiéis fcf. ICor 12,7), distribuindo-os a todos, um
por um, conforme quer (ICor 12,11J, de maneira que cada qué, segundo a
graca que receben, também a ponha a servico de outrem e sejam eles pró-
prios como bons dispensadores da graca multiforme de Deus (IPd 4,10), pa
ra a edificacao de todo o corpo na caridade fcf. Ef4, 16). Da aceitando des-
tes carismas, mesmo dos mas simples, nasce em favor de cada um dos fiéis o
direito e o dever de exercé-los para o bem dos homens e a edificacao da Igre
ja, dentro da Igreja e do mundo, na Iiberdade do Espirito Santo, que sopm
onde quer (Jo 3,8), eao mesmo tempo na comunhSo com osirmSosem Cristo,
sobretudo com seus pastores, a quem cabe julgar sobre a autentícidade e o
uso dos carismas dentro da ordem, nao por certo para extinguirem o Espiri
to, mas para provarem titdo e reterem o que é bom fcf. lTs 5,12.19. 21)"
(Apostolicam Actuositatem n. 3).

Em sua audiencia aos líderes reunidos em Roma para a Primeira Con-


feréncia Internacional, em 1975, o Papa Paulo VI disse:

52
RENOVApÁO CARISMÁHCA

"Sim, queridos filhos e fllhas, é desejo de Cristo que o mundo veja


vossas boas obras, a bondade de vossos atos, a prova de vossas vidas cristas e
que ¡/orifique o Pai que está nos céus (Mt 5,16). Isto é renovagá~o espiritual
de verdade e somente pode conseguirse mediante o Espirito Santo, fórisso
nao cessamos de exortar-vos veementemente a aspirar pelos metores dons
(ICor 12,31). Esse foi nosso pensamento ontem, quando dissemos na solé-
nidade de Pentecostés: sim, esta é urna data de alegría, mas tambán de reso-
¡ucdes e propósitos: abrir-nos ao Espirito Santo, eliminar tudo o que se opde
a agfio do Espirito e proclamar, na autenticidade crista de nossa vida diaria,
que Jesús é o Senhor' ".

Se JoSo XXIII abríu as janelas da Igreja ao sopro renovador do Espiri


to Santo, Paulo VI abriu todas as portas:

"Jesús Cristo, Salvador dos homens, difunde seu Espirito sobre todos,
sem excegSo de pessoas. Quem, ao evangelizar, excluí de seu amor anda que
seja urna única pessoa, nao possui o Espirito de Cristo. Por isso a acao apos
tólica tem de compreender a todos os homens, destinados a se tomarem fi
lhos de Deus".

"0 Espirito Santo unifica na cotnunhío e no ministerio e prové sua


Igreja com diversos dons hierárquicos e carismáticos através dos lempos,
vivificando, como se fosse sua alma, as instituicdes eclesiásticas" (AG 4). Por-
tanto, longe de serem um obstáculo para a evangelizado, a hierarquia e as
instituicoes sao instrumentos do Espirito e da graca.

Os cansinas nunca estiveram ausentes da Igreja. Paulo VI expressou


sua complacencia para com a renovacá~o espiritual que aparece nos meios e
lugares mais diversos e que leva á oracao de alegría, á uni3o íntima com
Deus, á fidelidade ao Senhor e a urna profunda comunhao de almas. Do mes-
mo modo procederam varias Conferencias Episcopais. Contudo esta renova
do exige dos pastores bom senso, orientacSo e discernimento, para que se
evitem exageras e desvíos perigosos (cf. LG 12; Puebla, nn. 205.206.207).

FRUTOS

Esses frutos, mencionados pelos Papas e lembrados em Puebla, n.


207, sSo, entre outros, os seguintes:

53
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 28S/1986

a) Busca de oracab individua) e comunitaria, sobretudo de ora?So es


pontánea de louvor, de alegría e agradecimento, usando-se expres-
sáo corporal e cánticos.

b) Amor á Palavra de Deus, que passa a ser meditada diariamente.

c) Disponibilidade á Vontade de Deus, uniio íntima com Ele e.fideli-


dade a Cristo Senhor.

d) Apoio mutuo da fé e vivencia crista, pelos testemunhos dos sinais


que Deus vai operando entre os membros do grupo - expressa, es
pecialmente, através da partüha dos sofrimentos e das alegrías.

e) Manifestado dos cansinas do Espirito, fazendo eco aos das comu


nidades dos tempos dos Apostólos.

0 Maior uniSo familiar.

g) Redescoberta do papel de María na Igreja.

h) Surgimento de vocacSes sacerdotais e religiosas.

i) Freqüéncia mais consciente aos Sacramentos.

Obs.: O que na RCC se denomina BATISMO NO ESPIRITO SANTO,


sabemos que nio é um Sacramento e, sim, uma experiencia viva e pessoal de
Deus - uma EFÜSÁO DO ESPIRITO -, que faz desabrochar a sementé re-
cebida no Batismo e nos permite perceber a profundidade do Seu Amor mi
sericordioso.

GRUPOS DE ORA^AO

Os grupos de oracSo sustentam uma vida espiritual dinámica para os cris-


tíos, individualmente e em comunidade.

As diversas atividades dos grupos de orac.3o favorecem um encontró pes


soal com o Senhor:

• a orac.3o, sob varias formas: louvor, acSo de gracas, orafOes contem


plativas, oracQes em línguas, peticSes de gracas e curas;

54
RENOVACÁO CARISMÁTICA

os cánticos, que sao formas de orafgo;


o silencio;
o exercício dos dons carismáticos;
as leituras da Biblia;
a instnifSo;
os testemunhos ou partilhas, que edifican) a comunidade.

As reuniSes de orajao se baseiam na fé na promessa de Jesús: "Onde


quer que duas ou mais pessoas se reunam em meu Nome, estarei no meio
délas" (Mt 18,20). A orac3o espontánea é simples e sincera. O louvor cele
bra a bondade e os atributos de nosso Deus, exprimindo nosso desejo de vi-
ver na sua Grac.a, no seu Amor e na sua Presenca. Há grande liberdade de ex-
pressao, pois o Espirito Santo move os coracSes para a oracao.

A reuniao de ora(á~o é um lugar de renovac.Sa espiritual. N5o substituí


a vida sacramental, mas leva a valorizá-la. Nao é terapia de grupo, nem deve
ser procurada com esta finalidade. Estimula a vida espiritual, a fé e todas as
formas pelas quais Deus vem a seu povo, transformando-o numa comunida
de de amor.

O grupo de oracSo tem um núcleo central, que discerne a mocSo do


Espirito e avalia cada reunido. Geralmente esse núcleo se reúne em horas di
ferentes para esse ministerio.

OS PAPAS E A RENOVACÁO

Erni Grottaferrata, perto de Roma, de 8 a 12 de outubro de 1973, teve


«íffj?-1 ^Srcss» de Líderes da Renova?ao Carismática. Dele participaram
120 dirigentes que procediam de 34 países. As palavras do Papa Paulo VI, na
audiencia aos líderes, foram as seguintes:

"Estamos sumamente interessados no que estáis fazendo. Ouvimosfa-


lar muito sobre o que acontece entre vos e nos regozijamos.

Alegramo-nos convosco, queridos amigos, pela renovacSo de vida espi


ritual que hoje em dia se mmifesta nalgreja, sob diferentes formas e em di
ferentes ambientes. Afeite renovacSo aparecem certas notas comuns:

- o gosto por urna oracffo profunda, pessoal e comunitaria;

- volta a contemplacao e a énfase colocada na Palavra de Deus;

- o desejo de entregarse totalmente a Cristo;

55
•TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

- urna grande disponibilidade as inspiragoes do Espirito Santo;

- leitura mms assidua da Escritura;

- ampia abnegagao fraterna;

- vontade de prestar colaborante aos servidores da Igrefa

Em nido isso podemos conhecer a obra misteriosa e discreta do Espi


rito que é a alma da Igrefa ".

Ainda sobre a Renovacáo, assim se expressou o Sumo Pontífice por


ocasiáo do III Congiesso Internacional:

"Para um mundo assim, cada vez mais secularizado, nada há mais neces-
sário do que o testemunho desta renovagao espiritual que o Espirito suscita
hoje ñas regides e ambientes mes diversos. As manifestagoes desta renovó-
gao sao variadas: comunháo profunda das almas, contato intimo comDeus
na fidelidade aos compromissos assumidos no Batismo, na oragSo com fre-
qüéncia comunitaria, onde cada um, exprimindo-se ¡ivremente, ojuda, sus
tenta e fomenta a oragSo dos outros, tudo fundamentado numa convicgáo
pessoal, derivada nao so da doutrina recebida pela fe, mas também de certa
experiencia vivida, a saber: que sem Deus o homem nada pode, e que com Ele,
pelo contrario, tudo é possivel. Dai essa necessidade de louvá-lo, de dar-lhe
gracas, celebrar as maravilhas que realiza por toda parte em tomo de nos e
em nos mesmos.

EntSo, como poderío essa renovagao espiritual deixar de ser urna soné
para a Igreja e para o mundo? E, neste caso, como nao adotar todos os
meios para que continué a sé-lo?"

O PAPA JOÁO PAULO II

Em 1979, o Papa Joao Paulo II recebeu em audiencia especial os mem


oras do Conselho Internacional da RCC. Disse o Sumo Pontífice, no final do
encontró, em que houve a projecSo de um documentarlo sobre a Renovado:

"Obrigado. Foi urna expressáo de fé. Sim; o cántico, as palavras e os


gestos. É. .. como dizé-lo? Posso dizer que é urna revolugao desta expressáo
vital Dizemos que afééassunto da inteligencia, e as vezes também do cora-
cao; mas esta dimensSo expressiva dafé estova ausente, EstadimensSo dafé
era reduzida, muito escassa. Agora podemos dizer que esse movimento está
em todas as partes, também em meu país. Mas é diferente".

56
RENOVACÁO CARISMÁTICA

Em novembro de 1980, foram estas as palavras que o Santo Padre diri-


giu aos carismáticos vindos de diversas regioes da Italia:

"Nesta manía tenho a alegría de encontrar-me com vossa assembléia,


na qual vejo jovens, adultos, andaos, hornera e mulheres, solidarios na pro-
fissao da mesma fé, animados pelo alentó de urna mema esperanga, estrei-
todos juntamente com os vínculos dessa caridade que se derramou em nos-
sos coragoes pela virtude do Espirito Santo, que nosfoi dado (Rm 5,5). Nos
sabemos que devemos a esta efitsáo do Espirito urna experiencia cada vez
mais profunda da presenga de Cristo, gragas a qual podemos crescer cada dia
no conhecimento amoroso do Pai. Portanto, justamente, vosso movimento
presta particular atengtto á agao misteriosa, mas real, que a Tercena Pessoa
da Santissima Trindade desenvolve na vida do cristao.

As palavras de Jesús no Evangelho sao explícitas: Eu pedirei ao Pm e


Ele vos dará outro Confortador, para estar convosco sempre, o Espirito da
Verdade, que o mundo nao pode receber, porque nao o vé nem o conhece.
Vos, porém, o conheceis, porque habita entre vos e em vos estará (Jo 14,16-
17)".

Por ocasiSo do IV Congresso Internacional, o Papa Jo5o Paulo II diri-


giu-se aos líderes reunidos em audiencia especial nos jardins do Vaticano.
Entre outras orienta?Oes, disse o Papa:

"O Papa Paulo descreveu o Movimento para a RenovagSo como urna


sorte para a Igreja e para o mundo; e os seis anos que se passaram desde
aquele Congresso, vieram confirmar a esperanga que animava o seu pensa-
mento. A Igreja viu os frutos de vosso zelo pela oragSo, num firme compro-
misso de santidade de vida e de amor á Palavra de Deus. Constatamos, com
especial alegría, a maneira pela qual os dirigentes da RenovagSo desenvolve-
ram cada vez mais urna ampia visáo eclesial, esforgando-se, ao mesmo tem-
po, para fazer desta visáo urna realidade crescente para quantos dependem
deles em sua diregSo. Vimos também os sinais de vossa generosidade na co-
munkagao dos dons recebidos de Deus com os desamparados deste mundo,
na justiga e na caridade, de maneira que todos podem descobrir a excelsa
dignidade que tém em Cristo. Oxalá esta obra de amor, comegada jó em vos,
seja levada felizmente a plenitudei (cf. 2Cor 8,6-11). A este propósito, re-
cordai sempre as palavras dirigidas por Paulo VI ao vosso congresso, no Ano
Santo: Nao há limites para o desafio do amor: os pobres, os necessitados, os
aflitos e os que sofrem no mundo e, ao vosso lado, todos vos dirigem seu cla
mor como intuios e irmas de Cristo, pedindo-vos a prava do vosso amor, pe-
dindo a Palavra de Deus, pedindo pko, pedindo vida f L'Owervatore Roma
no, edigao em ¡ingua espanhola, 25 de mmo de 1975 pg. 10)".

57
,10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

E, referindo-se ao papel dos dirigentes, disse o Sumo Pontífice:

"Sinto-me verdadeiramente feliz em ter esta oportunidade para fa-


lar-vos de coracao aberto, a vos que viestes de todo o mundo para participar
desta Conferencia estabelecida para assistir-vos no cumplimento de vossa ta-
refa como dirigentes da Renovacao Carismática. De modo especial, quero as-
sinalar a necessidade de enriquecer e tomar realidade essa visSo eclesial que
é too essencial para a Renovacao, nesta etapa de seu desenvolvimento''.

A RENOVApAO E MARÍA

A Renovacao vem reafirmar o importante papel de Mana na Igreja.


Em seu discurso aos líderes, em 7 de maio de 1981, o nosso Papa confirmou
a RenovacSo á María:

"Caros irmaos e irmas.

A Carta aos Gálatas nos diz que, ao chegar a pienitude dos tempos,
Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido soba Leí, pararemirod
que estavam sob a lei, para que recebéssemos a adocáo. E visto que sois/i-
Inos, enviou Deus aos nossos coracdes o Espirito de seu Filho, que grita:
Abba, Pai (Gl 4,4-6). A esta mulher, Marta, MSe de Deus e nossa, sempre
obediente ao impulso do Espirito Santo, é que desefo confiar, cheio de es-
peronea, vossa importante obra para a renovagOo da Igreja e na Igreja. No
amor de seu Filho, Nosso Senhor Jesús Cristo, dou-vos de bom grado minha
béncao apostólica".

Fazemos votos para que a RCC cumpra plenamente seu programa de


intensificar nos fiéis católicos a docilidade ao Espirito Santo e a perseveran-
ca na oracSo.

58
Nao seria melhor...

Silenciar a Verdade para Preservar a Paz?

Em síntese: O amor cristSo - muito apregoado em nossos dias - é


também o amor á verdade. Por isto, sempre qua a verdade (especialmente a
verdade da fé revelada por Deus) é ameacada ou deteriorada, o cristao tem o
direito - e até o dever - de a reafirmar. Esta atitude pode causar desagrado;
pode ser tida como fator de divisdes. Tais objecoes nSb devem impedir o
cristSo de proferir a verdade, desde que isto se faca necessário para conservar
a fidelidade a Deus e aos irmaos: "Deixar os homens na mentira, por desejo
de urna paz indolente e de urna harmonía sentimental, é o contrarío do
amor"(JosefSeiffert).
O S. Padre Joao Paulo II tem lembrado esta exigencia absoluta de fide
lidade á verdade, que ná*o permite a deterioracáo do patrimonio da fé, mas
que também nao precisa de ser agressiva; deve, antes, procurar associar-se ao
amor, conforme SI 84,11: "Amor e fidelidade se encontrarlo, justica e paz
se oscularSo".

* * *

Por ocasiao da re-afirmacáb das verdades de fé di reta ou indíretamente


contestadas em nossos dias, muitas pessoas alegam que tal re-afírmacao é
contraria á paz e á caridade; provoca divisSes e tem a índole de totalitarismo
ou despotismo odioso. Por isto nao se devería contradizer a quem negué ou
deteriore algum artigo de fé. Alias, o pluralismo hoja existente na sociedade
e tido como um valor muito caro exigiría que ninguém ¡mpugnasse opiníSes
contrarias ás suas; a liberdade de pensamento e de expressao, a que todos
tém direito, seria assim respeitada.
Tais alegacSes, candentes como sSo, mereceráo, da nossa parte, detida
atencao ñas páginas subseqüentes.

1. A Verdades a Paz

Pergunta-se: qual é o valor prioritario ou mesmo valor primeiro numa


sociedade - a Verdade?... a Paz?

59
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

A resposta nao é difícil. A verdade é a luz que ilumina a vontade e as


suas decisSes ou atitudes, permitindo-lhe escolher corretamente ou optar
pelo bem. t. pois, anterior a qualquer outro valor; é o primeiro bem da pes-
soa humana Esta deve tender a levar uma vida conforme á verdade. - Esta
assercao á particularmente significativa no plano da fé pois nesta está em ¡o-
90 a Verdade revelada por Deus, que é, por excelencia, a luz dos passos de
todo homem (cf. SI 118, 105). Para quem tem fé, é evidente a importancia
primordial das verdades da fé.

O Apostólo Sao Paulo, conseqüentemente, exorta: "Praticai a Verdade


em amor" (Ef 4,15). Há, pois, estreito liame entre verdade e amor - o que
se explica do seguinte modo: para que eu possa amar algo, devo avaliar ou
¡ulgar a sua bondade ou a sua legitimidade; ora tal juízo há de se apoiar na
verdade ou terá por referencial a verdade. Por isto também o bom uso da
liberdade ou da livre vontade nao é independente da verdade, mas há de ser
orientado por esta. Querer algo de falso é querer algo de mau; é querer algo
que escraviza ou torna o sujeito servo de suas paixfies, visto que "a verdade é
que nos. faz livres" (Jo 8,32). Por isto o amor associado á falsidade ou ao er
ro é falso amor. É o que Pascal quer dizer mediante o seu aforismo: "A prin- ,
cipal dentre as verdadescristSsé o amor da Verdade" (Pemamentos, n?823).

Estas premissas explicam o que un cristab possa entender por pluralis


mo doutrinário, liberdade de pensamento e de expressSb. Se a verdade é o
primeiro bem e a inverdade o primeiro mal, o pluralismo ou a tolerancia
nao poderá colocar no mesmo plano verdade e erro, mas deverá sempre dis
tinguir entre este e aqueta, embora verdade e erro convivam na mesma socie-
dade. O cristlo tem mesmo nao somante o direito, mas ocasionalmente tam
bém o dever, de apontar os erros; é isto um servico que ele pode ter que
prestar a seus irmSos. Tal denuncia nao implica nessessariamenté uso de vio
lencia nem oposícáb física, mas exige, da parte do cristab, a coragem do tes-
temunho (= martyrionemgrego).

Notemos, alias, que, quando o Concilio do Vaticano II proclamou a


Liberdade Religiosa (cf. Declarando Dignitatis Humanae), nao quis apregoar
a liberdade do homem diante da verdade ou diante de Deus e da religiio
(todo homem tem serios deveres de consciéncia perante tais valores); mas in-
tencionou afirmar apenas que nenhuma facgSo tem o direito de interferir na
consciéncia da pessoa humana, obrigando-a a professar ou nao professar de
terminada crenca religiosa; a op?áo feita pelo individuo diante de Deus e da
religiao há de ser livre e nao coagida — o que nao quer dizer que nao haja op-

60
SILENCIAR A VERDADE 13

(oes verídicas e opcSes falsas ou erróneas (estas hSo de ser dissipadas, se pos-
sfwel, mediante arrazoados e argumentos, mas nunca median» coacto).

É, pois, sem fundamento que se diz que, quando o cristSo proclama a


verdade (principalmente a verdade revelada por Oeus), está sendo totalitario
ou "dono da verdade"; ele está, sim, servindo a um valor que nao é dele, mas
é patrimonio de toda a humanidade; por conseguíate, todos os homens sao
beneficiados pelo testemunho coerente da verdade (especialmente das verda
des da fe), embora muitos nao o percebam e se mostrem hostis a tal teste
munho. A possibitidade de que a proclamacSb da verdade suscite antagonis
mo e divisSes é lamentável, sem dúvidá; vem a ser urna conseqüéncia doloro-
sa que o cristüo nao deseja, mas tolera, se ela é a inevitável resposta dos ir-
maos que nSo aceitam a verdade1.

Observa muito a propósito o Prof. Josef Seiffert, filósofo e Diretor da


"fnternational Academy of Philosophy" de Irving no Texas:

A Teología Moral aceita o principio da causa com duplo efeito:umbom,


diretamente intencionado, e outro mau, nao intencionado, mas apenas tole
rado. Eis como se formula este principio:

É lícito recorrer a urna causa com duplo efeito - um bom, outro mau
— desde que

1) o efeito bom nao decorra do efeito mau, mas, ao contrario, seja ob-
tído diretamente;

2) o efeito bom sej'a intencionado como tal; o efeito mau se/a apenas
admitido ou tolerado;

3) nSo ha/a outro meio de atingir o efeito bom a nao ser ocasionando
o efeito mau tolerado;

4) naja razSes proporciona/mente graves para recorrer a tal causa;

5) o efeito bom atingido compense devidamente o efeito mau ocasio


nado.

Ora a afirmacao da verdade é, nao raro, causa com duplo efeito:pode


provocar reacSes hostis ou divisdes, mas é lícita ou mesmo necessária, se se
observam as condicdes ácima indicadas.

61
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

"E portanto essencial anunciara verdade, principalmente quando este-


¡am em ¡ogo a vida eterna do homem e a glorificacSb de Deus ou quando se
trata do bem e do mal. Isto é um ato tanto de verdade quanto de amor pos-
tos a servico dos individuos e da comunidade fundada sobre a verdade. Dei-
xar os homens na mentira, por amor de urna paz meramente humana e indo
lente e de urna harmonía sentimental, tornase inadmiss/vei para a Igrej'a, pois
nao existe a hora da verdade e a hora da mentira, mas existe a justa verdade,
que dura para sempre e que pode ser anunciada e procurada em todos os
tempos" (ver artigo citado no final deste estudo).

Passamos a ¡lustrar quanto acaba de ser dito, citando testemunhos fa


mosos da literatura crista".

2. Testemunhos ponderáveis

1. Comecamos por transcrever bela passagem do Papa S. Gregorio


Magno (t 604), extraída do seu livro "Regra Pastoral":

"Se/a o pastor discreto no silencio, útil no falar, para nao dizer o que
deve calar, nem calar o que deve dizer. Pois. da mesma forma que urna pala-
vra inconsiderada arrasta ao erro, o silencio inoportuno deixa no erro aque
les a quem poderla instruir. Multas vezes pastores imprudentes, temendo
perder as boas gracas do homem, tém medo de falar abenamente; e, segundo
a palavra da Verdade, absolutamente nao guardam o rebanho com solicitude
de pastor, mas, por se esconderem no silencio, agem como mercenarios que
fogem do lobo.

0 Senhor, pelo Profeta, repreende estes taisdizendo: 'Caes mudos que


nao conseguem ladrar'. De novo queixa-se: 'NSo vos levantastes contra nem
opusestes um muro em defesa da casa de Israel, de modo a entrantes em /uta
no dia do Senhor". Levantarse contra é contradizer sem rebucos aos pode
rosos do mundo em defesa do rebanho. E entrar em luta no dia do Senhor
quer dizer: por amor é ¡ustica, resistir aos que lutam pelo erro" (Livm II. 4).

Como se vé, já no sáculo VI o problema da inseguranpa ou da omissao


dos pastores frente á verdade era vivo e serio, merecendo as sabias pondera-
coes do Pontífice S. Gregorio Magno.

2. O atual sucessor de tal Papa, S.S. Joao Paulo II, nao tem sido me
nos corajoso em seus pronunciamentos:

62
SILENCIAR A VERDADE 1¿

Tendo em vista diretamente a tarefa dos cristaos nesre mundo, dizia o


S. Padre aos 11/04/1985 no Congresso da Igreja da Italia realizado em Lo-
reto:

"A fidelidade é verdade é cóndilo imprescindfvef para que os cristaos


todos possam desenvolver a sua missSo profetice no mundo. A verdade é
medida da moralidade: opcdes e motivacoes nao podem dizer-se éticamente
boas e, por conseguinte, merecedoras de aprovacao se nao sao conformes
com o bem objetivo. A compreensao e o respeito para com aquele que erra,
exigem também clareza de avaliacao acerca do erro de que ele é vftima. O
respeito, de fato, pelas conviccóes dos outros nao implica a renuncia as
conviccoes próprias.

A consciéncia da verdade. isto é, o conhecimento de ser portador da


verdade que salva, é fator essencial do dinamismo missionário da inteira co-
munidade eciesial, como testemunha a experiencia feitapela Igreja desdeas
suas origens".

Referindo-se as possíveis tensSes que a proclamacSo da verdade pode


suscitar - ou tem suscitado - dentro da Igreja, dizia aínda o S. Padre:

"Existe um vínculo constitutivo entre unidade e verdade:a reconcilia-


cao auténtica nao pode ocorrer senao na verdade de Cristo, nao fora ou con
tra ola fcf. Reconciliatio et Paenitentia, 9). A verdade revelada, por outro
lado, é propriedade de Deus; a respeito déla a Igreja nSo exerce um dominio
arbitrario, mas é sobretudo serva e testemunha fiel: o Espirito de verdade é-
Ihe dado para a assisténcia nesta sua missSo decisiva, garantindo o carisma
da infalibilidade aos Pastores, mas dotando também o inteiro Povo de Deus
de um particular sentido da fé. É, ponanto, necessário que o sentido de
responsabilidade para com a verdade seja compartilhado por todos os fiéis,
em particular, por aqueles que. como os teólogos, tém urna específica fun-
cSo no aprofundamento da verdade revelada e no empenho por inserir os
seus conteúdos no presente contexto cultural; a eles de modo particular é
pedida urna estreita, fiel e respeitosa colaboracSo com os Pastores (cf. Re-
demptor hominis, 191".

3. Á guisa de complemento, citamos ainda um famoso autor.

Blaise Pascal (ti662), matemático e pensador francés,deixou em sua


coléelo de "Pensamentos" alguns dizeres que vim a propósito neste contex-

63
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

to. O estilo do autor é caloroso; serve, porém, para exprimir a verdade.


Transcrevemo-los a titulo de ilustracSb de quanto até aquí foi dito:

"Nao será evidente que, assim comoé um delito perturbar a paz onde rei
na a verdade, é também um delito permanecer em paz quando se destrói a
verdade? Há, portento, um tempo no qual a paz é justa, e outro tempo no
qual é injusta. Está escrito que existe um tempo de paz e um tempo de guer
ra (Ecl 3,8); é o interesse da verdade que os distingue um do outro. Mas
nao há tempo de verdade e tempo de erro; antes, está escrito que a verdade
de Deus permanece para sempre (S1116,2). E por isto Jesús Cristo, que disse
ter vindo trazer a paz (Jo 14¿7), diz também que veto trazer a guerra (Mt
10,34), mas nSo diz que veio trazer a verdade e a mentira. A verdade é, por-
tanto, a primeira regra e o último fím de todas as coisas" (n?822).

"Como a paz nos diversos países tem por objetivo tio somonte conser
var os bens dos povos em seguranca, assim a paz na Igreja tem por finalidade
tao somente conservar em seguranca a verdade, que é o bem e o tesouro on
de se encontra o coracSo da Igreja. Seria contra a finalidade da paz deixar
entrar um estranho num país para saquear a este, sem se Ihe fazer oposicSo,
por medo de perfumar a tranqüilidade; sim, a paz é justa e útil somente para
garantir a seguranca dos bens; ela se torna injusta e perniciosa quando os
prejudica; entao a guerra que os pode defender, se torna justa e necessária.
Assim na Igreja, quando a verdade é ofendida, quando a querem arran
car do coracSo dos fiéis para fazer reinar ai o erro, em tais circunstancias
permanecer em paz seria servir á Igreja ou atraicoá-fa? Seria defendé-la ou
causar-lhe a ruina? Nio será evidente que, como é deiituoso perturbar a paz
onde reina a verdade, é também um delito permanecer em paz quando se
destrói a verdade?" fPensamentos n?822).

Blaise Pascal propunha, a seu modo, as palavras do Senhor Jesús em


Mt 10.34s.

O caráter firme da verdade, que é incompatfvel com a mentira e a fal-


sidade, deve tornar o cristSo decidido e coeren te, sim, todavía sem agressivi-
dade hostil. É o que lembrava muito a propósito o S. Padre no mesmo dis
curso de Loreto:

"Ao mesmo tempo, a fím de que a verdade de Cristo possa ser com-
preendida no seu sentido auténtico e acolhida até ao fundo pelo homem, em
particular pelo homem contemporáneo, ela deve ser anunciada e vivida co-

64
SILENCIAR A VERDADE T7

mo verdade ligada ao amor, segundo apalavra do Salmo (84/85, 11): 'Amor


e fídelidade se encontrarlo, ¡ustica e paz se beíjarao'.

Enquanto na época moderna a afirmadlo da verdade, por conhecidas


razóes históricas, foi muitas vezes considerada como um obstáculo á convi
vencia pacifica entre os homens, quase como se esta pudesse ser fundada só
sobre bases relativistas, e enquanto as ideologías de fato dividem e óontra-
pSem os homens, a verdade de Cristo pede que seja realizada no amor, para
desse modo conduzir a fratemidade. Na sua esséncia profunda ela é, de fato,
manifestacáo do amor, e só no concreto testemunho do amor pode encon
trar a sua plena credibilídade. Por isso as comunidades cristas sSo chamadas
a ser lugares em que o amor de Deus para com os homens pode ser de algum
modo experimentado e quase tocado com a mao. A sede de autenticidade
que, precisamente por causa da presente cultura da suspeita, é particular
mente viva no coragao dos homens, torna incisiva a exigencia de semelhantes
comunidades: elas parecem ser a vía principal para reconduzir o nosso povo
á penenca plena á Igreja e á adesao integral á verdade da fé".

Possam estes dois valores conservar-se íntegros na vida dos fiéis cató
licos: a verdade e o amor! 0 amor na vida do cristao é algo de tao grande e
abrangente que ele é também — e, primeramente — o amor á verdade, amor
que entrega a própria vida, se necessário, para nao trair a verdade.

A propósito valemo-nos do artigo "La Venta non rispetta l'errore"


do Prof. Josef Seiffert, em "IISabato" 15/06/85,p. 21.

65
Que houve? Que nao houve?

"Paraíso Terrestre: Saudade


OU ESperailCa?" por Carlos Mester,

Em síntese: O livro de Carlos Mesters sobre o paraíso terrestre nega


que o episodio de Gn 2-3 tenha que ver com o passado da humanidade (nao
é "saudade"); apresenta a tese segundo a qual o autor sagrado, considerando
os males moráis que afligiam a sua sociedade israelita no sáculo X a. C, teria
indicado a causa desses males (urna inexplicável tendencia para o mal exis
tente em todo homem) e o remedio para superar tais males (a forca de Deus
que movería as potencialidades do homem). A descricSo do paraíso bíblico
seria urna forma de profecía: se o homem conseguir reagir contra os males
moráis que o acometem atualmente, realizará uht mundo de paz, de felicida-
de e de satisfacao para todos os seus anseios.

Ora tal ¡nterpretacao de Gn 2-3 nega ou deteriora conceitos funda


mentáis da mensagem crista, como o de justica original, ordem natural e or-
dem sobrenatural, pecado original dos primeiros pais, hereditariedade do es
tado de pecado, RedencSo efetuada por Cristo contraposto ao primeiro
Adao (introdutor do pecado e da morte; cf. Rm 5,12-17), graca santificante,
sacramento do Batismo, criterio da verdade teológica. Faz-se mister lembrar
que a temática do pecado original nao pode ser abordada apenas segundo
criterios de lingüística, arqueología, antropología. .., mas é assunto de fé,
sobre o qual o magisterio da Igreja se pronunciou repetidamente no ¿acorrer
dos sáculos; por conseguinte, nao se deveria prescindir de tais declaracSes
aoler o texto bíblico.

A auténtica explanacSo da teología referente ao pecado original nao


incorre nos problemas que C. Mesters aponta no inicio do seu livro; é har-
moniosa e digna de Deus e do homem, como se poderá depreender da leitura
do artigo seguinte deste fascículo.

Um dos pontos dif icéis da catequese e da pregacáo contemporánea é a


doutrina do pecado original. Esta, nao raro, vem a ser apresentada em ter-

66
"PARAÍSO TERRESTRE" 19

mos pálidos e genéricos, de tal modo que os aspectos típicos da mensagem


crista desaparecem. Entre outros exemplos, citamos a obra de Rey-Mermet:
"A Fé explicada aos Jovens e Adultos", vol. I, pp. 104-108 (ed. Paulinas
1979). A obra que mais clara e suscintamente resume as novas teorías, entre
nos, é a de Freí Carlos Mesters: "Paraíso Terrestre: Saudade ou Esperanca?"
(Ed. Vozes), da qual urna dezena de edicSes já foi publicada; o livro é da
fácil leitura, de modo que incute a sua mensagem a ampio círculo de leitores.

Ora a doutrina do pecado original é de importancia básica para a fé


cristi; ela oferece o fundo de cena sobre o qual se coloca a obra redentora
de Cristo, o segundo Adió, que repara a desgraca induzida pelo primeiro
Adao (cf. Rm 5,12-21). Notemos também que a doutrina do pecado original
nao pode ser estudada apenas mediante criterios lingüísticos, arqueológicos
ou filosóficos (estes nao a atingem), mas é assunto a respeito do qual a Igreja
se pronunciou repetidamente em nome da fé; é, pois, a fé, iluminada pelos
dados da Tradicao e do Magisterio da Igreja, que se deve debrucar sobre a te
mática do pecado original (levando em conta naturalmente as conclusoes das
ciencias humanas, que a exegese bíblica nao pode dispensar).

Em vista do peso de tal doutrina, examinaremos, a seguir, o livro de


Carlos Mesters,1 e Ihe proporemos aiguns comentarios; no artigo seguinte
deste fascículo será exposto o genuino pensamento da Igreja a respeito do
pecado original.

1. O conteúdo do livro

O livro compreende 162 pp., cujo conteúdo se acha resumido na Parte


V (Apéndice: Falando do pecado original), pp. 140— 157. Eis o que o autor
propSe após prolongados estudos da temática:

1.1. Crítica da interpretado tradicional

A leitura do texto de Gn 2,4a-3,24 suscita muitas interrogacSes ao


leitor moderno, a saber: que pensar da serpente que falava? Como Deus po
de fazer depender a desgraca de todos nos do pecado de um único casal? Se
rá que Ele nao foi injusto? Será que existem os restos do paraíso perdido?
Será que as cobras tinham outra maneira de andar antes do pecado de
Adió?...

1 Editora "Vozes". As páginas serio citadas segundo a edicio de 1971.

67
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

Diante destas e doutras dificuldades concebidas pelo estudioso con


temporáneo, Carlos Mesters passa a criticar a clássica maneira de ex por a
doutrina do pecado original, pois, segundo ele, é esta que gera tais indaga-
coes. A sua crítica compreende quatro intens:

1) A reflexáo dos cristSos "explica o dogma da universalidade do pecado


original, recorrendo ao conceito de transmissao hereditaria do mesmo" (p.
141). Assim se desvincula dos pecados pessoais o pecado original; este torna
se um rótulo, do qual a enanca recém-nascida nao tem responsabilidade; "o
pecado original ficou reduzido a um defeito de producSo, que passa de pai
para filho, sem que se possa interferir" (p. 141); "tornou-se urna pecasolta
na vida, com a qual nao sabemos bem o que fazer" (p. 142). Por isto as pes-
soas hoje perguntam: "Por que temos de sofrer hoje as conseqüéncias de
urna falta que nao cometemos, contra a qual nao podemos defender-nos e da
qual nao temos consciéncia nem lembranca?" (p. 142).

2) "Um homem e urna mulher, antes mesmo de terem gerado filhos, te-
riam cometido urna falta táo grave a ponto de comprometerem para sempre
o destino de toda a humanidade. . . Ora, conforme as indicacSes da cien
cia, parece totalmente imponderável que o homem primitivo tenha tido urna
consciéncia, urna liberdade, urna maturidade. . . tio evoluídas. . . como se-
riam exigidas para alguém cometer falta tao grave" (pp. 17$).

3) 0 autor sagrado nao podía saber, por via humana, o que aconteceu ñas
origens da humanidade, um milhao de anos ou mais antes que ele escrevesse.
Só o poderia conhecer por milagre, isto é, se Deus Iho revelasse. Todavía
"milagres nao devem ser admitidos quandb naja outra explicapio plausívet"
<p. 20).

4) "As decisSes da autoridade eclesiástica causam dificuldades hoje" (p.


21). Em 1909, a Pontificia Comissao Bíblica declarou históricos: o preceito
divino que testava a obediencia dos primeiros pais (Gn 2,17), a figura da ser-
pente que tentou Eva (Gn 3,1-4), a queda dos primeiros homens de um esta
do anterior de perfeicao, caracterizado pela justica, pela integridade e pela
imortalidade. - Hoje em dia, porém, conhecemos muitas narracSes da anti-
güidade que falam de felicidade originaria, de serpente, de imortalidade, de
árvore da vida; sabemos que sao mitos. Ora nao poderíamos dizer que tais
figuras sao mitológicas ou destituidas de historicidade tambómna Biblia? Na
verddde, "a Biblia nao se coloca no plano histérico-informativo como a ci
encia. Lemos o texto para nele encontrar ¡nformacóes, divinamente certas,

68
"PARAfSO TERRESTRE" 21_

sobre as coisas que aconleceram no inicio da historia da humanidade... Por


causa desta nossa posjclo, surgem as dificuldades" (p. 26).

Na base destas pondera?oes, Carlos Mesters rejeita o valor histórico de


Gn 2,4a-3,24 (o paraíso terrestre nao é "saudade", diz o autor), e parte para
urna interpretado do relato bíblico que Ihe parece mais aceitável ao homem
de hoje.

1.2. A tete de C. Mesters

O autor bíblico n3o estava preocupado com o passado, mas com o pre
sente do seu povo. Algo nao estava em ordem na sociedade de entSo, e
ameacava de caos o fruto daquela gente.

Os males da vida familiar e social nao podiam provirde Deus. O autor


sagrado, por isto, procura a sua causa nao no passado da humanidade, mas
no interior do homem; neste existe urna misteriosa tendencia a romper com
Deus, que se manifesta no limiar da idade adulta, quando o individuo tem
de assumir as suas responsabilidades di ante de Deus e diante dosdemais no-
mens. Tal misteriosa tendencia ao maLé que se chama "pecado original" (cf.
p. 144). Assim o autor bíblico nlo desvincula do pecado pessoal o pecado
original; este revela e aumenta o mal jáexistente no mundo e no homem. Por
conseguinte, o texto sagrado n3o pretende descrever como o mal entrou ou-
trora na historia dos homens; tal momento passado nao teria grande impor
tancia (o mal comecou porque tinha de comecar urna vez, já que o homem é
propenso á desordem moral). O hagiógrafo quis referir-se apenas ao fato de
que, em sua época, o mal se propagava entre os homens, gerando "um cur
to circuito entre Deus e os homens, que colocava o mundo no escuro" (cf.
p. 144). "Para ele, o primeiro homem e nos hoje estamos em condicoes
iguais: em todos nos existe um abismo misterioso e incompreensível de mal-
dade. De lá o mal irrompe na superficie e se manifesta nos pecados pessoais"
<p. 144).

Além de indicar a causa do mal existente na sociedade, o escritor sa


grado quer propor-lhe o remedio. O homem é incapaz, por suas próprias for-
cas, de consertar a historia, pois "o mal é anterior ao homem e o domina na
raiz; o mal é mais forte do que o homem; o homem já nasce envolvido por
ele" (p. 146). Por conseguinte, só com a forca de Deus o homem pode.tri
unfar sobre o mal; "tal forpa, porém, nao é algo que se acrescenta ao ho-

69
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

mem; nasce de dentro do homem e eleva a forca deste a urna potencialidade


maior" (p. 147).

É na hora da tentacao que se manifesta a misteriosa tendencia do ho


mem para o mal. Ao descrever a tentacáb e a queda de AdSo e Eva, o autor
bíblico nao narra utn acontecimento do passado com repercussCes no pre
sente, mas um evento que é de todos os tempos. Visto que o nome Ada*o em
hebraico significa homem, o Génesis descreve a tentacSo e a queda de todo
e qualquer homem. E, ao descrever o paraíso — jardim ameno e bem irrigado
-, o escritor sagrado nSo quer senSo apresentar-nos como será o mundo de-
pois que o homem, com a forca de Deus, tiver obtido a Vitoria sobre o peca
do; ele visa assim despertar a reacio contra o mal em seus leitores, pois esta
se faz urgente. "NSo se trata de urna reportagem do passado, quando na rea-
lidade se trata de urna profecía do futuro projetado no passado" (p. 109). O
homem, lutando com o auxilio de Deus, deverá chegar a harmonía simboli
zada pelo paraíso terrestre. Se o autor sagrado tivesse escrito em nossa épo
ca, teria recorrido aos termos da cultura contemporánea para descrever o
"paraíso" ou a harmonía resultante da Vitoria sobre o mal:

"O paraíso seria um país desenvolvido em todos os setores. NSo have-


ria ma'ts necessidade de salario, pois tudo seria de todos, todos participando
atíva e responsavelmente em tudo. Todos saberiam ler e escrever. NSo ftave-
ría doencas, nem endemias, nem morte prematura de crianzas. As semanas
de trabalho seriam de menos de 40 horas e todos os operarios protegidos e
assegurados contra acidentes, que ¡á nem mais seriam possfveis. O objetivo
da producao ¡i nao mais seria o lucro, mas sim o bem-estar individual e colé-
tivo de todos. Nao haveria exploracSo, nem dominio estrangeiro, nem guer
ra* nem violencia. NSo haveria assaltos, nem terrorismo, nem repressSo, nem
torturas. A seguranza individual e colativa estaría assegurada, de maneira a
nao haver mais necessidade de policía nem de exército. Nao haveria favela,
nem miseria, nem fome, nem confuto de geracdes. Todos teriam casa pró-
pría, as cidades teriam mas largas sem cruzamento, sem desastres, sem baru-
Iho, sem ar poluído. As familias viveriam em paz sem que houvesse infídeli-
dade ou traicSo e sem que o marido dominasse a mulher e os fílhos. O ho
mem seria senhor e dono da sua própria evolucSo. Deus seria o eixo da vida
humana, e sua presenca se manifestaría a todos em todas as coisas. Seria, en-
fim, a mais pura harmonía, totalmente diferente da situacSo que atualmente
vivemos" (p. 110).

Por conseguirle, na descripáo do paraíso terrestre nada há sobre os


primordios da humanidade. Situá-la no passado foi apenas um artificio que
o hagiógrafo utilizou para mostrar como os homens perdem tempo adiando

70
"PARAUSO TERRESTRE" 23

a luta a ser empreendida contra o mal. Ao lé-la, os leitores deveriam perce-


ber que a situacSo atual nao é a que Deus quer; sentiriam que colaborar na
manutencáo de tal situacao é pecado contra Deus, pois contraria o projeto
que Ele tem para os homens. Verdade é que a Biblia nao oferece receita con
creta para resolvermos os problemas moráis que afetam a humanidade. "Ela
nos faz saber que existe em nos urna tendencia misteriosa e inexplicável para
o mal, que está sendo despertada e ativada pelo fato de irmos atrás da ser-
pente.. . A nos hoje compete o trabalho de procurar saber quem faz hoje o
papel da serpente para que possamos enfrentá-la, esmagando a sua cabeca
pelo nosso calcanhar" (p. 111).

1.3. QuestSes complementares

A interpretacSo de Gn 2-3 assim apresentada sugere algumas pegun


tas, que o próprio C. Mesters considera:

1) "O homem foí criado torto mesmo? Como pedería nascer nele a
misteriosa tendencia para o mal? Que vem a ser esta tendencia?" (p. 148).

C. Mesters responde: o homem foi criado por Deus para um destino


que fica além dos seus horizontes cotjdianos. Foi feito para Deus; o mal co-
meca quando o homem, em vez de abrir-se para o Deus infinito, procura re-
duzir o infinito ao tamanho dos seus limites finitos; cria assim a ilusáb de
que ele é o seu próprio Deus (cf. p. 150). É esta a explicacSo do mal existen
te no mundo: "O homem nao traz em si a consciéncia de urna culpa qual-
quer cometida anteriormente. Nem traz consigo o pecado dos pais, como se
fosse seu pecado pessoal" (p. 150).

2) "Por que o homem revela essa falha quando chega á idade adulta?
O homem está envolvido pela culpa antes de chegar ao uso da razSo?" (p.
151).

Resposta de C. Mesters: - Trata-se de misteriosa solidariedade de to


dos nos no mal. Quantas limitacSes n3o sofremos porque outros pecaram e
ainda pecam?... Somos solidarios pelo simples fato de pertencermos á mes-
ma raca humana. .. Já nao temos consciéncia dessa nossa solidariedade real
no mal e na culpa, que hoje existe organizada e estruturada, envolvendo tu-
do e todos, como o ar que respiramos. E o ar se respira inconscientemente.
O poder do mal que oprime, infantiliza, massifica e esmaga, é tSo forte que
nao há poder humano capaz de enfrentá-lo a nao ser a forga que nasce no
homem a partir de Deus" (pp. 151-153).
71
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

A interpretadlo que assim é dada ao problema do mal, é comprovada


pelo poder de transformar a realidade que esta interpretacao traz em seu bo-
jo (cf. p. 152).

3) Por que batizar crianzas?

Resposta de C. Mesters: — O Batismo tira o pecado original. Uto quer


dizer: "capacita o homem para lutar vitoriosamente contra o mal nele mes-
mo e no mundo, até eliminar a raíz de onde tudo procede" (p. 154). O resul
tado final dessa vitória é a transformacáo do mundo em paraíso.

Com outras palavras: o Batismo funda a solidariedade de todos os ho-


mens no bem, em oposicao a solidariedade no mal. A iniciativa dessa solida
riedade positiva é de Oeus: "sob esse prisma, o adulto está em pé de ¡gualda-
de com a crianca" (p. 155).
Tal é a doutrina de Carlos Mesters no tocante ao paraíso terrestre e ao
pecado original. Apaga as "saudades do paraíso" ou a ¡magem de um pecado
ocorrido num passado de bonanca espiritual, a fim de nos chamar a atencao
para os males que atualmente afligem a humanidade e exigem uma réplica
do homem, intimando-o assim a construir o paraíso na térra.

Refutamos sobre tal concepcao.

2. Comentando...

A tese de Carlos Mesters é, á primeira vista, graciosa e atraente, pois


parece "desmitizar" o relato bíblico, apresentando temas muito concretos ao
leitor. Todavia ela afeta conceitos fundamentáis da mensagem bíblica e com
promete a nocáo mesma de Redencáb trazida por Cristo. Passamos a rever os
seus traeos principáis, cientes de que o assunto nao depende apenas de crite
rios literarios e antropológicos, mas é iluminado também pela fé, que se ma-
nifestou em sucessivas declaracSes da Igreja.

2.1. Historicidade do paraíso

É certo que o autor sagrado utilizou numerosas figuras literarias em


Gn 2-3: a do jardim ameno, irrigado por quatro ríos, a da árvore da ciencia
do bem e do mal, a da árvore da vida, a da serpente, a da fruta proibida
- Todavia nSo é lícito ao cristSo dizer que o "paraíso" descrito pela Biblia
nao significa uma realidade dos primordios da historia. Embora o autor sagra
do nao pudesse saber, como cronista, o que aconteceu naquela época remo-
tíssima, ele fo¡ iluminado por Deus para transmitir aos homens a RevelagSo

72
"PARAI'SO TERRESTRE" 25

Divina, ou seja, o plano salvífico de Deus (a Biblia é portadora da Revela-


páb). Ora este plano salvífico implica alguns tragos relativos á origem da hu-
manidade, a saber: o homem foi criado no estado de filiacSo divina e de jus-
tica original ou de harmonía com Deus, consigo e com as demais criaturas,
mas nSo perseverou nesse estado por soberba ou auto-suficiencia; em conse-
qüéncia, os descendentes dos primeiros homens, que assim pecaram, sao
marcados pela carencia dos dons que os primeiros pais receberam para guar-
dá-los e transmiti-los aos pósteros (estes dados serao expostos mais minucio
samente no artigo seguinte deste fascículo).

Cristo precisamente veio restituir ao homem a filiacio divina perdida


pelo primeiro pecado; este, portanto, nao foi urna culpa qualquer decorrente
da congénita limitacao humana, mas foi o NSo dito a especial convite de Deus
nos primordios da historia da humanidade. NSo se pode entender adequada-
mente a obra de Cristo se nao se leva em conta o caráter singular do primei
ro pecado. Com efeito; canta a Liturgia: "Ó feliz culpa, que nos mereceu
um tal e táb grande Redentor!" (Precónio da Vigilia de Páscoa).
Devemos mesmo observar que a mensagem crista mudaría profunda
mente, caso se Ihe tirasse o fundo de cena histórico de Gn 2-3: elevacáo do
homem á filiacáb divina, recusa da parte da criatura, perda dos dons origina
rios com as respectivas conseqüéncias para os descendentes, promessa de res-
tauracao contída em Gn 3,15... Este versículo é chamado "o Proto-Evange-
Iho" (o primeiro Evangelho), pois apresenta a figura do Salvador como sen
do o Filho da Mulher por excelencia, a nova Eva ou María SS.. É a partir da
promessa de Gn 3,15 que a historia da salvacáb tem o seu dinamismo, pois
é toda voltada para a vinda do Redentor anunciado logo após o primeiro pe
cado. Mais: a nova e definitiva alianca, travada por Deus com todos os ho
mens mediante o sangue de Cristo no Calvario, só se entende bem se corres
ponde a urna alianca antiga com todos os homens existentes antes de Cristo;
ora nem a alianca com Abraao, nem a alianca com Moisés e Israel, nem a
alianca com Davi. . . foram universais, abertas a todos os homens (eram ali-
ancas com urna estirpe); somente a alianca com Ad3o ou com a humanidade
ocorrida nos primordios da historia da salvagSo é o fundo de cena adequado
da Alianca com toda a humanidade selada pelo sangue de Cristo. Porconse-
guinte, quem cancela a prlmeira ou antiga al ¡anca no paraíso, tira á segunda
ou nova o seu significado pleno. Há um paralelismo entre a alianca do Cal
vario e a alianca do paraíso (al¡anca esta da qual fala explícitamente Eclo
17,10).

O magisterio da Igreja, em seus pronunciamentos, se baseou sempre


sobre a suposicao de um acontecimento real como fundamento de sua

73
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

doutrina antropológica. Retomando os ensinamentos dos Concilios de Car-


tago XV (418), de Orange II (529) e da TradicSo, o Concilio de Trento em
1546definiu:

"Adao, o primeiro homem, depois de transgredir o preceito de Deus


no paraíso, perdeu ¡mediatamente a santidade e a justíca em que havia sido
constituido; pela sua prevaricafio incorreu na ira e indignacib de Deus, e
por isto na morte que Deus ¡he havia ameacado e - com a morte - na escra-
vidao e no poder daquele que passou a ter o imperio da morte (Hb 2,14), a
saber, o demonio; Adió pela ofensa se tornou pior quanto ao corpo e quan-
to á alma" {Denzinger-Sch'ónmetzer, Bnquiffdio 1S11 f 788 ]).

Mais recentemente aínda, a Pontificia Comissab Bíblica, ao responder


a questdes levantadas pela crítica literaria recente, declarou em 1948 a res-
peitodeGn 1-11:

"Estas formas literarias nSo corresponden! a nenhuma das categorías


c/ássicas e nao podem ser/ufgadas segundo os géneros literarios greco-latinos
ou modernos.. . Proclamar de antemao que tais narrativas nSo sao historias
no sentido moderno da palavra induziria fácilmente a se acreditar que elas
nao o sao em nenhum sentido, quando na malidade relatam as verdades
fundamentáis pressupostas a dispensado da salvacSo, em linguagem simples
e figurada, adaptada as inteligencias de urna humanidade pouco desenvolvi
da, juntamente com a descricSo popular da origem do género humano e do
povo escolhido".

2.2. Violentado do texto

A interpreta?» de C. Mesters afirma que o autor sagrado quis apresen-


tar a tentacSo a que todo homem é sujeito, e o pecado que se I he segué fre-
qüentemente, inaugurando assim o pecado do mundo. A descricSo do paraf-
do seria a imagem do que acontecerá quando o homem superar o pecado.

Contudo acontece que o texto bíblico apresenta o paraíso antes do


pecado e nao depois. A nova interpretacab inverte a seqüéncia dos episodios
bíblicos para poder firmarse. Ora isto mostra como é artificial ou preconce
bida tal interpretacao.

74
"PARAfSO TERRESTRE" 27

2.3. Especificidade do prímeiro pecado

É de fé que o prímeiro pecado nSo foi simplesmente urna falta como


qualquer outra, mas foi a recusa de especiáis dons de Deus ao homem cha
mados "a justica original". O Concilio de Trentoem 1546 definiu na passa-
gem atrás citada:

"Adió. . ., ao transgredir o mandamento de Deus no paraíso, perdeu


¡mediatamente a santidade e a justifa em que havia sido estabelecido".

Este canon de Trento tomou-se a palavra clássica do Magisterio da


Igreja sobre tal questSo.

Quem nega a especificidade do prímeiro pecado, reduzindo-o ao mar


co inicial de uma serie de pecados e á representacSo de qualquer um deles,
nega também a diferenca entre ordem natural e ordem sobrenatural - dife-
renca que é de importancia capital no Cristianismo. A ordem natural seria a
reatidade do homem como ele é em si, com as virtualidades que a sua essln-
cia humana I he atribuí (inteligencia, vontade, afetividade, criatividade. . .).
Ora a fé ensina que, logo depois de criar o homem, Deus o quis levar a uma
dignidade que ultrapassa as exigencias-da natureza (daí. . . sobrenatural).
Sim; deu-lhe a filiacáo divina, que o habilita a ver Deus face-a-face (meta que
o homem por suas forcas naturais nao pode atingir). Todaviao homem per
deu essa dignidade sobrenatural pelo pecado, de modo que atualmente exis
te a natureza humana elevada e decaída, mas, na plenitude dos tempos, res-
gatada por Cristo para poder realizar de novo a sua vocacSo sobrenatural e
chegar á visio face-a-face de Deus. - Esta concepcao faz parte da mensagem
da fé cristi.

Notamos, alias, que ordem natural e ordem sobrenatural nao constitu-


em dualismo, e sim dualidade. Com efeito; dualismo é a opostcáb entre duas
realidades, ao passo que dualidade é a distinpio entre dois seres distintos que
se complementan! (como, por exemplo, homem e mulher). O dualismo, no
caso, nao seria cristao; mas a dualidade o é, sem dúvida alguma.

2.4. Pecado do mundo

Segundo o livro em foco, a solidariedade de todos no mal existiría co


mo se fosse o próprio ar que respiramos, por causa do ambiente de pecado
circundante. Ela se adquiriría até inconscientemente como no caso1 das cr¡-

75
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

ancas. Assim as expressSes "pecado original" e "pecado do mundo" seriam


sinónimas.

A propósito, deve-se reconhecer que, de fato, o pecado parece reinar


no mundo: violencia, desonestidade, mentira, perversSo... sao realidades de
todos os dias, que incitam os homens a desordem moral crescente. Contudo
este quadro deve ser completado: em Rm 5,12-21, S§o Paulo considera o
misterio do pecado que nos foi transmitido por AdSo; o pecado primordial
é apontado como causa primeira de toda a avaianche de pecados posteriores;
assim o ambiente pecaminoso no qual toda crianca nasce, é posterior ao pri-
meiro pecado e dele depende.

Assim deve-se distinguir da multidSo dos pecados atuais o pecado ori


ginal na crianca. Este nao é pecado no sentido próprio da palavra, pois náb é
na crianca um ato deliberado e voluntario, mas apenas a carencia dos dons
que os primeiros pais deveriam ter guardado para ser transmitidos aos pós
teros.

A misteriosa tendencia do homem para o mal a que tantas vezes se re


fere C. Mesters, tem na clássica doutrina a sua explicacao: a desordem moral
existente no homem provém da perda da justtca original ou dos dons que fa-
ziam a harmonia do homem com Deus, consigo e com as demais criaturas.

2.5.0 conceito de grapa divina

O livro em pauta adota também a nocá*o de graca, quando diz que a


forga de Deus é indispensável ao triunfo do homem sobre o mal; todavía a
graca nao seria algo que se acrescentaria ao homem; apenas Deus despertaría
e reforjaría a potencialidade do homem; esta existiría na criatura antes da
acao de Deus, como parte integrante da natureza humana. A acá*o divina se
ria necessária tSo somente para por a forca interior do homem em atividade
contra o mal.

Ora a doutrina da fé ensina que a graca santificante ou habitual é um


dom sobrenatural de Deus que nos faz comungar na vida das tres pessoas di
vinas (Pai, Filho e Espirito Santo), tornando-nos filhos no Filho, e templos
do Espirito Santo. Nao é, pois, urna qualidade derivada da natureza humana,
mas um dom que transcende as virtualidades da criatura e torna a pessoa
apta a viver vida superior á de um vívente racional. Além da grapa santifican-

76
"PARAÍSO TERRESTRE" 29

te ou habitual assim entendida, Deus confere ao homerr, a graca atual para


que possa produzir os atos condizentes com a dignidade de filho de Deus.

O Concilio de Trento em 1547 afirma a doutrina da grapa santificante


nos seguintes termos:

"O principio da própria justificacao dos adultos deve ser encontrado


na graca proveniente de Jesús Cristo..., sem que neles exista algum mérito"
(Denzinger-Sch'ónmetzer, 1525 [ 797 ];.

2.6. Os efeitos do Batismo

Segundo C. Mesters, o Batismo apenas habilitaría o homem a lutar


contra o pecado até vencé-lo. Além disto, a condicao da crianca perante o
Batismo seria igual á do adulto, pois ambos possuiriam urna culpa devida á
solidariedade no mal existente neste mundo.

- A propósito observemos:

a) Segundo a doutrina bíblica e tradicional, o Batismo tem por efeito


fazer o homem renascer da agua e do Espirito Santo (cf. Jo 3,5s). Isto quer
dizer: o Batismo apaga o pecado original, comunicando ao neófito o dom da
graca santificante ou da filiacao divina perdida pelos primeiros pais nos pri
mordios da historia1; assim o Batismo nos faz, antes do mais, filhos no Fi
lho. Em conseqüéncia, o cristao batizado terá a graca de Deus para resistir á
concupiscencia que nele habita, e as seducoes do pecado que o acometam.
Vé-se, pois, que os efeitos do Batismo consistem numa realidade nova depo
sitada na alma do cristSo, que está muito ácima da mera capacitacao para
nao ceder ao mal.

b) A condicao da crianca e a do adulto seriam a mesma se nao se dis-


tinguissem pecado original e pecados pessoais ou se estes fossem apenas a ex-
teriorizacao daquele. Já foi dito, porém, á p. 76 que o pecado original na
crianca nao é culpa propriamente dita (como também nao é apenas partid-
pacao na maldade geral da humanidade), mas é carencia dos dons que os pri
meiros pais perderam; ao contrario, o pecado atual dos adultos é culpa deli-

1 Nao comunica, porém, os dons preternatural de que fala o artigo seguinte:


ver p. 80

77
3o "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986 __

berada e voluntaria. Sendo assim, nao se podam equiparar criangas e adultos


frente ao Batismo; ñas criancas o Batismo apenas corrige a falta hereditaria,
dando a grapa santificante, ao passo que nos adultos o Batismo também per-
doa os pecados atuais ou pessoais.

2.7. A praxis como criterio da verdade

Segundo o livro em foco, o criterio da verdade a respeito do pecado


seria a transformapSo da realidade obtida a partir desse conceito. O que o
cristáo afirma ser verdadeiro, necesitaría de confirmacSb mediante os efei-
tos práticos de suas proposites.

Ora o primado da praxis como criterio da verdade é tese de ¡nspiracao


marxista. Sim; foi Karl Marx quem estabeleceu a prioridade da praxis trans
formadora sobre o loaos ou sobre a verdade. Trata-se de urna inversao de va
lores, segundo a qual ¡á nao há verdades perenes nem principios absolutos,
pois a verdade é continuamente reformulada em funcáo das novas realidades
que a cercam; sua autenticidade como verdade seria garantida apenas no mo
mento presente, pois no futuro poderla ser contestada se perdesse sua efica
cia. Segundo este modo de ver, nao há verdades definitivas.

Notemos, porém, que as verdades de fé tém sua origem em fonte


transcendental, ou seja, em Deus que se revela ao homem no Antigo Testa
mento e, de modo pleno, em Jesús Cristo. Este encarregou a Igreja de apre-
goar fielmente tal mensagem aos homens, assegurando-lhe assisténcia inde-
fectível até a consumacáo dos tempos (cf. Mt 28,18-20). Ademáis a praxis
que decorre da verdade revelada é exigente e eficaz, dotada, sem dúvida, de
forca transformadora; todavía a praxis fica sendo um valor derivado e relati
vo, que nao pode ser transformado em ponto de partida absoluto para o tra-
batho teológico.

Estas ponderales evidenciam que o livro em pauta de C. Mesters nSo


corresponde á doutrina da Igreja, embora seja muito agradável de leitura e
encontré grande aceitacSo. O tema abordado nao á filosófico, mas teológico;
ora a teología é "a fé que procura compreender";e a fé - sujeito da Teolo-
gia - é aquela que a Igreja professa oficialmente através do seu magisterio.

Quanto as questoes de criacio do mundo e do homem que Carlos Mes


ters também tanca aos leitores em seu livro, sao explanadas no Curso Bíblico
por Correspondencia, 4a. Etapa, Módulos I e II (pedidos á Secretaria do
Curso, Caixa postal 1362,20001 Rio - RJ).

78
Freqüente hesitacao:

Pecado Original: Como Entender?

Bm síntese: O pecado original originante é o NSo dito pelos primeiros


pais ao convite de Deus que chamava o género humano a um estado sobrena
tural ou de filiacáb divina. Tal estado se caracterizava pela posse da graca
santificante e dos dons conexos (conjunto que se chama, em linguagem teo
lógica, "justica original").

Tendo perdido a justica original, os primeiros pais só puderam gerar


prole carente de tais dons. É esta carencia, em conseqüéncia da qual o ser
humano é desarmonioso ou desregrado em seu intimo, que se chama "pe
cado original originado" na enanca; este náb é culpa propriameme dita, co
mo a dos primeiros pais, mas urna dissonáncia em relacffo ao modelo traca-
do por Deus. - A doutrina assim concebida toca pontos de fé definidos pela
Igreja e está isenta de qualquer objecSo por parte das ciencias naturais.

* * *

O tema "pecado original" já foi abordado em PR 120/1969 pp. 518-


529. Volta á baila neste fascículo, a fim de completar quanto foi dito sobre
o Hvro de C. Mesters: "Paraíso Terrestre: Saudade ou Esperanca?" Estudare-
mos o texto bíblico em seus aspectos lingüísticos e humanos, e procurare
mos ouvír o que a respeito tem dito a Igreja no decorrer dos séculos.

1. O Paraíso Terrestre

O primeiro ponto a encarar é o do paraíso terrestre (Gn 2,8-15). A Bi


blia nos fala de um jardim ameno, irrigado por quatro rios:o Fison.o Geon,
o Tigre e o Eufrates. Os estudiosos tem procurado localizar esse paraíso: ó
Tigre e o Eufrates sao rios da Mesopotámia muito conhecidos, mas o Geon e
o Fison nao podem mais ser identificados. Foram propostas, no decurso dos
tempos, cerca de oitenta sentencias para situar o paraíso terrestre. Hoje em
dia, porém, os estudiosos julgam que esse "jardim bíblico" ná"o significa um
lugar determinado, mas tá*o sonriente o estado de harmonía e felicidade a que
o homem foi elevado logo depois de criado.

79
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

Com efeito, o rio é, para os amigos, símbolo de vida e fecundidade;


quatro é. o número que designa a totalidade das coisas deste mundo; por
conseguinte, quatro ríos significam o bem-estar interior e exterior de que go-
zavam os primeiros pais logo após a criacSo.

Na verdade, quem le atentamente o texto bíblico, verifica que os pri


meiros homens gozavam de dons especiáis constitutivos da "justipa origi
nal"1; esta compreendia:

1) A filiapao divina ou a grapa santificante ou aelevapSo do homem á


condipáo do filho de Deus, chamado a participar da vida e da felicidade do
próprio Deus. É o que se deduz do texto sagrado, o qual indica claramente
que Adao vivia na amizade com o Criador. Este dom é dito "sobrenatural",
isto é, ultrapassa todas as exigencias de qualquer criatura.

2) Os dons preternatural, isto é, que ampliavam as perfeicoes da natu-


reza:

a) a ¡mortalidade, pois em Gn 2,7; 3,3s.19 a morte é apresentada co


mo conseqüéncia do pecado; ¡sto significa que, antes do pecado, o homem
nao morrena dolorosa e trágicamente como hoje mor re;

b) a impassibilidade ou ausencia de sofrimentos, pois estes decorrem


da sentenpa contraditória de Gn 3,16;

c) a integridade ou a imunidade de concuspiscéncia desregrada, visto


que os primeiros pais, antes do pecado, nao se envergonhavam da sua nudez
(cf. Gn 2,25; 3,7-11); os seus instintos ou afetos estavam em consonancia
com a razao e a fé; nao havia neles tendencias contraditórias;

d) a ciencia moral infusa, que os tornava aptos a assumir as su as res


ponsabilidades diante de Deus. Os dons da justipa original nao implicam que
os primeiros homens fossem formosos; terao sido dons meramente interio
res, compatíveis com a configurapao rude e primitiva que as ciencias naturáis
atribuem aos primeiros seres humanos.

lJustica, no caso, significa "santídade original".

80
PECADO ORIGINAL

A Biblia menciona no paraíso duas árvores: a da ciencia do bem e do


mal e a da vida (Gn 2,9). Hoje em dia, sabe-se pelo estudo das literaturas an
tigás que a árvore era um símbolo religioso assaz freqüente; é, pois, em sen
tido simbólico que entendemos as árvores de Gn 2. A árvore da ciencia do
bem e do mal designa um preceito ou um modelo de vida que daría ao ho
mem a ciencia ou a experiencia concreta do que sSo o bem e o mal. Era jus
to que Deus indicasse ao homem um modelo de vida, pois o homem, elevado
á filiacao divina, nao se deveria reger apenas por criterios racionáis ou natu-
rais, mas deveria seguir urna norma de vida incutida pelo próprio Deus. De-
vemos renunciar a pedir pormenores desse modelo de vida. — Quanto a árvo
re da vida, pode-se crer que ela dava ao homem o fruto da vida perpetua ou
o sacramento da imortalidade; o homem saberia assim que a imortalidade é
um dom de Deus.

2. O pecado dos primeiros país

1. Em Gn 3,1 entra em cena a serpente como "o mais astuto de todos


os animáis do campo". Tal serpente é imagem do demonio tentador. O livro
da Sabedoria (2,23) diz que "Deus nao fez a morte, mas esta entrou no mun
do por inveja do demonio"; e Jesús, aludindo a Gn 3, chamao Maligno "homi
cida desde o inicio, mentiroso e pai da mentira" (Jo 8,44). O demonio é
um anjo, que Deus criou bom, mas que se rebelou contra o Criador por so-
berba (vé-se que desde as suas primeiras páginas a Escritura supSe e afirma a
existencia dos anjos, especialmente a dos anjos maus). O autor sagrado quis
simbolizar o Maligno mediante a figura da serpente, porque esta ireqüente-
mente na S. Escritura representa o homem malvado e fraudulento (Gn
49,17; Is 59,5; Mq 7,17; Jó 20,14-16; S1140 [ 141 ], 4). Mais: é de observar
que a serpente era, para os cananeus (antigos habitantes da Térra de Israel),
urna divindade associada á fecundidade e á vida; ora, precisamente para con
denar essa figura, o autor talvez tenha apresentado o tentador sob forma de
serpente; assim a descricSb da serpente paradisiaca assumia, para o israelita,
o valor de admoestacSó contra a seducSo dos cultos idólatras que cercavam
averdadeira religiao.

Nao é necessário admitir que a mulher tenha visto urna serpente diante
de si, mas pode-se dizer que o diálogo entre o tentador e a mulher foi mera
mente interno, como acontece geralmehte ñas tentacoes ao pecado.

81
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

2. Em Gn 3,6s está dito que os primeiros pais comeram da fruta proi-


bida. Isto quer dizer que desobedecerán! a Deus ou nao aceitaram o modelo
de vida que o Senhor Ihes havia apontado.

A raiz desse pecado foi a soberba. Notemos que a serpente, aq tentar


os primeiros pais, disse explícitamente: "No dia em que comerdes... os vos-
sos olhos se abrirao e seréis como Deus, versados no bem e no mal" {Gn 3,5).
Precisamente o homem quis ser como Deus, capaz de definir o que é o bem
e o que é o mal, sem ter que pedir normas ao Senhor. A soberba é o pecado
do espirito, o único que os primeiros homens, portadores da harmonía origi
nal, podiam cometer. A soberba se exteriorizou em determinado ato. que
nao podemos identificar.

Há quem diga que o prímeiro pecado foi o de ordem sexual. Argumen-


tam afirmando que 1) ciencia ou conhecimento na Biblia significa por vezes
o relacionamento sexual (cf. Gn 4,1.17.25); 2) os primeiros paisestavam
ñus, e nao se envergonhavam um do outro (2,25), mas após o pecado se re-
cobriram (3,7); 3) a mulher foi punida pelas dores do parto (3,16). A propó
sito observamos: 1) quando se trata do relacionamento sexual, o texto sagra
do diz "conhecer sua esposa" (cf. Gn 4,1.17.25), ao passoqueem Gn 2,17;
3,5 se lé "conhecer o bem e o mal"; 2) o aparecimanto da concupiscencia
sexual e a vergonha se seguem á culpa e nao a precedem, como seria lógico
no caso de um pecado sexual; 3) a mulher, punida pelas dores do parto, foi
atingida em sua funcab especifica de m3e, como o homem, condenado a ga-
nhar o pSo ao suor da sua fronte (3,19), foi atingido em sua funcao típica de
trabalhador; nSo há, pois, necessidade de recorrer a pecado sexual para ex
plicar o tipo de punicao da mulher.

Vejamos agora

3. As conseqüéncias do pecado

Enumeremos as conseqüéncias do pecado: 1) em relacSb aos primeiros


pais e 2) em relac5o aos seus descendentes.

1. Em relacé» aos primeiros pais, o pecado acarretou a penda da justi-


pa original, ou seja, da filiacSb divina e dos dons que a acompanhavam. O
texto sagrado (Gn 3,7) diz que, após o pecado, "abriram-se-lhes os olhos e
reconheceram que estavam ñus". Essa nudez ó, antes do mais, o despojamen-
to interior ou a perda dos dons origináis; a concupiscencia ou a desordem

82
PECADO ORIGINAL 35

das paixoes se manifestou; por isto sentíram a necessidade de se vestir a fim


de encobrir a sua natureza desregrada. Nao há dúvida, a diversidade de ten
dencias dentro do homem é algo decorrente da própria natureza humana
(sensível e espiritual, ao mesmo tempo); todavia ela estaría superada se o
homem nao tivesse pecado em suas origens; ela hoje existe como conseqüén-
cia do pecado. Da mesma forma, os homens perderam o dom da imortalida-
de (ou o poder n3o morrer); sem dúvida, a morte é um fenómeno natural,
inerente á criatura, mas a sua realidade hoje é conseqüéncia do primeiro pe
cado, conforme a S. Escritura (cf. Rm 5,12.19). O mesmo se diga em relacio
ao sofrimento; é um dos precursores da morte.

O pecado acarretou também a desarmonia no mundo irracional que


cerca o homem; este já nao é o ponto de convergencia das criaturas inferio
res; ao contrario, estas muitas vezes prejudicam o homem e Ihe negam a sua
serventía; tendo-se rebelado contra Deus, o homem senté contra si a rebeliSo
das criaturas inferiores.

Depois da queda, o Senhor Deus quis interrogar os primeiros homens


(Gn 3,8-13). As respostas sao bem características de quem é culpado:o ho
mem, antes de confessar, acusa, com certa covardia, a esposa como causa da
sua desgraca (3,12); da mesma forma.-a mulher acusa a outrem, a serpente
(3,13). Ambos silenciam o verdadeiro motivo da sua desobediencia: a sober-
ba ou o desejo de serem iguais a Deus, arbitrando entre o bem e o mal ou de-
flnindo a sua própria regra de vida. Na verdade, o pecado acovarda o homem
e separa-o do seu semelhante e mesmo mais íntimo amigo.

Todavia o Senhor nao quis apenas condenar os pecadores. Ao mesmo


tempo, propós-lhes a esperanza da reconciliacSo que é chamada, no caso, "o
proto-evangelho" (ou o primeiro Evangelho). Ler Gn 3,14s. . . A sentenca
sobre a serpente nao recai sobre o animal irracional, mas sobre o tentador:
"rastejar e comer a poeira da térra" sao imagens que significam derrota (os
vencedores, na antiguidade, colocavam os adversarios derrotados no chalo,
debaixo de seus pés); o texto sagrado quer assim dizer que o demonio é um
lutador já vencido; poderá maltratar os fiéis de Deus no decorrer da historia,
mas pode estar certo de sua derrota final. Para corroborar esta afirmacao, o
Senhor promete colocar inimizade entre a serpente (o tentador) e a mulher,
entre a descendencia da serpente (os homens maus) e a descendencia da mu
lher (os homens bons) - o que significa: promete reconciliar a mulher e os
seus descendentes com Deus. A mulher, no contexto, só pode ser Eva; a sua
descendencia sao os homens bons, que nao seguem as sugestSes do tenta-

83
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

dor; todavia o papel da mulher e o de sua descendencia só se tomaram ple


nos e perfeitos em Maria e em seu Filho Jesús Cristo; por isto o proto-evan-
gelho alude indiretamente a Maria e a Jesús Cristo, prometendo a vitória do
Senhor Jesús sobre o Maligno através da Cruz e da Ressurreicao.

2. Em ralaclo aoi descendentes dos primeiros país, o pecado original


tornou-se algo de hereditario. Dizemos que todos os homens nascem com a
culpa original. Todavia é preciso entender que nao se trata de culpa pessoal
ou de pecado voluntario nos descendentes de Adao e Eva. Nestes o pecado
original consiste na ausencia dos dons origináis (grapa santificante, dons pre-
ternaturais), que os primeiros pais deviam ter guardado e transmitido, mas
nao puderam transmitir porque pecaram. A enanca que hoje nasce, devia nas-
cer com a graca santificante, mas isto nao acontece; ela nasce destoando do
exemplar ou do modelo que o Senhor Ihe tinha assinalado; essa dissonáncia
(que implica a concupiscencia desordenada e a morte) é que se chama, por
analogia, "pecado original" nos pequeninos.

Por que Deus quis que a culpa dos primeiros pais assim repercutisse nos
seus descendentes? Seria Deus vingativo? A crianca, que nao pediu a eventu-
alidade de nascer, muito menos pediu nascer com pecado!

Em resposta, diremos: toda crianca que vem ao mundo, nasce dentro


de um contexto social, geográfico, do qual é solidaria; assim há criancas que
nascem no Brasil, outras na China, outras em Biafra, outras na Europa; há
criancas que nascem no sáculo XX, outras nasceram no sáculo II a. C, ou
tras no sáculo X d.C. .. Cada urna traz a heranca da familia, do lugar e da
época em que nasce. Essa solidariedade é palpável, também no seguinte caso:
imaginemos um pa¡ de familia que numa noite perde todos os seus bens nu-
ma jogatina de cassino; os filhos desse homem nao tém culpa, mas hao de
carregar as conseqüencias (miseria, fome...) decorrentes do desatino de seu
pai. Ora a solidariedade mais fundamental que cada um de nos traz, é a soli
dariedade com os primeiros pais; se estes perderam os dons origináis, nos,
sem culpa nossa, somos afetados por essa perda - o que é muito lógico. Vé-
se, pois, que a transmissSo do pecado original nao se deve a ¡ntencao vinga-
tiva de Deus, mas é conseqüéncia da índole mesma da natureza humana.

Há, porém, quem julgue que o ato de gerar é pecaminoso se por ele se
transmite o pecado dos primeiros pais. - Responderemos que o ato biológi
co de gerar foi instituido pelo próprio Criador; em si ele nada tem de peca
minoso; transmite a natureza como se acha nos genitores; tal ato nao é a

84
PECADO ORIGINAL 37.

causa do pecado original ou do estado desregrado em que nascem as crian-


cas, nem pode exercer influxo sobre tal estado. O ato biológico de gerar po-
deria transmitir também a grapa santificante se os primeiros país a tivessem
conservado. — O que a geragáo ná*o dá, isto é, a grapa santificante, a regene-
racao ou o Batismo o deve dar. Por isto, é que nao se deve protrair o Batís-
mo das enancas. O segundo Adió, Jesús Cristo, readquiriu a filiacao divina
para o género humano e a comunica mediante o Batismo.

A doutrina do pecado original pertence estritamente ao patrimonio da


fé. Nio é lícito reduzir o conceito de pecado original ao de "pecado do
mundo", como se nao fosse mais do que o acumulo de faltas pessoais que se
cometeram desde o inicio da historia, fazendo que todo homem seja, desde
os seus primeiros anos, seduzido ao mal.

Os povos primitivos antigos e contemporáneos tém a nocSo de que os


males existentes no mundo nao sao origináis nem devidos ao Criador, mas
provém de urna culpa dos primeiros horrtens ou de um pecado original; tal
crenca, táb generalizada como é, pode ser entendida como valioso argumen
to em favor da doutrina católica.

Para ulterior apro fundamento, veja:

BALLARINI. T., Introducao é Biblia U/1. Ed. Vozes. Petrópo/is, 1975.


BETTENCOURT, £, Ciencia e Fé na historia dos primordios. Ed.
Agir, Rio de Janeiro 1958.
GRELOT, P., Reflexóes sobre o problema do pecado original. Ed.
Paulinas, 1969.
PAULO VI, Credo do Povo de Deus, 1967.

4. Os povos primitivos

4.1. A "origem" da morte

É assaz comum entre os povos primitivos a crenca de que a morte e


seus precursores, os males físicos, nao pertenciam á ordem de coisas origina
ria neste mundo, mas sobrevieram por efeito de urna desobediencia dos ho-
mens á Divindade.

Como se entende, os diversos povos exprimem esta proposicao com


urna roupagem própria, fazendo entrar em cena os personagens mais expres-

85
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

sivos e interessantes para a mentalidade de cada tribo. A mensagem, porém,


das variadas estórias é sempre a mesma. Ora o tato de que homens localiza
dos ñas mais desconexas reg¡5es do globo, detentares hoje de urna cultura
que corresponde aproximadamente á dos inicios da humanidade, professem
idéntica concepcSo a respeito da morte e do seu significado, insinúa que tal
conceppSo pertence ao patrimonio das noc6es primordiais do género huma
no.

Eis, pois, algumas dessas narrativas dos povos primitivos, pelas quais se
manifesta a consciéncia de que a Morte é urna "intrusa" neste mundo.

Em New South Wales (África) varias tribos afirmam que os prime ¡ros
homens foram destinados a nao morrer. Contudo era-lhes proibido aproxi-
mar-se de certa árvore oca, em que abelhas selvagens tinham feito a sua
colméia. No decorrer do tempo, as mulheres cobicaram o mel da árvore proi-
bida, até que, belo dia, urna délas, desprezando as admoestacoes dos ho
mens, tomou do seu machado e o arremessou contra o tronco; ¡mediatamen
te saiu deste urna enorme coruja. Era a Morte, a qual de entSo por diante cir
cula livremente sobre o mundo e reivindica para si tudo que ela possa tocar
com as asas.

Os pigmeus referem que. Deus (Mugasa) a principio criou dois rapazes


e urna jovem, com os quais vivia amigavelmente na floresta, como pai com
seus filhos, num lugar de toda bonanca: nada faltava aos homens, nem ti
nham que recear por alguma perspectiva de morte. Mugasa apenas Ihes proi-
bira que procurassem ver a sua face. Habitava urna tenda, diante da qual dia
riamente a jovem tinha que depositar lenha para o fogo e um jarro de agua.
Um dia, porém, a moca, vencida pela curiosidade, escondeu-se atrás de urna
árvore, ficando á espreita do "Pai", que havia de aparecer. De fato, ela o po
de ver, quando estendia o bra?o reluzente de ornamentos a fim de apanhar
o jarro. A menina alegrou-se entáo profundamente e guardou o segredo do
ocorrido. Mugasa, porém, percebera a desobediencia. Chamou os tres irmSos
á sua presenca e Ihes censurou a falta, predizendo-lhes que havia de os dei-
xar; para o futuro, a indigencia e a morte pesariam sobre eles. Os prantos
do grupinho humano nao conseguirán) deter a sen tenga; certa noite Mugasa
partíu rio ácima, e nSo foi mais visto. Quanto ao primeiro filho que nasceu á
mulher, morreu após tres días de existencia...

Os Bagandas da África Central contam que Kintu, o primeiro homem,


depois de ter superado varios testes, obteve a licenga de se casar com Nambí,

86
PECADO ORIGINAL 39

urna das filhas de Mugulo (o Céu ou o Alto). O pai da donzela deixou que
ela viesse com seu consorte para a térra, trazendo ricos presentes, entre os
quais urna galinha; ao despedir-se do casal, mandou que se apressassem por
sair, aproveitando o fato de que o irmao de Nambi, chamado Warumbe (a
Morte), estava forade casa; recomendou-lhes, outrossim, nao voltassem para
apanhar o que quer que tivessem esquecido. Durante a caminhada, porém,
Nambi verificou que chegara a hora de dar de comer & galinha; já que esque-
cera o milho, consentiu entab em que Kintu voltasse á casa para buscá-lo.
Mugulo, o pai, ao rever o genro, irritou-se pela desobediencia; Warumbe (a
Morte), estando de novo em casa, fez questfo de acompanhar Kintu;
toda resistencia tendo sido vS, a Morte desceu com o casal para a térra, onde
até hoje habita com os homens.

Graciosa é a historia que contam os japoneses: o príncipe Ninighi se


enamorou pela princesa "Florescente como as flores". O pai da jovem, que
era o Deus da grande Montanha, consentiu em seu casamento, e deixou-a
partir com sua irmS mais velha "Alta como as rochas". Esta, porém, era tre
mendamente feia, de sorte que o noivo a mandou voltar para casa. Em con-
seqüincia, o velho Deus amaldicoou o genro, e declarou que sua posteridade
seria frágil e delicada como as flores!

Os "Bataks" de Palawan {¡Ihas Filipinas) contam que o seu deus costu-


mava ressuscitar os mortos. Todavía certa vez os homens o quiseram enga
ñar, apresentando-lhe um tubarlo enfaixado como um cadáver. Quando a
Divindade descobriu a astucia, amaldicoou os homens, condenando-os a fi-
car sujeitos ao sofrimento e á morte.

No territorio de Uganda os "Masai" referem que um dos seres divinos


ou Demiurgos deu a um homem a seguinte ordem: todas as vezesque mor-
resse urna enanca, deveria remover o cadáver dizendo: "Homem, morre e
vem de novo a vida! Lúa, morre, e desaparece definitivamente!" Essas pala-
vras produziam o efeito de ressuscitar. Um dia, porém, o dito comissário da
Divindade, posto diante de urna enanca que nao Ihe pertencia, houve por
bem desobedecer, invertendo os dizeres da famosa fórmula. Quando na vez
seguinte repetiu a frase certa sobre um de seus próprios filhos, verificou que
ela perderá o seu poder. De entao por diante acontece que, quando a Lúa
morre, ela volta á vida, ao passo que o homem, caindo ñas garras da morte,
6 por esta detido.

87
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

4.2 O Demonio Adversario ( = Sata)

Que naja um espirito mau, inimigo dos designios de Deus, sedutor dos
homens, como o conhece o Génesis, é proposicSo por vezes sujeita a dúvidas
pela mentalidade moderna, a quem o Maligno parece sercriacao da fantasía
simplona ou primitiva.

Contudo quem investiga a historia das religues nib se furta á impres-


sfo de que a crenca no demonio e na sua acab perniciosa é mais um elemen
to do patrimonio religioso do género humano: afirmanvna os povos primiti
vos em variadas regides, dando-nos a supor que tenha sido professada (como
doutnna referente á intruseo da Morte) quando os homens aínda se achavam
congregados numa única populacio.

Note-se que a crenca no demonio entre os primitivos se distingue do


dualismo persa, gnóstico ou maniqueu, que é filosofía de povos colocados
em grau de civilizado muito posterior: o demonio adversario do Deus bom
que os homens rudes conhecem, é um ser pessoal revoltado contra o Senhor
mas de ceno modo subordinado a Divindade. Ao contrario, o Principio do
mal no dualismo é independente do Principio do bem; afeta a materia tor-
nando-a abominável aos individuos religiosos (concepcáb que nao se encon-
tra entre os selvagens).

Eis algumas das historias que os etnólogos puderam colher ao estudar


a religiao dos amigos.

Certas tribos da Sibária, principalmente os tártaros, contam a origem


do homem nos seguíntes termos: o Grande Oleiro fez de argila um boneco
humano, destruido de alma ou sopro vital; plasmou também um cao sem
pilo, ao qual deu vida e mandou guardas» cuidadosamente o corpo huma
no. Dito isto, o Artista se foi; sobreveio entSo seu adversario Ngaa (a Morte
personificada), que assim se dirigiu ao cSo: "Has de sentir frió, pois estás nu.
Entrega-me o homem e dar-te-ei urna veste". Depois de resistir um pouco, o
animal cedeu, permitindo a Ngaa apreender a presa e devorá-la. Ao voltár,
perguntou o Senhor ao ció: "Onde está o homem?" - "Ngaa o devorou!"
Irado, disse entSo o Grande Oleiro: "Já que permitiste isso, doravante come
rás excremento humano!" A seguir, recpmecou a criacab formando um ho
mem e urna mulher, genitores de toda a estirpe humana.
Esta historia se apresenta com variantes bem significativas entre os
Mordvinos, tribo da Sibéria: Tscham-Pas, o Criador, depois de ter forma
do o corpo humano a partir do barro, o confiou á guarda do cao, que ainda

88
PECADO ORIGINAL 41

estava sem pelo. Entao Chai tan, o adversario do Ser Supremo, excitou um
frió tremendo, que ameacou de morte o animal; com isto obteve que o
guarda Ihe entregasse o corpo humano em troca de urna coberta. Chaitan, de
posse do homem, pós-se a cuspir sobre todos os seus poros, dando origem ás
detengas do organismo; insuflou-lhe também as tendencias para o mal e o
vicio. Sobreveio Tscham-Pas, que repeliu Chaitan e, a fim de curar o ho
mem, voltou para dentro a parte externa do corpo manchada pelos escarros
do Inimigo; insuflou-lhe outrossim urna alma boa. As doertcas, porém, per-
maneceram e permanecem na vítima, assim como as inclinacoes para o vicio,
de sorte que o homem hoje se vé dilacerado, entregue a luta consigo mesmo,
porque á obra do Criador se quis opor o Adversario mau.

A tribo "Arapaho" dos indios Algonquins conta que, quando o Cria


dor estava para terminar a formacáo do mundo e do homem, apareceu o Ini
migo, chamado Nih'asa ("Homem amargo"); este era o único sobrevivente
de urna geracSo de seres maus ou can ibais, criados antes do género humano
atual e aniquilado pela Divindade. Nih'asa, pois, com um cajado ñas maos,
apresentou-se na assembléia dos homens diante dos quais o Criador termi-
nava a sua obra; pediu o poder de criar e urna parte da térra. O Grande Au
tor atendeu ao primeiro dos dois rogos, de sorte que Nih'asa esteñdeu o seu
bastió e comecou a formar colinas e nachos, com grande surpresa para os
homens. O Criador, entlo, tomou um pouco da medula de um salgueiro e o
lancou na agua; o objeto se afundou, mas logo subiu á tona, fenómeno que o
Senhor assim comentou: "Vos, homens, haveisde viverdessa forma", (isto é,
morrereis, mas voltareis ávida sem demora). A vista disso, exclamou Nih'asa:
"A térra nao é grande; em breve sofrerá excesso de populacSs. Tenho me-
Ihor sugestSo". E tomou um seixo, que atirou na agua; a pedra mergulhou pa
ra nao mais aparecer: "Assim será a vida no Além", afirmou o Maligno. Vol-
tando-se entao para este, disse o Criador: "Pediste urna parte da térra; farei
outra regiéto para,ti". E, tendo apanhado um punhado de térra, lancou-a no
océano com as palavras: "Onde essa térra cair, lá estará teu país - além do
océano!"

A historia seguinte associa ainda mais claramente o Adversario e a in-


troducSo da Morte no mundo. Os Maidus, na California Central, afirmam
que o Criador resolveu outrora poupar os homens da morte: quando estives-
sem velhos, deveriam ir banhar se em certo lago, onde rejuvenesceriam. Mos-
trou-lhes mesmo Kuksu, o primeiro beneficiado por esse tratamento. O Ma
ligno, porém, denominado Coyote (lobo das planicies, o canis Lyciscus la-
trans), queria que os homens morressem, pois, dizia ele, neste caso haveria

89
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

pompas sotenas em honra dos mortos, as viúvas se poderiam casar de novo,


etc. O Criador acabou cedendo a Coyote, que ¡naugurou a nova era do mun
do mediante urna festa; eis, porém, que, tomando parte dos jogos do pro
grama, ofilhode Coyte passou perto de um buraco onde se ocultava urna
serpente; mordido pelo animal, morreu, ocasionando grande desgbsto a seu
pai. Coyote, acometido pelo remorso, resolveu levar o filho ao lago outrora
destinado a rejuvenescer os homens; mas em vao o atirau na agua, pois o
morto nao ressuscitou. Tal foi o castigo do Inimigo de Deus, que introduziu
a morte no mundo.

Quanto áorigem desse Adversario, os primitivos nao referem muita


coisa. Um ou outro tópico, porém, o mostra subordinado ao Criador.

Conforme os Ahinus, aborígenes do norte do JapSb, o Criador, depois


de ter formado o mundo, jogou fora os machados de obsidiana (pedra co-
mum nos terrenos vulcánicos) que usara; apodreceram na térra, dando ori-
gem aos espíritos maus, os quais sao númerosíssimos e tém um chefe supre
mo. 0$ Coriacos, tribo da Sibéria setentrional, contam que o Grande Corvo
se originou da poeira que costuma cair do Céu sobre a térra, quando o Ser
supremo afia o facao de pedra. De acordó com os Algonquins "Wawenock",
o Gluskabe, que se op5e a Deus, constitui-se dos restos de barro úmido com
que o Criador formou o primeiro homem.

Estes mitos dos povos primitivos hoje em dia sSo estudados atenta
mente pelos etnólogos e historiadores, porque, sob modalidades infaTitis e ca
ducas, traduzem a filosofía de vida e o patrimonio cultural do amigos. A Fi
losofía contemporánea nao despreza os mitos, como outrora se fazia, mas
procura ler a sua mensagem sapiencial.

0 material aqui atado foi colhido no longo repertorio de tradicóes


dos povos amigos elaborado por H.S. Hanland com o título "Death and Dls-
posal of the Dead", em "Encyclopaedla for Religión and Ethics", ed. Has-
tings IV411-414.
Ver também:

Mí Schmidt, Der Ursprung der Gottesidee. Münster i./W., 6 voluntes.

P. SCHEBESTA. Die Religión der Primitiven, em "Christus und die


Religionen der Erde. Handbuch der Religionsgeschichte herausgegeben von
Fr. Konig" I. Wien 1951. 565s.

90
RECURSO AO EXORCISMO 43

Mais um documento da Santa Sé:

0 Recurso ao Exorcismo

A Sagrada Congregarlo para a Doutrina da Fé enviou aos Srs. Bispos


urna Instrucao a respeito do uso do exorcismo. Muito atual, o documento
vai abaixo transcrito em traducSo brasileira.

SAGRADA CONGREGACAO 00193 Roma, día 29 de setembro de 1985


PARA A DOUTRINA DA FÉ Raiza del S. Ufficio 11

Prot. n? 291/70

Excelentísimo Senhor,

Já há alguns anos, certos grupos eclesiais multiplicara reunioes para


orar no intuito de obter a IibertacSo do influxo dos demonios, embora nao
se trate de exorcismo propiamente dito. Tais ieuni5es sao efetuadas sob
a direcáo de leigos, mesmo quando está presente um sacerdote.

Visto que a Congregado para a Doutrina da Fé foi interrogada a res


peito do que pensar diante de tais fatos, este Dicastério julga necessário
transmitir a todos os Ordinarios a seguinte resposta:

1. O canon 1172 do Código de Direito Canónico declara que a nin-


guéra é lícito proferir exorcismo sobre pessoas possessas a nao ser
que o Ordinario do lugar tenha concedido peculiar e explícita licen-
ca para tanto (§ 1); determina também que esta licenca só pode ser
concedida pelo Ordinario do lugar a um presbítero dotado de pie-
dade, sabedoria, prudencia e integridade de vida (§ 2). Por conse
guíate, os Srs. Bispos s3o convidados a urgir a observancia de tais
preceitos.

2. Destas presen;oes segue-se que nao é lícito aos fiéis distóos utilizar
a fórmula de exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas, coñu
da no Rito que foi publicado por ordem do Sumo Pontífice Leáo

91
44 "PERGUNTEE RESPONDEREMOS" 285/1986

XIII; muito menos Ihes é lícito aplicar o texto inteiro deste exorcis
mo. Os Srs. Bispos tratem de admoestar os fiéis a propósito, desde
que haja necessidade.

3. Por fim, pelas mesmas razoes os Srs. Bispos sao solicitados a que
vigiem para que — mesmo nos casos que parecam revelar algum in-
fluxo do diabo, com exclusSo da auténtica possessSo diabólica —,
pessoas nao devidamente autorizadas nao orientem reuniSes ñas
quais se facam orafües para obter a expulsáo do demonio, oracdes
que diretamente interpelen) os demonios ou manifestem o anseio
de conhecer a ¡dentídade dos mesmos.

A formulacSo destas normas de modo nenhum deve dissuadir os fiéis


de rezar para que, como Jesús nos ensinou, sejam livres do mal (cf. Mt 6,13).
Além disto, os Pastores pódenlo valer-se desta oportunidade para lembrar o
que a Tradicáo da Igreja ensina a respeito da runcáo própria dos Sacramen
tos e a proposito da intercessSo da Bem-aventuradá Virgem Maña, dos Anjos
e dos Santos na luta espiritual dos cristios contra os espfritos malignos.

Aproveito o ensejo para exprimirir a V. Exda. meus sentímentos de


estima, enquanto Ihe fleo sendo

dedicado no Senhor

Joseph Card. Ratzinger


Prefeito

+ Alberto Bovone
Secretario

O texto da Santa Sé sugere alguns comentarios:

1) O documento manifesta a crenca na existencia do demonio (= Sa


ta, o Adversario; cf. 1Cr 21,1). Esta profissáo doutrinária, fundamentada ñas
páginas bíblicas e nos documentos da TradicSo crista', é reafirmada pelo ór-
gao da Santa Sé especialmente encarregado dos assuntos atinentes a doutrina
sagrada na Igreja. Alias, repetidamente o magisterio eclesiático tem proferi
do a sua conviecáo da realidade do demonio, conviccSo recebida da própria
Revelacaó Divina. Ver a propósito PR 191/1975, pp. 490-499.

2) A possessao diabólica é o estado em que o demonio se apodera das


faculdades de um ser humano, levando-o a atitudes blasfemas e impías. A

92
RECURSO AO EXORCISMO 45

Igreja nSo julga isto ¡n\possfvel, pois Jesús mesmo o admitiu e aplicou o
exorcismo; cf. Me 2,24; 3,11s. 22-27; 5,1-16... Ora Jesús, que veio para dar
testemunho da verdade (cf. Jo 18,37), nSo terá confirmado os seus discípu
los em crenca errónea. Todavía a Igreja exorta os crinaos a n3o admitirem
com facilidade tais manifestacSes extraordinarias do Maligno. É aosSrs. Bis-
pos que compete julgar cada caso e, se o consideraren! oportuno, delegar um
sacerdote para proceder ao exorcismo nos termos formulados pelo Direito
Canónico (canon 1172).

3) O rito do exorcismo dito "maior" Imais solene) so pode ser aplica


do por um presbítero que, além de ter a delegacSb do seu Bispo, seja conhe-
¿do por suas virtudes e pratique o jejum; cf. Mt 17, 20. O S. Padre Leao
XIII (1878-1903) recomendou preces contra o Maligno; eram ditas no fim
da celebracSo da S. Missa até a reforma litúrgica suscitada pelo Concilio do
Vaticano II. Até o presente momento o Ritual Romano contém urna fórmu
la de "Exorcismo contra Satanás e os Anjos Apóstatas", que consta de algu-
mas oracSes; estas, embora nSo constituam o Exorcismo Maior (que é muito
mais longo e exigente), nao devem ser ditas por qualquer fiel cristio; com
efeito, interpelam o demonio e os anjos maus am nome do Senhor Deus; por
isto requerem delegacffo especial da autoridade diocesana.
4) A Santa Sé deseja lembrar ao* fiéis que a Liturgia e a vida de pieda-
de s3o valiosos recursos para afastar a ac3o do Maligno. Este é muito mais
interessado em provocar o pecado (desgraca moral) do que males físicos na
vida dos homens. Por isto é para desojar que os fiéis católicos, em vez de se
preocupar com intervencOes diabólicas extraordinaria», se empenhem por
pedir diariamente ao Senhor Deus as gracas para superar as tentaefies ao pe
cado e se fortalecer no exercítio das virtudes; recorram também á SS. Vir-
gem, aos Anjos e Santos, intercessores da Igreja militante junto a Deus, a fim
de que o Senhor dissipe os erras, converta os coracSes e livre os homens de
todas as seduc8es do mal.

5) O cristio que vive fielmente a sua vocacSo de filho de Deus na Igre


ja, nao receja o demonio. Pensa, antes, nos muitos motivos de confianca que
a sua fé Ihe inspira: "Aquale que na*o poupou o seu próprio Filho, mas o en-
tregou por todos nos, como nSo nos haverá de agraciar em tudo junto com
ele?. . . Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulacio, a angustia, a
perseguicSo, a fome, a nudez, o perigo, a espada?"(Rm 8,32.35). Sabe com
certeza que Satanás 6 como um eflo acorrentado: muito pode latir, mas só
pode morder a quem se Ihe chega perto.

EstavSo Betencourt O.S.B.

93
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

livros em estante
O Caminho do Senhor. Catecismo para Adultos, publicado pela Con
ferencia Episcopal Italiana. TraducSo dos PP. Ivo Montanhese, Virgíneo de
Carli, Domingos Sávio da Silva, Gervasio Fabri dos Anjos. - Ed. Santuario,
Rúa Pe. Claro Monteiro 342,12570 - Aparecida (SP),1985,157 x 222 mm,
533 pp.
Sao benvindos todos os Manuais de doutrina católica de teor sólido
e fiel, pois se verifica que o povo de Deus, bafejado pelos ventos das mais di
venas teorías filosóficas e religiosas, precisa de conhecer bem a sua fé para
vivé-la coerentemente. A Conferencia Episcopal Italiana, valendo-se da cola
borado de bons teólogos, oferece aos fiéis nao só da Italia, mas do mundo
inteiro um compendio de doutrina católica de nivel medio: apresenta nao
somente urna exposicáo dos temas da fé, mas também textos da antiga e da
moderna bibliografía crista "para um itinerario cristao" (jóias da literatura
teológica). A preocupacSo dos autores foí a de situar o seu leitor, como bom
católico, no mundo de hoje, que o desafia. No final do tivro, há um Apéndi
ce (Notas Teológico-Pastorais), pp. 471-514, que trata em particular de as-
suntos discutidos em nossos dias: anjos e demonios, o pecado original, o
amor, a sexualidade e o matrimonio... A respeito do pecado original, abor
dado ás pp. 73s e 491-495, o texto é fiel ao ensinamento oficial da Igreja;
todavía, se é permitido fazer alguma observacáb, diríamos que teria sido
oportuno por mais em relevo a justica original e seus dons, dos quais falam,
por exemplo, a Constituios» Lumen Gentium n? 2, a Gaudium et Spes n°*
13 e 22. o Credo do Povo de Deus de Paulo VI. O livro em pauta, na p. 73,
refere-se um pouco vagamente a este estado original; a precisüo teria sido es
pecialmente desejável pelo fato de que a obra se destina á catequese.
Nao obstante, trata-se de instrumento útil para a formacao dos nossos
fiéis, que esperamos sejam mais e mais conscientes do tesouro da sua fé.
Chave para a Biblia. A RevelafSo, a Promessa, a Realizafgo, por Wil-
frid J. Harrington O. P. TraducSo de Josué Xavier e Alexandre Macintyre.
- Ed. Paulinas, Sao Paulo 1985,145 x 210 mm, 644 pp.
A obra se compSe de tres partes: 1) Revelacao, onde o autor estuda as
questoes de Introducás Geral á Biblia (InspiracSo, Formacáfo do texto sagra
do, CSnon, Crítica do texto. Historia do Amigo e do Novo Testamento); 2)
Promessa, onde é oferecida urna introducSo a cada livro do Antigo Testa
mento; 3) Realizacao, que apresenta cada um dos escritos do Novo Testa
mento.

O conjunto da obra é didático. O autor sabe associar erudicSb (apre-


sentada de maneira acessível ao leitor de cultura media) e doutrina da fé.
Diante dos temas mais delicados, Harrington, após expor posicSes alheias a
fé católica, concluí em consonancia com a doutrina do magisterio da Igreja.

94
UVROS EM ESTANTE 47

Muito importantes sao as páginas em que o autor trata do valor e da autori-


dade do Amigo Testamento (pp. 412-423): encara entSo "o mal
recebido Antigo Testamento" e "o Antigo Testamento bem recebido",
mostrando a perenidade de todas as páginas da S. Escritura; a mensagem
do Evangelho nSo se entendería sem o seu fundo de cena vétero-testamen-
tário: "As respostas que o Antigo Testamento dá, referem-se a antigos pro
blemas e situacdes que nem sempra podem ser aplicados as nossas necessi-
dades. No entanto, a tarefa dos exegetas bíblicos é examinar essas respostas
antigás e discernir a teologia subjacente que se exprime através délas. Guiada
pelo Espirito Santo, esta teologia pode ganhar nova expressSb para as
respostas que hoje procuramos. Nunca nos falhou com a sua boa assisténcia
aquele Espirito prometido por Jesús" (pp. 422s).
Merecem relevo também as páginas concernentes á formacao dos
Evangelhos Sinóticos (pp. 424-452): o autor explana as sentencas da
crítica moderna com o que elas tém de positivo para melhor entendimento
do texto sagrado; sabe, porém, distanciar-sa do racionalismo liberal (veja-se
o que está dito a respeito da demitizacSo, as pp. 439s).
Em pontos de livre discussSo, o autor adota sentencas que nao sSo
sempre as tradicionais; julga, por exemplo, que a 2Pd talvez date do ano
120. devendo-se a um discípulo dos Apostólos, que terá usado de pseudó
nimo (p. 588). Tal h¡pótese é aceitável, embora rejeitada por bons críticos.
O Concilio do Vaticano II nao quis definir que a Revelacfio se tenha encerra
do com a morte do último dos Apostólos (o que seria de urna precisáo tal
vez irreal), mas recorreu a urna fórmula mais geral: "Cristo aperfeicoa e
completa a revelacao... Já nSo há que esperar nenhuma nova revelacSo pú
blica antes da gloriosa manifestacao de Nosso Senhor Jesús Cristo" (Consti
tuido Dei Verbum no 4).
A obra é recomendável aos estudiosos que desejem boa iniciacao bíbli
ca; traz seus pontos discutíveis, nSo, porém, em materia de fé.
A Igreja a a Escravidao. Urna Análise Documenta/, pelo Cónego José
Geraldo Vidigal de Carvalho. Coléelo "Política e Sociología" n? 3. - Ed.
Presenta, em convenio com o Instituto Nacional do Livro/ProMemória, Rio
de Janeiro 1985, 140 x 208 mm, 215 pp. Endereco de Presenta Edifdes:
Rúa do Catete 204, Grupo 302, 22220 - Rio de Janeiro (RJ). Telefone:
(021)225-1947.
O autor é memoro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Ge-
rais e Professor de Historia da Igreja no Seminario de Mariana. Tem-se dedi
cado ao estudo do regí me de escravatura vigente no Brasil até 1888, procu
rando averiguar a atitude dos eclesiásticos parante tal fato. O Cónego Vidi
gal colecionou, e ora publica, documentos de Papas, Bispos, sacerdotes e leí-
gos crist3os que se opuseram & escravatura no Brasil; sSo textos geralmente
desconhecidos, que desfazem a ¡mprewáo, muito comum no público, de que
a Igreja se deixou aliciar, sem mais, pelos poderosos na prática do escravagis-

95
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 285/1986

mo. Antes de apresentar tais documentos, o autor tece consideracSes sobre


o escravagismo: este nio parecía tab hediondo aos antigos quanto a nos;
podía mesmo ser tido como legítimo aos olhos de muitos; e acrescenta o Có-
negó Vidigal:

"Nio se deve julgar modos de agir dos sáculos anteriores com a cultura
presente, com as categorías atuais... é erro aplicar juízos modernos ao tem-
po passado. Este procedimento seria anacronismo de funestas seqüelas, le
vando a distorcSas de sentimento e de opiniüo. H¿ mesmo circunstancias em
que o historiador honesto é obligado a dizer: nSo sei como me posicionar
ante tal evento... É que cada período tem sua cosmovisSó própria e propor
cional a evolucao intelectual da época... Será que se pensa no que dirSo os
pósteros sobre o comportamento hodierno? As multinacionais do crime por
af fazendo novo* escravos. Urna sociedade na qual, sinistramenté, se multi-
plicam aberracfies hediondas... O que vale 6 o lucro a qualquer preco, pou-
co significando a vida humana exposta a irradiacfies nucleares cancerígenas,
a alimentos contaminados por ingredientes químicos sumamente dañosos, a
medicamentos mortíferos. Até a privacidade pessoal é violada pala tecnolo
gía sofisticada. PoluicSo sonora, visual. Desregramentos sexuais estampados
fríamente em jornais, revistas e na própria televisáo, que nao re*peitam nem a
inocSncia das enancas, muitas, futuros patrocinadores das mesmas distor-
cSes. Toda urna parafernálía dos meios de comunicacüb social que aneste-
siam a capacidade de discerní manto, escravizando multidSes aos donos do
poder económico. Ñas catastróficas guerras deste fim de milenio morrem
mais pessoas do que todos os escravos que vieram para o Brasil de 1516 até a
abolicao do trafico. A chacina dos judeus no regime nazista excede de muito
em crueldade o que aqui ocorreu. Pior do que a servidüo de outrora é a mor-
te de milhBes de seres indefesos, assassinados no ventre materno, através do
aborto criminoso. Quem na*o estarreceu diante da noticia de que hi labora
torios que, para melhorar a qualidade de seus cosméticos, usam fetos huma
nos? Muitos, na ansia de aumentar suas rendas, fazem com que mocas se en-
gravidem, visando a esta finalidade" (pp. 34s).

Estas considerares do Con. Vidigal, se nao inocentam de culpa os


nossos ahtepassados, lembram que nem sempré aram conscientes de males
que hoje Ihes imputamos nos, nos que também temos motivos para exami
nar seriamente a nossa consciéncia.

O livro, que traz o prefacio do Prof. Américo Jacobina Lacombe, me


rece ser lido atentamente, pois contribuirá para repor a verdade da historia
na sua devida luz.

E.B.

U«P5«Mln? - F F S I
■TV, í 96
P. R. NOVAMENTE MENSAL

Dado o crescente ¡nteresse de numerosos leitores, a partir des-


te número - PERGUNTE E RESPONDEREMOS aparece nova-
mente urna vez por mes.
Conseqüentemente, aumentarao nossos compromissos finan-
ceiros, aínda que seja reduzido a 48 o número de suas páginas.
Como é notorio, sobem periódicamente o custo do papel de
imprensa, os salarios dos funcionarios, as tarifas postais e os trans
portes. Tudo isso nos obriga a novos reajustes.
As assinaturas vao de Janeiro a dezembro: Cr$ 100.000.
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Historia de la Filosofía, Tomo V, Siglo XIX: Socialismo, ma
terialismo y positivismo. Kierkegaard y Nietzsche. - Teófi
lo Urdanoz, OP., 1975,665p. BAC Cr$ 187.850
Historia de la Filosofía, Tomo VI, Siglo XX: De Bergson al
final del existencialismo. - Teófilo Urdanoz, OP. 1978.
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