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FACULDADE SÃO TOMÁZ DE AQUINO ASSOCIAÇÃO SÓCIO-CULTURAL PATI PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA
FACULDADE SÃO TOMÁZ DE AQUINO ASSOCIAÇÃO SÓCIO-CULTURAL PATI PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA

FACULDADE SÃO TOMÁZ DE AQUINO ASSOCIAÇÃO SÓCIO-CULTURAL PATI PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA

DESVENDANDO UM CONTINENTE:

TÓPICOS DE HISTÓRIA DA ÁFRICA PARA VIABILIZAR A APLICAÇÃO DA LEI 11.645/08 EM SALAS DE AULA DO ENSINO MÉDIO E FUNDAMENTAL

ANA PESSOA DE SOUZA CASTRO

SALVADOR

2010

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ANA PESSOA DE SOUZA CASTRO

DESVENDANDO UM CONTINENTE:

TÓPICOS DE HISTÓRIA DA ÁFRICA PARA VIABILIZAR A APLICAÇÃO DA LEI

11.645/08 EM SALAS DE AULA DO ENSINO MÉDIO E FUNDAMENTAL

Monografia apresentada pela acadêmica Ana Pessoa de Souza Castro como exigência do curso de pós-graduação em História e Cultura Afro- brasileira: fundamentos e metodologia da Associaão Sócio-Cultural Pati sob a orientação da professora Drª Marli Geralda Teixeira.

SALVADOR

2010

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DESVENDANDO UM CONTINENTE:

TÓPICOS DE HISTÓRIA DA ÁFRICA PARA VIABILIZAR A APLICAÇÃO DA LEI 11.645/08 EM SALAS DE AULA DO ENSINO MÉDIO E FUNDAMENTAL

ANA PESSOA DE SOUZA CASTRO

Aprovada em

/

/

BANCA EXAMINADORA

Profª Drª Marli Geralda Teixeira Orientadora

Prof. Ms. Jailton Lima Brito PATÍ - Associação Científica e Sócio-Cultural

CONCEITO FINAL:

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AGRADECIMENTOS

A todos os Orixás, Voduns, Inquices e Caboclos: herança

e pertencimento de todo baiano da gema.

Aos anos vividos em África, e às inúmeras lições aprendidas lá.

À Bahia, terra de todos os nossos ancestrais, de lá e de

cá, que apenas esse riochamado Atlântico separa.

À Prof.ª Marli Geralda Teixeira, que me conhece, desde

sempre, por reafirmar, com intensa paixão, a importância e a beleza primeva e eternamente atual da História da África. Aos meus pais, pelo DNA privilegiado, pelas extraordinárias oportunidades na vida e pelo vasto conhecimento transmitido por osmose.

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RESUMO

A presente monografia tem como objetivo fornecer informações básicas sobre as histórias, culturas, povos e línguas do continente africano, com foco naqueles países que contribuíram mais diretamente na nossa formação. Através da Cartilha do Professor anexa, esperamos ajudar na preparação dos professores do ensino médio e fundamental a aplicar de forma mais ampla, profunda e eficiente a Lei 11.645/08, que amplia o foco dos currículos escolares para a diversidade cultural, racial, social e econômica brasileira.

Por fugir ao escopo deste trabalho, não temos iremos pormenorizar as Leis 10.639/03 e 11.645/08. Suas razões de existir e a luta por sua conquista serão explicadas de modo sucinto.

Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico- Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena, estas Leis não são apenas instrumentos de orientação para o combate à discriminação. São também Leis afirmativas, no sentido de que reconhecem a escola como lugar da formação de cidadãos e afirma a relevância de a escola promover a necessária valorização das matrizes culturais que fizeram do Brasil o país rico, múltiplo e plural que somos.

A Lei 11.645, entretanto, é apenas um dos exemplos das Ações Afirmativas possíveis:

um conjunto de políticas públicas que não visam substituir a visão eurocêntrica pela africana ou indígena, mas sim gerar justiça social e valorizar as diferenças para produzir a igualdade.

Assim sendo, as informações sobre relações étnico-raciais serão também abordadas, porém de forma breve, já que não é este o eixo central deste trabalho. Mas, os preconceitos existem. Fora e dentro da sala de aula e, muitas vezes, dentro dos próprios professores. A desconstrução desses equívocos é fundamental para a compreensão mais ampla da importância da aprendizagem e do ensino das histórias e culturas do continente africano para nós, brasileiros.

Palavras chaves: História da África, História Afrobrasileira, Lei 11.645/08, Português do Brasil

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ABSTRACT

This monography aims to provide basic information about the histories, cultures, peoples and languages of the African continent, focusing on those countries that contributed more directly to the formation of the Brazilian people. Through the attached Teacher's Handbook, we expect to help in the preparation of the elementary and middle school teachers to apply more extensively, deeply and efficiently the Law Number 11.645/08, which broadens the focus of school curricula to cultural, racial, social and economical diversity in Brazil.

For being out of the scope of this work, we will not fully detail the Laws Numbers 10,639/11,645/03. Their reasons to exist and the struggle for their achievement will be explained in short.

According to the National Curriculum Guidelines for the Education of Racial and Ethnic Relations and the Teaching of Afro-Brazilian and Indigenous History and Culture, these laws are not only guideline instruments for combating discrimination. They are also Affirmative Action Laws in the sense that they recognize the school as a place of formation of future citizens and reaffirms its relevance in promoting the necessary valuation of cultural matrices that have made Brazil the rich, multiple and plural country that it is.

The Law Number 11,645, however, is just one example of the many possible Affirmative Actions policies: a set of public policies that are not intended to replace the Eurocentric view for the African or Indigenous views, but creating social justice and valuing the differences to produce equality.

Therefore, information on ethnic-racial relations will also be addressed, however briefly, since this is not the central axis of this work. But prejudices exist, outside and inside classrooms, and often within the teachers themselves. The deconstruction of those misconceptions is fundamental to a deeper understanding of the importance of learning and teaching the histories and cultures of the African continent for us, Brazilians.

Keywords:

History of

Brazilian Portuguese

Africa,

Afro-Brazilian History,

Law

Number

11.645/08,

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SUMÁRIO

SUMÁRIO

9

INTRODUÇÃO

10

1. A LEI 11.645/08

11

1.1. EIXOS CONCEITUAIS

2. ÁFRICA, MUITO

2.1. AS VÁRIAS ÁFRICAS

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3. ÁFRICA: BERÇO DA HUMANIDADE E DO CONHECIMENTO

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3.1.

DE COLETORES A CAÇADORES/FAZENDEIROS E INVENTORES

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4. A ESCRITA E AS CIÊNCIAS AFRICANAS

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5. OS GRANDES REINOS E IMPÉRIOS AFRICANOS

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5.1. O GRANDE IMPÉRIO EGÍPCIO

28

5.2. O REINO DE KUSH

28

5.3. O IMPÉRIO DE AXUM

29

5.4. A CULTURA NOK

30

5.5. OS IMPÉRIOS DA ÁFRICA OCIDENTAL

31

 

5.5.1. O IMPÉRIO DO GANA

32

5.5.2. O IMPÉRIO DO MALI

34

5.5.3. O IMPÉRIO DO SONGHAI

37

5.5.4. OS REINOS DO MUNDO IORUBÁ

39

5.5.4.1. O REINO DE I

40

5.5.4.2. REINO DE O

42

5.5.4.3. O IMPÉRIO DO BENIM

42

5.6. O REINO DO KONGO

43

6. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE ESCRAVIDÃO E TRÁFICO

47

6.1. AS ROTAS DO TRÁFICO

52

6.2. O TRÁFICO BANTO

54

6.3. O TRÁFICO MINA-JEJE

55

6.4. TRÁFICO IORUBÁ HAUÇÁ

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7. OS AFRICANOS ESCRAVIZADOS E A FORMAÇÃO DO BRASIL

8. A PALAVRA AFRICANA NA CONFORMAÇÃO DA ETNICIDADE BRASILEIRA 61

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BIBLIOGRAFIA

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INTRODUÇÃO

O processo histórico de formação do povo brasileiro conta com cerca de quatro milhões de africanos escravizados trazidos para o Brasil como simples mão-de-obra. Porém, muito mais do que sua força de trabalho, essas pessoas de saberes milenares trouxeram consigo suas línguas e culturas.

Em situação de maioria numérica e inferioridade social, fizeram sua resistência silenciosa mantendo vivas suas tradições e transferindo-as, num processo sutil e inteligente, aos seus dominadores.

Nas cozinhas introduziram o gosto pelo dendê e pela pimenta. Às crianças e sinhazinhas transmitiram suas linguagens, músicas, estórias, jogos, mitos, crenças e medos.

Em seios negros o Brasil Colônia se nutriu e cresceu. Com mãos, suores e sangue negros, prosperou e se tornou nação.

Porém, quinhentos anos depois, seguimos querendo negar todas essas evidentes circunstâncias históricas, quer por ignorância, quer por puro preconceito. Mesmo com todos os esforços e lutas dos movimentos negros, e de várias outras entidades, que levaram ao reconhecimento oficial da importância de conhecermos a História da África (que é também parte da nossa história) através da Lei 10.639/03, posteriormente ampliada na Lei 11.645/08.

O continente de origem desses povos, que, hoje, são parte de nós, ainda continua distante e misterioso. Esperamos ajudar na desconstrução de mitos e equívocos sobre esse gigante surpreendente e mal compreendido, que é o continente africano, e, ao mesmo tempo, numa construção mais sólida e verdadeira da nossa identidade étnico-racial e histórica.

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1. A LEI 11.645/08

Lei nº 11.645/08 amplia a Lei n o 10.639/08 estabelecendo a obrigatoriedade do

ensino de história e cultura afrobrasileira e indígena nos currículos escolares da rede de ensino, pública e privada.

A

Basicamente, a Lei 11.645 decorre de uma série de antigas demandas de várias representações sociais, em especial dos movimentos negros e indígenas, e aponta para um novo momento das relações do Estado com os movimentos sociais organizados e a Educação.

Seu intuito é propor atividades acadêmicas relevantes em relação aos conhecimentos das diversas populações africanas e indígenas, suas origens e contribuições para o nosso cotidiano e história, num movimento de construção e redimensionamento curricular e de ação educativa, salientando a importância do contexto e sua diversidade cultural.

A aprovação dessa Lei tem se constituído em uma das principais iniciativas das ações

afirmativas adotadas no Brasil e que tem contribuído para a disseminação do estudo da história da África e dos africanos e dos indígenas brasileiros, da luta das pessoas negras e índias no Brasil e da sua presença na formação da nação brasileira.

Também sinaliza para um modelo educacional que prioriza a diversidade cultural presente na sociedade brasileira e, portanto, na sala de aula, de modo que as idéias sobre reconhecimento, respeito à pluralidade cultural, democracia e cidadania prevaleçam em todas as relações que envolvem a Educação e a comunidade escolar, desde a formulação de políticas educacionais e currículos escolares, à formação de docentes.

Assim, a adoção da Lei nº 10.639/03 pressupõe a capacitação de educadores para a correção de injustiças e práticas de valores excludentes no espaço escolar e para a inclusão, de forma pedagógica e didática, de temáticas relacionadas à questão racial nas várias áreas do conhecimento, a exemplo da História, da Matemática, da Língua Portuguesa e das Artes.

Nesse desafio, espera-se dos educadores o respeito às identidades culturais e religiosas transmitidas aos educandos por suas famílias e pelos meios sociais em que vivem. Nesse caso, a Lei reforça o respeito à diversidade, sendo esse um exercício democrático e de cidadania em que a escola, enquanto espaço de socialização de conhecimentos, inaugura um novo caminho, já que a educação plural implica o repensar o ensino-aprendizagem.

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1.1. Eixos conceituais

A aplicação da Lei nº 10.639/03 requer uma reflexão sobre alguns conceitos como

racismo, raça, auto-estima, cidadania, ações afirmativas, religiosidade, identidade étnico- racial, ancestralidade, oralidade étnico-racial, resistência, gênero e sexualidade, entre outros ,

para dar sustentação às novas intervenções na área educacional. Para se pensar a escola cidadã como um espaço de vivências sociais norteado pela possibilidade de construção de uma convivência democrática, é necessário conhecer essa diversidade e os fatores que a negaram

na política educacional.

A escola, a partir daquela Lei, tornou-se uma aliada no enfrentamento do racismo para

além do território escolar, pois está formando pessoas cidadãs que exercerão diversos papéis

na sociedade. Mas, o que é racismo e como se manifesta nas relações escolares? Entendemos

o racismo como um tipo de ideologia que tem servido para a manutenção do status quo, baseado na exclusão e na supremacia de determinados grupos e na subalternização de outros.

O racismo estruturou-se, ao longo da história, com base na idéia de superior e inferior,

determinante para se legitimar a hierarquização da humanidade.

Nesse cenário, falar em “raça” não tem nenhuma associação com a biologia ou os conceitos que buscaram reforço na seleção natural das espécies. O conceito de “raça” está relacionado com as exclusões existentes na sociedade, tendo-se em vista características fenotípicas e pigmentocráticas. Falar em “raça” pode revelar uma das características do racismo: a capacidade de negar o direito essencial da pessoa, o de ser humana. Por isso, o racismo é um dos mais graves crimes contra a humanidade e os direitos humanos.

É exatamente a escola entendida como espaço institucional que retrata os interesses

de grupo dominantes em relação aos valores e conhecimentos que devem ser transmitidos

um dos locais onde o racismo manifesta-se de várias maneiras. Essas manifestações dão-se quando, por exemplo, o livro didático retrata uma pessoa negra de forma estereotipada, desprovida de “humanidade” ou quando a referência aos descendentes de africanos limita-se a relatos depreciativos do processo brasileiro de escravização.

O racismo manifesta-se quando a comunidade escolar, o currículo e até mesmo o

educador ou a educadora demonstram preconceito ou desconhecimento de questões de ordem racial ou ridicularizam identidades e estéticas diferentes das que foram estabelecidas como ideais. A ausência nos currículos escolares da história e da cultura afro-brasileiras e africanas

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reforçou o racismo, incutiu a percepção discriminatória nas crianças brancas em relação às pessoas negras, inibiu a auto-estima das crianças negras, estimulou a evasão e a repetência escolares e impossibilitou o acesso a outros conteúdos e conhecimentos produzidos pela humanidade. Objetivando uma nova perspectiva educacional, o tema identidade deve ser discutido de forma inter e transdisciplinar, de forma a enfrentar as exclusões com proposições democráticas, cidadãs e de respeito às identidades religiosas.

Os projetos político-pedagógicos têm-se negado a aceitar, até mesmo por total desconhecimento de quem os elabora, a capacidade de resistência em que se transformaram os espaços religiosos de origem africana no Brasil. É preciso que a escola cidadã perceba os terreiros de Candomblé não apenas como espaços religiosos, mas também, e principalmente, como territórios de resistência cultural, de manutenção de mitos e de cosmovisão de mundo, de representação e de ressignificação do mundo africano renegados pelos currículos escolares que, quando contemplavam a prática da educação religiosa, tinham conteúdo confessional e norteado pelos ideais da religião oficial brasileira, o Catolicismo, em vez de ensinar conteúdos de várias religiões. E pior: esses conteúdos eram elaborados para inferiorizar as demais religiões.

Constata-se que a Educação abriga ações educacionais voltadas para o enfrentamento do racismo, que pregam a diversidade de saberes e são até anteriores à Lei nº 11.645/08. Neste momento, essas experiências deveriam ter mais visibilidade e servir de referências para novos programas escolares, elaborados para subsidiar as escolas no tratamento desse tema, contribuir na fase de seleção e organização dos conteúdos de ensino e de material didático, no uso de textos, audiovisuais e músicas que, de forma prazerosa, possibilitem a desconstrução de preconceitos.

É importante que a Lei nº 11.645/08 seja entendida como uma política de ações

afirmativas definida com um conjunto de políticas implementadas pelo Estado e dirigidas para

o enfrentamento do racismo e das exclusões, como um mecanismo que busca a eqüidade de oportunidades, principalmente no acesso a bens fundamentais, como a educação e o acesso ao mercado de trabalho, e na busca pela realização da cidadania.

A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de

participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões, ficando numa posição de

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inferioridade dentro do grupo social. Quando se trata de segmentos excluídos por recortes de “raça” e gênero, observa-se que homens e mulheres negros encontram-se alijados de direitos. Portanto, “raça” e gênero são temas fundamentais para a elaboração de um projeto educacional plural e cidadão.

Ao se trabalhar com a democratização da escola, além dos conceitos de “raça” e racismo, aparecem outros da área das exclusões e dos preconceitos, como os de gênero e sexualidade. Percebe-se, então, o enorme leque de questões associadas à Lei nº 11.645/08 e que exigem a participação da escola, a partir de uma perspectiva pluriétnica e cultural.

Em síntese, a implementação da Lei nº 11.645/08 é um processo complexo e se imbrica com um elenco de temas que requerem a formatação de um novo modelo educacional, alicerçado em princípios democráticos e inclusivos de respeito e tolerância à diversidade. Para tanto, a comunidade escolar precisa pensar em como desconstruir estereótipos, em como identificar e superar a influência da escola na baixa autoestima das crianças e adolescentes negros. Essa intervenção deve basear-se no entendimento de que a escola pode e deve combater o racismo institucional, entendido como “o fracasso coletivo de uma organização em oferecer um serviço apropriado e profissional às pessoas devido a sua cor, cultura ou origem étnica”.

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2. ÁFRICA, MUITO PRAZER.

A África mantém-se como um continente desconhecido para a maioria da população brasileira, inclusive nossos docentes.

Antes de tudo, é preciso entender que a África não é uma unidade, poderíamos até dizer que há várias Áfricas dentro desse imenso continente. É o terceiro continente mais extenso (depois da Ásia e das Américas) com cerca de 30 milhões de quilômetros quadrados, cobrindo 20,3 % da área total da terra firme do planeta.

Possui 53 países independentes, sendo dois arquipélagos (Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) e a ilha de Madagascar.

É também o segundo continente mais populoso da Terra (depois da Ásia) com cerca de 900 milhões de indivíduos de diferentes origens étnicas, com diferentes culturas e línguas próprias.

Calcula-se que são faladas aproximadamente 2.000 línguas no continente africano.

Logo, a África é um continente pluriétnico, multicultural e multilingue.

O continente africano.

africano. Logo, a África é um continente pluriétnico , multicultural e multilingue . O continente africano.

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2.1. As várias Áfricas

Geograficamente, a África pode ser dividida em cinco grupos, que são a África setentrional ou do Norte, a África Ocidental, a África Central, a África Oriental e a África Meridional.

África do Norte ou Setentrional: como o próprio nome já diz, é a área situada ao norte do continente e que é banhada pelo Mar Mediterrâneo, em sua maioria, fazendo parte desta região seis países: Argélia, Egito, Líbia, Marrocos, Saara Ocidental e Tunísia. Também não se pode esquecer que ao sul desta região se encontra o deserto do Saara.

África Ocidental: é uma região muito confusa do ponto de vista político. São quinze nações que dividem um espaço caracterizado por áreas desérticas (Saara, ao norte) e florestas tropicais: Benin, Burkina Faso, Cabo Verde, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo. Em sua economia local, a exploração de petróleo destaca-se com uma atividade bem atraente para os países.

África Central: Oito países fazem parte desta região, destacada por grandes florestas tropicais em razão de estar na latitude zero do globo a linha do equador: Camarões, Congo, Gabão, Guiné Equatorial, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, São Tomé e Príncipe e Chade.

África Oriental: também conhecida como ―Chifre da África‖, por sua forma física do extremo leste africano, encontram-se dez países bem distintos, tantos nos aspectos físicos como humanos: Burundi, Djibuti, Eritréia, Etiópia, Quênia, Ruanda, Somália, Sudão, Tanzânia e Uganda. É na divisa entre Uganda, Tanzânia e Quênia que existe o lago Vitória, que é considerado a nascente do rio Nilo.

África Meridional: o extremo sul africano é marcado pelas profundas diferenças existentes entre os onze países que o compõe: África do Sul, Angola, Botsuana, Lesoto, Madagascar, Malauí, Moçambique, Namíbia, Suazilândia, Zâmbia e Zimbábue. Observa-se uma grande diversidade natural neste espaço, em razão de possuir grandes vales férteis e vastos desertos como o Kalahari, sendo no delta do Okavango (Botsuana) onde acontece uma das maiores e mais impressionantes migrações do mundo, a dos gnus.

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Do ponto de vista etnolinguístico, é preciso lembrar que são faladas aproximadamente duas mil línguas no continente africano. Entretanto, por grandes quantidades delas serem aparentadas (descendendo de um mesmo tronco linguístico), pode-se dividir o continente de acordo com cinco grandes famílias: Afroasiática, Nilo-saariana, Níger-congo, Coissã e Austronésia.

Mapa etnolinguístico da África

Coissã e Austronésia. Mapa etnolinguístico da África Família Afroasiática : Falada no norte da África e

Família Afroasiática: Falada no norte da África e em parte do sahel, era chamada anteriormente de hamito-semíticas. São cerca de 300 línguas com mais de 20 milhões de falantes. Foram introduzidas na África no séc. VII, com as invasões Islâmicas. Inclui as línguas do grupo semítico (árabe/amárico), cuxítico (somali), chádico (hauçá) e berbere (regiões desérticas).

Família Nilo-saariana: Compreende uma centena de línguas com 30 milhões de falantes. Faladas em territórios do Nilo: Sudão (Nuer), Etiópia, Quênia e Tanzânia (Massai) e Uganda (Padola).

Família Níger-congo: É a maior família lingüística do mundo. Na África é a maior em área geográfica, quantidade de falantes e número de línguas distintas. São cerca de 1.500 línguas com mais de 400 milhões de falantes. Estão concentradas em toda a extensão da África subsaariana. Possui dois importantes subgrupos: Oeste-africanas (antigas sudanesas) do Senegal à Nigéria e Banto em toda a extensão dos territórios subequatoriais, com

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centenas de línguas provenientes de um tronco lingüístico comum, o protobanto, que se supõe ter sido falado há três milênios atrás. Esta é a família que nos interessa mais diretamente e que voltaremos a analisar em maior profundidade a posteriori.

FAMÍLIA

GRUPO

LÍNGUAS

SÉCULO DE

 

LINGUÍSTICO

REGISTRO

LOCALIZAÇÃO

 

BANTO

Congo-Angola

XVII ao XIX

Salvador (Ba.)

 

Ewe-fon ou mina-jeje

XVIII

Zona de mineração Minas Gerais

Nagô-iorubá

XIX

Centro urbano Salvador (Ba.)

NÍGER-

   

Centro urbano Salvador (Ba.) minoritária

CONGO

OESTE

Tapa ou nupe

XIX

AFRICANAS

Fulani

XIX

Centro urbano Salvador (Ba.) minoritária

Grunce

XIX

Centro urbano Salvador (Ba.) minoritária

AFRO-

AFRO-ASIÁTICA

   

Centro urbano Salvador (Ba.) minoritária

ASIÁTICAS

Hauçá

XIX

Família Coissã: É a menor das famílias lingüísticas africanas. O nome da língua deriva do nome dos seus falantes: os povos KHOI (hotentotes) e SAN (bosquímanos). É composta de aproximadamente 40 línguas com cerca de cem mil falantes concentrados no deserto de Kalahari e países do sudeste africano (Angola, Namíbia, Botsuana e África do Sul e numa pequena parte da Tanzânia). Evidências arqueológicas sugerem que os coissã (ou khoisan) apareceram na África meridional há cerca de 60.000 anos atrás. Assim, as línguas khoisan podem estar entre as mais antigas da humanidade. Caracterizam-se pela presença dos “cliques”.

Família Austronésia: Esta família é falada no sudeste asiático e no Pacífico. Sua presença aqui é explicada pelo simples fator da proximidade geográfica da Ilha de Madagascar, onde é falada, com o continente africano. Por não termos laços históricos com Madagascar, não entraremos em maiores detalhes sobre essa família.

É importante, para a desconstrução de equívocos, frisar que não mais se usam os termos África “branca” (do Norte) e África “negra” (ao sul). Essa terminologia caiu em desuso, não só pelas evidentes implicações racistas e segregacionistas, como também por descobertas científicas que atestam que nem todos os povos do continente de são de origem negróide, independentemente da cor de sua pele ou da sua localização geográfica.

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3. ÁFRICA: BERÇO DA HUMANIDADE E DO CONHECIMENTO

No livro A Descendência do Homem e a Seleção Sexual, publicado em 1871, Charles Darwin escreveu o seguinte: “Em cada grande região do mundo, os mamíferos existentes relacionam-se de modo estreito com as espécies extintas da mesma área. É provável, portanto, que a África tenha sido, no passado, habitada por macacos extintos intimamente ligados ao gorila e ao chimpanzé; e, como essas duas espécies são hoje as mais afins do homem, é mais provável que nossos primitivos ancestrais vivessem no continente africano do que em qualquer outro lugar”. (SILVA, 1992)

Quase cento e cinquenta anos depois, todos os indícios científicos disponíveis levam a crer que foi, de fato, no continente africano que a espécie humana evoluiu, tendo seus ancestrais mais longínquos surgido há cerca de cinco milhões de anos.

É na África que os mais antigos fósseis dos ancestrais do homem foram encontrados e

é o único continente que exibe evidências da presença humana durante todas as etapas-chave da sua evolução.

Técnicas científicas, que vão desde a identificação de fósseis, datação com carbono e análise de DNA, tudo apóia o conceito de que a África, e em particular as regiões leste e sul, é

o berço da humanidade.

Um dos antepassados mais imediatos dos humanos modernos, o Homo erectus, viveu entre 500 mil e 1,5 milhões de anos atrás e é com esta espécie que nós vemos os primeiros sinais de atividade de caça organizada em torno de comunidades. Eles tinham a tendência a viver perto de fontes de água - ao longo das margens dos rios ou lagos. Hoje em dia, a maioria dos estudiosos apóia a teoria de que foi o Homo erectus que partiu da África para povoar o planeta.

Com base nas evidências encontradas em um dos mais importantes sítios geológicos da África, Olduvai Gorge, na Tanzânia, sabemos que eles construíram pequenas estruturas feitas de galhos de árvores como abrigo.

Em Olduvai, foram descobertos restos de uma estrutura de pedra talvez a base de uma cabana circular datados muito provavelmente de 1.800.000 anos.

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Muitas das evidências do provável modo de vida destes primeiros assentamentos vêm do estudo de comunidades como os khoisan do Botswana, que ainda conservam alguns elementos do estilo de vida de caçadores/coletores.

É importante frisar que os Khoisan (bosquímanos ou hotentotes), formados pelos povos Khoi-khoi e San, são “a mais antiga linhagem conhecida do homem moderno, importantes para se compreender a diversidade humana” 1 . O seu DNA contém mais de um milhão de variações que até agora não se conhecia 2 . Este povo milenar possui características não negróides.

. Este povo milenar possui características não negróides. África: alguns dos sítios arqueológicos mais importantes

África: alguns dos sítios arqueológicos mais importantes de hominídeos.

dos sítios arqueológicos mais importantes de hominídeos. Os Khoi San 1 Revista “Nature”, n° 646, de

Os Khoi San

1 Revista “Nature”, n° 646, de Março de 2010

2 http://www.nature.com/nature/journal/v463/n7283/full/nature08795.html

21

3.1. De coletores a caçadores/fazendeiros e inventores

Quanto à caça, os primeiros seres humanos tendiam a buscar animais pequenos, como roedores, e usar paus para matá-los. Eles evitavam o ataque a animais maiores, como zebras, girafas ou elefantes, esperando que eles fossem mortos por outros animais ou morressem de causas naturais.

Em meados da idade da pedra e depois - entre 150 e 40.000 anos atrás - os seres humanos tinham desenvolvido ferramentas mais sofisticadas, formando pontas de pedra para usar como pontas de lança e desenvolvido o arco e a flecha. As lanças podiam ser embebidas com um veneno vegetal. Eles também fabricaram uma ampla gama de instrumentos feitos de ossos que foram usados como agulhas e anzóis.

É difícil situar com precisão o início das habilidades técnicas dos hominídeos;

podese, quando muito, sugerir que tenha aparecido durante o Pleistoceno, talvez como uma

resposta adaptativa, chave do processo de diferenciação do gênero Homo.

Durante o Pleistoceno Inferior, por volta de 1.600.000 anos atrás, apareceram instrumentos bifaces rudimentares. Sua evolução a partir do seixo lascado pode ser acompanhada em Olduvai e é confirmada por descobertas feitas em outros sítios do leste da África. (KI-ZERBO, 2010)

O continente africano, além de ser o berço da humanidade, é também o das civilizações (FONSECA, 2004, p. 60), muito embora essa afirmação possa ser contestada pela definição de civilização e pela situação geográfica dada pela New Columbia Encyclopedia (NASCIMENTO, 1975, p. 565):

é aquele complexo de elementos culturais que primeiro

apareceram na história humana, entre 8 mil e 6 mil anos passados. Nessa época, baseada na agricultura, criação de gado e metalurgia, começou a aparecer a especialização ocupacional extensiva nos vales do rios do sudoeste da Ásia (Tigre e Eufrates). Apareceu lá também a escrita, bem como agregações urbanas bastante densas que acomodavam administradores, comerciantes e outros especialistas.

] [

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Porém, Nascimento (1996, p. 42) nos diz que “está cada vez mais comprovada a anterioridade da evolução do continente africano dos elementos citados (agricultura, criação de gado, metalurgia, especialização ocupacional) que convergem no desenvolvimento da civilização”.

Deu-se na África a primeira revolução tecnológica da humanidade, a passagem da caça e da coleta de frutos e raízes para a agricultura e a pecuária. A agricultura africana, no vale do rio Nilo, tem aproximadamente 18 mil anos, sendo duas vezes mais antiga do que no Sudoeste Asiático. A pecuária aparece a 15 mil anos, perto da atual Nairóbi (Quênia), como uma técnica sofisticada de domesticação de animais que deve ter-se espalhado para os vales dos rios Tigre e Eufrates séculos depois (NASCIMENTO, 1996, p. 42).

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4. A ESCRITA E AS CIÊNCIAS AFRICANAS

A noção de fonte escrita é tão ampla que chega a se tornar ambígua. Se entendermos como escrito tudo o que serve para registrar a voz e o som, seremos forçados então a incluir no testemunho escrito as inscrições gravadas na pedra, disco, moeda… em suma, toda mensagem que fixa a linguagem e o pensamento, independentemente de seu suporte (DAIN, 1961, p. 449).

As diferentes etnias africanas utilizaram veículos diversos para propagar seu saber e sua visão de mundo para as gerações futuras. As sociedades subsaarianas optaram pela transmissão oral, uma de suas marcas culturais. No entanto, as populações africanas próximas ao deserto do Saara e do Sudão legaram a escrita à humanidade. Os sistemas de escrita dos akan e dos mandingas originaram a escrita egípcia e meroítica. Hoje está comprovado que a escrita dos faraós veio do Sudão (NASCIMENTO, 1996, p. 42).

Ao ser decifrada, em 1787, a Pedra de Roseta, que é uma inscrição com hieróglifos egípcios e outras línguas antigas conhecidas, comprovou-se que quase todo o conhecimento científico, religioso e filosófico da Grécia antiga teve origem no Egito (África). Elisa L. Nascimento informa que Sócrates, Platão, Tales de Mileto, Anaxágoras e Aristóteles estudaram com sábios africanos. O saque empreendido no continente africano e a destruição da Biblioteca de Alexandria encobriram um processo de apagamento e de descrédito dos conhecimentos africanos, tornando-os exóticos, místicos e míticos. Elisa L. Nascimento também menciona a citação do conde Constantino Volney, membro da Academia Francesa:

Lembrei-me da notável passagem onde diz Heródoto: ―E quanto a mim, julgo ser os colchianos uma colônia dos egípcios porque, iguais

a estes, são negros de cabelo lanudo‖. Em outras palavras, os antigos egípcios antigos eram verdadeiros negros, do mesmo tipo que todos

Pensem só, que esta raça de negros, hoje

nossos escravos e objeto de nosso desprezo, é a própria raça a quem

os nativos africanos. [

]

devemos nossas artes, ciências e até mesmo o uso da palavra! (apud NASCIMENTO, 1996, p. 43).

Um dos grandes historiadores africanos, Cheikh Anta Diop, em sua obra prima The African Origin of Civilization: Myth of Reality, refuta o mito do Egito como uma nação branca e mostra suas origens ao sul do continente. É sua intenção provar que, através da

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civilização egípcia, a África tinha feito a mais antiga e uma das contribuições mais significativas para a cultura mundial.

Entretanto, este não é um argumento novo que começou com a geração de africanos como Cheikh Anta Diop. O historiador ganense, Joseph B. Danquah, em sua introdução ao livro, United West Africa at the Bar of the Family of Nations, por Ladipo Solanke, publicado em 1927, apenas quatro anos depois que Cheikh Anta Diop nasceu, disse exatamente a mesma coisa. Ele diz:

"Enquanto Alexandre, o Grande estava varrendo o mundo civilizado com conquista após conquista de Queroneia a Gaza, da Babilônia a Cabul, no momento em que os primeiros conquistadores arianos estavam aprendendo os rudimentos da guerra e de governo aos pés do filósofo Aristóteles, e no momento em que Atenas estava estabelecendo as bases da civilização européia, a mais antiga e imponente cultura etíope já havia florescido e dominado o mundo civilizado há mais de quatro séculos e meio. O Império Etíope (Abissínia) já havia conquistado o Egito e fundado a XXV Dinastia, e durante um século e meio o centro da civilização do mundo conhecido, foi dominado pelos antepassados do negro moderno, mantendo-o e defendendo-o contra os impérios assírios e persas do Oriente. Assim, no momento em que a Etiópia estava liderando o mundo civilizado em cultura e conquista, o Oriente era o Oriente, mas Ocidente não era nada, e a primeira Olimpíada européia (grega) ainda estava para ser realizada. Roma não existia no mapa, e dezesseis séculos se passaram antes que Carlos Magno dominasse a Europa e Egberto se tornasse o primeiro rei da Inglaterra. Mesmo assim, a história se arrastou por mais 700 longos e cansativos anos, antes que a Europa Católica Romana achasse melhor acabar com o Grande Cisma, logo a ser seguida pela notícia perturbadora da descoberta da América e do fatídico renascimento da mais jovem das civilizações do mundo.

Ao longo da história, as contribuições das diversas nações africanas para o desenvolvimento cultural, econômico, político, científico e tecnológico da humanidade são

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vastas e complexas, muito embora o reconhecimento desse fato seja prejudicado pela perspectiva preconceituosa que o Ocidente e sua área de influência cultural e científica nutram em relação ao continente africano. Essa cultura do norte da África tem sido extremamente importante para toda a humanidade até os dias de hoje, particularmente pelos conhecimentos que ainda revela.

O conhecimento tecnológico estava presente em diversos ambientes culturais e sociais

da África antiga. O saber médico e sanitário, os cálculos matemáticos e o universo astronômico foram, em graus diferenciados, originários daquele continente. A medicina egípcia, por exemplo, tinha seu conhecimento a partir dos experimentos e estudos voltados para o interior do organismo humano, elaborado em função da prática da mumificação, do embalsamamento do corpo dos faraós e de pessoas influentes desta sociedade. Desse modo, se a medicina tem um pai, é o cientista clínico egípcio Imhotep, que, por volta de 3.000 anos antes de Cristo, já aplicava os conhecimentos médicos e de cirurgia (SOUZA e MOTTA, 2003; NASCIMENTO, 1996).

O conhecimento médico não esteve situado apenas no norte africano. Na região que

hoje compreende Uganda, país da África Central, encontramos o saber antigo dos Banyoro, que já faziam a cirurgia de cesariana antes do ano de 1879 quando o Dr. R. W. Felkin, cirurgião inglês, conheceu essa técnica com extrema eficácia e recorriam à assepsia, anestesia, hemostasia e cauterização. O conhecimento médico-cirúrgico, antigo e tradicional na África, também operava os olhos, removendo as cataratas. Essa técnica foi encontrada no Mali e no Egito, bem como, a cerca de 4.600 anos atrás, neste último país mencionado, já se fazia a cirurgia para a retirada dos tumores cerebrais (NASCIMENTO, 1996, p. 26). Os Banyoro também detinham havia séculos o conhecimento da vacinação e da farmacologia logo, as técnicas médicas e terapêuticas africanas não estavam voltadas somente para o mundo mágico, mas incorporavam conhecimento científico para a observação atenta do paciente (NASCIMENTO, 1996, p. 27).

Diversos foram os povos africanos que lidaram com a metalurgia há milhares de anos.

A matemática, a geometria e a engenharia têm na África um conhecimento antigo. As

pirâmides do Egito, por exemplo, revelam isso, na medida em que se projetou um monumento para durar ao longo do tempo, que foi construído há 2.700 anos antes de Cristo, com ângulos

de 0,7°. Os iorubás também detinham conhecimentos tradicionais, isto é, constituídos

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segundo os seus valores culturais e simbólicos transmitidos às novas gerações de modo oral e escrito. As diversas culturas, etnias e nações africanas, baseadas em múltiplos de 20, conceberam, assim, os cálculos matemáticos.

O conhecimento astronômico também era uma área de elevado saber dos africanos. O conhecimento dos dogons 3 , no Mali, em relação à astronomia é antigo. Há dados que informam que eles conheciam, desde há cinco ou sete séculos antes da Era Cristã, o sistema solar, a Via Láctea com sua estrutura espiral, as luas de Júpiter e os anéis de Saturno. Já compreendiam que o universo é habitado por milhões de estrelas e que a Lua era deserta e inabitada, sendo refletida pelo sol à noite (SOUZA e MOTTA, 2003; NASCIMENTO, 1996).

Diversos foram os povos africanos que lidaram com a metalurgia há milhares de anos. Citemos como exemplo as desenvolvidas por volta de 2.000 anos passados pelos hayas, 4 que “produziam aço em fornos que atingiam temperaturas mais altas em duzentos a quatrocentos graus centígrados do que eram capazes os fornos europeus até o séc. 19” (SOUZA e MOTTA, 2003, p. 40-1).

O conhecimento naval africano era antigo. Os antigos egípcios construíram navios com estruturas de papiro ou madeira costurada que lhes possibilitava navegar para diversas partes do mundo. Desde o ano de 2600 a.C., elaboravam navios de grande porte, com capacidade superior à das naus européias que chegaram a América mais de dois milênios depois. Já nessa época utilizavam o remo e a vela, enquanto as caravelas de Cabral e de Colombo dependiam exclusivamente do vento.

Vale ressaltar que os africanos conheciam as rotas marítimas, o que chamavam de “rios no meio do mar”. Essas teorias africanas propiciaram que, em 1964 e 1965, o norueguês Thor Heyerdahl mostrasse na prática esses caminhos no meio do mar, já conhecidos havia milênios pelos africanos.

3 Um grande mistério cerca a vida dos dogons, povo de ascendência egípcia, ao que se acredita. Depois de saírem da Líbia, há milênios, fixaram-se na falésia de Bandiagara, no Mali (África Ocidental), levando consigo informações sobre o cosmo que remontam ao Egito pré-dinástico, anterior a 3200 a.C. 4 Povo do grupo linguístico Banto de uma região da Tanzânia.

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5. OS GRANDES REINOS E IMPÉRIOS AFRICANOS

27 5. OS GRANDES REINOS E IMPÉRIOS AFRICANOS Há mais de 150 mil anos, a única

Há mais de 150 mil anos, a única parte do mundo em que viviam seres morfologicamente iguais aos homens de hoje era a região dos Grandes Lagos, nas nascentes do Nilo.

Contra todas as expectativas e a despeito de todas as oposições, existem, cada vez mais, provas científicas de que foi desse lugar que o homem partiu para povoar o resto do mundo. Disso resultam dois fatos de capital importância: (a) teoricamente, os primeiros homens tenderiam a ser etnicamente homogêneos e negróides. A lei de Gloger, que parece ser aplicável também aos seres

humanos, estabelece que os animais de sangue quente, desenvolvendose em clima quente e

úmido, secretam um pigmento negro para proteção da pele (melanina). Portanto, se a humanidade teve origem nos trópicos, em tomo da latitude dos Grandes Lagos, ela certamente apresentava, no início, pigmentação escura, e foi pela diferenciação em outros climas que a matriz original se dividiu, mais tarde, em diferentes variações de pigmentação cutânea; (b) havia apenas duas rotas através das quais esses primeiros homens poderiam se deslocar, indo povoar os outros continentes: o Saara e o vale do Nilo. E esta última região que será discutida aqui. A partir do Paleolítico Superior até a época dinástica, toda a bacia do rio foi progressivamente ocupada por esses povos negróides.

Não é de se estranhar que seja esse lugar também o berço das primeiras grandes civilizações. Grandes Reinos e Impérios poderosos se espalharam por todo o continente africano, deixando legados e riquezas que são hoje Patrimônios da Humanidade.

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Iremos abordar aqui apenas alguns deles, especialmente aqueles que têm ligação mais direta com a nossa história.

5.1. O Grande Império Egípcio

Cerca de 5.000 a.C., os antigos egípcios começam a usar textos para acompanhar os seus mortos, sendo estes os mais antigos documentos escritos conhecidos. Os antigos egípcios, que chamavam a sua terra Kemet (Terra dos negros) e Ta-Meri (Amada Terra), eram principalmente agricultores que, com a prática de irrigação e da criação de animais, transformaram o Vale do Nilo em uma vibrante economia de produção de alimentos. Seu estilo de vida sedentário lhes permitiu desenvolver técnicas na fabricação de vidro, cerâmica, metalurgia, tecelagem, madeira, couro e alvenaria. Neste último ofício, antigos praticantes egípcios destacaram-se na arquitetura, como atestam as pirâmides.

Esta admirável civilização africana durou 3.000 anos. Seu legado à humanidade não se

restringe a técnicas de construção, que facilitaram a construções das monumentais pirâmides, templos e obeliscos, mas também a um sistema de matemática, um sistema prático e eficaz da medicina, a sistemas de irrigação e técnicas de produção agrícola, aos primeiros navios conhecidos, à porcelana egípcia e tecnologia com vidro, além de novas formas de literatura e

o mais antigo tratado de paz conhecido.

5.2. O Reino de Kush

O Egito antigo estabeleceu constantes relações com os povos vizinhos, muitas vezes impondo uma situação de domínio. Entre 2600 a.C. e 1700 a.C., por exemplo, manteve sob controle as sociedades da região da Núbia, onde hoje se localizam o Sudão e a Eritréia.

A partir de 1700 a. C., porém, os núbios construíram uma sociedade autônoma, capaz de fazer frente aos poderosos egípcios. Conhecida como Império Kush, essa sociedade reunia uma população predominantemente urbana, com a presença de um pequeno grupo de letrados

e dominavam técnicas avançadas de metalurgia. Tinha sua capital na cidade de Napata.

Segundo pesquisadores, o Primeiro Império Kush sobreviveu por 200 anos, período em que foi governado por oito soberanos. Por volta de 1500 a.C., os egípcios antigos voltaram

a dominar a região. Com isso, parte da aristocracia local se transferiu para a cidade de Meroé, mais ao sul, no atual Sudão.

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Na área, por volta de 1100 a.C., os descendentes dessa aristocracia ergueram o que ficou conhecido como Segundo Império Kush.

Em 750 a.C. invadiram o Egito antigo, de onde foram expulsos pelos assírios, em 663 a.C. Nessa época, governado por um soberano, acredita-se que o Império Kush reunia cerca de 500 mil habitantes.

A principal atividade econômica era o comércio, sobretudo intermediando o fluxo de

mercadorias entre a África subsaariana e as sociedades próximas ao mar Mediterrâneo.

A partir do século 2 a.C., foi criado um sistema de escrita Meroítica separada dos

hieróglifos egípcios utilizados anteriormente. Esta composição alfabética possuía 23 sinais utilizados de forma hieroglífica (principalmente na arte de monumentos) e em forma cursiva. Este alfabeto foi amplamente utilizado, tanto que, até agora, cerca de 1278 textos usando esta versão são conhecidos (Leclant 2000). A escrita foi decifrada por Griffith, mas a linguagem por trás dela ainda é um problema, com apenas algumas palavras entendidas pelos estudiosos modernos. Até o momento, não foi ainda possível ligar o idioma Meroítico a outras línguas conhecidas. A partir do século IV d.C., não há mais registros da permanência do Império Kush que, ao que tudo indica, foi dominado pelo Império Axum.

5.3. O Império de Axum

Entre os séculos V a.C e IV a.C, habitantes da península Arábica se estabeleceram na região onde fica a Eritréia e o norte da Etiópia, na costa do mar Vermelho. Aí fundaram a cidade de Aksum, que se tornou a capital de um grande império, graças às riquezas conquistadas com o comércio.

O império de Axum se consolidou no século I d.C. e atingiu seu apogeu três séculos

depois, quando provavelmente anexou o Império Kush. Nessa época, seu território compreendia o norte da atual Etiópia, todo o atual Sudão e até mesmo alguns territórios na península Arábica.

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Axum era século 10.

uma potência naval e comercial que governou

a região de 400 a.C. até

o

Assim, junto à costa do mar Vermelho, os axumitas, como eram conhecidos, se estabeleceram como um dos principais povos mercadores de toda a Antiguidade. Arqueólogos encontraram no lugar objetos vindos do Mediterrâneo e até mesmo da China antiga.

Todo o tráfico mercante feito entre Roma e a Índia passava necessariamente pelo mar Vermelho e, consequentemente, por Axum. A cidade logo se transformou no mais importante centro comercial de chifres de rinoceronte e de marfim, materiais indispensáveis ao luxo da sociedade romana.

Toda essa movimentação comercial está expressa na cunhagem de moeda própria, em ouro, prata ou bronze. A população se concentrava principalmente em. Suas edificações eram construídas ao redor dos edifícios ao poder central.

A princípio, os axumitas eram politeístas e faziam cerimônias religiosas relacionadas à agricultura, à criação de animais e à grandiosidade do império. No século IV d.C., entretanto, adotaram o cristianismo como religião.

Os pesquisadores acreditam que muitos dos aspectos que marcaram o desaparecimento do império estão relacionados à adoção do cristianismo. Isso teria estremecido as relações com os povos vizinhos, que professavam outras religiões, principalmente o Islamismo. As ruínas da cidade de Axum incluem obeliscos monolíticos, estelas gigantes, túmulos reais e antigos castelos. Por estas razões, as ruínas da cidade foram inscritas pela UNESCO, em 1980 na lista de Patrimônio Mundial da Humanidade.

5.4. A Cultura Nok

Em 1943, cacos de barro foram descobertos durante operações de mineração de cassiterita nas encostas sul e oeste do Planalto de Jós, na Nigéria. Quando reconstituídas descobriu-se que se tratava de representações de cabeças humanas e de animais. No momento não estavam presentes arqueólogos na região e as obras de reconstrução foram realizadas por historiadores de arte. A interferência causada pelas operações de mineração fez com que as descobertas não pudessem ser datadas com precisão.

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Descobertas similares foram feitas em uma grande região do planalto, estendendo-se

500 km de leste a oeste e 300 km de norte a sul. Ambas, as esculturas de terracota e da

sociedade que os fez, são conhecidas pelo nome da aldeia perto da qual a primeira descoberta foi feita: Nok.

Desde 1943 estudos arqueológicos, especialmente nos dois importantes sítios arqueológicos de Taruga e Dukiya Samun, forneceram informações mais precisas. A cerâmica foi datada, principalmente por ensaios de termo-luminescência e datação de rádio-carbono, a um período de 500 a.C. a 200 d.C. Além das esculturas de terracota Nok, cerâmica doméstica, machados de pedra e outras ferramentas, além de utensílios de ferro têm sido descobertos. A Cultura Nok transcorreu do final do Neolítico (Idade da Pedra) ao início da Idade do Ferro na África subsaariana.

Evidências arqueológicas nos dois locais sugerem que estes foram assentamentos permanentes, e centros de agricultura e indústria - esta é a mais antiga evidência de uma sociedade organizada na África subsaariana.

A fundição de ferro e forja de ferramentas tornou-se difundida na região por volta de

350 a.C.

As terracotas da cultura Nok são consideradas como a prova cabal das civilizações pré-coloniais na África subsaariana, e se sugere que a sociedade eventualmente evoluiu para tornar-se o Reino Iorubá de Ifé. Mais tarde, esculturas de bronze e terracota de Ifé e Benin mostram semelhanças significativas no seu refinamento com aquelas encontradas na cultura Nok.

5.5. Os Impérios da África Ocidental

Mais de três mil anos atrás ocorreram dois acontecimentos importantes na África Ocidental: o comércio de longa distância, e a habilidade de trabalhar a pedra, o barro e metais de modo bastante sofisticado.

Neste contexto, surgiu uma série de reinos e impérios do século V até o século XVI. Em comum a todos estes grandes impérios havia o intenso comércio trans-saariano com o Norte, grandes exércitos permanentes e um eficaz sistema de tributação.

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No século XIII o Reino do Mali surge, sob a liderança de Malinké Sundiata para se tornar conhecida em todo o mundo árabe por sua riqueza e seu conhecimento. Cem anos mais tarde entrou em declínio e se tornou o alvo dos ataques dos Tuareg e o Reino do Songai então assumiu o território, em tamanho reduzido, sob a liderança de Askiya Mohammed. O comércio foi reaquecido, assim como Timbuktu como um grande Centro de aprendizagem. O Songai permaneceu no controle até a invasão marroquina.

Por volta do século XVIII a parte norte da África Ocidental era uma colcha de retalhos de cidades-estados e reinos; mais ao sul o Reino dos Asante (na moderna Gana) entrou em evidência. No início do século XIX reformadores muçulmanos mudaram a paisagem política de grande parte da África Ocidental, sobretudo onde é hoje o norte da Nigéria, sob a liderança de Usman dan Fodio.

5.5.1. O Império do Gana

Apesar da sua denominação, o antigo Império do Gana não é geograficamente, etnicamente, ou de qualquer outra maneira, relacionado ao moderno Estado de Gana. Localizava-se a cerca de 1.000 km. a noroeste da atual Gana. O antigo Império do Gana ocupava o que hoje é o norte do Senegal e o sul da Mauritânia.

O Império do Gana se formou a partir da união dos povos Soninke. Primeiro dos três

grandes estados Oeste Africanos (surgido a partir de 300 d.C.), Gana teve exércitos equipados com cavalaria e armas de ferro e tornou-se monopolista no comércio do sal e do ouro, controlando as rotas que se estendiam desde o Marrocos de hoje, no norte, ao lago Chade e à Núbia/Egito, no leste, e às florestas costeiras da África Ocidental, no sul. No início do século

XI, os conselheiros da corte, bem como a maioria dos nobres de Gana, eram muçulmanos.

O que se sabe é que o poder e a riqueza do Império do Gana derivava do ouro. E, com

a introdução dos camelos no comércio trans-saariano, houve um incremento enorme na

quantidade de bens e produtos que podiam ser transportados.

Grande parte do que sabemos sobre este suntuoso Império é através dos textos de escritores árabes. Al-Hamadi, por exemplo, descreve Gana como tendo as minas de ouro mais ricas do mundo. Estas estariam situadas em Bambuk, às margens do Alto Rio Senegal. Os Soninke também vendiam escravos, sal e cobre em troca por têxteis, contas e produtos

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manufaturados. A sua capital, Kumbi Saleh, era o centro de todo o comércio, com uma eficiente forma sistematizada de taxação.

Inevitavelmente, os comerciantes árabes trouxeram consigo o islamismo. Inicialmente, a comunidade islâmica de Kumbi Saleh, permaneceu afastada do Palácio Real. Tinha suas próprias mesquitas e escolas. Entretanto, o rei mantinha suas antigas crenças. Ele utilizou as capacidades literárias e contábeis dos sábios muçulmanos para ajudá-lo na administração do Império.

Um nobre mouro que vivia na Espanha, chamado al-Bakri, questionou os comerciantes que visitaram o império no século XI e escreveu que Kumbi Saleh era uma grande metrópole. Segundo sua descrição da cidade, escrita em 1067/1068, a capital era, na verdade duas cidades distantes 10 km. entre si, ligadas por uma estrada. Mas "entre estas duas cidades existem habitações contínuas", donde se pode concluir que se fundiram em uma só. al-Bakri observa ainda que "as casas dos moradores são de madeira de acácia e de pedra."

Houve uma série de razões para o declínio de Gana. O rei perdeu o monopólio comercial. Ao mesmo tempo, a seca estava começando a ter um efeito a longo prazo sobre a terra e sua capacidade de sustentar o gado e cultivo. Mas o Império do Gana também estava sob pressão de forças externas.

Alguns estudiosos afirmam que os Almorávidas, muçulmanos do Norte, invadiram Gana. Outra interpretação é que a influência Almorávida foi gradual e não envolveu qualquer tipo de golpe militar.

Nos séculos XI e XII, novas minas de ouro começaram a ser exploradas em Bure (na Guiné atual), fora do alcance comercial do Gana, e novas rotas comerciais estavam sendo abertas mais a leste. Gana tornou-se alvo de ataques por parte do governante dos Sosso, Sumanguru. Fora deste conflito, o Malinké surgiu em 1235 sob um novo governante dinâmico, Sundiata Keita. Logo Gana foi totalmente dominada pelo Império do Mali, de Sundiata.

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5.5.2. O Império do Mali

O Império do Mali ou Império Mandinga, que dominou a região entre os séculos XIII

e XIV, funcionou como modelo de governo para reinos posteriores após o seu declínio, nos

séculos XV e XVI.

Este império foi o segundo mais extenso de três impérios consecutivos, incluindo o do Gana (700-1240) e o do Songhai (séculos XV-XVI).

O império foi fundado por Sundiata Keita e tornou-se famoso pela riqueza dos seus

governantes, especialmente Mansa Musa I. O Império do Mali tinha profundas influências culturais na África Ocidental, permitindo a difusão de sua língua, leis e costumes ao longo do rio Níger. O império Mali estendeu-se sobre uma grande área e contou com numerosos reinos

vassalos e províncias.

Encontrava-se estrategicamente colocado junto de minas de ouro e de campos férteis para a agricultura próximos do rio Níger.

Sundiata Keita subiu ao poder ao derrotar o rei do Sosso - Sumanguru, conhecido como o Rei Bruxo, em 1235. Ele, então, trouxe uniu os governantes dos clãs dos povos mandinga (ou Mansas) sob sua liderança, declarando-se o maior dos Mansa. Tomou Timbuktu dos tuaregues, transformando-a em uma cidade importante, um centro comercial e acadêmico.

Uma parte significativa da riqueza do Império derivava das minas de ouro de Bure. A primeira capital, Niani, foi construído próxima a essa área de mineração.

O Império do Mali tinha cerca de 2.000 quilômetros de largura. Ia da costa da África

Ocidental, acima do Rio Senegal e abaixo do rio Gâmbia, ocupando todo o antigo território do Império do Gana de idade, e atingindo a sudeste Gao e a nordeste Tadmekka.

O ouro não era o seu único sustentáculo. O Mali também adquiriu o controle do comércio do sal. A capital, Niani estava situada na rica planície de inundação, própria para a agricultura, no alto Níger, com pastagens bem mais ao norte. Uma classe de comerciantes profissionais surgiu no Mali. Alguns eram de origem mandinga, outros eram Bambara, Soninke e depois Dyula. Ouro em pó e produtos agrícolas eram exportado para o norte. No

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século XIV, búzios foram estabelecidos como uma forma de moeda para fins comerciais e fiscais.

como uma forma de moeda para fins comerciais e fiscais. Os Impérios da África Ocidental O

Os Impérios da África Ocidental

O Mali atingiu o seu auge no século XIV. Três governantes se destacaram nesse período. O primeiro, Abubakar II, ficou na história como o rei que quis atravessar o Oceano Atlântico.

O segundo, Mansa Musa, relata o episódio a Al-Umari, um erudito da Síria:

"Então, Abubakar abasteceu 200 navios cheios de homens e igual número com ouro, água e provisões, o suficiente para durar por

anos

eles partiram e passaram um longo tempo antes que alguém

voltasse. Então, um navio retornou e perguntamos ao capitão quais

eram as notícias que traziam.

Ele disse: 'Sim, ó Sultão, viajamos por um longo tempo até que

os

outros navios foram em frente, mas quando chegaram àquele local,

não retornaram e nada mais foi visto deles imediatamente e não entrei no rio. "

Quanto a mim, eu voltei

apareceu em mar aberto um rio com uma poderosa corrente

O sultão preparou 2.000 navios, 1.000 para si e para os homens a quem ele levou com ele, e 1.000 para água e provisões. Ele me deixou para substituí-lo e embarcou no Oceano Atlântico com os seus

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homens. Essa foi a última vez que o vimos e a todos aqueles que estavam com ele.

E assim, tornei-me rei do meu próprio direito. "

O sucessor de Abubakar II, Mansa Musa (1312-1337) foi imortalizado nas descrições dos escritores árabes, quando fez sua magnífica peregrinação à Meca, em 1324.

Segundo o historiador egípcio al-Maqurizi “Conta-se que ele levou consigo 14 mil escravas para seu serviço pessoal. Os membros de sua comitiva passaram a comprar escravas turcas e da Etiópia, garotas cantotas e vestuário, de modo que a taxa do dinar do ouro caiu por seis dirhans. Tendo apresentado o seu presente, ele partiu com a caravana."

apresentado o seu presente, ele partiu com a caravana." Mesquita de Djinger-ber, em Timbuktu, construída por

Mesquita de Djinger-ber, em Timbuktu, construída por Mansa Musa.

Mansa Musa também gastou sua riqueza em feitos mais duradouros. Ele encomendou o projeto e a construção de uma série de edifícios deslumbrantes, como a construção de mesquitas em Gao e Jenne. Em Niani, ele foi responsável pela construção de uma fantástica cúpula para a realização de audiências. Timbuktu se tornou um local de grande aprendizado com os jovens ligados a Fez, no norte.

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A Mesquita de Djenna Masjid em Timbuktu - Mali

37 A Mesquita de Djenna Masjid em Timbuktu - Mali Outro famoso governante do Mali foi

Outro famoso governante do Mali foi Mansa Suleiman. O menos conhecido deles. O historiador Ibn Khaldun descreve os consideráveis dons que possuía para um sultão. Mas Ibn Battuta critica sua maldade.

5.5.3. O Império do Songhai

A riqueza e o poder de Songhai tiveram origem nos pescadores Sorko, exímios canoístas, que viviam ao longo do Níger, a sudeste de Gao. Por volta do século IX faziam parte de um estado conhecido como Songhai. Eles começaram a desenvolver as relações comerciais com os muçulmanos em Gao, que depois se tornou uma parte do Império Songhai.

Durante o século XIV, o Songhai caiu sob o domínio do Império do Mali, mas os governantes do Mali nunca conseguiram arrecadar impostos do povo de Gao.

No século XV, Songhai subiu à proeminência sob Sonni Ali, o Grande, enquanto o Mali caiu em declínio. Suas forças militares consistiam em uma cavalaria de guerreiros treinados e uma frota de canoas. Grande líder militar, com uma profunda compreensão das táticas em terra e água, tinha a vantagem de ser considerado um líder com poderes mágicos.

A história oral apresenta-o como um herói conquistador. Sonni Ali, o Grande, expandiu o território de Songhai consideravelmente, de modo que se estendia por todo o vale do Níger, a oeste para o Senegal e a leste até Agades (Níger moderno). Permaneceu ligado aos ritos tradicionais da cidade natal de sua mãe, Sokoto (na atual Nigéria). Capturou Timbuktu

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dos Tuaregues e interrompeu a tradição dos estudos religiosos. Sua falta de respeito para com o Islã rendeu-lhe péssimas resenhas de cronistas árabes que o retrataram como cruel e opressivo.

Após a morte de Sonni Ali um de seus generais, Mohammed Ture, tomou o poder em 1493. Ele era um devoto muçulmano de origem Soninke, que estabeleceu a dinastia Askiya. Continuando a expansão do Songhai que Sonni Ali havia começado, ele levou o Império ao seu ápice de poder.

Ao contrário de seu antecessor, todas as suas ações foram guiadas por seu compromisso com o Islã. Seus ataques contra os Mossi tomaram uma dimensão religiosa. Estas jihads (guerras santas) foram um sucesso na frente militar; mas apesar de derrotados, os Mossi recusaram-se a se converter ao Islã.

Mohammed Ture Askiya promoveu o Songhai no mundo muçulmano. Foi à Meca. Visitou o califa do Egito, que por sua vez o fez califa de todo o Sudão. Sudão foi um termo solto para uma grande área na África Subsaariana que engloba o Mali, Chade, o nordeste da Nigéria e o Níger. Em matéria de governo, ele tomou o conselho de três ilustres juristas, ou Cádis. De modo geral, o Governo da dinastia Askiya foi mais centralizado do que o dos Mansas do Mali.

Alguns aspectos da religião tradicional foram preservados, incluindo o tambor sagrado, o fogo sagrado, e as roupas e os penteados. Tal como no Mali, havia uma casta privilegiada de artesãos, e o trabalho escravo desempenhava um papel importante na agricultura. O comércio melhorou sob Mohammed Ture Askiya, com ouro, nozes de cola e escravos sendo o principal produto de exportação. Produtos têxteis, cavalos, sal e artigos de luxo foram os principais produtos importados. Entre 1510 e 1513, o escritor marroquino- espanhol e viajante Leo Africanus visitou Gao, a capital do Songhai. Ele ficou surpreso com a riqueza da classe dominante. Sua visita a Timbuktu o fez tecer a seguinte observação sobre as classes intelectuais e profissionais:

"Aqui há muitos médicos, juízes, sacerdotes e outros homens instruídos, que são bem mantidos às custas do rei. Vários manuscritos e livros são trazidos aqui da Barbárie e vendidos por mais dinheiro do que qualquer outra mercadoria.

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A moeda de Timbuktu é de ouro sem qualquer carimbo ou inscrição, mas em matéria de pequeno valor, eles usam certas conchas trazidas da Pérsia, quatrocentos das quais equivalem a um Ducado e seis peças de suas próprias moedas de ouro, cada uma das quais pesa dois terços de uma onça. "

No final do século XVI o Império Songhai caiu em uma guerra civil. Repetindo o destino de Gana, Mali e Kanem. A riqueza e o poder do Songhai também foram prejudicados por mudanças ambientais, causando secas e doenças. Mas o Songhai poderia ter sobrevivido a tudo isso. O fator decisivo na sua queda foi a determinação dos marroquinos em controlar o comércio de ouro Subsaariano.

As riquezas do império Songhai, sobretudo ouro e sal, acabaram despertando a ambição dos marroquinos, que já em 1584 enviaram uma primeira expedição. A fome e a sede, porém, barraram os soldados invasores. Seis anos depois, tem-se uma nova tentativa. Em 1591 o exército marroquino invadiu o Songhai. Pegos desprevenidos foram derrotados pelo poder de fogo superior do exército marroquino. O Marrocos venceu a guerra, mas perdeu a paz. Os sultões do Marrocos eventualmente perderam o interesse. A guarnição marroquina ficou, mas promoveu saques e pilhagens. O antigo império dividiu-se, com o Reino Bambara de Segu emergindo como uma importante nova força.

5.5.4. Os Reinos do Mundo Iorubá

Antes de mais nada, é preciso esclarecer uma série de equívocos sobre os Iorubá:

a) Os iorubá são um grupo etnolinguístico, com características de etnicidade em comum, que habitavam a região ao noroeste do Rio Níger, na África Ocidental desde o Séc. IV a. C.

b) Eles estão localizados no sudoeste da Nigéria e em parte do Benim (no Reino de Queto). Logo, nem todo nigeriano (ou africano) é ioruba.

c) O termo “iorubá” somente começou a ser usado no séc. XIX pelo Bispo Samuel Ajayi Crowther para denominar todos os falantes daqueles dialetos aparentados. Hoje o termo “iorubá” identifica tanto a língua quanto o povo.

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e) Assim, cada cidade era um Reino e falava com um “sotaque” só seu.

cidade era um R eino e falava com um “sotaque” só seu. 5.5.4.1. O Reino de

5.5.4.1. O Reino de Ifé

Os Reinos do Mundo Iorubá

Na mitologia iorubá, Ifé foi fundada por uma divindade superior, Oduduwa, sob a ordem da divindade suprema Olorum (também conhecido como Olodumare). Oduduwa tornou-se o primeiro governante, ou Oni, de Ifé. E assim, a cidade de Ifé é chama de “umbigo do mundo”.

Sabemos pouco sobre como esses Oni exerciam seu poder ou como seu território era administrado, ou precisamente quando começou a realeza. Sabemos que a paisagem de onde surgiu Ifé (e Benin) se consistia numa mistura de florestas tropicais e de savana, permitindo solos muito férteis e de alta pluviosidade.

Entre 700 e 900 d.C., Ifé começou a desenvolver-se como um importante centro artístico. As pessoas eram muitas vezes representadas com cabeças desproporcionalmente grandes. Isto porque os iorubá acreditavam que o Axé, a força interior e energia de uma pessoa, se localizava na cabeça o que hoje é cientificamente comprovado: a força vital é o cérebro (enquanto na Europa ainda se pensava que a força vital estava no coração).

Nós podemos ver ainda hoje uma espantosa variedade de objetos feitos de bronze, latão, cobre, cerâmica, madeira e marfim. As obras de arte em bronze e terracota criadas por

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esta civilização são significativos exemplos do realismo, precoce na arte Africana. O nível soberbo da qualidade artística de Ifé, na utilização da técnica da "cera perdida", é um método comparável aos melhores exemplos de trabalho em metal na Europa da época Clássica ao Renascimento.

em metal na Europa da época Clássica ao Renascimento. Exemplos da soberba arte de Ifé A
em metal na Europa da época Clássica ao Renascimento. Exemplos da soberba arte de Ifé A

Exemplos da soberba arte de Ifé

A arte de Ifé e do Benin são muito importantes porque uma dá à luz à outra. A arte de

Ifé foi a mais antiga na região de floresta da Nigéria, simplesmente porque a civilização de Ifé

existia desde 300 a 500 a.C. Portanto, havia desenvolvido uma série de artefatos, que marcaram a história de Ifé.

Ifé, mais tarde, deu origem não apenas à arte do Benin, mas também à arte dos Ibo e à arte de Onitsha.

A cidade era uma povoação de tamanho considerável entre os séculos IX e XII, com

casas com calçadas pavimentadas por cacos. Ile-Ifé é mundialmente conhecida por sua arte antiga e naturalista em pedra, bronze e suas esculturas de terracota, que atingiu seu pico de expressão artística entre 1200 e 1400 d.C. Após este período, a produção caiu quando a

supremacia política e econômica passou para o reino vizinho do Benin, que, como o reino iorubá de Oyó, desenvolveu-se em um grande império.

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A dinastia real de Ifé tem mais de 800 anos. O atual Oni é Sua Majestade Imperial

Alayeluwa Oba Okunade Sijuwade, Olubuse II.

5.5.4.2. Reino de Oyó

Ifé era considerado o mais antigo reino do mundo Iorubá. Porém, no século XVII ele foi sobrepujado por Oyó.

Os Alafins de Oyó comandaram este grande império bélico do séc. XIV ao séc. XVIII. Localizada mais ao norte, Oyó teve a vantagem de possuir uma poderosa cavalaria e um exército muito bem treinado e organizado. Subjugaram quase todas as cidades-estado do mundo iorubá além do Reino do Daomé. Tinham também as condições agrícolas propícias para o cultivo de cereais.

No século XVIII, Oyó atingiu o seu auge, em grande parte pelos lucros do comércio de escravizados. Com a abolição da escravatura, o seu poder diminuiu. Hoje Ifé continua a ser considerado como o centro espiritual de todos os iorubá e os Oni de Ifé tem uma influência considerável no país.

5.5.4.3. O Império do Benim

O Império do Benin (1440-1897) foi um estado pré-colonial Africano onde hoje é a

moderna Nigéria. Não deve ser confundido com o moderno país chamado Benin (e anteriormente chamado Daomé).

Os Obás de Benin comandaram este grande império do séc. XIII ao séc. XIX. O Obá tornou-se o poder supremo na região. Obá Ewuare, o primeiro Obá da Era de Ouro, é tido como responsável por tornar a cidade de Benin em uma fortaleza militar protegida por fossos e muralhas. Foi a partir deste baluarte, que lançou suas campanhas militares e iniciou a expansão do seu reino.

O estado desenvolveu uma avançada cultura artística, especialmente em seus famosos

artefatos de ferro, bronze e marfim. Estes incluem placas de parede em bronze e cabeças de bronze em tamanho natural, representando os Obás de Benin.

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43 Máscara de marfim da Rainha Idia (Iyoba ne Esigie – Rainha-Mãe do Obá Esigie). Corte
43 Máscara de marfim da Rainha Idia (Iyoba ne Esigie – Rainha-Mãe do Obá Esigie). Corte

Máscara de marfim da Rainha Idia (Iyoba ne Esigie Rainha-Mãe do Obá Esigie). Corte do Benim séc., XVI

Placa de Bronze de guerreiros do Benin com espadas cerimoniais. Nigéria séc. XVI - XVIII

Exemplo de governo bem estruturado e sofisticado bem antes da interferência européia, é também conhecida pelas suas artes, em especial pelos famosos bronzes de Benin.

Sua capital, em um dos poucos primeiros relatos escritos sobre esse centro de poder e de comércio, dado por um comerciante de escravos Português João Afonso de Aveiro, que foi surpreendido pelo que ele descreveu como a "grande cidade de Benin. Mais de cem anos depois, um visitante holandês a comparou favoravelmente com Amsterdã.

5.6. O Reino do Kongo

O Reino do Kongo (1400 1914) se originou de uma série de pequenas comunidades da Idade do Ferro situadas ao norte da Malebo Pool no rio Congo (ex-Rio Zaire). Esta localização estratégica provia solo fértil, ferro e minério de cobre, uma fonte rica de peixe, e um rio que era navegável por milhares de quilômetros. Floresceu às margens do rio Congo, numa confederação de províncias, sob o comando do Manikongo (o rei; "mani" significa ferreiro, dando uma idéia da importância e do poder espiritual do trabalho com metais).

No início do século XV essas comunidades haviam crescido em riqueza e tamanho para formar uma federação solta centrada em um reino, liderados por um único Manikongo, a quem pagavam impostos regulares.

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Localizava-se na África central ocupando o que é hoje o norte de Angola, a Província de Cabinda, a República do Congo e a parte ocidental da República Democrática do Congo.

Uma ampla gama de artesanato surgiu a partir do Congo e os seus estados clientes:

trabalhos em metal, cerâmica e têxteis, em ráfia, muitos deles praticados exclusivamente pela classe dominante. A expansão do Kongo foi feita menos por conquista militar, e muito mais através do comércio, de alianças e casamentos.

A soberania do Manikongo era exercida através de um número de governadores. Para o oeste e norte ficavam três importantes estados, que eram aliados - Loango, N‟Goyo e Kakongo.

Com o aumento da densidade populacional na região, o abastecimento de alimentos começou a ser superado pela procura. Uma série de expedições foi lançada em busca de novos territórios. Estas eram lideradas por chefes escolhidos pelo Manikongo. Eles partiram para o oeste, nordeste e sul a fim de estabelecer novos postos para o império do Kongo.

Sua capital, Mbanza Kongo, mais tarde rebatizada de São Salvador, era, segundo descrições da época, tão grande quanto as maiores cidades de Portugal. Relatos de 1630 dizem que haveria cerca de 100 mil habitantes na cidade.

dizem que haveria cerca de 100 mil habitantes na cidade. Acima: Audiência com a Família real
dizem que haveria cerca de 100 mil habitantes na cidade. Acima: Audiência com a Família real

Acima: Audiência com a Família real do Reino do Kongo.

Ao lado: mapa do continente africano com destaque para o Reino do Kongo

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O primeiro europeu a chegar à África subsaariana, Diogo Cão, alcançou à foz do Rio Congo em 1843, quando o Reino do Kongo já era o maior reino centralizado da África. Dois anos depois, ele chegou até a capital. O comércio começou de fato entre os Bakongo e os portugueses, e os reis começaram a se corresponder. Foram cristianizados, e mantiveram relações diplomáticas com Portugal.

Gradualmente, o comércio transatlântico de escravos começou a ofuscar a relação entre estes dois impérios, e drenar a região de sua mão de obra.

Os Bakongo tinham uma visão ampla do que eles queriam dos portugueses. Eles estavam interessados em tecidos, cavalos e bens manufaturados, em especial aqueles feitos de metal. Eles também queriam a aquisição de aptidões - as habilidades dos pedreiros e carpinteiros para construir edifícios de estilo europeu, e da educação e da alfabetização, a fim de comunicar-se diretamente com a Europa.

Entretanto, os portugueses, com a cana-de-açúcar do Brasil, passaram a ver o Reino do Kongo como mero fornecedor de escravos. O comércio entre os dois reinos tornou-se rapidamente dominado por esta “mercadoria”, e a relação entre os dois reis, que tinha começado em pé de igualdade, rapidamente tornou-se desigual. Até o final do século XVI uma média anual de 5.000 a 10.000 escravos estavam saindo de Luanda para o Brasil. A aliança do Kongo com Portugal cada vez mais beneficiava apenas um lado: o dos portugueses.

Na segunda metade do séc. XVII, os portugueses encerraram suas investidas ultramarinas. E, apesar de continuarem a se beneficiar do tráfico, começaram a perder o controle sobre a rede de negociação de escravos.

Além dos holandeses, britânicos e franceses, que apareceram em cena no séc. XVII, inúmeras outras comunidades e grupos tiveram acesso à rede de comercialização, tanto à leste quanto à oeste do continente.

Dentre estes muitos grupos independentes, estavam os pombeiros, que adentravam fundo as florestas da África centro-ocidental durante o séc. XVI, inicialmente a mando dos mercadores portugueses da costa.

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Também os Yaka e os Imbangala, que, apesar de suas diferentes origens, eram igualmente adeptos de viver às custas de outras comunidades, saqueando impiedosamente plantações e rebanhos, bem como escravos.

Com a derrota do Reino do Kongo em 1665, os Vili, (do norte do estuário do rio Congo), assumiram um papel comercial mais importante, viajando regularmente os 800 km até Kasanje, um novo e poderoso estado comercial na fronteira com o Reino Lunda.

O mesmo destino atraiu os Ambaquista, uma comunidade de comerciantes de origem

Afro-européia, que habitavam o Vale do Cuanza, ao sul de Luanda.

O tráfico escravista, aos auspícios de Portugal, arruinou econômica e politicamente a

estabilidade do Reino do Kongo. Em última análise, o tráfico arruinou Portugal também, uma

vez que esse pequeno reino europeu deixou-se levar pelas destruidoras correntes do lucro, sem pausa para investimentos.

A brutalidade do tráfico de escravizados teve, mais tarde, seus ecos na África Central

do séc. XIX, pelo regime de trabalho forçado imposto pelos belgas nas suas plantações de borracha na região do Congo.

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6. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE ESCRAVIDÃO E TRÁFICO

A escravidão entra na história humana com a civilização. Pode-se dizer que a escravidão seja um produto da civilização.

Caçadores-coletores e agricultores primitivos não tinham utilidade para um escravo. Eles coletam ou cultivam apenas comida suficiente para si. Mais um par de mãos é mais uma boca. Não havia vantagem econômica em possuir um outro ser humano.

A escravidão, como instituição e prática sociocultural e político-econômica, tem tido similaridade ao longo da história dos diferentes dos povos, mas não podemos confundir seus processos distintos. Nesse sentido, não podemos falar em escravidão, mas em escravidões (MELTZER, 2004; MEILLASSOUX, 1995).

Uma vez que as pessoas se reúnem nas vilas e cidades, um excedente de alimentos criado no campo (hoje, muitas vezes, em grandes propriedades) torna possível um amplo leque de profissões na cidade. Em uma grande fazenda ou numa oficina há um benefício real numa fonte confiável de mão de obra barata, custando não mais do que o mínimo de alimentação e alojamento. Estas são as condições para a escravidão. Cada uma das antigas civilizações usava escravos. E era fácil adquiri-los.

Mercadores de escravos analisando os dentes da escrava, por Jean-Léon Gérôme

usava escravos. E era fácil adquiri-los. Mercadores de escravos analisando os dentes da escrava, por Jean-Léon

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A guerra era a principal fonte de abastecimento, e as guerras eram freqüentes e brutais em civilizações antigas. Quando uma cidade caia frente a um exército hostil, era normal levar à escravidão os habitantes que seriam trabalhadores úteis e matar o resto.

Existem várias outras maneiras pelas quais os escravos eram adquiridos. Piratas ofereciam seus cativos à venda. Um criminoso podia ser condenado à escravidão. Uma dívida impagável podia trazer o fim da liberdade. Os pobres vendiam seus próprios filhos. E os filhos de escravos eram escravos também por serem uma fonte barata de mão de obra disponível através da guerra, muitos proprietários não permitiam que seus escravos pudessem formar uma família.

A escravidão estava presente em todo o mundo “civilizado”, do antigo Egito, aos gregos e romanos.

De todo modo, a escravidão é reinventada entre os africanos, adquirindo contornos únicos e características próprias e mesmo circunscrita no continente, apresenta diferentes funções, como variável de ambientes pastoris, agrícolas ou urbanos (SILVA, 2002, pp.80-82). Em geral, podem-se destacar algumas funções elementares presentes de modo isolado ou combinado nas formações sociais escravocratas, a saber, a função política (utilização militar ou na administração), social (papel doméstico e sexual) e econômica (utilização na produção de bens) (LOVEJOY, 2002, p.39).

A escravidão era comum a diversos povos africanos e estava inserida em seu cotidiano, cultura e costumes.

Entretanto, apesar de na África já existir o sistema de escravidão, o indivíduo não era escravo. Ele estava na condição de escravo, condição essa que se dava de diversas formas:

devido a guerras, dívidas ou punições, entre outras.

O cativo na África tinha como finalidade a obtenção de recursos materiais, sobre ele se definiam status sociais e políticos. Ele exercia trabalhos para outros, como em outras sociedades em que o sistema e instituição vieram a existir ao longo do tempo. O cativo da casa, da terra vivia sob domínio familiar. Entretanto:

Um escravo podia casar-se; ter propriedade; ele mesmo possuir um escravo; prestar juramento; ser testemunha competente; e por fim

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em poucas palavras, eram estes

os direitos de um escravo Ashanti. Em muitos casos pareciam

praticamente os mesmos privilégios normais de um homem livre

Ashanti. [

tornavam-se membros adotados da família; e logo seus descendentes se misturavam e se casavam com parentes do proprietário, de modo que só alguns conheciam sua origem. (MELTZER, 2004, p. 235-236).

Nove de cada dez escravos Ashanti possivelmente

torna-rse herdeiro de seu senhor. [

]

]

A partir de 1518, os portugueses, apoiados pela Igreja Católica Apostólica Romana, ampliaram o tráfico de africanos escravizados para as colônias espanholas, em particular paras as ilhas Canárias e para as Américas (TORRÃO, 1997, p. 203-222; ALENCASTRO, 2000), sendo seguidos por franceses, belgas, ingleses, dinamarqueses e holandeses nesta tarefa comercial, financiada pelas coroas reais européias (CHIAVENATO, 1986; MELTZER, 2004), bem como para abastecer as suas recentes colônias implantadas na América espanhola, sobretudo nas pequenas ilhas do mar do Caribe. “As bases portuguesas deslocaram-se para as ilhas de Cabo Verde, enquanto franceses e britânicos faziam o tráfico em Goréia 5 (Ilha de Gorée), perto do que hoje é Dacar” (MELTZER, 2004, p. 242), no Senegal.

que hoje é Dacar” (MELTZER, 2004, p. 242), no Senegal. Ilha de Gorée (Goréia): mapa de

Ilha de Gorée (Goréia): mapa de 1772

p. 242), no Senegal. Ilha de Gorée (Goréia): mapa de 1772 Ilha de Gorée (Goréia): Forte

Ilha de Gorée (Goréia): Forte d‟Estrées, atual Museu Histórico do Senegal

5 A Ilha de Gorée (pronuncia-se Gore) foi, entre os séculos XV e XIX, um dos maiores centros de comércio de escravos do continente, a partir de uma feitoria fundada pelos Portugueses. Esse entreposto foi, ao longo dos séculos, conquistado e administrado por Holandeses, Ingleses e Franceses. A sua arquitetura é caracterizada pelo contraste entre as sombrias casernas dos escravos e as elegantes mansões dos seus mercadores. Gorée, classificada em 1978 como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, é um símbolo da exploração humana e uma escola para as gerações atuais, com grande importância para a Diáspora africana.

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50 A “Porta da Viagem sem Retorno”, de onde eram embarcados os escravizados com destino às

A “Porta da Viagem sem Retorno”, de onde eram embarcados os escravizados com destino às Américas. Ilha de Gorée (Goréia):

Forte d‟Estrées.

às Américas. Ilha de Gorée (Goréia): Forte d‟Estrées. Vista aérea da Ilha de Gorée, com o

Vista aérea da Ilha de Gorée, com o Forte d‟Estrées.

A maioria dos africanos escravizados foi trazida da costa Atlântica da África. Nesta

parte do continente, os europeus tinham uma faixa de cinco mil quilômetros, do Senegal, ao

norte, até Angola, ao sul, de onde retiravam sua “mercadoria”.

O tráfico de escravizados em direção à Bahia pode ser dividido em quatro períodos:

1º. O ciclo da Guiné durante a segunda metade do século XVI; 2º. O ciclo de Angola e do Congo no século XVII; 3º. O ciclo da Costa da Mina durante os três primeiros quartos do século XVIII; 4º. O ciclo da Baía de Benin entre 1770 e 1850, estando incluído aí o período do tráfico clandestino.

A chegada dos daomeanos (jejes) ocorreu nos dois últimos períodos. A dos nagô-

iorubás corresponde, sobretudo, ao último. A forte predominância dos iorubás na Bahia, de seus usos e costumes, seria explicável pela vinda maciça desse povo no último dos ciclos. (VERGER, 1987).

Os africanos escravizados para o Brasil, como em outras partes do mundo, eram detentores de excelentes capacidades físicas, mentais, produtivas e reprodutivas. Os traficantes não traziam velhos, mulheres grávidas e portadores de deficiências; crianças eram casos raros no tráfico. Eles visavam obter cada vez mais lucros, ocupavam todos os espaços disponíveis nas médias e grandes navegações.

Os navios negreiros ou tumbeiros, que transportavam os escravizados, eram assim chamados por serem mais parecidos com tumbas, que foram, sim, de muitos. Carregavam 500

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a 600 "peças", que era como se denominavam os escravizados. Uma “peça” equivalia a “escravo de primeira qualidade”, homens jovens entre 18 e 24 anos, de mais ou menos 6 pés (1,80 m.) de altura e sem nenhum defeito físico. Mulheres, velhos, crianças e os que não preenchiam os requisitos ideiais eram considerados como “frações” da peça.

Diagrama de um navio negreiro, também chamado “tumbeiro” (à semelhança de uma tumba).

chamado “tumbeiro” (à se melhança de uma tumba). Detalhe do diagrama de um navio negreiro O
chamado “tumbeiro” (à se melhança de uma tumba). Detalhe do diagrama de um navio negreiro O

Detalhe do diagrama de um navio negreiro

O tráfico de escravizados da África para o Brasil, por menos que se queira, faz parte da nossa história. Mesmo que se tente esquecer ou esconder como fez Rui Barbosa quando mandou queimar a documentação existente sobre escravidão no Brasil não se pode ignorar sua existência. Conhecer o tráfico e o comércio de escravizados no Brasil é entender um pouco a insofismável contribuição dos africanos na formação da cultura brasileira.

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6.1. As Rotas do Tráfico

Muito antes dos europeus iniciarem o tráfico triangular com as Américas, os comerciantes árabes já negociavam com reis africanos escravizados que eram levados para a Europa, Ásia e Oriente Médio, através do que ficou conhecida coma a Rota Trans-saariana.

Os africanos estiveram presentes em todas as regiões da Terra em eras históricas remotas, mas não como escravizados. Essa condição social nova para os africanos deu-se, sobretudo, no início do século 15, com as expansões européia e islâmica em grande parte da África ocidental e oriental, já que os muçulmanos estavam presentes na região que envolve o Maghreb (Marrocos, Tunísia, Líbia e Argélia), no norte da África, desde o século 5 e espalharam-se pelo Oriente e Ocidente africanos. Claude Meillassoux (1995, p. 54-5) informa:

Desde antes do tráfico atlântico, os escravos negros eram enviados ao Maghreb, ao Oriente Próximo e ao Médio, à Turquia, e mesmo às Índias Encontram-se vestígios deles nas Europa e na Sicília. O tráfico europeu os jogou em todo o continente americano, nas Antilhas e ainda na Europa.

Quando, no século 19, desenvolveu-se o tráfico interafricano tropical, o deslocamento dos cativos, apesar de não existir mais escoamento

] o destino

final dos escravos exportados da África, assume dimensões

para eles fora do continente, permaneceu considerável. [

planetárias.

Os africanos escravizados eram oriundos de diversas regiões do continente africano. Muito embora os estudos atuais ainda se concentrem principalmente na África atlântica, pode- se afirmar que a escravização moderna propiciou o aumento vertiginoso das migrações compulsórias e transplantações populacionais em outros continentes. Esse processo em grande escala inaugura uma nova etapa da subordinação, da expropriação e exploração humanas no bojo desta modernidade imposta pelo Ocidente europeu (MELTZER, 2004, GILROY, 2001).

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53 O tráfico interno em África atualmente tem sido mantido pelos islâmicos, sobretudo utilizando a Mauritânia

O tráfico interno em África atualmente tem sido mantido pelos islâmicos, sobretudo utilizando a Mauritânia 6 como fonte deste processo social, vindo a envolver outras áreas e etnias-nacionais deste vasto continente. O que se observa entre os traficantes árabes é que eles mantiveram o cuidado de não esvaziar ou matar os lugares-fonte de seu pérfido comércio, de modo a diversificarem as suas incursões guerreiras e saques em diferentes grupos étnico- nacionais não islamizados, os pagãos ou infiéis, de modo a “não comprometer a reprodução das populações” escravizadas (MEILLASSOUX, 1995, p. 56).

6 A escravidão na Mauritânia legalmente não existe desde a independência, em 1961. De lá para cá, ela foi posta como uma prática ilegal por três vezes. A última delas em 1981, no entanto, ela é uma lei que não pega. A lei não foi regulamentada e os juízes dizem que não podem implementá-la. O governo diz que busca sua eliminação, mas ela está enraizada na cultura do país. Nesse país africano, a vida mudou muito pouco desde a chegada e disseminação do islamismo pelos árabes e berberes acerca de 500 anos atrás. As etnias de pele mais escuras e aqueles que não aceitaram o islamismo foram escravizados. Até hoje, seus descendentes não conhecem outra realidade. “Deus me criou para ser escrava, da mesma forma que criou o camelo para ser camelo”, declarou a mauritana Fatma Mint Mamadou, entrevistada no mês passado por um repórter do jornal The New York Times. Fatma fugiu em 1992 de seu dono, Sidi M‟Hamed Ould Hamadi, fazendeiro empobrecido da província de Brakna, no centro da Mauritânia. Ver http://veja.abril.com.br/121197/p_049.html matéria na íntegra.

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6.2. O Tráfico Banto

54 6.2. O Tráfico Banto O ciclo da cana-de-açúcar iniciado no Brasil na década de 1550

O ciclo da cana-de-açúcar iniciado no Brasil na década de 1550 teve a participação de africanos aportados em Cabo Verde, mas de pertencentes a diferentes grupos étnico- nacionais; os principais contribuidores, neste momento econômico brasileiro, foram os africanos de origem banto, chegados das regiões do Antigo Reino do Kongo, correspondentes aos atuais países de Angola, Moçambique e República Democrática do Congo. Esses bantos beneficiaram intensamente mente a agricultura no Brasil, tanto que Maestri Filho (1984, p. 10) diz: “Nos primeiros séculos da Era Cristã, em vastas regiões da África ao sul do Saara, comunidades negras praticavam uma agricultura itinerante assentada sobre a metalurgia do ferro, conheciam o pastoreio, exerciam um artesanato crescentemente refinado”.

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6.3. O Tráfico Mina-Jeje

55 6.3. O Tráfico Mina-Jeje Com o fim do ciclo da cana-de-açúcar, a produção da mineração

Com o fim do ciclo da cana-de-açúcar, a produção da mineração iniciou um novo ciclo. Para tanto, buscou-se um novo contingente populacional africano, mais afeito às tecnologias de extração mineral. A economia canavieira decaiu, mas houve, sobretudo, a concentração da mineração, pois com esta a Coroa conseguiria mais recursos e impostos. A mineração trouxe muitos portugueses para o Brasil com o nítido sentido de enriquecerem rapidamente. O ciclo da extração mineral ocorreu nos atuais estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul, fazendo que o Brasil tivesse um aumento três vezes superior de africanos escravizados da história em um período econômico. Esses escravizados agora vinham também da “Costa da Mina”, na África Ocidental, e eram das etnias mina-jeje.

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6.4. Tráfico Iorubá Hauçá

56 6.4. Tráfico Iorubá – Hauçá A decadência da mineração propiciou novos investimentos na economia canavieira

A decadência da mineração propiciou novos investimentos na economia canavieira do Nordeste, fazendo com que outros grupos étnico-nacionais, particularmente os oeste- africanos, fossem traficados para o Brasil no final do século 17. Isso produziu um conjunto de rebeliões, sobretudo no século 19, nesta região do País, entre as quais as Revolta dos Malês, em 1817 e em 1835. Esta última a maior revolta urbana da história brasileira (VERGER, 1987; RODRIGUES, 1988).

Esses escravizados foram trazidos do mundo Iorubá, no sudoeste da atual Nigéria e do Reino de Queto (Ketu), no Benim. Também foram trazidos os islamizados hauçás, do norte da Nigéria.

Essa leva final de escravizados veio essencialmente para os centros urbanos, onde se concentraram, deixando marcas mais evidentes e frescas, o que levou muitos pesquisadores a pensar que haveria uma “supremacia” iorubá sobre outras etnias, mais antigas e bem mais arraigadas na formação da cultura brasileira.

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7. OS AFRICANOS ESCRAVIZADOS E A FORMAÇÃO DO BRASIL

O tráfico de povos africanos empreendido por europeus iniciou-se em meados do século XV, quando foram levados para Portugal, para atender às demandas sociais e econômicas existentes naquele país e nas ilhas de Açores e Madeira. Essa prática escravista teve o aval do papa Nicolau V, que, em 1454, assinou a bula Romanus Pontifex. Mas, desde 1444, os lusos já praticavam esse tipo de comércio. Nesse ano, “a primeira grande expedição que os portugueses mandaram à África, com o fim único de capturar escravos, foi chefiada pelo famoso Lançarote de Freitas, partindo de Lagos onde se fundou uma companhia especialmente para „prear negros‟” (CHIAVENATO, 1986, p. 46).

Muitos desses africanos transplantados para Portugal e suas ilhas, inclusive nas colônias de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, originários da Guiné, foram os primeiros a aportar no Brasil, por volta de 1530, indo para o plantio da cana-de-açúcar já existente no Mediterrâneo e nas ilhas ibéricas (MILLER, 1997, p. 21-40). Portugal, com essa investida sobre a nova colônia brasileira, trazia para cá uma população que conhecia a tecnologia agrícola da cana-de-açúcar.

O cultivo da terra já era conhecido pelos africanos antes de irem para Portugal. Diz, neste particular, E. Genovese (apud CHIAVENATO, 1986, p. 49):

Os povos do Oeste africano tinham, indubitavelmente, sistemas agrícolas bem desenvolvidos. Os Daomés tinham até mesmo um sistema de plantation; todos esses povos Daomés, Ashanti, Yoruba, para mencionar apenas alguns dos mais proeminentes tinham um sistema de comércio cuidadosamente regulamentado; existia grande número de ligas artesanais.

Estes povos eram agricultores, pastores e mineradores e tinham técnicas mais avançadas do que os lusos, sendo hábeis na arte e no conhecimento da metalurgia e da siderurgia. Os iorubas, que já trabalhavam o cobre e o estanho quando foram contatados pelos lusos, também legaram este conhecimento ao Brasil. Os portugueses vieram a conhecer a enxada de ferro com os ganenses e os nigerianos. Segundo S. Diamond (apud CHIAVENATO, 1986, p. 49), “as enxadas de ferro eram, é claro, essenciais à economia de Daomé, e eram talvez os produtos mais importantes manufaturados no jovem Estado. Assim, pois, os ferreiros eram reverenciados pelo povo, assim como os bons artesãos”.

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Os africanos no Brasil foram trazidos a partir das necessidades portuguesas no sentido de ampliar o plantio e a comercialização de cana-de-açúcar para consumo interno e para exportação, bem como pela visualização de que o tráfico atlântico era extremamente lucrativo. Vale frisar que a mão-de-obra indígena foi substituída pela africana devido à deficiência orgânica daquela 7 ; além disso, o tráfico era bastante lucrativo para os portugueses e para a Igreja Católica. Foram “17 peças de escravizados” africanos que aportaram no Brasil, segundo os registros históricos em 1533, com Pero de Góis. Em 1539, eles foram trazidos por solicitação de Duarte Coelho, donatário da capitania de Pernambuco, e vieram de Guiné.

Regiões de Concentração do Tráfico

e vieram de Guiné. Regiões de Concentração do Tráfico ÁFRICA OCIDENTAL (Línguas Gbe) 1. GANA 2.
ÁFRICA OCIDENTAL (Línguas Gbe) 1. GANA 2. TOGO 3. BENIM (Língua Iorubá) 4. NIGÉRIA ÁFRICA
ÁFRICA OCIDENTAL
(Línguas Gbe)
1. GANA
2. TOGO
3. BENIM
(Língua Iorubá)
4. NIGÉRIA
ÁFRICA BANTO
5. GABÃO
6. CONGO-BRAZZAVILLE
7. CONGO-KINSHASA
8. ANGOLA
9. MOÇAMBIQUE

As feitorias lusas, ao longo do litoral africano, já tinham elaborado o perfil social, produtivo e tecnológico de cada uma das etnias africanas com que tiveram contato ao longo do final de século 15 e dos séculos 16 e 17. Tais feitorias foram utilizadas segundo interesses econômicos e tático-estratégicos. Os missionários católicos também forneceram diversas informações importantes para a Coroa Lusa. Assim, a cada ciclo econômico em alta, eram trazidos escravizados cujos conhecimentos e técnicas fossem os mais apropriados para a produção ou o serviço.

7 Nos primeiros séculos do contato com os lusos e espanhóis, as nações ameríndias foram quase dizimadas pela carência de anticorpos, que as levou a morbidade e mortalidade em massa.

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As dificuldades da economia agrária nordestina, pautada pela cana-de-açúcar, e a ascensão do cultivo do café no Rio de Janeiro (Baixada Fluminense) e em São Paulo (vale do Paraíba) possibilitaram que muitos afrobrasileiros de Minas Gerais e do Nordeste e outros africanos, oriundos de Angola e Moçambique, fossem trabalhar na lavoura cafeeira. Era compreensível que isso ocorresse, visto que o café assumia a liderança das exportações brasileiras após a década de 1830, sendo responsável pelo deslocamento dos centros de decisão do País para o Rio de Janeiro e São Paulo.

Em poucas décadas, a cultura cafeeira produziu a maior concentração regional de escravizados no Brasil, expandindo-se em áreas até então esparsamente povoadas na província de São Paulo. Os lucros do café, em São Paulo, favoreceram os interesses econômicos e políticos de pequenos e médios fazendeiros, os quais, formados dentro de uma concepção burguesa e liberal européia, fortaleceram a luta pelo fim do escravismo, com seu apoio à proposta da mão-de-obra livre e assalariada exercida pelos imigrantes europeus.

Antes do fim da escravidão, São Paulo já usava o trabalho livre dos imigrantes europeus em regime de parceria ou de colonato. Essa conformação econômica e populacional fez de São Paulo uma “província estrangeira”. Essa realidade paulista foi maximizada pelas províncias do sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), que receberam uma grande quantidade de mão-de-obra européia. Destacam-se nesse fluxo os alemães e italianos, envolvidos em guerras de unificação territorial na Europa.

Com a chegada desses e outros europeus, a população africana escravizada de origem banta, proveniente do tráfico interno, pelo litoral, e também pelo rio da Prata (oriundos da região meridional da África, via Argentina e Uruguai), consolidou a rica e próspera economia exportadora do charque nas estâncias gaúchas (CARDOSO, 1991).

Após a abolição legal da escravatura e com o advento da República, o processo de europeização avançou nas regiões Sudeste e Sul do País. Os africanos e seus descendentes foram marginalizados do mercado de trabalho ascendente que emergiu com a crescente urbanização e industrialização.

Desde o século 16, os africanos, com todo o sofrimento, as hostilidades e as adversidades perpetradas pela violência institucional patrocinada pelo sistema da escravidão e

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pelos escravizadores que se instalaram no Brasil, ainda assim construíram a Civilização Brasileira e, eles sim os africanos, colonizaram esta sociedade.

Foram suores negros que plantaram e colherem, mineraram e extraíram, tangeram e manejaram as riquezas dessa terra. Foram mãos negras que cozinharam, com dendê e pimenta, o sustento de senhores e escravizados. Foram seios negros que nutriram e desenvolveram os filhos do Brasil Colônia. Foram vozes negras que ensinaram às crianças e sinhazinhas suas músicas, estórias, jogos, mitos, crenças e modos de falar.

Foram essas mais de quatro milhões de almas, que, arrancadas de suas terras, famílias, bens e sonhos, conseguindo sobreviver à mais cruel das travessias, amontoadas como animais em porões fétidos, vendidas como mercadoria e usadas como ferramentas; foram essas pessoas, extirpadas de tudo o que era material, trouxeram, em seus corações e mentes, conhecimentos, habilidades, artes, filosofias, crenças e línguas que se tornaram a base mais consistente e influente na formação do povo brasileiro, de sua cultura e sua linguagem.

61

8.

A

BRASILEIRA

PALAVRA

AFRICANA

NA

CONFORMAÇÃO

DA

ETNICIDADE

Conforme a documentação histórica existente sobre o tráfico transatlântico e dados de

pesquisa obtidos no estudo da identificação dos aportes africanos no Brasil, as línguas do

grupo banto foram majoritárias em território brasileiro sob regime colonial e escravista.

Destacaram-se entre elas, três línguas litorâneas:

- Quicongo, no Congo-Brazzaville, Congo-Kinshasa e norte de Angola, numa área

geográfica correspondente ao antigo reino do Congo,

- Quimbundo, na região central de Angola e Luanda, nos limites do antigo reino de

Ndongo,

- Umbundo corrente na região do antigo reino de Benguela no sudoeste de Angola.

É preciso notar que essa relativa predominância pode ser decorrente da limitação das

informações bibliográficas disponíveis até agora entre nós, o que determinou a concentração

das pesquisas nas principais línguas faladas na costa atlântica do Congo e de Angola. Por sua

vez, essas línguas podem ter sido as mais impressivas durante o regime escravocrata no

Brasil, em conseqüência do número majoritário e/ou do prestígio sociológico nas senzalas e

plantações de um certo grupo etnolinguístico ante vários outros.

Das línguas oeste-africanas, as que se mostraram mais importantes são as faladas no

Golfo do Benim. Seus principais representantes no Brasil foram os povos do grupo ewe-fon

ou gbe, apelidados de minas ou jejes pelo tráfico, e os iorubás concentrados no sudoeste da

Nigéria (ijexás, oiós, ifés, ondôs, etc.) e no antigo Reino de Queto (Ketu), no Benim atual,

onde são chamados de nagôs, denominação pela qual os iorubás ficaram tradicionalmente

conhecidos no Brasil.

O ewe-fon ou gbe engloba um conjunto de línguas (mina, ewe, gun, fon, mahi, etc.)

tipologicamente muito parecidas, correntes em territórios de Gana, Togo e Benim. Entre elas,

a língua fon, numericamente majoritária na região, é falada pelos fons ou daomeanos

originários do planalto central de Abomé, capital do antigo Reino do Daomé, situado em

territórios da atual República do Benim.

Calcula-se que quatro a cinco milhões de indivíduos foram transplantados da África

subsaariana para substituir o trabalho escravo ameríndio no Brasil. Este desumano

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acontecimento provocou, durante três séculos seguidos, uma densidade populacional de negros e afrodescendentes superior ao número de portugueses e outros europeus. Por exemplo, o censo demográfico de 1823 apontava 75% de negros e mestiços no total da população brasileira naquele momento. Então, por que as línguas negro-africanas não são mais faladas no Brasil se, por três séculos consecutivos, seus falantes foram numericamente superiores ao contingente de falantes portugueses na colônia sul-americana? Essa é uma pergunta intrigante que ainda não foi devidamente cuidada pela historiografia brasileira, por razões de ordem histórica e epistemológica.

Em fins do séc. XVII, em 1697, é publicada, em Lisboa, a arte da língua
Em fins do séc. XVII, em 1697, é publicada, em Lisboa, a arte da língua de Angola,
escrita na Bahia pelo missionário Pedro Dias. É a mais antiga gramática de uma língua banto,
elaborada para uso dos jesuítas, com o objetivo de facilitar a doutrinação dos “25.000 etíopes”
(segundo o padre Antônio Vieira) que se encontravam na cidade do Salvador e não falavam
português.
ATIVIDADE PRINCIPAL
SÉCULO DE INTRODUÇÃO MACIÇA
XVI
XVII
XVIII
XIX
Agricultura
B
B/J
B/J/N
B/J/N
Mineração
B/J
Serviços urbanos
B/J/N/H

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No século seguinte, de 1731 a 1741, Antonio da Costa Peixoto registra em Vila Rica a língua geral da Mina, um falar, com base ewe-fon ou jeje-mina, de línguas oeste-africanas, do Togo e do Benim, que era corrente entre a escravaria local. Trata-se do documento linguístico mais importante do tempo da escravidão no Brasil. Foi escrito como mais um instrumento de opressão, pois Costa Peixoto confessa que seu objetivo era fornecer aos senhores dos garimpos meios de entender aquele falar para coibir revoltas, roubos, assassinatos, contrabandos e fugas.

Já no século 19, na última fase do tráfico transatlântico, quando esse foi intensificado entre os portos da Bahia e do Golfo do Benim, Nina Rodrigues, em Os africanos no Brasil, registra uma dezena de palavras de cinco línguas faladas naquela região (tapa, grunce, fulani, jeje-mahi, hauçá), de que ainda se lembravam alguns de seus falantes na cidade do Salvador Não chegou a fazer o mesmo com falantes do grupo banto e com a maioria falante de iorubá que ali se encontrava, oriunda do sudoeste da Nigéria e do Reino de Queto, no Benim. Também não o fez para o que denominou de dialeto nagô, segundo ele, uma espécie de patuá abastardado do português com línguas africanas, que era corrente entre a população negra e mestiça daquela cidade, à sua época, últimas décadas do século 19. Não se tratava, pois, da língua iorubá como muitos se deixaram confundir em razão de essa língua ser tradicionalmente apelidada no Brasil de nagô, de acordo com a denominação que toma no Reino de Queto.

Com exceção do hauçá, do grupo afro-asiático, de introdução tardia e de falantes minoritários localizados na cidade do Salvador, todas essas línguas são línguas aparentadas. Pertencem à grande família lingüística Níger Congo.

A constatação desse fato contradiz a afirmação corrente de que, no Brasil, é um mito insustentável falar-se de um substrato comum africano, o que seria equivalente a negar a possibilidade de ter havido uma família de línguas indo-européias Por esse mesmo equívoco, a estratégia de se mesclarem nas senzalas negros trazidos de diferentes regiões subsaarianas, para dificultar a comunicação entre eles, provou ser ineficaz. Rebeliões não deixaram de eclodir em todos os tempos e em diferentes lugares. Ignorava-se o fato de que o negro africano é necessariamente poliglota, fala a sua língua materna e a língua dos seus vizinhos, em razão, entre outras, do comércio mantido entre eles e de casamentos exogâmicos.

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Por sua vez, nas senzalas predominaram falantes de línguas do Congo e de Angola, principalmente de três línguas muito semelhantes, quimbundo, quicongo e umbundo, o que naturalmente facilitava a comunicação entre eles, dando lugar, podemos supor, à emergência de falares afro-brasileiros de base banto que se estenderam das senzalas às plantações, aos engenhos, às minas e aos quilombos”. (PESSOA DE CASTRO, 2005)

Já no século 19, quando o Brasil começava a passar por um processo de desenvolvimento urbano, a concentração de iorubás na cidade do Salvador deu origem ao dialeto nagô aludido por Rodrigues. Supomos que fosse um falar do português popular lexicalizado pelas línguas negro-africanas, principalmente pela introdução de um sistema vocabular de aspectos religiosos, proveniente da formação do modelo urbano de estrutura conventual jeje-nagô do candomblé da Bahia, que se organizou em meados daquele século.

Depois de mais de três séculos de contato direto e permanente de falantes africanos com a língua portuguesa no Brasil, as línguas negro-africanas terminaram por ser incorporadas pelo português, em razão das semelhanças casuais, mas notáveis entre a estrutura lingüística das línguas do grupo banto com a do português antigo e regional. Essa proximidade relativa precipitou a deriva interna da língua portuguesa e proporcionou, entre outras coisas, a continuidade do tipo prosódico de base vocálica do português antigo na modalidade brasileira, afastando-a do português de Portugal, de pronúncia muito consonantal.

Esse processo foi apoiado por fatores de ordem extralingüística (prestígio literário, social e econômico da língua do colonizador) e alimentado, a partir do final do século 18, por uma população majoritária de crioulos e mestiços, já nascidos no Brasil, por conseguinte mais desligados de sentimentos nativistas em relação à África, falando português como primeira língua e identificando-se com os padrões coloniais europeus então vigentes.

Diante dessas circunstâncias e uma vez que a língua substancia o espaço da identidade como instrumento de circulação de idéias e de informação, as línguas negro-africanas no Brasil, como uma forma de resistência e continuidade étnico-cultural do grupo, ficaram resguardadas por sistemas lexicais que se encontram na linguagem religiosa afro-brasileira, e, dispondo de um vocabulário menos rico, em falares especiais de comunidades quilombolas, como os que se encontram no Cafundó, São Paulo, e Tabatinga, Minas Gerais. São marcas lexicais portadoras de elementos culturais que terminam por ser apropriadas pelo português brasileiro na medida em que passam a ser compartilhadas por toda a sociedade através

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principalmente da sua divulgação pela mídia, a exemplo da palavra axé, os fundamentos sagrados dos terreiros, que passou a denominar um tipo de música criada na Bahia nos anos

1990.

Entre as centenas de exemplos que transitam livremente em todas as camadas da sociedade brasileira, a maioria é de base banto, de línguas faladas no Congo e em Angola, inteiramente integradas ao sistema lingüístico do português, o que demonstra uma antiguidade maior, algumas delas, como calundu, quilombo, já registradas no séc. 17 na poesia de Gregório de Mattos e Guerra. Entre elas, mocotó, moqueca, quiabo, muvuca, caçula, cochilar, xingar, bunda, corcunda, quitanda, dendê, maxixe, cachaça, tanga, canga, cachimbo, sunga, samba, caxumba, candomblé, umbanda, macumba Já no campo religioso, predominam palavras de introdução mais recente, provenientes de línguas do Golfo do Benim, principalmente iorubá e fon, o que resulta da divulgação pela literatura especializada, inclusive em língua estrangeira, dos proeminentes candomblés de tradição nagô-queto na cidade do Salvador, cuja fundação se deu entre o final do século 18 e a segunda metade do século 19.

Exemplos de palavras de origem banto de uso corrente no português do Brasil

Banto / Português do Brasil

Português de Portugal

corcunda

giba

moringa

bilha

xingar

insultar

cochilar

dormitar

marimbondo

vespa

carimbo

sinete

cachaça

aguardente

molambo

trapo

caçula

benjamim

dendê

óleo-de-palma

Finalmente, a partir de uma reorientação metodológica que dá visibilidade e voz aos falantes negro-africanos como partícipes que foram da construção da Língua Portuguesa no Brasil, chegamos necessariamente a concluir que o Português Brasileiro descende de três famílias lingüísticas:

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• a família Indo-Européia, que teve origem entre a Europa e a Ásia, representada pela língua portuguesa;

• a família das línguas Tupi, que se espalha pela América do Sul, representadas por todas as línguas indígenas faladas especialmente nas costas do Brasil;

• a família Níger-Congo, que teve origem na África subsaariana e se expandiu por grande parte desse continente, em particular o grupo de línguas banto e as línguas originárias do Golfo da Guiné, Baía de Benim, na África Ocidental.

Conseqüentemente, povos indígenas e povos negros, ambos marcaram profundamente a cultura do colonizador português que se estabeleceu no Brasil, dando origem a uma nova variação brasileira e mestiça da língua portuguesa.

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